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Vida Feliz

Vida Feliz

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Vida Feliz

Duração:
222 páginas
2 horas
Editora:
Lançados:
Aug 9, 2017
ISBN:
9781507165249
Formato:
Livro

Descrição

Laura Smith, uma popular e egocêntrica top model, morre de uma maneira absurda e inesperada estando no seu melhor momento profissional em Nova Iorque. A partir desse momento sua aventura começa, no seu primeiro passeio como fantasma, na cidade dos arranha-céus, encontra nada mais e nada menos a John Lennon. Mas, ao chegar à luz e conhecer São Pedro, este diz que ela deve voltar. Em outro corpo, em outra vida, em outro lugar... lembrando mais da vida anterior como modelo do que da vida atual, com um toque sobrenatural, complicando ainda mais sua vida, em certos momentos. Laura começará a viver como Marta, um caixa de supermercado em uma pequena cidade, com uma vida bem diferente à anterior e com muitos problemas por resolver.

Editora:
Lançados:
Aug 9, 2017
ISBN:
9781507165249
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

Vida Feliz - Lorena Franco

Capítulo 1

MORRER É FÁCIL

(Encontrar a maldita luz, nem tanto)

Sabe esse tipo de garotas bonitas, sexys, inteligentes, altas... que vão pelo mundo sem acreditar que têm essas qualidades? Bem, eu não era desse tipo. Com dezesseis anos desfilei nas melhores passarelas internacionais e com vinte fui morar em Nova Iorque. O sonho de toda modelo. Tornar-se uma Top Model bem cedo e morar na cidade dos arranha-céus, a cidade que nunca dorme. Todas sabemos que com trinta anos, você está morta. A questão é que eu, com vinte e oito anos e a ponto de assinar um contrato milionário com uma das melhores marcas de lingerie, morri. E não metaforicamente.

Era uma ensolarada manhã de junho de 2012. Esse dia me levantei cedo, às onze da manhã. Minha avó sempre dizia que Deus ajuda quem cedo madruga... acho que ela estava errada. Fiz ioga, tomei uma vitamina de frutas, comi um pouco de cereal integral que estava em uma bolsa dentro do armário, não sei há quanto tempo... tomei banho e me vesti. Algo informal, algo desalinhada, mas na moda. Apesar de morar no décimo primeiro andar, sempre usava as escadas. Nunca o elevador. Regra número um se você quiser ter um bumbum bem durinho e sem celulites. Maldita a hora e o momento em que fiz o que sempre vi nos filmes. Um dia importante, um sol brilhante, um céu sem nuvens... e a protagonista para na entrada do prédio onde mora, olhando o céu com um sorriso aberto. Não tanto porque saem rugas..., mais do que o normal em mim. O sorriso desapareceu em zero vírgula segundos quando vi caindo em uma velocidade ultrassônica o que parecia ser uma torradeira. Também vi uma cena bem parecida em um filme e falei para mim mesma: Será estúpida? Afasta! Sai! Vai morrer! É muito fácil criticar as personagens de um filme, mas quando falamos da vida real... Ah! É outra história. Igual a protagonista, cujo nome não me lembro e muito menos do filme, fiquei paralisada, enfeitiçada olhando como essa torradeira ia cair em cima de mim iminentemente. Até que em um momento... o impacto foi demasiado forte para sobreviver a algo assim. Poderia até ter sobrevivido se não tivesse torcido o tornozelo, o salto não tivesse quebrado e eu não tivesse batido a cabeça no meio-fio. Tive um namorado médico, mil anos atrás, e ele adorava falar sobre morte. Ele dizia que o ouvido é o último sentido que perdemos. Isso me deu tempo para ouvir os gritos, sapatos se aproximando ao meu corpo moribundo e ensanguentado... inclusive Roberto, o motorista peruano baixinho e atarracado, que estava me esperando alguns passos atrás de onde ocorreu o acidente. Escutei que ele dizia: «Senhorita Laura, eu falei para se afastar!».

Sim, eu também disse isso à moça do filme e.... claro que a ela o que caiu foi uma estufa... é claro que o cinema exagera tudo.

