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O Soberbo Orenoco

O Soberbo Orenoco

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O Soberbo Orenoco

Duração:
432 páginas
6 horas
Editora:
Lançados:
Oct 5, 2015
ISBN:
9788893159098
Formato:
Livro

Descrição

Três amigos geógrafos decidem iniciar uma aventura pelas águas do Orenoco a fim de conhecerem os seus afluentes e a sua nascente. Não tardará a que mais dois elementos se juntem ao grupo: o sargento Marçal e seu sobrinho João, que procura o pai misteriosamente desaparecido alguns anos antes...
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Oct 5, 2015
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9788893159098
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Sobre o autor


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O Soberbo Orenoco - Julio Verne

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PRIMEIRA PARTE — O FILHO DO CORONEL

Capítulo 1 — Miguel e os Seus Dois Colegas

— Verdade, verdade, não vejo meio de se pôr termo a essa discussão — disse Miguel, procurando intervir entre os dois ardentes contraditores.

— Pois bem, não acabará — respondeu Filipe. — Nanja pelo sacrifício da minha opinião à de Varinas.

— Nem pelo abandono das minhas ideias em favor de Filipe! — replicou Varinas.

Havia já três boas horas que aqueles sábios caturras disputavam, sem cederem sequer um passo, sobre a questão do Orenoco. Este rio célebre da América Meridional, principal artéria da Venezuela, correria, na primeira parte do seu curso, de leste para oeste, conforme o estabeleciam as mais recentes cartas, ou viria do sudoeste? Neste caso, não seria erro considerar o Guaviare ou o Atabapo como seus afluentes?

— O Atabapo é que é o Orenoco — afirmava energicamente Filipe.

— É o Guaviare — contestava com igual energia Varinas.

Quanto a Miguel, a sua opinião era a adotada pelos geógrafos modernos. Em seu parecer, as origens do Orenoco ficam situadas naquela parte da Venezuela que confina com o Brasil e com a Guiana Inglesa, de modo que o rio é venezuelano em todo o seu percurso. Debalde, porém, tentava convencer os seus dois amigos, que, de resto, se contradiziam num outro ponto de não menor importância.

— Não — repetia um —, o Orenoco tem a sua origem nos Andes colombianos, e o Guaviare, que os senhores pretendem que seja um afluente, é nem mais nem menos que o Orenoco, colombiano no seu curso superior, venezuelano no seu curso inferior.

— Erro — contestava o outro —, é o Atabapo que é o Orenoco, e não o Guaviare.

— Pois, meus amigos — acudiu Miguel —, eu prefiro acreditar que esse rio, um dos mais belos da América, não banha outro país que não seja o nosso!

— Não se trata de uma questão de amor-próprio — replicou Varinas —, mas de uma verdade geográfica. O Guaviare...

— Não... o Atabapo — gritou Filipe.

E os dois adversários, levantando-se vivamente, fitaram-se com rancor.

— Então, meus senhores, então! — acudiu Miguel, excelente homem, e, de seu natural, muito conciliador.

Na parede da sala, então perturbada pelo ruído desta discussão, estava suspenso um mapa. Nele, marcada a grossa pontuação, desenvolvia-se a área de novecentos e setenta e dois mil quilómetros de superfície do Estado hispano-americano da Venezuela, como a tinham modificado os acontecimentos políticos, desde o ano (1499) em que Hojeda, o companheiro do florentino Américo Vespúcio, desembarcando no litoral do golfo de Maracaíbo, descobria uma aldeola assente sobre estacaria, em meio de lagoas, e lhe dava o nome de Venezuela ou «Pequena Veneza»! Depois da guerra da Independência, de que Simão Bolívar foi o herói, depois da fundação da capitania-geral de Caracas e após a separação operada em 1839 entre a Colômbia e a Venezuela — separação que tornou esta última em república independente — o mapa representava-a tal como a estabeleceu o Estatuto fundamental. Linhas coloridas separavam o distrito do Orenoco em três províncias: Barinas, Guiana e Apure. O relevo do seu sistema orográfico, as ramificações do seu sistema hidrográfico, acusavam-se ali nitidamente, em múltiplos traços, com a teia dos seus grandes e pequenos rios. Via-se ali desdobrar-se sobre o mar das Antilhas a sua fronteira marítima, desde a província de Maracaíbo, tendo por capital a cidade do mesmo nome, até à foz do Orenoco, que a separa da Guiana Inglesa.

