O Caçador de Libélulas by Giuliana Guzzon - Read Online
O Caçador de Libélulas
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Summary

Gabriel Larsen é um antropólogo muito dedicado ao seu trabalho.
Na sua Firenze continua a se atormentar sobre as evidências encontradas em uma escavação realizada na África. 
Sente que precisa explicar o que, aparentemente, é inexplicável.
A descoberta do corpo mutilado de uma garota em Malindi se transforma em uma espiral de homicídios.
Tocará a Doris, uma profiler, ao patologista Steven e ao tenente Robert se adentrarem em um dos piores pesadelos feito de ossos. 
A única prova que se trata de um serial killer é a presença de asas de libélula inseridas nos olhos das vítimas. Esta é a sua assinatura, mas o que significa? Quem conhece o seu segredo?
O assassino é rápido e nunca perde o controle; segue os meandros escuros da perversão humana, obcecado pela poesia e a música.
Somente uma certeza: continuará matando.
Nenhuma mulher está segura; ele as escolhe, as segue e as tortura.
Toda vez que mata, as fantasias se tornam mais intensas, provocantes e violentas.
Ambientado em um cenário de tons quentes, perfumes e cheiros que evaporam entre a terra árida e o verde, onde o vermelho encontra espaço nos incríveis pores do sol, se é transportado para o coração do Quênia, onde se sente a alma do povo Masai.

Published: BadPress on
ISBN: 9781507156650
List price: $1.13
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O Caçador de Libélulas - Giuliana Guzzon

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Agradecimentos

O Caçador

de Libélulas

Romance de

GIULIANA GUZZON

Propriedade Literária Reservada.

Copyright©Giuliana Guzzon & TE  2014

S 4568946817

Depósito legal: outubro 2014

––––––––

Foto e gráfica realizada por Liliana Marchesi

www.lilianamarchesi.it site oficial

Imagens originais:© Arman Zhenikeyev - Fotolia.com

© paulrommer - Fotolia.com

Cheeck to cheek by Commod©Copyright Company

O CAÇADOR DE LIBÉLULAS

... os movimentos de sua alma são sombrios como a noite, e as suas afeições tenebrosas como o Érebo.

William Shakespeare - O mercador de Veneza

Dedicado aos meus filhos com a esperança de que a minha paixão por escrever possa ser tornar um presente para o futuro deles, e aos meus avós Irma e Beppe por terem me criado e amado como uma filha.

Giuliana Guzzon

Prólogo

––––––––

A sala era sombria e escura, iluminada apenas por uma luz vermelha.

Na parede milhões de libélulas produziam a música.

Dezenas de milhares de libélulas.

Com a faca na mão chega ao corredor que levava à porta.

Em um instante se sentiu invadido por uma fúria homicida. Sentia uma enorme necessidade de ferir, de esquartejar a sua carne, de ouvi-la gritar, de ver a morte em seus olhos aterrorizados pelo medo.

Não se fiava ou confiava em ninguém; era um misantropo e um observador atencioso.

A sua capacidade de enganar era claramente superior àquela do louva-deus: como ele, escondia a sua ferocidade sob um comportamento pacato. Tinha um conceito romântico da violência, mas que na realidade se traduzia em sangue, ossos, decomposição e pó.

Avançou em direção à porta e permaneceu em espera.

O instinto o guiaria mais uma vez.

Em sua mão a faca cortava freneticamente o ar para cima e para baixo.

A música estava dentro dele.

Pulsava.

Devorava-o.

"... sigo a música,

que voa suavemente"

Ela tinha se acostumado com a escuridão.

Tinha sido presa e não sabia sequer que dia era.

Sentia o cheio nauseante de carne putrefata e a corda que atava os seus pulsos esfolava a pele.

Tinha perdido muito peso e os seus braços estavam repletos de hematomas; ele tinha lhe cortado os cabelos com uma navalha.

A sede.

Quanto tempo poderia sobreviver sem água?

Uma semana? Um mês?

Com seis passos o homem a alcança, puxou a corda obrigando-a a se levantar.

A lâmina da faca acariciou-lhe a garganta.

Hesitou um instante e sussurrou alguma coisa, enquanto ela estava perdendo os sentidos.

Podia ser qualquer um e poderia lhe fazer qualquer coisa.

1

––––––––

TRÊS ANOS E SEIS MESES ANTES

Os passos ressoaram abafados nos degraus da escada de incêndio externa. A janela do apartamento estava semiaberta e a moça estacou de repente. Ficou escutando.