De repente, tive a sensação de estar flutuando ou algo assim. O Gasparzinho disse que morrer é como nascer, só que ao contrário. Foi uma espécie de choque, uma sensação bem estranha que não pode ser comparada a nada do que conhecemos quando estamos vivos. Meu corpo estava no chão, ensanguentado e sem vida, podia vê-lo. Cercado por desconhecidos que, certamente, lembrarão deste momento o resto da vida. Menos eu, isso esperava... um momento que gostaria de apagar para sempre. Se eu soubesse teria dado um pontapé ao estilo informal e desalinhado das modelos. Teria escolhido, para a ocasião, um vestido Gucci maravilhoso que me deram na Paris Fashion Week. Nesse momento, já não sentia meu corpo como sendo aquele jogado na rua. Simplesmente, não sentia estímulos humanos e ao tentar me ver no vidro da porta de entrada do meu ex prédio, não via meu reflexo. Sim, estava morta. Queria fazer alguma brincadeira com aqueles que observavam meu corpo, mas ainda não era expert o suficiente para mexer nas coisas sem tocá-las... algo que em vida teria sido genial.

Depois de cinco longos minutos, chegaram dois carros: o da polícia e a ambulância. Faltavam os bombeiros para fazer um coquetel explosivo. Se estivesse viva, teria flertado com o primeiro policial que desceu do carro, afastou as pessoas e com grande pena observou o meu corpo sem vida. Que momento! Quis lembrar a lingerie que tinha colocado e se estava cem por cento depilada. Porém, percebi que a memória da alma não é a mesma do corpo físico. Tem detalhes que escapam e padecemos uma perda de memória repentina das coisas materiais que deixamos do outro lado. Um lado que eu podia ver, mas que ninguém via, pelo menos os vivos. Esperava uma luz ou, inclusive, o fantasma da minha avó, que quando viva sempre dizia que ia estar me esperando quando eu morresse.... Que vontade! Acostumada a ser o centro da atenção, tinha que me adaptar a ficar, nesse momento, em segundo plano... por outro lado, meu corpo físico e inerte era o protagonista, embora não estivesse em sua melhor condição. A pose do pé e do quadril não me favorecia, para nada.

––––––––

Olhei ao redor tentando encontrar alguma explicação. Mas, não havia. A cena estava se tornando demasiado dramática para mim. O que deveria fazer? Abandonar esse lugar. Sim, sem lugar a dúvidas. Devia abandonar o corpo que já não me pertencia e ir a.... aonde? Estava perdida. Fiquei muito triste em deixar um corpo ao que tinha tanta afeição... tinha maltratado durante muito tempo passando fome, fumando centenas de cigarros e bebendo gin tônicas, manhattan’s e mojitos... Mmmm! Mojitos! Se eu soubesse teria comido mais cereais esta manhã. 

— Oi! Olááááá! Morri! Não se supõe que alguém deve me pegar? Me guiar?

Por mais que gritasse pedindo ajuda, ninguém me ouvia. Nem os vivos e nem os mortos. Então, decidi passear. Foi uma experiência um tanto quanto curiosa.

De repente, estava na rua 72 sem saber como tinha chegado lá. Parei no meio da rua e observei. Observei olhares, passos apressados, tristeza, alegria, boas e más notícias.... Podia, inclusive, ouvir o pensamento de muitas pessoas que passavam por mim, sem sequer me notar. Oh meu Deus.... Sim, estava morta. Bem morta. Do contrário, o quarentão bem vestido que pensava em milhões e milhões de dólares que sua empresa ganharia este ano enquanto falava ao telefone, teria me olhado de cima abaixo.  Teria ido tomar uns gins com ele, teríamos casado e quando tivesse tirado todo o seu dinheiro, viajaria com um jovem às Bahamas... A vida! Que bela teria sido...

E apareceu o primeiro morto que conheci. John Lennon. Tinha uns óculos bem retro e umas calças da década de 70.  Em um desfile usei uns bem similares, de quadro, mas, na verdade, não gostava muito.

