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Além do Véu

Além do Véu

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Além do Véu

Duração:
412 páginas
6 horas
Editora:
Lançados:
19 de jan. de 2020
ISBN:
9781547559992
Formato:
Livro

Descrição

A antropóloga Claire El-Badawy passou os últimos dez anos de sua vida solicitando subsídios para uma expedição na selva amazônica. Ela quer provar sua teoria da conexão transatlântica entre a África e a América do Sul que existiu há cinco mil anos.

As coisas mudam drasticamente quando um 'Homem perdido' é encontrado nas profundezas da floresta tropical. Reanimada e armada com o surpreendente achado, ela finalmente ganha o apoio da universidade.

A vida de Owen Macleod tem sido uma longa jornada, guiando turistas e ajudando os povos indígenas da floresta contra as empresas de mineração. Owen não tem mais ninguém em sua vida, exceto as pessoas que vivem as margens do rio Amazonas - e seu parceiro, Manny.

Quando Owen vê a oportunidade de se libertar do ramo turístico, pula de cabeça nela. Logo, a antropóloga teimosa e o guia da selva são jogados juntos em busca de seus próprios sonhos.

Mas nenhum deles está preparado para o que encontrarão escondido além das profundezas veladas da Amazônia.

Editora:
Lançados:
19 de jan. de 2020
ISBN:
9781547559992
Formato:
Livro

Sobre o autor


Amostra do livro

Além do Véu - Ronald Bagliere

Para as antigas tribos indígenas da Amazônia. Que tenham vida longa e próspera, constante e indefinida.

Prólogo

6 de junho de 2012 - 3 ° 59 '57 S Latitude, 67 ° 11' 33 W Longitude, 100 quilômetros a sudeste de Santo Antônio do Içá, Amazonas, Brasil

A luz do sol brilhava através da cobertura de folhas da floresta, lançando raios dourados nas samambaias prateadas. Mahl ficou parado por um tempo respirando seno ar úmido penetrar. Logo ele estaria em casa. Já podia sentir o cheiro das águas do rio. Os Macacos-prego tagarelavam nos galhos acima. Estendendo a mão partiu um galho fino e tirou a casca com os dentes. Avaliava a floresta densa, mas tigando o galho tranquilamente.

Pouco depois, deixou o galho de lado, encaixou o arco no ombro bronzeado e se embrenhou no mar de folhas verdes ondulantes, com seu cocar blançando ao vento.  A partir dali a trilha descia sob uma densa vegetação e ele precisaria confiar em sua memória para saber onde andar. Um passo em falso podia significar uma perna quebrada ou pior, a morte, em um dos muitos canais espalhados pelo campo.

Após uma centena de metros, a paisagem voltava se nivelar e, à distância, podia ouvir um riacho que saia do afloramento rochoso. Passando por ele, a trilha seguia em direção a sua aldeia. Correu em direção ao riacho, assim que adentrou a ele, vozes estranhas soaram. Seu coração acelerou, silenciosamente se escondeu no denso bosque de helicônia com uma flecha pronta pra ser disparada. Quem quer que fossem, não eram os Manaqüis, de quem seu povo permanecia escondido há muito tempo.

Aguardou ancioso, espreitando através do véu de folhas largas da floresta a sua frente. Assim que as vozes chegaram mais perto, planejava seu próximo movimento. A passagem para sua aldeia tinha de ser protegida a todo custo, mas era um homem só, contra quantos? Ele não podia dizer. O som dos pés batendo no solo ficou mais alto, até conseguir ver três homens vestidos em uma estranha pele branca. Quem eram eles e por que estavam aqui, não sabia, só sabia que estavam ameaçando a sua casa. Puxou a corda de seu arco para trás. Devagar, fez sua mira, buscanso o homem a frente, deixou a flecha voar.

Um segundo depois, um grunhido foi seguido por gritos. Rapidamente encaixou outra flecha no arco e mirou, parando quando viu um deles sacar uma lâmina ameaçadora das costas. Mas permaneceu onde estava, depois de muita conversa entre eles, o líder foi puxado para longe.

