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Cartas de Mozart

Cartas de Mozart

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Cartas de Mozart

notas:
3.5/5 (3 notas)
Duração:
720 páginas
7 horas
Editora:
Lançados:
7 de out. de 2015
ISBN:
9788582451519
Formato:
Livro

Descrição

Esta obra apresenta pela primeira vez ao público de língua portuguesa a edição das Cartas de Mozart, da versão publicada, em 1888, por Henri de Curzon. Das traduções conhecidas essa é a mais completa (contém 300 cartas) e também é a única que comporta um índice musical das obras citadas pelo próprio Mozart na sua correspondência, e um índice onomástico (com comentários sobre os personagens da época), e 850 notas, que são dados históricos. A edição conservou-se fiel à edição francesa, pois esta nos fornece informações preciosas sobre o ambiente musical e social da época, sobre as circunstâncias de composição das principais obras de Mozart, sobre os seus intérpretes, amigos e protetores, enfim, nos coloca de maneira viva e coloquial em contato com o Anjo da música. Desde as primeiras cartas, datadas da sua primeira viagem à Itália, em 1769, até a última de setembro de 1791, pouco antes de sua morte, existe uma única linguagem: a Música. Mozart falava Música, o que pode, talvez, explicar a perfeição igual das obras de sua mais tenra juventude e das da maturidade de A flauta mágica e do Réquiem. Nas sua Cartas, Mozart aborda todos os aspectos da vida de um músico; desde a criação até a realização das obras estamos em contato permanente com o compositor, o intérprete, o professor e até o produtor, como se diria hoje.
Editora:
Lançados:
7 de out. de 2015
ISBN:
9788582451519
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

Cartas de Mozart - W. A. Mozart

C.

Introdução à tradução Francesa de 1888

Esta tradução é, em sua maior parte, uma obra nova.

Com efeito, o único livro editado com o objetivo de divulgar na França a correspondência de Mozart é de tal forma incompleto e defeituoso que não dá ao leitor senão uma pálida ideia do interesse de que se revestem as cartas originais. Referimo-nos a Vie d’un Artiste Chrétien, publicado pelo Abade Goschler em 1857 ¹. Com este título um tanto pretensioso, Goschler se limitou a traduzir as cartas de Mozart que constam do trabalho bem conhecido do conselheiro G.N. von Nissen². Este último tendo desposado em 1809 a viúva de Mozart, foi o primeiro a ter em mãos toda a correspondência do ilustre compositor e da sua família, cartas que usou livremente, suprimindo muitos trechos, modificando a redação e chegando mesmo, em alguns casos, a alterar a ordem das frases. Esse texto já insuficiente Goschler traduziu de forma ainda menos adequada, produzindo um livro onde abundam as contradições, e as dificuldades são afastadas pela supressão de frases ou por invenções de pura fantasia.

Ora, desde aquela época se conhecia, na Alemanha, o valor dos excertos de Nissen. Em 1856 tinha começado a ser publicada a magnífica obra de Otto Jahn ³. Este célebre erudito, um dos sábios alemães mais renomados e estimados tanto pela sua ciência como pelo seu caráter, dedicara muitos anos ao estudo aprofundado da vida de Mozart e de suas obras. Tivera a oportunidade de compulsar a maior parte dos papéis que haviam passado pelas mãos de Nissen, e que, havia já alguns anos, se encontravam reunidos nos Arquivos de Mozart, em Salzburgo. As coleções particulares se abriram para ele: cartas, partituras autografadas, documentos de família, tradições orais, publicações recentes e antigas – tudo ele examinou com o cuidado e a imparcialidade do historiador genuíno. Sua investigação paciente e sagaz projetou uma nova luz sobre a vida de Mozart e retificou todos os erros amontoados sobre esse grande nome.

Foi um acontecimento no mundo artístico do qual a França não esteve ausente. Citaremos aqui principalmente o trabalho que J. Weber publicou na Revue Germanique (agosto, outubro e novembro de 1860; março de 1861). Em uma série de cinco artigos muito interessantes o eminente crítico comentou a obra de Jahn e colocou numa perspectiva correta a biografia de Mozart, traduzindo passagens de várias cartas até então desconhecidas.

É lamentável que Jahn não tenha preparado uma edição completa da correspondência de Mozart, pois algumas dessas cartas desapareceram: hoje só as conhecemos pelos trechos que reproduziu. Contudo, alguns anos mais tarde o professor L. von Nohl se empenhou em preencher a lacuna ⁴. Em 1864 ele publicou a primeira edição da sua coletânea, que abrangia toda a coleção do Mozarteum de Salzburgo e numerosas outras cartas comunicadas por particulares. E na segunda edição, de 1877, pôde acrescentar algumas outras.

Foi a edição de 1877 que serviu de base para nosso trabalho; mas nós a confrontamos de perto com o texto de Jahn sempre que isso foi possível, o que nos permitiu corrigir alguns erros e restabelecer certas passagens e post-scripta⁵ não encontrados por Nohl e que ele considerou insignificantes. Acrescentamos alguns documentos oficiais e duas cartas completas, uma publicada por Nissen e admitida por Jahn, a outra comunicada diretamente a este último ⁶.

Assim, nossa coleção conta com 300 cartas. Nohl só tinha publicado 283; Goschler, apenas 122, e quase todas não passam de fragmentos.

Esperávamos que outras cartas fossem descobertas depois da última edição de Nohl; contudo, sobre isso só recebemos respostas negativas do Mozarteum. Todos os autógrafos levados aos conservadores daquele arquivo, desde aquela época, não passavam de originais de cartas já comunicadas a Jahn e a Nohl, dispersas em coleções particulares ⁷.

Com o propósito de aumentar o interesse por esta coletânea, enriquecemos o texto com notas sobre os fatos, as pessoas e as coisas. Elas esclarecerão todas as alusões contidas nas cartas e permitirão conhecer melhor Mozart e o meio em que vivia. O índice alfabético, no fim do volume, contém informações adicionais sobre as pessoas citadas.

Finalmente, há um outro ponto que nos parece de autêntico interesse. É conhecido o grande Catálogo Cronológico e Temático das Obras de Mozart, de L. von Köchel⁸. Jahn tinha a intenção de preparar pessoalmente esse catálogo, que representa o complemento natural do seu livro. Contudo, tendo sabido que há muito Köchel vinha trabalhando com esse fim, procurou-o e assim em pouco tempo se formou uma estreita amizade entre os dois. O conhecimento que tinham do assunto e seus trabalhos reunidos nos valeram uma obra que se tornou clássica na Alemanha. Pareceu-nos extremamente interessante para os músicos franceses e para todos os admiradores apaixonados de Mozart, como nós, a citação dos números desse catálogo, à margem de cada uma das obras mencionadas nas cartas. Para não multiplicar as notas, cansativas para os leitores que não têm interesse especial pelo assunto, pusemos apenas um número no texto. No fim do volume, um índice musical faz referência a cada número, acrescentando as informações apropriadas.

Para a indicação desses números, como no que se refere a todas as notas, repousamos em Jahn, cuja obra volumosa estudamos página por página, sabendo que suas informações merecem a mais completa confiança.

***

As cartas de Mozart são extremamente interessantes sob vários pontos de vista. Permitem-nos conhecer o Mozart verdadeiro, sua natureza aberta, afetuosa, ardente, impressionável, sofrendo facilmente a influência de pessoas e de coisas. Estão repletas de pormenores musicais, sobre suas próprias obras e as de seus contemporâneos. Contém apreciações sobre música – sua composição ou execução. Não se deve procurar nessas cartas a perfeição estilística: são frequentes as repetições, as expressões familiares. Há brincadeiras às vezes um tanto picantes, ao gosto da época em Salzburgo, gosto que era tido como grosseiro. Mas há também franqueza, originalidade e espírito. Dirigidas quase todas ao pai ou à irmã, mostram o abandono da mais profunda intimidade. As estórias são vivas, apimentadas; Mozart põe suas personagens em cena, repete textualmente suas palavras, na língua em que foram pronunciadas, desenha seu aspecto, os gestos – tudo isso com vivacidade, agilmente, movido por forte inclinação para o gracejo⁹.

