Constelação de Espinhas by Mauro Colarieti by Mauro Colarieti - Read Online

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Summary

“Constelação de Espinhas” enfatiza uma sociedade moderna, onde o comportamento homofóbico está se extingindo e onde a orientação sexual é uma etiqueta social apenas aparente.
No texto aparecem, de forma equilibrada, alguns trechos de canções ligadas à história, de cantores como Mina até Cage the Elephant.
Entre desilusões e prazeres, os nossos protagonistas continuam a seguir com suas vidas, escondendo segredos e ambições que nem mesmo eles conseguem controlar e entender.
É uma série de situações narradas por garotos que têm tanto, mas que não sentem que é o bastante, membros típicos  de uma geração que é propensa a saber de tudo, mas que, talvez, entenda muito pouco.

Published: BadPress on
ISBN: 9781507140581
List price: $1.99
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Constelação de Espinhas - Mauro Colarieti

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Sonora

A todos aqueles que,

conscientes ou não,

inspiraram esta obra.

Parte 1

Dias de Cão

––––––––

"Tudo que Deus faz é nos observar e matar quando nos tornamos chatos.

Não devemos nunca ser chatos."

Chuck Palahniuk - Invisible Monsters

Prólogo

Eu me odeio.

Odeio tudo o que me transformou no ser que me tornei.

Quem diria que eu me encontraria assim?

Na banheira com uma mistura de água, sabão e lágrimas, vestindo os trapos de sempre, molhados e em frangalhos, são os mesmos que visto há anos, rodeado por um fedor de limpeza que vai até debaixo das unhas.

Ouço a música que vem da prateleira sobre a pia.

Shake me down

Not a lot of people left around

Apertei o play antes de entrar, notando que o CD que está no aparelho não é meu.

Amo esta canção, apesar de não fazer parte do meu gênero.... ou, pelo menos, aquele que os outros me dão sempre.

Como não percebi o quanto a minha vida se tornou terrivelmente rasa?

Nem mesmo as ofensas de quem me odeia ou sermões de quem me ama conseguem gerar uma mínima emoção.

Sou a reencarnação da chatice, do ócio, do não ter nada nas mãos, mas paradoxalmente, possuo tudo o que um adolescente de dezesseis anos possa desejar.

Sou um enorme conjunto de pequenos fragmentos que, aglomerando-se entre eles, criaram uma gaiola.

Uma gaiola metálica feita arame farpado, corroído e enferrujado, na qual estou encerrado.

Estive lá durante toda a minha vida, e certamente não deveria reclamar.

Fiquei bem, apesar de tudo.

Taste the blood, broken dreams,

Lonely times indeed

Mas pegamos um passarinho qualquer.

Posso tratá-lo como se fosse meu filho, dar-lhe o que comer a toda hora, fazê-lo se sentir confortável... mas posso ter certeza de que, assim que abrir a portinhola da gaiola, ele voará.

Não voltará.

Não importa o quanto possa tê-lo amado, o quanto possa ter ficado bem com a proteção que lhe dava todos os dias - a liberdade vale mais do que tudo.

Para o passarinho, obvio, mas também para nós humanos.

Turn back now

it's time for me to let go

Então me pergunto: Sou livre?

Tendo um nível extremamente alto de autonomia considerando a minha pouca idade, deveria me considerar assim?

Se eu me desse conta de estar encarcerado na minha própria liberdade, no não poder ser o que eu quero, simplesmente porque não sou obrigado a ser bastante autoritário para demonstrar a mim mesmo o que eu realmente desejo?

Preciso encontrar o meu verdadeiro eu, porque o que eu sou atualmente está me embrulhando o estômago.

Quero abandoná-lo.

Para sempre.

I don´t wanna know the future,

But I'm like a rolling thunder

Sabem, há momentos nos quais é necessário dizer adeus, nos quais é preciso ir embora, sem nunca mais olhar para trás.

Sem se olhar furtivamente no espelho pelo canto do olho.

