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Uma Volta em um Elefante - Um Ano Dançando Com “O Maior Espetáculo da Terra”
Uma Volta em um Elefante - Um Ano Dançando Com “O Maior Espetáculo da Terra”
Uma Volta em um Elefante - Um Ano Dançando Com “O Maior Espetáculo da Terra”
E-book334 páginas3 horas

Uma Volta em um Elefante - Um Ano Dançando Com “O Maior Espetáculo da Terra”

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Sobre este e-book

Uma biografia sobre uma bailarina que tira suas sapatilhas de balé para guiar um elefante com a Ringling Bros. e Barnum & Bailey Circus em 1978.

IdiomaPortuguês
Data de lançamento28 de mar. de 2016
ISBN9781507135969
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    Uma Volta em um Elefante - Um Ano Dançando Com “O Maior Espetáculo da Terra” - Barbara File Marangon

    Categoria: Auto biográfico, circo, elefantes, dança (balé), intérprete

    ––––––––

    ISBN:

    978-0-9911731-0-5

    Escrito por: Barbara File Marangon

    Editado por: Nancy Whalen | www.eyespyproofreading.com

    Arte da capa e formatação do texto por: Eli Blyden |

    www.CrunchTimeGraphics.com

    Foto da Capa: Peggy e eu no desfile de elefantes na cidade de Salt Lake  (1978) Foto da contracapa: Peggy e eu no Espec na Madison Square Garden (1978) Impresso nos Estados Unidos da América

    Em Memória de

    Peggy

    ...e

    Dedicado à

    Todas as Pessoas do Circo

    "O verdadeiro artista pinta um quadro pois

    ele deseja sentir novamente, sempre em seu próprio prazer, um momento especial.

    Pois ele é impelido por sua afeição humana em transmitir esse momento para seus companheiros e para aqueles que vêm depois desses."

    - Jack B. Yeats

    Sumário

    Em Memória de Peggy...................................................................iii

    ...e Dedicado à Todas as Pessoas do Circo......................................v

    Capítulo 1

    A Arena de Veneza: Retorno ao Passado.......................................... 1

    Capítulo 2

    A Audição: O Saber Versus o Jardim..................................... 5

    Capítulo 3

    Os Alojamentos de Inverno do Campo de Treinamento..................................................... 11

    Capítulo 4

    O Leão na Sala de Banho.............................................................. 17

    Capítulo 5

    Aprendendo a Montar em um Elefante........................................... 21

    Capítulo 6

    Uma História de Amor na Turnê........................................ 27

    Capítulo 7

    Estréia e o Chapéu....................................................................... 33

    Capítulo 8

    A Vida no Trêm do Circo...................................................... 39

    Capítulo 9

    A Culinária de Suzy.......................................................... 47

    Capítulo 10

    Billy e o Bastão.......................................................... 57

    Capítulo 11

    Montando um Elefante em uma Tempestade de Neve....................................... 61

    Capítulo 12

    A Viagem da Caixa de Maquiagem Vermelha................................. 67

    Capítulo 13

    O Elefante de Bolinhas................................................................ 75

    Capítulo 14

    A Boneca de Porcela da Ringling................................................. 81

    Capítulo 15

    As Fogueiras Ciganas em Nova Iorque.......................................... 89

    Capítulo 16

    Príncipes, Pugilistas e Paquidermes............................................... 95

    Capítulo 17

    O Espectro de Rocky 99

    Capítulo 18

    Oklahoma, Aqui Vamos Nós!...................................................... 113

    Capítulo 19

    Blackie e o Livro.................................................................. 117

    Capítulo 20

    O Desfile de Elefantes na Cidade de Salt Lake.............. 127

    Capítulo 21

    Desafiando o Domador de Tigre........................................ 137

    Capítulo 22

    O Circo vai à Hollywood..................................................... 143

    Capítulo 23

    Um Grand Jeté e o Nativo........................................................... 155

    Capítulo 24

    O Palácio Bovino de São Francisco.................................. 165

    Capítulo 25

    A Fuga do Cavalo-marinho................................................ 171

    Capítulo 26

    A Correria em Chicago.................................................................. 177

    Capítulo 27

    A Última Volta com Peggy.................................................. 185

    Agradecimentos.................................................................. 193

    C A P Í T U L O 1

    A Arena de Veneza:  Retorno ao Passado

    D

    espertamos de nosso passado e vemos momentos únicos no tempo, como uma rosa colorida e detalhada colocada em um fundo embaçado e turvo de uma pintura. Como uma rosa em particular, tão habilmente pintada na tela, na qual o momento significa o ponto de foco de nossas vidas. Voltamos e saboreamos isso novamente para que em nossa memória isso se torne mais claro que o presente. Nós nos apegamos a isso mais uma vez - e talvez, essa seja a última. Nesse momento, parece uma joia preciosa que fica guardada por anos em nossas memórias e um dia surge para ser revivida.