Quisemos recriar na nossa tradução esse conjunto de características tão pessoais; para isso, pareceu-nos que o melhor método era a fidelidade escrupulosa. Com efeito, é tão difícil não exercer nossa influência, quando se trilha o caminho das interpretações! E o resultado apresentado ao público não é mais o próprio Mozart, porém um Mozart criado pela fantasia. Assim, não nos permitimos mudar coisa alguma, nada omitimos; não nos esquivamos de nenhuma das dificuldades colocadas pelo emprego de expressões arcaicas ou locais; procuramos traduzir até mesmo as brincadeiras infantis, conservando seu tom original.

***

Não se tratou aqui de escrever a biografia de Mozart. O livro tão atraente de V. Wilder ¹⁰ é acessível a todos, e não saberíamos nada melhor do que apontá-lo ao leitor. Naturalmente, as informações biográficas indispensáveis serão encontradas nas notas. Não obstante, parece-nos útil dar algumas explicações preliminares.

Wolfgang Amadeus Mozart nasceu em Salzburgo em 27 de janeiro de 1756, último dos sete filhos de Leopoldo Mozart, mestre-de-capela do arcebispo de Salzburgo. Ele e uma irmã — Mariana, quatro anos mais velha e também notavelmente bem dotada para a música, foram os únicos a sobreviver. Sabe-se que Leopoldo Mozart era um excelente músico; ninguém mais habilitado a desenvolver a inclinação musical dos filhos. Tem-se comentado a sorte que teve Wolfgang, por ter recebido tal estímulo seu gênio incomparável. Foi graças a seu pai que Mozart completou, muito cedo, a preparação musical mais completa e vigorosa, sem jamais entravar a livre expressão do seu dom natural.

Em 1762, com apenas seis anos, Wolfgang tocava piano, improvisava, compunha e escrevia suas composições; aos dez anos sua irmã tocava à primeira vista as peças mais difíceis. Nessa ocasião os pais decidiram realizar uma série de viagens com as duas crianças – à Alemanha (1762-1763), à Bélgica (1763), a Paris (1763-64, 1766), a Londres (1764-65), à Holanda (1765-66). Em novembro de 1766 regressaram definitivamente a Salzburgo, tendo provocado em toda parte a mais viva admiração; depois disso, e até 1770, não viajaram mais, dedicando-se seriamente ao estudo, com a exceção de uma visita a Viena, onde permaneceram alguns meses em 1767- 68.

A correspondência de Mozart começa com um período de três viagens à Itália (1770,1771,1772). De modo geral, são apenas post-scripta, às vezes bastante longos, acrescentados às cartas do pai e dirigidos à mãe e à irmã – verdadeiras cartas infantis, ingênuas, exuberantes de vida e alegria, a imaginação cômica, exagerada, com palavras desordenadas, letras invertidas, interjeições, frases em italiano ou francês, gíria de Salzburgo, tudo o que surge ao correr da pena. Aqui e ali, reflexões muito judiciosas sobre música ou executantes – em uma palavra, sobre seu trabalho. Mas, quanto ao êxito alcançado, ao entusiasmo inaudito que desperta em toda parte, este é um assunto de que não parece cogitar: cabe ao pai mencioná-lo. No entanto, nessa ocasião Mozart foi eleito membro da Academia Filarmônica de Bolonha, por Martini e os mais hábeis contrapontistas; recebeu do papa a Ordem da Espora de Ouro; ia de ovação a ovação, festejado por grandes senhores. Multidões se apertavam de tal forma nas igrejas onde devia tocar que era difícil abrir-lhe caminho.

Esse contraste dá encanto e interesse a suas primeiras cartas. É comovedor pensar que, ao mesmo tempo em que escrevia esses alegres gracejos, o menino compunha óperas, sinfonias, e peças de todo tipo, com a aplicação séria de um adulto ¹¹.

Encontramos a mesma alegria nas cartas datadas de Viena (1773) e também nas de Munique (1775); Mozart vê representada então sua ópera La finta giardiniera, e dá conta disso à mãe.

Em 1777 tem início um novo período na correspondência. Em 1772 o arcebispo Segismundo de Schrattenbach fora substituído pelo príncipe Hieronymus Colloredo, para grande desgosto dos habitantes de Salzburgo ¹². Com ele, Mozart deixava de ter um futuro promissor. Leopoldo queria exibir o filho, acompanhá-lo em outras viagens. A autorização não lhe foi concedida, embora o jovem Mozart recebesse licença para se afastar. Inquieto com a perspectiva de que o filho, com tão pouca experiência, se lançasse sozinho a errar pelo mundo, Leopoldo deixou-o partir com a mãe. Os dois visitam várias cidades da Alemanha e em seguida viajam a Paris (24 de março de 1778), onde a pobre mulher morre. Mozart retorna à Alemanha. Depois de várias tentativas de esforços infrutíferos para conseguir um emprego, regressa a Salzburgo, durante o verão de 1779, para prestar serviço ao arcebispo.

O Mozart que nos mostra esta nova série de cartas não é mais uma criança, porém um jovem adulto que as dificuldades materiais da vida não conseguiam deixar preocupado. Confiante e generoso, acreditava nas pessoas e dava aos outros livremente seu tempo e suas obras. Mas sua natureza impressionável se ressente vivamente com o mais ligeiro esfriamento e o deixa influenciar-se facilmente pelas ideias e os sentimentos dos amigos. Não havia ainda um equilíbrio: os conselhos prudentes do pai continuam a ser necessários, e ele os solicita sempre nas efusões que retratam com fidelidade a mobilidade das suas impressões, boas ou más. Não se deve perder isto de vista ao ler as cartas escritas de Paris, evidentemente carregadas de recriminações injustas com relação à França e aos parisienses.

Em Paris, Mozart encontrara um pequeno círculo de compatriotas, viajantes em busca da fortuna, como ele próprio, vivendo na companhia uns dos outros, com opiniões pouco favoráveis com respeito à França. Confessa que está ecoando o seu pensamento, e acredita, com boa-fé, em tudo o que ouve. O barão Grimm, que segundo a recomendação de Leopoldo merecia toda confiança (da qual se revelou tão pouco merecedor), criticava antes de tudo os franceses.

Na famosa querela entre os gluckistas e os piccinnistas, que apaixonava na época o mundo musical, o célebre crítico tomado o partido de Piccinni e desejava conduzir Mozart para o lado dos italianos ¹³. Mas o jovem músico via mais alto, e resistiu energicamente. A pressão exercida por Grimm e sua crescente irritação diante da indocilidade daquele que continuava considerando como um menino, fizeram com que Mozart se fechasse cada vez mais em si mesmo.

De outro lado, o verão não era uma estação favorável para se fazer conhecido; as semanas passavam sem trazer os resultados esperados. A morte de sua mãe veio agravar ainda mais uma situação já precária. Quantas causas de tristeza, decepções, desestímulos! E, em tais circunstâncias, como é fácil ser possuído por ideias amargas, enxergar as pessoas e as coisas sob uma luz falsa ou exagerada. Não podemos esquecer, aliás, que Mozart está escrevendo ao pai, na mais completa intimidade; ele nada oculta; confialhe diariamente todas as suas impressões porque sabe que, dirigindo-se ao pai, isto não terá consequências. Fala também sobre os compatriotas, e continuará a fazê-lo ocasionalmente; mas está sempre pronto a rever e modificar seus julgamentos. Não é esta a característica de todo espírito jovem, ao mesmo tempo reto e apaixonado? Gradualmente, a experiência o tornou mais clarividente: ao fim da sua estada parisiense uma mudança começa a se produzir no seu espírito. Mozart queria prolongar sua permanência, quando ordens formais do pai o chamaram de volta a Salzburgo.

