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Irmandades negras: memórias da diáspora no sul do brasil

Irmandades negras: memórias da diáspora no sul do brasil

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Irmandades negras: memórias da diáspora no sul do brasil

Duração:
408 páginas
5 horas
Lançados:
1 de jan. de 2016
ISBN:
9788547300869
Formato:
Livro

Descrição

O trabalho de Karla Leandro Rascke nos traz, por meio do estudo das festas, procissões e celebração da morte na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, formas de organização, espaços de sociabilidade, modos de celebrar a vida e a morte de populações de origem africana, entre a Abolição da Escravatura e a destruição do último grande reduto africano oitocentista, o bairro da Figueira, na zona portuária da velha Desterro, agora Florianópolis (1940).

[...] Sem a pretensão de guiar o leitor pelos caminhos deste texto sensível, quero apenas deixar aqui o meu agradecimento a esta gentil historiadora, companheira de tantas vitórias e um sem número de sofrimentos. Em suas mãos, a memória de nossos mortos ganha um valor incrível, suas lutas e artimanhas de sobrevivência ganham a dimensão de embates, confrontos contra a sanha, ora modernizadora, ora romanizadora, ora racista, sempre colonialista. Em suas letras, africanos e seus descendentes emergem como sujeitos, atores do seu próprio tempo.



Paulino de Jesus Francisco Cardoso



Enquanto locais de culturas negras, as Irmandades atribuíram visibilidade a ações organizativas de grupos negros na contramão da sociedade colonial escravagista, desde seus primórdios, e viabilizaram meios de preservar discreta e dissimuladamente solidariedades na diáspora, sustentando redes de contato e comunicações, como ajuda mútua entre seus membros. Manter encontros entre escravizados fora alcance de seus senhores, abrindo espaços religiosos susceptíveis a mesclas de traços litúrgicos, a Igreja Católica assegurou viveres em condições traumáticas da vida colonial e do Império.



Maria Antonieta Antonacci
Lançados:
1 de jan. de 2016
ISBN:
9788547300869
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Irmandades negras - Karla Leandro Rascke

Editora Appris Ltda.

1ª Edição – Copyright© 2016 dos autores

Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98.

Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores.

Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010.

COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS

À minha família.

Aos meus amigos queridos.

Ao NEAB-UDESC.

À PUC-SP.

AGRADECIMENTOS

Agradecer significa, neste momento, um gesto singelo diante de todo apoio recebido de pessoas maravilhosas, atenciosas e cuidadosas com as quais convivi durante todo o tempo de realização desta obra. Agradeço a todos que me acompanharam nessa trajetória, nas escolhas, em muitas dificuldades e também nas inúmeras conquistas.

Tenho dois exemplos e parceiros incansáveis, amados e orgulhosos desta pequena aqui. Meus pais, Albertino e Florentina, são incríveis e a eles devo a vida, os sonhos e a confiança sempre presente. Amo vocês!

A família, cada dia mais extensa, faz parte desta conquista, e não poderia deixar de agradecer aos meus irmãos, Antonio Carlos e Kele, minhas cunhadas, meus cunhados, amigos, sogra Neli, sogro, avós... e a lista vai longe. Em especial, agradeço ao companheiro que comigo divide a experiência quotidiana do crescimento em família, Maiko Ademir Nunes. Obrigada também por nossas discussões profícuas e calorosas sobre ciência. Nosso aprendizado é conjunto.

Há pessoas que, simplesmente, encontramos, conhecemos e mudam nossa vida. Christiane Gally, nos encontramos assim... como eu nem sei explicar! E, com sua solidariedade, carinho e hospitalidade, cumpri uma etapa importante na trajetória de consolidação dos dois anos do mestrado. Você é mais que especial! Além disso, pude conviver com duas pessoas lindas, Marianne e Antonio, simplesmente, maravilhosos, à época ainda crianças. Muito obrigada por tudo!

Nada disso seria possível, também, sem o apoio de um incansável amigo que cedeu parte de suas horas de sono para me auxiliar nesses roteiros da vida acadêmica: Cláudio Macedo, muitíssimo obrigada! Você e Samara Lopes são duas pessoas incrivelmente parceiras e solidárias!

