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Mais verdade, mentiras e propaganda: verdade, mentiras e propaganda

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Mais verdade, mentiras e propaganda: verdade, mentiras e propaganda

Comprimento:
322 páginas
4 horas
Editora:
Lançado em:
Dec 5, 2018
ISBN:
9781547557783
Formato:
Livro

Descrição

Mais histórias inacreditáveis pelas lentes de Lucinda e sua "Equipe Arco-Íris" em suas viagens através da África do Sul. Eles conhecem Mandela, passam por momentos de terror e socializam com tribos de bosquímanos praticamente lançados à própria sorte. Encontram-se em meio a tumultos urbanos, veem uma paciente abandonada, sofrem uma crise de identidade, e então uma casa desaparece. Essas histórias, ao mesmo tempo hilárias e de cortar o coração, revelam a verdade sobre o que acontece nos bastidores das cenas que a mídia exibe. Este livro prova que a propaganda segue viva e bem, nas telinhas da televisão no mundo inteiro.

Editora:
Lançado em:
Dec 5, 2018
ISBN:
9781547557783
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do Livro

Mais verdade, mentiras e propaganda - Lucinda E Clarke

MAIS VERDADE, MENTIRAS E PROPAGANDA

NA ÁFRICA

––––––––

LUCINDA E. CLARKE

––––––––

Tradução em português

Maria silvia mourão netto

MAIS VERDADE, MENTIRAS E PROPAGANDA

Copyright © 2015 Lucinda E Clarke

Primeira edição

A autora reivindica o direito moral de ser identificada como autora deste trabalho de acordo com a Lei de Direitos Autorais, Projetos e Patentes, de 1988. Todos os direitos reservados. Nenhuma porção desta publicação pode ser reproduzida, transmitida ou arquivada, no todo ou em parte, em sistemas de armazenamento, de qualquer tipo ou por quaisquer meios, sem o prévio consentimento da autora, exceto nos casos de breves citações incluídas em resenhas e revisões. Tampouco é permitida sua divulgação com qualquer outra forma de encadernação ou capa além daquela em que foi publicada, e sem que condições similares tenham sido impostas a todo futuro comprador.

Edição: Andrew Holloway, Fran Macilvey & Zoe Marr

Capa: Rod Craig & Peter Bendheim

Este é o segundo e último livro em que relato minhas experiências no mundo da mídia comercial e dos meios de transmissão.

Durante mais de 25 anos, tive o privilégio de conhecer centenas, quando não milhares, de pessoas que me permitiram entrar em sua casa e em sua vida. Comigo compartilharam suas histórias, algumas hilárias, outras de cortar o coração de tão tristes. Tenho um profundo amor pela África e por seus povos de todas as raças. Tive o imenso privilégio de trabalhar com uma equipe de profissionais dedicados e respeitosos que tinham a mesma paixão que eu. Este livro é dedicado a eles, como testemunho de seu comprometimento e de sua crença de que demos uma pequena contribuição no sentido de melhorar a vida de algumas pessoas.

Gostaria de agradecer aos muitos colegas autores e aos leitores que foram uma fonte de inspiração e me ofereceram conselhos e apoio. Trabalhando numa área tão competitiva, foi uma verdadeira revelação comprovar como os autores e também aqueles que gostam dos nossos livros nos ajudam e estimulam.

Novamente, desejo agradecer ao meu marido e expressar toda a gratidão que sinto por ele pelo apoio que me deu nos períodos intermináveis em que o computador e eu entrávamos em hibernação. Não há como lhe agradecer o suficiente por sua paciência e amor.