Sem lamentar a própria escolha, mesmo que possa fazer mal.

Sem ficar na segurança da rotina.

Na verdade, às vezes chega um momento onde é melhor afundar o barco do que tentar salvar o que for possível.

Even on a cloudy day,

I'll keep my eyes fixed on the sun[1]

Pela liberdade, mas não só isso.

Também pela felicidade, pela satisfação, pela verdade.

Falo com você, a pessoa que quero ser, atemorizada diante da total liberdade do mundo.

Sim, a você mesmo que está me procurando sem descanso.

Sou o garoto de quem precisa.

Estou em contínua espera pela tua chegada.

Eu estou aqui.

Você onde está?

Capítulo 1

Fabrizio

Ponho-me a caminho da escola levando adiante aquela série de preocupações que todo estudante se submete durante as últimas semanas de aula – onde encontrar tempo e cabeça para as últimas conferências, como se vestir para não padecer de calor em uma sala de aula estreita, onde comemorar o início do verão.... coisas assim.

É preciso visualizar o quadro geral da própria situação, mas não só a nível escolar. Mais que tudo, o que precisamos, é rascunhar o roteiro e o ambiente no qual o papel de nossa vida vem encenado.

É por causa desse quadro geral muito frágil, embora ontem eu tenha estado em crise.

Vomitei de novo. Acontece sempre comigo, e mesmo comendo pouco, não consigo reter nada no estômago. Infelizmente, isto vale apenas para a comida.

Não sou um cara muito aberto, prefiro reprimir todo sentimento e, claro, evito qualquer possibilidade de discussão.

Dizem que a língua é um membro indisciplinado, mas que o silêncio mata a alma. Tenho percebido isso nesse período, principalmente com os meus pais. Eles são de opinião que para mim qualquer coisa está boa, e que podem partir para o Havaí sem mim e voltar quando for mais conveniente para eles, como se não fosse nada demais. Claro, não sem me mandar para um campo de escoteiros.

Deus, não sei como fiz para me conter e não mandá-los para aquele lugar.

Sei apenas que assim que saíram para comer sem mim, à noite antes da partida, me enfiei no banho.

Na banheira, aos prantos.

Não choro por desespero.

Para dizer a verdade, quase nunca choro.

É a raiva que me fode toda vez.

Continuo a caminhar até o jardinzinho atrás da escola, pisando nos canteiros com os meus tênis Converse brancos e sentindo o olhar superior dos "Artistas do Mambembe" Os chamam assim porque são estudantes do curso de arte que se postam todos os dias na frente da entrada dos fundos do colégio – pela qual eu entro - e ficam ali fumando.

São todos homens, dos quais dois, por tabela, são meus colegas de classe.

Dos cinco que estão ali hoje, reconheço somente Giulio e Vincenzo.

Os outros não muito importantes, sei alguma coisa sobre eles apenas por conta do famoso ouvi dizer.

Os dois que citei foram namorados, no início do ano, mas só por pouco tempo. Então decidiram acabar e ficarem amigos e sair juntos à noite.

Os Artistas do Mambembe são praticamente conhecidos por serem um orgulho gay ambulante. É como se ser gay fosse um pré-requisito importantíssimo. Não conheço o motivo desta escolha e, para dizer a verdade, nem mesmo me interessa. É quase lastimável, de um certo ponto de vista. Normalmente os homossexuais são escarnecidos e achincalhados por toda a escola, enquanto aqui é moda... um pouco como uma fusão do time de futebol com o time das líderes de torcida dos colégios americanos, não?

São todos muito ricos, comparados aos outros estudantes que para pagar a mensalidade da escola particular, certamente não precisam passar fome. Além disso, fazem estas festas grandes e banais na casa de cada um deles, em rodízio, convidando as suas amiguinhas de sempre e uma vasta rede de homossexuais que saem da parte baixa bresciana, lugar onde moro, para chegar a Milão, Crema e Bergamo.

