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Duração:
403 páginas
4 horas
Editora:
Lançados:
14 de dez. de 2015
ISBN:
9788582450130
Formato:
Livro

Descrição

Elas Empreendedoras é o primeiro livro brasileiro a explorar em profundidade o empreendedorismo feminino no pais, mas seu valor vai muito além do pioneirismo da abordagem. Para embasar sua obra, as autoras realizaram um extenso trabalho de pesquisa, que incluiu não apenas curso no exterior e comparação crítica de dados globais e locais, mas também a leitura de obras de referência e uma ampla sondagem com empreendedores de ambos os sexos, além de entrevistas em profundidade com especialistas do setor. Para coroar a riqueza desse estudo, 21 brasileiras de sucesso contam suas experiências sobre fundar e gerir um negócio próprio.
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14 de dez. de 2015
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9788582450130
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Livro


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Amostra do livro

Elas Empreendedoras - Bruna Villas Boas Diehl

conta.

O que é Empreendedorismo?

De certa forma, depende da época, instituição ou pessoa a quem se faça a consulta. Embora o empreendedorismo não seja novo como atividade nem como nomenclatura, o senso comum ainda prevalece sobre uma definição consensual. O Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) é o primeiro a reconhecer, em seu site: O conceito de empreendedorismo vem sofrendo constantes inovações. E haja inovação! Se, no início do século 19, o empreendedor era tão-somente o indivíduo capaz de mover recursos econômicos de uma área de baixa para outra de maior produtividade e retorno, no final da década de 1980 o estudioso norte-americano Robert Hirsch já definia o processo como a criação de algo diferente e com valor, ao qual o agente dedica tempo e esforço, assumindo os riscos financeiros, psicológicos e sociais correspondentes e recebendo as recompensas da satisfação econômica e pessoal.

O Global Entrepreneurship Monitor (GEM), ao qual já nos referimos na Introdução, adota a mesma linha do algo diferente de Hirsch: qualquer tentativa de criação de um novo negócio ou novo empreendimento, como, por exemplo, uma atividade autônoma, uma nova empresa ou a expansão de um empreendimento existente. Em qualquer das situações, a iniciativa pode ser de um indivíduo, grupos de indivíduos ou por empresas já estabelecidas. Para Marília Rocca, fundadora e conselheira do Instituto Empreender Endeavor, empreendedor é aquele que consegue fazer alguma coisa criativa com recursos limitados.

Hum… Vamos com calma. Será que basta uma tentativa e o indivíduo já está empreendendo? Ou, por outro lado, quando as pessoas criam uma padaria elas não são empreendedoras, uma vez que esse tipo de comércio já existe e, portanto, não configura algo diferente nem criativo?! Não nos parece que seja assim tão simples. No dicionário Houaiss, um dos mais respeitados do país, aprende-se que empreender significa decidir realizar tarefa difícil e trabalhosa, verdadeira pérola de desestímulo em seis palavras, por sorte amenizada na acepção seguinte, tentar, pôr em execução. Ufa. É de pôr em execução que trataremos aqui.

Por que é tão difícil definir empreendedorismo? Também para essa pergunta há muitas respostas possíveis. Entre elas: porque não se trata de uma ciência, porque a atividade evolui, porque com o tempo as visões se tornam mais complexas e refinadas e porque, como todo assunto em ebulição, também o empreendedorismo é alvo de estudos e debates na academia, no mercado, na política e na imprensa especializada, o que dificulta que se chegue a consenso. Empreender é administrar um negócio próprio. Porém, assim como a atividade que representa, também o conceito de empreendedorismo está em construção contínua – é a nossa sugestão de resposta. Mande a sua para o e-mail de contato informado na contracapa.

Independentemente de uma definição estruturada, porém, empreender ainda é um grande sonho nacional. Em janeiro de 2012, o jornal Folha de S.Paulo e a consultoria Box1824 conversaram sobre futuro profissional com 1784 jovens de 18 a 24 anos, das classes A até E, em 173 cidades de 23 Estados. E obtiveram as seguintes respostas: dos entrevistados, apenas 1% desejava ser funcionário público, músico, psicólogo e jogador de futebol; as carreiras tradicionais em Medicina, Engenharia e Direito atraíam 2% dos respondentes. Ter o próprio negócio levou 4% das preferências – nenhuma profissão obteve mais que a metade disso.