Espanha, 2015 ©

Também por Lucinda E Clarke

Português

Verdades, Mentiras e Propaganda

Inglês

Walking over Eggshells

Truth Lies and Propaganda

More Truth, Lies and Propaganda

Unhappily Ever After

Amie – an African Adventure

Amie and the Child of Africa

Amie – Stolen Future

Amie – Cut for Life

Amie – Savage Safari

Espanhol

Amie. Una aventura africana

Amie y la niña de África

El futuro truncado de Amie

Verdad, mentiras y propaganda

Más verdad, mentiras y propaganda

Caminando sobre cáscaras de huevo

Italiano

In punta di piedi

Sumario

1   INSPIRAÇÃO PERDIDA

2   UMA CASA PERDIDA E CADÁVERES

3   CATALISADOR DE ASSASSINATO

4  ENCONTRO COM MANDELA

5 OS ÚLTIMOS DIAS NO CONSELHO

6   POR MINHA PRÓPRIA CONTA

7   LECIONANDO E VIAJANDO

8   CONTOS (FORA) DA ESCOLA

9   HOSPITAIS, CURA E AIDS

10   ANIMAIS & A PATA-DO-DEMÔNIO

11   PROTEGER E DESTRUIR

12   PRÊMIOS E BANQUETES

13  TOMADA FINAL

SOBRE A AUTORA

Aos meus leitores

1    INSPIRAÇÃO PERDIDA

Caroline morreu na noite passada, de uma morte demorada e especialmente terrível – bem como eu tinha planejado. No começo, tinha decidido que iria matá-la esquartejando-a com uma colheitadeira, assim muito sangue e pedaços nojentos de carne despedaçada poderiam voar para todos os lados. Era possível ver as aves subindo no ar, mais alto do que de hábito, piando em protesto, e insetos sendo bombardeados por pedaços dela, e os gritos da multidão reunida para ver os minúsculos restos mortais do que antes tinha sido uma linda moça. Mas então, no último instante, mudei de ideia. Por que destruir a paz daquele campo da Inglaterra?

No final do meu último livro (Verdade, Mentiras e Propaganda), prometi que contaria como finalmente me livrei de Caroline, então, no final deste livro, descrevi como ela faleceu.

Você tem curiosidade de saber o que Caroline fez para merecer uma morte tão malvada e torturada? Para ser bem sincera, não faço a menor ideia. Talvez ela seja a heroína de um livro que ainda não escrevi. E isso é um exemplo maravilhoso de como você pode fazer exatamente o que quer se é escritor ou escritora, desde que não ponha isso em prática na vida diária. O autor pode controlar a vida daqueles que cria – essa é uma das vantagens dessa profissão –, mas temos muito menos controle sobre a nossa própria vida.

O que é que eu estava fazendo, sentada numa saleta de frente para a rua, em Londres, com meus pés congelando apesar das grossas meias de lã e dos chinelos forrados de pelo, e os dedos das mãos adormecidos, enquanto batucavam no teclado?

Dei uma olhada naquele céu cinzento, carregado, cor de chumbo, e estremeci. Podia ouvir o ruído dos carros que passavam na rua, o som dos pneus derrapando no asfalto molhado, e os passos compassados de pessoas usando botas altas de borracha, indo e vindo pela calçada diante da minha casa. Anos atrás, ninguém nem falava da síndrome que acomete as pessoas em que elas ficam deprimidas por causa do mau tempo e da falta de sol. Aqui, em Londres, há vários dias eu não via o sol. Lembro-me da primeira vez em que viajei de avião, quando subimos além das nuvens, e ali, para minha grande admiração, estava o sol, emitindo seus raios sobre o teto das nuvens brancas, fofas como travesseiros, boiando no céu. Ele ainda estava lá, claro que sim! Que bobagem a minha pensar que o sol nos havia desertado, mas essa era a sensação, depois de ficar sem vê-lo tantos dias seguidos.

Ainda pior era sentir que aquele tipo de clima estava destruindo a minha criatividade. Eu lutava para pôr palavras no papel, muito embora tivesse um contrato para redigir uma série de programas de rádio para a SABC (South African Broadcasting Corporation) – e daqui em diante vou sempre me referir à SABC já que sou preguiçosa demais para digitar o nome todo por extenso, todas as vezes.

Eu tinha recém voltado de Durban, uma cidade na costa leste da África do Sul, de frente para o Oceano Índico, onde tinha morado um bom tempo. Lá, as palavras saíam direto da minha cabeça e magicamente já apareciam na tela, quer dizer, acho que você entende o que estou tentando dizer, com esta pequena licença poética.

Comecei a devanear sobre o trabalho que tinha feito no passado, sobre toda a diversão que tinha sido conviver com as pessoas incríveis que tinha conhecido. Lembrei-me da empolgação de trabalhar nos estúdios da rádio da SABC, em Johanesburgo, dos amigos do Departamento de Comunicação em Durban, e de todas as experiências maravilhosas que vivi nas comunidades africanas junto com a equipe, enquanto filmávamos uma ampla variedade de programas.

Tudo isso tinha terminado, porém. Depois de concluir o último programa para a SABC, duvidava que eles me dessem outra série, um dia; agora, eu morava longe demais. A sala de aula me acenava com um retorno à profissão que eu tinha exercido antes, durante algumas décadas.

