Angel Gabriel: Pacto de Sangue by Ana C. Nunes - Read Online
Angel Gabriel
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Summary

Há 165 anos Gabriel não acreditaria se lhe dissessem que 13 pessoas seriam suficientes para levar os humanos à quase extinção. Menos ainda creria se lhe dissessem que tal aconteceria, em grande parte, com a sua ajuda. Mas nem sempre aquilo em que acreditamos acaba por acontecer.
Angel nasceu num refúgio subterrâneo onde humanos adoram o sol e temem a lua, onde a magia substitui as armas de fogo e o silêncio é a melhor protecção contra os predadores: vampiros.
Ambos estão mais preocupados com a sua sobrevivência do que com o mundo que está prestes a desintegrar-se, mas quando uma maldição os força a um mútuo acordo, já não será somente a própria sobrevivência que vingará.
Conseguirão eles encontrar um equilíbrio, ou morrerão em discórdia?

Published: Ana C. Nunes on
ISBN: 9781301359561
List price: $3.99
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Angel Gabriel - Ana C. Nunes

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ANGEL GABRIEL

PACTO DE SANGUE

de Ana C. Nunes

Table of Contents

Capa

Folha de Rosto

Ficha Técnica

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Interlúdio 1

Interlúdio 2

Capítulo 26

Interlúdio 3

Interlúdio 4

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30

Capítulo 31

Interlúdio 5

Capítulo 32

Capítulo 33

Capítulo 34

Capítulo 35

Capítulo 36

Capítulo 37

Capítulo 38

Capítulo 39

Capítulo 40

Capítulo 41

Capítulo 42

Capítulo 43

Capítulo 44

Capítulo 45

Capítulo 46

Capítulo 47

Capítulo 48

Capítulo 49

Capítulo 50

Capítulo 51

Capítulo 52

Capítulo 53

Glossário

Agradecimentos

Nota Final

Ficha Técnica

Texto © Ana C. Nunes 2013

Capa e Ilustrações © Ana C. Nunes 2012/2013

Contacto da autora: anacorvonunes@gmail.com

Blog da autora: http://capala.wordpress.com/

Todos os direitos reservados a nível mundial.

Tipos de Letra da Capa: Journal © Fontourist, Ostrich Sans © Tyler Finck

Revisão: Marcelina Gama Leandro e Mariana Teixeira

1ª edição: 10 de abril de 2013

Smashwords Edition

ISBN: 9781301359561

Esta obra é propriedade de Ana C. Nunes e não poderá ser distribuída, copiada ou alterada, na totalidade ou em parte, sem autorização escrita da proprietária. Se gostar de ler esta história, por favor considere deixar um comentário no local de onde a adquiriu. A autora agradece.

Esta obra está redigida em concordância com o novo Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa. Caso deseje ler uma versão diferente, por favor contacte a autora através do email (anacorvonunes@gmail.com).

An English version of this ebook will be available soon. Please check the author’s blog for more information.

Nota de Autor:

Nesta história são mencionadas várias localidades europeias e todas elas existem de verdade. Também são referidos vários locais verídicos (castelos, santuários e palácios), nos quais a autora tomou certas liberdades criativas, daí que as descrições dos seus edifícios e seus interiores possam não corresponder à realidade.

Todas as personagens e acontecimentos são fictícios e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Capítulo 1

Há 165 anos, o mundo mudou.

Diz-se que o universo começou com uma grande explosão, mas na noite que para sempre alterou a humanidade, foi o fogo de artifício a pintar o céu de cores garridas enquanto a espuma saía à força das garrafas de champanhe e o chão se tingia de vermelho.

A 1 de janeiro de 2010, vampiros e imortais, criaturas que os humanos nunca pensaram que poderiam existir, revelaram-se, e a partir daí tudo mudou. Eles multiplicaram-se e nós quase fomos levados à extinção.

12 de janeiro de 2175, 02h00

Há sons que, por mais baixos que sejam tocados, têm o poder de alertar de imediato qualquer ser. O da sirene é um deles. Tornamo-nos extremamente alertas e assustadiços só de as escutar, sabendo que nunca precedem algo de bom. É o resultado de vivermos em constante luta com seres que nos querem beber o sangue, sem a cortesia de deixarem o suficiente para que possamos regressar a casa.

Vestindo o primeiro casaco que apanhei a jeito, enfiei à pressa as botas de cano alto nos pés e saí do quarto diretamente para o corredor, onde a poeira acumulada no chão flutuava ao gosto das centenas de pares de pés que seguiam em filas ordenadas em direção à luz ao fundo do túnel. As pedras das paredes mantinham-se incólumes ao reboliço e à passagem do tempo. O som da sirene punha-me nervosa, à medida que a multidão me dificultava a passagem, e eu não conseguia parar de praguejar entre dentes.

