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Mato Grosso Do Sul - 1978/1979: Utopia X Realidade

Mato Grosso Do Sul - 1978/1979: Utopia X Realidade

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Mato Grosso Do Sul - 1978/1979: Utopia X Realidade

Duração:
745 páginas
10 horas
Editora:
Lançados:
11 de dez. de 2015
ISBN:
9788582451625
Formato:
Livro

Descrição

O livro contém duas partes. Na II Parte, de interesse mais acadêmico, apresenta um modelo de análise histórica denominado sistêmico-descritivo, de criação do autor, com base no qual foi produzida a Parte I contendo o exame do processo de ocupação do sistema geoambiental sul-mato-grossense, com ênfase nas primeiras décadas do século XIX. O estudo evidencia o inter-relacionamento havido entre esse processo de ocupação e as correlatas evoluções dos sistemas econômico e sociedade civil, e seus reflexos sobre o contexto do sistema sociopolítico no momento da criação do novo Estado de Mato Grosso do Sul, ocorrida em 11 de outubro de 1977 e efetivada em 01 de janeiro de 1979. Examina as causas de criação do novo Estado. Trata das atividades da equipe constituída para formular a inédita organização administrativa sistêmica e racional do novo Estado e seus princípios; faz relato dos seis meses do primeiro governo nomeado quando da efetivação do Estado; examina as causas da demissão do efêmero primeiro governo e os eventos que se sucederam resultantes da destruição do modelo racional e sistêmico adotado; e descreve episódios, em específico das funções do sistema de planejamento, do primeiro governo eleito em 1983, pelo PMDB, na vigência, ainda, do último governo da ditadura civil-militar implantada no país a partir do golpe de 31 de março de 1964.
Editora:
Lançados:
11 de dez. de 2015
ISBN:
9788582451625
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

Mato Grosso Do Sul - 1978/1979 - Jardel Barcellos

Jardel Barcellos

Mato Grosso do Sul — 1978/1979

Realidade

Editora

O autor nasceu em Petrópolis e se criou na cidade do Rio de Janeiro, em Copacabana. Em 1956 desligou-se da Escola de Aeronáutica e aos 21 anos prestou concurso público para o Tribunal Federal de Recursos (TFR), atual Superior Tribunal de Justiça (STJ). Transferido para Brasília no mês seguinte à inauguração da Capital, formou-se em Economia na primeira turma da Universidade de Brasília (UnB). Pós-graduado em Planejamento Econômico e Social pelo Instituto Central de Ciências Humanas (ICCH) da UnB. Em 1967 compôs a primeira equipe da Companhia de Desenvolvimento do Planalto Central (Codeplan), órgão de planejamento e orçamento do Governo do Distrito Federal (GDF), onde ocupou o cargo de Coordenador Macrorregional e, posteriormente, de Diretor de Planejamento. Em 1968 foi contratado como professor-assistente da cadeira de Análise Econômica do referido curso de pós-graduação e de 1968 a 1970 lecionou Microeconomia na UnB e no Centro Universitário de Brasília (Ceub), uma entidade privada, como titular dessa mesma disciplina. Em 1973 foi admitido como Técnico em Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), sendo lotado na Assessoria da Secretaria de Planejamento da Presidência da República (Seplan-PR), ao tempo do ministro João Paulo dos Reis Velloso. Participou em 1974 dos grupos de trabalho da fusão dos Estados do Rio de Janeiro e Guanabara como membro da Assessoria da Seplan/PR e entre 1975 e 1978 exerceu o cargo de Subsecretário de Planejamento e Coordenação Geral do governo do novo Estado do Rio de Janeiro.Em jun./1978 assumiu as funções de supervisor-geral da Coordenadoria de Assistência ao Governador de MS, da Comissão Especial da Divisão de Mato Grosso, vinculada ao Ministério do Interior, tendo exercido, entre 01/01/79 e jul./1979, o cargo de Secretário de Estado de Planejamento e Coordenação Geral de Mato Grosso do Sul, governo de Harry Amorim Costa. Entre nov./1979 e mai./1983 foi nomeado Coordenador de Programas de Desburocratização de Estados e Municípios das Capitais, do Ministério Extraordinário da Desburocratização, como assessor do ministro Hélio Beltrão. Entre mai./1983 e jun./1986 atuou novamente como Secretário de Estado de Planejamento e Coordenação Geral de Mato Grosso do Sul, no governo de Wilson Martins. Entre março de 1987 e março de 1991 participou do governo de Moreira Franco, no Rio de Janeiro, como Subsecretário de Desenvolvimento Urbano e Regional, tendo acumulado o cargo de presidente interino da Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro ao longo do ano de 1989. Em 2002, já aposentado, participou como consultor nos trabalhos de planejamento da candidata do PSDB ao governo de Mato Grosso do Sul, Marisa Serrano.

Nenhum indivíduo, nenhuma cultura, nenhum povo, nenhum estado poderá sobreviver sem autorrespeito, sem atribuir um valor positivo às próprias memórias e ao próprio caráter. Contudo, nem o indivíduo, nem o estado poderão manter o autocontrole se idolatram suas memórias e preferências pessoais, se não dão maior importância à possibilidade de desenvolvimento e de mudança que devem ocorrer sob o influxo das experiências e informações procedentes de fora.

Karl W. Deutsch

(Os nervos do governo)

Dedico este livro a todos aqueles que colaboraram comigo nas diversas etapas de minha vida profissional.

Em especial, entre eles, e com os meus mais sinceros agradecimentos ao dileto companheiro José Geraldo Siscar, amigo de fé e irmão camarada, por todo o apoio que me deu durante os trabalhos no governo do Estado do Rio de Janeiro e, principalmente, na Comissão Especial da Divisão de Mato Grosso, no governo de Mato Grosso do Sul e, após, quando da elaboração deste trabalho.

Foto do autor tomando posse como titular da Secretaria de Planejamento e Coordenação Geral perante o primeiro governador de Mato Grosso do Sul Harry Amorim Costa.

