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O Evangelho de Sri Ramakrishna

O Evangelho de Sri Ramakrishna

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O Evangelho de Sri Ramakrishna

Comprimento:
129 página
1 hora
Lançado em:
Aug 24, 2017
ISBN:
9781370817757
Formato:
Livro

Descrição

PRÓLOGO - por Aldous Huxley

Na história da arte, muito raros são os gênios. Mais raros, todavia, os que conseguem reportar e relatar com competência a vida de tais gênios. O mundo teve muitas centenas de poetas e filósofos admiráveis, porém, dentre as centenas, pouquíssimos tiveram a ventura de atrair um Boswell ou um Eckermann.

Quando deixamos o campo da arte para adentrarmos a religião, a escassez de repórteres competentes torna-se ainda mais notável. Da vida cotidiana dos grandes santos e contempladores teocêntricos, na grande maioria dos casos, nós nada sabemos. Muitos, é verdade, registraram suas doutrinas por escrito, e alguns, como Santo Agostinho, Suso e Santa Teresa, legaram-nos autobiografias de imenso valor. Porém todo o texto doutrinário é, em alguma medida, formal e impessoal, ao passo que o autobiógrafo tende a omitir o que julga ser trivialidade, com a desvantagem adicional de se mostrar incapaz de relatar seu impacto sobre outras pessoas e de que forma ele afetou suas vidas.

Ademais, a maior parte dos santos não deixou escritos nem autorretratos, e, para sabermos de sua vida, seu temperamento e seus ensinamentos, somos obrigados a nos fiar nos relatos de seus discípulos, que, na maioria dos casos, provaram ser especialmente incompetentes como repórteres e biógrafos. Daí o especial interesse desta narração incrivelmente detalhada da vida cotidiana e das conversas de Sri Ramakrishna.

“M”, como modestamente o autor se autodenomina, era particularmente qualificado para a tarefa. Ao amor reverente por seu mestre, à profunda e empírica sabedoria dos ensinamentos desse mestre, ele somou sua prodigiosa memória para os pequenos eventos do dia a dia e um ditoso talento para registrá-los de modo interessante e realista. Fazendo bom uso de seus talentos naturais e das circunstâncias em que se encontrava, “M” produziu um livro sem igual, até onde sei, na literatura hagiográfica.

Nenhum outro santo teve um Boswell tão hábil e incansável. Nunca os pequenos eventos de uma vida cotidiana e contemplativa foram descritos com tal riqueza de detalhes íntimos. Jamais as afirmações casuais e espontâneas de um grande mestre religioso foram anotadas tão fiel e minuciosamente. Para os leitores ocidentais, é verdade, essa fidelidade e riqueza de detalhes são, por vezes, algo desconcertantes, já que as referências sociais, religiosas e intelectuais com as quais Sri Ramakrishna pensava e expressava seus sentimentos eram completamente indianas.

No entanto, passadas as primeiras surpresas e perplexidades, começamos a encontrar algo particularmente estimulante e instrutivo na própria estranheza e, aos nossos olhos, na própria excentricidade do homem a nós revelado pela narrativa de “M”. Os “incidentes” da vida de Ramakrishna, como diria um filósofo escolástico, foram intensamente hindus e, portanto, segundo nossa visão ocidental, pouco familiares e difíceis de compreender; sua “essência”, contudo, foi intensamente mística e, portanto, universal.

Ler essas conversas, em que a doutrina mística se alterna com um tipo de humor pouco familiar, em que debates sobre os aspectos mais estranhos da mitologia hindu dão lugar às mais profundas e sutis afirmações sobre a natureza da Realidade Última, é, em si mesma, uma lição de humildade, tolerância e suspensão do julgamento. Temos de agradecer ao tradutor por esta excelente versão de um livro tão curioso e agradável como documento biográfico, tão precioso, ao mesmo tempo, pelo que nos ensina sobre a vida do espírito.

Lançado em:
Aug 24, 2017
ISBN:
9781370817757
Formato:
Livro

Sobre o autor

Adriano Quadrado Jornalista, escritor, tradutor Ribeirão Preto / SP / Brasil http://quadrado.com


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Amostra do Livro

O Evangelho de Sri Ramakrishna - Adriano Quadrado

incomodar."

O Mestre entrou na carruagem com seus companheiros.

VIDYĀSĀGAR (para M., delicadamente): Devo pagar pela carruagem?

M: Não se preocupe, por favor. Já está paga.

Vidyāsāgar e seus amigos curvaram-se diante de Sri Ramakrishna. A carruagem partiu para Dakshineswar. O pequeno grupo, no entanto, com o venerável Vidyāsāgar à frente, carregando a lamparina, ficou ao portão de olhos fixos no Mestre, até que o perdessem de vista.

4.