Três meses depois, em abril de 2012, quando o Datafolha entrevistou 2588 homens e mulheres de 161 municípios, descobriu que 60% gostariam de ter os próprios negócios, uma queda de dez pontos percentuais em relação a 2001, quando esse era o desejo de 70% dos pesquisados. O que poderia explicar a diminuição? Claramente, a alegria com o trabalho convencional: nada menos que três em cada quatro brasileiros estão felizes com seus empregos. A reportagem informa que, nos onze anos que separam os estudos do Datafolha, o rendimento médio das pessoas ocupadas cresceu mais de 60% acima da inflação, o receio de ser demitido caiu, a satisfação aumentou e tal contentamento é amplamente disseminado: atinge assalariados, empregadores, autônomos e informais. Os resultados estão na edição de 1º de maio do jornal.

Definir empreendedorismo é difícil, mas delinear o indivíduo tampouco é tarefa fácil. As características ideais também mudam conforme o autor, consultor ou professor. A partir de nossas leituras, pudemos relacionar as Top 15 da parada de sucessos do empreendedor: está em processo permanente de aprendizado, tem autoconfiança, coragem e ousadia, constrói e mantém uma boa rede de contatos, possui o desejo de realizar e a disposição para correr riscos calculados, conserva o ânimo mesmo perante adversidades, é hábil nas interações e relacionamentos, tem flexibilidade, competências de comunicação, inovação e criatividade, é perseverante e determinado, planeja (as finanças, as metas, a expansão e/ou as mudanças), consegue separar família e amigos dos negócios e tem talento para liderar.

Carlos Alberto Miranda, há doze anos envolvido no Programa Empreendedor do Ano da Ernst & Young Terco, contou à revista Pequenas Empresas Grandes Negócios de maio de 2010 que é frequentemente questionado sobre o que os empreendedores de maior sucesso têm em comum. Sua lista traz nove itens: saber aonde quer chegar (inclui tamanho da empresa e nicho a ser explorado); ter prontidão para reavaliar a estratégia (em resposta a um mundo em constante mudança); inspirar as pessoas certas (identificar e contagiar, com seus sonhos, os melhores indivíduos); desapegar-se (tem a ver com delegar e com a substituição de profissionais que não acompanham mais a empresa); criar uma rede de relacionamentos (não apenas para sugar, mas também para oferecer!); mostrar-se (ou seja, exibir o empreendimento para despertar o interesse de consultorias, bancos, fundos e investidores); ter olhos e ouvidos grandes (observa, escuta e faz perguntas, misturando autoconfiança com humildade); renovar-se (dar abertura a novas associações e olhar para os empreendedores emergentes, não só para os concorrentes diretos e empresas do nível acima); estar pronto para a chegada de sócios (como forma de melhorar a governança corporativa).

Menos citadas, mas em nossa visão igualmente importantes, são: capacidade de vislumbrar as oportunidades embutidas, disfarçadamente, nos problemas; intuição e sensibilidade; tolerância psicológica e financeira a períodos de baixo faturamento; uma pitadinha de desobediência às regras e doses industriais de sensatez, provavelmente o atributo mais imprescindível de todos, tanto no empreendedorismo quanto em qualquer outro aspecto da vida. É o uso intensivo do bom senso que evita que o empreendedor confunda risco com aposta, desafio com desvario e arrojo com doideira total.

Como este livro não se propõe a fornecer receitas, mas sim a apresentar ingredientes e sugerir pratos nutritivos e saborosos, esses 21 tópicos nem de longe pretendem esgotar o assunto. Eis por que não basta possuí-los para ser, automaticamente, um empreendedor: um indivíduo pode ter todas essas qualidades e ainda assim sentir-se perfeitamente feliz em um trabalho convencional na iniciativa privada ou no serviço público. Se o ambiente propiciar condições de evolução constante, se houver boa receptividade às suas iniciativas, se ele for orientado a metas e gozar de autonomia, poderá construir uma carreira bem-sucedida e gratificante trabalhando para terceiros até se aposentar. Um cenário desses, embora não seja a regra, também não é impossível, e a existência de tais profissionais nos leva à fundamental diferenciação entre ter espírito empreendedor e exercer atividade empreendedora. Gerir o próprio negócio, definitivamente, não é para todo mundo!