Miguel mirava esse mapa, que incontestavelmente lhe dava razão contra os seus colegas Filipe e Varinas. Precisamente na superfície da Venezuela, um grande rio, minuciosamente desenhado, traçava o seu elegante semicírculo e, tanto na primeira curva, onde recebe as águas de um afluente, o Apure, como na segunda, onde o Guaviare e o Atabapo lhe confiam as das Cordilheiras andinas, unicamente o batizava em todo o seu percurso o nome magnífico de Orenoco.

Porque, pois, se obstinavam Varinas e Filipe em procurar as origens desse curso de água nas montanhas da Colômbia e não no maciço da serra Parima, vizinha do monte Roraima, gigantesco marco miliário, da altura de trezentos metros, sobre o qual se apoiam os ângulos desses três Estados da América do Sul: a Venezuela, o Brasil e a Guiana Inglesa?

Convém notar que não eram esses dois geógrafos os únicos a professar semelhante opinião. Não obstante as asserções de ousados exploradores, que subiram o Orenoco quase até às suas origens, Diaz de la Fuente em 1760, Bobadilla em 1764, Roberto Schomburgk em 1840; apesar do reconhecimento operado pelo francês Chaffanjon, esse audacioso viageiro, que desfraldou o pavilhão francês nas encostas da Parima, que ressuma as primeiras gotas de água do Orenoco —sim! mau grado comprovações, que parecia serem decisivas, a questão ainda não estava resolvida para certos espíritos tenazes, discípulos de S. Tomé, tão exigentes em matéria de provas como aquele antigo patrono da incredulidade.

Entretanto, pretender que tal questão apaixonava a população nessa época — ano de 1893 — seria incorrer em pecado de exageração. Que, dois anos antes, ela se tivesse interessado na delimitação de fronteiras, quando a Espanha, escolhida para árbitro, fixou os limites definitivos entre a Colômbia e a Venezuela, compreende-se. O mesmo sucederia se se tratasse de uma expedição que tivesse por fim determinar a fronteira ao longo do Brasil. Mas, de entre dois milhões duzentos e cinquenta mil habitantes, que compreendem trezentos e vinte e cinco mil índios «domesticados» ou independentes no meio das suas florestas e savanas, cinquenta mil negros, depois mesclados pelo sangue de mestiços, brancos, estrangeiros ou parangos ingleses, italianos, holandeses, franceses e alemães, é indubitável que só uma ínfima minoria poderia apaixonar-se por essa tese de hidrografia. Em todo o caso, havia pelo menos dois venezuelanos, Varinas, para reivindicar os direitos do Guaviare, Filipe, para sustentar os do Atabapo, a chamarem-se Orenoco, sem contar alguns partidários que, dada a ocasião, lhes prestariam reforço. Não vá, todavia, supor-se que Miguel e os seus dois amigos fossem velhos sábios, incrustados de ciência, calvos e de barba branca. Não! Sábios, eram-no eles e gozavam todos três de consideração merecida, que ultrapassava as fronteiras do seu país. O mais idoso, Miguel, contava quarenta e cinco anos; os outros dois tinham alguns anos menos. Homens de grande viveza, muito demonstrativos, não desmentiam a sua origem vasconça, que é também a do ilustre Bolívar e da maioria dos brancos naquelas regiões da América Meridional, tendo por vezes um pouco de sangue corso e de sangue índio nas veias, mas nem um glóbulo sequer de sangue negro.

Esses três geógrafos encontravam-se todos os dias na Biblioteca de Ciudad Bolívar. Uma vez ali, por mais decididos que estivessem a não recomeçar, deixavam-se cair numa discussão interminável acerca do Orenoco. Mesmo depois da exploração, tão concludente, do viajante francês, os defensores do Atabapo e do Guaviare obstinavam-se em persistir na sua opinião.

É o que se viu por algumas réplicas narradas no começo desta história. A discussão prosseguia, cada vez mais acesa, a despeito de Miguel, impotente para moderar a vivacidade dos seus dois colegas.