Fazem passar por festas grandiosas somente por causa dos rios de álcool que correm. Nunca me convidaram. Digamos que, mesmo tendo pouquíssimos amigos, não amo implorar para as pessoas para conseguir convites ou sair com a galera. Se alguém me quiser, me procura, não é?

Ei, Fabri!

Eu me viro, quase surpreso, olhando três deles que me cumprimentam com um aceno de mão.

Devolvo o cumprimento sorrindo, sem parar de caminhar.

Não tenho ideia do que tenha acontecido, mas minhas pernas estão tremendo. Melhor passar por ele com ar desinibido.

Espere!

Como se não bastasse, Giulio me pega por um braço.

Sei muito bem aonde quer chegar.

Normalmente me pergunta se conheço algum traficante... não que eu tenha cara de drogado! Quero dizer - sou limpo como um nada consta em uma certidão de antecedentes criminais.

A minha única transgressão é um topete loiro despenteado que uso.

Além do mais, não uso piercing, alargadores, tatuagens ou qualquer outra coisa pelas quais as vovozinhas da estação poderiam me olhar com desgosto. Visto o uniforme certinho, sem lampejos de criatividade tais como suspensórios ou meias esquisitas. Toco violão clássico e elétrico, sou membro oficial do coro estudantil, nunca fui suspenso e as minhas pinturas não foram influenciadas pela droga ou álcool ingerido na noite anterior.

Sim, provavelmente pareço um bom rapaz. Intimamente me sinto um pouco impuro, exatamente como um oceano sujo de petróleo. É que não sei nem mesmo que eu sou. Continuo a viver no meu corpo como se soubesse ser tudo, exceto eu mesmo.

Hoje à noite, você sai? pergunta logo em seguida, sorrindo para mim. Os seus cachos ruivos são sempre mais claros com o sol, mas hoje estão ligeiramente loiros.

Onde? pergunto, observando os outros com ar espantado.

Claro que não esperava uma tal pergunta. Isto é, nunca me dirigiram a palavra por mais de dez segundos, este comportamento é realmente estranho.

Noite Branca na cidade. Sai com a gente?

Sério?

Mas eu n..

Sim, claro, você é ordinariamente hétero brinca um moreno com uma orelha muito alargada e com um cigarro próximo de seus lábios carnudos. Têm algumas espinhas sobre o queixo, escondidas por uma barbicha rala.

Soubemos o que fez no acampamento de férias, o que acha?

Merda.

Okay dar um beijo de língua em um cara no quarto, mas dois e com a janela escancarada... bem, devo dizer que de você não esperava mesmo.

Afasto-me lentamente enquanto zombam entre eles.

Não pode ser. Não podem saber disso.

Eu... quero dizer, como você sa...

Jessica viu vocês e me contou me conta Giulio, ajustando o gorro preto sobre aquela juba avermelhada e indomável.

Aquela pessoa não percebe o quanto os outros podem ficar mal pelas coisas que vai dizer por ai. É sempre assim.

É a melhor amiga de Giulio, e aos dois, por certo, não desagrada saber tudo de todos.

Uma daquelas attention whores que passam os dias a tirar selfie com as tetas bem à mostra, para postar no Instagram com hashtag idiotas como #like4like ou coisa semelhante.

Não tem nada de mais. Tanto que um dia desses todos virão a saber, então...

Claro, estamos na metade de maio e o acampamento de férias foi no final de abril, mas eu pensei que hoje a estória tivesse sido esquecida.

Então? pergunto, engolindo e suando nervosamente.

Estou para vomitar, estou sentindo.

Então sai com a gente hoje à noite?

Eu olho ao redor, enquadrando Jessica.

Afasto-me do grupo sem responder.

Correndo, eu a alcanço. A pego por um braço e a levo até a entrada.

Por que? pergunto-lhe, quase chorando.

Estou quase chorando de raiva, novamente.

Por que as pessoas não podem cuidar da própria vida sem criar confusão?