Sumário

Apresentação

Introdução

PARTE I

Mato Grosso do Sul — contexto e criação

Considerações iniciais

Capítulo 1

O contexto geoambiental

1.1. O subsistema geoambiental da bacia do rio Paraná

1.2. O subsistema geoambiental da bacia do rio Paraguai

1.3. A microrregionalização atual de MS

Capítulo 2

O sistema socioambiental

2.1. O processo de ocupação do geoambiente de SMT

2.1.1. O elemento populacional indígena no geoambiente

2.1.2. A ocupação pelo elemento populacional não indígena

2.2. O sistema econômico

2.2.1. Os programas federais em SMT e seus efeitos

2.3. O sistema sociedade civil

2.3.1. Subsistema outras entidades e grupos políticos, formais e informais

2.3.2. Subsistema entidades trabalhistas

2.3.3. Subsistema entidades patronais

2.3.4. Subsistema entidades religiosas

2.3.5. Subsistema organizações de mídia

2.3.6. Subsistema partidos políticos

2.4. O sistema político-estatal de MT uno

2.4.1. A Capitania de MT

2.4.2. A Província de MT

2.4.3. O Estado de MT uno

Capítulo 3

A criação do Estado — razões explícitas e implícitas

3.1. Razões explícitas

3.1.1. O regionalismo em apoio

3.1.2. A razão geopolítica

3.1.3. A motivação político-eleitoral

3.2. Razões implícitas

Capítulo 4

O modelo da organização de MS

4.1. Antecedentes

4.2. A equipe e a organização do trabalho

4.3. Os fundamentos do modelo

4.4. A construção do modelo

4.4.1. O processo de construção do modelo

4.4.2. O modelo construído

4.4.3. O sistema de planejamento adotado

4.5. Era o modelo uma utopia?

4.5.1. O modelo e a realidade dos outros

4.6. O modelo de MS e as reformas do Estado

Capítulo 5

A infância de MS

5.1. O efêmero governo Harry Amorim

5.2. A vitória da realidade dos outros

5.3. Miranda e Pedrossian

5.4. A Seplan/MS no governo Wilson Martins

Resumo e conclusões

PARTE II

Macrossistema ambiental

Considerações iniciais

Capítulo 1

Modelos de interpretação da realidade social

Capítulo 2

O pensamento sistêmico

2.1. Mudança do foco da parte para o todo

2.2. O pensamento sistêmico é contextual

2.3. Organização, estrutura, processo e significado

2.4. A teoria de sistemas e os sistemas sociais

Capítulo 3

O modelo sistêmico-descritivo

3.1. O conceito de macrossistema ambiental

3.1.1. O sistema geoambiental

3.1.2. O sistema socioambiental

Capítulo 4

O sistema de ordenamento sociopolítico-jurídico positivo

Quadros

Figuras

Notas

Bibliografia

Referências bibliográficas

Bibliografia suplementar

Apresentação

Este livro está sendo publicado após 35 anos da efetiva instalação de Mato Grosso do Sul. Muitos sul-mato-grossenses eram crianças ou sequer haviam nascido quando se deu esse evento. Daí, e também muito por isso, ser importante trazer ao conhecimento da sociedade sul-mato-grossense episódios e fatos marcantes ocorridos quando dos primeiros momentos da vida do novo Estado.

Difundiu-se um mito, talvez pela parca documentação a respeito, de que o presidente Geisel, patrono da divisão de Mato Grosso, pretendia que a organização administrativa de Mato Grosso do Sul (MS) constituísse um modelo para outras unidades da Federação que viessem a ser criadas.

Na realidade, nunca ocorreu ao presidente a intenção de que fosse criado um Estado-modelo, esta uma expressão que se cunhou à época pela mídia. O modelo de organização sistêmica e racional resultou, a bem da verdade, de uma concepção do autor deste trabalho, acatada pelo governador nomeado Harry Amorim Costa no primeiro contato que com ele mantive em junho de 1978 em seu gabinete no Departamento de Obras de Saneamento (DNOS), do qual ele era seu diretor-superintendente.

A partir de então e confundindo (intencionalmente?) a cronologia dos eventos, alguns textos posteriores, minimizando o que foi implantado em 01/01/1979 — uma inédita estrutura organizacional, inclusive dotada de procedimentos democráticos de planejamento participativo —, afirmaram que no novo Estado, tão logo empossado o primeiro governante nomeado, tudo o que se pretendia fazer ou implantar não passara de mera retórica, haja vista a prática tradicional efetivamente adotada pelos dirigentes. Uma traição aos desígnios divisionistas que pretendiam, como se dizia, algo muito distinto daquilo que vigorava nas instituições do governo de Cuiabá.

Tais textos, ao não precisarem as datas dos eventos, acabaram por distorcer ou confundir os fatos.¹ Na realidade histórica, essa traição se verificou a partir do segundo governo instalado em julho de 1979. Nesse momento foi então alterado o modelo inédito de organização administrativa instituído seis meses antes ao ser efetivado o Estado criado, sendo substituído por um padrão convencional mais apropriado a um modo patrimonialista de governar.

A história não deve ser contada em cima de mitos criados e por confusões cronológicas, mas a partir de relatos fiéis de quem efetivamente participou dos acontecimentos.² Por essa razão é importante deixar registrado aqui o que de fato ocorreu relativamente à montagem das instituições ao longo do segundo semestre de 1978 e a eventos do primeiro governo do novo Estado, inclusive episódios que contribuíram para o inconsequente ato de sua destituição.

Este livro é resultado de três motivações: 1) contribuir para a memória da criação e dos primeiros momentos de vida efetiva do Estado; 2) tentar superar certos mitos, dirimir certas dúvidas e exercitar a defesa do primeiro governo de MS, tendo em vista certas inverdades difundidas por alguns autores e pela mídia da época, aliados a adversários políticos; 3) difundir o que se pretendeu para MS, com sua estrutura e organização racionais e de procedimentos voltados democraticamente ao desenvolvimento institucional e social, portanto não apenas econômico.

Abrangendo particularmente o período que vai de meados de 1978, pouco após a nomeação do governador (então ainda não empossado) Harry Amorim Costa, a 31 de dezembro desse ano, o foco principal do trabalho consiste em considerações sobre os princípios e razões de ser da adoção do modelo sistêmico de organização administrativa do Poder Executivo de MS e sobre as atividades e procedimentos daquele período.

É justamente aqui que se encontra um vazio na memória da criação do Estado, cujas informações me parecem fundamentais, inclusive para a compreensão do que era efetivamente pretendido com aquele modelo de organização.

O trabalho faz, também, considerações sobre o período 1983/1986, do governo Wilson Martins, particularmente relativas ao funcionamento e produção da Secretaria de Planejamento e Coordenação Geral (Seplan-MS), da qual fui novamente titular, não obstante as alterações havidas no modelo de organização administrativa. Infelizmente nessa época o Sistema Estadual de Planejamento não mais funcionava e muito menos o planejamento participativo implantado pelo modelo original e constante do Decreto-lei n. 02/1979.

Em vista aqueles objetivos do trabalho e não sendo propriamente um livro de História, não obstante, para o estabelecimento da realidade presente quando da criação e efetivação do novo Estado e para a compreensão das razões da oposição sofrida pelo primeiro governo assumido com seu modelo de organização, foram examinados, a partir especialmente de autores regionais,³ os movimentos de ocupação do território sul mato-grossense pelo seu elemento populacional, havidos ao longo dos séculos, e os processos de evolução dos correlacionados sistemas econômico e sociedade civil, e feitas considerações sobre o sistema político-estatal de MT uno.

Esse exame, constante da Parte I, Mato Grosso do Sul — Contexto e criação, seguiu o roteiro estabelecido na Parte II, Macrossistema ambiental, em seu Capítulo 3, O modelo sistêmico-descritivo, construído como instrumento de análise histórica do processo de ocupação de um geoambiente e da formação do seu sistema econômico e sociopolítico.