Assim que Mahl se convenceu de que não voltariam, recolocou o arco no ombro correu para a passagem íngreme em direção a sua casa. lá no fundo, ele estava assustado. O mundo estava mudando fora das frenteiras da tribo.

06 de junho de 2012 - Universidade da Califórnia, Berkley, Kroeber Hall

Claire El-Badawy verificou seu calendário no computador. Tinha uma palestra no Lyceum às 13:00, aula na turma A330 às 15:00 e uma entrevista em vinte minutos, sem mencionar o jantar com o Jason. Girou a cadeira, olhou pela janela do segundo andar se seu escritório, pensando na autorização para a expedição ao Brasil. Após o desastre da Guatemala, ela estava correndo um risco enorme na carreira buscando o ‘Homem Perdido’ da floresta Amazônica. A diretoria só precisava de um erro para mandá-la embora. Se esse homem acabasse sendo o que ela esperava, seu prestigio iria disparar nas alturas. Pensando no futuro, se assustou com alguém batendo a porta aberta. Olhou para trás e se pedou olhando para os olhos mais azuis que já tinha visto.

- Oi, meu nomem é Owen - disse o homem, entrando. Ele estendeu a mão e, enquanto se cumprimentavam, continuou. - Nós conversamos há algumas semanas sobre sua viajem ao Brasil. Cheguei muito cedo?

Claire observou aquele Aucklander de pernas longas usando botas, jeans desbotado e camisa branca com dois botões abertos.

- Não, sente-se. - Claire disse, organizando os pensamentos. - Posso pegar algo para você beber?

Ele espremeu o corpo longo e magro na cadeira em frente a mesa dela.

- Não, tô de boa. Vindo do Campus pra cá. Eu quase me perdi.

Claire sentou em seu lugar atrás da mesa e tentou relaxar.

- Devo ficar preocupada? - Ela disse.

- Sobre o quê?

- Sobre você se perder. - disse Claire, notando a cicatriz desbotada acima da testa de Owen.

- Nem. Na floresta eu me viro bem. É a grande fumaça que me confunde. Muitos caminhos.

- É, a mim também. - Disse ela não entendendo completamente o termo, grande fumaça. Supôs que significasse cidades grande. - Então, como um Australiano de Aucklander foi parar no Peru?

- Na verdade, sou de Westhaven, ao norte da cidade grande, no interior.

Owen entregou-lhe um envelope e sentou-se olhando para ela.

- Meu pai estudava peixes do rio Amazônas quando eu era um guri, então eu meio que cresci por lá.

- Interior? - Claire disse, abrindo o envelope e vendo as credenciais dele.

- É, você sabe fim de mundo. Acho que vai ver que está tudo em ordem aí.

Claire acenou com a cabeça enquanto lia a lista de expedições que ele liderou. O currículo não era exatamente o que ela estava esperando, mas também não procurava por nada vistoso.

- Deve ter sido interessante crescer perto do rio.

Owen deu de ombros.

- Foi normal. Não é a maravilha que se pensa. Tem muitos bichos desagradáveis lá – Nem mencione a febre amarela.

- E a malária. - Claire adicionou. - Eu não sou uma turista, Sr. Macleod. Suponho que tenha ficado doente?

A expressão de Owen se contraiu com a menção da malária.

- Não. Só tive um encontro com umas aranhas armadeiras.

Ah, estamos tentando impressionar. Vou te dar o benefício da dúvida.

- Uma aranha da banana? Você deveria estar morto.

- Sim, verdade. Em alguns momentos eu desejei estar.

- Porque quer achar esse ‘Homen Perdido’?

- Para aprender sobre seu povo antes que seja tarde demais. - Disse dobrando o currículo e devolvendo-o ao envelope.

- E se ele não quiser ser encontrado? A floresta é grande por essas bandas.

- Está dizendo que não consegue encontrar?

- Não, de jeito nenhum. - Owen rechassou. Cruzou as pernas e se mexeu desajeitadamente na cadeira. - Pode levar um tempo. Não é fácil encontrar alguém que não quer ser encontrado, além disso onde vamos não é um passeio no parque. Manaqüis não aceitam gentilmente pessoas vagando em seu quintal.

