Nurion Starbringer: O Alvorecer do Mago Púrpura by R.L. Gomide - Read Online
Nurion Starbringer
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Summary

O que aconteceria se a mente fantástica de um jovem descobrisse uma forma de criar magia verdadeira usando a ciência moderna? E se esse experimento desse errado e ele fosse transportado para um mundo estranho, repleto de magia e batalhas épicas entre as forças do bem e do mal? Essas são as aventuras de Matthew Lorn, um jovem brilhante que acaba sendo levado ao mundo místico de Lafendel onde enfrentará vários desafios inimagináveis, tornando-se o mago mais poderoso que já existiu.

Published: R.L. Gomide on
ISBN: 9781311601094
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Nurion Starbringer - R.L. Gomide

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Autor

Capítulo 01

___________________

A Aventura Começa

Os primeiros raios de sol descem lentamente tocando as cortinas do quarto. Ao suave toque dos raios de sol matutinos, pequenas linhas de luz se formam, refletindo nas paredes, criando desenhos difusos, misteriosos. Assim que eles tocam seus olhos, sua mente começa o árduo processo de despertar, já que havia passado a maior parte da noite acordado, envolto em seus cálculos para que nada desse errado em seu grande dia.

O despertador começa a tocar, ‘triiiiiing... triiiiing…’, alto, barulhento, enlouquecedor, do jeito que tem que ser. Num pulo Matthew imediatamente se vê sentado em sua cama. Ainda com os olhos meio fechados, vermelhos e com a mente ainda naquele estado de incerteza, entre o dormindo e o desperto. Em sua mente ainda resistem os últimos pensamentos do sonho repleto de fórmulas, cálculos e códigos de computador a respeito daquilo que ele, arduamente, tem buscado nos últimos quatro anos como estudante de física do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Estes últimos quatro anos foram os mais árduos de sua vida. Dedicando-se totalmente aos estudos, abrindo mão dos momentos de lazer, do encontro com os velhos amigos. Apenas estudo e mais estudo. Mas tudo isso por uma boa causa, ele estava muito perto. Muito próximo da realização de um sonho que o acompanhara desde criança. E quando as primeiras descobertas feitas pela inovadora Ciência Noética apontaram a possibilidade, ele percebeu que seu sonho era possível de se tornar realidade. Só precisaria de alguém que se dedicasse de corpo e alma para alcançá-lo.

Ainda meio grogue de sono, Matthew se coloca de pé, rumo ao banheiro para tomar um banho. Só mesmo um banho para deixá-lo desperto o bastante para enfrentar o que lhe seria exigido neste dia. O grande dia de sua vida. O dia em que seu grande sonho se tornaria realidade. E se ele for bem sucedido, o mundo, bem como toda a humanidade, mudaria para sempre.

Enquanto toma seu banho, ele reavalia os últimos detalhes de suas fórmulas em sua mente. Tudo tem que estar perfeito. Nada pode dar errado hoje. Sua grande chance, já há um ano aguardada, chegara. Ele teria o acelerador de partículas todo para si esta noite. Muito trabalho ainda por ser feito para que tudo esteja pronto para o momento certo.

Matthew sai do banho, troca de roupa e segue rumo à cozinha para tomar o seu café da manhã. Caminhando pelo corredor ele se dá conta de que novamente está vestido todo de preto.

"Por que sempre termino usando preto?", pergunta para si.

A mente ainda perdida em seus pensamentos a respeito dos últimos detalhes do experimento de hoje. Rumo à cozinha, totalmente envolvo em suas considerações, ele acaba batendo o joelho numa cadeira.

"Aiaiaiai!", escapa de sua boca, enquanto ruma para a cozinha mancando para preparar o seu café da manhã. A dor conseguiu trazê-lo de volta a realidade. Ao invés de prestar atenção ao que ainda virá, ele agora foca no agora.

"Cadeira sem vergonha, filha da...", amaldiçoa para si enquanto abre as portas do armário da cozinha, retirando um pacote de pão de forma que comprara no dia anterior. Assaltando a geladeira, ele pega algumas fatias de queijo e presunto para preparar seu sanduíche. Na pia, ele carrega a cafeteira elétrica com água e pó de café. Fiel companheira de muitas e muitas noites mal dormidas. Presente de aniversário de sua irmã quando ele entrou para a universidade.

Enquanto aguarda que a máquina faça o seu café, ele se senta à mesa da cozinha. Ao se sentar ele percebe algo em seu bolso. Enfiando a mão dentro do bolso ele retira de lá uma maçã verde.

"Estranho... quando eu coloquei isso ai?", divaga Matthew, colocando a maçã sobre a mesa, ainda repleta de cadernos com anotações, fórmulas e esquemas rabiscados, bem como um plano estilizado do dispositivo que irá testar mais à noite.

"Se isso funcionar... não... quando isso funcionar...", comenta ele, enquanto olha para suas últimas anotações.

Seu notebook, no chão da sala, ainda está rodando a simulação iniciada quatro dias atrás. Ele se pergunta se conseguirá concluí-la a tempo. Embora não imprescindível, os dados seriam valiosos para ganhar tempo no processo de calibração do acelerador de partículas.

