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Fome Assassina
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E-book258 páginas3 horas

Fome Assassina

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Sobre este e-book

Sabine sabe que é um ser imortal, mas por não possuir memórias antigas desconhece a idade que tem. Desconfia, não obstante, que vive há milhares de anos. Ela anota os seus sonhos em diários secretos pois são esses sonhos que lhe fornecem informação sobre a sua identidade há muito esquecida. Sabine é um ser imortal cuja fome a impele ao consumo de seres humanos. É, aliás, assim que consegue sobreviver. Além de si, Sabine conhece apenas mais outro imortal: Castro. Costuma questioná-lo sobre o que eles são, a sua raça e a origem dela, porém Castro nunca responde. Sabine alberga a desconfiança de que ele sabe mais do que conta e que nunca partilhará com ela o que sabe. Um dia capturam-na e ela está em risco de morrer quando alguém a ajuda. Quem será esta pessoa? E quais são exactamente as suas intenções?

IdiomaPortuguês
Data de lançamento20 de fev. de 2013
ISBN9781301369492
Fome Assassina
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Autor

Ágata Ramos Simões

Colaborou na tradução japonesa das obras “Todos os Nomes” e “A Caverna” de José Saramago.Representada com três poemas na colectânea de poesia contemporânea portuguesa, “Ventana A La Nueva Poesía Portuguesa”, editada no México pela Ediciones Desierto.Escreveu “Lisboa singular”, livro infanto-juvenil, publicado em português por uma editora francesa (Éditions 00h00).Teve uma participação no Salão do Livro em Paris, entre os dias 16 e 21 de Março de 2001, convidada pela editora Éditions 00h00.Ganhou o 1o prémio no concurso literário “António Mendes Moreira” da Câmara Municipal de Paredes com o manuscrito “À Procura de um Livro” e ganhou igualmente o 1o prémio ex-aequo no concurso literário Orlando Gonçalves da Câmara Municipal da Amadora com o mesmo manuscrito.No princípio de 2006 foi publicada a obra "Sr. Bentley, o Enraba-Passarinhos" pela editora Saída de Emergência.Participou no DN Jovem durante alguns anos.

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    Fome Assassina - Ágata Ramos Simões

    Sou a Sabine. Sei que sou imortal. Na maior parte dos dias é tudo quanto recordo de mim. Que sou imortal. Mas a imortalidade tem um custo demasiado grande. Para os outros, os mortais comuns, talvez lhes pareça (ou lhes parecesse se soubessem) um preço demasiado elevado, mas a mim, que o faço há tanto tempo, é o valor aceitável.

    Eu bebo sangue, mas não sou vampira. Faço mais que limitar-me ao sangue. Como os corpos inteiros. Vivos. Dilacero a sua carne. Vivo há séculos, talvez milénios. Já não sei.

    * * *

    Sabine tem fome, demasiada fome. Não come há mais de três semanas e os seus encantos perdem-se. É noite. Está algures numa discoteca da 24 de Julho.

    Praticamente ninguém olha para ela. Não tem os encantos habituais. Estou feia, pensa. Na verdade parece uma rapariga normal e desengraçada, de vinte e dois anos. Mas é o ar de desencanto que faz os homens retroceder. Não é a fealdade real, mas a imaginada que os afasta. Sabine está encostada ao balcão, quase espremida contra a parede. O barulho da música é ensurdecedor. Sente saudades dos tempos em que se podia ouvir o par e cada um se dar ao trabalho de fingir que seduzia o outro, quando na realidade estavam os dois seduzidos há muito. Quase lhe dá asco caçar (sim, é essa a palavra).

    Esconde os olhos castanhos na bebida (um simples sumo de laranja com água tónica) e finge a modéstia dos tempos antigos que outrora tanto sucesso tinha. Os homens de agora continuavam a valorizá-la, dissessem o que dissessem, o facto é que infelizmente iam-se embora com outras, as menos modestas, e ela estava esganada de fome. Podia mandar a modéstia às malvas e avançar para o lado sedutor mais franco, dirigindo-se directamente ao homem, com passo firme e decidido. Fê-lo.