—Oi Laura, sou John, John Lennon. Você é nova por aqui, né? —Concordei. Sempre detestei ser a nova—. Como você está? —Seu tom de voz era calmo. Resignado a vagar pelas ruas de Nova Iorque até a eternidade. Talvez esse fosse meu destino?

—Não muito bem. Não sei o que fazer. Pensava que minha avó vinha me pegar ou algo assim, mas nada... nem anjos, nem demônios, nem luz... nada.

John Lennon começou a rir. Ficou rindo de mim durante um bom tempo. Mas, o tempo é relativo e neste mundo paralelo, estava começando a compreender que, simplesmente, não existe. Nem tempo, nem espaço, nem gravidade...

—Bem, você vai me ajudar, senhor Lennon?

—Como gostaria. Estou aqui há mais de trinta anos. Vi como Nova Iorque e o seu povo foi mudando e ninguém veio me pegar. Não sei como dar o fora daqui. Acho, minha querida, que estamos presos.

—Então a morte é assim? Você fica aqui sem saber o que fazer? Presos?

—No meu caso sim, Laura. Mas, acredito no destino. No destino de cada pessoa e, certamente, o seu não é igual ao meu, tirando que estamos mortos. Talvez, você deva vagar por outro lugar.

—Vagar por outro lugar?

—Sim querida, esta área é minha. Parte do Central Park também. —O tom pacífico do John tinha se tornado, de repente, algo maléfico. Assustava um pouco. Seus olhos pequeninos pareciam enfurecidos e, ao mesmo tempo, resignados e tristes. Solitários! A morte era assim? Solitária? Não tinha festa, álcool e rock and roll no céu?

—E para onde você quer que eu vá? Adoro Central Park, mas na verdade... não era esta a ideia que eu tinha da morte.

—O que aconteceu com você?

—Você sabe o meu nome, mas não sabe o que aconteceu comigo?

—Sim, mas eu quero que você me conte. Para rir um pouco. Foi uma morte muito absurda, né?

—John, não seremos amigos.

—Talvez em outra vida.

—Talvez.

—Uma pena, Laura. Bonitas pernas.

—Obrigada John, belos óculos. Tchau!

E me afastei do John Lennon pensando na quantidade de fãs que passariam do seu lado, sem saber que ele estava observando tudo. Quanta ironia!

––––––––

Sentei em um banco do Central Park. Tinha um cartaz de Não sentar, então ninguém ia sentar em cima de mim. Não queria saber qual era a sensação de um vivo atravessando meu espírito, meu corpo invisível ou como quiser chamar. Não me importava manchar as calças de tinta, então... fiquei lá. E então lembrei de uma coisa que pensava sobre a morte quando era criança. Imaginava que as pessoas, quando morriam, iam para as nuvens e ficavam nos observando, rindo e nos espiando. Deixei de pensar assim quando subi a um avião. Tinha onze anos e ao observar a janela do avião não vi pessoas, nem espíritos, nada nas nuvens, por isso, abandonei essa ideia de pessoas deitadas nas nuvens confortavelmente, melhor que em qualquer colchão caro.

—Modelo, né?

Uma voz jovem, doce e ingênua me perguntou. Uma menina de uns doze anos se sentou ao meu lado. Tinha uma cabeleira loira e uns brilhantes olhos verdes, resplandecentes.

—Bom, mais que modelo... top model... Top, bem top... —respondi, sorrindo estupidamente e entendendo, nesse momento, que o top e o modelo não tinham importância alguma.

—Que pena! Você tinha uma vida bem legal!

—Não podia me queixar, mas fazia isso constantemente.... Bem, isso já não tem importância. Como é seu nome? —Era a primeira vez que me interessava por alguém, sem desejar falar sobre mim mesma. Também foi a primeira vez que entendi o John Lennon, porque sabia seu nome. Sabia que tinha morrido. Mas, queria ouvir, perguntar. Queria brincar de estar viva novamente.

—Claudia. —Olhou pra frente. Olhou pra mim de rabo de olho e sorriu. Duvidou e, finalmente, falou alegremente.... Maldita torradeira! —Não pude fazer outra coisa a não ser rir. Rir da minha própria desgraça.