- Bem, nós temos quatro meses, Sr. Macleod, então você consegue ou não? - disse Claire, devolvendo o envelope.

- Ah, não precisa ta ser tão formal. Me chame de Owen e não se preocupe. Vamos encontrá-lo.

Claire sorriu. Você é trambiqueiro. Talvez demais. Aposto que me diria que pode encontrar o monstro do lago Ness, se achasse que assim fosse conseguir o trabalho. Porém, você foi altamente recomendado.

- Onde está hospedado?

- Do outro lado da cidade.

- Está com fome? - Claire olhou para o relógio. Era quase meio-dia.

- Não me importaria uma rodada de tubarão e batatas. – Disse Owen dando de ombros.

- Bem, não sei se temos tubarão.

- Não o tubarão. Um peixe comum. – Owen riu.

- Está dizendo peixe com batata frita então.

- É isso aí.

Claire tentou lembrar se o refeitório oferecia peixe. Mas era sexta-feira.

- Vamos ver se temos tubarão e batatas então. Infelizmente, tenho uma palestra a uma hora, mas se você quiser, pode ficar com meu crachá isso vai permitir que dê uma olhada nos arredores.

- Claro, por que não? Não tenho nenhum outro lugar para ir agora.

Um

Amazônas

10 de dezembro de 2012, Lima, Peru.

Owen abriu a porta do apartamento e deixou a mochila cair no sofá ao lado. Exausto após o voo transpacífico, esfregou o pescoço e se arrastou para a porta da varanda. Com ela aberta deixou o som do tráfego da tarde, seis andares abaixo, entrar no quarto. Após um minuto observando a encosta nebulosa, foi ao banheiro e jogou água no rosto.

O espelho refletia olhos que precisavam de uma noite de sono. Mas isso teria de esperar até ele conferir o e-mail: isso e tirar a grande aranha da banana que estava na saboneteira do chuveiro. O bicho peludo tinha escapado de seu terrário novamente e fixado moradia lá. Ele pegou o aracnídeo entre os dedos, fazendo com que as longas patas entrassem em frenesi.

- Acalme-se, Laracna. - Ele murmurou. - Vai estar de volta a sua casa antes que perceba.

Atravessou a cozinha e a colocou de volta em sua casa de vidro.

- Agora, espero que - Disse ele a Laracna - Robbie tenha me deixado um pouco de chá de coca.

Procurou entre os potes e caixas até que encontrou uma lata. Agitou a lata tentando ouvir algo e sorriu quando a aranha bateu no vidro do terrário.

- Bom menino, Rob. - Ele disse, e colocou uma chaleira de água para ferver. Quinze minutos depois, sentou-se na varanda com vista para a rua abaixo bebendo chá com o laptop aberto no colo.

Quando o ligou viu que tinha uma dúzia de e-mails. Abriu um com o nome intinerário de Claire El-Badawy e repassou todo o conteúdo.

Enquanto lê as informações do voo, as memórias da conversa com a antropóloga voltam a sua cabeça.  Sorriu, pensando na morena alta de olhos azuis brilhantes. Ela tinha um sorriso de matar e um par de pernas que não estavam de brincadeira. O corpo se agitou com a lembrança dela aparecendo em sua frente. Mas, o que realmente o fez gamar foi à mente afiada, desafiadora e mal-humorada dela. Gostava de mulheres inteligentes.

Na rua um taxi buzinou e os pensamentos dele se esvaíram. Estalando os dedos, tirou uma barra de chocolate do bolso e abriu o pacote. Mastigando, abriu um arquivo que tinha baixado há um tempo atrás. O arquivo era a foto de uma pirâmide escalonada.

- Excelente essa é uma teoria incrível. - Ele murmurou, inclinando a cabeça. Ampliou e rolou a página para baixo até chegar à foto dela.

- Você realmente é um achado, vou te dar esse crédito. Só mantenha seu nariz longe dos meus negócios e vamos nos dar bem.

10 de dezembro de 2012, San Francisco, Califórnia.