    Na véspera de Natal de 2005, esse despertar aconteceu comigo.

    O clima na Florida estava quente e ensolarado, um belo contraste das temperaturas congelantes que deixamos para trás na Itália. Meu marido Gianni e eu tínhamos nos casado dois dias antes em Boca Raton e estávamos dirigindo ao longo da Costa do Golfo de Sarasota à Punta Gorda. Como passamos por Veneza, deixamos o Tamiami Trail e cruzamos pela Ponte do Circo. Além disso, havia algo estranho na parte esquerda da estrutura. A Arena de Veneza estava vazia, abandonada e caindo aos pedaços, as letras que compunham seu nome estavam apagadas. Mais de trinta anos se passou desde que treinei e me apresentei nesse lugar.

    De 1977 à 1978 dancei para a Ringling Bros. e Barnum & Bailey Circus: Troquei minhas sapatilhas de balé por um elefante, durante um ano.

    O lugar era parte do meu passado e permaneceu em meu

    coração. Pude visitar outros lugares em que dancei novamente, como a Metropolitan Opera em Nova Iorque, o Stadttheater de Klagenfurt na Áustria, ou o Teatro Goldoni na Itália, mas meus sentimentos estavam aqui, nesse palco decadente. Aquele ano de turnê com a Ringling foi mais do que um trabalho. Como dançarina profissional, eu iria para casa ter minha privacidade depois de me apresentar no palco, mas como uma artista de circo, ambas minha casa e vida eram o próprio circo, onde as dificuldades de uma rotina diária nos mantinham unidos. Minha vida no show foi mais interessante do que a apresentação em si. Vagando do caminho do balé profissional, escolhi abraçar algo totalmente diferente. Minha jornada com o Maior Espetáculo da Terra começou aqui – nos alojamentos de inverno do circo em Venice na Florida.

    Apesar dos avisos que proibiam a entrada, nós entramos mesmo assim para dar uma olhada.

    Tudo parecia muito menor agora. Nós saímos do carro e caminhamos até a entrada da arena que, para nossa surpresa, estava aberta. Então, com o estomago embrulhado, caminhei em direção ao meu passado.

    Lá dentro estava escuro, vazio, arruinado e o som de água pingando vinha de algum lugar. Gianni me deixou sozinha com os fantasmas do meu passado e foi dar uma volta para explorar o lugar.

    Olhei em volta e tentei imaginar como tudo era antes, com os animais, os palhaços e os artistas, todos trabalhando para fazer o melhor show da turnê. Os shows Red e Blue se encontravam aqui, ano após ano, antes de pegar a estrada por doze meses. Fiquei seis semanas ensaiando no campo de treinamento na época de Natal em 1977.

    Eu não sabia como um lugar que foi tão vivo uma vez, pode ficar tão sem vida. Fechei meus olhos e imaginei mais uma vez as luzes brilhantes refletindo nos milhares de paetês nas fantasias dos bailarinos, a banda tocando e milhares de artistas desfilando em caixas coloridas, nas costas do cavalo, ou apenas andando.  No final da introdução deles, a arena ficou vazia e o ar parou, como a calma após a tempestade. Então, a cortina gigante que decorava a entrada onde os artistas e animais entravam e saiam foi puxada, como se algo de tirar o fôlego fosse anunciada antes de um rebanho de elefantes vir desfilar na arena. Você podia sentir a estrutura tremer, um som parecido com a de um terremoto inesperado. No final da música, o líder do elefante iria parar, e cada elefante que o seguia iriam se alinhar a ele, erguendo as patas frontais para descansá-las na traseira do elefante em frente a eles.

    O público todo estava eufórico e aplaudiam o espetáculo, o apresentador do circo iria gritar: Bem-vindos ao Maior Espetáculo da Terra!.