    Sabine abandona a bebida a meio no balcão e avança com o rebolar de escrava africana que, recorda, chegou a ser algures no século XVIII, já não sabe se em Lisboa se no Brasil. Não importa. Os seus traços dão para se fazer passar por mestiça quando quer. Agora, talvez menos. Mas avança. É incongruente ver aquela pessoa há dois segundos desengraçada, a avançar com o passo felino de uma top-model, de uma sedutora de outras eras. Finge tropeçar e cai nos braços de um rapaz alto, musculado e belíssimo. Terá vinte e poucos anos.

    - Oh, lamento. Nem o vi. Penso que bebi demais...

    Uma mulher alta, loira e ar zangado interrompe o discurso, colocando-se ao meio. Sem dizer palavra agarra a mão do namorado e afasta-o. Os amigos observam divertidos e seguem-nos.

    Depois, de longe, observam-na a rirem.

    Ela encolhe os ombros e torna ao velho poiso. Assim, com tão poucos encantos, não vai ter muita sorte.

    Súbito passa-lhe a velha ideia pela mente. E se desistisse do mundo? Desta vida perigosa de caça constante? E se deixasse que a morte viesse enfim por ela? E se abdicasse da imortalidade?

    Sente um encontrão no ombro e um líquido escorregadio a descer-lhe pelo pescoço.

    - Des, desculp...

    O homem está bêbado. Já deve ter bebido mais que umas quantas. Observa-a com um olhar de carneiro meio-morto, só cheira a álcool e a mijo. Sabine sente nojo e ao mesmo tempo dissimula o contentamento. Por vezes era a corça cega que vinha ter com ela e havia que dar graças a Deus ou fosse lá a quem fosse, por lhe proporcionar outra refeição.

    - Deixa. Anda, eu levo-te. Tens carro?

    Ele sorri estupidamente e mal se aguenta nas pernas. Ela arrasta-o para o exterior da sala a abarrotar de gente e ruído. Pelo canto do olho vê os risos de escárnio do grupo ao qual pertence o homem que ela tentara caçar antes. Pensam que deve estar desesperada. E sim, está. Tem de comer. Se não come todo o desespero do que é e do que faz lhe cairá sobre a cabeça. Mas quando come a vida é mais fácil, fica bonita, fica agradável. Todos a tratam como uma deusa. Amam-na. E, melhor do que isso, ela não ama ninguém. Quando come, toda a consciência da culpa se desvanece. Não sente remorsos, nem o ardor no meio do peito quando faz o que não deve, quando mata, engana e mutila. Já não comia há semanas, nem deu pelo tempo passar. Vai doer-lhe, o primeiro jorrar do sangue, aquele primeiro partir de ossos. Vai doer-lhe no fundo da alma que nem sequer sabe se possui. Mas durará não mais que segundos, dez segundos no máximo. Sente a sua dor e remordimento, em comunhão com a dor e culpa do homem que transporta nos braços até ao carro, sente-as em harmonia, a perfurarem-lhe o corpo no interior, quais espigões do inferno, mas são só dez segundos. Não mais que isso, e a seguir vem o Paraíso, onde não há culpa. Só uma imensa luz interna que a alumia.

    O corpo do homem dá um esticão e vomita-lhe nos sapatos de salto alto.

    Sabine com nojo lança-o ao solo.

    - Idiota - ruge e pontapeia-o na espinha. De imediato arrepende-se.

    - Anda, desculpa - levanta-o pelos sovacos, com extraordinária força, apesar de ser um homem com um metro e oitenta e gordo. Ela com o seu metro e sessenta e cinco, apesar dos saltos, conseguiu transportá-lo, depois de ele ter esvaziado o estômago, até ao carro, e colocou-o, manejando-o como a uma boneca de trapos, no lugar do morto enquanto assumia o papel de condutor. Quase imediatamente ele adormeceu.

    Sabine mira o rosto adormecido. A barba tem de ser feita, tem vómito na camisa e na gravata (pelo amor de deus, quem usa gravata quando vai dançar), há um cheiro intenso a vomitado, urina e álcool. Na mão esquerda verifica não haver anel. Sabine liga a ignição e avança.

    Não vai para a casa dele. Não senhor. Vai para a sua casa no centro de Lisboa, às três da manhã, na Avenida da Liberdade. O melhor de tudo é que a partir das nove da noite a Baixa fica vazia, todos os que lá trabalham vão para casa. Ali já não é a casa de ninguém, fica deserta, às moscas. O que lhe convém.