Como seu nome induz, esse modelo adota o pensamento sistêmico como lógica de análise uma vez que os processos de evolução examinados são todos inter-relacionados, ou seja, são interdependentes e interativos, se vista a realidade não de forma parcial e segundo variáveis isoladas, mas, sim, como um sistema. Objetiva, assim, conduzir o exame das correlacionadas variáveis geoambientais, socioculturais, econômicas e sociopolíticas, tidas em seus processos contínuos de inter-relação, responsáveis, em sua dinâmica, pela configuração dos contextos históricos, cuja evolução, no caso de MS, em determinados momentos verificou-se por saltos, a partir da interveniência de variáveis independentes. A partir desse modelo e com vistas à configuração das causas e do contexto sociopolítico do momento da criação do Estado, o trabalho examina certos episódios importantes e fenômenos do processo evolutivo da região sul-mato-grossense, bem como fatores determinantes da divisão de MT.

Por essa razão, talvez fosse conveniente iniciar a leitura do livro por sua segunda parte.

O ato de criação, embora decidido autoritariamente de cima para baixo, contou com o respaldo de eventos, processos e fenômenos havidos ao longo do tempo, geradores, desde o fim do século XIX, de históricas pretensões separatistas. Contou, ainda, e principalmente, com um espírito político-divisionista desenvolvido em determinados segmentos do sistema sociedade civil, principalmente a partir da emersão de um sentimento regionalista, crescente no seio da elite econômica e intelectual campo-grandense, desde principalmente a década de 1930, como revelado por autores da região. Mas a cisão de MT respondeu também a outros fatores, como será mostrado adiante.

O Capítulo 4 da Parte I, O modelo de organização de MS, aborda três períodos: 1) do início de junho a 31 de dezembro de 1978, foco principal do relato do trabalho e correspondente à elaboração dos atos e instrumentos para a efetivação institucional da nova unidade no macrossistema federal; 2) de 01 de janeiro de 1979, instante histórico do nascimento da nova unidade da Federação, a 31 de julho daquele ano, referente aos poucos meses do governo de Harry Amorim Costa, substituído no momento em que o Estado, como sistema autônomo, dava seus primeiros passos; e 3) de maio de 1983 a junho de 1986, período em que estive no governo Wilson Martins, sendo o texto centrado mais nas atividades da Seplan-MS.

Esses relatos foram facilitados tendo em vista minhas condições de protagonista direto e indireto de alguns fatos e de observador-participante⁴ de muitos outros.

O informe relativo ao trabalho e sobre o que foi produzido no período mencionado no item 1 acima revelam a experiência de uma verdadeira organização adhocrática⁵ (se é que se pode chamar assim), composta de forma urgente e emergente por técnicos federais e estaduais de diversas áreas, além de consultores, também servidores públicos, todos prontamente dispostos a aderir ao projeto e com ele colaborar para que fosse concluído, até a data fatal de 31 de dezembro de 1978, tudo o que fosse necessário à efetivação do novo Estado, até então apenas formalmente criado.

A Coordenação de Assistência (CA) ao governador de MS, nomeado no fim de março de 1978, vinculada à Comissão Especial da Divisão (CE), criada pela Lei Complementar n. 31 (LC 31/77), de 11/10/1977, e subordinada ao Minter, contou na realidade com condições materiais e operacionais satisfatórias para o desenvolvimento de suas atividades somente a partir do início de agosto de 1978. Trabalho estafante, mas altamente gratificante em termos profissionais, dado o ineditismo daquilo que se pretendia em termos de organização pública.

Em razão disso, nesta oportunidade me cabe render as mais sinceras homenagens e transmitir os mais profundos agradecimentos à gloriosa equipe, plural em termos regionais e profissionais, que contribuiu para o nascimento efetivo de MS. Equipe que atuou nas discussões, na formulação e montagem dos necessários atos e instrumentos constitutivos, administrativos, contábeis, programáticos e orçamentários, de forma intensa e incansável ao longo do escasso tempo que se dispôs para concluir a missão de tornar realidade a institucionalização do Estado e a instalação do seu primeiro governo.

Toda a equipe foi composta por servidores públicos, com exceção de uma pequena empresa de consultoria contratada por técnico da Sudeco, participante em Brasília da CA, para cuidar dos assuntos da área social, com foco maior na parte educacional. Equipe, diga-se, dos melhores quadros técnicos federais e estaduais, distribuídos por três escritórios, sediados em Campo Grande (CA/CG), no Rio de Janeiro (CA/RJ) e na Capital Federal (CA/BSB). O projeto constituiu, sem dúvida, um trabalho que se pode qualificar como heroico, dado que havia uma data fatal para o seu término e o prazo era curto. Nesse período de tempo, entretanto, produziu-se muito, em quantidade e qualidade.

Da equipe, sendo que alguns não se encontram mais entre nós, participaram, entre outros cuja lembrança me falha, amigos, colegas, companheiros e consultores de variada origem, como: o competente e ético Afonso Simões Correa e os membros de sua equipe Lourival Martins Fagundes, Sebastião dos Reis, Sebastião Paula do Couto, Jerônimo Alves Chaves, Waldir Miranda de Brito, Katsumi Kouchi, Maria Itsuco Kakazu, todos do Núcleo Regional em Campo Grande da Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater); Edson Sarques Prudente, meu amigo e colega do IPEA; José Manoel Baltar da Rocha, da Financiadora de Estudos e Projetos — Finep/Secretaria de Planejamento da Presidência da República (Seplan-PR), e ex-colega da Universidade de Brasília (UnB); Odilon Martins Romeo e Augusto Assis Filho, da Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco)/Minter; Artur Castilho e Alaíde Araújo Lima, da Procuradoria Geral da República (PGR); Carlos Garcia Voges, do Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS/MT); João Pereira da Rosa, da Universidade Estadual de Mato Grosso — UEMT (atual UFMS); Mauro Prates Ribeiro, Maria da Glória Gonçalves Nogueira, Maria Delphina, companheiros da Secretaria de Planejamento e Coordenação Geral do Estado do Rio de Janeiro (Secplan); Maurício Cantalice, da Empresa de Pesquisa Agropecuária (Pesagro), empresa pública vinculada à Secretaria de Agricultura do Estado do Rio de Janeiro; o procurador Augusto Thompson, do sistema penitenciário do Estado do Rio de Janeiro; Vicente Sarubi, do sistema penitenciário de MT; José Maria Dias e Luiz Carlos dos Santos Neves, da Fundação João Pinheiro/Estado de Minas Gerais; João Luís de Moraes Barreto e José Teixeira Machado Jr. (este autor de livros sobre orçamento público, como o Comentário à Lei n. 4.320), ambos do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM) e Aluisio Loureiro Pinto, da Secretaria de Administração do Estado do Paraná.

Cabe, ainda, referência à empenhada colaboração de diversos técnicos de MT, sediados na parte sul do território. Especial menção deve ser conferida ao incansável esforço e devoção do pessoal de apoio, em particular o trabalho de José Geraldo Siscar, meu ex-assistente na Secplan, na materialização dos inúmeros documentos então preparados (mais de 70, entre documentos de coordenação dos trabalhos, decretos-leis, decretos e estatutos), numa época em que a produção não era ainda favorecida pelo microcomputador.