Todo mundo é uma abstração e, como tal, não pode refletir a realidade integral dos fatos. A humanidade é diversificada demais para ser encaixada em um único grande rótulo genérico. Mas talvez não seja exagero dizer que, sim, todo mundo tem pelo menos um tiquinho de espírito empreendedor. Até das pessoas mais acomodadas e menos ambiciosas, a vida contemporânea exige iniciativa, planejamento e ação, o tripé básico do empreender. Pense em uma reforma doméstica, na realização de uma viagem ou na constituição de uma família: são situações que demandam visão de longo prazo, organização para cuidar de cada etapa, gerenciamento de pessoas, tempo e recursos, antevisão das dificuldades, desenvolvimento de planos alternativos, administração do imponderável e exercício do autocontrole.

No campo específico do trabalho, espírito empreendedor é o que motiva um rapaz de poucas posses a fazer bicos aos finais de semana antes de pedir a noiva em casamento, e o que leva uma mãe de família a completar o orçamento doméstico com a venda porta a porta de cosméticos. Em camadas econômicas mais favorecidas, é ele que incentiva a busca por empregos de férias, cursos de verão, intercâmbios e as aulas de reforço escolar ministradas às crianças do condomínio. O noivo, a dona de casa e esses jovens de classe média estão empreendendo no momento, mas trata-se, em todos os casos, de atividades transitórias, que eventualmente serão descontinuadas quando o contexto mudar.

Ora, poderá pensar a leitora, mas se eles efetivamente têm comportamentos empreendedores, por que não os consideramos empreendedores de verdade, mas apenas imbuídos de espírito empreendedor? Muito simples, responderemos nós: pelo caráter passageiro de suas ações. Nesses exemplos, é provável que os indivíduos cedo ou tarde abandonem as empreitadas, seja por mudança de objetivos, pelo cumprimento das metas, por alterações no cenário, por quererem e/ou poderem. O espírito empreendedor veio, soprou neles motivação e garra, e partiu.

Nas mulheres que são retratadas nesta obra, ao contrário, o espírito empreendedor veio, plantou ambição, comprometimento de longo prazo e não partiu. Suas carreiras como empreendedoras não são um episódio nem uma fase, mas uma prática cotidiana e duradoura movida a inquietação, entusiasmo, ações e sonhos que, uma vez colocados em marcha, motivam o início de mais um ciclo virtuoso de desassossego, energia, execução e novos planos. A atividade empreendedora é o espírito que criou raízes.

Em solo nacional, essas raízes são profundas e sólidas. O Global Entrepreneurship Monitor trabalha com o conceito de TEA, Taxa de Empreendedores em Estágio Inicial, para designar, no total da população, a proporção de adultos entre 18 a 64 anos envolvidos em negócios próprios com até 42 meses de existência. No Brasil, a TEA de 2010 foi de 17,5%. É a mais alta desde o ano 2000, quando fomos incluídos entre as nações pesquisadas, e a maior entre os Bric (a sigla que identifica Brasil, Rússia, Índia e China). O GEM divide os países em três categorias, conforme o nível de desenvolvimento econômico. O Brasil é líder em seu grupo (chamados de impulsionados por eficiência e produção industrial em escala) e, em números absolutos, só fica atrás da China, onde 131 milhões de pessoas empreendem.

Nossos empreendedores somam mais de 21 milhões e se dividem em 10,4 milhões mulheres e 10,7 milhões homens. Existem menos brasileiras do que brasileiros à frente de negócios, mas isso não é demérito nem exceção: de fato, entre os 59 países pesquisados pelo Global Entrepreneurship Monitor, apenas em Gana, um pequeno país do noroeste africano, existem mais empreendedoras do que empreendedores. A mulher brasileira, afirma o relatório, é historicamente uma das que mais empreendem no mundo. Por causa disso, há pouca oscilação na participação feminina. Nos oito anos encerrados em 2010, a média foi de 47,6%, com um mínimo de 42,4% de representatividade (em 2002) e um pico de 53% (em 2009). Antes de conhecer esses números, você tinha alguma ideia de que as empreendedoras brasileiras fossem tantas assim?