Era, no entanto, Miguel uma personagem que impunha respeito, com a sua alta estatura, a sua nobre figura aristocrática, a sua barba castanha, onde alguns cabelos prateados alvejavam, a autoridade da sua situação, e o chapéu tromblom, com que, a exemplo do fundador da independência hispano-americana, se cobria.

Nesse dia, Miguel não cessara de repetir, com uma voz cheia, calma e penetrante:

— Não vale zangar, meus amigos! Quer corra do oriente, quer do ocidente, nem por isso o Orenoco deixa de ser um rio venezuelano, o pai das águas da nossa república...

— Não se trata de saber de quem ele é pai — acudiu o ardente Varinas —, mas de quem é filho, se nasceu do maciço de Parima ou dos Andes colombianos...

— Dos Andes... dos Andes! — retorquiu Filipe, erguendo os ombros.

Evidentemente, nenhum dos dois cederia na questão da certidão de batismo do Orenoco, e cada um teimaria em lhe atribuir um pai diferente.

— Vejamos, caros colegas — recomeçou Miguel, desejoso de os levar a mútuas concessões —, basta lançar a vista sobre esta carta para reconhecer o seguinte: que, donde quer que ele venha, e sobretudo se vier do oriente, o Orenoco forma uma curva muito harmónica, um semicírculo mais bem desenhado do que esse desastrado ziguezague que lhe dariam o Atabapo ou o Guaviare...

— Ora, que importa que o desenho seja harmónico ou não! — exclamou Filipe.

— Se for exato e conforme com a natureza do território! — condicionou Varinas.

De facto, pouco importava que as curvas fossem ou não artisticamente traçadas. Tratava-se de uma questão puramente geográfica, não de uma questão de arte. A argumentação de Miguel era errónea. Bem o sentia ele. Foi por isso que lhe ocorreu lançar na discussão um novo elemento que fosse de natureza a modificá-la. Por certo, não seria esse o meio de pôr de acordo os dois adversários, mas quem sabe se, como os cães desviados do seu rasto, eles se não lançariam em perseguição de um terceiro javali?

— Pois seja — admitiu Miguel —, e ponha de parte esse modo de encarar a questão. O senhor pretende, Filipe (e com que obstinação!), que o Atabapo, longe de ser um afluente do nosso grande rio, é o próprio rio em pessoa...

— Pretendo.

— O senhor sustenta, Varinas (e com que teimosia!), que, pelo contrário, o Guaviare não é senão o próprio Orenoco...

— Sustento.

— Pois bem — continuou Miguel, cujo dedo seguiu sobre a carta o curso da água em discussão — e se os senhores ambos se enganassem?

— Ambos! — exclamou Filipe.

— Um único de nós se engana — afirmou Filipe — e não sou eu!

— Escutem, pois, até ao fim e não respondam senão depois de terem ouvido. Além do Guaviare e do Atabapo, há outros afluentes, que dão a sua contribuição ao Orenoco, tributários de uma importância característica pelo seu percurso e pelo seu tributo. Tais são o Caura na sua parte setentrional, o Apre e o Meta na sua parte ocidental, o Cassiquiare e o Iquapo na sua parte meridional. Distinguem-nos nesta carta? Pois agora pergunto eu: porque não será um desses afluentes o Orenoco, de preferência ao seu Guaviare, meu caro Varinas, e ao seu Atabapo, meu caro Filipe?

Era a primeira vez que tal proposição via a luz do dia, e não é de estranhar que os dois contraditores ficassem mudos, apenas a ouviram formular. Como? Pois a questão não seria só entre o Atabapo e o Guaviare? Dar-se-ia o caso que outros pretendentes surgissem à voz do seu colega?

— Ora vamos! — exclamou Varinas. — Isso não é sério, nem é a sério que o senhor fala, Miguel...

— Muito a sério, ao contrário do que lhe parece, e acho natural, lógica, e por consequência admissível a opinião de que outros tributários possam disputar-se a honra de serem o verdadeiro Orenoco.

— Está a gracejar! — observou Filipe.

— Jamais gracejo quando se trata de questões geográficas — respondeu gravemente Miguel. — Há na margem direita do curso superior o Padamo...