Terminemos rapidamente a série das suas viagens. Em novembro do ano seguinte (1780), vamos encontrar Mozart em Munique, convocado para a composição e representação da sua ópera Idomeneu. Em uma série de cartas das mais interessantes, Wolfgang dá conta ao pai de todos os pormenores do seu trabalho. Sua permanência em Munique se prolonga até março de 1781, quando o arcebispo de Salzburgo, então em Viena, convoca seus melhores músicos para homenageá-lo. Revoltado com o tratamento indigno que lhe é dado, Mozart rompe definitivamente a cadeia que o prendia a Salzburgo. Começa a viver só, com seus próprios recursos e, em 4 de agosto de 1782, desposa Constance Weber.

Desde então o músico se fixa em Viena. Na primavera de 1785, seu pai vem passar algum tempo com ele. Até então a correspondência entre os dois fora muito assídua, sobretudo antes do casamento; a partir dessa época ela diminui um pouco. Além disso, a maior parte das cartas foram destruídas. Eis a razão, sugerida pela irmã de Mozart: durante sua permanência em Viena, Leopoldo foi recebido como membro da maçonaria; por isso, aquele que vinha conservando com tanto cuidado tudo o que vinha do filho passou a eliminar boa parte das cartas que recebia, devido às alusões que poderiam conter. Leopoldo sempre tivera um caráter medroso, e sua prudência em mais de uma oportunidade prejudicou a carreira do filho. É deplorável que seus escrúpulos nos tenham privado de tantas fontes preciosas sobre esse período ativo da vida de Mozart: ele morreria dois anos mais tarde, em 28 de maio de 1787.

Poucas cartas de Mozart chegaram até nós, além das que escreveu ao pai, à irmã e à esposa. Dos numerosos amigos que teve, poucos parecem ter-se lembrado de guardar seus escritos. Restam apenas as preciosas missivas dirigidas de Praga ao conde G. de Jacquin, em janeiro de 1787, quando se representava naquela cidade As bodas de Fígaro, e as de outubro e novembro, do mesmo ano, que falam das primeiras representações de Don Juan.

Uma palavra, por fim, sobre as cartas de Mozart à esposa. As primeiras, de abril e maio de 1789, nos relatam uma tournée musical realizada com o príncipe Lichnowsky. Mozart visita Praga, Dresden, Leipzig, Berlim; é ouvido em toda parte com o maior sucesso, mas sem colher os recursos que esperava. Uma segunda viagem, com o mesmo objetivo, no fim de setembro de 1790, o leva a Frankfurt para a coroação do Imperador Leopoldo II. Retorna por Munique, em novembro, sem melhores resultados do que os da viagem anterior. Temos, por fim, uma série de cartas datadas do verão de 1791, de Viena, dirigidas a Baden, estação de águas dos arredores. Infelizmente, muitas cartas dessa época devem ter sido perdidas, já que, pelas que restaram, pode-se ver que Mozart escrevia quase todos os dias.

Nada mais terno e amoroso do que essa correspondência. O amor, a solicitude pela saúde e a felicidade de Constance aparecem em cada página; seu marido o expressa do modo mais encantador. Ele a quer feliz e alegre, não recua diante de qualquer sacrifício pela sua saúde e bem-estar. Wolfgang a anima, consola, exprime continuamente sua esperança, sem se queixar de nada que diga respeito a ele próprio. Pungente pensar que naquela época estava doente, reduzido pela miséria cada vez mais aguda que seu trabalho encarniçado não conseguia superar; constrangido a pedir empréstimos, a assistência de um amigo devotado e, sem conseguir o suficiente, obrigado a recorrer a agiotas que terminam por arruiná-lo.

Assim transcorreram os últimos meses dessa vida tão breve, e contudo tão cheia. Todas essas preocupações não puderam abater seu espírito corajoso e devotado, que se fez mais lúcido e sereno do que nunca. Ao compor A flauta mágica, e enquanto trabalhava no Réquiem, Mozart sentia suas forças o abandonarem a cada dia. Por fim, sucumbiu, em 5 de dezembro de 1791, algumas semanas depois do regresso da sua mulher. Tinha trinta e cinco anos. Extinguiu-se, alquebrado pela luta incessante contra a necessidade, no momento em que o êxito ruidoso da sua última ópera lhe abria finalmente melhores perspectivas ¹⁴.

Nota Preliminar

Todas as palavras em itálico no texto das cartas estão na língua em que Mozart as empregou, salvo quando há uma explicação especial.

Com respeito aos nomes de pessoas e de lugares, só incluímos nas notas as explicações necessárias para o entendimento das cartas. O leitor poderá encontrar alguns pormenores adicionais no índice alfabético ao fim do livro.

K — seguido de um número (após cada obra citada nas cartas) faz referência ao Catálogo Temático de Koechel. Um índice especial, no fim do volume, reproduz esses números em sua ordem, com explicações mais completas.

No cabeçalho das cartas:

M — indica que o autógrafo original está conservado no Mozarteum de Salzburgo, fundação internacional que compreende um conservatório e um museu onde se encontram reunidas numerosas cartas, retratos, lembranças variadas de Mozart e sua família.

B.V. — indica as cartas que se encontram na Biblioteca da Corte, em Viena.

Nissen — designa as que só aparecem na obra de Nissen sobre Mozart.

Jahn — indica as que foram publicadas pela primeira vez por O. Jahn.

As cartas sem essas indicações estão dispersas em coleções particulares.

Primeira Viagem à Itália

Dezembro de 1769 — 28 de março de 1771 (acompanhado pelo pai)

Wirgel, Verona, Milão, Bolonha, Roma, Nápoles, Veneza, Insbruck.

1. A UMA DESCONHECIDA

Salzburgo, 1769.

Minha amiga,

Perdão por tomar a liberdade de importuná-la com estas linhas, mas como ontem me disse que compreenderia qualquer coisa, e que eu poderia escrever até em latim o que quisesse, não pude resistir ao desejo temerário de traçar aqui algumas linhas compostas com diversas palavras latinas. Quando tiver lido, faça o favor de mandar a resposta por um criado dos Hagenauer¹⁵, já que nossa empregada não pode esperar. (Mas é preciso que me responda também com uma carta.)

Cuperem scire, de qua causa, a quam plurimis adolescentibus otium usque adeo œstimatur, ut ipsi se nec verbis, nec verberibus ab hoc sinant abduci.¹⁶

WOLFGANG MOZART.

2. À SUA IRMÃ (Jahn) ¹⁷

Wirgel, 12 de dezembro de 1769.

Minha irmã muito querida,¹⁸

Graças a Deus chegamos bem a Wirgel. Para dizer a verdade, preciso confessar que viajar é bem divertido; não faz frio algum e nossa carruagem é quente como um quarto. Como vai a dor de garganta. Esse Senhor importuno chegou no mesmo dia em que partimos? Se encontrares o Senhor Schiedenhofen, diz-lhe que eu canto o tempo todo: Tralalá, Tralalá, e já que estou fora de Salzburgo não é mais necessário colocar açúcar na sopa. Em Lover jantamos e dormimos em casa do Senhor Helmreich, que é o prefeito. Sua esposa é uma boa senhora: é a irmã do Senhor Moll. Estou com fome, tenho muita vontade de comer. Cuida-te bem. Adeus.

WOLFGANG MOZART.