Ok, então empreender não é para qualquer um, mas é para 21,1 milhões de brasileiros. Quem são eles? Empreender é para quem, afinal? Se você pensou para quem pode, errou feio. O privilégio da exclusividade não tem lugar nesta arena, e uma pista disso é que o estudo do empreendedorismo separa a atividade em duas categorias, e nenhuma delas se chama empreendedorismo por poder. Existe a modalidade que tem início porque o indivíduo percebeu uma oportunidade de mercado e a que surge de seu oposto, ou seja, da falta de horizontes. Essas duas motivações se chamam, respectivamente, empreendedorismo por oportunidade (empreende quem quer) e por necessidade (empreende quem precisa).

É fácil intuir que os negócios abertos por desejo têm muito mais probabilidade de alcançar sucesso do que aqueles fundados a partir do desespero de quem não encontrou vaga no mercado convencional de trabalho. Com a estabilidade econômica que o país alcançou e vem mantendo, os empreendedores por oportunidade se tornaram maioria em 2003, e desde então não perderam o pódio. Em 2010, data do último relatório disponível quando da publicação deste livro, mais uma vez superamos a marca de dois empreendedores por oportunidade para cada um por necessidade, como já havia ocorrido em 2008. É uma notícia animadora, que pode ser explicada por vários fatores, dos quais queremos listar três.

1. Em primeiro lugar, tem havido aumento na escolaridade da população. Quanto mais um povo estuda, mais propenso fica a empreender por oportunidade, porque, quanto mais conhecimento e informação um indivíduo tem, mais facilmente identifica brechas de mercado, anseios não atendidos, espaço para novidades – tudo que caracteriza essa motivação. Juntamente com o aprendizado formal, vêm o discernimento, a segurança e o arrojo, tão imprescindíveis à atividade. Embora a ocorrência de empreendedores por oportunidade tenha aumentado em todos os níveis de escolaridade, entre os que estudaram durante 11 anos existem 4,6 vezes mais empreendedores por oportunidade do que por necessidade. E, entre os que abriram um negócio porque viram ali uma chance de prosperar, 22,2% são pós-graduados. A relação entre estudo e empreendedorismo, portanto, vai além do E inicial.

O Instituto Empreender Endeavor foi quem realizou a parte brasileira do programa internacional Projeto de educação empresarial, comandado por docentes das universidades norte-americanas de Illinois e Wisconsin. Eis algumas conclusões que o estudo apontou, depois de ouvir 604 professores e estudantes de 16 universidades no Brasil: 31% se preparam lendo livros e se informando sobre negócios; 48,2% pensam em se tornar empreendedores; 52,8% veem o empreendedorismo com bons olhos; 66% já possuem ou gostariam de ter a própria empresa. A reportagem completa, Jovem quer curso para empreender, diz pesquisa, foi veiculada na edição de 8 de janeiro de 2012 no jornal Folha de S.Paulo.

2. Um segundo fator que favorece o empreendedorismo por oportunidade é a idade. O brasileiro empreende cada vez mais cedo e, como sabemos, os jovens têm por característica assumir riscos, um atributo indispensável à atividade empreendedora. Na edição de abril de 2011 da revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, os gráficos comprovam a juventude do empreendedor nacional. Em 2002, 17,2% dos empreendedores brasileiros tinham entre 18 e 24 anos; em 2009, o percentual havia subido mais de três pontos, para 20,8%. O grupo etário seguinte (25-34 anos) não apresentou aumento, mas vem mantendo, ano após ano, a maior fatia: sempre acima de 31%.