E que eu não estava nem um pouco querendo retomar. Já tinha ouvido histórias sobre os pequenos monstros modernos que agora ocupavam os sagrados recintos da aprendizagem. Se há trinta anos era ruim, agora estava ainda pior. Saúde e segurança e Eu conheço os meus direitos tinham gerado a mudança. Minha impressão era que chegar a faixa preta no judô e outras artes marciais preparava melhor a pessoa para enfrentar a sala de aula atualmente do que os três anos de curso de magistério que ofereciam na década de 1970.

Para piorar, eu tampouco estava morando na melhor área de Londres, então podia esperar o pior, isso se até estivessem cogitando me oferecer emprego. Há anos que eu não pisava numa sala de aula e, naturalmente, tinha perdido um pouco o jeito. Não. Eu tinha perdido muito o jeito. As crianças iam fazer picadinho de mim.

Enfim, tinha dado os primeiros passos para obter um emprego remunerado, comprando, a um custo considerável, o Anuário de Escritores e Artistas. Além disso, tinha posto debaixo do braço um vídeo com meus melhores trabalhos e o levara para mostrar a todas as produtoras listadas dentro de um perímetro que eu podia percorrer de trem. Já tinha recebido algumas promessas vagas para o futuro, mas nada concreto. Para ser honesta, havia poucas chances de eu furar o bloqueio e entrar no ramo de vídeos e transmissões por rádio e TV aqui. Tinha ficado tanto tempo em outro país que estava totalmente fora de sintonia com a Grã-Bretanha moderna.

Quando davam uma olhada na minha fita contendo alguns clipes curtos que tínhamos montado para dar uma ideia do tipo de trabalho que eu fazia, o pessoal das produtoras se mostrava bem pouco empolgado. O consenso geral era que gostavam do que estavam vendo, o padrão era alto, mas nada daquilo era relevante para a atual Grã-Bretanha.

Para ser bem franca, baseando-me no que tinha visto na televisão britânica, eu não tinha certeza de que realmente poderia me encaixar naquele universo. Tinha assistido a programas em que professores ficavam encharcados com lama atirada neles pelos alunos, numa competição de perguntas e respostas, e houve outro em que marionetes falavam inglês, usando palavras que eu teria riscado com caneta vermelha ou corrigido na mesma hora, se minhas filhas falassem daquele jeito. Houve até alguns programas que não consegui entender nada e acabei forçada a ativar as legendas para deficientes auditivos porque os diálogos eram muito indistintos ou o sotaque, carregado demais.

Outros programas faziam pencas de referências a pessoas, acontecimentos e ideias de que eu nunca tinha ouvido falar. Além disso, a maior parte da programação era tão exagerada que mais parecia o comentarista em ação nos páreos do Grande Prêmio Nacional de Turfe, e esse não era mesmo o meu estilo.

Também me arrepiava toda com os documentários unilaterais exibidos na TV britânica. Tinha aprendido a minha lição, anos e anos atrás, naquela matéria sobre acupuntura em animais em que eu simplesmente me havia recusado a produzir um programa mostrando os dois lados da história. Ele nunca foi feito.

O mais perto que cheguei de arrumar um trabalho foi uma vaga promessa de um roteiro sobre luvas cirúrgicas para uma empresa sediada no Shepperton Studios, e isso somente porque o produtor tinha contatos na África. Eu já tinha escrito sobre coisas mais estranhas no passado, mas esse dificilmente era um tópico sobre o qual sentir fortes emoções. Não só isso: talvez acontecesse daí a quatro meses. Eu não tinha certeza de conseguir ficar sem comer até lá.

Também tinha tentado dúzias de outros trabalhos. Entregava minha ficha de candidata para qualquer vaga que estivesse sendo oferecida. Os supermercados não me queriam no caixa – o que não me surpreendeu já que eu ficava perdida, olhando para as moedas, tentando descobrir quanto valiam. O bar mais próximo me recusou porque, evidentemente, eu não tinha a menor noção do que estava fazendo. Inclusive o instituto em que eu tinha me formado em pedagogia não parecia disposto a me incluir no seu cadastro de professores. Além de tudo, tinha dificuldade em entender os vários sotaques britânicos. As pessoas falavam comigo e eu não fazia a mais pálida ideia do que estavam me dizendo.

Ninguém me queria, nem o Labour Exchange, ou o Job Centre, ou qualquer que fosse o nome atual dessas agências de emprego. Entrei para me candidatar e me sentei diante de uma garota com idade quase para ser minha filha.