Segurando a respiração, encontrou coragem para se mover e aproximar cautelosamente do topo da escada de incêndio.

Correu o risco e olhou para baixo. Na escuridão em que as escadas desapareciam, estas formavam uma ampla curva até ao andar inferior. Pelo que ela conseguia ver, o intruso não estava ali. Talvez tivesse se escondido em um canto, se entocando como uma cobra pronto para atacar.

A jovem percebia, instintivamente, a presença ameaçadora.

Apagou a luz. Não podia se acostumar logo com a penumbra, mas conhecia a sua casa de olhos fechados e conseguia se mover sem medo de tropeçar nos móveis.

Certa de que a salvação estivesse no movimento, se moveu com cautela esperando alguma violência súbita.

Saiu da sala e seguiu pelo corredor.

Com as palmas das mãos encontrou a porta da salinha, pousou a mão sobre a maçaneta e a girou devagar, sobressaltou quando a porta abriu com um estalo.

Permaneceu ouvindo movimentos ou rumores eventuais de respiração.

Quem quer que fosse, certamente, já tinha entrado e poderia surpreendê-la a qualquer momento.

A sala em que se encontrava era espaçosa. Havia um sofá encostado em uma parede tendo ao lado duas poltronas juntas de tecido xadrez, do lado, uma estante alta de nogueira maciça entupida de livros.

A moça se deslocou devagar para o centro da sala de estar até a mesa coberta de livros. Agarrou-se a madeira da prateleira, tremendo de medo, sentiu um formigamento paralisante subir pelas pernas. Aquela espera fez com que a sua coragem começasse a ruir. Completamente paralisada pela angústia, temia que se fizesse o menor movimento o intruso a sentiria. Se entrasse na sala, ela não teria saída.

A esperança durou pouco, alguns passos surdos ecoaram, então a porta se abriu de um golpe.

A figura apareceu na soleira, iluminada pelo raio do luar que passava pela janela.

As forças lhe faltaram e o coração batia tão forte que cada batida poderia jogá-la por terra.

O homem com um salto se precipitou até ela que lutou com todas as suas forças, se agarrando ao instinto de sobrevivência, então com um silvo a golpeia no pescoço, sobre a carótida. O esguicho de sangue arterial chapinhou do chão até o teto formando um arco.

A respiração ficou sufocada na garganta com o esforço de engolir.

Ele desferiu outro golpe, desta vez de baixo para cima.

Ela levou as mãos ao peito, parcialmente aberto, enquanto as suas pernas cediam. Caiu no chão, lutando inutilmente para tentando respirar. A visão começou a nublar-se e começou a sentir um entorpecimento.

Enquanto caia se agarrou à mesa arrastando os livros para o chão: textos esotéricos e de ocultismo que tinham alimentado a sua paixão. As capas sobre as quais escorria copiosamente o sangue pareciam tragadas pela gosma.

Levantou com um último esforço a cabeça para vê-lo, você... murmurou aturdida.

Reconheceu aquele seu amigo em quem confiava. Com ele tinha explorado os meandros mais sombrios da mente e tentado algumas experiências das ciências ocultas.

Debaixo de um capuz, os olhos do homem brilhavam com uma luz louca, visivelmente dilatados.

A inspiração, às vezes, nasce assim...

Shshsh... sussurrou-lhe ao ouvido enquanto afundava a lâmina em sua carne ... deixe-me terminar....

Tirou uma luva para o prazer de sua sensibilidade. Ele gostava de passar a mãos sobre os pelos púbicos de uma mulher, gozar com calma a sua pele arrepiada.

Gemendo a agrediu com mais força, colocando no ato toda a perversão com um prazer sutil.

Sabia que o tempo era curto, que ela não viveria para sempre, então não podia desperdiçá-lo.

A dor não era nada, ela tinha um pedaço que lhe servia.

Suspirou. Limpou na manga o osso extirpado.

Passou a mão mais uma vez pela pele fria, tinha a boca aberta e os lábios manchados de sangue ainda fresco. Fixava o vazio com os olhos velados pela morte.

Tinhas as roupas manchadas de sangue, precisaria se trocar antes de deixar a casa, mas gostava de vestir as sujas.

***

Depois de um mês, o fedor adocicado tinha invadido o vão das escadas do edifício e os inquilinos chamaram a Vigilância Sanitária e a polícia. Os agentes arrombaram a porta de entrada e se depararam com uma cena horripilante.