Na reportagem da revista, não há dados separados por gênero. Nós, porém, quando elaboramos nossa investigação, fizemos questão de perguntar qual o sexo do respondente, o que nos permitiu descobrir que a relação entre empreendedorismo e juventude é mais forte para o grupo feminino do que para o masculino. Em nosso universo (150 mulheres e homens ativamente envolvidos na administração dos próprios negócios), quando perguntamos que idade os entrevistados tinham ao empreender pela primeira vez, obtivemos as seguintes respostas:

Idade ao empreender pela primeira vez

Como a Pequenas Empresas Grandes Negócios trabalhou com faixas etárias diferentes daqueles que nós adotamos, não é possível fazer comparações diretas entre os gráficos da revista e os resultados do nosso estudo. Só o que podemos concluir é que, nos dois, a participação dos mais maduros é menor do que a fatia dos mais jovens. Entretanto, mais importantes do que a representatividade sejam, talvez, as outras particularidades desse grupo. A pesquisa que o Instituto Endeavor realizou em 2011 a pedido da Unctad (o braço da ONU que promove o comércio e o desenvolvimento) mostrou que, enquanto a falta de informação assombra as camadas mais jovens dos 25 aos 44 anos, nenhum empreendedor acima de 55 anos assinalou essa opção como obstáculo ou fonte de insegurança. Nossa leitura desse dado é que hoje em dia, com a informação igualmente disponível a todas as faixas etárias, as experiências anteriores e a rede de contatos jogam a favor dos que optam por abrir seus negócios um pouco mais tarde.

A vivência e o networking ajudam os que empreendem na fase madura, mas o frio na barriga não tem idade. Luciana Villas-Boas, com quem não temos relação de parentesco, tem 54 anos, dos quais 17 à frente da Record, o maior grupo editorial do país, com 7300 títulos em catálogo e cerca de 700 lançamentos por ano (sim, quase dois livros por dia!). Recentemente, ela se desligou da empresa, tornou-se agente literária, se associou ao noivo norte-americano e fundou a Villas-Boas & Moss. Considerada a mulher mais influente do mercado editorial brasileiro, ela declarou à revista Vogue Brasil de maio de 2012: Estou apavorada. Sou assalariada desde 1981. Pela primeira vez não vou ter renda fixa.

Portanto, mais tarde ou mais cedo, essa não é a questão. Em uma rara opinião consensual entre especialistas de todas as áreas, o melhor momento de empreender é definido em cinco palavras: quando o indivíduo está pronto – nem um ano antes, nem uma semana depois. Em novembro de 2011, o especialista em empreendedorismo Marcio de Oliveira Santos Filho, associado da Inseed Investimentos e coordenador do Desafio Brasil, publicou no portal da revista Exame um artigo defendendo exatamente isso. Como empreender pode provocar em sua vida uma mudança de 180 graus, é recomendável que antes de agir o potencial empreendedor concorde com pelo menos três das seguintes cinco questões:

a. Estou empreendendo porque identifiquei uma boa oportunidade de mercado e quero fazê-la dar certo. Não é apenas porque não gosto do meu chefe.

b. Tenho diversas características de um empreendedor, como autoconfiança, senso crítico e disposição.

c. Não preciso de uma estrutura fixa e estou pronto para abrir mão de um salário fixo.

d. Minha família está comigo na decisão e meu momento de vida permite que eu assuma mais riscos.

e. Estou desenvolvendo algo que atende uma necessidade real e está inserido em um mercado escalável.

3. Por fim, a Economia é o terceiro fator a influenciar o empreendedorismo: quanto mais frágil, maior a ocorrência de negócios surgidos da necessidade; quanto mais robusta, mais numerosos se tornam os empreendimentos por oportunidade. Dez anos atrás, o Brasil era o primeiro colocado no ranking de empreendedorismo por necessidade. De lá para cá, evoluímos muito! Em 2010, nosso PIB cresceu 7,5%, a renda aumentou, a desigualdade diminuiu (embora continue grande), o desemprego está baixo, a classe C se consolidou como grupo consumidor e já se fala em evolução do poder aquisitivo da classe D. Temos, nas palavras do GEM, um momento ímpar em termos de ambiente macro-econômico. O efeito que a pujança econômica tem sobre a atividade empreendedora pode ser observado, entre outros indicadores, no perfil dos cases que concorrem a prêmios. Em abril de 2011, reportagem do jornal O Estado de S.Paulo listava os finalistas do prêmio Ernst & Young Terco de empreendedorismo: quatro dos cinco estavam não apenas empregados, mas em bons momentos profissionais, quando decidiram abandonar seus empregos e empreender. Voltaremos a eles adiante.