Já temos tantos problemas, e se trançamos as pernas, a luta está acabada!

Ela me encara, enojada, com aqueles seus olhos cor de nozes, sempre delineados por uma maquiagem pesada.

Eu te salvei, Fabrizio.

O que você está me dizendo?

Preciso vomitar.

Eu te desmascarei para assim você poder mudar a tua vida. Coisa que continua a repetir nas tuas obras abstratas todo santíssimo mês, quem sabe, involuntariamente,

Eu a encaro, terrivelmente consciente do fato que não esteja errada.

Mas, de qualquer modo, se comportou como uma cretina.

Quero dizer, você estaria entre os garotos mais gostosos da escola sem esse seu jeito de perfeitinho.

Então se sou gostoso, ficará tudo bem, certo? Acorda! rebato, enquanto ela faz uma careta de decepção, quase assustada, que eu procuro ignorar - não estamos na tv, caralho! Que necessidade havia em contar para a metade da escola?

Ela olha para os sapatos, as suas brilhantes Jeffrey Campbell bordô.

Não sei, okay? Estava aborrecida e, também, se tivesse começado a sair com os Artistas do Mambembe, teria saído do armário.

Pelo menos eu teria decidido, idiota.

Soa o sinal.

Preciso ir, Fabrizio. A gente se vê hoje à noite, espero.

Meu Deus, se te pego outra vez por ai, juro que te cuspo na cara, entendeu?

Ela levantou os olhos para céu, me dá um tapinha carinhoso e se afasta.

Será bom te ter entre os meus cachorrinhos gays! grita para mim já distante, para que todos possam ouvi-la.

Vaca imunda diz Raffaele, surgindo às minhas costas.

Raf é o meu melhor amigo.

Tomam-nos sempre por irmãos, embora sejamos completamente diferentes. Ele é alto, moreno e tem olhos castanhos, enquanto eu sou mais baixo, loiro e tenho um prado verdíssimo no lugar da íris. Somos bem diferentes, mas as pessoas dizem que temos o mesmo sorriso. Contando que ele usa aparelho, não creio que seja realmente um cumprimento.

Pelo menos, agora é um dos garotos mais conhecidos da escola.

Eu o encaro por alguns segundos, com a boca meio aberta e as sobrancelhas enrugadas.

Todos fixados com esta popularidade de sonho de adolescente americano... me parece ter acabado no High School Musical.

Precisa aprender a ver o lado positivo das coisas que te acontecem.

Precisariam os outros aprenderem a cuidar da própria vida.

Ele ri e se enrosca no meu pescoço com o seu braço.

Não tem medo que pensem mal de nós dois?

Ah, faça-me o favor, estou namorando há dois meses.

É o namorado daquele monstro.

Não é tão feia.

Queria dizer que é falsa.

Não é sempre assim.

Mesmo? É estranho, porque ela acabou de arruinar a minha vida, sabe?

Mudou a tua vida, não arruinado.

Eu o observo em silêncio. É profunda como observação.

Estava para rebater, mas Raf entrou de repente na classe para então me convidar a sentar nos bancos da última fila.

Tem razão. Nunca fui aquela pessoa que esconde ou ostenta as suas inclinações. Sempre omiti este detalhe, ninguém nunca tinha sabido de nada. Até agora.

Mais que tudo, não creio que seja uma vergonha. Não vejo nada de mau, e talvez nem os outros, dada a adoração dos Artistas.

Entro na sala.

Os professores confiam em mim, pensam que eu sigo as aulas, mas na realidade não faço outra coisa que recuperar as horas de sono perdidas na noite anterior.

Sofro de insônia.

Muitas vezes, me encontro a uma da manhã deitado na cama, coma as janelas e olhos escancarados, estudando o barulho do vento.

Isso me relaxa, mas não traz o sono.

Nada de comida extra ou dejejum... eu me nutro com o necessário, mas, apesar disso, vomito e não consigo dormir.