—Olha só! Hoje é o dia perfeito para rir da novata.

—Você encontrou o John Lennon? Um tipo interessante, né?

—Muito!

—É uma tradição. Morrer em Nova Iorque e encontrar com o bom do John... —explicou pensativa—. Eu morri de câncer, Laura. Queria ser modelo desde pequena, mas não pude ser.

—Sinto muito. —De verdade, sinto muito. Parecia ter mais sentimentos morta de quando estava viva. Algo positivo devia ter.

—Por isso me represento com esta cabeleira. Nunca tive, por isso, decidi levá-la. O povo lá de cima permitiu.

—Você já esteve lá em cima?

—Sim! Claro! Talvez você tenha que ir.

—Não vi os sinais, ainda... Como você subiu? Tem algum elevador ou algo assim? —Claudia ria. E eu perguntava muito em sério. Já não me preocupava com celulites, só pensava na quantidade de degraus até lá em cima.

—Bem, eu fui logo. Quando fechei os olhos vi uma luz e caminhei até ela, acompanhada do meu anjo, Catalina. Quase todos temos um anjo e uma missão. Às vezes, nosso anjo demora em vir porque tem outras tarefas que cumprir ou.... Quem sabe? Quer que você reflita um pouco. Quando subi, me disseram que devia voltar aqui como espírito e guiar as almas perdidas, especialmente as crianças. Mas, posso subir sempre quiser e ficar lá.

—Quantos anos você teria agora, Claudia?

—Acho que vinte e oito... —respondeu com muita pena—. Como você.

Se não fosse porque não podia, uma lágrima teria escapado fazendo com que o rímel manchasse as minhas bochechas, deixando um aspecto terrível e, então, eu diria algo assim como... maldita alergia! Também teria dado um longo abraço! Desses que tão poucos dei enquanto vivia.

—Oh...

—Laura, tranquila! Sou feliz. Não sinto dor. Para mim, a vida teve uma só palavra: dor. Isto é bem melhor, agora estou bem.

Ficamos em silêncio. E não consegui descrever minha vida com uma palavra. Pelo menos, neste momento.

—Bom, tenho que ir embora. Muito prazer em conhecê-la, Laura.

—Por que? Por que essa pressa? O que devo fazer?

—Esperar. Há alguma preparada para você.

Claudia piscou, sorriu e foi embora. Fiquei como uma idiota observando como sua silhueta desaparecia. Nem na melhor das passarelas, teria encontrado uma modelo tão extraordinária.

––––––––

Voltei ao lugar da minha morte. Meu corpo já não estava, mas a maldita torradeira sim. A área estava isolada e um policial muito bonito conversava com uma mulher gordinha, bem gordinha, que vestia uma blusa estampada com florezinhas vermelhas e falava rápido com sotaque mexicano, sobre o acidente com a torradeira.

—Não funcionava. Não funcionava. Eu só queria tomar o café com minhas torradas com geleia e a torradeira não funcionava. Em um momento de raiva eu joguei pela janela e isso é tudo senhor policial. Foi sem querer, não queria... Meu Deus, não queria matar ninguém... —A mulher começou a chorar e soluçar, exageradamente. A cara do policial era um poema.

Perfeito. Morri por culpa de um pecado capital, a gula, a comida. Umas malditas torradas, algo proibido ao meu corpo desde os meus quinze anos quando queria andar pelas melhores passarelas das cidades mais importantes, da mão dos melhores estilistas. Queria atirar a torradeira na cara dela. Mas, era inútil ficar com raiva. Isso fazia com que me debilitasse e não me sentisse bem, por isso, tentei ficar calma. Só queria sentir paz. Era muito pedir?

—Laurinha. Laurinha, é você? Você morreu?

Quando virei para ver quem era, vi um rosto conhecido que me cumprimentava alegremente. Era Anthony, meu vizinho do nono andar. Um homem baixinho e extremamente delgado, de olhos azuis pequeninos e fundos, nariz aquilina e um bigode

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