Entre os 150 empreendedores que responderam ao nosso questionário, o cenário era semelhante: nada menos que 48,8% das mulheres e 53,3% dos homens estavam empregados, e decidiram deixaram seus trabalhos no mercado convencional para empreender. Vive-se no país, hoje, uma situação semelhante ao que a Europa e os Estados Unidos tiveram entre o fim da Segunda Guerra Mundial e a década de 1970, os famosos Anos Dourados: a formação de uma classe média significativa, desejosa e capaz de adquirir os mais variados bens e serviços. Desde os básicos, como alimentação e consultas ao dentista, até os mais sofisticados, como eletroeletrônicos, viagens de turismo e cirurgias estéticas.

É fato que o Brasil figurou em todos os anos do estudo entre os 13 países com a TEA mais alta dos 59 pesquisados, e é fato também que ficamos entre os 50% mais empreendedores mesmo se descontados os negócios motivados por necessidade. Está tudo muito bonito neste nosso jardim estatístico, mas, em meio à exuberância de boas notícias, subsistem desafios importantes. Na análise do GEM, o brasileiro não empreende porque é incentivado a isso, mas apesar de não ser! Novos negócios florescem graças à mentalidade predominante, graças ao ambiente sociocultural e ao mercado consumidor – a despeito dos enormes problemas que impactam direta e danosamente o ambiente de negócios, como política, infraestrutura e acesso a capital. Segundo a percepção de especialistas entrevistados pelo GEM, o país possui apenas cinco condições favoráveis ao empreendedorismo, de um total de 16 possíveis…

O que se pode concluir a partir do relatório é que os desafios são, no mínimo, tão grandes e importantes quanto os itens já consolidados. Estamos bem em oportunidades para empreender, capacidade e motivação, valorização da inovação, acesso à infraestrutura física (energia elétrica, água, gás, telefonia) e participação da mulher. Mas vamos mal em programas e políticas governamentais, em educação e capacitação, pesquisa e desenvolvimento, proteção ao direito intelectual e na infraestrutura comercial e profissional, entre outros. O ambiente geral é tão precário que, no relatório Doing Business 2012, que o Banco Mundial divulgou em novembro de 2011, o Brasil ocupava a posição de número 126 entre os 183 países pesquisados. Na América Latina, estão à nossa frente Chile (39º), México (53º) e Argentina (113º colocado); atrás de nós, vizinhos como Honduras, Equador, Bolívia e Venezuela.

Em 19 de fevereiro de 2012, o filósofo Hélio Schwartsman escreveu, em sua coluna na Folha de S.Paulo, sobre as agruras de se abrir uma empresa no Brasil: em 2007, eram necessários 152 dias e 15 carimbos; cinco anos depois, somente 119 dias e 13 procedimentos burocráticos. Um otimista poderia ressaltar que houve melhora, ainda que pequena; um pessimista talvez prevesse que, nesse ritmo, nem nossos bisnetos viverão em um país verdadeiramente competitivo. Nós, realistas, vamos nos ater aos fatos puros e duros de três critérios: registrar uma propriedade é grátis e leva dois dias, na Arábia Saudita, enquanto aqui é necessário pagar e aguardar 42 dias. No Japão, demora sete meses para suspender atividades e encerrar um negócio, mas a burocracia brasileira estica esse período para cerca de quatro anos. Na Nova Zelândia, abrir um negócio leva um dia; no Brasil, pelo menos 120.

Burocracia não é uma desculpa-padrão esfarrapada e conveniente, usada pelos preguiçosos e apressados: é o avassalador conjunto de documentos, tempo e dinheiro necessário à abertura de um negócio. Eis um exemplo, relativo à cidade de São Paulo, alvo de uma extensa reportagem do mesmo jornal em 13 de maio. Antes de inaugurar um restaurante, o empreendedor deve sobreviver a dez etapas. Acompanhe:

1.Saber se o imóvel tem planta aprovada na prefeitura e autorização de ocupação (o Habite-se) para uso comercial.

2.Checar junto à prefeitura, por meio de um termo de consulta, se a área desejada permite a atividade.