Os meus pais não sabem, mas mesmo se soubessem me dariam só livre acesso ao armarinho de remédios... e não creio que seria muito prudente.

Raffaele me faz notar que ninguém está me encarando de modo estranho ou interessado.

Sou, provavelmente pela última vez, o garoto vitrine, aquele adolescente sorridente e sem problemas, o talentoso artista sem pecado para se contar.

Talvez, mas o meu amigo tem razão - a levo muito dramaticamente.

Provavelmente não mudará quase nada.

Os minutos passam, enquanto a minha cabeça está em outro lugar. As anotações se escrevem por si - as palavras caem do quadro para meu lápis, mas estou cansado demais para prestar atenção.

Não sei se sairei com os Artistas hoje à noite.

Não amo a politica deles, parece uma seita fashion no estilo da Cientologia.

Penso que se recusar o convite deles poderia mesmo deflagrar uma série de consequências das quais eu poderia me arrepender.

Sabem ser bem traiçoeiros com quem não obedece a vontade deles, mas não tenho muito medo deles.

O máximo que fizeram foi queimar algumas vespas ou chutar o saco de alguém, mas poderiam fazer muito pior.

Quero dizer - se passasse a noite com os vip do colégio, significaria sair do armário... e eu queria mudar.

Ao soar do sinal, Giulio se aproxima com o seu clássico caminhar de diva.

Não saberia como definir diferente de uma girafa bamboleante que caminha com a cabeça erguida enquanto verifica as unhas.

Hoje passo na tua casa.

O quê?

Assim que acabarem as aulas. Sei que os teus pais partiram para o Havaí e que tem a casa livre.

A pergunta certa é como todos sabem disso. Verifiquei duas semanas atrás se haviam câmeras escondidas na minha casa, mas não encontrei nada, então o halo de mistério que envolve a divulgação das minhas noções particulares permanece intacto.

Não pense mal, como alguma coisa lá e depois vamos fazer compras ele me interrompe com um tom de voz muito feminino.

Sempre detestei os garotos que se comportam como garotas.

Porque o gay deve se comportar fazendo o mundo girar de acordo com a orientação sexual?

Sendo claro, penso que cada um pode fazer o que quiser do próprio jardim enquanto não arruíne o meu, mas certas coisas eu não consigo mesmo entender.

Nego com a cabeça rindo.

Ele levanta o olhar, para então o abaixar e o aponta para os meus olhos.

Este jeito de me esquadrinhar é pouco eficaz, me sinto muito mais relaxado do que quando estava com as suas outras idiotinhas gays.

Nunca sairá com os Artistas sem um mínimo bom guarda-roupa.

"Bom guarda-roupa? Da série - Viva os estereótipos fabulosos!", certo?

Sim. Não quererá de jeito nenhum vir com a gente com uma polo branca e jeans normais, espero.

Não tenho intenção de me vestir como vocês.

Ou seja? me pergunta ameaçador.

Como puta respondo-lhe imediatamente, devolvendo o olhar e enfatizando cada sílaba.

Depois daquelas palavras, vejo com o canto do olho que a classe está me encarando completamente chocada.

Não sei o que me deu. Como já disse, não sou daqueles que procura sarna para se coçar.

Quero dizer, acredito ter razão. Eles se vestem exclusivamente com malhas decotadas e bermudas com estampas esquisitas.

Para não falar do tempo de inverno. Um deles veio até usando pele.

Eles se vestem de Deus, em nível estético, mas se esquecem, frequentemente, de que há limites.

São, como posso dizer, modelos de Tumblr que acabaram de voltar de Nárnia. Precisam se adaptar, pronto.

Giulio sorri - talvez divertido.

Recebo como um cumprimento. Depois da escola me espere na entrada de trás. Ordenou-me, antes de se afastar e voltar para Vincenzo, que me encara igualmente satisfeito.

Vince sempre me pareceu a cabeça do grupo. Talvez seja por causa de seu olhar severo, que sai daqueles seus olhos muito escuros, combinado com uma forma bem estranha das sobrancelhas.