Bem, estou vendo neste formulário que você viveu fora da Grã-Bretanha? – a mocinha abanava o formulário preenchido como se uma bandeirola.

Sim.

Em outro país?

Sim.

Onde foi? Não na Grã-Bretanha, então?

Não.

Então, você não tem trabalhado na Grã-Bretanha?

Isso me parecia o óbvio ululante, mas respondi educadamente: Não, eu estava trabalhando na África do Sul. Depois acrescentei, na esperança de realmente deixá-la impressionada: Eu sempre trabalhei. Até levava minha filha caçula para a sala de aula, dentro do bercinho portátil.

Se eu achava que isso iria impressioná-la ou provar que era uma pessoa trabalhadora, o tiro saiu pela culatra. Ela me olhou com expressão horrorizada, antes de baixar de novo os olhos, com bastante relutância, para o formulário em sua mesa.

Fora do país, então, durante...

A mocinha do outro lado da mesa começou a calcular quanto tempo eu tinha passado fora.

Enfim, ela entendeu! Eu tinha estado fora do país, no exterior, não na Grã-Bretanha, no estrangeiro, exilada, não domiciliada no Reino Unido, do outro lado do Canal, em terra estrangeira. Um esquete do Monty Python com o papagaio me passou pela lembrança.

Um pouco mais de 20 anos, eu tentando ser prestativa.

Eu sei contar, ela revidou depressa, e voltou à leitura do formulário que eu tinha preenchido no capricho.

Han... e você acha que pode apenas ir entrando aqui e pedir auxílio-desemprego, imagino eu?, disse a garota com sarcasmo. Pensei que era injusto da parte dela tal atitude, pois evidentemente os ancestrais dela tinham originalmente vindo de climas bem mais quentes.

Não! Não vim pedir dinheiro. Só queria voltar a constar do sistema e validar meus passes. Na realidade, essa era uma baita mentira. Sem sombra de dúvida eu não queria voltar a constar do sistema, não queria de jeito nenhum ser incluída naquilo novamente, mas eu estava ali e provavelmente continuaria ali. Havia uma futura aposentadoria em que pensar.

Ela ergueu os olhos e me lançou um olhar gélido: Não temos mais passes, disse e fungou.

Ah, bem, então o que vocês tiverem agora. Vou procurar trabalho, expliquei enquanto tentava controlar minha vontade urgente de lhe emprestar meu lenço.

"Bom saber disso, uma vez que você não fez nenhuma contribuição desde que

saiu daqui." Do jeito que ela falou, parecia que tinham acabado de me dar alta de algum instituto psiquiátrico ou alvará de soltura depois de um longo período na cadeia.

Ela voltou com um pedido expresso em tom cortante: Vou precisar de seus dados bancários.

É mesmo? E para quê?

Ela me encarou e nos olhos dela pude detectar pena – também poderia ser desprezo, não tive certeza.

Para podermos depositar seu dinheiro.

Mas pensei que você disse, han, você disse..., eu estava confusa.

Olha, ela disse devagar, como se quisesse ser entendida por uma criancinha desmiolada de 3 anos, se você tiver direito a algum pagamento, então temos de lhe mandar esse dinheiro. É seu direito. Essa última palavra saiu voando de sua boca como uma bala. Ela se virou e digitou alguma coisa no teclado. Parece que você está no sistema, então receberá um cheque em... – aqui ela parou para exercitar sua capacidade de fazer contas – em duas semanas. Esse pagamento tem de durar até o próximo. Depositamos a cada duas semanas. Então, nome do banco e número da conta, faz favor?

Tive de pensar bastante sobre isso. Eu tinha apenas uma conta na Grã-Bretanha, se deixarmos de lado aquela que tinha ficado no vermelho, tempos atrás. Eu tinha aberto outra na África do Sul, há uns dois anos, para que fossem creditados os cheques dos direitos autorais do meu primeiro livro. Minha esperança era que os depósitos – vultosos – fossem feitos regularmente, pela sede da editora, em Londres. Mas não tive essa sorte. Até onde eu sabia, o saldo ainda eram principescos £4.10. Forneci enfim os dados para ela e acompanhei todas as fungadas que deu enquanto percorria as etapas seguintes da papelada.

Bem-vinda ao lar, pensei, quando enfim saí daquela agência do governo após a dolorosa e prolongada entrevista. Bom saber que eles estão superfelizes de você estar de volta ao seu país natal. Acolhida calorosa aquela.