3.Contratar um contador para fazer cadastros na prefeitura.

4.De posse de documentos pessoais e do imóvel, elaborar o contrato social.

5.Solicitar o CNPJ na Receita Federal.

6.Solicitar a inscrição estadual na Secretaria da Fazenda.

7.Fazer a inscrição municipal no Cadastro do Contribuinte Mobiliário.

8.Pagar para receber a fiscalização e ter o estabelecimento avaliado.

9.Depois de acertados todos os itens anteriores, requerer a licença provisória de funcionamento.

10.Obter junto aos Bombeiros um laudo sobre a existência e adequação de extintores e rotas de fuga.

O jornal completa a matéria com dados sobre o setor de alimentação no Brasil. Cinco anos (cinco anos!) é o tempo de espera por um alvará definitivo de funcionamento. Entre emissão de documentos, taxas para obtenção de licenças, laudos de vistoria e elaboração de plantas, o custo varia de R$ 10 mil a R$ 15 mil. Metade dos restaurantes e bares do país deixam de cumprir ao menos uma das regras sanitárias que existem. Por fim: de cada cem bares e restaurantes que são abertos, 35 fecham em um ano, 50 fecham em dois anos e 75 fecham em cinco anos. (Provavelmente, sem o alvará, suspeitamos nós…)

São Paulo, pelo menos, está tentando diminuir esse período. Em 18 de maio de 2012, o governo estadual anunciou um pacote de medidas para pequenas e microempresas que, entre outras coisas, promete reduzir para 15 dias o tempo necessário à abertura de uma empresa, por meio de um portal chamado Via Rápida Empresa. Além de diminuir a papelada e acelerar o andamento dos processos, o projeto prevê investimentos de R$ 329 milhões em duas linhas de crédito e a integração do sistema de compra e venda de pequenos empresários.

Enquanto os empreendedores se queixam e o poder público promete, devemos reconhecer que nem todos os entraves podem ser atribuídos a fatores externos. No livro Empreendedorismo na veia (Elsevier Editora, 2008), Rogério Cher explora o que chama de nítida relação entre fracasso e falta de experiência no ramo. Ele reforça a importância das vivências anteriores na identificação de oportunidades, na velocidade de construção de uma boa rede de contatos e no aproveitamento que a familiaridade com o setor propicia quanto ao mercado, fornecedores, legislação e expectativa dos clientes. Lembra-se das doses industriais de bom senso que mencionamos antes? Pois é. Nós concordamos com o autor: empreendedores que se atiram ao mar do desconhecido têm sua parcela de responsabilidade pelos negócios que afundam. E temos dito.

Entre os 150 empreendedores que entrevistamos, 51,4% das mulheres e 66,7% dos homens apontaram experiência anterior como um dos aspectos que mais contribuíram para que se lançassem nos próprios negócios. Graças a esse conhecimento prévio, o maior desafio que enfrentaram ao começar não teve relação com o mercado, o cliente nem a distribuição, pois esses eram conhecimentos já adquiridos. A maior preocupação foi com a instabilidade financeira à qual estariam sujeitos durante a fase de maturação de seus empreendimentos – uma demonstração prática, em primeira pessoa, da tese apresentada por Rogério Cher. Experiência importa sim!

Empreendedores não são pessoas especiais. Podem apresentar um perfil de traços específicos, mas continuam sendo humanos, com tudo de maravilhoso e contraditório que o conceito engloba. Quando criticam o ambiente, as leis e o governo, esses indivíduos não são exatamente um exemplo de coerência entre praticar e cobrar. Em fevereiro de 2010, a revista Pequenas Empresas Grandes Negócios trouxe a matéria Com o que sonham os empreendedores do país, resultado de uma pesquisa que o Instituto Qualibest realizou com 500 indivíduos de Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Conclusão? Os brasileiros querem fazer o que gostam e têm pressa de realizar a meta, mas investem pouco na preparação para concretizá-la. Hum…

Está explicado, ao menos em parte, o nível de mortalidade dos novos negócios. Juntando o que nos contou no final de 2011 o consultor do Sebrae Renato Fonseca, a matéria As lições de quem recomeçou do zero, que saiu em uma edição de O Estado de S.Paulo em julho do mesmo ano, com o que o site Papo de Empreendedor publicou em março também de 2011, temos que: no Brasil, de cada dez empresas abertas, seis fecham as portas antes de completar cinco anos; das 20 mil empresas abertas todos os meses só no Estado de São Paulo, mais de um quarto, ou 27%, não chegam a completar um ano. E as causas são, nesta ordem: falta de planejamento, deficiências variadas na gestão, comportamento empreendedor baixa intensidade, políticas públicas de apoio insuficientes, influências da conjuntura econômica e problemas pessoais dos empreendedores.