Outras pessoas foram aparecendo também, não é Helenice Dias e Heitor Loureiro!? Agradeço imensamente o carinho e a receptividade de vocês, sempre disponíveis. Obrigada! Esticando, agradeço aos colegas de turma, com as quais pude vivenciar momentos, discussões e experiências exitosas e inesquecíveis: Reginaldo Gomes, Danilo Luiz Marques, Tatiane Teixeira, Talita dos Santos Molina, Camila Petroni, Henry Nakashima, Isabela Camargo, Egnaldo Rocha, Fábio Antonio Costa, Maria Nicolau, Tiago Santos Salgado, Sandra Portuense, Luiz Felipe Foresti, Joilson Andrade Silva, Juliana Monteiro, Fabiana Vieira, Davi Rodrigues e Rudá Andrade. Saudades de todos vocês!

Agradeço a todas as oportunidades, conhecimento e crescimento possibilitado pela PUC-SP, pelas bolsas CAPES e CNPQ concedidas e que auxiliaram de maneira fundamental para a concretização deste livro. Agradeço, também, à universidade, pelas disciplinas, e a todos os professores com os quais tive contato, em especial, minha orientadora, a Prof.ª Dr.ª Maria Antonieta Martines Antonacci. A ela sou eternamente grata, pois a cada texto, discussão, palavra sua, eu pude enxergar o que meus olhos ocidentais nem sempre permitiam ver. Aprendi, reaprendi, sonhei e – espero – consegui vislumbrar horizontes e possibilidades por caminhos apresentados pela encantadora, atenta e paciente professora Antonieta. Sou imensamente grata!

Não poderia deixar de mencionar dois professores, também muito especiais, que contribuíram na qualificação desta obra: Prof. Dr. Ênio José da Costa Brito, da PUC-SP, e o Prof. Dr. Paulino de Jesus Francisco Cardoso, da UDESC, com a qual tenho carinho especial e pude conviver enquanto aluna, orientanda e bolsista. Muito obrigada!

Há também aqueles e aquelas que nos acompanham durante as diferentes etapas de nossas vidas, às vezes longe, às vezes perto, presencialmente. Essas pessoas estão conosco e fazem parte de nós, em especial as negas velhas do NEAB-UDESC e muitas e muitos que por lá passaram, pessoas com as quais cultivo amizade, admiração, projetos de vida e sonhos: Graziela dos Santos Lima, Ticiane Caldas, Renata Schllickmann, Carol Carvalho, Priscila Freitas, Willian Lucindo, Júlio Cesar da Rosa, Mariana Schllickamnn, Adriana Maria da Silva, Maria Gerlane Santos, Camila Evaristo da Silva, Ana Júlia Pacheco, Thaís Carvalho, Juliana Krauss, Eduarda Gaudio, Maristela Simão, Ângelo Renato Biléssimo, Michelle Stakonski, Renata Garcia, Tamelusa Ceccato Amaral, Aline Lelis, Aline Dias, Lêda Batista, Maria Carolina Eli, Vinícius Gomes, Fábio Amorim, Mariana Heck, Íris Palo, Bruno Cerino, Evita Gomes, Franciéle Garcês, Beatriz Delfino, Lisandra Pinheiro, Eloisa Gonzaga, Fernanda Sousa, Amabile Costa, Simone Carvalho, Carina Santiago, Daiana Breternitz, Natasha Bramorski, Felipe Rodrigues, Gabrielli Debortoli, Salete Pompermaier, Mariah Amanda, Mariana Heck, Cristiane Mare da Silva, Camilo Evaristo da Silva, Jainara Cristina dos Santos, professores Paulino de Jesus Francisco Cardoso, Neli Góes Ribeiro, Maria Aparecida Clemêncio, Vera Márcia Marques, Lia Vainer Schucman, Cláudia Mortari e Luisa Wittmann. Obrigada pela longa e prazerosa parceria!