Como disse o poeta Mário Quintana, seguraria todos os meus amigos, que já não sei onde e como estão, e diria: vocês são [foram] extremamente importantes para mim.

Agradeço, também, aos que colaboraram com este trabalho me enviando prestimosamente livros, textos e documentos, entre eles a saudosa e querida Leila Jallad, os professores Marisa Bittar, hoje na Universidade Federal de São Carlos (UFSC), Ângelo Arruda, da UFMS e Paulo Cimó Queiroz, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e, bem assim, ao referido companheiro de longa data, José Geraldo Siscar, hoje agente tributário concursado da Secretaria de Fazenda de MS.

Não poderia, por outro lado, deixar de agradecer as fundamentais considerações e observações sobre o trabalho, em sua fase final, proporcionadas pela socióloga, ex-pesquisadora do Cpdoc/FGV e atual professora do Programa de Pós-graduação em História, Política e Bens Culturais da FGV, Lúcia Lippi de Oliveira. E também ao meu amigo e designer Otávio Abate pela colaboração na configuração da capa para a versão em eBook.

Por fim, deixo também aqui firmada minha homenagem póstuma ao grande técnico, mas também político, com P maiúsculo, honrado, decidido, audacioso, tenaz e simpático governador Harry Amorim Costa. Sua confiança no nosso projeto e nos destinos do Estado foi uma constante. Sempre acreditou na equipe e, fundamentalmente, no que estava sendo produzido, com muita e confiada delegação, porque era o que ele queria. Queria porque, sendo um grande administrador, acreditava que, naquele momento de crise econômica que afetava o país, era o melhor a ser realizado para o bem-estar da sociedade sul-mato-grossense, na qual se sentia plenamente integrado. Ele amava Mato Grosso do Sul, em particular o Pantanal, em vista o seu ideário ambientalista. Tanto que desejou e se tornou, eleito em 1982, representante na Câmara Federal de parcela do povo de MS, além de ter sido Secretário de Estado do Meio-Ambiente.

Um reflexo do apoio a ele depositado e, porque não, ao seu projeto de governo.

Rio de Janeiro, 01 de janeiro de 2014

Data comemorativa dos 35 anos da efetiva instituição e instalação do novo

Estado de Mato Grosso do Sul

Introdução

Fazer um livro é sempre um ato de paixão. É o clímax de uma trajetória de vida e deve representar, aos leitores, o passaporte para uma viagem através dos tempos. E, se permitir ainda transmitir uma mensagem de resgate e valorização da memória coletiva, então valeu a pena escrevê-lo.

Valmir Batista Corrêa

(Corumbá: terra de lutas e de sonhos)

O trabalho, como mencionado na Apresentação, segue o roteiro estabelecido pelo modelo sistêmico-descritivo contido na Parte II, Macrossistema ambiental. Neste trabalho o macrossistema, aí conceituado de forma abstrata, está referido ao território de MS, limitado, nos termos da LC 31/77, ao espaço fisiográfico situado ao sul do complexo hídrico Correntes-Itiquira-Cuiabá, mantidos os demais anteriores limites da parte sul do antigo Estado.

Seu escopo principal consiste em memoriar atividades, acontecimentos, processos e procedimentos relacionados à formulação da estrutura administrativo-organzacional e ao preparo dos atos constitutivos e outros instrumentos necessários à implantação e instalação de MS e ao seu funcionamento. E também apresentar os princípios que deram sentido aos objetivos da ação do primeiro governo e à estratégia operacional da organização do Poder Executivo do novo Estado.

Secundariamente, objetiva tecer algumas considerações sobre o transcurso dos seis meses do primeiro governante nomeado, Harry Amorim Costa, examinar as motivações de sua extemporânea substituição e, ainda que superficialmente, sobre passagens do governo de Wilson Barbosa Martins, do PMDB, eleito em 1982, e, particularmente, sobre aspectos do processo de planejamento desse período.

A estrutura estabelecida para a Parte I do trabalho contempla cinco capítulos, divididos em diversos subcapítulos e itens:

Capítulo 1 – O contexto geoambiental

Capítulo 2 – O contexto socioambiental

Capítulo 3 — A criação do Estado — Razões explícitas e implícitas

Capítulo 4 — O modelo de organização de MS

Capítulo 5 — A infância de MS

Os dois primeiros seguem o referido modelo de análise, contido na Parte II, construído para o exame da realidade contextual pretérita e presente à época da criação de MS, na perspectiva do paradigma sistêmico. Nessa linha, o trabalho parte primeiramente de um escorço comparativo dos sistemas geoambientais: o da região sulina de MT, doravante designada por SMT,⁶ e o da sua região norte (NMT). Considera, em seguida, no Capítulo 2, o sistema socioambiental (sociedade) de SMT, a partir do exame da ocupação mais efetiva de seu geoambiente (território) pelo elemento populacional não indígena, bem como da correlacionada evolução de seu sistema econômico, com abordagens sobre aspectos sócio-econômicos, particularizando as relações de produção e os conflitos pela posse da terra, com suas decorrências políticas.

Guardada a terminologia do modelo, depois são examinados o sistema sociedade civil, referido especificamente a SMT, e o sistema político-estatal, este como pertinente ao todo estadual, a MT uno, vez que não teria sido ainda instituído o novo estado. Ao longo desses dois quesitos serão considerados episódios históricos da política regional, particularizando SMT.

O Capítulo 3, A criação do Estado — Razões explícitas e implícitas, considera os motivos da divisão do MT a partir das colocações de alguns autores e do que consta da Exposição de Motivos (EM/37), de 24/08/1977, condutora do projeto da LC/31, de 11/10/1977, a de criação do Estado de MS. Nessa parte levanto a hipótese de uma causa adicional relacionada às questões econômicas que na época já afetavam seriamente o país.

O quarto capítulo, O modelo de organização de MS, trata das atividades de elaboração dos atos e instrumentos fundamentais à institucionalização e funcionamento do novo Estado. Faz inicialmente considerações que antecedem a formação da equipe de trabalho. Após, descreve o processo de construção do modelo de organização de MS e tudo o que resultou do trabalho. Apresenta os princípios e diretrizes estratégicas da organização e explicita a sua estrutura básica e seus fundamentos, composição e princípios operacionais. E, por fim, o sistema de planejamento adotado.

Ao final desse capítulo é feito um cotejo entre o que se formulou e se implantou em MS, em 1978/1979, e as reformas administrativas, chamadas de reformas do Estado, tentadas ao longo das décadas de 1980 por diversos países e, na segunda metade dos anos de 1990, pelo governo brasileiro, todas por razões absolutamente distintas daquelas consideradas no caso do novo Estado.