A cafeteira começa a fazer o barulho indicativo de que o seu café está pronto. Ele se levanta e começa a se servir de uma xícara quando, de repente, na tela distante do notebook, uma mensagem aparece seguida de um alarme avisando que a simulação está finalmente concluída. Tão inesperado foi o aviso que ele se atrapalha e acaba derramando café quente na mão.

"Ai ai ai, quente... queimando... ai ai ai...", amaldiçoa a si mesmo por ter se distraído.

Seus olhos inspecionam a mão que acabou de queimar por causa do café quente derramado acidentalmente. Aparentemente tudo em ordem, nada de grave. Só mesmo a ardência que irá lhe incomodar por algumas horas.

Matthew coloca a xícara na pia e corre em direção ao notebook para ver os resultados. Ele se abaixa, pega o notebook e se senta no sofá mais próximo. Os resultados da simulação são animadores, pois um grande sorriso se forma em sua face à medida que ele lê os dados que estão na tela.

"É isso!", exclama pulando de alegria.

Aquilo que ele buscava foi confirmado pela simulação que havia sido iniciada dias atrás. Tudo pronto para o grande dia. Agora, seguir para o laboratório para encontrar com o seu parceiro de pesquisa. Seu grande amigo de infância, Anthony. Ninguém mais seria louco o bastante para segui-lo naquela ideia. A maioria ainda acha que ele está louco de seguir adiante com aquele projeto. Mas ele sabe, no fundo de sua alma, que jamais esteve tão certo.

Para Anthony seria a oportunidade perfeita de bolar novos equipamentos. Ele sempre foi do tipo engenheiro. Sempre aperfeiçoando suas parafernálias eletrônicas para que atendessem às suas expectativas. Como da vez em que criou um controle remoto com o qual ele podia controlar não somente a TV da sala, mas também abrir e fechar as portas e janelas de seu apartamento. Realmente ele é um gênio no que tange tecnologia. E esse projeto do Matthew lhe daria a chance de poder desenvolver algo único que ninguém jamais havia pensado antes. Se alguém seria capaz de fazê-lo, esse alguém era ele. Matthew não confiaria algo tão importante a mais ninguém. Foi realmente um alívio quando Anthony concordou em ajudá-lo. Aliviado, ele sabia que as coisas realmente começariam a dar resultados.

Olhando no relógio da parede da sala ele percebe que já são 7h45 da manhã. Hora de ir para o laboratório. É uma viagem de uma hora do seu apartamento até o laboratório de física experimental que fica a alguns quilômetros fora da cidade. Ele vai até a cozinha, pega o sanduíche, o embrulha em um papel toalha e o enfia na mochila que está em cima da cadeira próxima à porta. Serve outro café, desta vez com cuidado para não se queimar, despejando-o em uma caneca feita para se levar no carro. Ele fecha a caneca e segue para a porta de entrada. Pega as chaves do carro no porta chaves à sua esquerda e deixa o apartamento, checando se a porta está devidamente trancada.

No elevador, descendo rumo ao estacionamento de seu prédio, ele confere se seus documentos estão dentro de sua carteira. Mesmo tendo tirado a carteira de motorista a anos, ele ainda acaba esquecendo os documentos na cômoda ao lado da cama de vez em quando. Fato este que lhe causou problemas com um guarda a cinco dias atrás. Quando foi parado em uma barreira policial e solicitado os documentos. Foi preciso correr até em casa para pegar os documentos. Sorte ter sido parado por um policial num bom dia, ou ele teria tido problemas. Claro que o fato disso ter ocorrido a dois quarteirões de sua casa ajudou bastante. O policial poderia ter lhe dado uma multa. Realmente a vida de um estudante universitário de vinte e poucos anos não é fácil.

As portas do elevador se abrem, finalmente no andar do estacionamento. Caminhando alguns metros ele chega até o seu carro. O banco de trás repleto de livros de física, matemática, química. Erguendo o chaveiro do carro ele aperta o botão para destrancá-lo. Ele ouve o tradicional ‘beep’ seguido do som das portas destravando. Ele entra no carro, fecha a porta e afivela o cinto. Enfia a chave na ignição e vira a chave.

"Identificação biométrica necessária.", diz o computador de bordo.

Um disco arredondado se ilumina com uma luz vermelha sobre o painel do carro. Estendendo o dedão da mão direita sobre o disco, a luz muda para uma cor verde.

"Identificação confirmada. Bom dia professor Matthew.", diz o computador de bordo.

No mesmo instante, o carro dá a partida, as janelas se fecham, o ar condicionado se liga, o rádio sintoniza na sua estação preferida. No para brisa surge um mapa holográfico indicando a localização do carro, juntamente com outros pontos de interesse, um deles é o do laboratório de pesquisa experimental.

"Favor informar o destino, professor Matthew.", questiona o computador.

"Uh, desejo ir até o laboratório de pesquisa experimental.", diz ele.

"Destino confirmado. Tempo estimado, sessenta minutos em velocidade de cruzeiro. Quinze minutos em supervelocidade. Em quanto tempo deseja chegar ao seu destino professor Matthew?", indaga o computador.

"Velocidade de cruzeiro está ótimo Sara. Nunca usei essa tal de supervelocidade. E nem Tony, e nem você vão me fazer usar. Só me leve até o laboratório, por favor.", responde ele.