Um banho quente sempre ajudava Claire a organizar os pensamentos quando algo ruim acontecia. Ela aumentou a temperatura da água e cerrou os dentes. Desde que seu noivo, Jason, decidiu que a carreira era mais importante do que ela, há três semanas, vinha tentando esquecê-lo. Mas não era fácil. Esfregava a cabeça e o ultimato dele martelava em sua mente. De todas as vezes que poderia ter tomado essa decisão, ele teve que escolher exatamente vinte dias antes do projeto. Sentiu um nó na garganta. Que se dane! CBS e Nova York podem ficar com ele. Eu preciso ligar para Thad.

Saiu do banho, se enrolou na toalha, e marchou em direção ao closet. No canto do armário, tinha deixado à mochila pronta. Junto a ela, estavam as botas de trilha e uma dúzia de meias de 150 fios ultraleves. Passou os olhos por elas conforme pegava as meias, calculando se a mochila seria o suficiente para todo o equipamento da expedição.

Pouco depois, estava de carro nas vias da cidade, parando em sua lanchonete favorita para o sempre bem-vindo café da manhã, deixou o rádio ligado para ouvir as noticias matinal. Preparava-se para o trajeto de uma hora, quando seu Blackberry tocou. Colocando o café no banco do passageiro, vasculhou a bolsa e tirou o celular. O número de Thad apareceu na tela.

Thaddeus Popalothis ou Poppy como ele era conhecido no campus, era seu assistente de pesquisa.

- Ei, como vai? - Ela disse.

- Você está na 880?

- Estou a caminho, por quê?

- Bem, você vai querer sair na Artesia e pegar a 680. Um reboque derrapou na saída 120. Está uma bagunça.

- Que merda. Tudo bem.

Ela estava começando a ficar impaciente conforme as cinco pistas da avenida começavam a diminuir a velocidade.

- Owen te disse alguma coisa?

- Sim, ele respondeu o e-mail. Estamos todos prontos. Vai nos encontrar no aeroporto. - disse Thad. Que limpou a garganta e diminuiu o tom de voz. - E tem mais uma coisa.

- O quê? - Claire disse, se preparando para o baque. Quando a voz de Thad diminuía, era sinal de problema.

- Noah está repensando minha ida ao Brasil com vocês.

Claire piscou. Qual o problema de Noah? Porque não pode deixar as coisas cominharem normalmente. Controlou o nervosismo e se acalmando disse:

- Poppy, não se preocupe. Eu cuido dele.

- Mas ele é da diretoria.

- É eu sei. Não se preocupe com essas coisas.

Houve um longo silêncio do outro lado da linha. E então Thad respondeu:

- Tudo bem. E se ele não mudar de ideia?

- Ele vai mudar. - disse Claire pegando à saída para a 680. Oh, merda, um policial. Ela viu o medidor de velocidade marcando 80 por hora. Excelente! - Tenho que desligar. Tchau.

Claire chegou ao escritório e guardou a bolsa no armário. A mesa dela estava uma bagunça. Arquivos empilhados em torres de quatro e cinco pastas de profundidade. Post-its com números de telefone e tarefas a fazer estavam colados em torno do computador. Ao lado da tela, estava o retrato de seus pais. Escondido no canto do porta-retrato, uma foto 3x4 da sua avó. Tirou uma pilha de correspondências da cadeira, sentou-se, e abriu o e-mail.  Como sempre, uma longa lista de e-mails não lidos. Separou alguns, respondeu outros, em seguida, rapidamente revisou a programação do dia, enquanto debatia se deveria ligar para Noah. Não. Melhor ir tratar com ele cara-a-cara. O problema é que tenho aula em trinta minutos. Tamborilando os dedos na mesa, ouviu uma batida na porta.

Kevantando a cabeça, viu Thad atravessar a porta com os braços cruzados. Alto, de cabelos pretos encaracolados e rosto tipicamente do mediterrâneo, Poppy era bem popular entre as jovens no campus.

- Ah! Você está aí. Preciso ir ver o Noah, mas eu tenho aula em – ela olhou para o relógio – vinte minutos - Tirou a pasta da aula de dentro da bolsa – pode dar essa aula no meu lugar?