— O seu Padamo não passa de um regato ao pé do meu Guaviare! — objetou Varinas.

— Um regato, que os geógrafos, não obstante, consideram tão importante como o Orenoco — retorquiu Miguel. — Há na margem esquerda o Cassiquiare...

— O seu Cassiquiare não passa de um ribeiro, comparado com o meu Atabapo! — gritou Filipe.

— Mas um ribeiro que põe em comunicação as bacias venezuelana e amazónica. Na mesma margem, corre o Meta...

— Mas o que é o seu Meta? Uma torneira de fonte...

— Uma torneira donde sai um curso de água que os economistas consideram como devendo ser um dia o caminho entre a Europa e os territórios colombianos.

Miguel, muito documentado como se vê, para tudo tinha resposta. Continuou:

— Na mesma encosta há o Apure, o rio dos llanos, que os barcos podem subir na extensão de mais de quinhentos quilómetros.

Nem Filipe nem Varinas contestaram esta afirmação.

É que estavam como que meio sufocados pelo aprumo de Miguel.

— Finalmente — acrescentou este —, na margem direita correm o Cuchivero, o Caura, o Caroni...

— Quando tiver acabado com essa nomenclatura... — disse Filipe.

— Então discutiremos — acrescentou Varinas, que acabava de cruzar os braços.

— Acabei — declarou Miguel —, e se querem conhecer a minha opinião pessoal...

— E valerá a pena? — replicou, em tom de ironia superior, Varinas.

— É pouco provável! — declarou Filipe.

— Ei-la, não obstante, meus caros colegas. Nenhum desses afluentes poderia ser considerado como o rio mãe, aquele a que legitimamente pertence o nome de Orenoco. Logo, parece-me que essa denominação não pode ser dada nem ao Atabapo, recomendado pelo meu amigo Filipe...

— É um erro! — afirmou este.

— Nem ao Guaviare, apadrinhado pelo meu amigo Varinas.

— Heresia! — exclamou este último.

— Visto o que, concluo — acrescentou Miguel — que o nome de Orenoco deve ser conservado à parte superior do rio cujas origens ficam situadas nos maciços da Parima. Todo ele corre através do território da nossa república e nenhum outro banha. O Guaviare e o Atabapo que se resignem a não passar de simples tributários, o que, em suma, já é uma situação geográfica muito aceitável...

— Que eu não aceito — afirmou Filipe.

— Que eu recuso! — declarou Varinas.

O único resultado da intervenção de Miguel nesta discussão foi que três pessoas em vez de duas se abespinharam por causa do Guaviare, do Orenoco e do Atabapo.

A disputa durou ainda uma hora e talvez nunca viesse a terminar se Filipe, de um lado, e Varinas, do outro, não tivessem exclamado:

— Pois bem, partamos!

— Partir? — perguntou Miguel, que não esperava tal proposta.

— Sim! — respondeu Filipe. — Partamos para São Fernando, e, uma vez ali, se eu não lhes provar perentoriamente que o Atabapo é o Orenoco...

— E se eu — acudiu Varinas — lhes não demonstrar categoricamente que o Orenoco é o Guaviare...

— É porque eu — completou Miguel — os terei forçado a reconhecer que o Orenoco é bem o Orenoco!

Eis em que circunstâncias, em resultado de tal discussão, essas três personagens resolveram empreender semelhante viagem. Talvez essa nova expedição consiga fixar de vez o curso do rio venezuelano, admitindo que ele o não fora antes pelos últimos exploradores.

De resto, tratava-se apenas de subir o rio até à aldeia de São Fernando, esse cotovelo, onde, com alguns quilómetros de intervalo, o Guaviare e o Atabapo lançam as suas águas. Estabelecido que nenhum deles poderia ser mais do que simples afluente, forçoso seria dar razão a Miguel e confirmar ao Orenoco o seu estado civil de rio, do qual indignos ribeiros o pretendiam esbulhar.

Não deve causar surpresa que esta resolução, nascida durante uma discussão tempestuosa, tivesse sido imediatamente levada a efeito. Menos de estranhar são o ruído que ela produziu no mundo sábio, entre as classes superiores de Ciudad Bolívar, e a paixão que desde logo despertou em toda a república venezuelana.