«Não corram», diziam os sinais nas paredes. Pensar-se-ia que numa emergência todos iriam ignorar os avisos, mas desenganem-se.

Empurrando algumas pessoas, desculpando-me a outras e saltando para tentar cobrir mais caminho por entre os corredores escuros e estreitos, cheguei finalmente à praça. A luz das centenas de tochas, seguradas pelos residentes, cegou-me momentaneamente. A galeria central da gruta estava aos poucos a ficar cheia de gente. Homens, mulheres e crianças que se haviam juntado ali com os pijamas ainda vestidos. As tochas resultavam ainda mais suor do que o que já advinha do medo, pois apesar de estarem calmos, não conseguiam evitar estar temerosos. A fraca luz da lua, que escoava pela pequena claraboia no centro da praça, pouco se refletia nos rostos preocupados. A sirene não parava de tocar, adicionando mais tensão aos corpos colados. E enquanto pensava que caso fosse necessária uma evacuação, o facto de estarem todos juntos na praça não ia ser uma vantagem, ouvi alguém chamar por mim.

Angel! – Olhei na direção da voz, que reconheci de imediato. Junto a um dos outros túneis, à minha direita, vi o cabelo preto da minha irmã adotiva, Amilda, que me acenava vigorosamente. Como ela conseguia manter aquele belo sorriso mesmo em alturas de crise, seria para mim um eterno mistério.

Enfiando os braços no meio da multidão, abri caminho até ela, ouvindo umas quantas queixas pela minha rudeza. Cheguei ao pé dela rapidamente e respirei fundo antes de perguntar: – Onde está a mãe?

Já está lá fora.

Agarrou-me a mão e puxou-me para a direita, para as portas de aço que estavam abertas para deixar passar cinco homens e mulheres, cobertos por pesados casacos e de cabeças juntas em estratégias sussurradas. O aperto da multidão libertou-me quando os alcançamos, e pude finalmente respirar normalmente mas, assim que passamos as portas de aço, fomos rapidamente acarinhadas pelo vento gelado do exterior. Um outro túnel, muito mais largo que os anteriores, mas igualmente mal iluminado, estendia-se várias centenas de metros até ao verdadeiro exterior. O vento uivava como uma alcateia coordenada, forçando-nos a puxar os capuzes para cima e a enfiarmos os visores de neve.

Encostadas às paredes estavam alinhadas várias motos de neve, velhas, consertadas centenas de vezes a partir de peças antigas, retocadas para andarem à base de energia solar acumulada e, por isso mesmo, parecendo prontas a desfazerem-se mal alguém lhes ligasse o motor; tal como todos os outros transportes no refúgio.

Os dois homens e três mulheres que seguiam à nossa frente montaram as três motos mais próximas do fim da gruta e saíram para a noite calma e gelada. Amilda pôs-se em cima da seguinte, acionou o botão e deu à chave. O motor zuniu baixinho, fazendo tremer o veículo.

Os seus olhos pretos brilharam quando se voltou para mim, desenrolando a gola da camisola grossa até tapar o nariz, dizendo numa voz abafada. – Vou patrulhar as colinas. Vens?

Sorri-lhe. – Achas que estou aqui só para apanhar frio?

Nunca se sabe …

Subi para a moto atrás dela e mal tive tempo de me agarrar antes de ela carregar na alavanca e a moto começar a deslizar pela neve acumulada. Aguardando a imensidão do branco que sabia já de cor, fiquei desapontada pela escuridão quase total que me impediu de ver para além do que os faróis iluminavam. Várias centenas de metros à nossa frente seguiam as outras três motos, e ainda mais à frente, quase impercetíveis na distância, mais duas deslizavam com força em direção a Norte. A ausência de nuvens e a fraca Lua permitiam ver o céu estrelado em todo o seu esplendor; ergui a cabeça afastando a marrafa para o admirar, enquanto Amilda se focava em não ir contra uma árvore ou embater num animal.

Para grande parte dos outros humanos, a noite era uma maldição, mas eu não conseguia evitar vislumbrar-lhe uma beleza sombria e uma chama de esperança. Não podíamos odiar aquilo que também nos dava mais poder, pois nem o calor do Sol se sobrepunha à magia das estrelas e da Lua, e qualquer feiticeiro que quisesse convencer-se do contrário estava a iludir-se.

Na distância as primeiras duas motos pararam e demorei alguns segundos a reconhecer a silhueta da torre de vigia que se erguia alta no cimo de uma pequena colina. A torre era uma construção simples, esguia e alta, feita de madeira, com capacidade apenas para albergar um sentinela de cada vez. Não tinha luzes em volta, nem fora nem dentro do posto de vigia, e era impossível adivinhar-se qualquer forma humana ou animal nas imediações. Estava escuro demais.