- Bom, eu não estou preparado, mas sem problemas. – Disse ele indo até a mesa e pegando a pasta.

- Obrigada.

Thad acenou com a cabeça. Em seguida limpou a garganta.

- Ei, só como aviso, não se irrite com ele. Vou ficar bem. Sério. Quer dizer, não me leve a mal, eu quero ir, quem não iria querer? Mas não quero que seja forçando a barra. Ele pode acabar comigo de verdade, Claire.

Claire estudou o rosto longilíneo de Thad, sentindo sua preocupação. Sabia que estava certo. Noah poderia realmente se irritar com Thad.

- Não se preocupe. Eu sei como lidar com Noah.

Ir de seu escritório em Kroeber Hall até a outra extremidade, onde a diretoria comandava as coisas, deu há Claire algum tempo para planejar como iria convencer o escocês de cabelos grisalhos. Não via Noah diferente dos outros homens do departamento. Era egocêntrico, arrogante e teimoso. A única diferença entre ele e o resto da diretoria, era que Noah foi seu marido o que lhe dava certa vantagem ou desvantagem. Ela respirou fundo chegando ao escritório escancarou a porta.

- Olá, Claire. Como posso te ajudar? - A assistente disse, olhando em direção a ela.

- Noah está ocupado, Maggie? Eu preciso vê-lo imediatamente.

- Ele está no telefone. Não pode resolver comigo?

- Acho que não. - disse Claire vendo Noah pela fresta da porta aberta - Vou aguardar aqui mesmo.

- Quer algo para beber, talvez um café?

Claire negou com a cabeça.

- Você ouviu sobre o acidente horrível na 880 esta manhã? – Maggie disse, se levantando e indo em direção a antropóloga.

- Entre o reboque e o ônibus, ouvi sim. Oh, Noah desligou. - Claire avisou - Desculpe, eu preciso falar com ele antes que fuja.

Quando Claire deu um passo para dentro da sala, Noah virou a cadeira.

- Olá, Claire. - disse, empurrando os óculos para cima – Fiquei imaginando quanto tempo levaria até vir falar comigo.

- O que pensa que está fazendo? – Ela o encarava de braços cruzados.

- Eu?

- Sim. Esse projeto é meu, por que está tentando ferrar com ele?

- Você não deveria estar em aula agora? – Disse o escocês se inclinando na mesa.

- Thad está me substituindo.

- Entendi. Respondendo a sua pergunta, eu estou pensando nos interesses da universidade. Thad é um excelente aluno de pós-graduação, mas você precisa de alguém que saiba se virar na mata, e Thad não é essa pessoa.

- Ele sabe se cuidar. - Claire replicou.

- Tenho certeza que ele sabe. - Noah respondeu encarando de volta com um olhar desafiador.

- Então, suponho que você tenha alguém para indicar em seu lugar?

- Pra falar a verdade eu tenho.

- E quem seria esse? - Disse Claire quando o olhar de Noah foi da sua blusa pra sua saia.

- Nome dele é Jorge, o filho de Micheal.

- Jorge? Você está de brincadeira? Ele não conhece nada sobre o meu projeto.

- No entanto, ele é brasileiro e sabe como as coisas funcionam por lá. Preciso te lembrar, que a única razão pela qual você conseguiu financiamento para essa sua aventurazinha é porque eu coloquei o meu na reta.

- Sei muito bem disso. - Claire rosnou.

- E tenha em mente que se você encontrar esse ‘homem perdido’, o qual é a mesma possibilidade de encontrar jarros canopos em uma pirâmide escalonada, estará lá somente para observar. Sem contato.

- Está fazendo isso tudo, só por que não consegue encontrar uma resposta para o motivo de terem encontrado folhas de coca na pirâmide de Gizé dentro desse seu cérebro de ervilha? – Disse ela sorrindo

- Isso é tudo anedótico, mas ei, é a sua carreira. Se você quiser jogá-la no vaso sanitário, fique a vontade. De qualquer forma, parece um ponto discutível. Você já tem sua permissão para a expedição.

- Sim, eu sei. - Claire respondeu.