    Abri meus olhos e tudo aquilo desapareceu. A água pingando ainda estava ali e o barulho de algo que parecia um rato também. Fora da área livre, longe dos fantasmas do passado, não tive desejo algum em querer voltar para aquela arena.

    Olhando para o lugar vazio, me lembrei do pequeno luar onde eu encontrei Peggy pela primeira vez, uma elefante que aprendi a montar no show. Todo dia depois do almoço, o grupo de elefantes iria se alinhar em frente ao cercado, esperando por seus treinadores. Eu poderia sentir a pele dela de novo e sentir aquele cheiro especial de elefante.  Todo o amor que senti por Peggy voltou com tudo para mim. Ao voltar para o carro, me tranquei lá dentro e esperei por Gianni que estava filmando a área que pertencia a prática de trapézio. Uma pequena construção bloqueou minha visão, mas logo ele apareceu, deu a volta no canto e entrou no carro.

    - Não quer ver o trapézio? - Perguntou.

    - Não, obrigada, já vi o bastante. Vamos embora - respondi muito triste e saímos de lá em silêncio.

    Então ele disse:

    - Sabe, parece que o trapézio está sendo usado.

    Senti uma pontada de esperança de que algo pudesse estar vivo dentro daquela arena velha e abandonada.

    Dirigimos até o centro de Venice.  Vi um carro de polícia parado em frente a um restaurante e, depois que estacionamos nosso carro alugado fui conversar com o policial.

    - O que aconteceu com a Ringling Bros and Barnum & Bailey Circus? - Perguntei.

    - Eles se mudaram para Tampa porque os vagões de trêm foram destruídos - e depois acrescentou - Mas as vezes esse menino vem praticar trapézio sozinho.

    Meu coração parou de bater. Talvez esse homem solitário no trapézio fosse alguém que eu conhecia. Seria uma coincidência considerando todos os artistas de trapézio que existiram nos últimos trinta anos. Ele com certeza seria alguém que não estava mais no show.

    - Obrigada pela a ajuda - eu disse.

    Depois disso, perguntei a Gianni o que exatamente ele tinha visto no trapézio.

    - Nada em particular, apenas uma cadeira de diretor com um nome gravado nele.

    - Qual era o nome gravado?

    Ele pensou por um segundo e disse:

    - Tito

    - Tito! Tem certeza? - Eu não podia acreditar.

    Eu conheci Tito Gaona que estava no show no mesmo ano em que eu estava. Poderia ser Tito Gaona, esse homem solitário no trapézio? Talvez a cadeira tivesse sido deixada lá há muitos anos atrás e o acrobata fosse outra pessoa. Decidimos que voltaríamos outro dia. Se tivessimos sorte, pegaríamos esse homem praticando. Apenas tínhamos alguns dias antes de voltar para a Itália. No Natal, não era provável que alguém estaria praticando, mas prometemos que passaríamos ali de novo para ver se encontraríamos o homem no trapézio.

    Depois do dia de Natal, estávamos passando por debaixo da Ponte do Circo. Como passamos próximo a arena, pudemos ver pessoas andando em volta da rede aérea. Duas pessoas estavam posicionadas na plataforma acima da escada. Havia um homem balançando no trapézio.

    Gianni gritou:

    - Olhe! Tem gente ali.Vamos vê-los!

    - Não. Continue dirigindo.

    Eu estava com medo de ver meus fantasmas, mas então me questionei: Fantasmas não andam e nem falam, não é?

    Então Paramos.

    Quando pensamos sobre as pessoas que conhecemos anos atrás, sempre nos lembramos delas como elas eram, e então é um choque vê-las mais velhas. Isso nos faz pensar na nossa própria idade e nos lembramos que a vida é muito curta.

    Com receio e caminhando como uma sonâmbula em um sonho, fui até a estrutura aérea, olhando para o homem sentado no trapézio. Reconheci Tito Gaona na mesma hora, mesmo que muito de longe. Quando entrei na área, ele me olhou e me reconheceu. Ele não mudou nada exceto pelo cabelo grisalho. Ele voltou a plataforma, pisou nela, olhou para mim e sorriu. Ele se moveu rapidamente, descendo a escada e caminhando até a mim. Haviam lágrimas em meus olhos quando nos abraçamos.