As restantes motas dispersaram, cada uma para uma colina diferente, e Amilda fez o mesmo, seguindo para a direita e desligando os faróis da moto. Teve de reduzir a velocidade e ouvi-a rezar baixinho. Levantou a mão direita até aos visores e pressionou o pequeno botão ao lado da lente. Fiz o mesmo nos meus e a minha visão passou a ser processada em tons de verde e cinza escuro, discernindo com alguma facilidade as curvas da colina e os picos das árvores cobertos pela neve fofa que caíra nessa tarde.

Avançamos para lá da torre, em direção a Este, até alcançarmos o cimo de uma pequena montanha de onde podíamos vislumbrar as planícies em volta. Tirei os visores por uns instantes, perscrutando a paisagem em busca de focos de luz. Nada. Voltei a colocar os visores e, tanto eu como Amilda, usámos a visão noturna e o zoom para procurar outras formas de vida.

Vozes alteradas subiam com o vento até nós. Não estávamos muito longe da torre e as planícies eram propícias a espalhar conversas. Desviei a minha atenção para o encontro lá em baixo. A minha mãe, que distingui por ser a mais baixa e magra de todas, escondia-se atrás de um dos alicerces de madeira da torre. Uma outra mulher e um homem do refúgio, que não consegui reconhecer por estarem de costas viradas para nós, falavam com um casal jovem, ansioso e com roupa a menos para um inverno tão rigoroso. Consegui apenas perceber trechos da conversa, mas ouvi-os mencionarem TS (Teia de Sangue). O que fazia sentido, já que a mono-sirene não era aviso de ataque, mas sim de um pedido de auxílio.

Muitos novos vampiros escolhiam cooperar com humanos em troca de sangue. Como os humanos se tornavam cada vez mais difíceis de encontrar e os mais recentes vampiros não tinham a perícia dos seus antecessores, estes faziam um pacto com alguns refúgios. Em troca de silêncio sobre a localização dos esconderijos que conheciam, era-lhes providenciado sangue sempre que necessitavam. Uma boa troca, já que os humanos não podiam abandonar os refúgios sempre que alguém se tornava vampiro, ou teriam de estar em constante movimento, o que limitaria o crescimento populacional. Infelizmente nem todos os novos vampiros aderiam à TS o que muitas vezes resultava em tragédia.

A voz da Amilda fez-me desviar os olhos da cena lá em baixo. - Parecem-te de confiança?

São jovens. Parecem acabados de transformar e estão assustados.

Levantando o visor para me ver com cores naturais, Amilda desviou a gola da boca que se estendia num sorriso torto. – E conseguiste perceber isso tudo só de olhares para as caras esverdeadas deles?

Encolhi os ombros com uma risada. – Já sabes …

Abanando a cabeça ela voltou novamente a atenção para o espaço circundante. – Um dia hás de me ensinar esse truque.

Não é um truque. É intuição-- – Ela cortou-me as palavras.

Feminina! Já me disseste! Mas se assim é porque é que eu não a tenho, nem mais ninguém no refúgio?

Voltei a encolher os ombros. – Talvez porque eu sou mais mulher que vocês?

Ela riu-se e eu senti-me tentada a imitá-la. Ao invés afastei-me um pouco, em direção a Este, calcando o topo estreito da montanha, quase em forma de lâmina de tão fino que era. Não havia movimento algum, mas foi exatamente isso que me deixou alerta. Àquela hora, naquele local, era comum ouvirem-se lobos, tigres, corujas e uma miríade de animais que, ao longo das décadas, haviam retomado o território que os humanos em tempos lhes tinham roubado.

Voltei-me novamente para a transação lá em baixo. Os ânimos pareciam ter-se acalmado. A minha mãe mantinha-se escondida, em caso de problemas, mas o casal de jovens estava menos acobardado e uma outra moto de neve aproximava-se. Era bom sinal.

Dei mais uns passos cuidadosos, afastando-me algumas dezenas de metros da Amilda que partiu na direção oposta. Alguma coisa me estava a levantar os cabelos da nuca, e não era o frio, nem o casal de recém-chegados lá em baixo. Na ponta de um pequeno precipício, suspirei e fechei os olhos, tentando concentrar-me, abstrair-me das vozes e dos uivos do vento; e foi quando tudo isso desapareceu da minha mente que o senti. A força que me arrepiava os cabelos. Uma energia tão fraca e distante que me passaria despercebida, caso não estivesse à procura dela.

