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O Pequeno Herói

O Pequeno Herói

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O Pequeno Herói

Duração:
54 páginas
1 hora
Editora:
Lançados:
Dec 10, 2018
ISBN:
9789897787492
Formato:
Livro

Descrição

“O Pequeno Herói” é um conto escrito em 1849, numa época em que Dostoiévski cumpria uma pena de prisão. Segundo o próprio autor, trabalhar nesta pequena obra foi como que uma espécie de salvação perante o horror que o cercava.

O enredo trata da história de um menino que passa alguns dias na casa de um parente rico. Tímido, ele começa a sentir-se atraído por uma jovem loura, bem mais velha do que ele, alegre e brincalhona…
Editora:
Lançados:
Dec 10, 2018
ISBN:
9789897787492
Formato:
Livro

Sobre o autor


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O Pequeno Herói

Naqueles tempos, ainda eu não tinha feito os onze anos. Em julho, mandaram-me para uma quinta dos arredores de Moscovo, onde vivia um parente nosso chamado T...ov. Encontravam-se, nessa ocasião, reunidos na sua casa uns cinquenta convidados, ou talvez mais... À certa, não posso dizer quantos fossem pois não os contei um por um. A festa estava no seu apogeu e cada qual divertia-se como queria e podia. Quase parecia uma festa que nunca mais acabava por o dono da casa haver jurado dissipar, quanto antes, a sua colossal fortuna — objetivo que, felizmente, logrou dentro de pouco, pois, de facto, dissipou até à última polegada das suas herdades.

A cada instante chegavam novos convidados. Moscovo ficava tão próximo que, da quinta, podia ver-se a cidade. Deste modo os convidados cansados não faziam mais que ceder o lugar aos recém-vindos para que a festa se prolongasse interminavelmente. Divertimentos de toda a espécie sucediam-se sem cessar e sem que se chegasse a prever o final da série. Tão depressa eram passeios a cavalo pelas imediações, como passeios nas margens do rio ou nas clareiras do bosque. As merendas e as jantaradas ao ar livre estavam sempre na ordem do dia.

Nas noites formosas ceávamos no terraço da senhorial residência, profusamente adornada com flores raras. Com essa plenitude florida aliada à radiante iluminação da mesa, as nossas damas — jovens e atraentes todas elas —, tornavam-se ainda mais bonitas. Com as frescas cores que traziam das excursões diurnas, com os semblantes animados e com os olhos brilhantes e alegres, sentavam-se à mesa e conversavam, alegremente, com uns e com outros, sempre graciosas e discretas. Entre sorrisos, vibravam gargalhadas de cristal.

Bailava-se, tocava-se música, cantava-se. Quando o tempo era mau, fazíamos quadros vivos, jogávamos os jogos de sociedade, e, naturalmente, também representávamos obras de teatro. Além disso, havia muitas vezes conferências, descrições dos acontecimentos mais notáveis, anedotas, etc., etc.

Por entre o tropel de convidados, apareciam alguns de personalidade muito destacada. Também ali não faltavam as invejas e a má-língua, nem as consabidas pequenas calúnias. Sem este lixo social, não pode haver Humanidade. Milhões de pessoas morreriam de aborrecimento, por falta de imaginação, como sucede às moscas no outono, se as privassem do oxigénio viciado da mentira.

Mas eu, naqueles tempos, não tinha mais que onze anos. Faltava-me, portanto, compreensão para essa espécie de gente. Além disso, tinha o pensamento totalmente absorvido por coisas diferentes. Só me ficavam na memória vagas reminiscências do que escutara aqui ou acolá. Mais tarde recordei algo do que então ouvi de fugida, sem ter chegado a fixá-lo de modo completo. Quanto ao resto, a minha infantil retina somente gravava de maneira duradoura o brilhante aspeto exterior do espetáculo. E a geral animação festiva, a jovialidade despreocupada, aquela vida alegre e radiante, tudo isso que eu, até então, nunca vira nem ouvira, deve ter produzido em mim tal impressão que, durante os primeiros dias, estive completamente aturdido. A minha jovem cabeça sentia vertigens.

Eu era, todavia, um rapazinho, nada mais que um rapazinho, e aquelas lindas senhoras que me acariciavam não despertavam em mim qualquer sensação — tão poucos anos contava. Porém... há coisas esquisitas! A despeito dos meus onze anos, às vezes apoderava-se de mim uma estranha sensação, que eu próprio, naquele tempo, não podia decifrar. Era como se algo me roçasse o coração com muita suavidade e ternura, algo desconhecido e não imaginado sequer, e que fazia que o meu coração começasse a arder e a palpitar como após um grande susto. Isto, mais de uma vez, era causa de que, num golpe, em labareda, o sangue me subisse à cara.

Momentos havia em que eu me envergonhava dos diversos privilégios infantis que desfrutava; envergonhava-me, repito, e quase os interpretava como uma ofensa pessoal. Às vezes, porém, sentia-me possesso como que de assombro, e escondia-me em qualquer sítio onde ninguém me pudesse ver, apenas com o objetivo de tomar alento e recordar alguma coisa que, segundo eu presumia, acabava de estar ali mas que, imediatamente e de modo completamente inopinado, se havia derretido na minha memória, sem deixar o menor vestígio... e sem o que eu não poderia viver, embora a ninguém me fosse possível dizê-lo.

Finalmente,

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