    Sabine habita um andar de um prédio que, ninguém sabe, lhe pertence. Conseguiu dissimulá-lo, apesar de tudo. Por fora tem a aparência de um prédio lisboeta como tantos outros, em risco de derrocada, a precisar de intervenção, mas por dentro só ela sabe que aquele prédio ainda aguentará pelo menos outros duzentos anos. Em baixo, no que antigamente foram as caves, há um espaço grande de estacionamento. E mandou instalar elevadores no início do século XX. Já os substituiu várias vezes.

    Naturalmente que não ficará com o carro. Ela tem sempre um plano. O pior de tudo é que a sua fonte de alimento vive nas cidades e, para ter a privacidade que tanto preza e necessita (que possuiria no campo), não teria, em contrapartida alimento suficiente. E no campo as pessoas sentem falta umas das outras. Nas cidades pode levar semanas até que isso ocorra.

    Leva-o ao ombro como uma saca de batatas. Tem ainda forças, mas aquele cheiro nauseabundo incomoda-a. Deve infestar-lhe o sangue e a carne.

    Nojo, pensa. Considera que tem tempo, que não o vai comer assim. Não, primeiro vai desinfestá-lo. Limpar-lhe o organismo. E depois quando estiver limpo, por fora e por dentro - comê-lo.

    Sorri com satisfação.

    CAPÍTULO DOIS

    Acordo com a habitual enxaqueca. Bebi demais. Bebo sempre. Péssimo hábito. Não devia ter saído. O quarto está às escuras e dormi vestido, como tenho o mau hábito de fazer quando saio para me divertir um bocado. Ao que parece dormi no chão. Tento erguer-me. Dói-me tudo. A boca está suja e tem um sabor repelente. Sinto os olhos meio fechados devido ao habitual cimento matinal.

    Percebo que não estou em casa. Que estou algures num sítio desconhecido. Não sinto medo. Devia, talvez, sentir um pânico indescritível, mas ela deixou-me e levou-me o miúdo. Não sinto medo. Talvez tenha mandado alguém matar-me, para ter a certeza que não a ponho em tribunais e exija a devolução do puto. Cabra. Fugiu para o Egipto. O meu irmão estava certo. Porque é que me casei com ela? Para quê?

    Oiço um barulho, longínquo. A seguir um raio de luz ilumina-me e fecho os olhos com força. A dor a rachar-me o crânio cresce. É um lagarto furioso, tentando libertar-se do cérebro, com dentes, garras e movimentos coléricos de cauda.

    Vejo uma figura recortada à porta. Por momentos não se mexe, depois avança até eu perceber tratar-se de uma mulher. Observa-me com displicente atenção, uma indiferença não estudada, mas habitual. Um calafrio percorre-me a espinha e eu lembro-me.

    - Tu... - digo.

    Vejo o sorriso escondido florescer no rosto.

    - Sim - admite. - Sim - e a mão acaricia-me levemente o cabelo. Recuo, com terror.

    Ela suspira, levanta-se e afasta-se. Antes de sair e deixar-me às escuras diz:

    - Ainda não decidi o que vou fazer contigo.

    Fecha a porta pesada e eu grito, grito até ficar sem fôlego e a cabeça explodir. Devo ter desmaiado. Acordo a ser carregado ao ombro de alguém e depois sou jogado sem cerimónia no chão de uma casa-de-banho desconhecida.

    - Lava-te - diz ela.

    - Quem és? O que queres? Hã? Hã!

    Não responde. Tento erguer-me de repente e esmurrá-la, mas as tonturas abatem-me e recolho ao chão. Ela ri-se.

    - Pára de rir, pára... - sussurro com raiva. A estranha baixa-se e passa-me a mão pelo cabelo. Eu, com ira, cuspo-lhe na cara. Lentamente passa os dedos na minha saliva e leva-a à boca. Prova-a como se fosse algum molho especial culinário. Doida. Estou nas mãos de uma doida. Que Deus tenha piedade de mim.

    - Estás doente - diz, carregando o sobrolho. - O teu fígado não está em condições. Um bebedor profissional - acrescenta com desprezo. Depois suspira, faz um gesto de resignação e ordena que me dispa e tome banho. A banheira já está preparada. Deitou perfume nela. Algo adocicado e suave emana da água quente. Recuso.

    - Não.