Eu nunca fui considerada uma feiticeira, como a minha mãe ou mesmo como a Amilda; mas havia algo no qual eles sabiam que eu me sobrepunha a todos eles: os meus sentidos. Todos os humanos, quais presas alertadas pela presença do predador, conseguiam pressentir vampiros até cerca de quatrocentos ou quinhentos metros. Mas era aí que eu me destacava, pois desde cedo que desenvolvera um radar interno (vamos chamar-lhe assim) mais potente. Conseguia senti-los à distância de um quilómetro ou mais, se me concentrasse o suficiente. Naquele caso não necessitara de tanto. O vampiro que pressentia estava longe demais para os outros feiticeiros, o que era claramente deliberado, mas não o suficiente para mim.

Merda! – Praguejei.

O que foi?

Corri para a moto e Amilda encontrou-me lá. Com um simples olhar para o meu rosto obscurecido, ela saltou para a moto e ligou-a, perguntando: Para onde?

Apontei um dedo para sudeste e ela arrancou a toda a velocidade, ligando os faróis no máximo. A neve voou à nossa volta, embatendo com força nas nossas pernas e caras. Em breve comecei a ouvir as outras três motas atrás de nós.

Amilda gritou acima do barulho da moto na neve. - Já nos viram! – Eram os outros feiticeiros que vinham em nosso auxílio. Com as motos a andar àquela velocidade, a menos que intruso tivesse um meio de transporte, não conseguiria escapar-se.

De mãos fortemente fechadas em volta da Amilda, senti quando o corpo dela enrijeceu. - Já o sinto!

Boa! Segue-o e eu trato dele.

Está bem!

A neve a embater no visor dos óculos não ajudava a uma maior visibilidade, mas eu não precisava dos olhos para o que tinha de fazer. Tranquei os pés nas ranhuras dos lados da moto e soltei-me da Amilda, quase sendo atirada para trás pelo vento. Recuperado o equilíbrio, tirei as luvas com os dentes e guardei-as nos bolsos do casaco. Ao longe uma figura solitária corria pelos campos de neve, tropeçando vez atrás de vez e voltando-se a cada dois passos para nos ver aproximar. Estávamos a menos de uma cinquenta metros dele.

Para aqui! – Gritei.

Amilda obedeceu de imediato. Parou o veículo e virou-o ligeiramente para a esquerda, deixando-me a mira livre. Respirei fundo e, ignorando as leves picadas nas costas, estendi o braço esquerdo de punho fechado na direção do alvo, estiquei o outro braço e puxei-o para junto do corpo lentamente enquanto dizia:

"Invocare ad lacea ab spiritus."

À medida que a minha mão direita se retraía contra o meu peito, com dois dedos esticado, um feixe de luz vermelho ficava no seu caminho, formando uma seta luminescente que pulsava nos meus dedos; e do punho do braço ainda estendido um outro feixe da mesma luz vermelha se abria, para cima e para baixo, em forma de arco. Redirecionei a mira e expirei à medida que largava a cauda da seta, deixando-a cortar o vazio do ar e ir de encontro ao intruso. O arco de magia desapareceu assim que a seta foi atirada mas a flecha não parou até se alojar nas costas do homem, trespassando-lhe o coração. Do vampiro não saiu nem um pequeno grito, antes que caísse na neve que seria o seu túmulo.

Corremos até junto do cadáver e Amilda aproximou-se do corpo, voltando-o com os pés e baixando-se para lhe estudar o rosto. Ele era velho e tinha a cara coberta de cicatrizes antigas

Achas que estava com os outros dois? – Perguntou Amilda.

Baixei-me ao lado dela. Tal como acontecera com o arco, a seta desaparecera assim que cumprira a sua missão, mas um buraco ficara no seu lugar e sangue manchava as roupas velhas do homem cuja boca se abria num grito silencioso, mostrando as presas pontiagudas que lhe haviam providenciado alimento na segunda vida.

Não. Acho que este os andava a seguir, a espiá-los. Bem viste como se manteve longe o suficiente para que ninguém o sentisse. - Respondi por fim.

Mas estava a segui-los para quê?

Para descobrir o refúgio, talvez?

Ela inspirou fortemente. - Pelo menos sabemos que agora não vai entregar a informação a ninguém.

Olhei para a distância, semicerrando os olhos, esperando ver algo mais, algo que não estava lá.

Era a primeira vez que aquilo acontecia. Os vampiros que pediam auxílio tomavam precauções extra para não serem seguidos. Tudo aquilo parecia muito estranho.

Estou com um mau pressentimento. - Disse.

Amilda estremeceu, levantando-se e fechando os braços em volta do seu corpo. – Não digas isso!

Os outros feiticeiros aproximaram-se e assim que viram o vampiro morto, também eles começaram a perscrutar atentamente a imensidão que se estendia à nossa volta. Levantei-me e ajudei-os a cobrir o corpo do vampiro com neve, não fosse alguém passar por ali e ver um corpo fresco. Dentro de umas horas os animais descobririam a carcaça e dariam conta dele num instante.

