Aproveite milhões de e-books, audiolivros, revistas e muito mais, com uma avaliação gratuita

Apenas $11.99 por mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

O Retrato Social: Reflexões sobre violência, sociedade e segurança
O Retrato Social: Reflexões sobre violência, sociedade e segurança
O Retrato Social: Reflexões sobre violência, sociedade e segurança
E-book117 páginas1 hora

O Retrato Social: Reflexões sobre violência, sociedade e segurança

Nota: 0 de 5 estrelas

()

Sobre este e-book

Passando por dados estatísticos e histórias intrigantes sobre diversos crimes, o livro traz discussões importantes para a sociedade ao demonstrar de forma didática e criativa, os problemas que o País enfrenta no combate a violência.
Através de histórias capazes de levar o leitor a reflexão profunda, o autor demonstra a complexidade em se resolver a questão e chama a sociedade para a ativa participação.
O autor propõe ainda medidas que contribuiriam para a melhoria da violência no País, com sugestões de reformulação na legislação, no sistema prisional e um profundo investimento na educação.
Sem dúvida, após a leitura atenta a esta obra você nunca mais enxergará o mundo da mesma maneira.
Observação: as opiniões aqui expressas não representam quaisquer posicionamentos Institucionais, sendo meramente pessoais e de responsabilidade do autor.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento6 de fev. de 2021
ISBN9781942159308
O Retrato Social: Reflexões sobre violência, sociedade e segurança
Ler a amostra

Relacionado a O Retrato Social

Livros relacionados

Avaliações de O Retrato Social

Nota: 0 de 5 estrelas
0 notas

0 avaliação0 avaliação

O que você achou?

Toque para dar uma nota

    Pré-visualização do livro

    O Retrato Social - Luiz Fernando de Lima Paulo

    segurança.

    Capítulo

    1

    DESIGUALDADE SOCIAL E VIOLÊNCIA

    A violência pode ser definida como o uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou comunidade que possa resultar ou tenha alta probabilidade de resultar em morte, lesão, dano psicológico, problemas de desenvolvimento ou privação (OMS, 2002).

    A violência como fenômeno complexo, multifacetário e resultante de múltiplas determinações articula-se intimamente com processos sociais que se assentam, em última análise, numa estrutura social desigual e injusta. Minayo e Souza (1993) tem apresentado uma tipologia na qual se destacam: a violência estrutural, configurada nas desigualdades sociais de acesso ao mercado de trabalho e ao consumo de bens essenciais à vida; a violência cultural, que se expressa entre pares, a exemplo das agressões entre cônjuges; e a violência da delinqüência, referente a indivíduos ou grupos que desencadeiam ações contra cidadãos (crimes contra a pessoa física e o patrimônio), incluindo disputas violentas entre os criminosos.

    Portanto, as violências não se reduzem à criminalidade, e no campo da saúde, correspondem a qualquer ação intencional realizada por indivíduo ou grupo, dirigida a outro, que resulte em óbito, danos físicos, psicológicos e/ou sociais (Franco, 1992).

    A morte revela, per se, a violência levada a seu grau extremo. Da mesma maneira que a virulência de uma epidemia é indicada, frequentemente, pela quantidade de mortes que originou, também a intensidade nos diversos tipos de violência guarda uma estreita relação com o número de mortes que causa (Waiselfisz, 2011)

    A ocorrência de mortes violentas nos espaços urbanos vem sendo associada a alguns fatores existentes nesses ambientes, como concentração populacional elevada, desigualdades na distribuição de riquezas, iniqüidade na saúde, impessoalidade das relações, alta competição entre os indivíduos e grupos sociais, fácil acesso a armas de fogo, violência policial, abuso de álcool, impunidade, tráfico de drogas, estresse social, baixa renda familiar e formação de quadrilhas (Mello, 1997).

    As relações entre violências e condições de vida não são unívocas nem lineares, o que tem levado a certo questionamento sobre os seus determinantes (Zaluar et al, 1990). Como adverte Soares:

    quem atribui o envolvimento com o crime a necessidades econômicas freqüentemente esquece o papel que a cultura, os valores, as normas sociais e os símbolos desempenham. A auto estima é tão importante para a sobrevivência humana quanto um prato de comida.