P.S. Abraços a todos os amigos, ao Senhor Haguenauer (o comerciante), a sua mulher, aos filhos e filhas, à

Senhora Rosa e a seu marido, aos Senhores Adlgasser e Spitzeder. Pergunta por mim ao Senhor Hornung¹⁹ se não aconteceu outra vez de ele pensar que eu estava na cama em teu lugar.

À SUA MÂE

Querida mãe,

Meu coração está cheio de contentamento porque me divirto tanto nesta viagem porque está tão quentinho na carruagem! … e porque nosso cocheiro é um bom rapaz que nos leva bem depressa, aproveitando ao máximo a estrada. Papai já deve ter contado a viagem. Escrevo para mostrar que seu filho conhece seus deveres e tem pela Senhora o mais profundo respeito.

Seu filho fiel,

WOLFGANG MOZART.

3. À SUA IRMÃ [Nissen]

Verona, 7 de janeiro de 1770.

Querida irmã,

Minha carta foi ²⁰ muito curta porque esperei em vão por uma resposta: mas também havia razões para isso, porque ainda não tinha recebido tua carta. Termina aqui a fala rústica alemã e começa a italiana. ²¹ Teu italiano é melhor do que pensava. Explica por que não foste ver a comédia representada por essas pessoas? Nós agora ouvimos continuamente uma ópera intitulada II Ruggiero ²². Oronte, pai de Bradamante, é um príncipe: o Senhor Afferi, um hábil barítono, mas bastante aplicado quando choraminga alto, com voz de falsete — embora não tanto quanto Tibaldi,²³ em Viena. Bradamante, apaixonada por Ruggiero (deve casar-se com Leone, contra sua vontade), é uma pobre baronesa que sofreu uma grande desgraça, não sei qual. Ela se apresenta com um nome estrangeiro, mas não sei qual é. Tem uma voz passível e seu porte não é mal … mas desafina como o diabo. Ruggiero, príncipe rico, apaixonado por Bradamante, é um rico musico. ftiísico.²⁴ Canta um pouco como Manzuoli ²⁵, com uma voz forte e muito, bonita. Já tem idade – cinquenta e cinco anos — mas a garganta continua flexível. Leone deve casar-se com Bradamante. Ele é riquíssimo; não sei se também é rico fora do palco.

A mulher de Afferi tem uma bela voz, mas há um tal borborinho na sala que não se pode ouvir. No papel de Irene há urna irmã de Lolli, o grande violinista que ouvimos em Viena; tem uma voz rude e ataca sempre um quarto de hora atrasada ou adiantada. Ganno é representado por um senhor cujo nome ignoro: é a primeira vez que atua. Em cada intervalo, um ballet. Há um bom bailarino, chamado senhor Roessler; um alemão que dança muito bem.

A última vez que estivemos na Opera (isto é, não exatamente a última vez) convidamos o Senhor Roessler para o nosso camarote (temos livre acesso ao camarote do Senhor Carlotti ²⁶ e a chave) e conversamos com ele.

A propos, agora todo mundo se fantasia e, o que é muito cômodo, quando se põe uma máscara sob o chapéu tem-se o privilégio de não precisar retirá-lo para responder a um cumprimento. Não se chama ninguém pelo nome, mas diz-se sempre: Vosso humilde servidor, senhor mascarado, Cospetto di Bacco! É arrebatador! O mais curioso é que nos deitamos às sete e meia! … Se adivinhares isto serás a mãe de todos os adivinhos. Beija mamãe por mim. Mil beijos para ti. Serei sempre teu irmão sincero.

Portez-vous bien et aimez-moi toujours.²⁷

4. À SUA IRMÃ [Nissen]

Milão, 26 de janeiro de l770.

Alegro-me de todo coração de que te tenhas divertido tanto com a corrida de trenó de que me falas na tua carta. Desejo-te mil divertimentos para que tenhas uma vida bem alegre. Mas há uma coisa que me desagrada: que tenhas deixado o Senhor Mölk²⁸ suspirar e sofrer tanto, indefinidamente, e que não tenhas ido no trenó com ele, para que fosses derrubada por ele. Quantos lenços ele não deve ter encharcado de lágrimas, nesse dia, por tua causal… É verdade que em outros tempos teria tomado uma dose de tártaro para expulsar das entranhas a terrível impureza. Nada de novo tenho a contar, a não ser que o senhor Gellert, o poeta de Leipzig, morreu, e que depois de morto não escreveu mais nenhum poema. Pouco antes de começar esta carta terminei minha ária do Demétrio, que começa assim: ‘Misero tu non sei …", etc. [K, app. 2]

A ópera [que ouvimos] em Mântua ²⁹ é bonita: Demétrio. A prima donna canta bem, mas sem fazer um só gesto. Quem a vê só cantar, sem representar, tem a impressão de que não está cantando, pois não consegue abrir a boca e geme todas as notas: o que, aliás, não é uma novidade para nós. A seconda donna tem um aspecto de granadeiro, a voz possante; na verdade não canta mal, considerando-se que é a primeira vez que sobe ao palco. O primo uomo, o musico, canta muito bem, mas não tem boa voz. Seu nome é Caselli. O secondo uomo é já um velho e não me agrada. O tenor se chama Ottini: não canta mal, porém não sustenta as notas, como acontece com todos os tenores italianos. É grande amigo nosso. Não sei como se chama o segundo tenor; é ainda jovem, mas nada tem de extraordinário.

O primo ballerino é bom; a prima ballerina, também, e diz-se que ela não é nada feia, mas não a vi de perto. Os demais são como todo o mundo. Há um grotesco que salta muito bem, mas que não escreve como eu: isto é, como grunhem os porquinhos.

A orquestra não é má. Em Cremona, é boa, e o primeiro violino se chama Spagnoletta. A prima donna não é má; já é idosa, pelo que sei … e representa melhor do que canta. É a mulher de um violinista que participa da orquestra: chama-se Masci. A ópera era La clemenza di Tito.

A seconda donna não tem boa presença em cena; jovem, mas nada de extraordinário. Primo uomo, musico, Cicognani: boa voz e um bonito cantabile. Os dois outros castrati são jovens e passáveis. Eis o nome do tenor: … non lo so ³⁰. Tem um porte agradável e parece muito Le Roi, de Viena. O primo ballerino é bom e grandalhão. Havia uma dançarina que não dançava mal e, o que não é um capo d’opera ³¹, não tem boa presença nem no palco nem fora de cena. Os demais, como todo o mundo. Há também um grotesco que a cada salto deixa escapar …

De Milão não te posso na verdade dizer grande coisa. Não fomos ainda ao teatro. Ouvimos dizer que a ópera não teve êxito. O primo uomo, Aprile, canta bem e possui uma voz bela e uniforme. Nós o ouvimos numa igreja onde se celebrava justamente uma grande festa. A senhora Picinelli, de Paris, que cantou no nosso concerto ³², tem um papel na ópera. O Senhor Pick, que dançou em Viena, está dançando agora aqui. A ópera se chama Didone abbandonata ³³ e será logo esquecida. O Senhor Piccinni, que escreveu a próxima ópera, está aqui. Ouvi dizer que essa ópera se chama Cesare in Egitto.

WOLFGANG DE MOZART,

Senhor Hochenthal, amigo da Liga do Número ³⁴

5. À SUA IRMÃ. [B.V.]

(Post-scriptum.) ³⁵

Milão, 10 de fevereiro de 1770.

Basta falar da porca para ela aparecer correndo ³⁶. Estou bem de saúde, Deus seja louvado e abençoado, e mal posso esperar a hora de receber tua resposta. Beijo a mão de mamãe. Para minha irmã, uma marca de bexiga … um beijo … continuo o mesmo … mas, quem? O mesmo brincalhão: Wolfgang na Alemanha, Amadeo na Itália,

DE MORZANTINI.

6. À SUA IRMÃ [Nissen]

(Post-scriptum.)

Milão, 17 de fevereiro de 1770.