Sucede com certas cidades o mesmo que com certos homens: antes de terem um domicílio fixo e definitivo, hesitam, tateiam. Foi o que aconteceu com a capital dessa província da Guiana, desde a data da sua aparição, em 1576, na margem direita do Orenoco. Depois de ter sido estabelecida na foz do Caroni, com o nome de S. Tomé, foi transferida, passados dez anos, para quinze léguas a jusante do rio. Queimada pelos ingleses do comando do célebre Walter Raleigh, deslocou-se, em 1764, para um sítio, cento e cinquenta quilómetros a montante, onde a largura do rio não chega a quatrocentas toesas. Daí o nome de Estreito Angustura, que então lhe foi dado, para afinal desaparecer, substituído pelo de Ciudad Bolívar.

Esta capital da província está situada a cerca de cem léguas do delta do Orenoco, cuja estiagem, indicada pela Piedra del Medio, rocha que se ergue a meio da corrente, varia consideravelmente, sob a influência da estação seca, que vai de janeiro a maio, ou da estação chuvosa.

A cidade, a que o último censo atribui onze a doze mil habitantes, é completada pelo bairro de La Soledad, na margem esquerda. Estende-se desde o passeio da Alameda até ao bairro do Cão Seco, designação singular, porque esse bairro, construído em rebaixo, está mais do que qualquer outro exposto às inundações provocadas pelas súbitas e copiosas cheias do Orenoco. A rua principal, com seus edifícios públicos, seus armazéns elegantes, suas galerias cobertas, as casas escalonadas pelo flanco da colina xistosa, que domina a cidade, a dispersão das habitações rurais por sobre as árvores que as dosselam, as espécies de lagos que o rio forma pelo seu espraiamento a montante e a jusante, o movimento e a animação do porto, o grande número de navios à vela e a vapor, dando testemunho da atividade do comércio fluvial a par de um importante tráfico que se faz por terra, todo esse conjunto contribui para encantar a vista.

Por La Soledad, que deve ser a estação terminal do caminho de ferro, Ciudad Bolívar não tardará em se ligar com Caracas, a capital venezuelana. As suas exportações em couros de boi e veado, em café, em algodão, em índigo, em cacau, em tabaco, ganharão com esse facto uma extensão nova, por mais desenvolvidas que já estejam pela exploração dos jazigos de quartzo aurífero, descobertos em 1840 no vale de Iuruauri.

Por tudo isto, a notícia de que três sábios, membros da Sociedade de Geografia da Venezuela, iam partir a fim de resolverem a questão do Orenoco e dos seus dois afluentes do sudoeste, teve uma viva repercussão no país. Os Bolivianos são demonstrativos, apaixonados, ardentes. Os jornais intrometeram-se na questão, tomando partido pelos Atabapozistas, pelos Guaviarianos e pelos Orenoqueses. O público inflamou-se. Dir-se-ia que aqueles cursos de água ameaçavam mudar de leito, deixar os territórios da república e emigrar para qualquer outro estado do Novo Mundo, se se lhes não fizesse justiça.

Essa viagem, rio acima, ofereceria perigos sérios? Sim, alguns oferecia para viajantes que tivessem ficado reduzidos aos seus últimos recursos. Mas essa questão não mereceria da parte do Governo fazer alguns sacrifícios para a resolver? Não era uma ocasião inteiramente indicada para utilizar essa milícia, que podia pôr em pé de guerra duzentos e cinquenta mil homens, e que, todavia, nunca reunia mais de uma décima parte desse número? Porque não pôr à disposição dos exploradores uma companhia de um exército permanente, que conta seis mil soldados e cujo estado-maior já chegou a possuir sete mil generais, não contando os oficiais inferiores, conforme o estabeleceu Eliseu Reclus, sempre tão bem documentado nestas curiosidades etnográficas?

Miguel, Filipe e Varinas não pediam tanto. À sua custa viajariam, sem mais escolta do que os moços da lavoura, os llaneros, os barqueiros e os guias, que vivem ao longo das margens do rio. Fariam o que, antes deles, outros pioneiros da ciência tinham feito. De resto, não tencionavam passar além da aldeia de São Fernando, situada na confluência do Atabapo e do Guaviare. Ora, é principalmente nos territórios atravessados pelo alto curso do rio onde mais são de temer os ataques dos índios, essas tribos independentes, tão custosas de conter e às quais com razão se atribuem latrocínios, que não devem causar estranheza num país outrora povoado por Caraíbas.