Finalizando, mas enfatizando grande importância, agradeço à Editora Appris, pela oportunidade de publicação desta obra e a todos os locais de pesquisa que me permitiram acesso às fontes deste trabalho: Casa da Memória, Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina, Arquivo Histórico da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Biblioteca Nacional, Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB-UDESC) e, especialmente, a Irmandade Beneficente Nossa Senhora do Rosário e São Benedito de Florianópolis. Um agradecimento caloroso pela possibilidade de conhecer novos caminhos trilhados por homens e mulheres dessa cidade. Aproveito para dirigir minhas palavras de afeto, carinho e imensa gratidão às pesquisadoras que disponibilizaram material de pesquisa antes localizados, digitalizados e transcritos por elas: Prof.ª Dr.ª Cláudia Mortari, Prof.ª Ms.ª Maristela dos Santos Simão e Prof.ª Ms.ª Michelle Maria Stakonski.

Sem mais delongas, agradeço a todas e todos, que de um modo ou de outro, contribuíram para a realização desta obra. Obrigada!

APRESENTAÇÃO

Uma história de muitas Domingas, Joãos e Marias

Faz pouco mais de 20 anos quando pela primeira vez resolvi estudar irmandades negras em nosso país. Para quem passa pelo Largo do Paissandú, atual centro de São Paulo, não tem como não se encantar com o templo amarelo, marcando, com sua altiva presença, a capital paulista. Daquele conjunto histórico, é impossível não reter a atenção à estátua modernista, com seu pé gigante, em homenagem à Mãe Preta, rodeada de velas acesas deixadas por devotos das muitas santidades que ela representa.

De lá para cá, muito se pesquisou sobre aquela e outras irmandades. Nós mesmos nos perdemos em anos e anos de transcrição paleográfica dos livros da Irmandade do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. Parecia carma de iniciante, entre elas, Karla Rascke. Alguém pode se perguntar se o tema já não está batido, cansado, ele próprio, de ser estudado.

Entretanto, nas mãos generosas de Karla Rascke, colona teuto-brasileira de nascimento e antirracista por devoção, o que salta aos olhos é a grandeza de uma cidade marcada pelo vai e vem dos dorsos afros que trabalham. Em suas milhares de linhas nos encantamos com uma forte presença africana, cujas vidas por muitos anos estiveram perdidas para nós por conta de um profundo compromisso da historiografia catarinense (e brasileira) com um projeto de memória institucional, que pratica o nosso esquecimento como marca do estado que se queria o mais europeu do país.

Em suas letras se vê quem compartilha com aqueles africanos e seus descendentes, livres, libertos e cativos, a consciência do trabalho árduo, o peso da dependência do trabalho doméstico. Converte repulsa em simpatia, explora a lembrança viva dos cansaços como generosidade para com os mortos, aqueles, como nos dizia Edu Lobo, que têm por monumento as pedras pisadas do cais. Esses homens e mulheres, em suas fainas diárias, têm muito a nos dizer sobre Desterro/Florianópolis e as experiências vividas.

Ela traz, por meio do estudo das festas, procissões e celebração da morte na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, formas de organização, espaços de sociabilidade, modos de celebrar a vida e a morte de populações de origem africana, entre a Abolição da Escravatura e a destruição do último grande reduto africano oitocentista, o bairro da Figueira (1940), na zona portuária da velha Desterro, agora Florianópolis.

Seu esforço é para pensar as experiências das populações afros, nos seus próprios termos, não em uma cultura congelada, essencializada, racializada, mas como elaboração/reelaboração de tradições herdadas, compartilhadas, ressignificadas. Leitora de Maria Clementina Pereira Cunha, Karla, com suas palavras, busca compreender as expectativas de africanos, afrodescendentes, vislumbrando costumes e linguagens enquanto práticas culturais de sujeitos históricos cujas formas de vida eram celebrativas.

Mas é no cuidado com os mortos que ocorrem os impactos das intervenções urbanas, em especial, a mudança do Cemitério do Morro do Vieira, na cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz, para o distante Bairro do Itacorubi, muito além da Pedra Grande, e nas imediações das Três Pontes no caminho que ia para o norte da Ilha e Morro do Padre Doutor, em direção à Lagoa da Conceição. Qual o impacto nas práticas de encomendar e celebrar as almas dos irmãos falecidos? Fico a imaginar o horror da inumação dos entes queridos.