A campainha tocou, e o som me tirou de um devaneio. A porta da rua abriu e fechou. Ouvi uma rápida batida na porta de dentro.

Pode entrar, gritei, é só um momentinho, já está quase pronto.

Posso esperar, não precisa ter pressa, disse a pessoa com sotaque carregado.

Enfiei os roteiros e a carta de cobertura num envelope pardo grande e me virei para entregá-lo ao rapaz.

Caramba! Você é negro!

O portador pareceu um tanto assustado e, sem querer, deu um passo para trás.

Oh, não, me desculpe, falei sem jeito. Não quis ser grosseira de jeito nenhum, é só que... E como é que poderia explicar que, tendo vivido por tantos anos na África, os africanos falavam com um sotaque nitidamente africano? Ali estava outro britânico cujos ancestrais tinham vindo de terras muito distantes, mas que tinha nascido e crescido na Grã-Bretanha e falava como legítimo britânico.

Desculpe, repeti. Han, é que acabei de voltar da África e você me surpreendeu. Só isso.

O rapaz sorriu: Tudo bem, não fiquei ofendido.

E isto, indiquei o envelope, está indo para Johanesburgo.

Na África?

Sim, África do Sul.

Nunca fui à África, o portador comentou.

É um continente maravilhoso, sinto falta de lá, eu disse.

Então, acho que trocamos de lugar, o rapaz respondeu, enquanto colocava o meu envelope dentro da sacola da empresa e destacava o canhoto do comprovante que era para mim e me entregou. Você vai voltar para lá?

Gostaria, quem sabe. Quero, mas não sei se consigo.

Mas espera aí! O que estava me impedindo? Fora a questão do dinheiro, o que realmente estava me impedindo? Eu estava infeliz em Londres. Sentia falta do brilho do céu azul, da sensação dos tambores cuja batida repercutia na sola dos meus pés, transmitida através da terra poeirenta e vibrante, da sensação quase palpável do perigo iminente que me fazia sentir viva, em estado de alerta, constantemente a postos para alguma ação.

Na véspera, inclusive, minha filha caçula tinha dito para mim que estava infeliz na Inglaterra. Ela sentia falta da disciplina de sua escola em Durban. Tinha ficado chocada ao ver drogas em sua escola britânica, e não estava mais estudando matérias como matemática e geografia. Além de sentir saudade dos amigos. Queria concluir o Ensino Médio do jeito certo e se inscrever para o exame vestibular, que deveria prestar em mais um ano e meio.

Talvez não precisasse ser um retorno em caráter permanente. Se eu conseguisse arrumar algum trabalho, o trabalho que eu gostava mesmo de fazer, então poderia ganhar o suficiente para sustentar nós duas enquanto ela terminava o colegial.

No instante seguinte, meus dedos voavam no teclado para redigir uma mensagem ao estúdio em Durban. Será que eles poderiam me arrumar trabalho, se eu voltasse? Li a mensagem mais uma vez e apertei o botão da máquina de fax para enviá-la.

A resposta chegou em poucos minutos.

Pegue o próximo voo, vamos dar um jeito. Bem-vinda de volta!. Li aquelas palavras e meus olhos se encheram de lágrimas. Eu queria tanto voltar, não só para o país que eu amava, mas para o trabalho que eu adorava. A sorte estava lançada. Eu tinha pouquíssimo dinheiro, não tinha onde morar em Durban, mas daria conta, de algum jeito eu ia me virar.

Eu me sentia um peixe fora d’água, aqui, na Inglaterra, e a vida é curta demais para você aceitar o que te torna infeliz. A decisão estava tomada. Minha filha caçula e eu voltaríamos para KwaZulu-Natal.

Meu marido declinou do convite para nos acompanhar. Deixou bem claro que nunca, jamais, poria os pés na África de novo.

2   UMA CASA PERDIDA E CADÁVERES

Enquanto o avião se aproximava do aeroporto Jan Smuts, em Johanesburgo, olhei pela janelinha, talvez esperando enxergar sinais de motins, batalhas, algum tipo de agitação civil, quem sabe rios de sangue por toda parte? Mas não, tudo parecia em paz.

A mídia britânica estava especulando sobre os conflitos que explodiriam com a aproximação da primeira eleição democrática na África do Sul, quase como se esperassem que fossem acontecer batalhas furiosas nas ruas para abastecer com mais notícias excitantes os jornais e os noticiários da televisão. Estávamos no início de abril de 1994.