"Perfeitamente professor Matthew. Só mostrando quais as opções de locomoção à sua disposição. Meus sensores indicam que a utilização de supervelocidade é perfeitamente segura, caso deseje experimentá-la.", responde o computador.

"Não, não, não, não. Velocidade normal está ótimo Sara. Obrigado!", responde.

Na tela holográfica uma linha vermelha se forma mostrando o trajeto de sua casa até o laboratório.

"Trajeto calculado. Direção automática ou manual?", pergunta o computador.

"Oh Deus, não, direção manual, como sempre Sara. Pode deixar que eu mesmo dirijo, obrigado!", responde Matthew, com uma voz trêmula.

"Como deseja professor Matthew. Direção manual ativada!", responde o computador.

Quando Anthony disse que lhe daria de presente um GPS para o carro, ele não achou que viria toda uma parafernália tecnológica junto. Seu carro agora parecia mais um ‘transformer’ do que um carro. Sara, o computador de bordo, sempre tenta fazer tudo pra ele. Embora ele já tenha o carro turbinado, como diz Anthony, há uns dois anos, ele jamais tentou usar os recursos mais avançados. Um deles, e o que lhe deixa com mais medo é justamente essa opção da supervelocidade. Por conta de Matthew, ele jamais irá utilizá-la. Saindo do prédio, seus pensamentos retornam à tarefa final que terá que realizar antes do grande momento de hoje à noite.

Com uma xícara de café numa mão e o jornal matutino debaixo do braço, Henry Barn, o vigia, caminha para a guarita dos laboratórios de física experimental do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Normalmente o trabalho de vigia dos laboratórios é entediante. Exatamente como ele gosta. Ficar sentado o dia todo em sua guarita, lendo o jornal, assistindo aos monitores que lhe mostram cada canto dos laboratórios. Desde os arredores até os corredores, deixando apenas o que acontece dentro dos laboratórios fora de seu alcance. Todo semestre ele formaliza um pedido solicitando a colocação de câmeras dentro dos laboratórios. Todo semestre seu pedido é indeferido. Aparentemente o que acontece dentro dos laboratórios não lhe diz respeito, mas ele continua tentando.

Sua vida como vigia é tranquila. Nada de extravagante ocorrendo. Apenas algumas brigas de um ou outro nerd que acabam discutindo. Fora isso, tudo segue calmamente, como deveria ser. Alguns minutos depois de se sentar em sua cadeira, ele ouve o som de um carro se aproximando. O relógio da parede mostra 7h15 da manhã. O carro adentra a guarita, parando logo em frente ao portão.

"Bom dia Henry!", diz Anthony.

Seu braço estendido mostrando o crachá de identificação.

"Bom dia Tony, chegando cedo hoje!?", responde Henry, esticando o braço com o leitor de dados para validar o crachá de identificação.

Ninguém entra na área da universidade sem um cartão de identificação. Para entrar a identificação deve ser autenticada por leitor de dados. Só assim o computador central do campus permite a entrada de quem quer que seja.

Enquanto Henry checa no monitor a liberação de acesso, Anthony pergunta "Henry, sabe me dizer se o Matt já chegou?".

"Ainda não o vi hoje.", diz Henry, sem tirar os olhos do monitor.

Assim que o crachá de identificação de Anthony é validado, uma luz verde bem grande se acende sobre a guarita. O portão eletrônico começa a se abrir sozinho e os pinos de metal no chão, daqueles feitos para furar os pneus, são baixados para permitir a entrada. Todo este esquema de segurança sempre despertou a curiosidade de Anthony, fazendo-o imaginar que tipo de experimentos são realizados dentro dos laboratórios.

"Acesso liberado Tony, tenha um bom dia.", diz Henry.

"Obrigado Henry. Grande dia hoje. Ainda tenho muita coisa para organizar até a noite. Tenha um ótimo dia amigo!", diz Anthony entrando com o carro rumo ao estacionamento.

"Um ótimo dia pra você também!", diz Henry acenando.

Momentos depois de Anthony entrar, a luz grande sobre a guarita volta à cor vermelha original, ouve-se então o som do portão eletrônico se fechando e dos pinos no chão voltando à posição original.

"Não sei o que passa na cabeça desses garotos. Acordando tão cedo num sábado. Na idade deles eu só saía da cama depois das dez da manhã.", resmunga pra si, abrindo o jornal matutino.

Anthony estaciona seu carro na vaga de sempre. Chegar cedo tem suas vantagens. Assim que sai do carro ele abre a porta traseira para pegar sua mochila. Nela está o seu notebook especial, uma de suas várias criações. Inteligente e brilhante, Anthony nunca está satisfeito com as coisas como elas são. Pra ele todo equipamento eletrônico pode e deve ser aperfeiçoado. Ele sempre dá seu toque especial às coisas. Seu notebook não poderia ser exceção. Ele fez algumas modificações que o tornam mais adequado às suas necessidades. Como a capacidade de poder detectar e emitir qualquer tipo de sinal de rádio à sua escolha. Ou projeção holográfica, o que é muito útil quando ele precisa analisar os esquemas dos protótipos de suas criações. Anthony é mais velho que Matthew, no auge de seus vinte e dois anos. Magro, alto, cabelo castanho comprido, com um rabo de cavalo preso nas costas.

