Aproveite milhões de e-books, audiolivros, revistas e muito mais, com uma avaliação gratuita

Apenas $11.99 por mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

O que é morte
O que é morte
O que é morte
E-book71 páginas50 minutos

O que é morte

Nota: 5 de 5 estrelas

5/5

()

Ler a amostra

Sobre este e-book

A morte, única certeza que temos na vida, é quase sempre tratada num tom solene, pesado, temeroso. Num enfoque diferente, este ensaio de José Luiz de Souza Maranhão aborda, de forma crítica e provocante, questões importantes como a "repressão da morte" na sociedade capitalista, a abreviação e o prolongamento da vida, as concepções filosóficas a respeito do morrer, e o tabu da morte como estratégia para mascarar o sistema de injustiças sociais.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento8 de set. de 2017
ISBN9788511350869
O que é morte
Ler a amostra

Relacionado a O que é morte

Ebooks relacionados

Categorias relacionadas

Avaliações de O que é morte

Nota: 5 de 5 estrelas
5/5

1 avaliação0 avaliação

O que você achou?

Toque para dar uma nota

A avaliação deve ter pelo menos 10 palavras

    Pré-visualização do livro

    O que é morte - José Luiz de Souza Maranhão

    livro.

    Não se morre mais como antigamente

    Eu quero a morte crua e nua com o seu velório habitual.

    Pedro Nava

    A pessoa que pressentia a proximidade do seu fim, respeitando os atos cerimoniais estabelecidos, deitava-se no leito de seu quarto donde presidia uma cerimônia pública aberta às pessoas da comunidade. Era importante a presença dos parentes, amigos e vizinhos e que os ritos da morte se realizassem com simplicidade, sem dramaticidade ou gestos de emoção excessivos. O moribundo dava as recomendações finais, exprimia suas últimas vontades, pedia perdão e se despedia. O sacerdote comparecia: era tempo agora de esquecer o mundo e de pensar em Deus. O moribundo se confessava e, se tal fosse possível, fazia uma confissão geral. Recebia a comunhão, dada como alimento para a viagem. Em seguida, o sacerdote ministrava a extremaunção, o sacramento da partida: Por esta santa unção e pela dulcíssima misericórdia, Deus te perdoe tudo o que fizeste de mal, com os olhos, com os ouvidos, com a língua […]. Enfim, quando se aproximavam os últimos momentos, a comunidade recitava as orações dos agonizantes.

    Imediatamente após a morte, os familiares — observando religiosamente os costumes — fechavam as janelas, acendiam as velas, aspergiam água benta pela casa, cobriam os espelhos, paralisavam os relógios. Os sinos dobravam… O corpo do defunto era objeto de alguns cuidados especiais: banhado, unhas e cabelos aparados, vestido e coberto pela mortalha. Com os dedos das mãos entrelaçados e envoltos por um rosário, o defunto ficava exposto sobre uma mesa e, durante dois ou três dias, seus parentes e amigos, com vestimentas de luto, desfilavam diante dele para o último adeus.

    No dia do enterro, o defunto era acompanhado por todos os seus conhecidos, que vinham de novo para escoltá-lo em sua última viagem. Lenta e cuidadosamente, a procissão fúnebre atravessava o espaço no qual ele vivera. Chegando à igreja, era submetido aos ritos necessários à sua purificação e encomendado para facilitar a sua passagem dessa comunidade para uma outra, a dos anjos e santos.

    Da igreja o defunto era conduzido ao cemitério, a sua última morada, onde, mais tarde, receberia visitas mais ou menos frequentes que depositariam flores sobre seu túmulo, sinais de que ele não seria definitivamente esquecido.

    As manifestações de luto (vestimentas negras, não participação da vida social e inúmeras outras interdições), expressão da dor das saudades e do dilaceramento da separação, eram escrupulosamente respeitadas por um período necessário para a cicatrização da ferida e para a reintegração dos parentes às condições normais de vida.

    Desse modo se morreu durante séculos. De cinquenta anos para cá, as atitudes do homem ocidental perante a morte e o morrer mudaram profundamente, ocorrendo uma verdadeira ruptura histórica. Evidentemente, muitos traços ainda lembram os antigos costumes, porém, o seu sentido original foi esvaziado. A morte, tão presente, tão doméstica no passado, vai se tornando vergonhosa e objeto de interdição.

    No espaço destas últimas cinco décadas assistimos a um fenômeno curioso na sociedade industrial capitalista: à medida que a interdição em torno do sexo foi se relaxando, a morte foi se tornando um tema proibido, uma coisa inominável. A obscenidade não reside mais nas alusões às coisas referentes ao início da vida, mas sim aos fatos relacionados com o seu fim. Uma verdadeira inversão. Atualmente, existe a preocupação de iniciar as crianças desde muito cedo nos mistérios da vida: mecanismo do sexo, concepção, nascimento e, não tardará muito, também nos métodos de contracepção. Porém, se oculta sistematicamente das crianças a morte e os mortos, guardando silêncio diante de suas interrogações, da mesma maneira que se fazia antes quando perguntavam como é que os bebês vinham ao mundo. Antigamente se dizia às crianças que elas tinham sido trazidas pela cegonha, ou mesmo que elas haviam nascido num pé de couve, mas elas assistiam, ao pé da cama dos moribundos, às solenes cenas de despedida. Hoje, recebem desde a mais tenra idade informações sobre a fisiologia do amor, mas quando se surpreendem com o desaparecimento do avô, alguém lhes diz: Vovô foi fazer uma longa viagem, ou: Está descansando num bonito jardim. As crianças já não nascem em couves, porém, os velhos desaparecem entre as flores.

    A permanente popularidade dos filmes de terror e o aparecimento de

    Está gostando da amostra?
    Página 1 de 1