CONSELHO AOS CHEFES DE FAMÍLIA

13 de agosto de 1882

O Mestre conversava com Kedar e outros devotos em seu quarto, no pátio do templo. Kedar era funcionário público e havia passado vários anos em Dacca, na Bengala oriental, onde se tornou amigo de Vijay Goswami. Os dois passavam boa parte do tempo falando sobre Sri Ramakrishna e as experiências espirituais dele. Kedar fora, um dia, membro do Brāhmo Samāj. Agora, seguia o caminho de bhakti. Conversas espirituais sempre traziam lágrimas a seus olhos.

Eram cinco da tarde. Kedar estava muito feliz naquele dia, por ter organizado uma festa religiosa para Sri Ramakrishna. Um cantor fora contratado por Ram, e o dia transcorrera em alegria.

O Mestre explicava aos devotos o segredo da comunhão com Deus.

MESTRE: "Com a realização de Satchidānanda, a pessoa entra em samādhi. Então, suas obrigações caem por terra. Imagine que eu estou falando do ostād, e ele, então, aparece. Qual a necessidade de falar sobre ele agora? Até quando a abelha fica zumbindo? Só até pousar na flor. Só que não adianta o sādhaka renunciar a suas obrigações. Ele tem que cumprir seus deveres: adoração, japa, meditação, oração e peregrinação.

Se você vir alguém raciocinando mesmo depois de ter realizado Deus, pode comparar essa pessoa à abelha, que zumbe um pouquinho mesmo quando suga o néctar da flor.

O Mestre estava gostando muito da música do ostād. Ele falou ao músico, Existe uma manifestação especial do poder de Deus num homem que tem um talento notável, como o virtuose em música.

MÚSICO: Senhor, qual é o caminho para realizar Deus?

MESTRE: "Bhakti é o essencial. É certo que Deus existe em todos os seres. Então, quem é o devoto? É aquele cuja mente vive pensando em Deus. Só que isso não é possível enquanto houver egoísmo e vaidade. A água da graça de Deus não se acumula na montanha alta do egoísmo. Ela corre para baixo. Sou só uma máquina.

(Para Kedar e os outros devotos) "Deus pode ser realizado por todos os caminhos. Todas as religiões são verdadeiras. O importante é atingir o terraço da casa. Você pode chegar lá por uma escada de pedra, por uma escada de madeira, subindo os degraus de bambu, ou por uma corda. E pode também subir pela vara de bambu.

Você pode dizer que há muitos equívocos e superstições numa religião. Eu diria: digamos que haja, e daí? Toda religião tem seus erros. Todo mundo acha que só seu relógio dá a hora certa. Basta ter desejo ardente por Deus. Basta amar Deus e se sentir atraído por Ele. Então, você não sabe que Deus é o Guia Interior? Ele vê a aflição do nosso coração, a ansiedade da nossa alma. Imagine que um pai tenha vários filhos. O mais velho chama o pai claramente de ‘Bābā’ ou ‘Pāpā’. Mas os pequenos conseguem, no máximo, dizer ‘Bā’ ou ‘Pā’. Por acaso, o pai vai ficar bravo com quem fala desse jeito? O pai sabe que eles também estão chamando por ele, só não conseguem pronunciar direito. Os filhos são todos iguais para o pai. Da mesma maneira, os devotos chamam sempre o mesmo Deus, embora usem nomes diferentes. Chamam apenas uma Pessoa. Deus é um, porém Seus nomes são muitos.

Quinta-feira, 24 de agosto de 1882

Sri Ramakrishna estava conversando com Hazra, na longa varanda nordeste do seu quarto, quando M. chegou, saudando o Mestre com reverência.

MESTRE: Quero visitar Iswar Chandra Vidyāsāgar mais algumas vezes. O pintor primeiro desenha o esboço, para depois colocar os detalhes e as cores à vontade. O escultor primeiro faz a imagem de argila. Depois faz o molde, aplica a demão de cal e, só no fim, pinta a peça com seu pincel. Todos os passos são dados, um depois do outro. Vidyāsāgar está pronto, mas seu interior está coberto por uma fina camada. Ele agora está ocupado em fazer boas ações, mas não sabe o que tem dentro de si mesmo. Tem ouro escondido lá dentro. Deus vive em nós. Se a pessoa descobre disso, quer deixar as ações para rezar para Deus de toda alma.

Depois, o Mestre conversou com M. – em pé, andando de um lado ao outro, na grande varanda.

MESTRE: Alguma disciplina espiritual é necessária para descobrirmos o que há dentro de nós.

M: Então, é preciso praticar disciplina a vida toda?

MESTRE: "Não. Mas é preciso ser ativo no começo. Depois, não precisa mais trabalhar tanto. O timoneiro fica em pé e segura firme o leme quando o barco atravessa ondas, tempestades, ventos fortes, ou quando passa pelas curvas de um rio. Depois, ele relaxa. Assim que o barco vence as curvas, e o timoneiro sente que o vento está a favor, ele senta confortavelmente e só segura o leme de leve. Depois, abre as velas e vai preparar seu fumo. Assim, também, o aspirante espiritual encontra paz e calma depois de pelas ondas e tempestades de ‘mulher e ouro’.

