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Existe o outro lado do rio? um debate sobre educação, gênero e engenharia
Existe o outro lado do rio? um debate sobre educação, gênero e engenharia
Existe o outro lado do rio? um debate sobre educação, gênero e engenharia
E-book253 páginas3 horas

Existe o outro lado do rio? um debate sobre educação, gênero e engenharia

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Sobre este e-book

Em Existe o outro lado do rio? Silvana Maria Bitencourt analisa a cultura da engenharia e as relações de gênero construídas no espaço da universidade, buscando compreender as motivações, as influências, as dificuldades, as perspectivas e as táticas construídas pelas estudantes nesse campo de poder/saber eminentemente masculino: a engenharia. Em seu estudo, a autora evidencia como as escolas de engenharia têm sido um campo majoritariamente masculino e, em sua abordagem, destaca de que forma as poucas mulheres que participam dessa área são alvos de significativas desigualdades de gênero, que se apresentam tanto objetivamente – com a discreta presença feminina em cursos de engenharia e no mercado de trabalho – quanto subjetivamente – diante das difíceis condições que elas enfrentam para se formar e prosseguir em uma carreira na área tecnológica, levando em conta a construção cultural do ser mulher no ocidente.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento1 de jan. de 2016
ISBN9788547300623
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    Pré-visualização do livro

    Existe o outro lado do rio? um debate sobre educação, gênero e engenharia - SILVANA MARIA BITENCOURT

    Editora Appris Ltda.

    1ª Edição – Copyright© 2016 dos autores

    Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

    Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98.

    Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores.

    Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010.

    COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS

    Dedico este livro a todos os estudantes, professoras/es e profissionais de engenharia deste país.

    AGRADECIMENTOS

    Agradeço à professora Elizabeth Farias da Silva, por toda a atenção, dedicação e acolhimento demonstrados durante toda a minha formação na pós-graduação em Sociologia Política na UFSC.

    Agradeço aos estudantes de engenharia, aos professores e às professoras do Centro Tecnológico da UFSC que participaram da pesquisa apresentada neste livro.

    APRESENTAÇÃO

    Quem são as mulheres que decidem cursar engenharia? Essa formação profissional é historicamente masculina, especialmente as especialidades mais antigas e prestigiadas, como a engenharia mecânica e a elétrica. É inegável a maioria numérica de homens em seu corpo docente e discente. Então, como é ser mulher nesse campo de conhecimento?

    É isso que obra esta procura analisar e refletir. Esmiuçamos o cotidiano e as reflexões das poucas mulheres que vivenciam essa cultura majoritariamente masculina, legado histórico das escolas de engenharia no Brasil vinculado ao militarismo, ao positivismo, à masculinidade e às desigualdades de gênero na educação.

    A presente obra nos convida a refletir sobre as desigualdades de gênero que permeiam o sistema de ciência de tecnologia, a partir da afirmação de uma cultura que deixa subentendido que há um tipo ideal de engenheiro. Ele começa a ser construído na graduação, mas seus esboços são ulteriores e vêm das aulas de matemática, dos pais ou de jogos infantis.

    Este livro abarca quatro capítulos que discutem assuntos como gênero e as barreiras históricas, culturais e políticas que limitam a participação de mulheres na área cientifica e tecnológica, a história do ensino de engenharia e a preservação de um tipo ideal de engenheiro.

    Parto da relação entre cultura da engenharia e relações de gênero e, a partir da fala das estudantes, discuto como as desigualdades de gênero nas engenharias ainda são pouco identificadas e como o aumento da participação feminina não garante que essas desigualdades sejam superadas. É importante salientar que algumas conclusões do livro, como a urgência de uma formação em estudos gênero e sexualidades para docentes, tanto na educação básica quanto superior, apresentam-se ainda como um debate atual, que efervesceu no ano de 2015 com o equívoco da ideologia de gênero. Portanto, as desigualdades de gênero continuam causando ecos por aí, tanto por dentro quanto por fora da escolas de engenharia, e em outras instituições socializadoras.

    PREFÁCIO

    A obra aqui apresentada por Silvana Maria Bitencourt é decorrência de uma dissertação de mestrado defendida em uma universidade pública brasileira: a Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC.