Raffaele tem medo dele. Acha que ele é assustador e repugnante.

Em geral, a sombra misteriosa que recai sobre os Artistas do Mambembe inquieta muitas pessoas. Não a mim, claro, é necessário mais do que uma dúzia de garotinhos falsos para me assustar, embora sejam capazes de me irritar como ninguém.

Está te encarando Raf me faz notar pouco depois, surgindo como sempre atrás de mim.

Assinto, girando o corpo e estudando-o fortemente, antes de ir me sentar esperando ansiosamente o fim das aulas.

Que dia de merda.

Capítulo 2

Lohn

Perambulando pelas ruas de minha cidadezinha por anos, eu aprendi a distinguir as que estão lotadas das que não estão de jeito nenhum. Vou sempre pelas que não estão.

A solidão me diverte. Claro que, às vezes, faz mal, mas quando estamos sozinhos podemos ser realmente nós mesmos. Sei muito bem que muitos se perguntariam que doente mental gostaria de ser eu, mas pouco importa. Tenho consciência do fato de não provocar inveja e também que não deveria me interessar, mas... não sei, às vezes, observo os garotos da minha idade e penso que seria uma sensação fantástica sentir os olhares sobre mim por algo de invejável.

Gostaria de poder ser notado pelo que sou, mas a minha turma prefere seguir outras referências.

Óbvio que ela se baseia pelo aspecto físico, e sendo claro, não me considero feio, mas isso não faz outra coisa do que aumentar o sentimento de incompreensão e desajuste que experimento toda vez que passo pelo portão da escola.

Não tenho mais nada pelo que voltar para a classe toda manhã, a não ser por uma dor de estômago insuportável.

Tenho forme, mas não de comida.

Tenho fome de vitória, de conseguir chegar até o fim, mas em grande parte, este mal estar é raiva.

A raiva de não poder reagir, de ser a vítima de garotos prontos a descontar suas frustrações sobre mim.

Então não, colegas, não é um sentimento de fome. É garra, é a vontade de conseguir nadar em meio a merda que a vida me atirou sem um motivo aparente.

Então, sofrerei de uma auto piedade constante, mas todos sabem o que aconteceu naquele Junho de 2007 e entendem muito bem o que provocou em mim. Dentro e fora.

Apesar disso, os insultos e as provocações nunca faltam.

Sei o quanto podem ser maus os adolescentes, eu mesmo sou um... mas sou também um garoto que procura ver o lado humano das pessoas, embora neste período seja difícil para mim.

Talvez eu esteja deprimido, talvez não.

Talvez tudo isso seja somente um edifício amaldiçoado. Cada andar transborda de lembranças negativas, experiências que teria evitado com prazer. Elas me fizeram forte, mas me fizeram muito mal!

Estou procurando fugir dessas lembranças, botar fogo no prédio... ou jogar-me pela janela.

Daquela onda de azar podemos dizer que ainda não me livrei, já que fiquei para morar com os meus tios. Ir para casa agora, por exemplo, é algo que não gostaria, já que brigariam pelo atraso.

E, por mais que possa detestar a chegada do verão, preciso admitir que o ar que corta o meu rosto me faz sentir um pouco melhor.

Suspiro, pisando com um dos pés sobre um bueiro preto. Dando-me conta que a bota de cano curto está suja na ponta, me ajoelho para dar uma limpada.

Odeio manchas.

Gostaria que tudo fosse uniforme.

Gostaria que não existissem diferenças, que ninguém pudesse criticar nenhuma outra pessoa por causa de um nariz torto ou de uma baixa estatura.

Gostaria que as manchas não existissem. Porque eu sei, sou uma mancha vistosa e sê-la me faz mal.

No fundo, todos querem limpar você. Você quer apenas que te deixem em paz, mas os outros não conseguem ver um casaco lindo com uma estúpida manchinha.