Sem a pretensão de guiar o leitor pelos caminhos deste texto sensível, quero apenas deixar aqui o meu agradecimento a esta gentil historiadora, companheira de tantas vitórias e um sem número de sofrimentos. Em suas mãos a memória de nossos mortos ganha um valor incrível, suas lutas e artimanhas de sobrevivência ganham a dimensão de embates, confrontos contra a sanha, ora modernizadora, ora romanizadora, ora racista, sempre colonialista. Em suas letras, africanos e seus descendentes emergem como sujeitos, atores do seu próprio tempo.

Paulino de Jesus Francisco Cardoso.

Doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB-UDESC) e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) (ABPN).

PREFÁCIO

Irmandades Negras: lugares de memórias comunitárias

Divertem-se então à sua maneira advém de perene pesquisa em acervo da Irmandade Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, de Florianópolis, digitalizado e organizado por bolsistas do NEAB/UDESC, onde a autora ingressou em 2006. Documentos desse ponto de cultura negra e registro de viveres e fazeres comunitários de africanos e descendentes na região – sustentando sua espiritualidade festiva, celebrações públicas e rituais de morte, suprindo suas carências em termos de escolarização e assistência social –, mesmo sob tutela da Igreja Católica, dizem muito sobre universos culturais que não se dobraram a poderes senhoriais, como Karla apreendeu na pesquisa.

Daí a relevância da publicação de seu mestrado, leitura envolvente, em dinâmica crítica, renovando balizas históricas sobre viveres e fazeres de populações negras, em região até então conhecida por valores, tradições, falares de portugueses, açorianos e alemães. Com densa pesquisa e contribuições para estudiosos de várias áreas, principalmente aos que hoje se envolvem e contribuem a expandir diretrizes da Lei Federal 10.639/2003, seu estudo advém de mergulho na expressiva presença física e cultural de africanos escravizados, em região sintomaticamente aberta à colonização alemã, maquiando, nublando o legado de vibrantes povos de culturas negras.

Além acervo da Irmandade, recorrendo a outros registros sensíveis a viveres africanos em Florianópolis, seu estudo configura presenças, passagens e trajetos de homens e mulheres negras, com suas vestes, costumes, obrigações e condutas, em vida urbana remodelada no início da República e tendo, como base histórica fundamental, dinâmicas da Irmandade após a abolição. Usufruindo e contribuindo com estudos de Irmandades Negras no Brasil, de seus recortes emergem ofícios e habilidades de grupos africanos, projetando seus valores em formas de organizarem-se e ocuparem ruas e espaços públicos em dias festivos de reminiscências e devoção a seus santos.

Ao som de foguetes, músicas, cantorias, rezas, água benta e bênçãos da Igreja, africanos e descendentes compartilhavam suas tradições já entre-lugares, negociando enredando significantes de seus cosmos e matrizes culturais no âmbito de um catolicismo popular que, nas condições de rompimento radical com seus laços de parentesco, suas linhagens e expressões culturais, lhes permitia reatar, subliminarmente, tempos e espaços comunitários; além de respaldar, de modo liminar, representações de seus universos cósmicos¹ em procissões, festejos, enterros de seus irmãos.

Sob o poder eclesiástico e o manto de seus santos padroeiros, escravizados fizeram do ritual de procissões e de enterro de seus irmãos, encenações de suas visões de mundo e comunitárias concepções de vida e morte, no alcançável de representação política. Sem apelos discursivos, em um só ato figurativo, na montagem do cortejo, ordenando o potencial comunicativo de suas performances em corpos flagelados, na maestria de seus saberes e poderes audiovisuais enunciavam seus modos de ser e marcar emergências em espaços públicos, politizando procissões e rituais de vida e morte.

Enquanto locais de culturas negras, as Irmandades atribuíram visibilidade a ações organizativas de grupos negros na contramão da sociedade colonial escravagista, desde seus primórdios, e viabilizaram meios de preservar discreta e dissimuladamente solidariedades na diáspora, sustentando redes de contato e comunicações, como ajuda mútua entre seus membros. Manter encontros entre escravizados fora alcance de seus senhores, abrindo espaços religiosos susceptíveis a mesclas de traços litúrgicos, a Igreja Católica assegurou viveres em condições traumáticas da vida colonial e do Império.