    Ela zanga-se e joga-me por terra. Com as dores, o estômago vazio e a sofrer as consequências da ressaca, ela domina-me com facilidade e arranca-me literalmente a roupa do corpo. Tenho medo. Cada vez que se aproxima de mim sinto um medo horrível, como se cobras me amarinhassem espinha acima em direcção ao pescoço.

    Como pode ter tanta força? Eu sou maior que ela. Não deve ter mais que metro e sessenta. É frágil, magra. Um bocado feia. E mesmo assim domina-me. Rasgou-me as calças e a roupa interior. Nu, levantou-me do chão e lançou-me como se fosse uma saca de batatas dentro da banheira. A seguir afastou-se, encostou-se à parede, cruzou as mãos e observou-me. Ordenou que me limpasse e eu com medo não resisti.

    Analisou-me demoradamente, como que por detrás de um véu. Não me deixou sair da banheira senão uma hora depois. Apontou uma cadeira ao fundo com roupa e ordenou que me vestisse. Por fim saiu, deixando-me sozinho.

    Sozinho.

    Não sei quanto tempo levei. Estive na banheira, com a água fria, um bocado, saí e acudi ao chamamento da natureza. Limpei-me com a toalha. Era enorme, felpuda e tinha odor a alfazema. Lavei os dentes, barbeei-me. Ela deixara tudo. Depois vesti-me finalmente. Roupa cara. Sapatos caríssimos. Aquele fato... Deus do céu, o que é que esta louca queria de mim? Estaria à procura de noivo, de marido?!

    Saí, furioso.

    Ela olhou-me e sorriu.

    Estava sozinha.

    - Não há mais ninguém - disse ao ver-me a girar a cabeça em todas as direcções. - Não há mais ninguém senão eu.

    Desafia-me.

    - Só tens de passar por mim para ficares livre... - enunciou com lentidão, num sorriso de monalisa, e avançando devagar rumo a mim.

    Eu corri para ela, mas a desconhecida com um gesto de artes marciais fez-me cair de joelhos e submeteu-me. Não consegui libertar-me. Gritei, gritei.

    Ela riu-se outra vez.

    - Podes fazer o berreiro que quiseres. Ninguém vai ouvir. As paredes estão isoladas e vivo sozinha no prédio.

    Com isto pôs os braços no meu pescoço e apertou até eu perder a consciência.

    Acordei sentado a uma mesa, com a comida posta e as pernas agrilhoadas. Fiz vãs tentativas para fugir, mas não havia hipótese. Do outro lado vi-a. Comia um bife quase cru, ensopado em sangue.

    À minha frente a comida tinha um ar e cheiro deliciosos.

    - Come - insistiu. - Recupera as forças. Se quiseres fugir vais precisar delas, não é verdade? - sorriu e lambeu os dedos.

    - O que é tu queres? O que é que tu queres de mim? Não sou rico! Foi a minha mulher que te mandou?

    - Mulher? - pareceu genuinamente não saber nada. Mas podia ser um embuste, uma cruel mentira, tudo isto um cruel sortilégio para me fazer sofrer.

    - Eu não vou deixá-la ficar com o meu filho! Não vou tirar o caso do tribunal! O Bruno há-de saber que o pai lutou por ele!

    - Filho...? - disse e levantou-se com vagar e ar preocupado. A cara estava lambuzada de sangue.

    - A Fátima e os joguinhos habituais... enganou-me... - engulo em seco. Não deve saber nada, deve ter sido contratada.

    Após um silêncio, continuei:

    - Estás sozinha, estás. Aposto que contratou uma equipa inteira! Para me assustar! Podem matar-me se quiserem! Vou lutar até ao fim.

    Ela mirou-me sem rir, a seguir sentou-se e limitou-se a dizer:

    - Come.

    Afastei o prato.

    Súbito a desconhecida ergueu-se e com a cara cheia de sangue gritou histericamente:

    - COOOOMEEE! - ao mesmo tempo que dava um murro na mesa.

    Fiquei com tanto medo que obedeci.

    No fim ela libertou-me e levou-me de rojo de volta ao sítio onde acordei. Não consegui soltar-me, tem tanta força e parece frágil, tão frágil. Nunca vi um homem três vezes o meu tamanho ter a força daquela mulher.

    Fechou a porta com um terrível baque e deixou-me na obscuridade. Não sei quanto tempo estive no escuro.