Com a mochila pendurada em um dos ombros, Anthony fecha a porta do carro. Caminhando rumo ao laboratório número doze, onde ele e Matthew estão realizando seus experimentos, ele trava o carro apertando o botão do chaveiro. Ouve-se o som das portas trancando, seguido do ‘beep beep’ característico. Nisto, seu celular toca. Tirando o celular do bolso esquerdo ele vê na tela a foto de uma linda garota que ele conhece muito bem, Juliana Dant, sua namorada. Embora ele seja empolgado com os estudos e suas criações, sempre arranja tempo para ela. Estão juntos há três anos. Ela também é estudante, já nos últimos anos de odontologia.

"Bom dia amorzinho...", diz Anthony atendendo à ligação.

"Não me venha com amorzinho não senhor. Que história é essa de que não vai dar pra irmos ao cinema hoje à noite?", bombardeia Juliana.

Anthony faz uma careta entendendo que o e-mail enviado a ela na noite anterior não caíra muito bem.

"Amorzinhoooo, eu tenho que trabalhar hoje até tarde. Vou estar aqui no laboratório com o Matt. Vamos terminar o nosso experimento hoje à noite. Podemos sair amanhã, eu prometo que...", retruca Anthony numa voz suave, tentando amenizar o clima.

"Tony, eu queria sair com você hoje à noite. Está passando aquele filme que eu tanto queria ver. Você prometeu me levaaar...", responde Juliana com uma voz melosa, típica de garota fazendo charminho.

"Eu sei amorzinho, prometo que te levo ao cinema amanhã. Hoje eu não poderei ir. Não posso deixar o Matt na mão. Afinal, é nosso projeto de conclusão de curso. O nosso grande momento, a hora em que..., tenta explicar Anthony, sendo interrompido por Juliana, dizendo, Tá, tá, eu entendi. Não vou ficar te chateando não. É que estou com saudades. Já faz um tempão que a gente não se vê. Você está fugindo de mim, heim!!".

"Oh amorzinho!? Tempão sem me ver? Não almoçamos juntos ontem?", replica Anthony.

"Mesmo assim, mais de oito horas sem te ver já é uma eternidade. Para de me enrolar. Quero te ver o mais breve possível. Vou combinar com algumas amigas para assistirmos um filme lá em casa então. Boa sorte pra você e pro Matthew. Diz que mandei um beijo pra ele.", diz Juliana.

"E eu amorzinho? Não ganho beijinho não?", indaga Anthony.

"Não. O seu eu quero te dar quando a gente se encontrar pessoalmente. É o seu castigo por não me levar ao cinema hoje à noite, seu bobo. Te amo!", retruca Juliana, com um tom risonho na voz.

"Também te amo amorzinho. Desculpe por hoje. Prometo de te compenso amanhã. Divirta-se com suas amigas.", responde Anthony, aliviado.

Ele desliga o celular, recolocando-o de volta no bolso esquerdo da calça com um sorriso estampado no rosto. O relacionamento com a namorada vai bem. Os dois se gostam bastante e têm sido o apoio, um para o outro, nos momentos difíceis nestes últimos anos de faculdade. Enquanto caminha até a porta do laboratório, ele se lembra do almoço de ontem, onde ele havia combinado de levar Juliana ao cinema. Ele havia se esquecido completamente.

Em frente à porta do laboratório, Anthony passa seu cartão de identificação no lacre eletrônico. Um ‘beep’ seguido de uma luz verde revela um círculo onde ele coloca o dedão da mão direita. Outro ‘beep’ e a trava da porta se abre, seguido de uma voz feminina com ar computadorizado, "Identificação reconhecida. Acesso permitido. Bom dia professor Anthony!".

Geralmente a única trava nas portas dos laboratórios é o cartão de identificação. Mas Anthony fez algumas modificações personalizadas por conta própria. Além do cartão de identificação, é necessária autenticação biométrica. Matthew sempre reclama dizendo que Sara, a inteligência artificial do computador do laboratório criada por Anthony nunca o reconhece. Anthony resolveu o problema dizendo a Matthew para esfregar o dedão antes de colocá-lo no painel. E, de fato, parece ter resolvido. Embora o esquema de segurança adicional cause algumas dores de cabeça para Matthew, ele reconhece que segurança extra para o projeto é sempre uma coisa boa. Afinal, com o que eles estão lidando, toda segurança extra é muito bem-vinda.

Sentado em sua cadeira, Henry lê a sessão de esportes do seu jornal matutino.

"Esse time maldito não vai ganhar nunca?", retruca para si com cara feia.

Sua leitura é interrompida pelo som de um carro se aproximando do portão dianteiro. O relógio da parede mostra 9h08. O carro para, os vidros se abrem. De dentro do carro sai uma voz conhecida.

"Como vai Henry?", exclama Matthew.

"Oh, é você Matt? Bom dia.", responde Henry, esticando o leitor para validar o crachá de Matthew.

"Henry, sabe me informar se o Tony já chegou?", pergunta Matthew.

Enquanto isso, a luz vermelha sobre a guarita muda para a cor verde, o portão começa a se abrir e os pinos do chão são recolhidos.

"Tudo certo Matt, pode entrar. Sim, ele chegou cedo hoje, já perguntando por você. Eu não sei o que vocês garotos estão aprontando tão cedo num sábado. Na minha época a gente só saía da cama depois das 10h. O que vocês dois estão aprontando, heim?", responde Henry.