No que se refere a MS, a montagem de sua estrutura organizacional e sua forma de funcionar foi motivada por considerações racionais permitidas pela oportunidade ímpar de se começar do zero em termos estrutural-administrativos. Portanto, sem considerar a existência pregressa de alguma organização e sem condicionamentos ditados por ideologias. No caso não se pretendia nem um Estado mínimo, objetivo das reformas em voga a partir do decênio de 1980, verdadeiro massacre institucional, nem um Estado forte e máximo. Pretendia-se, sim, um Estado firme e participativo, em prol do desenvolvimento integral da sociedade.

Por outro lado, o modelo também foi conduzido por um senso preventivo de responsabilidade fiscal naquele momento de instabilidade da virada para os anos de 1980. Crise que já afetava pesadamente a economia e as finanças públicas do país, com tendência a se agravar, o que de fato se verificou até meados de 1990.

Assim, guardadas as devidas dimensões e sem qualquer pretensiosa colocação, cabe observar que, em 1979, o MS saiu na frente, pelo menos no aspecto da organização e funcionamento do sistema político-estatal, embora, muito rapidamente, tenha ficado para trás.

O Capítulo 5, A infância de MS, considera os seis meses de governo de Harry Amorim Costa, durante os quais se tentou implantar a pretensa utopia do inédito modelo de organização naquela dúbia realidade sociopolítica de MS: a que considero efetiva e a dos outros, dos conservadores tradicionalistas vinculados à velha política e aos padrões de governo de MT.

Um dos objetivos do modelo de organização de MS era justamente a mudança dessa mentalidade ortodoxa e patrimonialista através de transformações nos costumes políticos e da forma de agir democrática do governo, isto é, com foco não em interesses particularistas, mas no bem-estar do elemento populacional e, portanto, não apenas voltado ao sistema econômico e ao seu crescimento.

O capítulo apresenta fatos ocorridos durante esse período, quando se iniciava a implantação do modelo de organização e seus princípios, sendo feitas considerações sobre o que levou à substituição do primeiro governador e o porquê da alteração organizacional promovida pelo governo sucessor. Alteração a sugerir que o modelo implantado era, afinal, algo utópico frente à mentalidade ortodoxa tradicionalista e patrimonialista dominante no contexto político presente, impeditivo da permanência daquele padrão de governo e da concretização dos objetivos almejados, estes em coerência com os avanços já havidos no sistema econômico e, em decorrência, no sistema sociedade civil de MS. Portanto, o modelo poderia ser considerado utópico para uns e para outros não.

No embate, a realidade contextual da política patrimonialista de alguns e motivada pelas ambições pelo poder de outros saiu vitoriosa contra a racionalidade organizacional-administrativa e os princípios socio-democráticos e republicanos voltados, a partir de um processo de planejamento participativo e com economicidade e eficiência, à eficaz conquista do bem-estar da sociedade.

O livro faz considerações também sobre o primeiro governo eleito em 1982, ao tempo em que retornei ao cargo de titular da Seplan-MS, organismo que naquele momento já se tornara uma estrutura convencional, não obstante meus esforços e um pretendido apoio do governador para a retomada do planejamento como método de governo e para a adoção de medidas voltadas à melhoria do funcionamento da Administração. Além das atividades rotineiras ligadas à prática orçamentária, o planejamento voltou-se à elaboração de projetos focados em um horizonte de médio e longo prazo num sentido de missão que entende a Secretaria como organismo estratégico de Estado e não apenas como órgão de elaboração de orçamentos de um determinado governo.

Para orientar a Parte I do trabalho, como dito, foi elaborado o modelo sistêmico-descritivo apresentado na Parte II. Contornando certos padrões analíticos lineares, ele evidencia as interações e interdependências existentes entre as diversas variáveis de um socioambiente contido em seu geoambiente, permitindo uma visão abstrata dos fatos e fenômenos sociopolíticos ocorrentes em um macrossistema qualquer, neste trabalho referido particularmente a SMT. Modelo que me pareceu bastante útil como instrumento de análise histórica da ocupação de áreas pioneiras e da evolução do sistema econômico implantado e do sistema sociedade civil, como reflexo daquela.

O Capítulo 2 dessa segunda parte trata do paradigma denominado pensamento sistêmico, no qual se fundou o modelo estrutural-administrativo do Estado.

O Capítulo 3 apresenta o modelo sistêmico-descritivo e, finalmente, o Capítulo 4 trata do sistema de ordenamento sociopolítico-jurídico positivo, fundamental para o funcionamento democrático da sociedade.

No final encontram-se gráficos ilustrativos da organização implantada no novo Estado e também, outros que evidenciam as relações sistêmicas do modelo de análise.

A decisão de produzir esse texto suplementar deu-se em razão da releitura de longa entrevista que concedi por escrito, quando titular da Seplan-MS, em 1979, ao semanário Jornal da Cidade, de Campo Grande, em 01/04 e 08/04 daquele ano. Uma das perguntas do entrevistador era "o que significava o neologismo sistêmico?", referindo-se ao princípio que fundamentou o modelo de organização implantado no Estado. Trecho da resposta encontra-se transcrito nas Considerações iniciais da Parte II.

Ao longo da minha carreira profissional registro cinco momentos que considero como gratificantes, o que para uns até exagerado: quando em 1957, aos 21 anos de idade, passei num concurso público para o Poder Judiciário; quando em 1967/1970 ajudei a instituir a Companhia de Desenvolvimento do Planalto Central (Codeplan) e como seu Diretor Planejamento coordenei os estudos para o primeiro plano de desenvolvimento econômico e social do Distrito Federal; quando em 1974/1978 participei dos trabalhos de organização da fusão dos Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, sendo nomeado Subsecretário de Planejamento e Coordenação Geral; quando em 1978/1979 coordenei os trabalhos para montagem da organização do novo Estado de Mato Grosso do Sul, sendo nomeado Secretário de Planejamento e Coordenação Geral do seu primeiro governo; e, agora, ao concluir este livro.

Como diz a epígrafe acima de Valmir Batista Corrêa, Fazer um livro é sempre um ato de paixão. É o clímax de uma trajetória de vida […]. E se permitir ainda transmitir uma mensagem de resgate e valorização da memória coletiva, então valeu a pena escrevê-lo.

É esse o meu sentimento e também o objetivo deste livro.

Parte I

Mato Grosso do Sul — contexto e criação

Considerações iniciais

Nas nações em que a aristocracia domina a sociedade e a mantém imóvel, o povo acaba se acostumando à pobreza, como os ricos à sua opulência. (…) Quando, ao contrário, os níveis sociais são confundidos e os privilégios destruídos, quando os patrimônios se dividem e a luz e a liberdade se difundem, a vontade de adquirir o bem-estar se apresenta à imaginação do pobre e o medo de perdê-lo ao espírito do rico.