    O Centro Tecnológico (CTC) da Universidade Federal de Santa Catarina tem entre as suas engenharias cursos reputados nacionalmente. Engenharia mecânica e elétrica são duas indicativas. Foi no CTC, do outro lado do rio, o trabalho de campo da pesquisadora Silvana Maria Bitencourt.

    No decorrer do trabalho de campo, mesmo estudando no mesmo Campus, Silvana necessitou de baixa tenacidade para operar o estranhamento de seu observado, algo axial para profissionais da área das Sociais. O exotismo — (ex)ótico —, o fora de ótica, era abissal. O impacto naquele Centro, na perspectiva estudada, foi preciso. A questão de gênero era fragrante!

    Observa-se: para quem pode ver. Você só o que pode ver. Você não o que não pode ver. Aqui, nesta constatação, a importância do conteúdo deste livro. Silvana, ao adentrar em um dos templos do saber, com acuidade, argúcia e reflexão relacional, apresenta para nós uma faceta de um dos processos de socialização mais bem urdidos do planeta, isto é, a construção social da dominação (no sentido dado por Weber em Economia e Sociedade) de gênero. Em duas engenharias, precisamente a mecânica e a elétrica.

    A dominação, para Weber, circunscreve autoridade e obediência, e naturalizaa hierarquia. A dominação é uma das possibilidades de convivência entre humanos. Pautada, regularmente,nas palavras, gera comportamentos quase automáticos. A transgressão da dominação implica a emergência do poder, da violência, do medo, da represália, do castigo.

    No dito, Ocidente moderno as engenharias foram e são formatadas com perfil androcêntrico, como explicita e caracteriza Silvana no livro. Constatar a questão da dominação de gênero, como escrito acima, não exigiu muito esforço da pesquisadora. Demonstrar a problemática mereceu toda a perícia acumulada de Silvana e, não só, a persistência, também, apareceu. Após idas e vindas. Encontros marcados e desmarcados, Silvana conseguiu enunciações candentes de mulheres que tiveram a audácia de adentrar no templo do saber, por excelência, da especialização que operacionaliza as ciências hards. Algumas mulheres, em outro lugar/espaço, pagaram com a própria morte ao penetrarem (é proposital!) no templo das engenharias. Consta no livro. As mulheres, interlocutoras de Silvana, estudantes de engenharia, também, ao transgredirem a dominação de gênero, no lugar/espaço androcêntrico do Centro Tecnológico da UFSC, tiveram sua cota de represália e de castigo. Seus corpos pressentem/sentem a manifestação do poder. A enunciação dos que, por direito natural (por sua biologia), adentram no templo é contemplada. Viéses deles sobre as estranhas são descritos e explicados baseados na relação de gênero. Hospitalidade e hostilidade se confundem nas declarações. Ai daquela mulher que consegue tirar nota máxima em alguma disciplina. A competência nesse templo é uma atribuição, também, natural. Ela é masculina. Essa perspectiva não é exclusiva do Centro Tecnológica, aqui configurado nas duas engenharias trabalhadas no livro. Silvana colhe e documenta manifestações de outras plagas. Harvard aparece!

    Quero manifestar minha felicidade pela publicação desta pesquisa, não só por ela ser fruto da rede de universidades públicas do país, mas, também, por ser, ainda, uma das poucas obras que desvelam a intricada e intrigante porta que dá acesso ao templo das engenharias. Sagrado, em pleno século XXI, para uma parcela significativa das gentes filhas e construídas socialmente como mulheres deste planeta errante!

    Profª Dr ªElizabeth Farias da Silva, da Ilha de Santa Catarina em 2016.

    Professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política

    da Universidade Federal de Santa Catarina

    SUMÁRIO

    INTRODUÇÃO 

    1

    A REFLEXÃO SOBRE UM TEMA: POR QUE PESQUISAR ESTUDANTES DE ENGENHARIA? 