"Ah maravilha. Ainda temos muito o que fazer. Segredo de estado meu caro Henry, segredo de estado!", retruca Matthew com um sorriso no rosto.

Matthew entra com o carro rumo ao estacionamento. Alguns momentos depois dele entrar, a luz sobre a guarita retorna à cor vermelha e o portão começa a se fechar e os pinos no chão começam a subir novamente.

Matthew passa pelo carro de Anthony, visivelmente intrigado em como ele sempre consegue pegar a mesma vaga todos os dias. Ele segue mais adiante até encontrar uma vaga livre. Ele estaciona o carro na vaga, desliga o veículo e deixa o carro. Ao fechar a porta dianteira, ele segue rumo a porta traseira. Abre a porta e começa a pegar alguns livros, assim como o notebook com os resultados da simulação concluída logo cedo. Assim que fecha a porta traseira do seu carro, com livros e o notebook nas mãos, ele estende o chaveiro do carro e o tranca, ouvindo o barulho característico do ‘beep beep’.

Ele se vira rumo a entrada do complexo onde fica o laboratório doze e começa a caminhar. Poucos minutos depois, ele ouve o som de um carro sendo trancado. Ele vira o rosto na direção do som e eis que ali está Paul Mikasaki. Ele e Matthew não se dão muito bem. Existe uma rivalidade intelectual muito grande entre os dois. Matthew conhece Paul há muito tempo, desde a época do colégio. Já naquela época, os dois sempre competiram pelas melhores notas da escola, pelos melhores projetos de ciências e pelas melhores colocações nas competições esportivas. Matthew sempre gostou de esportes. Na época do colégio ele já estudava artes marciais e sempre participou de competições. Até hoje ele ainda pratica kung fu e Karatê. Hoje ele já ostenta o último nível de kung fu Shaolin e é faixa preta em Karatê-dô.

Para Paul, a vocação era outra. Sempre gostou de natação e tênis, e sempre competia com Matthew pelas medalhas e troféus nas competições pela escola. Essa competição entre os dois cresceu com o passar dos anos, à medida que ambos se acostumavam a sempre estar um passo à frente do outro. Quando foram chamados para a mesma faculdade essa rivalidade cresceu ainda mais. Desde as competições escolares pelo melhor projeto de ciências, tanto Paul quanto Matthew passaram a se esforçar cada vez mais. Paul desenvolveu uma predileção pela física convencional, enquanto Matthew já vislumbrava possibilidades infinitas nas novas descobertas da ciência. Sempre gostou das reviravoltas que as pesquisas de vanguarda causam na comunidade científica.

Para Matthew, era um erro pensar que a humanidade já tenha conhecimento suficiente para um entendimento amplo dos mistérios do universo. Já Paul considera que o conhecimento é uma construção, que os fundamentos nos quais a física moderna se baseia são suficientes para que a humanidade evolua sem maiores problemas. Devido a esta diferença de opiniões, ambos têm travado uma disputa ferrenha. Tanto Matthew quanto Paul têm publicado artigos e apresentado projetos e experimentos para provarem que estão corretos em suas afirmações. Essa competição entre os dois chegou ao ponto de ambos disputarem a mesma bolsa de financiamento para projetos de conclusão de curso. Esta bolsa incluía o acesso a um acelerador de partículas para corroboração de dados. Privilégio concedido a poucos, ainda mais para estudantes em final de curso.

Justamente devido à originalidade e probabilidade de sucesso de ambos os projetos, tanto Matthew quanto Paul receberam as bolsas. Mais uma vez, os dois estão competindo como nos velhos tempos de colégio. A diferença agora é que Matthew realmente crê em suas ideias e está determinado a alcançar os resultados desejados. Enquanto para Paul, tudo não passa de uma forma de ultrapassar Matthew mais uma vez.

"Hora, hora, se não é o infame Matthew Lorn? Preparado para ficar comendo poeira novamente Matthew?", tempesteia Paul.

"Paul Mikasaki. Só podia ser você mesmo. Acordado tão cedo? O que foi que houve, a cama te expulsou?", rebate Matthew.

"Hoje é o dia em que a verdade será mostrada. Vou mostrar pra você e para o resto dos eruditos da física que eu estou certo e você errado. Como se suas ideias malucas sobre mecânica quântica fossem trazer alguma luz ao entendimento do universo.", acusa Paul.

"Paul, você nem consegue entender o que é mecânica quântica, ainda mais vislumbrar o que ela pode trazer de iluminação à compreensão do universo. O cosmos é muito mais amplo e complexo do que você, ou qualquer um imagina. Se não abrirmos nossas mentes às novas possibilidades que estamos apenas começando a descobrir, não vamos conseguir avançar em nossos estudos sobre a origem daquilo que nos rodeia. Mentes jovens, jovens ideias.", explica Matthew.

"Matthew... Matthew... Lá vem você com a fantasia novamente. Foi a ciência convencional que nos trouxe até onde estamos hoje. É graças a ela que temos o nível tecnológico atual. Ela nos levou à Lua e agora vai nos levar até Marte. Fatos concretos, ciência de verdade, não esses contos de fadas aos quais você se apega. Você tem uma mente talentosa, mas a desperdiça com bobagens. Não entendo como você conseguiu a mesma bolsa que eu. Professor Thompson deve ter cochilado na hora de assinar as recomendações, só pode ser isso.", retruca Paul.