Querem tirá-la de lá com as próprias mãos.

Coisa que, no tocante a mim, acabei de fazer antes de me levantar novamente e continuar a caminhar.

Não tenho um destino, mas a caminhada me agrada. Ela me dá a sensação de ser livre, mas saber que o medo me domina mais do que qualquer outra coisa é loucura. Este sentimento de opressão que me faz sentir desconfortável perto das pessoas, que me obriga a ir por ruas abandonadas por Deus nesta cidade chata e sempre igual.

Fico horas a me olhar no espelho, pensando sobre o que vestir para não parecer um embutido, para depois andar por lojas que não dão ibope, das ruas invisíveis da minha pequena cidade. Sozinho.

Talvez movido pela tristeza, decido ir até a livraria do centro, sem pensar que o lugar estará cheio de gente.

Amo ler e para explicar a razão, me valerei de uma frase de que eu gosto muito: "Todos nós vivemos apenas uma vez, mas quem lê pode viver milhares de vidas."

Acho fantástico poder me identificar com outras pessoas de outros séculos e inseri-las em outros contextos. É um lado da leitura que acho muito interessante.

Em geral, quando vejo alguém que está lendo perto de mim - principalmente no metrô - é como se me convidasse a olhar as páginas, a admirar a capa, a estudar a expressão do leitor...

Um monte de boas leituras eu devo a este meu hábito de ir à caça de novos títulos olhando ao meu redor.

Por isso, apenas olho a série de livros na vitrina, sorrio espontaneamente: novas remessas.

Estou para entrar quando entrevejo uma nova tabuleta de madeira perto daquela lojinha. "La buona forchetta"escrito em letra cursiva muito elegante, atrai a minha atenção.

Decido me aproximar para ver do que se trata.

Temos muitos restaurantes, principalmente nesta parte da cidade, que embora subvalorizada e deserta, nunca viu um comércio falir ou fechar. Creio que seja graças aos poucos clientes habituais, como eu.

Olho a vitrina, intrigado por um casaco vermelho e uma malha preta que um manequim branco exibe com um orgulho incomum.

Percebo que o tamanho é maior do que o normal e quase me assusto.

Um negócio roupas grandes era a última coisa em que teria pensado.

Quase comovido, lanço um olhar aos outros manequins.

Claro que me sinto interessado, a coisa me agrada e me atordoa ao mesmo tempo.

De repente alguém do lado de dentro bate no vidro e me cumprimenta.

Gesticula para que eu entre na loja e suponho que seja o proprietário.

Um homem muito alto e forte, com bigodes e cavanhaque grisalho.

Admiro os detalhes de seu colete preto com listras brancas, bem como a jeans cinza, rasgados nos joelhos que o fazem parecer uma transposição ultramoderna de Beetle Juice.

O meu coração bate descompassado assim que passo pela soleira da entrada.

A música que acompanha o momento é familiar, uma daquelas canções que conhece por que a escuta por ai e não por que você gosta realmente.

Olá cumprimento, procurando olhá-lo nos olhos, mas acabando por desviar a minha atenção daquelas pupilas verdes, para a seção de calças.

Oi. Só para te informar, cada camiseta que comprar te dá o direito de pegar outra por sete euros! ele me diz, sorrindo orgulhosamente.

A loja está deserta, o que me deixa um tanto triste. As roupas são tantas que me fazem sentir como a pequena Alice no famoso País das Maravilhas e, considerando que olhei alguns pares de jeans maravilhosos, poderia se dizer que é uma comparação muito acertada.

O proprietário se encosta à parede debaixo de algumas fotos enormes nas quais veste alguns suéteres xadrez, cruzando as pernas e braços com uma segurança muito convincente.

Checo os braços que são tão peludos quanto tatuados, e também uma mancha irritante no queixo, que apesar de tudo lhe dá uma aparência única.

Parece uma combinação daqueles valentes e lindos domadores de leões de circo com a mulher gorda.