Alexis de Tocqueville

(A democracia na América)

A realidade do imenso macrossistema de MT, no momento da criação de MS, refletia uma evolução histórica cujo início remonta aos primórdios do século XVIII, quando bandeirantes descobriram florações auríferas de efêmera duração onde hoje se erige Cuiabá. Realidade do Oeste longínquo, evoluído de forma lenta, como de resto todo o interior do país até décadas relativamente recentes, e de maneira heterogênea e em certos aspectos pontual em razão de suas acentuadas diversidades geoambientais, propiciadoras de um processo de esparsa ocupação econômica. Realidade de uma região de fronteira, por isso bastante autônoma em termos sociopolíticos, dirigida por oligarcas e coronéis como se fora um estado dentro do Estado, pelo menos até a década de 1930.

Não cabe aqui discutir as causas dos tardios movimentos mais efetivos de expansão da fronteira econômica do país. Sabe-se que, após as incursões bandeirantes, a ocupação do interior seguiu-se às crises da litorânea produção açucareira nordestina; e esteve associada à expansiva criação bovina ao longo do vale do São Francisco e à produção cafeeira do Sudeste, principalmente em São Paulo em direção ao seu interior, com reflexos na ocupação criatória sul-mato-grossense. E sabe-se que, não obstante alguns movimentos autônomos, a expansão de forma mais intensa da fronteira em direção ao Centro-Oeste resultou de decisões políticas e econômicas dos regimes ditatoriais dos decênios de 1930/1940 e 1960/1980, aquilo que passou a se denominar de capitalismo autoritário, conforme diversos autores.

Assim, restringindo este trabalho às questões relacionadas à criação de MS, em 1977, motivada por razões várias e nos moldes desse modelo de capitalismo, cabe desde logo assinalar a possibilidade de ser divisado que o grande macrossistema de MT comportava três regiões, cada qual apresentando um contexto socioeconômico e político, resultante histórico de suas especificidades: 1) a do centro-norte mato-grossense, estendido pelo oeste pantaneiro influenciado por Corumbá, esta articulada historicamente com Cuiabá em termos econômicos e políticos por se situarem ambos os centros ao longo da bacia do rio Paraguai; 2) a do pouco povoado extremo-norte pré-amazônico; e 3) a do leste da serra de Maracaju, onde se erigiu Campo Grande como polo regional.

Porém, a LC 31/77, ao dividir MT criou apenas um estado no qual foi incorporado o pantanal-sul corumbaense. Nesse momento surge a história própria de MS, trazendo como herança genética em sua elite dominante traços de uma cultura política patrimonialista, clientelista e nepotista da tradição oligárquico-coronelista mato-grossense,⁸ postos em contradição com os anseios de mudança contidos nos tradicionais discursos divisionistas sulmato-grossenses; nas mentes mais arejadas dos inúmeros migrantes aportados à região na esperança de grandes realizações produtivas ao longo de suas vidas; e com o estágio mais avançado em que se encontrava o seu sistema econômico. Um processo dialético, cuja síntese começou a despontar somente no final da década de 1990, amadurecida a partir da eleição de um governante do Partido dos Trabalhadores (PT), uma vez decadentes ou desaparecidas as lideranças tradicionais oriundas do passado político de MT.

Os dois primeiros capítulos, seguindo o roteiro traçado pelo modelo apresentado na Parte II, tratam particularmente de aspectos relacionados ao macrossistema de SMT, a partir dos primórdios do processo de ocupação do seu macroambiente. São, assim, previamente examinados suas características geoambientais e o processo de formação do seu sistema socioambiental composto pelo sistema econômico e pelo sistema sociedade civil.⁹ Quanto ao sistema político-estatal, este é referido ao MT uno, embora, é claro, também inter-relacionado com aqueles outros sistemas do SMT (v. Fig. 1).¹⁰ Busca-se desse modo detectar elementos causais indutores da criação do novo estado e de eventos geradores da instabilidade política que intranquilizou o novo estado em seus primeiros anos de existência.

Muito do que está dito nos dois primeiros capítulos, seja quanto ao geoambiente ou a aspectos relacionados ao socioambiente, já consta de forma ampla e bem analisada em diversos trabalhos publicados ao longo da existência de MS. Mas é preciso que sua realidade em evolução seja reexaminada, embora de forma resumida, para que, com observância do roteiro analítico criado para o livro, seja estabelecido, como examinado no Capítulo 3, o contexto econômico e sociopolítico do momento em que se verificou a instituição do novo Estado, quando se pretendeu firmar, sem êxito, inédito modelo sistêmico de organização administrativa, visto no Capítulo 4.

Capítulo 1

O contexto geoambiental

¹¹

A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de uso, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos — ou qualquer outra coisa — do meio ambiente natural. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida.

Fritjof Capra

(A teia da vida)

Esta parte, cuja leitura pode ser um tanto cáustica para aqueles desinteressados no tema é importante para caracterizar o geoambiente de SMT. Rico em oportunidades produtivas, seus recursos naturais são responsáveis pela atração exercida sobre certo elemento humano que, a partir de determinada data, deslocou-se em movimentos grupais autônomos — as frentes pioneiras de ocupação da fronteira econômica.

O geoambiente aqui examinado diz respeito ao espaço de SMT de uma época próxima à data da criação/instalação de MS e faz referência, também, a aspectos de NMT com o objetivo de evidenciar homogeneidades, mas também as fortes diversidades existentes entre as duas regiões. Busca descrever seus variados componentes e características objetivando situar o leitor no contexto natural-geográfico, tidas suas diferenças regionais relativamente a NMT como um dos argumentos divisionistas. Características cujas diferenciações, no caso de SMT, foram consideradas como parâmetros quando da formulação do modelo organizacional do Estado e da estratégia de ação do governo.

À época da criação de MS o território integral do imenso MT — mais de 1,2 milhão de km² — superior a duas vezes o território de Minas Gerais apresentava, como ainda hoje, não obstante os usos atuais de vastas áreas destinadas ao agronegócio, um panorama geoambiental diversificado em vários pontos. Relativamente aos componentes do quadro natural essa imensa região do país, considerada como parte importante do celeiro do mundo, constituía (ou constitui) em grande extensão cinco padrões bem diferenciados: 1) o ambiente pré-amazônico, ao norte; 2) o cerrado — formação típica do Planalto Central do país — cobrindo o sul-sudeste de NMT e, no SMT, sua região central, parte do norte e o nordeste-leste; 3) a imensa planície pantaneira que tendo início no sul-sudoeste de NMT estende-se na direção do oeste-sudoeste de SMT; 4) os campos limpos da tradicionalmente chamada Vacaria, região de SMT estendida a partir de sua área central em direção ao sul; e 5) como parte da Mata Atlântica, as matas do sul de SMT (atuais microrregiões homogêneas de Dourados e Iguatemi, anteriormente ricas em erva-mate nativa).

O primeiro ambiente apresenta-se separado dos demais, na parte de NMT, pela Chapada dos Parecis e suas ramificações, divisoras dos sistemas hidrográficos dos caudalosos afluentes da bacia amazônica, dirigidos para o norte, e do rio Paraguai dirigidos para o sul de NMT e oeste/sudoeste de SMT.