Embora o conceito de comportamento empreendedor de baixa intensidade não esteja definido, nós acreditamos que ele seja o resultado da soma de dedicação insuficiente, carência de comprometimento, déficit de iniciativa e pouca persistência.

Na mesma edição do jornal paulistano, o quadro Erros mais comuns alerta para os cinco pontos mais negligenciados por novos empreendedores. Listas assim abundam na mídia especializada e nos livros sobre empreendedorismo, e podem ser encontradas sob os mais variados títulos numéricos: os sete pecados, os dez lapsos, as 12 armadilhas, os 15 tropeços, os 20 enganos, as 99 falhas… A leitura do erro alheio pode ser estimulante como fonte de ideias e como sinal de alerta contra os deslizes mais frequentes. Por outro lado, ao refletirmos com atenção sobre cada tópico, muitas vezes descobrimos que o que elas recomendam é o básico do que dita o bom senso: cuidado na seleção dos sócios, dos fornecedores e dos funcionários; conhecimento atualizado do mercado e do público-alvo; reserva financeira; gestão de qualidade; atenção à concorrência; abertura para mudanças e melhorias.

Com menos frequência se encontram dados animadores a respeito da sobrevida das novas empresas, e no Estado de S.Paulo de 23 de outubro de 2011 tivemos um desses raros momentos. Em uma pequena nota, com o autoexplicativo título de Estudo do Sebrae aponta que subiu o nível de sobrevivência entre as pequenas e micro, aprendemos que esse índice vem melhorando, ainda que devagar. Diz a notícia: As pequenas e microempresas de São Paulo estão mais saudáveis, aponta o mais recente estudo do tema feito pelo Sebrae. O nível de sobrevivência dos empreendimentos subiu de 74,4% para 77%. Isso quer dizer que a cada cem empresas abertas em 2006 (ano usado como referência), 77 continuaram em atividade após dois anos – considerados os mais críticos, de acordo com especialistas.

Entre enganos e acertos, estudando o assunto vê-se que mesmo os empreendedores experientes não estão livres de cometer erros que, olhados em retrospecto, parecem banais e perfeitamente evitáveis. Selecionamos dois casos da reportagem Onde foi que eu errei?, da edição de junho de 2011 da revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, para compartilhar aqui. No primeiro, o fundador da rede Morana de bijuterias abriu a marca Balonè, voltada a crianças e adolescentes entre oito e 16 anos. As clientes compravam menos do que ele esperava, e a lucratividade só veio com a mudança de foco para o público dos 18 aos 30. No segundo caso, um empreendedor sem experiência no ramo de cosméticos supôs que as consumidoras adorariam frascos maiores de esmalte. Lançou embalagens com mais do dobro da quantidade habitual, insistiu por cinco anos, mas só obteve sucesso quando passou a envasar o produto nos vidrinhos tradicionais.

Curiosamente, empreendedores que acertaram logo de cara também agiram de maneiras que podem parecer arriscadas e irresponsáveis. A descoberta é de Saras Sarasvathy, Ph.D em Sistemas de Informação, especialista em empreendedorismo, professora da Darden School of Business (no Estado norte-americano da Virgínia) e autora do livro Effectuation: elements of entrepreneurial expertise (editora Edward Elgar, 2007; ainda sem tradução no Brasil). Perguntada pela Pequenas Empresas Grandes Negócios de outubro de 2010 como prever se uma ideia de negócio vai mesmo dar certo, ela respondeu: Aposte no que você sabe fazer, não em pesquisas de mercado.

Não se trata de

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O que as pessoas acham de Elas Empreendedoras

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