Regressámos rapidamente para junto da torre e encontrámos a minha mãe, a Gigliona e o Borodorin (o casal que eu não reconhecera de costas) reunidos em volta dos corpos do jovem casal de vampiros. Desviei os olhos quando vi como os dois se haviam agarrado um ao outro antes de morrer. Eram crianças, não deviam ter mais de dezasseis anos e tinham morrido assustados, se não mesmo de susto.

Não precisavas matá-los! – Gigliona gritava com Borodorin, que escolheu ignorá-la, cruzando os braços.

Estás a ser sentimentalista outra vez. – O homem, muito mais novo que a sua colega, esfregou os dedos nos cotovelos e bufou os cabelos negros da frente dos olhos, como se aquilo nada mais fosse que rotina diária.

Sentimentalista? – Os cabelos ruivos da Gigliona encaracolaram-se ainda mais com os nervos, como se ganhassem vida. – Eram crianças, seu insensível!

Uma raiva animalesca brilhou nos olhos do feiticeiro e a minha mãe teve de se meter entre os dois para impedir um confronto corporal. - Acalmem-se!

Quando Ishvar falava, os outros calavam e ouviam. Ter uma mãe assim era espetacular … de vez em quando …

O que está feito, feito está. Vamos regressar porque temos muito que fazer. – Só quando sentiu que os outros dois se haviam acalmado é que a minha mãe baixou os braços e veio ter comigo e com Amilda. – Filhas. – Abraçou-nos, juntando-nos pelos ombros e esmagando-nos uma contra a outra. Mas tão depressa quanto o afeto aparecera, desapareceu e, no seu lugar, ficou a seriedade de uma profissional. – Contem-me o que aconteceu. – Ela pediu.

Não precisei falar muito, pois rapidamente a Amilda a pôs a par de tudo. Mas, durante todo o tempo, não consegui afastar a sensação de que havia algo que me estava a iludir. A experiência tinha-me ensinado que o instinto é a mais forte arma que os humanos possuem na luta contra os vampiros e os meus instintos diziam-me que algo me estava a escapar.

Capítulo 2

13 de janeiro de 2175, 00h30

Seria por divertimento que escolhiam igrejas como postos de descanso temporário? Vampiros, igrejas, templos, fé; tudo conceitos que em tempos se haviam unido no conhecimento popular; tudo mentira. Daí que não me admirasse que fosse pelo puro gozo da ideia, que o Cornivar tivesse uma predileção pelos santuários da fé, em todas as suas formas.

A pequena capela em Orhei, assente no topo da montanha, era quase engolida pela imensidão da paisagem; a imagem de um culto pequeno. Os seus calabouços, por outro lado, contavam uma história diferente.

Arrastei os pés cansados pela neve e mais alguns metros à frente da capela empurrei uma porta de madeira velha e comida pelos bichos (tão baixa que tive de me curvar para passar por ela), assente em paredes de pedra que formavam um arco. Nas traseiras ficava uma insignificante torre de sino, tão díspar da entrada que juraria ser de outra época.

O ar abafado tocou-me sem gentileza e forçou-me a fechar os olhos. O vampiro que guardava a entrada cumprimentou-me e eu ofereci-lhe a mesma gentileza distante, seguindo caminho pelo túnel que descia para debaixo da terra, num declive pouco acentuado. O ar saturado tresandava a suor, sangue e bolor, o último dos quais não era culpa dos seus mais recentes inquilinos. O terreno em rochedo e argila ficou nivelado ao fundo do túnel, apenas para se separar em dois outros, mais iluminados e de onde se ouviam gritos de prazer e dor, conversas múltiplas e um número ilimitado de disparates.

Suspirei e segui pelo túnel da direita, cruzando várias portas escancaradas e vislumbrando coisas que poder-me-iam ter tentado, mas que por culpa do cansaço apenas me fizeram revirar os olhos. Não havia orgia suficientemente aliciante para me reavivar os músculos exaustos de dias de viagem intensiva.

As portas duplas que finalmente se apresentaram no fim do túnel, quase me fizeram suspirar de alívio, não fosse o pleno conhecimento do que estava para além destas. Rodei o pescoço e os ombros até ouvir um estalido. Sem perder tempo em pensamentos dispersos, entrei no pequeno salão, nada digno de reis, mas Cornivar nunca foi de luxos (nem nunca foi rei); já Aaralyn gostava de dar o seu toque a todos os locais por onde passavam, daí que o pequeno e simples salão, de paredes toscas em argila alaranjada, estivesse decorado exoticamente em cores berrantes e matérias de toque delicado, espalhadas pelos cantos, estendidas nas colunas e atiradas aos pés dos visitantes.