E nas Irmandades que perduraram na República, como na de Florianópolis, registrou memórias dos não menos difíceis viveres urbanos de irmãos negros, com seus circuitos por cidade em vias de empurrá-los a periferias, como a precários serviços.Uma Igreja Católica de conformação social, então distanciada da estruturação binária da sociedade colonial, sustentou períodos e espaços de ações comuns entre setores da população negra em Florianópolis. Na escrita de seus livros, sob análise de Karla, tornam-se perceptíveis irmãos e irmãs movendo-se naqueles caminhos de cristianização e salvação republicana, quando horrores do escravismo continuavam rondando o povo negro, então em luta frente ao descarte de seus corpos negros abolidos de direitos em República das Letras.

Não ao acaso, sinais de desencontro da Irmandade dos Homens Pretos de Florianópolis frente protocolos da Igreja Católica advieram de pretensões de autoridades religiosas ampliarem poderes, interferindo em seus cotidianos e mesmo em suas festas e cortejos conformados em alas, quando o povo negro emergia para ocupar ruas e desfilar em procissões, celebrações e enterros de seus irmãos sob seus preceitos. Tentativas de alterar suas conformações na vida pública republicana, ameaçando a autonomia de suas formas de representação e perturbando seu enunciado performático com valores alheios aos seus, dispensaram a sagrada proteção da Igreja em séculos de escravismo.

Resguardando suas escritas performáticas² em em manifestações públicas, com suas linguagens simbólicas em postulados próprios, expressaram sociabilidades comunitárias na contramão do individualismo racional expansivo, de poderes do sistema republicano. Afastando-se da tutela da Igreja, irmanaram-se com autonomia cultural.

As Irmandades Negras e suas formas lúdicas e sagradas de celebrar, sob suas dinâmicas, a vida e a morte, precisam ser retomadas, continuamente, para arrancá-las do exótico e do folclórico a que foram relegadas. Já em relação ao expressivo Divertem-se então à sua maneira, de relatos do viajante russo Langsdorff, acompanhando festas negras de ano novo (1804), em Desterro, importa lembrar estudos de povos africanos em diáspora, do atento antropólogo Fernando Ortiz, diante arranjos culturais negros em Cuba.

Estudando expressões afro-cubanas, Ortiz registrou suas sensibilidades culturais, apreendendo que festas e

música negra, conjuntamente com o canto, o baile e a mímica, é arte para algum motivo socialmente transcendental. Tem um propósito de função coletiva; uma ação, não uma distração [...] à margem da vida cotidiana.³

A conjugação de sensações físicas e espirituais oriundas de seus vibrantes encontros, marcados por percussões rítmicas, vocais e gestuais traduz sentido de arte socialmente transcendental, em propósito de função coletiva, constituindo uma ação mais que uma distração. Esse ir além vida material, além indivíduo ou individualidade, no avesso de viveres isolados, remete a fazeres em irmandade ou outros meios gregários, permitindo perceber quão distantes de vida mundana do Império e da República estavam e estão festas e aconteceres culturais negros. E quão longe estavam viajantes e estudiosos, como ainda hoje estamos, em relação a culturas negras.

Irmandades Negras, vocábulo com sentido próprio em seus universos culturais, e Igreja Católica patrocinaram : práticas de fé, devoção e filantropia, prestando tributos e homenagens místicas, dançando, vibrando, cantando louvores a seus santos, reis e divindades protetoras, enquanto irmanados em torno de princípios comuns, ou próximos, ou enquanto ainda não havia lugares com outras possibilidades em horizontes do escravismo.

Em Irmandades Negras no Brasil longínquo, de outros tempos, teriam corpos negros alcançado sustentar viveres enquanto corpo comunitário, ainda que em regime de cativeiro? Teriam alcançado relações assemelhadas a suas comunidades em Áfricas, com seus alargados laços e graus de parentesco, inimagináveis no ideário familiar em construção na Europa e no Brasil?

O provérbio bambara e peul, que nos chegou por meio de Hampâté Bâ, e que pode, em sentido remoto, remeter a situações que africanos escravizados subjetivamente vivenciaram seus pertencimentos a irmandades negras – As pessoas da pessoa são inúmeras na pessoa –, ainda aproxima nossa compreensão da realidade proverbial do mundo cósmico de povos africanos, usufruindo viveres em celebrações entre vivos e mortos, entre-lugares de Áfricas e do Novo Mundo.