    Contudo, se é verdade que pobreza não gera, necessariamente, violência, e que os bairros populares e as favelas não devem ser estigmatizados como espaços violentos, também não se deve iludir o fato de que evidências empíricas acumuladas apontam tais áreas como as que concentram maior proporção de vítimas das violências, expressas pelas maiores taxas de homicídios e pelas baixas condições de vida (Barata, et al, 1998; Drummond, 1999; Freitas et al, 2000). Nesse sentido, caberia explorar diferentes metodologias de investigação potencialmente capazes de verificar possíveis relações entre condições de vida das populações e determinadas manifestações da violência, como é o caso dos homicídios.

    Nas regiões metropolitanas, são relevantes a consolidação do crime organizado em torno do tráfico de drogas, o aumento da população que vive e trabalha nas ruas, compelida pelo aumento da pobreza absoluta nessas regiões (Minayo, 1993). Portanto, o crescimento da violência e, principalmente, das mortes por homicídios parece refletir o aprofundamento da violência estrutural.

    A taxa de homicídios tem-se mostrado fortemente correlacionada aos níveis de renda (Barata, 1998), mostrando que a questão da violência urbana não pode ser dissociada da aguda disparidade presente na sociedade, que tende a torná-la menos coesa, menos confiável, mais injusta e hostil (Szwarcwald et al, 1999). Portanto, a afirmação sobre a inexistência de qualquer associação entre as taxas de mortalidade por homicídios e pobreza ou migração (Zaluar, 1994) merece ser relativizada.

    Pesquisa realizada em Recife, por exemplo, ainda que apresente resultados que contrariem a idéia segundo a qual o crescimento das cidades, juntamente com a migração das populações rurais e o aumento da pobreza, seria responsável pelo crescimento da violência, motivou os seus autores a chamarem a atenção para o fato de que a acentuação das desigualdades nas condições de vida pode estar contribuindo para o aumento da violência como um todo e em especial em relação aos homicídios" (Lima e Ximenes, 1998).

    Presentemente, distintas iniciativas e alguns projetos têm buscado alternativas de prevenção das violências e de promoção da saúde, mediante mobilização da comunidade e intervenção do poder público para atuar em defesa da paz e na melhoria da qualidade de vida e da saúde da população. Ainda que tais intervenções não incidam significativamente sobre a estrutura social geradora das desigualdades econômico-culturais, têm o potencial de reduzir as taxas atuais de violência por promover valores de paz e oferecer certas oportunidades aos grupos submetidos a maiores riscos (Minayo e Souza, 1999; Noronha et al, 2000).

    Nota-se que os pesquisadores possuem uma ampla visão sobre a Violência e a Desigualdade Social. Alguns concordam que há uma íntima relação, por diversos fatores que elencaremos no transcorrer do livro. Para melhor ilustrar, observemos algumas estatísticas sobre a violência no Brasil.

    1.1 Estatísticas sobre a Violência no Brasil

    Embora o Brasil não se encontre entre os países com maior mortalidade por causas violentas, foi um dos que experimentaram maior crescimento desse indicador no período de 1979 a 1990 (Yunes, 1994). Na década de 90, os homicídios chegaram a ocupar a primeira posição entre essas causas de morte, com uma elevação de 160% no período de 1977 a 1994 (Mello, 1997). Isto fez com que a violência passasse a despertar o interesse de pesquisadores na área da saúde pública e de outros campos disciplinares (Franco, 1990; Mello, 1997).

    As mortes violentas estão incluídas na 9ª Classificação Internacional de Doenças (CID-9) da Organização Mundial da Saúde (OMS) sob a denominação de Causas externas de lesões e envenenamentos. As taxas de mortalidade por esse grupo de causas apresentaram, nas décadas de 80 e 90, elevação em seus valores, passando a ocupar, no Brasil, a segunda posição em relação aos demais grupos, (OPS, 1994).

    Diante de tais dados, houve uma grande preocupação governamental em todos os níveis

    Está gostando da amostra?
    Página 1 de 1