    1.1 O contexto da pesquisa 

    2

    GÊNERO – UMA CONSTRUÇÃO SOCIAL 

    2.1 Gênero: da tentativa de um conceito para uma categoria de análise histórica     

    2.2 O conceito de gênero no Brasil 

    2.3 Identidade de gênero 

    2.4 Educação para mulheres  

    2.5 As mulheres e a engenharia 

    2.6 Relação das mulheres com a matemática 

    2.6.1 Determinismo biológico: coisa do passado? 

    2.6.2 Determinismo sociocultural: não estude a matemática 

    2.6.3 A estrutura do mercado de trabalho não tem correspondido ao gênero feminino 

    3

    A CONSTRUÇÃO DO MUNDO MODERNO E A ENGENHARIA 

    3.1 Modernidade e mensuração 

    3.1.1 O projeto da modernidade: destruição versus construção 

    3.2 Engenharia: uma breve revisão histórica  

    3.2.1 As origens do ensino de engenharia  

    3.2.2 A engenharia no Brasil 

    4

    AS RELAÇÕES DE GÊNERO NA ENGENHARIA MECÂNICA E ELÉTRICA DA UFSC 

    4.1 O gênero sobre os efeitos da engenharia 

    4.1.1 Os estudantes de engenharia são os que mais estudam? 

    4.1.2 A relação entre estudantes e professores na engenharia 

    4.1.3. Gênero e matemática: qual a relação? 

    4.1.4 O gênero e os discursos que justificam a presença feminina na engenharia 

    4.1.5 A fase da depressão na formação 

    CONSIDERAÇÕES FINAIS 

    REFERÊNCIAS 

    INTRODUÇÃO

    No dia 6 de dezembro de 1989, ocorreu um gendercide¹ na l’école Polytechnique de Montréal. Foram assassinadas, de forma premeditada, 14 mulheres², entre elas, 12 estudantes de engenharia. O assassino foi um homem que se suicidou após tê-las matado, deixando um bilhete no qual assumia sentir ódio das feministas, por elas estarem ocupando lugares masculinos na sociedade.

    A dor sofrida pelos familiares dessas estudantes comove e revolta a população do Canadá até hoje. As imagens trágicas das jovens sendo retiradas mortas de um espaço universitário abalaram a segurança das mulheres engenheiras naquele país e das famílias que possuem filhas que cursam engenheira.

    Após esse trágico evento, as mulheres, principalmente as jovens engenheiras e as estudiosas das questões de gênero, do Canadá, começaram a refletir mais sobre a relação entre mulheres e engenharia, complexificando assim a situação feminina nesse campo³ de poder historicamente masculino.

    Atualmente, as mulheres canadenses pedem justiça para esse acaso e um preparo maior da sociedade para lidar com a inserção de mulheres nas engenharias. Esse evento repercutiu não apenas no Canadá, mas em outros países, sensibilizando especialmente estudiosas como a historiadora feminista Ruby Heap, que pesquisa temáticas vinculadas com a participação feminina nas escolas de engenharia.

    Ruby Heap investigou o impacto desse trágico evento na sociedade canadense. Para a historiadora, as mulheres na engenharia vivenciam sérios problemas por estarem participando de um espaço eminentemente masculino. Por isso, não apenas políticas públicas devem ser pensadas para a inserção feminina nessa área, mas também maiores oportunidades para as mulheres participarem da coordenação e do corpo docente dos cursos de engenharia.

    Atualmente, existe no Canadá uma Fundação coordenada por Sylvie Haviernick para as vítimas de 6 de dezembro. As jovens associadas à fundação estudam o caso com a finalidade de produzir novas reflexões sobre o porquê daquele massacre. O dia 6 de dezembro é relembrado como um dia marcado pela covardia humana de não aceitar o diferente.

    As mudanças sociais, políticas, culturais e econômicas que ocorreram na vida das mulheres nas últimas décadas não garantiram que elas estivessem livres de sofrer de diversas formas de violência devido as suas escolhas não corresponderem ao padrão socialmente imposto do ser mulher. A naturalização feita diante de comportamentos representados como masculinos ou femininos pode vir a perseguir e a justificar os argumentos de sujeitos que não conseguem lidar com a diversidade de gênero na educação⁴. Assim, essa dicotomia masculino/feminino, que tende a estruturar o modo de pensar sobre a realidade, tem limitado a compreensão de diferentes masculinidades e feminilidades num mesmo contexto. Se o assassino desse massacre de gênero sofria de alguma doença, por ter cometido os assassinatos, penso que essa redução seria uma desculpa simplista diante da complexidade de um evento que alterou o cotidiano da população, em especial, das mulheres que participam desse campo de conhecimento.