Aqui estou, eu também ! Sou todo de vocês! Quanto a ti, Mariannette, alegro-me de que tenhas passado por uma terrível … diversão. Diz a Úrsula, a ama, que creio lhe ter dado todos os Lieder. Mas se por acaso os levei comigo por descuido, absorto em minhas ideias importantes e elevadas sobre a Itália, não deixarei de inclui-los numa carta, quando os encontrar … Addio, crianças, comportai-vos bem. Beijos mil vezes as mãos de mamãe, e para ti mil grandes beijos em teu maravilhoso rosto de cavalo. Per fare il fine, sou teu, etc.

7. À SUA IRMÃ [M]

(Post-scriptum.)

Milão, terça-feira gorda de 1770.

… Quanto a mim, mando um beijo para mamãe e para ti. Os affaires me fazem perder a cabeça; não posso escrever nada a esse respeito.

8. À SUA IRMÃ [Nissen]

Milão, 3 de março de 1770.

Cara sorella mia,

Alegro-me do fundo do coração em saber que te divertiste tanto. E pensas que eu também não me diverti? Ah, sim! Não posso contar quantas vezes. Na verdade, acho que fomos à Opera seis ou sete vezes, e em seguida ao baile que começa depois do espetáculo, como em Viena — com a diferença de que em Viena a dança é melhor organizada.

Vimos também a chiccherata e a facchinata. A segunda [[‘e] É uma mascarada muito bonita, porque muitos se vestem como carregadores – facchini — ou como [[gar’cons] GARÇONS. Havia um barco cheio de gente e muitas pessoas iam a pé. Quatro a seis orquestras de trompetes e timbales, e algumas orquestras de violinos e outros instrumentos. A chiccherata é também uma mascarada.

Os milaneses chamam de chicchere o que nós chamamos de petits-maitres, ou de leques. Estavam todos a cavalo; era muito bonito.

Estou contente também em saber que o Senhor Aman ³⁷ está melhor. Fiquei aflito quando ouvi que tivera um problema. Qual era a fantasia da Senhora Rosa? E a do Senhor Mölk? E a do senhor Schiedenhofen? … Por favor, se sabes, escreve-me contando. Beija as mãos de mamãe por mim, 1.000.000.000.000 de vezes. Abraços a todos os nossos bons amigos. Para ti, mil saudações de …Se descobres, ganhas o prêmio! E também de Don Casarella, especialmente pela traseira.³⁸

9. À SUA IRMA [M]

(Post- scriptum.)

Milão, 13 de março de 1770.

Envio minhas saudações, beijo mamãe e a minha irmã milhões de vezes; estou bem, Deus seja louvado: addio.

10. À SUA IRMÃ [Nissen]

Bolonha, ³⁹ 24 de março de 1770.

Minha diligente irmã,

Pensei que, tendo sido preguiçoso por tanto tempo, não seria mal voltar a ser aplicado por um momento. Todos os dias de correio, quando chegam cartas da Alemanha, a comida e a bebida me parecem mais gostosas. Por favor, diz quem está cantando nos oratórios. Diz também quais são os títulos, e se os minuetos de Haydn ⁴⁰ te agradam e se são melhores do que os primeiros.

Alegro-me do fundo do coração com o restabelecimento do Senhor Aman. Diz-lhe, por favor, que seja bastante cuidadoso; nada de movimentos violentos. Diz-lhe isso, por favor! Mas diz-lhe também que penso sempre em ti, quando brincávamos de operários em Triebenbach; e como ele representava o nome de Schrattenbach ⁴¹ com o chumbo e fazendo ch … ⁴²

E diz-lhe também que penso sempre nas palavras que me repetiu então várias vezes: Vamos cortar-nos em dois? e eu lhe respondia toda vez: E como vamos nos recompor?

Vou enviar-te proximamente um minueto que o Senhor Pick dançou no teatro, e que depois todo o mundo dançou no baile da Opera, em Milão — só para que vejas como as pessoas dançam devagar aqui. O minueto, propriamente, é muito bonito. Vem de Viena, como é natural, e por isso é certamente de Teller ou de Starzer. Tem muitas notas. Porquê? Porque é um minueto de teatro, para dançar lentamente. Aliás, os minuetos de Milão, e em geral todos os minuetos italianos, são excessivamente carregados de notas, têm o andamento lento e muitos compassos. Por exemplo, a primeira parte tem 16 compassos, a segunda 20 ou até 24.

Em Parma, conhecemos uma cantora e a ouvimos cantar de forma admirável, na sua própria casa: é a célebre Bastardella, que tem: 1) uma bela voz; 2) uma goela encantadora; 3) uma altura de voz incrível. Ela cantou em minha presença as seguintes passagens:

11. [Nissen]

(Post-scriptum.)

Roma, 14 de abril de 1770.

Estou bem de saúde, Deus seja louvado, assim como minha miserável pena. Mil ou 1.000 beijos para mamãe e Nannerl. Gostaria muito que minha irmã estivesse em Roma, cidade que seguramente a agradaria com a simetria harmoniosa da igreja de São Pedro e de muitas outras coisas de Roma. Vê-se passar pelas ruas as mais belas flores: é papai que agora me diz isso. Todos sabem que sou um louco. Ah, estou tão aflito! Em nosso quarto há uma só cama, e mamãe pode bem imaginar que não tenho conseguido descansar ao lado de papai. Estou satisfeito de mudar de alojamento. Ah, acabo de desenhar São Pedro com suas chaves, São Paulo com a espada e São Lucas com minha irmã, etc., etc. Tive a honra de beijar o pé de São Pedro em S. Pietro, e como infelizmente sou muito pequeno, fui levantado até ele, moi em persone, vosso velho

WOLFGANG MOZART.

12. A SUA IRMÃ [Nissen]

Roma, 21 de abril de 1770.

Cara sorella mia,

Por favor … tu encontrarás seguramente as regras de aritmética, já que tu mesma as redigiste; eu as perdi, não sei mais onde estão; por isso te peço o favor de copiá-las, com novos exemplos, e de mandá-las para mim.

Manzuoli está tratando com os milaneses para cantar na minha ópera ⁴³. Com essa intenção ele cantou, em Florença, quatro ou cinco árias,e algumas peças minhas [K. 77, 78, 79] que precisei compor em Milão ⁴⁴, porque ainda não se tinha ouvido nada meu no gênero dramático, e queriam ver se sou capaz de escrever uma ópera. Manzuoli pede 1.000 ducados. Não se sabe também com certeza se virá a Gabrielli. Há quem diga que quem vai cantar é a De Amicis, que vamos ver em Nápoles. Preferiria que fosse ela e Manzuoli: contaríamos com dois conhecidos, dois bons amigos. Não conhecemos ainda o libreto. Recomendei um de Métastase a Dom Ferdinando ⁴⁵ e ao Senhor Troger.

Estou trabalhando agora na ária "Se ardire e speranza" [K. 82].

13. A SUA IRMÃ [Nissen]

Roma, 25 de abril de 1770.

Minha cara irmã,⁴⁶

Garanto que todos os dias de correio aguardo com uma impaciência incrível qualquer carta de Salzburgo. Ontem fomos a San Lorenzo, onde ouvimos as vésperas; esta manhã, à missa e esta tarde às segundas vésperas, porque é a festa de Nossa Senhora do Bom Conselho. Estes dias estivemos no Campidoglio ⁴⁷ e vimos muitas coisas bonitas. Se quisesse descrever tudo o que vi, esta folha não seria suficiente. Toquei em dois concertos e amanhã vou tocar num outro. Logo depois de comer, jogamos Potsch ⁴⁸: um jogo que aprendi aqui, e vou te ensinar quando voltar. Logo que terminar esta carta vou concluir uma sinfonia que comecei. Minha ária está terminada, e tenho uma sinfonia [K. 81] com o copista, … que é meu pai, porque não quisemos dá-la a outra pessoa para copiar: seria roubada.