Não é por certo muito agradável encontrar, a montante de São Fernando, junto da foz do Meta, os Guaíbos, sempre refratários às leis sociais, e os Quivas, cuja reputação de ferocidade era mais que justificada pelos seus atentados na Colômbia, antes de terem transferido a sua residência para as margens do Orenoco.

Por isso, em Ciudad Bolívar era motivo de alguma inquietação a sorte de dois franceses que tinham partido havia cerca de um mês. Depois de terem subido o curso do rio e passado a confluência do Meta, não se sabia o que fora feito desses viajantes, aventurados através do território dos Quivas e Guaíbos.

Verdade é que o curso superior do Orenoco, menos conhecido, subtraído pelo seu próprio afastamento à ação das autoridades venezuelanas, desprovido de todo o comércio e entregue aos bandos errantes dos indígenas, é infinitamente mais temível. De facto, se os índios sedentários, a oeste e ao norte do grande rio, são de costumes mais doces, entregando-se aos trabalhos agrícolas, o mesmo não sucede com os que vivem no meio das savanas do distrito do Orenoco. Salteadores por interesse e por necessidade, nem perante o assassínio recuam.

Será possível de futuro adquirir algum comando sobre essas naturezas ferozes e indomáveis? Vingará êxito, com esses naturais das planícies do alto Orenoco, o que em vão se tentou com as feras do llanos? A verdade é que alguns ousados missionários o tentaram, sem grande resultado.

Um desses missionários, um francês, pertencente às missões estrangeiras, achava-se havia anos nas altas regiões do rio. Serão a sua coragem e a sua fé recompensadas? Teria conseguido civilizar essas populações selvagens, convertê-las às práticas do catolicismo? Haveria motivos para crer que o corajoso apóstolo da Missão de Santa Joana tivesse podido agregar em volta de si aqueles índios, até então refratários a toda a tentativa de civilização?

Em suma, voltando a Miguel e aos seus dois colegas, o seu caso não era o de se aventurarem nessas regiões longínquas, dominadas pelo maciço de Roraima. Contudo, se tanto fosse preciso ao interesse da ciência geográfica, não hesitariam em subir até às origens, não só do Orenoco, como do Guaviare e do Atabapo. Os seus amigos esperavam, todavia, não sem razão, que essa questão de origem seria resolvida na confluência dos três rios. De resto, admitia-se geralmente que ela se decidiria a favor do Orenoco, o qual, depois de ter recebido as águas de trezentos rios e percorrido dois mil e quinhentos quilómetros, vai, ramificado em cinquenta braços, lançar-se no Atlântico.

Capítulo 2 — O Sargento Marçal e Seu Sobrinho

A partida desse trio de geógrafos — um trio cujos executantes nunca chegavam a afinar os seus instrumentos — tinha sido fixada para 12 de agosto, em plena estação das chuvas.

Na véspera desse dia, seriam oito horas da noite, dois viajantes, hospedados num hotel de Ciudad Bolívar, conversavam num dos seus quartos. Uma ténue e fresca aragem entrava pela janela que dava sobre o passeio da Alameda.

Nesse momento, o mais moço dos dois viajantes, que acabava de se levantar, disse para o outro, em francês:

— Escuta-me bem, meu bom Marçal. Antes de te meteres na cama, vou pela última vez recordar-te tudo o que combinámos, antes da nossa partida.

— Como quiser, Sr. João.

— Ora aí estás tu — exclamou João — a esquecer-te do teu papel, logo às primeiras palavras.

— Do meu papel?

— Sim... não me tratas por tu.

— É verdade! Maldito «tu cá, tu lá». Que quer... o senhor... não! Que queres tu? A falta de hábito...

— A falta de hábito, meu pobre sargento! Ora... Há um mês que saímos de França e ainda não deixaste de me tratar por tu, durante toda a travessia de Saint-Nazaire a Caracas.

— E é verdade! — confirmou o Sargento Marçal.