A vítima estava imersa no cherume, o primeiro policial que tinha entrado no apartamento arrombando a porta de entrada, tinha vomitado sobre o tapete.

Faixas e manchas vermelhas escuras quase marrons, recobriam os livros espalhados pelo chão e toda a área ao redor do cadáver até ao teto. Sobre o linóleo amarelo, gotas de sangue, agora negras, corriam até a porta do banheiro, escorridas de uma lâmina afiada, da qual certamente tinham caído.

A cena do crime tinha sido interditada. Os restos tinham sido transportados para o necrotério para a autópsia. Não descobririam muita coisa, o corpo tinha sido esquartejado e estava em estado avançado de decomposição. Nenhuma impressão digital. Somente duas tatuagens ainda visíveis, um pentagrama no ombro esquerdo e uma libélula no tornozelo direito.

2

––––––––

Do outro lado do mundo, onde a rocha parecia impedir o verde de germinar para dar espaço às cores do pôr do sol, uma terra selvagem e não cultivada que o chamava: era a África que lhe martelava o cérebro.

Gabriel Larsen, antropólogo, tinha voltado à Itália há pouco e a saudade já o atormentava. Apesar da dúvida atroz que envolvia a última descoberta arqueológica, os ouvidos e o coração se abriam àquela visão, que percebia clara e realisticamente: assistir a todos os alvoreceres e as auroras no Quênia, para depois se precipitar com a alma na escuridão.

A inspeção em uma escavação, que além dos fósseis encontrados, tinha dado lugar à descoberta de várias ossadas, o que o perturbava. Os arquivos biológicos deveriam dar respostas precisas. Gabriel tinha insistido em voltar a Firenze com alguns restos para poder ter o suporte tecnológico de pesquisa.

A fossa encontrada era profunda, dez metros de profundidade por três de largura, onde os mortos tinham sido depositados depois das cerimônias fúnebres e envolvidos em panos vermelhos. Todo o terreno da fossa escavada tinha sido consagrado e se tornado um cemitério.

Parte por parte, camada por camada, com a umidade, em pouco tempo a carne tinha sido consumida restando somente a ossada.

Seção de Antropologia do Museu de História Natural, Universidade de Firenze. Gabriel Larsen, com uma aparência digna, um rosto magro, barba de dois dedos e cabelos mais longos do que o necessário.

Aos trinta e nove anos aparentava no máximo, trinta e cinco.

Recebeu uma educação de nível internacional. Conhecia variadas línguas e principalmente possuía a capacidade do domínio de espaço.

Onde quer que se encontrasse  parecia estar em casa.

Possuía o encanto de seguir sempre o seu instinto, uma índole válida, que sempre o levava para a linha de frente, no que se referia ao seu compromisso profissional ou a sua missão, que ele adorava definir assim.

E era um trabalho atrás do outro.

Antropólogo apaixonado completou o doutorado em bio- arqueologia e aceitou um posto no departamento de Osteologia Humana, onde realizava a restauração e análise dos restos mortais, principalmente fósseis.

Às vezes, a sua colaboração era também solicitada para analisar cadáveres, então, raramente e com entusiasmo quase inexistente, se fazia de legista.

Pesquisador da extinta cultura Yamana na Argentina, das comunidades Tuareg no Saara argelino, dos nômades da etnia Pastum, tinha fama de grande especialista, e se devia a ele a coletânea etnográfica do Museu de Firenze.

As escavações da missão na África prosseguiram em uma bacia lacustre e bem naquele local foram encontrados restos humanos.

Mas alguma coisa de estranho tinha atraído Gabriel, anomalias na estrutura óssea hominídea e que o tempo tinha deteriorado os vestígios que permaneciam incertos.

Do cair do sol até enquanto as forças o sustentavam, ficava no laboratório, debruçado sobre o microscópio. Descansava somente quando o cansaço não lhe permitia mais o estudo.

Para um olho leigo, os ossos que analisava podiam parecer todos iguais, mas os olhos de Gabriel não eram inexperientes, e aqueles fragmentos não o convenciam, estava procurando dar um significado ao sentimento de ansiedade que o perturbava.

Das janelas não chegava muita luz, a cidade estava silenciosa e deserta, como com muita frequência acontecia, as coisas tinham uma dupla aparência.

De repente, uma voz límpida preencheu o silêncio.

Ainda aqui?

Gabriel, que não tinha escutado ele entrar, sobressaltou-se e girou.