Não ao acaso, o recorte da escrita de Ortiz realça um modo africano de viver e estar, material e espiritualmente em universo comunitário, rememorando e reinventando atitudes em viveres festivos, ruidosos, em arte transcendental, vivenciada corporal e performaticamente, desde congraçamentos impensáveis à racionalidade cartesiana, que separando corpo e razão, sagrado e profano, fraturou o imaginário e viveres de povos euro ocidentais.

Em clima exuberante de viveres da tradição viva na diáspora, Ortiz percebeu, na contramão da escravidão, efeitos da comunhão entre vivos, antepassados e divindades, que povos africanos trouxeram ao Novo Mundo, em vocabulário rítmico visual vibrante, em que corpos comunitários vivenciavam e narravam outras histórias.

No sentido de africanos refazerem sua tradição viva, mesmo na travessia e no desembarque dos tumbeiros, o escritor afro-diaspórico Patrick Chamoiseau enfatiza: ao reencontrar o que nunca perdeu: a memória do corpo, o africano produziu linguagens de rehumanização, regenerando corpos e mentes por meio 1) da dança, 2) da percussão de seus tambores 3) do contar histórias.

E entre nós, analisando tradições orais negras, como cordel, mito, contar histórias, Muniz Sodré assinala que suas narrativas enunciam "o fazer alguma coisa, em ato performativo, situado entre uma realidade mítica e o real acontecido, com marcas reiterando regras de emissão/recepção presencial, no aqui agora que sustentam o laço comunitário tradicional pela transmissão (reatualizada, refeita) de uma tradição, onde o essencial está no espetáculo do dizer (o ato de dizer)".

Seus enunciados não informam simplesmente, mas fazem, atuam como fatos de realidade na manutenção de um determinado ritmo vital. Neles o saber se dá como espetáculo e festa. (SODRÉ, 2005, p. 149, grifos do autor).

Para poetas do povo brasileiro, como de menestrel africano (akpalô), são fundamentais a música, o canto, a dança, a declamação as roupas, pois o "essencial está no espetáculo do dizer a tradição, e não na transmissão eficaz de uma mensagem, seja ela política ou religiosa. Enquanto discurso e ato, o jogo de alegorias, ritmos, formas e palavras que ritualiza a luta, desafia o outro, sua língua, seus princípios de realidade, potencializa o performático como um território de prazer, sustentando segmentos populares diante do fenômeno da escrita" e seus efeitos de verdade universal.

Nessa outra passagem, graças a Muniz Sodré, mais uma vez reaparece o quão pouco sabemos de culturas negras e afro-brasileiras, quão distantes estamos de seus refinados recursos, engenhosas dinâmicas dialógicas intertextuais e interculturais, movendo-se entre letra, voz, imagem, som, corpo. Acima de tudo, quão pouco valor atribuímos à diversidade de nosso patrimônio cultural.

O elan de gêneros orais de culturas negras ou mescladas traduz filigranas, minúcias, meandros que tênue e precariamente, em contínuas negociações, sustentaram e revitalizaram populações escravizadas. No deslocar contínuo de espaços, de parceiros, de funções e destinos, dinâmicas de reagrupamentos solidários em senzalas, morros e periferias – recorrendo a arsenal vocal, metáforas, músicas e performances -, que perdemos de vista sem valorizar, tem-se evidencia de outro desajuste de nossa leitura histórica, em nação mental e radicalmente cindida por lutas culturais impensáveis a percepções político letradas, como as que continuam desafiando nosso pensar e atuar no aqui agora do analfabetismo político no Brasil. Não ao acaso, as pesquisas de Karla migraram para outras formas e locais de irmandades negras.

São Paulo, janeiro de 2016

Maria Antonieta Antonacci

Doutora em História Econômica pela Universidade de São Paulo (1986) e pós-doc. em Antropologia Social pela EHESS (1999/2000). Professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, coordenadora do Centro de Estudos Culturais Africanos e da Diáspora (CECAFRO).