Perdidos num beijo absolutamente nojento (eu bem sei onde aquelas línguas andaram) os dois ignoraram a minha chegada e continuaram o seu ritual amoroso uns bons minutos mais. E a única razão porque não desviei o olhar foi porque Cornivar não desviou o seu de mim. Canalha nojento!

Aaralyn puxava-lhe os cabelos castanhos com tal força que lhe curvava a cabeça até quase bater nas costas. E não seria essa uma visão linda? Ele com o pescoço partido por culpa da brutalidade da amante. Oh, se seria!

Infelizmente a cabra não me fez a vontade. Mordeu os lábios do amante até ficarem em carne viva e depois largou-o, atirando-o contra as costas do cadeirão em que estavam ambos instalados. Com a boca vermelha de sangue, os olhos a brilharem de um tom mais vivo da mesma cor e os curtos cabelos avermelhados colados ao pescoço, Aaralyn levantou-se e caminhou até mim com o corpo sinuoso a mover-se de um lado para o outro. Apesar de ter umas curvas bem generosas (alguns diriam até demais) e seios pequenos, muitos eram os que a consideravam uma beleza impossível de resistir, graças ao cabelo ruivo e liso, aos lábios separados pelo desejo, as presas cobertas de sangue fresco e as sardas abundantes salpicadas pela cor da paixão. Mas eu não era um desses que caiam a seus pés. E não era por não gostar das suas curvas.

Gabriel, é bom ter-te de volta. – Tocou-me o rosto com as costas da mão e deixou ficar um sorriso à sua passagem.

Cerrei os punhos, para evitar responder-lhe com um estalo na mão, e voltei a focar-me no Cornivar, já ajeitado na sua poltrona de pele, de cabeça repousada na palma da mão e pernas cruzadas, qual cliché ambulante.

Regressaste.

Mais uma vez. – E como isso devia irritá-lo.

O sorriso em carne viva que ele conseguiu estender na minha direção, quase me fez desviar os olhos. Quase.

Já soube do teu sucesso. Bom trabalho.

Anui simplesmente. Quando temos medo de dizer coisas que nos vão causar problemas, a solução é cortar a comunicação verbal ao máximo.

Espero que não estejas muito cansado porque tenho uma nova missão para ti. – Os olhos castanhos dele faiscaram de prazer.

Enterrei as unhas na carne das palmas da mão e forcei-me a inspirar e expirar. – Com todo o respeito ... – Quase trinquei a língua ao gesticular as malditas palavras. – Estou exausto. Há dias que não me alimento e tive de viajar a pé mais de duas semanas. Julgo merecer pelo menos um dia de descanso.

Ele sorriu. - Claro! Mas não agora.

Mas---

Com um movimento rápido dos dedos, silenciou-me. Até o conhecer, cento e cinquenta e cinco anos antes, não pensava que alguém fosse capaz de me paralisar com um simples olhar, mas acreditem que não é preciso muito, basta ter-se a imortalidade ao dispor. Quando sabemos que alguém pode perseguir-nos para toda a eternidade, a nossa perspetiva de coragem tende a mudar drasticamente.

Esticando o pescoço e cerrando os dentes, disse: - Qual é a missão?

Ele tentou sorrir, sendo que tentou é a palavra de ordem. – Descobrimos o esconderijo da Ishvar.

Estremeci ao ouvir o nome: Ishvar, a mais temida das feiticeiras; a primeira a matar um Primordial. Aaralyn e os outros andavam à sua procura desde há dezassete anos, altura em que Alcour foi assassinado e os humanos ganharam uma nova esperança. Depois dele, mais dois Primordiais tinha perecido, Nevora e Yoseph, pela mão de outros feiticeiros poderosos, mas nenhum era tão odiado como Ishvar.

Cornivar prosseguiu como se não tivesse dito nada de especial importância. – A Ubiny, o Vaughan e a Kaelan saíram ontem ao fim da noite, em direção a Kirovohrad na Ucrânia. – Passando os dedos pelos lábios sangrentos, acrescentou. – Se a Omniua estivesse cá, teria ido com eles, mas na ausência dela tu vais segui-los e ajudá-los.

De certa forma as palavras dele mostravam uma preocupação que sempre me espantara. Cornivar podia ser um sociopata na maioria dos dias, mas não podia julgá-lo na afeição que tinha aos doze Primordiais. Tratava-os como irmãos, filhos mesmo, mas fingia bem na presença da maioria das pessoas. Eu é que já convivia há tempo suficiente com ele para perceber que havia algo mais. O que não tornava a sua atitude para comigo, e com os outros, menos desprezível.

Partirei depois de me alimentar. – Disse.

O pôr do sol havia sido cinco horas antes. Já tinha um enorme atraso em relação aos Primordiais, mas se saísse rapidamente dali ainda conseguiria cobrir uma boa parcela de terreno antes de amanhecer. Eles tinham de ter parado para descansar durante o dia, por isso o avanço não poderia ser assim tão grande.