    Ele riu e disse:

    - Ainda estamos vivos!

    Como uma sobrevivente de quem conta a própria versão da história ou de outra pessoa, eu queria, eu precisava de algum modo, segurar a rosa novamente e reviver minhas memórias daquele ano no circo.

    C A P Í T U L O   2

    A Audição:  O saber Versus o Jardim

    T

    odos os detalhes sobre o dia da audição permaneceram vivos, até mesmo agora, depois de quase trinta anos. Em uma manhã de verão em abril de 1977, peguei a linha 104 na esquina da Sixty-Sixth com a Broadway na cidade de Nova Iorque onde vivi por dez anos quando não estava viajando. A linha 104 me levaria na Broadway com a rua Forty-Second  e depois eu teria que andar o resto do caminho até a rua Thirty-Second com a avenida Seventh onde ficava a Madison Square Garden. Às 10:30, nessa manhã em particular, eu estava me apresentando para a Ringling Bros. e Barnum & Bailey Circus.

    Eu tinha acabado de chegar da Europa onde eu tinha um contrato de dança com a Stadttheater de Klagenfurt na Áustria. Decidi não procurar um novo emprego na Europa, e sim encontrar um emprego em Nova Iorque ao retornar para casa. Apesar de eu sempre ter trabalhado em companias de balé, eu queria algo diferente, mas alguma coisa que ainda me permitisse dançar. Dançar o musical de Can-Can na Áustria e trabalhar com a coreografia de Hair de Julie Arenal em Nova Iorque me deram uma nova perspectiva na minha carreira de bailarina. Balé aéreo sempre me intrigou e essa era uma arte que eu queria aprender. Isso significava que eu tinha que me tornar parte do circo.

    Todo mundo tinha esse sonho romantico de fazer parte do circo, principalmente depois de ver O Maior Espetáculo da Terra de Cecil B. DeMille. Outra vantagem em fazer parte disso era a chance de fazer uma turnê nos Estados Unidos por um ano. Eu teria a chance de viajar de novo e era hora de pegar a estrada. Essas foram todas as razões reais que eu tinha para estar alí naquela manhã.

    Muitos artistas concordariam que fazer apresentações poderiam ser uma experiência angustiante e desapontadora. Algumas semanas antes, eu estava perto de embarcar em um trabalho como bailarina no Cairo no Egito, por um ano. Nos anos setenta tivemos apresentações extravagantes e teatrais em boates no Cairo e por todo Oriente Médio, antes de restrições severas e religiosas nos entretenimentos fecharem esses shows espetaculares.

    Belos bailarinos foram procurados depois disso e ter parcerias eram uma vantagem extra. Tive boas parcerias das minhas aulas de pas de deux dirigidas por Andre Eglevsky na Escola Americana de Balé, e isso me ajudou quando dançei com o balé em Klagenfurt. Em um ensaio para o musical Can-Can, perguntei ao Dmitri, o diretor romeno e bailarino da compania, para fazer um levantamento comigo. Ele não teve sucesso em fazer isso com outros dançarinos, mas funcionou conosco. Eu não conseguia virar estrela, mas eu fiz levantamentos no show. Então, equipada com esse cenário, eu me apresentei para o show que estava indo para o Cairo.

    O trabalho veio a partir de uma decisão entre outro bailarino e eu. Apenas um era necessário, então a compania decidiu qual de nós dois parecia mais exótico no Egito: eu, com meu cabelo louro-avermelhado e pele branca como a neve ou o bailarino bronzeado de cabelo louro-platinado. Depois de esperar por duas semanas, eles deram a sua decisão final: o bailarino bronzeado de cabelo louro-platinado. Isso foi uma grande decepção para mim. Eu sempre quis visitar o Egito, o que era uma das minhas razões por ter me apresentado. Aqui eu estava há algumas semanas depois, a caminho da Madison Square Garden. Visitar vinte e cinco cidades americanas em doze meses seria diferente de viver no Cairo por um ano, mas se eu conseguisse um emprego, eu sabia que eu iria embarcar em uma grande Aventura.

    Mas antes de chegarmos ao Sixty-Fourth com a Broadway, sai pela porta do fundo do ônibus.

    Eu queria descer.

    No que eu estava pensando?