"O Professor Thompson me deu a bolsa por também acreditar que a ciência se beneficia de novas abordagens, não somente do convencional. É a mudança que nos permite crescer e evoluir.", responde Matthew.

"Pelo menos tiveram a decência de não colocá-lo no centro Mikasaki. Afinal, aqueles laboratórios são para pesquisa de verdade, não essa besteira de física quântica e ciência noética.", rebate Paul.

"Paul, se formos realmente considerar o merecimento, você também não estaria lá. Afinal, você está no Centro Mikasaki justamente por ser filho do homem que doou o prédio à universidade. Acho que isso não tem nada a ver com a sua pesquisa. Mas essa é a minha opinião. Eu realmente não ligo para essas coisas. As minhas instalações são apropriadas para aquilo que preciso. Não tenho necessidade de ostentação, só desejo concluir meus estudos e finalizar minha pesquisa.", responde Matthew.

"Acho que essa conversa não vai levar a lugar algum. Eu tenho muito o que fazer hoje. Ao contrário de você que terá que esperar até o anoitecer, eu tenho um encontro marcado com um acelerador de partículas. Com certeza terei minha pesquisa publicada bem antes de você. Pode ir se acostumando com a obscuridade, pois ninguém prestará atenção na sua pesquisa depois que lerem a minha. Boa sorte hoje à noite Matthew, você vai precisar.", finaliza Paul.

Dando as costas a Matthew e saindo andando rumo ao Centro Mikasaki, Paul faz uma cara irritada, incomodado com as palavras ditas por Matthew. De alguma forma, as palavras dele o deixam desconfortável. Mas lá no fundo aquilo que mais o irrita é a aptidão eidética de Matthew. O fato dele ter memória eidética, mais comumente conhecida como memória fotográfica, sempre lhe deu vantagem sobre Paul. Vantagem esta que, por mais que ele se esforçasse, nunca poderia se igualar. Afinal, ser capaz de se lembrar com perfeição de tudo aquilo que tenha aprendido, mesmo que por poucos segundos, era algo que Paul jamais seria capaz de igualar. Até ele se espantava quando, nas aulas de literatura, a professora pegava Matthew distraído dentro de sala e, para puni-lo, lhe mandava recitar o trecho de Shakespeare que ela acabara de ler.

A professora ficava mais irritada quando ele não somente recitava o trecho solicitado, mas, também, continuava recitando o restante da peça sem ao menos virar o rosto para ela. No intervalo ele ouvia Matthew dizer aos colegas que a matéria de literatura era muito chata, por isso ele havia memorizado todas as obras que seriam abordadas naquele ano naquela matéria. Desta forma ele poderia ficar fazendo outras coisas além de ficar recitando textos de gente morta. A mesma proeza era vista em todas as outras matérias, o que acaba sempre colocando Matthew em apuros.

Mais profundo ainda, além da inveja que Paul sentia de Matthew por tudo o que este era capaz de fazer e ele não, o profundo respeito que ele sentia por Matthew o deixava confuso e perplexo. Essa confusão de sentimentos acabou culminando numa competição aguda na esperança de, eventualmente, o esforço vencer o dom nato. Para Paul, sua pesquisa de metamateriais é o verdadeiro futuro da física moderna. Seu metal especial capaz de se reparar sozinho possui implicações em diversas áreas, da mecânica à exploração espacial. Seria o seu grande triunfo sobre Matthew.

Olhando Paul caminhando ao longe, Matthew balança a cabeça, desapontado com a falta de visão de seu rival. A competição entre os dois, que antes era algo motivador, atualmente tem tomado a forma de uma competição invejosa. Infelizmente não há nada que Matthew possa fazer, apesar de seus esforços para apaziguar os ânimos entre os dois. Ele começa a se recordar da primeira vez em que se conheceram. Quando ambos participaram de uma competição juvenil de xadrez. A partida final foi entre os dois. Contando com um destaque nos jornais locais, com uma foto grande estampada mostrando os dois sentados um de frente para o outro, ambos com uma mão no queixo e cara de quem está raciocinando sobre o próximo movimento. A disputa dos dois ficou famosa justamente porque o nível do jogo foi bastante alto. Com alguns mestres de xadrez dizendo que tal disputa estava ao nível de Alexandra Kosteniuk, campeã mundial russa de xadrez de 2008. A partida acabou terminando com um empate técnico, depois de praticamente seis horas de disputa. Conformado com a situação, Matthew continua rumo ao laboratório doze.

Em frente à porta do laboratório, Matthew desliza seu crachá de identificação pelo lacre eletrônico. Ouve-se o som de um beep e uma luz verde se acende ao redor de um painelzinho ovalado. Ele tenta abrir a porta, mas a porta não se abre. Ao tentar abrir a porta uma voz feminina computadorizada anuncia, "Identificação biométrica é requerida para acesso ao laboratório. Favor identificar-se!".

Matthew arregala os olhos quando percebe que Anthony instalou mais um dispositivo de segurança no laboratório. Só este mês já é o terceiro dispositivo extra de segurança que barra o seu acesso ao laboratório. Ele então repete o procedimento inicial com o crachá de identificação. Assim que ele ouve o beep e o painelzinho ovalado fica verde, ele posiciona o dedão da mão direita sobre ele. Alguns segundos depois a mesma voz feminina computadorizada anuncia, "Identificação reconhecida. Acesso permitido. Bom dia professor Matthew!".