Silenciosamente agradeci a falta da Omniua, a minha criadora. Não tinha saudades dela, ou da sua possessividade, e preferia sempre viajar sozinho.

Cornivar dispensou-me com um gesto vago de mãos, mas só virei costas quando ele desviou os olhos para os buracos na escarpa da montanha, fazendo as vezes de janelas sem vidros, por onde o vento gelado entrava sussurrando, como se até esse elemento da natureza tivesse medo do imortal.

Estava já junto das portas quando o ouvi chamar. Voltei-me uma vez mais e quase fechei os olhos, para tão cedo não os voltar a abrir. Sentia-me prestes a desfalecer. – Sim?

Quando isto terminar, quero-te de volta aqui. Nada de desvios. – Disse ele.

Mordi o interior da bochecha, silenciando um protesto ensurdecedor. Queria gritar e atirar-me ao pescoço dele. Naquele momento até o sangue ressabiado daquela aberração da natureza serviria para me saciar a sede. Se ao menos isso fosse suficiente para o matar, quantas vezes já não o teria aniquilado? Quantas vezes eu não tentara já?

A falta de poder é mesmo castradora. – Assim farei.

Sem esperar, incapaz de o olhar mais um segundo, quase parti a maçaneta com a força que empreguei para fechar a porta atrás de mim; e podia jurar que as paredes argilosas da montanha estremeceram, mas não era a montanha que tremia, era eu. Os meus músculos doridos vibravam com os nervos aprisionados e as palavras por dizer. Esfreguei vigorosamente as mãos nos olhos cansados e bati com os pés, à vez, no chão, recuperando controlo de um corpo que se encontrava mais frustrado que o próprio cérebro.

Quando ergui a visão cansada deparei-me com as sardas numerosas de Aaralyn e os seus brilhantes olhos vermelhos. – Sentiste a minha falta?

Não a deixei voltar a tocar-me. Afastei-me com um passo atrás e desviei a mão dela, já erguida, com um movimento rápido do braço esquerdo. - Nem por isso.

Pareci diverti-la pois esticou os lábios num sorriso que mostrou as suas presas em toda a sua glória. Naquele momento pouco a distinguia de um animal predatório. – Pois olha que eu senti a tua falta.

Olhei em volta. O corredor estava deserto, as portas todas fechadas e as tochas haviam-se apagado, não por obra do divino, certamente. Ela tinha uma preferência macabra pela escuridão.

Onde está o teu novo brinquedo? – Da última vez que saíra em missão, há mais de um mês, ela havia adquirido um novo brinquedo, um vampiro adulto, encorpado e com uns olhos tão negros que pareciam um poço sem fundo. E, acreditem, quando Aaralyn arranja um novo brinquedo não o larga até o ter estragado.

Encolhendo os ombros ela tentou aproximar-se uma vez mais. – O Cornivar mandou-o numa missão.

Não consegui evitar erguer um sobrolho. Cornivar nunca mandava novatos em missões. Eram demasiado instáveis e demasiado fracos, o que só podia significar uma coisa: o vampiro não era nem um novato, nem um fraco e isso significava que era um dos especiais. Qual seria o poder dele?, questionei-me silenciosamente.

Por instantes a curiosidade quase me distraiu e ela teve tempo de esfregar os dedos no meu pescoço. Saltei para longe dela e arreganhei-lhe os dentes. Estava a tornar-me um animal como ela.

Não me toques! - Sibilei.

Uma gargalhada escapou-se-lhe dos lábios. – Não sejas antissocial, Gabriel.

Vai chatear outro! - Virei-lhe costas e segui corredor abaixo, em direção à bifurcação.

Ela não me seguiu mas ainda ouvi a sua voz ao fundo. – Ainda vais implorar-me por atenção.

Quase rebentei a porta ao entrar na primeira à esquerda: a despensa temporária. O quarto tresandava a dejetos, suor, lágrimas e mofo. No seu interior escuro, algemados às paredes, separados uns dos outros, negados do mais básico contacto físico, estavam uma série de humanos. Homens e mulheres, de várias idades, e nenhuma criança, coisa que me agradou. Ao todo não eram mais de uma dúzia e nos seus olhos semicerrados pelo medo via-se a ausência de algo capaz de mover montanhas: esperança. Não há fé para quem é prisioneiro dos Primordiais. Não há salvação possível nem fuga possível.