Quando ouço o seu passo pesado se aproximando começo a ficar nervoso.

Espero que não seja um daqueles vendedores que insiste para que você compre alguma coisa.

Devo dizer que não tenho muito dinheiro.

Isto é, não passamos necessidades, os meus tios trabalham... Mas sacrifícios são necessários. Sempre.

Alguns sacrifícios, como por exemplo, faltar às excursões da escola para ficar na caminha quente até meio-dia.

Somos uma marca nova ele me informa.

Mas vocês têm estilo.

Sorri para mim, eu o vejo através do espelho que está a minha frente.

Por alguns minutos fico sozinho agarrado a algumas peças.

Os tamanhos são enormes, é estranho saber que o meu está entre os menores aqui dentro.

Entro no terceiro provador. Sou fixado pelo número três, não sei por que.

Os garotos estão assustados com a minha loja, sabe?

Enquanto descalço as botas para vestir um par de calças de cor púrpura, lhe pergunto como assim.

Creio que estejam constrangidos... quero dizer, ninguém aqui fica orgulhoso em comprar roupas em uma loja de tamanhos grandes. E, sinceramente, não esperava por isso. Quero dizer, a Itália é o país da comida.

Fecho os botões sem qualquer dificuldade. É uma sensação nova.

Você não é italiano?

Sou de origem neozelandesa, nasci na Itália, mas vivi entre a França e Alemanha.

Ah!

Agora eu me sinto quase sem graça por ser um puro sangue italiano.

As pessoas não gostam de serem gordas confesso-lhe rindo: creio que este seja o problema.

Talvez apenas precisem de bons exemplos...

Saio do provador, quase chorando de alegria.

Pelo sorriso satisfeito do proprietário, sinto-o como se estivesse orgulhoso por ter aberto a loja, apesar de tudo.

Quero dizer, vendemos também graças às compras online. Mas... não sei, me entristece ver esta loja sem a garotada. Isto é, eu acho que a minha coleção seja bem juvenil.

Concordo tão chateado quanto ele. No fundo, nem eu mesmo teria entrado se não tivesse sido pelo seu modo caloroso de se comunicar.

Bem, vocês acabaram de abrir eu o encorajo, sorrindo indo em direção ao caixa.

Na inauguração da loja a idade média era de quarenta anos.

Enquanto caminha na minha frente, observo a tatuagem de uma ancora atrás da orelha.

Preciso apenas encontrar um jeito de agradar aos jovens acrescenta acariciando o cavanhaque.

Tenho certeza que conseguirá. Olhando estas roupas, você merece. Sério.

Dou-lhe uma nota de cinquenta, pela primeira vez feliz em gastar o dinheiro.

A bolsa, com um garfo enorme como logo, me faz sorrir.

Tudo isso é tão estranho.

Sinto-me considerado, e é uma sensação fantástica.

Ele me acompanha até a entrada, enquanto continua a me falar de como está contente em ver uma pessoa com menos de trinta em sua loja.

Está tão orgulhoso deste seu trabalho que realmente parece que esteja lutando por uma causa, e não posso fazer nada além do que agradecê-lo.

Parece que eu não preciso dar explicações, acho que ele entendeu o que pretendia com aquele obrigado imparcial.

Saio da loja, e talvez por ironia da sorte ou por uma questão de carma, me encontro diante de alguns garotos que estão conversando.

O que é esta loja?

Uma coisa para gordos, deixa pra lá. Fazem de tudo para não emagrecer.

Enquanto estão indo embora, sinto uma chama por dentro.

Não sei se é o meu prédio interior que está pegando fogo ou se é apenas outro andar que está para ser construído.

Giro por um instante, despedindo-me do proprietário com um aceno de cabeça muito confiante, mas a vergonha se lê sobre a minha face.

Saio daquele País das Maravilhas onde por um momento tinha me esquecido dos julgamentos do mundo exterior, para depois receber um tapa na cara como boas vindas.

Assim que os garotos