- No entanto - Noah disse - é meu trabalho garantir que ela não acabe no lixo.

Claire se inclinou para frente.

- Então deixa pra lá. Olha, ambos sabemos do que se trata tudo isso. Você ainda está tentando me controlar.

- Oh, por favor, o que faz você pensar que eu gastaria um segundo do meu precioso tempo com você? Acredite em mim, tenho coisas melhores para fazer.

- Tudo bem, mas você certamente gostava de me foder antigamente, não é mesmo? Melhor ter cuidado com a Maggie. Eu vi como ela olha para você. A mais nova Sra. Henderson não vai gostar disso.

- Do que você está falando? – Noah retrucou. Seu rosto enrubesceu e ele franziu as sobrancelhas.

- Você sabe exatamente do que estou falando. Claire o deixou pensar nisso por um momento e então continuou. - Noah, querido, se há uma coisa em que você não é muito bom, é em manter seu pau dentro das calças.

- Está me ameaçando?

- Querido, eu não tenho que fazer ameaças, você se sabota sem qualquer ajuda minha. – Disse ela rindo.

- Só para lembrá-la, eu sou da diretoria, então a não ser que queira dar aula para calouros o dia todo pelos próximso anos, meça suas palavras. A propósito, como está Jason ultimamente? – Falou depois de medi-la com olhos de águia.

Os olhos de Claire se arregalaram, e ela lutou para não explodir. Com os lábios apertados, ela sussurrou, Jason aceitou um trabalho em Nova York.

- Eu ouvi dizer. É uma longa viajem até lá.

- É por isso que inventaram os aviões. - disse Claire, com seu melhor sorriso de foda-se - Vamos voltar para o assunto Thad.

- Sim, de volta a Thad - disse Noah, desviando o olhar para a janela – O garoto é esperto, mas não tenho certeza se ele é sua melhor escolha. Sabia que Jorge fala várias línguas tribais? Você poderia dizer o mesmo sobre seu assistente?

Claire considerou a pergunta carregada do seu ex-marido. Esta era uma área em que Poppy não se destacava e, para ser sincera, isso a incomodava. Mas o envolvimento dele com o trabalho dela superava essa deficiência. Ela disse:

- Ele se vira.

- É mesmo? Ele se vira em que, além de um flerte com egípcio antigo, a não ser que você planeje encontrar algum faraó por lá, isso não servirá de nada.

- Ele fala Quíchua, e um pouco de Ayaya .- Claire respondeu, ignorando o sarcasmo de Noah.

- Fluentemente? – Ele perguntou, levantando uma sobrancelha.

Claire fez uma pausa e pensou em sua resposta. Ela queria ter cuidado para não dizer a coisa errada. Noah sorriu e, obviamente, tomando seu silêncio como um não, disse:

- É o que eu pensava. Diga-me, o que há de tão especial nesse assistente para querer levá-lo. Está transando com ele?

- Seu idiota! Por que ainda perco meu tempo aqui? – Gritou ela, de punho e olhos fechados.

- Eu não sei o porquê, a menos que talvez você ainda achasse que poderia me manipular. Era boa nisso, se lembra? Agora se sente aí.

- Vai se foder!

- Senta! - Noah ralhou. Fixou os olhos nela como um gato analisando um rato.

- Vamos parar com a palhaçada. Isso é mais do que apenas uma maldita expedição. Uma sobrinha que eu amo muito está envolvida e eu vou me certificar de que ela volte inteira.

- Você vai precisar de mais experiência na selva. – Empurrando os óculos para o lugar, se virou para janela.

- Já promovi expedições antes.

- Sim, sei bem - No Togo. - disse ele, olhando para ela - Veja este não é um vilarejo de terra na costa oeste da África. É a maldita Amazônia!

- Eu sei disso. - Ela cuspiu de volta.

- Não, não sabe de nada. – Disse ele, balançando a cabeça.

- E você sabe? Já esteve lá por acaso?

- Sim, há muito tempo atrás.

- Por que nunca me disse isso? – Falou ela em tom supreso.