Neste instante, como num raio, a iluminação o atinge e ele reconhece a voz que lhe é tão familiar.

"Sara?", exclama Matthew.

Sem esperar por uma resposta, subitamente o computador responde, "Sim professor Matthew? Em que posso ajudá-lo?".

"Sara, é você mesma? Agora você também vigia a porta do laboratório?", questiona Matthew.

"Afirmativo. Nova atribuição implementada pelo criador está em vigor!", responde Sara.

"Sara, você pode me ver aqui em frente à porta do laboratório?", pergunta Matthew.

"Afirmativo. Reconhecimento visual 100% operacional professor Matthew!", retruca Sara.

"Sara, se você pode me reconhecer, por que não abriu logo a porta do laboratório pra mim? Não acho que exista outro Matthew Lorn com a minha aparência por ai!?", reclama Matthew.

"Nova diretiva, implementada pelo criador, visa prevenir acesso não autorizado ao laboratório de qualquer um tentando se passar pelo criador ou por você. Reconhecimento biométrico agora é uma exigência para acesso ao laboratório. Se esta nova medida de segurança lhe parece desnecessária, sugiro uma audiência com o criador para discussão a respeito professor Matthew!", responde Sara.

"Ok, ok, eu converso com Tony a respeito disso. Obrigado Sara.", retruca Matthew.

Abrindo a porta do laboratório, ele entra, fechando a porta atrás de si.

Capítulo 02

___________________

Die Glocke

Ao entrar no laboratório, Matthew se dirige para a sua mesa. Empolgado ele já não via a hora de abrir seu notebook e descarregar os dados da simulação para o computador central. Quando Matthew convidou Anthony para participar do projeto, Anthony ficou muito empolgado. Seria a oportunidade para ele colocar em prática suas ideias não convencionais de computação, mecânica e eletrônica. Como estudante de mecatrônica avançada, com uma mente privilegiada e repleta de criatividade, Anthony tinha acesso a uma grande variedade de conhecimento na área de eletrônica e mecânica.

Quando Matthew lhe disse sobre o que ele deseja fazer, quais os resultados ele buscava obter e as maravilhas que poderiam ser criadas para o usufruto do mundo todo, seus olhos brilharam de ansiedade. Anthony teria a oportunidade de desenvolver algo inovador, que nenhum outro cientista fizera antes. Mais do que isso, o que lhe motivara realmente era saber que suas ideias, por mais extravagantes e não convencionais, sempre eram entendidas por Matthew. Como bons amigos, os dois sempre foram um ponto de apoio um para o outro. Para eles, era simplesmente natural trabalharem juntos em um projeto como aquele.

Algo peculiar em relação aos dois era o fato de que sempre que ambos estivessem envolvidos em qualquer projeto que fosse, sempre alcançavam seus objetivos. Não importando quão complexo ou trabalhoso, por pior que as estatísticas apontassem gigantescas chances de fracasso, juntos, sempre triunfavam. Este fato os uniu de tal forma que um conseguia concluir o pensamento do outro quando estavam com a mente profundamente imersa num único objetivo.

Anthony sempre foi um apaixonado por tecnologia. Para ele a tecnologia deveria ser usada para melhorar a vida das pessoas, independente de dinheiro ou interesses escusos. Para Anthony, a humanidade já alcançara a capacidade tecnológica de sustentar a todos os seres humanos do planeta. Se o mundo se unisse, seria capaz de prover tudo para todos e de graça. Seus projetos de geração de energia limpa, renovável e a baixos custos eram sempre recusados pelas grandes corporações que diziam não haver lucro suficiente. Em outras palavras, se não puderem lucrar às custas das pessoas, por maior que seja o bem que aquilo trará ao mundo, jamais será feito. Agora, com Matthew, não haveria jeito dos grandes poderes dizerem não às mudanças que os dois trariam ao mundo.

Assim que Matthew chega a sua mesa, ele abre sua mochila, retirando o notebook e o colocando sobre ela. Ao enfiar a mão dentro da mochila para pegar seu sanduíche e o caderno de anotações, ele acaba pegando algo inusitado. Tirando de dentro da mochila ele percebe que acabou pegando uma maçã verde.

"Estranho... eu não me lembro de ter colocado isso aqui.. como foi que...", divaga Matthew colocando a maçã sobre a mesa.

Ele então enfia a mão dentro da mochila novamente para pegar o sanduíche e o caderno de anotações. Enquanto o aparelho inicializa, ele segue rumo a mesa de Anthony.

"Bom dia Tony. Empolgado tanto quanto eu?", pergunta Matthew.

"Mas é claro que sim Matt. Hoje será um dia grandioso. Já conclui o restante da programação e estou fazendo alguns últimos ajustes no sistema. Agora só falta definirmos a semântica que iremos usar para dar comandos.", responde Anthony, empolgado.

"Semântica? Como assim?", indaga Matthew.

"Sim, precisamos de um idioma para poder nos comunicar com o programa assim que ele estiver instalado e operando. Não podemos usar qualquer coisa. Muito menos o nosso próprio idioma. Tem que ser algo especial, algo único, que somente pessoas especiais, cultas, estudadas, com um profundo autocontrole e desejo de auto crescimento...", começa a responder Anthony, olhando para Matthew.