Na porção deste, estendido desde o NMT e banhado pela bacia hidrográfica do rio Paraguai, o Pantanal encontra-se separado dos outros ecossistemas — regiões originalmente de cerrado, campos limpos e matas do sul — por um grande divisor, qual uma espinha dorsal, nascedouro, em sua parte leste, de importantes afluentes da margem direita do rio Paraná: a serra de Maracaju e suas extensões (serra dos Caiapós ao norte/nordeste, oriunda de Goiás; serra da Bodoquena em direção ao sudoeste, e do Amambai em direção ao extremo sul, até o território paraguaio no qual penetra).

Verifica-se, então, em termos radicais, que as maiores diferenças geoambientais do MT (uno) estão representadas pela região pré-amazônica no norte (o Nortão, como é conhecido) e pelas férteis terras da bacia do rio Paraná situadas entre os paralelos 22º e 24º, sul de SMT.

Com referência à cobertura vegetal de NMT, as florestas correspondiam a 47% dela, a maior parte, como óbvio, em sua região pré-amazônica, hoje objeto de muita polêmica a respeito de sua ocupação agropecuária em razão dos grandes desmatamentos; os cerrados envolviam 39% e os campos 14%. Já com referência ao SMT, os cerrados recobriam a maior parte de seu território, havendo, ainda, a presença de pampas e Mata Atlântica no extremo sul.

No ambiente pantaneiro de NMT, a predominância é dos cerrados e campos. O Pantanal em sua totalidade, isto é, tanto a parte de NMT e como de SMT (onde é maior) constitui a maior região alagadiça do mundo, combinando-se, aí, segundo informado, uma diversidade vegetal de cinco regiões distintas do país: floresta amazônica, cerrado, caatinga, bioma de Mata Atlântica e chaco, com predominância das gramíneas nas partes mais baixas, áreas naturais para a pastagem extensiva do gado.

O MT atual apresenta sensível diferenciação regional também nos aspectos climáticos. No norte, prevalece o padrão tropical superúmido de monção, típico da Amazônia, com temperaturas elevadas em torno de 26º C como média anual e índice pluviométrico elevado em torno de 2.000 mm anuais. A região do planalto apresenta um clima tropical com verão chuvoso, inverno seco, com temperatura e índice pluviométrico um pouco menores que os da região pré-amazônica. Já em lugares mais elevados como a Chapada dos Guimarães o clima é subtropical com temperatura média anual em torno de 17º C, podendo chegar a zero no inverno.

No SMT o clima predominante é o tropical ou tropical de altitude com chuvas de verão (índice pluviométrico em torno de 1.500 mm) e inverno seco com temperaturas médias anuais variando entre 25º C na baixada do Pantanal e 20º C no planalto. Há ocorrência de geadas no sul e, na região pantaneira, o clima é quente e úmido com temperaturas entre 40º C e 15º C, podendo chegar próximo de zero no inverno.

Uma vez erigida a região sul em novo estado, o MS passou a compreender perto de 40% do território do MT remanescente sendo um pouco maior, por exemplo, que a atual área de Goiás e um pouco menor que a soma dos territórios do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. E a ter como limites ao norte a parte meridional do MT; ao norte/nordeste o Estado de Goiás; a nordeste o Estado de Minas Gerais (Triângulo Mineiro); a nordeste/leste o Estado de São Paulo; a sudeste/sul o Estado do Paraná; ao sul/sudoeste e, em parte, a oeste o Paraguai e a oeste/noroeste a Bolívia. Ou seja, uma localização privilegiada em termos geoeconômicos, vizinho das regiões mais desenvolvidas do país, as do Sudeste e Sul, em particular São Paulo, Minas Gerais e Paraná. E, além disso, em condições de incrementar relações econômicas com países latino-americanos como a Bolívia, o Paraguai e a Argentina, entre alternativas, através das redes fluviais que lhes servem, sendo possível incluir nesse espectro o Chile, a depender de futuros meios que o liguem a MS como, por exemplo, a estrada de ferro Corumbá-Santa Cruz de La Sierra-Arica (ligação interoceânica Atlântico-Pacífico a partir das ligações existentes de Santos a Corumbá e da possível ligação, sempre pleiteada, da Ferroeste, de Miranda a Maracaju-Dourados-Paranaguá, porto do Estado do Paraná, opção ao porto de Santos).

Enfim, MS é uma terra de localização vantajosa considerada uma terra da promissão desde o século XIX, enquanto ainda SMT, de promessas de grandes realizações em razão de seu potencial, na atualidade já relativamente aproveitado por haver secundado como frente pioneira os movimentos de ocupantes do oeste paulista e paranaense, embora nem sempre de forma racional em termos da sustentabilidade ambiental.

1.1.   O subsistema geoambiental da bacia do rio Paraná

A bacia hidrográfica do rio Paraná banha a região certamente mais rica do país. Seus formadores, Paraibuna e Grande, compõem os limites do Triângulo Mineiro e caudalosos rios de sua margem esquerda como o Tietê, em São Paulo, e o Paranapanema, na fronteira deste com o Estado do Paraná, são de enorme capacidade hidrelétrica, já bem aproveitada. No MS encontram-se também importantes subsistemas hidrográficos que no passado constituíram vias de penetração, comunicação e transporte, tendo sido fundamental o seu papel histórico nas aventureiras explorações bandeirante e na ocupação territorial mato-grossense, particularmente nos tempos das monções¹² coloniais à época da exploração aurífera e até mesmo após como meio de transporte de caravanas e cargas, tanto oficiais como de comerciantes.

A origem do rio Paraná na embocadura dos rios Grande e Paranaíba ocorre justo num ponto envolvendo três estados — Minas Gerais, São Paulo e MS, neste tendo nascido a simpática cidade de Aparecida do Taboado.

Cumprindo a função de drenar para leste as águas da região de MS, seus afluentes, a partir do norte são: no extremo nordeste o rio Aporé, afluente do rio Paranaíba, fronteira com o Estado de Goiás; e no território de MS o Sucuriú, o Verde e o Pardo, este muito utilizado no século XVIII, como dito, pelas monções de povoado, com seu afluente Anhanduí; e, ainda, o Ivinhema com seus tributários Vacaria e Brilhante; o Amambai, o Embacaraí e, por fim, o Iguatemi.

A geomorfologia da região da bacia, como projeção meridional do Planalto Brasileiro, é formada por chapadões, planaltos e vales, com altitudes entre 250 e 850m. A vegetação primitiva da área era constituída por diversos padrões de savanas e florestas. A sub-região ao norte de uma linha imaginária indo das cidades de Coronel Sapucaia, Dourados e Glória de Dourados até Bataguassu correspondia a essas formações de savanas (cerradão, cerrado e campo cerrado); na sub-região ao sul dessa linha até a fronteira com o Paraguai eram encontradas formações de florestas e os ervais nativos de mate, além dos campos naturais nos vales dos inúmeros rios.