Um homem, com um jaleco branco, estava em pé às suas costas. No crachá estava escrito Prof. Remus.

Estou fazendo uns testes suplementares...

O professor anuiu e pergunta:

E por qual motivo? Parece-me que é tudo de origem biológica...

Aguardou a resposta por alguns instantes.

Não sei, não estou convencido...

O reitor está a par de tudo isso?, o encarava com um misto de curiosidade e reprovação.

Gabriel, balançou a cabeça.

Se não entregasse um relatório definitivo, a pesquisa sobre a descoberta dos restos ficaria aberta.

O senhor sabe que esta pesquisa é acompanhada pelo alto?

Eu sei, mas não permito a ninguém de me ensinar o meu trabalho...

O professor Remus, irritado, girou sobre os calcanhares deixando-o sozinho na grande sala, batendo ruidosamente a porta atrás de si.

Gabriel se levantou com as pernas bambas.

A sua esfera racional buscava combater um pensamento que teria aterrorizado muitas pessoas, levou as mãos ao rosto esfregando-o, apagou a luz e saiu no ar fresco da noite, deixando para trás somente as sombras

3

––––––––

Já era manhã há algumas horas. Gabriel depois de uma ducha rápida e de ter escolhido uma roupa adequada, saiu do quarto.

O homem que gerenciava o B&B era turco e pouco amigável.

Demonstrou qualquer coisa, menos felicidade em responder ao bom dia, mas isso não interferiria nos planos do antropólogo que tinha um compromisso com o reitor do Instituto de História junto à universidade de antropologia.

Lá fora, Firenze resplendia em sua cor natural, dentro do ar florido dos montes que no largo horizonte encerravam as praças, vibrante em sua glória artística.

Nos burgos, um eco rebatia nos prédios que tinham suas fachadas voltadas para a rua de pedras de rio.

Gabriel caminhava a passos largos até margem do rio Arno.

A África e os ossos com os seus segredos estavam em seus pensamentos como um tormento silencioso.

O mês de agosto estava abafado, sentiu o suor que lhe escorria ao longo da espinha, afrouxou a gravata e desabotoou o primeiro botão da camisa.

Firenze com as igrejas espalhadas, as ruas de um século atrás, pedras e alguns buracos.

O centro, lugar de novidade e respeito ao tempo.

O dia bonito tinha induzido os cidadãos a invadirem as ruas, tornando-as lotadas e animadas mais do que o normal.

Todos passeavam entre o luxo das vitrines, algum músico de rua rompia o frenético ribombar dos passos dos turistas. Mudavam os músicos, mas a música era sempre a mesma, até a praça do Duomo, um ponto no qual se encontravam todos.

O cavalo prosseguia conforme as condições da rua, às vezes trotando, outras vezes ao passo, puxando uma carroça com bestas e assentos embutidos.

Alguns turistas se sentavam em seu interior e fotografavam em giro.

Gabriel permaneceu parado por um momento, para acompanhar com o olhar o deslizar lento e rítmico dos cascos que cadenciavam os seus pensamentos.

Recomeçou a caminhar entres ruelas de pedras que não eram mais largas do que dois homens, nas quais a sombra perene era preservada pelos tetos desiguais das casas construídas próximas umas das outras.

Passou por uma pequena praça se concentrando na caminhada e no encontro com o reitor: sob os seus pés o solo duro fazia o seu caminhar rígido e não natural.

Estreitou as costas e enfiou as mãos nos bolsos.

Diante do prédio, Gabriel olhou o relógio. Tinha chegado na hora. O reitor não gostava de esperar, e muito menos que as pessoas que chegavam atrasadas.

O museu de história era austero, mas acolhedor. Nas paredes a exposição de quadros antigos se alternava com os melhores projetos estudantis e cada estante ao longo do corredor transbordava de livros.

O mezanino com a escada e a balaustrada que dominava a parede de fundo, conduzia ao estúdio do diretor.

Com passo decidido o antropólogo avançou para subir ao andar de cima. Permaneceu alguns segundos em frente à porta, então bateu com os nós dos dedos. Entre professor... o estudioso estava sentado atrás de uma escrivaninha de carvalho maciço. Sobre a mesa pilhas de documentos se amontoavam a altura de um computador.

Era um homem de pequena estatura, com um olhar inteligente que refletia uma curiosidade atenta para o mundo que o rodeava, devia ter, pelo menos, cinquenta anos.