Limpando o suor que se acomodava na minha testa, passei olhos fugazes por cada um dos humanos. Estavam bem nutridos mas mijados de medo. Em outras circunstâncias recusar-me-ia a morder o pescoço de qualquer um deles antes de lhes dar um banho de lixívia, mas não tinha tempo para ser picuinhas. Escolhi o que estava mais próximo da porta, um homem robusto, bem acima dos quarenta anos, de barbas rijas e braços fortes. Ele debateu-se quando lhe tirei as correntes e tentou fugir; tive de o parar com um par de murros e pontapés no estômago. Arrastei-o para o corredor e tranquei a despensa para abafar os gritos dos outros. Agarrei nos cabelos escuros do homem e atirei-o de cabeça contra a parede, deixando-o inconsciente. Só então me baixei para lhe desviar as barbas e os cabelos, perfurando-lhe a artéria carótida com os dentes e bebendo o sangue dele, avidamente, até à última gota, tentando controlar o impulso de vómito que acompanhou o fedor que envolvia o humano.

Capítulo 3

15 de janeiro de 2175, 12h40

A inveja era um sentimento que eu conhecia com certa familiaridade. Sentia inveja dos que seguiam as regras sem as questionarem, dos que não só agiam normalmente como o eram de corpo e alma, e sentia ciúmes dos que eram felizes apesar de tudo o que o mundo era. Às vezes sentia inveja até da Amilda, o que não deixava de ser vergonhoso. Sentia-o porque apesar de tudo pelo que passara, ela era das que conseguia ser feliz.

Agarrada ao Luigi, num abraço cheio do tipo de carinho que eu nunca quisera experimentar com qualquer homem na vida, os dois eram o que poderia apenas ser chamado de um casal inseparável. Unindo as testas e roçando gentilmente os narizes vermelhos pelo frio, riram-se exatamente da mesma forma que o faziam desde crianças. E se isso não era reconfortante, não sei o que o seria.

Infelizmente aquelas cenas amorosas davam-me uma vontade enorme de sair rapidamente do quarto, que apesar de ser grande o suficiente para albergar três camas, um guarda-fatos e duas cómodas (e deixar algum espaço para passear entre tudo), parecia absolutamente minúsculo e imensamente quente com aqueles dois aos abraços e sussurros.

Vou dar uma volta. – Disse, levantando-me.

A cabeça da Amilda levantou-se de imediato. – Não precisas ir-te embora.

Levantando um dos cantos da boca num sorriso trocista, disse-lhe. – Vou dar-vos algum espaço, pombinhos. Têm muito que praticar antes do casamento. – Valeu a pena só para ter o prazer de ver os rostos avermelhados dos dois antes de fechar a porta.

Distraída em sorrisos, quase embati na figura que apareceu à minha frente. Levantei os olhos e deparei-me com o rosto familiar da minha mãe. Estava com mais cabelos brancos, o que a fazia parecer ter setenta em vez de cinquenta e dois anos.

Está tudo bem? – Ela perguntava sempre aquilo. Era como o olá que ela tinha só para mim.

Tudo ótimo. – Estudei-lhe o rosto e vi como ela tentou relaxar sob o meu olhar, mas não funcionou. As rugas estavam demasiado vincadas e os olhos demasiado mortiços. – O que é que aconteceu?

Eles não me deram ouvidos.

Sobre a evacuação?

Em resposta, ela simplesmente anuiu. Sabia que ela tinha estado a manhã toda trancada com os homens e mulheres do Concílio, tentando convencê-los a evacuar o refúgio, tal como tinha feito nos dias anteriores. Desde que matáramos o espião, ela estava nervosa, e não era a única.

Já não sei mais que lhes dizer. Eles agem como se nada tivesse acontecido.

Pousei uma mão no ombro dela e sorri. – Mãe, esquece isso. Pode ter sido apenas coincidência, se calhar ele estava só à procura de uma presa fácil.

Nem tu acreditas nisso, meu anjo.

Encolhi os ombros e tentei parecer mais despreocupada do que estava na realidade. Já chegava eu ser paranoica, não precisava de deixar a minha mãe em constante estado de alerta.

Ela tocou-me nas bochechas com ambas mãos, sorrindo. – És a luz da minha vida.

E tu da minha. - Certas palavras já dizemos mais por hábito que por significado. Não que elas não sejam verdadeiras, simplesmente acabam por perder força a cada repetição.

As mãos dela escorregaram-me para os ombros e os seus olhos ficaram subitamente mais carregados, sem a beleza do azul cerúleo que me deixava sempre vidrada. – Estás preparada, meu anjo?

Hesitei em fazer a pergunta que ficara pendurada no ar. – Preparada para o quê?

Ela sorriu tristemente. – Para abrires as asas.

Por vezes achava que ela levava aquela analogia dos anjos um pouco longe demais. Há limites para as brincadeiras com o meu nome, até para a mulher que me trouxe ao mundo.

Onde queres chegar, mãe?

Naquele momento o facto de ela ser dez centímetros mais baixa que eu, nada fez para atenuar a intensidade do seu olhar ou a imponência da sua resolução. -