— E agora, que chegamos a Bolívar, isto é, ao ponto onde deve começar essa viagem, que tantos prazeres nos reserva, ou tantas deceções, tantos desgostos...

João pronunciara estas palavras com uma emoção profunda. O peito arquejava-lhe, os olhos humedeciam-se-lhe. Notando, porém, o sentimento de inquietação que se pintou no rosto rude do Sargento Marçal, dominou-se.

E, então, continuou sorrindo, em tom gracioso:

— Sim, agora que estamos em Bolívar, é que te dá para te esqueceres de que és meu tio e eu teu sobrinho.

— Sempre sou um pateta! — respondeu o Sargento Marçal, dando uma forte palmada na testa.

— Não, mas perturbas-te e, em vez de seres tu quem vele por mim, é preciso que... Vejamos, meu bom Marçal, não é de uso um sobrinho tratar seu tio por tu?

— É.

— Demais, não te tenho eu dado o exemplo, tratando-te por tu, desde que embarcámos?

— É certo; no entanto, não começaste de muito...

— Muito pequeno! — interrompeu João, insistindo na última sílaba desta palavra.

— Sim, pequeno... pequeno! — repetiu o Sargento Marçal, cujo olhar se enternecia, ao fixar-se no seu pretendido sobrinho.

— E não te esqueças — acrescentou — de que pequeno se diz em espanhol «pequeno».

— Pequeno — repetiu o Sargento Marçal. — Ah! A tal palavra! Já me não esquece, e nem umas cinquenta mais, se tanto... pois, realmente, tenho feito grande esforço para as aprender.

— Cabeça dura! — continuou João. — Não te tenho eu obrigado todos os dias durante a travessia do Pereire a recitar a tua lição de espanhol?

— Então que queres, João? É uma coisa terrível para um veterano da minha idade, que tem falado francês toda a sua vida, aprender essa algaravia dos Andaluzes! Custa-me a espanholizar-me, como diz o outro.

— há de vir com o tempo, meu bom Marçal.

— Até já veio, para essas cinquenta palavras de que falei. Já sei pedir que comer: Deme usted algo de comer; de beber: Deme usted de beber; dormida: Deme usted una cama; por onde ir: Enseñe-me usted el camino; quanto custa qualquer coisa: Cuanto vale esto? Sei dizer obrigado: Gracias! e bons dias: Buenos dias, e boas noites: Buenas noches, e como passa: Como está usted? Sou capaz de jurar como um aragonês ou um castelhano... Carambi de carambo de caramba!

— Bom, bom! — exclamou João, corando um pouco. — Não fui eu que te ensinei essas pragas e será conveniente que não as profiras a cada passo.

— Que queres, João? Hábitos de antigo tarimbeiro! Toda a minha vida tenho praguejado, e, quando a conversação não é apimentada com algumas juras, até me parece que não tem graça! É por isso que o que me agrada nessa algaravia, que tu falas como uma señora...

— O que é?

— É que nessa algaravia há pragas em barda, quase tantas como palavras.

— E são essas as que tu, naturalmente, reténs com mais facilidade.

— É facto, João, e não seria o Coronel de Kermor, quando eu servia sob as suas ordens, que me censurasse pelos meus «trovões de Brest!»

Ao nome do Coronel de Kermor, ter-se-ia podido ver alterar-se o expressivo rosto do mancebo, ao passo que uma lágrima molhava as pálpebras do Sargento Marçal.

— Vês tu, João, se Deus viesse dizer-me: «Sargento! Dentro de uma hora apertarás a mão do teu coronel, mas dois minutos depois fulminar-te-ei», eu responder-lhe-ia: «Está bem, Senhor... prepara o teu raio e visa ao coração!»

João aproximou-se do velho soldado, limpou-lhe as lágrimas, olhou com ternura aquele ser bom, de rude e franca natureza, capaz de todas as dedicações. E, como este o atraísse ao peito, apertando-o entre os braços, disse-lhe, gracejando:

— Não é preciso quereres-me tanto, meu sargento!

— E será isso possível?

— Possível, e necessário... pelo menos diante de gente, quando nos observarem.

— Mas quando nos não observarem...

— Então podes tratar-me com mais doçura, tomando precauções, está claro.