Uma faixa de pequenas rugas marcava a sua testa. Os traços do rosto fino eram contornados por uma barba suave quase prateada que destacava a linha do queixo.

Gabriel examinou a sala e a mobília essencial. Sobre o chão, através de uma grande janela, caiam raios oblíquos de sol. Também do ponto onde se encontrava podia divisar uma esplêndida vista da cidade até a uma de suas célebres colinas.

Terminou os seus estudos dos restos? a voz era um pouco rouca, pelo excesso de fumo, não podemos esperar mais, precisa redigir o certificado. Além do mais, o instituto antropológico programou uma conferência, os jornalistas estão nos cobrando. O senhor será o relator principal...

Um músculo começou a se contrair no rosto de Gabriel.

Então, o que pode me dizer sobre aqueles ossos?

... que são um problema, responde Gabriel com calma.

O que significa?

Gabriel contrai as costas.

Não posso liberar a declaração afirmando que são de origem arqueológica..., fez uma pausa precisamos contatar as autoridades do lugar, acho que estejam em perigo e deveriam ser informadas...

Tem certeza disso? Não podemos dar um alerta de tal gênero, tem ideia do que desencadeará?

... e o senhor tem ideia das consequências se mantivermos segredo?

4

––––––––

O despertador marcava oito, Gabriel passou a noite acordado, imóvel em meio aos seus pensamentos. Talvez precisasse só deixar pra lá e vencer os seus medos. Não queria aceitar a dúvida dos estranhos sinais encontrados nos ossos, mais pensava a respeito mais ele suava.

Ele se levantou e fez uma xícara de chá. Olhou em direção a janela da cozinha. O gato do vizinho estava se esfregando contra o vidro com um miado lamentoso, fazia uma pausa e recomeçava.

Deve querer um pouco de leite..., Gabriel pensou espreguiçando-se.

Então, entra... disse e o observou com um sorriso. O telefone tocou naquele momento.

Alô?

Professor, estão esperando-lhe...

A conferência, o senhor esqueceu?

Sim, já estou indo.

Professor, tudo bem?

Si-i-im, respondeu sonolento.

Pouco depois, saiu de casa com passo decidido e com uma ânsia que não conseguia dominar. Passou pelo prédio dos Congressos em direção a Universidade, e mais de uma vez tinha escolhido aquele trajeto, e toda vez o considerava perfeito. Toda vez com uma certeza maior.

O edifício era de frente para a Piazza della Signoria, a praça mais importante da cidade.

Não longe dali, as lojas de todos os tipos e o bar mais famoso da área estava sempre fervilhante de gente.

Gabriel olhou para dentro, antes de começar a correr, estava atrasado.

Diante da porta da sala de conferências recuperou o fôlego e abaixou a maçaneta, a sala era retangular e a curiosidade a lotou de pessoas que conversavam entre si; dava a sensação de entrar em um vespeiro.

Em pé, em frente a porta, olhou tudo ao redor, reconheceu personagens proeminentes no mundo da ciência e da medicina, não lembrava os nomes de todos e com alguns tinha colaborado em muitas pesquisas.

Eram dez da manhã e havia uma estranha tensão no ar. Nas tribunas estavam presentes todos os estudantes. Os jornalistas se acomodaram, em frente, no primeiro andar.

Gabriel, para a ocasião, vestia o terno azul que reservava para suas saídas mais importantes, na corrida tinha se amarrotado um pouco.

O teto aviltava com a sua pompa. Afrescos de 1300 olhavam para baixo em uma sucessão de imagens dedicadas à caça.

O estuco dourado se fazia de moldura com ornamentos de flores e coroas de louro.

Ao centro, em torno de uma mesa recoberta de damasco vermelho, alguns técnicos completavam os testes de áudio.

Sempre se surpreendia no momento em que se aproximava do microfone.

Em todas as perguntas, mesmo aquelas que à primeira vista podiam parecer mais ingênuas ou previsíveis, Gabriel conseguia colher uma observação aguda, um problema para desmembrar e respondia sempre com profundidade.

Todos olhavam para ele, cochichavam e a curiosidade saturava o ar.

Bem! disse por fim, dando dois toquinhos no microfone.

Obrigado por terem vindo! Lamento entrar logo no assunto, mas a hipótese de uma datação precisa dos ossos humanos ainda está longe de ser confirmada, não existe no momento, uma identificação e não estou em condições de entregar um certificado.

Um vozerio geral explodiu na sala.

"O que faz o senhor acreditar que a escavação possa esconder