Tem experiência na área de História, com ênfase em

História do Brasil, atuando em História da África, Culturas Africanas e Afro-Brasileiras.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1

FLORIANÓPOLIS E AS EXPERIÊNCIAS NA IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E SÃO BENEDITO

1.1 A cidade e a presença africana

1.2 O que são Irmandades?

1.3 A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito

CAPÍTULO 2

A IRMANDADE TOMAVA AS RUAS: FESTAS E CELEBRAÇÕES RELIGIOSAS NA IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E SÃO BENEDITO

2.1 As figuras do rei e da rainha: manifestações populares de fins do século Xviii até meados do Xix

2.2 Devoções, festas e procissões: extinção de cargos, alteração de práticas

2.3 Devoções à Nossa Senhora do Rosário

2.4 Cultuando São Benedito

2.5 A coroa, a Santa e as práticas festivo-religiosas em inícios do século xx

CAPÍTULO 3

CELEBRAÇÕES DA MORTE

3.1 Enterramentos: da igreja ao cemitério

3.2 Um funeral digno: cortejos fúnebres no século xix

3.3 Um funeral por conta da Irmandade: a morte nas práticas do final do século xix e primeiras décadas do xx

3.4 Vestes mortuárias e catacumbas

3.5 Os repiques de sinos na celebração da morte

3.6 Quero ser acompanhado por um bloco ou um cordão

CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

Remanescentes das corporações de artes e ofícios da Europa na Baixa Idade Média, as irmandades surgiram entre os séculos XII e XV, com objetivo inicial de

congregar fiéis em torno da devoção a um santo escolhido como padroeiro, obedecendo a regras contidas no compromisso que determinava objetivos, modalidades de admissão, deveres e obrigações⁶.

Consideradas instituições oficiais, fundadas pelos portugueses como forma de integrar à sociedade civilizações por eles exploradas, estavam intimamente ligadas à profissão da fé católica.

No entanto, no Brasil colonial, grupos culturais africanos faziam desta profissão de fé católica uma experiência diferenciada, com suas interpretações e incorporações acerca do catolicismo, santos de devoção e, principalmente, do entendimento que possuíam em solo africano – e passado aos descendentes na diáspora –, dos seus sistemas religiosos que, inegavelmente, constituíam uma cosmologia, uma visão de mundo diferenciada daquela ensinada pelos europeus por meio do catolicismo e suas práticas.

Estas confrarias tinham duas finalidades principais: a religiosa, que consistia em celebrar as festas, cumprir as devoções, realizar o enterro cristão dos associados e, a finalidade social, que implicava resolver certos problemas no campo econômico, e na parte assistencial em caso de doenças graves e de pobreza extrema⁷. Pretendemos, neste trabalho singelo, mas significativo, no que tange aos estudos sobre a memória e história das populações de origem africana em Santa Catarina, apresentar muitas Domingas, Joãos, Marias, homens e mulheres com muito a nos dizer sobre Desterro/Florianópolis e as experiências vividas.

Para tanto, importa indicar minha trajetória que, embora curta, possibilita compreender caminhos que me permitiram chegar ao tema desta pesquisa sobre as festas, procissões e mortes na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário em Florianópolis, no período seguinte à Abolição da Escravatura no Brasil, mais especificamente, 1888 a 1940. Importante salientar que vim de pequena cidade do interior de Santa Catarina, com uma formação cristã familiar que me levou a temas voltados a pensar o mundo desde experiências dos(as) mais pobres, ou esquecidos(as), invisibilizados(as).

Saindo de Grão-Pará (SC) para estudar e trabalhar em Florianópolis tive a oportunidade de conhecer o NEAB/UDESC (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros), laboratório que me permitiu desenvolver projetos, possibilitando conhecer universos de populações de origem africana. A partir de 2008 comecei meu contato com o acervo da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, material transcrito, digitalizado e impresso pelo grupo para consulta, tanto no acervo da própria Irmandade, como no acervo da Biblioteca de Referência do NEAB/UDESC. Minha entrada no grupo de pesquisa Irmandades aconteceu no último semestre da pesquisa, quando uma boa parte da documentação já estava transcrita, fruto do trabalho de várias bolsistas

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