    Graças ao trânsito de Nova Iorque, tive cada minuto para pensar no que eu estava fazendo. Olhei para o Lincoln Center com a Metropolitan Opera House, observando o que havia no centro, a impressionante fonte na frente do teatro e os enormes murais vermelhos de Chagall. The Triumph of Music (O Triunfo da Música) e The Source of Music (A Origem da Música) podiam ser vistas de onde eu estava no ônibus. Meu sonho era voltar aqui algum dia, dançando com a compania de balé. Então, o que eu estava fazendo ao tentar entrar no circo mais famoso do mundo?

    A primeira vez que me apresentei no Met, eu era aluna de balé mas ainda não tinha contrato com uma compania. O Royal Ballet veio à minha cidade com Rudolph Nireyev e Margot Fonteyn e fui contratada para dançar a peça da Bela Adormecida como uma convidada do palácio no casamento de Aurora. Eu estava no mesmo palco em que a história foi apresentada pela extraordinária parceria entre Fonteyn e Nureyev. Fonteyn já tinha uns cinquenta anos, mas ela dançava e parecia uma adorável Aurora de dezesseis anos. Uma vez, enquanto assistia outro ato dos bastidores, senti como se pequenas mãos me segurassem pela cintura e uma pequena bailarina friccionava suas sapatilhas na caixa de resina atrás de mim. Virei-me rapidamente para ver quem era e lá estava a lendária Margot Fonteyn.

    O carisma de Nureyev foi, por muito tempo, bem maior que sua dança. A porta da carruagem real se abriu no segundo ato assim que ele fez sua primeira aparição ao público.

    Aquelas fantásticas bochechas grandes e os olhos escuros e sombrios podiam ser vistos de qualquer lugar na enorme Metropolitan Opera House. Como ele sempre pousava nobremente antes de dançar, sempre pareceia haver um silêncio absoluto, seguido de aaas delicados e depois uma explosão de aplausos que pareciam derrubar a casa.

    Um ano depois de estar contratada novamente como uma bailarina reserva, fiquei no palco escuro da Metropolitan Opera quando a cortina se abriu na peça de Romeo e Julieta do Stuttgart Ballet. Como uma das pessoas de uma aldeia que ficam em cima da construção da ponta do palco, pude ver os vinte e um lustres com quase cinquenta mil cristais em forma de estrelas em uma constelação, brilhando no teto. Apesar disso, estava totalmente escuro no teatro, pude sentir a enorme pulsação de vida de milhões de pessoas que se sentavam ansiosos em seus assentos esperando o espetáculo começar. Naquele segundo passageiro, eu estava absorvendo o entusiasmo e a expectativa de todos que vieram para ver o balé. O som da orquestra, que separavam os dançarinos do público, surgiram da escuridão. Essa sensação me encontrou naqueles poucos segundos no fundo do ônibus.

    Minha mente voltou para o palco do Met através do escuro, do público inquieto, passando por Chagall à luz do dia e pela fonte do Lincoln Center, atravessei a rua e cheguei ao ponto de ônibus de onde observei o teatro. Todas aquelas memórias se agruparam e se refletiam agora nos gigantescos murais do Chagall. Decidi que iria sair do ônibus e esperar para mais alguma coisa acontecer.

    Mas então me questionei do que eu tinha medo – a vida dura que o circo parecia oferecer? Ser atacado por um leão feroz ou esmagado por um elefante? E os acidentes? A porta do ônibus abriu na rua Sixty-Fourth e então fechou, mas eu ainda estava no ônibus quando o mesmo voltou a andar. Eu iria ver isso até o fim.

    Tudo iria ser diferente se eu tivesse saído do ônibus aquele dia, de que jeito? Eu nunca saberei.

    Contudo, eu sabia que eu teria perdido uma das maiores experiências da minha vida se eu não tivesse visto aquelas portas se fechando de dentro da linha 104 naquela manhã de abril de 1977.

    A decisão que iria decidir meu futuro foi feita em poucos segundos.

    Assim que caminhei dentro daquela enorme arena da Madison Square Garden, o cheiro do circo me sobrecarregou. Demorei para me acostumar com cheiro de esterco e urina de animal, que se misturou com os perfumes caros no Met. Os assentos da arena, que eram de aproximadamente vinte mil espectadores, contrário dos três mil e oitocentos na elegante Opera House. O acolhedor carpete de pelúcia vermelho e as cadeiras de veludo do

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