WOLFGANG na Alemanha,

AMADEO MOZART na Itália.

Roma, capital do mundo, em 25 de abril de 1770 — no ano vindouro de 1771

Na parte posterior como na anterior, dobrada pelo meio.

14. [M]

(Post-scriptum.)

Roma, 28 de abril de 1770

Beijo o rosto de minha irmã e as mãos de mamãe. Não vi ainda nem escorpiões nem aranhas; não se fala nisso, nem se escuta falar sobre o assunto. Mamãe reconhecerá seguramente minha letra, não? Que ela me escreva bem depressa, sem isso vou pôr meus nomes lá embaixo.

15. [M]

(Post-scriptum.)

Roma, 2 de maio de 1770.

Estou bem, graças a Deus. Beijo as mãos de mamãe e o rosto, o nariz, a boca e o pescoço da minha irmã e minha pena ruim e … se é limpo.

WOLFGANG MOZART⁴⁹

16. À SUA IRMÃ [Nissen]

Nápoles, 19 de maio de 1770.

C.S.M. ⁵⁰

Peço-te escrever-me bem depressa, e todos os dias em que houver correio. Obrigado por me ter mandado esses negócios ⁵¹ de aritmética; peço que me mandes mais alguns, se quiseres ter uma dor de cabeça. Desculpa-me por escrever tão mal, o motivo é que eu também estou com um pouco de dor de cabeça. Gostei muito do 12º minueto de Haydn que me enviaste, e tu compuseste o baixo de uma forma incomparável, sem nenhum erro. Peço-te que procures fazer o mesmo mais vezes.

Que mamãe não se esqueça de mandar limpar os dois fuzis. Conta-me como vai o Senhor canário. Ele ainda canta ? … Assobia? … Sabes por que estou pensando no canário? Há um na nossa antecâmara que faz: g’seis como o nosso. A propos, penso que o Senhor Jean ⁵² recebeu a carta de felicitações que quisemos mandar-lhe. Mas se não a recebeu, vou dizer-lhe de viva voz, em Salzburgo, o que a carta deveria conter. Ontem, vestimos nossa roupa nova: estávamos bonitos como anjos. Minhas saudações a Nandl, que ela reze sempre por mim. No dia 30 começarão a levar a ópera que Jomelli está compondo ⁵³. Vimos a rainha e o rei ⁵⁴ na missa da capela da corte, em Portici… e vimos também o Vesúvio! Nápoles é uma linda cidade, mais populosa, como Viena e Paris. Do ponto de vista da insolência da gente, não sei se é Nápoles ou Londres que ganha; a gente do povo, os lazzaroni, têm aqui o seu próprio governador, que recebe do rei, todo mês, 25 ducati d’argento, só para mantê-los em ordem.

A De Amicis canta na Opera. Fomos vê-la na sua casa. É Caffaro que compõe a segunda ópera; Ciccio di Majo, a terceira; e não sabemos quem, a quarta. Deves ir sempre a Mirabell ⁵⁵ para cantar as litânias, ouve a Regina Coeli ou a Salve Regina, e dorme bem, sem maus sonhos. Meus cumprimentos ferozes ao Senhor Schiedenhofen, tralalá, tralalá! … Diz-lhe que ele precisa aprender a tocar no piano o minueto em cânon,⁵⁶ para não esquecer; que ele se dedique logo a isso, para um dia me dar o prazer de acompanhá-lo. Minhas saudações também a todos os outros nossos bons amigos e amigas. Mantém a saúde, e não queiras morrer, para que possas escrever-me ainda uma carta, e que eu escreva uma outra e assim por diante até o fim. Eu sou dos que querem agir até que, finalmente, não haja forma de fazer mais nada. Enquanto isso, pretendo continuar sendo

W.M.

17. [M]

(Post-scriptum.)

Nápoles, 22 de maio de 1770.

*Estou bem, graças a Deus, e beijo as mãos de mamãe e abraço mil vezes as duas.

18. À SUA IRMÃ [Nissen]

Nápoles, 29 de maio de 1770. ⁵⁷

Anteontem fomos ao ensaio da ópera do Senhor Jomeili, que está muito bem escrita e verdadeiramente me agrada. Ele conversou conosco e foi muito amável. Estivemos também numa igreja para ouvir a música do Senhor Ciccio di Majo, muito bonita. Ele também conversou conosco e foi muito cortês. A Senhora De Amicis canta maravilhosamente. Estamos bem, graças a Deus, e eu particularmente bem quando chega uma carta de Salzburgo. Peço-te que escrevas todos os dias de correio, mesmo que nada tenhas a me dizer. É só que eu queria receber uma carta todos os dias de correio! Não seria uma má ideia se me escrevesses algumas vezes uma cartinha em italiano …

19. A SUA IRMÃ [Nissen]

Nápoles, 5 de junho de 1770. ⁵⁸

Hoje o Vesúvio está lançando muita fumaça. Trovões e relâmpagos! … Jantamos hoje com o Senhor Doll: é um compositor alemão, uma boa pessoa. Agora, vou começar a contar a vida que levo. Aí pelas nove horas, às vezes às dez, acordo; depois, saímos, e almoçamos em um restaurante. Depois de comer, escrevemos, depois saímos, depois jantamos. Que comemos? Nos melhores dias, metade de um frango, ou um pedaço de assado; nos outros, um pequeno peixe. Depois, vamos dormir. Compreendestes? Fala-me em dialeto de Salzburgo, que é bem mais distinto.

Graças a Deus nossa saúde vai bem, a de meu pai e a minha. Espero que tu e mamãe estejam igualmente bem. Nápoles e Roma são duas cidades de dorminhocos. Uma bela carta! Não é verdade? … Escreve-me e não sejas tão preguiçosa, se não vou dar-te algumas bastonadas. Que prazer! Eu te quebro a cabeça! Fico satisfeito desde já com os retratos ⁵⁹, estou curioso de ver como ficararm. Se me agradarem, vou pedir que me retratem também, assim como a meu pai. Diz, menina, onde estiveste?

A ópera que está sendo levada aqui é de Jomelli; ele é bom, mas sábio demais, muito antiquado para o teatro. A De Amicis canta de forma incomparável, e também Aprile, que cantou em Milão. Quanto às danças, são miseravelmente pomposas. O teatro é bonito. O rei é mal-educado, à napolitana, e fica em cima de um tamborete durante toda a ópera, para parecer um pouquinho mais alto do que a rainha. Esta é bela, graciosa, cumprimentou-me bem umas seis vezes, no Mole, ⁶⁰ do modo mais amável.

*Beijo a mão de mamãe.

20. [Nissen]

(Post-scriptum.)

Nápoles, 16 de junho de 1770.

Eu também ainda estou vivo, feliz todo o tempo, como sempre, e viajo com prazer. Agora eu também naveguei pelo mar Mediterrâneo! Beijo a mão de mamãe, beijo Nannerl mil vezes, sou vosso filho, o inocente, e teu irmão, o basbaque.

21. À SUA IRMÃ [Nissen]

(Post-scriptum.)

Roma, 7 de julho de 1770. ⁶¹

C.S.M.

Fiquei surpreso de ver como sabes compor bem. Numa palavra, a ária é uma beleza. Deves procurar escrever alguma coisa com mais frequência. Manda-me logo os seis outros minuetos de Haydn.

Senhorita, tenho a honra de ser vosso humilde servidor e irmão,

Cavalheiro ⁶² de Mozart.

22. A SUA MÃE [Nissen]

(Post-scriptum.)

Bolonha ⁶³, 21 de julho de 1770.