Da ação antrópica resultaram apenas alguns remanescentes dessa vegetação nativa em pontos isolados. Essas áreas desmatadas são, hoje, amplamente utilizadas como pastagens cultivadas e lavouras de grãos e cana-de-açúcar.

Os relevos mais elevados da região da bacia estão na cidade de Chapadão do Sul. Na área nordeste onde se localiza a Serra do Aporé e as cidades de Inocência e Cassilândia encontram-se patamares que se aplanam na direção sul da bacia. Das cidades de Campo Grande e Sidrolândia até Antônio João, na serra de Maracaju em direção ao rio Paraná, o relevo se comporta como um grande plano inclinado. Seus níveis mais baixos, com altitudes entre 250 e 300m apresentando formações aluviais, estão no vale do rio Paraná. A região, em virtude de suas vastas áreas planas, propicia altos índices de produtividade resultantes, de um tempo para cá e crescentemente, da adoção de práticas agrícolas mecanizadas e de tecnologia avançada. São áreas muito utilizadas nos cultivos de arroz, soja, trigo e cana-de-açúcar. Outras áreas planas, de terras menos apropriadas a esses cultivos, têm sido destinadas à criação de gado em pastagens cultivadas ou a projetos de reflorestamento.

Quanto aos recursos minerais, o calcário da serra do Aporé oferece boas oportunidades de exploração sendo substanciais as matérias-primas para uso na construção civil, como areia, cascalho, brita e argila, esta para uso também na indústria cerâmica.

O rio Paraná, em São Paulo, na fronteira com MS tem sua grande capacidade hidrelétrica já bem aproveitada pelas Usinas de Jupiá e da Ilha Solteira, do Complexo Hidrelétrico de Urubupungá, em frente à cidade de Três Lagoas, bem como de Porto Primavera (Usina Engenheiro Sérgio Motta), próxima da cidade de Bataiporã. No território de MS foram implantadas as hidrelétricas de Salto Mimoso, no rio Pardo, e de Costa Rica, no rio Sucuriú.

Todos os rios da bacia são bastante piscosos e navegáveis em amplos percursos, muito particularmente o rio Paraná.

1.2.   O subsistema geoambiental da bacia do rio Paraguai

O rio Paraguai, correndo de norte para o sul próximo à fronteira com a Bolívia, a partir do Forte de Coimbra¹³ passa a delimitar o MS com a república paraguaia, especificamente sua região pantaneira, até a foz do afluente Apa, este também limite do sudoeste sul-mato-grossense com aquele país.

Responsável pelas periódicas cheias dessa vasta área baixa do Pantanal, sua bacia hidrográfica, parte da grande depressão situada no centro do continente da América do Sul, divisora do Planalto Brasileiro a leste e da Cordilheira dos Andes a oeste, apresenta, no geral, relevo formado por patamares, depressões e por depressões entre patamares.

Seus principais afluentes no Brasil, à margem esquerda a partir do norte e correndo do altiplano a leste para a planície pantaneira a oeste são os rios Cuiabá, com seus afluentes São Lourenço, em MT, e Itiquira (limite de MS com MT); e, em MS, o Taquari, com seu afluente Coxim; Capivari, Negro e Miranda este com seu tributário Aquidauana; e, por fim, o acima referido Apa.

Esse subsistema geoambiental caracteriza-se, ainda, pela formação de uma grande área de sedimentos dividida entre duas sub-regiões: a pantaneira e a chaquenha. Aquela se situa ao norte do rio Miranda. É sujeita a inundações ou oscilações do lençol freático por períodos variáveis, sendo constituída por áreas interfluviais baixas ligadas a sistemas fluviolacustres. Sua vegetação predominante é a savana arbórea e o solo apresenta variações conforme os sedimentos: na área de influência do rio Taquari é arenoso e na bacia do Miranda argiloso. Seu relevo apresenta topografia plana com pequenas variações altimétricas originando aspecto paisagístico diversificado composto por vazantes, cordilheiras, corixos e baías, denominações atribuídas pela cultura regional.

A sub-região chaquenha situa-se mais ao sul estendendo-se da cidade de Corumbá às proximidades da cidade de Porto Murtinho, pouco acima da foz do Apa. Da mesma forma que a sub-região pantaneira, esta área é sujeita a inundação por períodos variáveis, estando o lençol freático muito próximo à superfície. Mas diferencia-se pela vegetação predominando a savana do tipo estepe.

Ao contrário da bacia hidrográfica do rio Paraná, a do Paraguai apresenta contrastes naturais bem visíveis: as áreas pantaneira e chaquenha são bem aplanadas, com ecossistema típico de regiões alagáveis, enquanto as demais se situam em altiplanos. A parte nordeste é constituída por patamares, escarpas e depressões interpatamares, com altitude variando entre 200 e 600m e bom potencial turístico. Já a parte sudeste/sul é formada por depressões, serras e planícies com destaque para a grande depressão de Aquidauana situada entre esta cidade e Bela Vista e entre as serras de Maracaju e Bodoquena. Esta última, com altimetria entre 400 e 650m, contém, em seu solo, calcários, dolomitos e mármores. No noroeste, próximo à cidade de Corumbá, o relevo eleva-se nos limites com a Bolívia, com destaque para as serras do Amolar e Urucum, esta rica em reservas de ferro e manganês. No complexo do rio Apa encontram-se áreas de transição chaquenha e entre a parte norte da serra da Bodoquena e as escarpas da serra de Maracaju, no vale do alto rio Miranda, áreas com características pantaneiras de transição.

O potencial econômico da bacia está representado por regiões de pastagem natural, pantaneiras e chaquenhas, muito propícias à pecuária extensiva e por áreas vocacionadas para pastagens cultivadas e lavouras, principalmente nos altiplanos.

A serra da Bodoquena, além de seus recursos minerais, apresenta boas possibilidades econômicas em razão do solo de grande fertilidade propício a lavouras, embora parte dela esteja reservada à proteção e preservação ambiental.

Nessa serra localiza-se a maior área contínua de Mata Atlântica em MS, transformada em Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Os seus potenciais de exploração turística, crescentemente aproveitados, são evidentes principalmente os relacionados ao turismo ecológico-contemplativo e pesqueiro, com suas cascatas, sumidouros e grutas,¹⁴ muitas já exploradas com racionalidade preservacionista, como ocorre na região da cidade de Bonito. Além desse município, a região reúne num circuito turístico o município de Bodoquena, Jardim e Guia Lopes da Laguna.

O potencial hidrelétrico da bacia é reduzido. Mas como hidrovia, o próprio rio Paraguai se destaca com cerca de 90% de seu curso em condições de navegabilidade. Atende não só a MT e MS como a países da bacia do Prata. Por ele Corumbá destina à Argentina e aos Estados Unidos os minérios extraídos do maciço do Urucum.

Quanto às atividades econômicas, é bastante controvertida a possibilidade de alguns tipos de exploração dos recursos dessa sub-região, bem como o uso de determinadas tecnologias. Seus ecossistemas em

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O que as pessoas acham de Mato Grosso Do Sul - 1978/1979

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