Nisto, ao mesmo tempo, ambos exclamam juntos, "Vulcano!".

"Sim, sim, sim, o idioma do Sr. Spock, perfeito.", repete Anthony pra si mesmo.

"Tony, hoje de manhã, enquanto tomava meu café da manhã, a simulação foi concluída. Já tenho os dados no meu notebook. Carregue-os no computador central para que possamos acrescentar os resultados ao nosso simulador 3D. Creio que precisaremos rodar alguns diagnósticos no mecanismo de reverberação quântica, para termos certeza de que tudo está cem por cento.", diz Matthew.

"Sim, eu já concluí os diagnósticos preliminares. Com esses resultados que você gerou, vamos conseguir refinar o que faltava. Acho que estamos prontos para iniciar os últimos ajustes. Resolvi o problema do fluxo de energia e creio que agora a potência necessária para a máquina será alcançada sem problemas.", responde Anthony.

"Então você conseguiu concluir a peça que faltava para o gerador?", pergunta Matthew.

"Sim, deu um pouco de trabalho. Tive que pedir alguns favores ao meu pai, mas consegui sim., responde Anthony. Matt, como anda o seu vulcano? Ainda se lembra de como brincávamos de conversar em vulcano quando crianças?", questiona Anthony, com um sorriso sarcástico.

"Buhfik!", responde Matthew, dizendo ‘perfeito’, em vulcano.

Ainda com o sorriso sarcástico no rosto, Anthony termina de introduzir o dicionário de palavras do idioma vulcano no programa. Ele sempre gostou da série de TV Star Trek. Matthew e ele sempre assistiam juntos. Gostavam tanto que eram até membros do fã clube, chegando a aprender os idiomas vulcano e klingon. A brincadeira preferida dos dois era conversar em vulcano dentro de sala de aula, sempre que queriam conversar em particular. Algumas vezes se esqueciam completamente que estavam conversando em vulcano, totalmente alheios às demais pessoas presentes. Além deles, boa parte dos colegas do Clube Treker também falavam o idioma, o que lhes rendia boas horas de divertimento.

"Muito bem, dicionário Vulcano inserido no sistema. Agora vamos fazer alguns testes. Primeiro temos que definir o comando inicial para que o programa possa reconhecer a entrada da programação mental a ser implementada, então o comando final para que ele possa saber quando terminamos de inserir a visualização. Desta forma, ele irá executar exatamente aquilo que desejamos.", diz Anthony.

"Perfeito, podemos usar ‘Poprah Khartau’ para iniciar a visualização e então ‘Fitor’ para concluir.", responde Matthew, dizendo ‘receber comando’ e ‘executar’ em Vulcano.

"Gostei, vou introduzir isso aqui!", diz Anthony digitando os comandos.

"Tony, outro ponto importante. Não podemos ficar limitados a comandos de voz. O programa tem que ser capaz de receber os comandos mesmo que seja só via pensamento.", alerta Matthew.

"Claro, claro. Afinal, não seria de grande valia se existir um jeito de nos impedir de dar comandos. Eu já havia pensado nisso também. Vamos nos comunicar com o programa via ondas mentais. Eu até imagino, entrando um pouco em sua área, que mesmo que não exista mais corpo, se a consciência ainda existir, ela seria capaz de dar comandos da mesma forma.", responde Anthony.

"Sério? Seria possível mesmo?", questiona Matthew.

"Não vejo porque não, afinal, a única limitação é uma consciência pensante. Ter ou não um corpo físico é irrelevante. Se o padrão mental existir, ele vai aceitar o comando. Fico até meio assustado com todas as possibilidades disponíveis caso essa sua ideia maluca realmente funcione.", responde Anthony.

"Como vamos impedir que qualquer outra pessoa que também fale Vulcano possa usar o programa?", indaga Matthew.

"Bem, eu codifiquei o seu padrão de onda como administrador. Sendo assim, ele só responderá ao seu comando. De mais ninguém.", responde Anthony.

"Não acho uma boa ideia deixar apenas uma única pessoa com acesso. Melhor incluir você também. Caso alguma coisa aconteça comigo ou com você, sempre haverá alguém na retaguarda para dar apoio.", explica Matthew.

"Muito bem, vou me adicionar então. Caso no futuro, você deseje dar acesso ao programa para outras pessoas, você poderá fazê-lo sozinho, só usando seus pensamentos.", diz Anthony.

Depois de duas horas, analisando os prós e contras das principais formas de utilização e execução de comandos, os dois estão prontos para realizarem os primeiros testes práticos utilizando um simulador 3D que Matthew desenvolveu especialmente para este momento.

"Tony, tudo certo aqui. Já terminei de conectar o meu simulador 3D com a matriz do programa. Agora vamos tentar alguns comandos.", exclama Matthew.

Com Anthony de pé ao seu lado, Matthew começa a formular alguns comandos para testar a reação num mundo real simulado em 3D. Ele tenta vários comandos e os resultados são animadores. Após alguns pequenos erros de interpretação dos comandos, nada grave que não possa ser consertado, a rotina de interpretação está finalmente completa.

Anthony tenta alguns comandos malucos para testar a reação do programa. Depois de estar