    Desta forma, o que a população deseja, além de justiça para outros crimes que possam ocorrer, é que as engenharias não continuem sendo ocupadas majoritariamente por homens. Depois do trágico evento, houve um estudo e maior preocupação com políticas públicas para treinamento de mulheres docentes nos cursos de engenharia. No Canadá, nos últimos 19 anos, aumentou o número de mulheres nas engenharias, o que se tornou mais evidente após o massacre de Montreal. Atualmente, estima-se 30% de mulheres nessa área de conhecimento no Canadá. Segundo dados do Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (DIEESE) no Brasil, a participação de mulheres nas engenharias passou de 16,8% em 2003 para 20,6% em 2013.

    Heap⁵ indica que o aumento da participação de mulheres nas engenharias após o massacre pode ser explicado por diversos fatores, dentre eles, destacam-se os seguintes: maior número de bolsas concedidas para pesquisas sobre mulheres engenheiras, maiores estímulos para as estudantes se interessarem pela engenharia e também políticas para se empregar mais professoras nos cursos de engenharia. Segundo a historiadora, todas essas medidas tomadas após o massacre estão tendo impacto na procura de mulheres por cursos de engenharia. Além disso, a estudiosa diz que o acesso melhor das mulheres à educação superior e também as ações do movimento feminista questionando a desigualdade de gênero também têm provocado uma influência significativa para mais mulheres participarem da engenharia. A tragédia canadense foi representada no cinema em 25 de setembro de 2009 com o nome "Polytechnique"⁶.

    O trágico episódio deixou lembranças de medo, violências e discriminação para a população. O local do acontecimento, as vítimas executadas e o bilhete deixado são emblemáticos, pois 12 das 14 vítimas eram mulheres estudantes de engenharia. O porquê de isso ter ocorrido no Canadá fez a população canadense exigir um maior investimento de políticas públicas para a inserção de mulheres nas engenharias.

    Seis anos depois, outro episódio polêmico, mas felizmente não tão trágico, foi o pronunciamento do reitor na época em exercício na Universidade de Harvard, Lawrence Summers⁷ em 14 de janeiro de 2005. Durante o seminário sobre: As mulheres e a Ciência, organizado por um centro de investigação Cambridge, seu discurso causou polêmica entre as feministas. Summers, durante sua fala, afirmou que as diferenças biológicas entre homens e mulheres explicariam o sucesso dos homens nas ciências exatas. Segundo ele, a genética favoreceria os homens na agilidade para lidar com números. O reitor ainda complementa destacando que a maternidade seria a principal vilã da pouca participação das mulheres nas carreiras científicas. Afirmação ingênua ou preconceituosa?

    Investigar o que influenciou Summers a ter construído esse pensamento de que mulheres cientistas, por terem filhos, teriam menos sucesso do que os homens nas ciências exatas não é o objetivo principal desta obra. Entretanto, a partir desse episódio, podemos constatar que falar de desigualdades de gênero⁸ em pleno século XXI pode ter um peso tão significativo quanto verificar que a ciência moderna, ao ter assumido um discurso universal, ainda influencia no processo de produção e reprodução de desigualdades de gênero. Desigualdades que insistem sutilmente em aparecer, algumas vezes, por exemplo, por meio de piadinhas preconceituosas⁹, como: quando deus fez a mulher perguntou se ela queria ser bonita ou engenheira, outras vezes pelas baixas remunerações oferecidas às mulheres profissionais em relação aos homens.

    O argumento construído por Summers não mediu exceções, logo não se comprometeu em analisar contextos sociais ou em explicar alguns casos de mulheres¹⁰ que historicamente fizeram ciência em situações precárias e sexistas. Sua afirmação apenas simplificou a análise, mostrando que as coisas são assim porque não poderiam ser de outra forma. Se pensar na engenharia a partir do determinismo biológico, pode-se verificar que a natureza não foi tão generosa para as mulheres. Segundo as teorias naturalistas, a matemática infelizmente não compete às mulheres. Essa afirmação de Summers pode não ser uma grande novidade diante das diversas situações de desigualdade de gênero que mulheres têm vivenciado ao longo da história. No entanto, a sua posição de reitor de uma das mais prestigiadas universidades do mundo tem provocando uma polêmica discussão entre as feministas e mulheres pesquisadoras.

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