    Acabei por adormecer, depois de me ter posto a gritar horas a fio. Quando veio novamente por mim eu estava rouco, tinha quase perdido a voz, só um fio me restava. Fitei-a com ódio. Ela abriu a porta e fez um gesto para que a seguisse. Fi-lo.

    CAPÍTULO TRÊS

    - Às vezes aborreço-me - diz ela.

    Arrastou-me novamente até à sala onde me obrigou desta vez a consumir um chá repelente. Um litro dele.

    - Se vomitas tenho ali dez litros. Obrigo-te a beber, quer queiras quer não.

    Eu miro-a com ódio. Ela observa-me sem emoção, seguindo-me os gestos. Levo o copo alto à boca e bebo um trago. Um trago mínimo de um líquido asqueroso e repelente. Paro logo. Tento continuar. Não consigo. Deformo o rosto devido ao sabor. Ela levanta-se e traz-me uma rodela de algo.

    - Gengibre. Mastiga e não engulas. Depois bebe novamente.

    Obedeço. Incrível. Funciona. Levo uma hora inteira, entre várias rodelas de gengibre, a consumir o conteúdo do frasco. Sinto o estômago às voltas e sento-me no chão. Ela observa e não faz nada.

    - O que queres de mim? Quem te mandou? É dinheiro? É o quê?

    Aproxima-se com lentidão e ajoelha-se à minha frente. Pega-me na mão e conduz-me com gentileza até a um quarto que ainda não vira. Tem uma cama e quarto de banho.

    - Deita-te. Vais passar a noite inteira no trono - e ri-se antes de fechar a porta.

    Foi verdade. A noite inteira na sanita e de manhã, como bónus, passei o tempo a vomitar. Quando entrou viu-me estirado na cama, a tremer e ficou contente.

    - Óptimo. Óptimo. Em pouco tempo limpamos-te.

    E saiu.

    Quando regressou, horas depois, quantas não sei porque me tirou o relógio e confinado no quarto eu não tinha acesso à luz do dia por não existirem janelas nem luz natural - eu estava preparado. Escondi-me ao lado da porta e quando a estranha veio lancei-lhe a cadeira à cabeça. Ficou confusa e desorientada. Aproveitei e saí porta fora. Corri em busca da saída, mas não conhecia nada. Encontrei uma porta e tentava, em desespero, abri-la, mas estava cerrada à chave. De repente oiço passos atrás de mim e sinto um golpe violento na nuca. Perco os sentidos. Quando acordo estou de volta ao quarto, preso à cama, com os braços erguidos acima da cabeça e os pulsos amarrados a um dos varões da cama. Cabra.

    Olho-a com raiva.

    - Que merda é que tu queres de mim? O quê! - grito. Exijo que me diga.

    Ela mira-me de novo com a cara que posso sem mentir descrever como feia. Cruza os braços finos e flácidos, demasiado brancos e aproxima a cadeira com que lhe bati da cama onde me amarrou. Tem um ar indecifrável. O ar dos sádicos que não mostram quando vão desferir o golpe final, brutal e sangrento. Cruza as pernas. É realmente feia, sim, agora vejo-o claramente. Deve ter passado anos inteiros a ter aulas de artes marciais. Só isso explica como me pode dominar.

    - Às vezes aborreço-me - diz ela.

    Eu não respondo.

    Após um prolongado momento de silêncio ela suspira, resignada e revela:

    - Não conheço a tua mulher.

    - Ex.

    Cala-se novamente e continua, de braços e pernas cruzados.

    - Nem o teu filho. Não sabia sequer o teu nome antes passar revista à tua carteira. Tens o B.I. caducado.

    Eu não respondo. Após outro silêncio afirma:

    - Agora já não há B.I. Cartão de cidadão. As coisas que inventam!

    Quero perguntar-lhe a razão de estar ali. Ia matar-me. Pareceu ter lido os meus pensamentos. Ou talvez se guiasse tão-somente pelo meu ar incrédulo e olhos esbugalhados num terror crescente que eu estava cada vez mais incapacitado de esconder.

    - Vou matar-te, sim.

    Tentei dizer qualquer coisa, chamar-lhe nomes brutais, cuspir-lhe na cara, mas um nó de pavor, enorme, no meio da garganta não deixou passar nada.

    - Não penses que fizeste

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