- Para mim é difícil tocar nesse assunto. – Disse o homem, com uma expressão de dor no rosto.

- Como me diz isso só agora, depois de cinco anos em que fomos casados? – Era a hora de ela ir para cima com tudo.

- Era muito pessoal e se ficar quieta por um minuto eu vou te dizer o porquê - Ele fez uma pausa - Vinte e cinco anos atrás, eu e meu irmão recebemos subsídio da Fundação Nacional de Ciência para pesquisar as tribos indígenas.

- Sério? - Claire disse.

- Como eu ia dizendo, meu irmão levou um pequeno grupo para a floresta numa manhã, enquanto fiquei no acampamento. Era apensa uma viajem de reconhecimento que duraria menos de um dia. Deveriam ter voltado na hora do jantar, mas nem ele nem o grupo retornaram. Uma semana depois, encontramos a ele e a seus homens. Foram todos empalados vivos em varas de bambu e deixados junto com um aviso: Fiquem longe do que não os pertence. Tinham cruzado algum limite desconchecido. Nós os tiramos de lá e fugimos. Você está conseguindo me entender?

Claire estava chocada. Soube que Noah tinha perdido um irmão, mas nunca como. Embora tivesse perguntado sobre isso milhares de vezes, ele não falava, nem sua irmã. Noah continuou:

- Você não tem nenhuma ideia de onde está se metendo Claire e eu tentei manter minhas mãos longe disso. Mas você precisa de alguém que conheça a área. E quem é esse guia, Owen Macleod? Ouvi dizer que ele faz passeios turísticos! No que está pensando?

- É verdade, mas passou a vida toda brincando no lugar aonde queremos ir como se fosse o quintal de casa. - Disse Claire, ainda tentando lidar com a revelação de Noah.

- Pois é, descobri isso depois que fiquei sabendo que tinha entrado em contato com ele. Mas antes de tudo você precisa de um guia. Quando ele vivia lá talvez só o tivessem levado poucos quilômetros floresta adentro. Você quer ir até o coração desse mundo. E posso saber por que vai do Peru para lá?

Você nunca para!

- Porque lá é onde a empresa de Owen opera. E suas referências são excelentes.

Noah refletiu sobre isso por um momento, em seguida disse:

- Certo, entendo que ele ter vivido por lá seja válido para você. Mas um guia turístico? É sério isso?

- Ele é poliglota e fluente na maioria dos idiomas que fala, sem dizer que é um naturalista com bacharelado em gerenciamento florestal e territorial. Conhece o rio Amazonas e as pessoas que moram por lá. - Ela olhou para o ex-marido de modo diferente. - Noah, nós vamos ficar bem.

- E minha sobrinha Molly?

- Vou defendê-la com a minha vida se preciso.

- Vamos ver e é melhor voltar com ela viva - Tirou os óculos e olhou para ela com dureza no olhar - Sei que não gosta de mim depois do que aconteceu entre nós. Parece que poucos sabem disso. Para te falar a verdade não me importa nem um pouco. O que eu me importo é que as pessoas se machuquem ou, pior ainda, sejam mortas, sob minha vigilância - especialmente professores talentosos e familiares.

Claire se virou para ele boquiaberta e mesmo contra sua vontade, sentiu uma pontada em seu coração.

- Obrigada – e acrescentou - E como eu disse, eu vou cuidar de Molly, não se preocupe.

- Faça isso. E terminamos essa conversa por aqui?

- Espero que sim. - Claire se levantou, lutando contra o desejo de agradecer ao homem que desprezou nos últimos cinco anos.

Dois

11 de dezembro de 2012, Lima, Peru.

Owen limpou os restos da espuma de barbear do rosto. Ele dormiu a noite toda sem sonhar, o que particularmente gostava muito. Os pesadelos de seu passado raramente o deixavam em paz, desde que seu filho morreu há alguns anos. Olhou para o homem no espelho. Uma cicatriz pequena se mostrava sobre seu quadriu. Foi um presente de um jaguar, isso já faz três anos, durante uma das suas expedições para reabastecer o suplemento de armas de uma ramificação da tribo dos Manaqüis contra uma empresa de mineração brasileira. Até hoje, a cicatriz lhe deixava aflito. O curandeiro dos Jadatani disse que o grande gato o havia marcado por vontade própria. As visões recorrentes que tinha do caçador negro da floresta só confirmavam isso.