"Alguns nascem com as características do iogue, mas mesmo eles têm que tomar cuidado. ‘Mulher e ouro’ são o obstáculo, que os arrasta para o mundo e faz com que eles se desviem do caminho do yoga. Talvez eles ainda tenham algum desejo de aproveitar o mundo. Depois de satisfazer esse desejo, voltam a mente mais uma vez para Deus. E, assim, recuperam seu estado mental anterior, próprio para a prática do yoga.

"Já viu a armadilha para peixe chamada satkā-kal?"

M: Não, senhor, nunca vi.

MESTRE: "Ela é usada nesta nossa região. Uma das pontas do bambu é fincada no chão, e a outra é curvada com um prendedor. Nessa ponta, amarram uma linha, que é lançada na água com a isca presa ao anzol. Quando o peixe abocanha a isca, o bambu pula e volta para a posição vertical.

"Ou, então, pegue os pratos da balança como exemplo. Se o peso é colocado num dos lados, o ponteiro de baixo se distancia do ponteiro de cima. O ponteiro de baixo é a mente, e o de cima, Deus. O encontro dos dois é yoga.

"A menos que a mente fique estável, não pode haver yoga. É o vento da mundanidade que sempre agita a mente, que pode ser comparada à chama de uma vela. Se a chama para completamente de se mover, então se diz que a pessoa atingiu yoga.

"‘Mulher e ouro’ são o único obstáculo para o yoga. Analise sempre o que você vê. O que há no corpo de uma mulher? Coisas como sangue, carne, gordura, entranhas e coisas do tipo. Por que alguém amaria um corpo assim?

Às vezes, eu assumia um estado de espírito ‘rajásico’ para praticar a renúncia. Uma vez, tive vontade de vestir uma túnica bordada de ouro, usar anel no dedo e fumar um longo narguilé. Mathur Babu arrumou todas essas coisas para mim. Vesti a túnica dourada e, depois de um tempo, disse para mim mesmo, ‘Mente! Isto é o que chamam de túnica bordada de ouro.’ Então, tirei a túnica e joguei fora. Não podia mais suportá-la. E, de novo, disse para mim mesmo: Mente! Isto se chama xale, este é um anel, e isto se chama fumar um longo narguilé.’ Joguei tudo fora, de uma vez por todas, e o desejo de apreciar essas coisas nunca mais surgiu na minha mente."

Estava quase na hora do poente. O Mestre e M., em pé, conversavam a sós, próximo à porta da varanda sudeste.

MESTRE (para M.): A mente do iogue está sempre fixa em Deus, sempre absorvida no Ser. Você consegue reconhecer um iogue só de olhar para ele. Seus olhos ficam bem abertos, mas o olhar é distante, como os olhos da mãe-pássaro chocando seus ovos. A mente dela está toda voltada para os ovos, e há um olhar vazio nos seus olhos. Será que você conseguiria encontrar um quadro como esse para me mostrar?

M: Vou tentar encontrar.

Quando caiu a tarde, os templos se iluminaram. Sri Ramakrishna estava sentado em seu pequeno estrado, meditando na Mãe Divina. Depois, entoou os nomes de Deus. Incenso fora queimado no quarto, onde uma lamparina a óleo estava acesa. Sons de conchas e gongos flutuaram no ar, quando a adoração do entardecer teve início no templo de Kāli. A luz da lua inundava todos os cantos. O Mestre mais uma vez disse a M.

MESTRE: Cumpra suas obrigações com um espírito abnegado. O trabalho que Vidyāsāgar está fazendo é muito bom. Sempre tente cumprir seus deveres sem esperar pelos resultados.

M: Sim, senhor. Mas posso saber se é possível realizar Deus enquanto se cumpre as obrigações? Podem ‘Rāma’ e ‘desejo’ coexistirem? Outro dia, li um verso em híndi que dizia: ‘Onde há Rāma, não pode haver desejo, e, onde há desejo, não pode haver Rāma.’

MESTRE: Não há nada que não realize algum trabalho. Mesmo cantar o nome e as glórias de Deus é um trabalho, assim como a meditação dos não-dualistas no ‘Eu sou Ele’. Respirar também é uma atividade. Não tem como renunciar ao trabalho completamente. Por isso, faça o seu trabalho – só que entregue os resultados para Deus.

M: Senhor, eu posso me esforçar para ganhar mais dinheiro?

MESTRE: É permitido fazer isso para sustentar uma família religiosa. Você pode tentar aumentar seus ganhos, mas sempre de maneira honesta. O objetivo da vida não é ganhar dinheiro, é o serviço a Deus. Se o dinheiro for usado para servir Deus, não faz mal.

M: "Até quando o homem

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