— Será difícil!

— Nada é difícil quando indispensável. Não te esqueças do que eu sou: um sobrinho, que precisa de ser severamente tratado por seu tio.

— Severamente! — retrucou o Sargento Marçal, erguendo as calosas mãos ao céu.

— Sim, um sobrinho que tu tiveste de trazer contigo nesta viagem, por não haver meio de o deixar sozinho em casa, com medo de alguma tolice.

— Isso que tu dizes é que é uma tolice!

— Um sobrinho de quem queres fazer um soldado como tu.

— Um soldado!

— Sim, um soldado, que convém educar com dureza, e a quem não deves poupar o castigo, quando ele o mereça.

— E se o não merecer?

— há de merecê-lo — assegurou João, sorrindo — porque é um mau recruta.

— Um mau recruta!

— E quando alguma vez o tiveres repreendido em público...

— Pedir-lhe-ei perdão em particular! — acrescentou o Sargento Marçal.

— Como te aprouver, meu bravo companheiro, contanto que ninguém então nos veja!

O Sargento Marçal abraçou seu sobrinho, depois de se ter assegurado de que ninguém podia vê-los naquele quarto bem fechado do hotel.

— E agora, meu amigo — disse João —, chegou a hora de recolher. Vai para o teu quarto, que fica aqui ao lado.

— Queres que faça sentinela de noite à tua porta? — perguntou o Sargento Marçal.

— É inútil. Não há perigo.

— É certo, mas...

— Se é assim que tu me tratas já, muito mal hás de desempenhar o teu papel de tio feroz.

— Feroz! E posso eu ser feroz para contigo?

— Assim é preciso... para desviar toda a suspeita.

— Sendo assim, porque é que tu quiseste vir, João?

— Porque era esse o meu dever.

— Porque não ficaste em nossa casa, lá em Chantenay... ou em Nantes?

— Porque a minha obrigação era partir.

— Não podia eu tentar esta viagem completamente só?

— Não.

— Perigos, o meu ofício é arrostá-los. Não tenho feito outra coisa em toda a minha vida! E, demais, eles não são para mim o que seriam para ti.

— Por isso eu quis passar por teu sobrinho, meu tio.

— Ah! Se o meu coronel pudesse ter sido consultado lá onde está! — exclamou o Sargento Marçal.

— Não; era impossível.

— Mas, depois de termos obtido em São Fernando informações exatas, se acaso pudermos ainda tornar a vê-lo, que dirá ele?

— Agradecerá ao seu antigo sargento o ter-se rendido aos meus pedidos. O ter consentido em me deixar empreender esta viagem! Estreitar-te-á, cingir-te-á nos braços, dizendo que cumpriste o teu dever, como eu cumpri o meu!

— Enfim, enfim... — aquiesceu o Sargento Marçal — hás de fazer sempre de mim o que tu muito bem quiseres!

— É natural, pois não és tu meu tio, e um tio não deve sempre obedecer a seu sobrinho, exceto diante de estranhos?

— Não... diante de estranhos, não. Está combinado!

— E agora, meu bom Marçal, vai dormir e dorme bem. Amanhã temos de embarcar às primeiras horas no barco do Orenoco, e é preciso não faltar à partida.

— Boas noites, João.

— Boas noites, meu amigo, meu único amigo! Até amanhã e que Deus nos proteja!

O Sargento Marçal dirigiu-se para a porta, abriu-a, fechou-a sobre si com cuidado, assegurou-se de que João dera volta à chave e correra o ferrolho interior. Permaneceu imóvel alguns instantes, o ouvido encostado à almofada da porta. Ouviu João, antes de se meter na cama, rezar a sua oração, cujo murmúrio chegou até ele. Depois, quando teve a certeza de que o mancebo estava deitado, passou ao seu quarto e a sua única oração — para seu uso — consistiu em dizer, dando um murro na cabeça:

— Sim! Que o Senhor seja connosco, porque, verdade, verdade, isto é bem duro de roer!

Quem são estes dois franceses? Donde vêm? Que motivo os traz à Venezuela? Porque se resolveram a desempenhar os papéis de tio e de sobrinho? Com que fim vão tomar passagem a bordo de um dos barcos do Orenoco e até onde subirão o

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