Escovou os dentes, foi ao guarda-roupa onde puxou um par de calças cáqui do cabide.

Uma hora mais tarde, estava em Circuito de Playas sob um céu azul brilhante. Gostava de canminhar, a sensação de liberdade que tinha. O cheiro de fumaça no ar de La Patarashca. As melodias da salsa flutuavam das janelas superiores.

Comprou um butifarra na lanchonete e se sentou num banco do outro lado da rua. Enquanto comia, ficou ouvindo o som do oceano o que cercava e das aves marinhas. Pensou sobre a expedição, a longa jornada rio acima em águas incertas. Fazia muito tempo que não ia tão profundamente à floresta.

Após tomar seu desjejum, estava no banco de trás de um táxi, bebendo chá de Yacon em um copo de isopor, enquanto o motorista costurava no tráfego. Comaçava a chover e as pequenas gotas batiam contra a janela do carro. O táxi virou à esquerda, depois à direita, e seguiu pelo labirinto de ruas de paralelepípedos até finalmente chegar a um antigo prédio de tijolos. Tour Rio Amazônas viu escrito na placa sobre a fachada. O motorista passou pelo portão aberto e se dirigiu a um galpão extenso, passando em um caminho cheio de possas d’água.

Com o táxi chegando ao destino, Owen olhou para a cerca de arame que lutava contra os cactos e os arbustos, perguntando-se para onde ia todo o dinheiro que a companhia de turismo ganhava. Bebendo o resto de chá, guiou o taxista em direção a uma passagem aberta que levava ao galpão de metal. Assim que o táxi parou, Owen procurou nos bolsos o valor acordado pela corrida, pagando o motorista abriu a porta e saiu.

Se esgueirando para dentro, ele foi recebido por seu parceiro de longa data, Manny Ortava.

- Você está atrasado. - disse ele em português, franzindo o rosto bronzeado. Tirou as luvas de trabalho e puxou um pequeno charuto feito a mão dos bolsos de sua calça de bombacha.

- Dormi demais. – Owen respondeu.

- Foi bom o voo? - Ele disse, mudando o idioma e acendendo o fumo.

- Horrível. E como está Loretta? – Continuou a corversa, jogando o copo descartável no lixo.

- Ela está indo bem.

- Eu estava muito preocupado com ela. O que houve? Foi pneumonia mesmo?

Manny segurava o charuto no canto da boca.

- Sim, ela estava muito doente, mas já está bem melhor. E você?

- Cada dia melhor. E as crianças?

- Esses só me dão trabalho. – Disse o amigo sorrindo.

- Ernesto?

Manny respirou fundo e colocou as luvas de trabalho.

- Está igual. Ele ainda tem a cabeça nas nuvens. Tudo o que vê é o dinheiro ele fazer na mina de carvão. Sempre digo, vá para a escola; Aprenda alguma coisa. Mas não me ouve. Está mais interessado em meninas. E, bem, o que posso fazer?

- Não muito, eu acho. Garotos sempre serão garotos. Eles estão a toda hora correndo atrás das chicas. – Disse Owen, dando de ombros.

- Como certo Kiwi que conheço. - Manny disse, porém se calou, quando viu Jack Burgess vindo em direção a eles. Tragando o charuto direcionou um olhar conhecido para Owen, franziu a testa e foi embora quando o chefe apareceu.

- Ei, está preparado para isso? - Jack disse, indicando a pilha de engrenagem no piso do armazém. Traduzindo: Não fode com o plano.

Owen tirou uma barra de chocolate do bolso da camisa e abriu. Mordendo o chocolate, lançou um olhar ameaçador para o homem.

- Bom dia, Jack. Como vai indo? - Traduzindo mais uma vez: Vá se ferrar!

- Vamos direto ao assunto. - Jack falou rispidamente.

Eles se encararam como gatos raivosos: Owen com seu bronzeado uniforme,

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