Envio meus cumprimentos a mamãe pelo seu aniversário; faço votos para que ela viva ainda muitos séculos e conserve sempre sua saúde. E o que peço sempre a Deus; rezo todos os dias pelas duas, e continuarei a rezar todos os dias. Como presente só posso oferecer sininhos de Lorette, círios, chapéus e tecidos que vou levar comigo ao voltar. Enquanto isso, despeço-me de mamãe beijando-lhe as mãos mil vezes, e permanecendo até a morte

Seu filho fiel.

23. À SUA IRMÃ [Nissen]

(Post-scriptum.) ⁶⁴

21.de julho de 1770.

Desejo que Deus te conserve sempre com boa saúde, te deixe viver mais cem anos e te faça morrer com mil anos. Espero que aprendas a me conhecer melhor no futuro e que, depois me julgues como quiseres. Não tenho tempo para escrever muito; minha pena não é melhor do que um casco, nem melhor do que aquele que a usa. Ainda não se sabe o título da ópera que preciso escrever para Milão. Nossa anfitriã em Roma me presenteou as Mil e uma noites em italiano; é uma leitura muito divertida.

24. [Nissen]

(Post-scriptum.) ⁶⁵

Bolonha, 28 de julho de 1770.

*C.S.M.

Preciso confessar que estou extremamente contente porque me enviaste os retratos. Gosto muito deles.

25. À SUA IRMÃ

(Post-scriptum.)

Bolonha, 4 de agosto de 1770.

Lamento de todo meu coração que a Senhorita Marta continue tão enferma, rezo todos os dias para que fique boa. Diz-lhe da minha parte que não se mexa demais, e que tenha a coragem de comer alimentos salgados.

A propos, entregaste minha carta a Robinigsiegerl ⁶⁶? Não me disseste. Peço-te que lhe digas, quando estiveres com ele, que não se permita esquecer-me! … Não posso escrever melhor porque estou usando uma pena apropriada para escrever música, e não cartas. As cordas do meu violino foram repostas, e toco todos os dias. Digo isto porque uma vez mamãe quis saber se continuo a tocar violino. Seguramente mais de seis vezes tive a honra de ir sozinho às igrejas para assistir ofícios magníficos. Com tudo isso, já compus seis sinfonias italianas [K. 81, 84, 95-98] sem contar as árias [K. 77, 78, 79, 82, 83, 88], que são no total certamente cinco ou seis, além de um motete.

O Senhor Deibl vem sempre? Ele te homenageia sempre com seus discursos divertidos E o nobre Senhor Karl de Vogt se digna sempre ouvir tua voz insuportável? Será preciso que o Senhor Schiedenhofen te ajude assiduamente a escrever minuetos, sem isso não ganhará mais açúcar.

Se o tempo permitir, terei o dever de importunar os Senhores Mölk e Schiedenhofen com algumas linhas a meu modo; mas como para isso me falta o mais necessário, peço-lhes que me desculpem, que permitam o adiamento dessa honra.

Eis o início de algumas cassações ⁶⁷

Está satisfeito o teu desejo. Mas tenho dificuldade em acreditar que [a peça de que me falas] seja uma das minhas. Com efeito, quem teria a audácia de assumir a autoria de uma composição do filho do mestre-de- Capela., … e isto na presença da sua mãe e da irmã. Addio! Adeus! Minha única recreação consiste atualmente em praticar passos ingleses, cabriolas e piruetas.

A Itália é o país do sono; a gente aqui está sempre dormindo.

Addio, cuida-te bem.

*Meus cumprimentos a todos os nossos bons amigos e amigas. Beijo as mãos de mamãe.

26. A SUA MÃE [Nissen]

(Post-scriptum.)

Bolonha, 21 de agosto de 1770.

Eu também ainda estou vivo e até mesmo muito feliz. Hoje, por fantasia, fui passear de jumento; é este o costume na Itália, e pensei que era necessário que eu também fizesse a experiência. Temos a honra de frequentar um certo dominicano ⁶⁸ que é considerado um santo. Para mim, não o é, pois muitas vezes toma uma xícara de chocolate de manhã e, logo depois, um bom copo de vinho forte da Espanha. Tive mesmo a honra de jantar com esse santo homem; ele bebeu grande quantidade de vinho e, para terminar, todo um copo de vinho forte; além disso, consumiu duas boas fatias de melão, pêssegos, pêras, cinco xícaras de café, um prato inteiro de cravos dois pratos cheios de leite com limão. É possível que tivesse motivos para fazer o que fez, mas não acredito — seria demais; e ele se serve também de muitas coisas, de tarde.

27. [M]

(Post-scriptum.)

Bolonha, 8 de setembro de 1770.

Para não faltar com meu dever quero escrever também algumas palavras. Peço que me digam de que confraria faço parte, e que me informem quais são as preces obrigatórias. Estou agora lendo Telêmaco; já estou na segunda parte. Com isto, adeus. Beijo a mão de mamãe.

28. A SUA IRMÃ [Nissen]

Bolonha, 22 de setembro de 1770.

Espero que mamãe esteja tão bem quanto tu. Gostaria que passasses a responder minhas cartas mais precisamente, porque afinal é bem mais fácil responder a alguma coisa do que encontrar sozinho algo de novo para dizer!

Gosto mais dos seis minuetos de Haydn do que dos doze primeiros. Temos tido que tocá-los muitas vezes para a condessa ⁶⁹,e gostaríamos de estar em posição de introduzir na Itália o estilo alemão dos minuetos; aqui os minuetos duram quase tanto quanto sinfonias inteiras. Desculpa-me se escrevo tão mal. Poderia fazer melhor, mas tenho pressa.

29. A SUA MÃE [Nissen]

(Post-scriptum.)

Bolonha, 29 de setembro de 1770.

Para encher um pouco mais a carta, quero eu também acrescentar algumas palavras. Do fundo do coração estou penalizado com a doença tão prolongada da pobre Senhorita Marta, que ela é obrigada a suportar com tanta paciência! Espero que fique boa, com a ajuda de Deus. Se isso não acontecer, será preciso que não se aflija tanto, pois a vontade de Deus é sempre a melhor; Ele sabe melhor do que nós se vale mais estar neste mundo ou no outro. Mas que ela se console pensando que pode sempre rever o bom tempo que faz depois da chuva.

30. A SUA IRMÃ [Nissen]

(Post-scriptum.)

Bolonha ⁷⁰, 6 de outubro de 1770.

Estou feliz, do fundo do coração, de que te tenhas divertido tanto e queria ter participado também do divertimento. Espero que a Senhorita Marta melhore. Hoje toquei órgão nos dominicanos. Apresenta meus votos de felicidade aos Hagenauer; diz-lhes que desejo de todo o coração que vivam o bastante para assistir ao jubileu do padre Domingo ⁷¹, para que possamos ainda ser felizes todos juntos. Meus votos de felicidade a todas as Teresas ⁷², e saudações a todos os nossos amigos da casa e de fora. Bem que gostaria de poder ouvir em breve as sinfonias de Berchtesgadner, e de tocar a parte do trompete ou do flautim. Ouvi e vi a grande festa de São Petronio, em Bolonha. Bonita, mas longa, foi preciso convocar os trompetes de Luca para a fanfarra: tocaram abominavelmente.

31. A SUA MÃE [M]

(Post-scriptum.)

Milão, 20 de outubro de 1770.

Querida mamãe,

Não posso escrever muito porque os dedos me doem à força de escrever recitativos. Reze por mim para que a ópera ⁷³ saia bem e possamos depois ser felizes de novo todos juntos. Beijos mil vezes as mãos de mamãe. Quanto ‘a minha irmã, teria muitas coisas a lhe dizer, mas o quê? … Só Deus e eu sabemos.