Fomos recebidas com largos sorrisos, ofertas de ajuda com a bagagem e uma atmosfera amistosa e alegre, enquanto atravessávamos aquela imensa multidão no saguão de embarques domésticos. Ainda tínhamos mais uma perna de viagem, uma hora de voo em território africano até Durban.

No aeroporto, nos aguardavam nossos velhos amigos e passamos dois dias com eles, enquanto eu procurava um lugar para morarmos. Eu já tinha morado num barco ancorado no porto de Durban, mas tinha vendido a embarcação quando fui embora. Ela continuava lá, flutuando, mas não me pertencia mais. Precisava encontrar outro local para morar, e depressa.

Vasculhava anúncios nos jornais, mal tinham saído da gráfica; era preciso ser rápida porque apartamentos decentes eram alugados num piscar de olhos. Foi uma coincidência e tanto que um amigo, que também morava num barco atracado no porto, fosse o editor da noite do jornal local. Ele me deu a dica de que havia um apartamento vago na cidade, dentro do que eu podia pagar, o que era praticamente nada. O anúncio ia sair na edição matutina.

Sim, era pequeno e escuro, bem em frente ao Aterro Victoria

[Victoria Embankment ], uma rota policial popular para viaturas perseguindo criminosos e ambulâncias a caminho do hospital. Quer dizer, certamente não era um lugar sossegado. Embora o prédio de fachada art déco, candidato a tombamento, ficasse de frente para o porto, o nosso apartamento dava para uma rua lateral onde víamos escritórios cujos funcionários jamais desligavam o computador. Toda noite, eu podia ver aqueles protetores de tela subindo e descendo nos monitores, assim como via os bêbados trançando as pernas enquanto caminhavam pela calçada na direção dos banheiros públicos onde iriam dormir, uma fileira de toaletes na entrada do píer dos iates. Sem dúvida, uma zona de muito prestígio.

Apesar de tudo, a localização era central e eu poderia ir a pé para o estúdio, além de ficar na linha do ônibus que passava na escola onde minha filha faria o colegial. Ela e eu teríamos de repartir o único quarto, mas o apartamento já estava totalmente mobiliado e poderíamos entrar de imediato.

Não demorou muito para que nos readaptássemos à nossa antiga rotina, só que, desta vez, não teríamos de pegar a balsa para ir e vir do barco e nem entrar em pânico toda vez que a previsão do tempo alertasse para tempestades e ventos fortes. Agora, estávamos firmemente instaladas em terra.

No momento em que entreguei o valor de caução e o aluguel do primeiro mês para o seboso senhorio grego, que morava ao lado, eu estava praticamente falida. Naquela hora eu ainda não sabia, mas o Grego Seboso iria se tornar uma verdadeira praga. Ele batia na minha porta o tempo todo, dizendo que tinha de desentupir os ralos. Que não estavam dando nenhum problema, como eu repetia, mas isso não adiantava nada. Ele me ignorava, passava por mim com o desentupidor ao alto, e atacava o ralo da pia da cozinha. Às vezes, variava a cena e resolvia combater o ralo do banheiro.

Eu mantinha distância, principalmente para evitar o cheiro de suor das axilas do sujeito e a inacreditável aura de alho que vinha boiando no ar atrás dele. A roupa que ele mais usava era uma regata arrastão que tentava em vão cobrir os longos pelos grisalhos do seu peito, mas eles achavam caminho para sair pelo meio das malhas, enquanto o resto da pessoa dele ficava dentro de um par imundo de calças cinzentas, amarradas na cintura por um barbante.

Depois de várias visitas desnecessárias para desentupir ralos que não estavam entupidos, fiquei zangada e me recusei a deixar que entrasse. Na minha opinião, desde que eu pagasse o aluguel em dia, isso era tudo que ele podia esperar. Eu não estava oferecendo o meu corpo junto com as notas de rand, ao final do mês. A ideia de deslizar meus dedos por aqueles pelos sebosos era suficiente para acabar com meu desejo sexual pelo resto da vida.

Comecei a entrar e sair do prédio pela porta da frente quando ia para a área de descarte de lixo. Sem pudor, usava minha filha como escudo vivo e tentava coordenar nossas saídas e entradas para que fossem ao mesmo tempo. Era exaustivo. Assim que tivesse qualquer dinheiro na conta, jurei que iríamos para outro lugar, na primeira oportunidade.

Foi uma sensação estranha caminhar até o estúdio no primeiro dia de manhã. A última vez que eu tinha saído dali fora após minha festa de despedida, abraçando meus presentes e cartões com votos de felicidade

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