Se for a vontade de Deus, como espero, poderei logo contar-lhe de viva voz. Enquanto isso, abraço-a mil vezes. Saudações a todos os nossos bons amigos e amigas. Perdemos a boa Marta, mas com a ajuda de Deus, vamos reencontrá-la numa vida mais feliz.

32. À SUA IRMÃ [Nissen]

(Post-scriptum.)

Milão, 27 de outubro de 1770.

Querida irmã,

Sabes que sou um grande falastrão, o que continuei a ser depois que parti, mas atualmente sou obrigado a me exprimir por sinais, pois o filho da família, em cuja casa estamos, é surdo-mudo. Agora vou trabalhar na minha opera. Tenho muita pena de não poder fazer-te o minueto que desejas, mas, se Deus quiser, talvez o tenhas, como a mim, antes da Páscoa. Não posso nem sei continuar escrevendo. Adeus, e reza por mim.

33. A SUA IRMÃ [Nissen]

(Post-scriptum.)

Milão, 3 de novembro de 1770.

Irmãzinha querida do meu coração,

Agradeço a mamãe e a ti os sábios conselhos e ardo com o desejo de vê-las às duas em Salzburgo. Com respeito aos teus cumprimentos de aniversário, posso dizer-te que quase pensei ter sido o Senhor Martinelli quem os tinha redigido em italiano; mas como és sempre a irmã bem-avisada, soubeste arranjar as coisas com tanto espírito, colocando imediatamente acima dos teus cumprimentos em italiano os do Senhor Martinelli, escritos com a mesma caligrafia, que não pude perceber. Neste momento, acabo de dizer a papai: Ah, se pudesse ter a inteligência e o espírito da minha irmã! Papai respondeu: Sim, é verdade. Eu retruquei: estou com sono. E papai disse: Termina logo! Addio, pede a Deus para que a ópera saia bem.

Teu irmão,

W.M.

cujos dedos estão cansados de escrever.

34. A SUA IRMÃ [M]

(Post-scriptum.)

Milão, 1º de dezembro de 1770.

Querida irmã,

Há tanto tempo não escrevo que pensei em aplacar tua tristeza, ou teu grande apetite, com estas poucas linhas.* Papai te terá informado que tivemos a honra de conhecer o barão Rietheim.* Neste momento, tenho muito que escrever e trabalhar na minha ópera. Espero que, com a ajuda de Deus, tudo sairá bem. Addio, cuida-te bem. Como sempre teu irmão fiel,

WOLFGANG MOZART

*P.S. Beija por mim as mãos de mamãe;

*Saudações a todos os nossos bons amigos e amigas.

35. A SUA IRMA [M]

(Post-scriptum.)

Milão, 12 de janeiro de 1771.

Querida irmã,

Há muito que deixei de escrever, porque estava ocupado com a minha ópera. Mas como agora tenho tempo, quero cumprir meu dever. A ópera está agradando ⁷⁴, Deus seja louvado e abençoado. O teatro está repleto todas as noites, o que provoca espanto geral, e muitas pessoas dizem que, a não ser em Milão, nunca viram uma sala tão cheia para ouvir uma ópera nova. Minha saúde vai bem, assim como a de papai, graças a Deus, e espero que na Páscoa possa contar tudo a ti e a mamãe, de viva voz. Addio, beijo as mãos de mamãe. A propos, o copista veio até aqui ontem e nos disse que tinha recebido uma encomenda da corte de Lisboa para copiar minha ópera. Cuida-te bem, Senhorita minha irmã. Tenho a honra de ser e de continuar, desta data até a eternidade, teu fiel irmão.

36. A SUA IRMA [M]

(Post-scriptum.)

Veneza, 13 de fevereiro de 1771. ⁷⁵

Querida irmã,

Terás já sabido por papai que minha saúde vai bem. Não sei mais o que escrever além de beijos a mamãe. Adeus.

AO SR. JEAN HAGENAUER

13.de fevereiro de 1771. ⁷⁶

Senhor Jean,

A Senhora pérola tem extrema reverência pelo Senhor, assim como todas as outras pérolas. Garanto que todas estão apaixonadas pelo Senhor, e esperam ser tomadas por esposas, como fazem os turcos, para que as seis fiquem contentes. Estou escrevendo isto na casa do Senhor Wider, que é um homem galante, como o Senhor me disse. Ontem, enterramos o carnaval em sua casa: jantamos, dançamos e finalmente fomos com as pérolas ao ridotto nuovo, que me agrada muito. Quando estou com o Senhor Wider e olho pela janela, vejo a casa onde o Senhor residiu, quando esteve em Veneza. Não tenho nenhuma notícia nova. Gosto muito de Veneza. Saudações ao seu pai, à sua mãe, a seus irmãos e irmãs, a todos os meus amigos e amigas. Adeus.

WOLFGANGO AMADEO MOZART.

37. À SUA IRMÃ [M]

(Post-scriptum.)

Veneza, 20 de fevereiro de 1771.

Ainda estou vivo, eu também, e gozando de boa saúde, graças a Deus. A De Amicis cantou aqui, em S. Benedetto. Diz ao Senhor Jean que as ‘pérolas’ de Wider falam sempre dele, sobretudo a Senhorita Catarina; dizem que ele precisa voltar logo a Veneza para sofrer o attaca, ou seja, para ser jogado por terra sentado, a fim de se tornar um autêntico veneziano. É o que elas me quiseram aprontar, a mim também, juntaram-se todas as sete e contudo não conseguiram me derrubar! … Addio. *Beijo a mão de mamãe.

*Nossas saudações a todos os bons amigos e amigas.

Cuida-te bem … Amém.

38. [M]

(Post-scriptum.)

Inspruck, 25 de março de 1771.

Beijo a mão de mamãe e te beijo mil vezes. Estou bem de saúde, graças a Deus. Addio. Espero brevemente revê-las e falar-lhes em pessoa. Saudações a todos os nossos bons amigos e amigas.

39. [M]

(Post-scriptum.)

*Não tenho tempo de escrever muito. Nossas saudações a todos os nossos bons amigos.

Beijo mamãe e Nannerl muitas dezenas de milhares de vezes. Addio ⁷⁷ .

Segunda Viagem à Itália

Milão, Verona,

13 de agosto de 1771 — dezembro de 1771

(com seu pai)

40. À SUA IRMÃ. [M] ⁷⁸

(Post-scriptum.)

Verona, 18 de agosto de 1771.

Querida irmã,

Não tive mais do que meia hora de sono, porque acho difícil dormir depois das refeições. Podes esperar, crer, pensar, ter a opinião, alimentar a firme esperança, achar bom, imaginar, pensar, viver na convicção de que estamos bem de saúde; mas com segurança eu posso te dar esta notícia. *Preciso correr. Addio. Minhas saudações a todos os nossos bons amigos e amigas. Apresenta por mim meus votos de boa viagem ao Senhor Heffner; pergunta-lhe se não viu Annamindl⁷⁹

*Addio. Cuida-te bem. Beijo as mãos de mamãe. Que boa caligrafia!…

WOLFGANG.

41. À SUA IRMÃ [M]

(Post-scriptum.)

Milão, 24 de agosto de 1771.

Querida irmã,

Durante a viagem sofremos um calor terrível e fomos de tal forma atormentados por uma poeira impertinente que teríamos seguramente morrido abafados e esgotados se nosso espírito não fosse forte demais para isso. Segundo os milaneses, há mais de um mês que não chove aqui. Hoje começaram a cair algumas gotas, mas agora o sol voltou a brilhar e faz muito calor. Cumpra o que me prometeste (sabes bem o que, minha querida!), não deixa de cumprir, por favor! Ficarei muito agradecido. *Recentemente a princesa esteve indisposta; não tenho qualquer outra novidade. Escreva-me alguma coisa de novo! Saudações a todos os nossos bons amigos e amigas, beijo as mãos de mamãe*. Estou soprando de calor!

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