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Faces da agricultura familiar na diversidade do rural brasileiro

Faces da agricultura familiar na diversidade do rural brasileiro

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Faces da agricultura familiar na diversidade do rural brasileiro

Duração:
382 páginas
4 horas
Lançados:
1 de jan. de 2016
ISBN:
9788547301118
Formato:
Livro

Descrição

A agricultura familiar no Brasil exerce uma função que vai além da produção de alimentos; ela tem um papel social, cultural e ambiental na produção e organização do espaço agrário.

Diante disso, estudos sobre a permanência das populações no campo são impulsionados pela importância que essa classe social desempenha no abastecimento das cidades, manutenção de tradições, preservação ambiental e diversificação das atividades agrícolas e não-agrícolas.

O entendimento de que a agricultura familiar deva ser uma das prioridades para as políticas públicas na agricultura e na segurança alimentar, pois é a principal fonte de alimentos da sociedade brasileira, faz das pesquisas nesse campo do conhecimento uma permanente busca por alternativas e criação de estratégias de desenvolvimento rural.

Este livro traz para o debate algumas situações e realidades da agricultura familiar no campo brasileiro. Desde o agricultor familiar pouco inserido no mercado até o agricultor familiar que exporta sua produção agrícola. Tem-se vivências distintas na diversidade do rural brasileiro, desde o Rio Grande do Sul, com sua tradição nas pequenas propriedades rurais, passando pelo estado de São Paulo, fortemente ligado a uma realidade urbano-industrial, e chegando a Minas Gerais e suas inúmeras particularidades, no norte semi-árido, com o agricultor tecendo estratégias de desenvolvimento, até o sul de Minas, ocupado pela cafeicultura e montanhas, tornando o agricultor familiar um ator decisivo no conjuntura do agronegócio.

Esta obra é leitura obrigatória para os pesquisadores das ciências sociais e humanas sobre o campo brasileiro, em especial a agricultura familiar, pois traz subsídios para uma análise geográfica do uso e ocupação do território brasileiro.
Lançados:
1 de jan. de 2016
ISBN:
9788547301118
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

Faces da agricultura familiar na diversidade do rural brasileiro - FLAMARION DUTRA ALVES

Editora Appris Ltda.

1ª Edição – Copyright© 2016 dos autores

Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98.

Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores.

Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010.

COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS

APRESENTAÇÃO

Desde 2010, a Rede de Estudos Agrários (REA) desenvolve pesquisas sobre o campo brasileiro, em especial a agricultura familiar, composta pelo Núcleo de Estudos Agrários (NEA) da Unesp Rio Claro/SP, Laboratório de Estudos Agrários e Ambientais (LEAA) da UFPEL Pelotas/RS, Núcleo de Estudos e Pesquisas em Geografia Rural (NEPGeR) da Unimontes Montes Claros/MG e Grupo de Estudos Regionais e Socioespaciais (Geres) da Unifal Alfenas/MG.

Em 2015, entre os dias 16, 17 e 18 de junho, foi realizada a quinta edição do Encontro da REA na Universidade Federal de Alfenas (Minas Gerais). O encontro teve como finalidade desvendar e debater as Faces da agricultura familiar na diversidade do rural brasileiro, enfocando os três estados pertencentes à Rede (Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais). Tendo um viés metodológico sistêmico, que entende o espaço rural multifuncional, e destacando a importância da agricultura familiar para o desenvolvimento rural, a REA parte desse campo de análise integrando os elementos internos e externos da agricultura.

O livro é resultado dessas discussões e reflexões da Rede de Estudos e está divido em quatro partes.

A primeira parte traz um pouco da realidade rural sul mineira, marcada pela cafeicultura e os processos migratórios, além das transformações ocorridas com a implantação da Usina Hidrelétrica de Furnas no espaço rural. Há questões da agricultura familiar, barros rurais e as relações de gênero nessa atividade.

A agricultura familiar e o espaço rural no norte do Estado de Minas Gerais são os temas da segunda parte, que, em caráter regional, enfoca as políticas públicas e o Pronaf e suas questões de gênero e, em perspectiva local, discute a importância dos assentamentos rurais e bairros rurais

A terceira parte traz pesquisas acerca da agricultura familiar no espaço rural gaúcho, mostrando as estratégias de reprodução sob um viés sistêmico, as investigações apontam as formas de desenvolvimento e as perspectivas para esses atores.

A agricultura familiar no Estado de São Paulo é analisada na quarta parte, que aborda a importância de feiras e canais de comercialização da agricultura familiar e, na mesma perceptiva, são discutidas políticas públicas para a agricultura familiar, com intuito de fortalecer e desenvolver o setor. Por fim, a obra traz a questão do ensino do rural na educação básica, a fim de entender como as crianças e os jovens percebem o espaço agrário.

Assim, este livro percorre vários campos temáticos, que passam pela produção agrícola, trabalho, políticas públicas e comercialização e até por relações não agrícolas, mas que constituem a existência do rural, como questões de gênero, pluriatividade, ensino e cultura. O que une a agricultura familiar brasileira é justamente o que a diverge, ou seja, mesmo com paisagens, estruturas e processos diferentes, o agricultor que se reproduz na pequena propriedade passa pelos mesmos desafios no seu desenvolvimento, seja no norte mineiro, seja no sul gaúcho.

PREFÁCIO

A agricultura familiar, a partir da segunda metade da década de 1990, passou a ocupar lugar de destaque no cenário nacional com a publicação do documento Diretrizes de política agrária e desenvolvimento sustentável para a pequena produção familiar/Projeto FAO/Incra. Referido documento mostrava que era importante promover a agricultura familiar como linha estratégica de desenvolvimento rural para a sociedade brasileira. O relatório ainda mostrava que seu fortalecimento e sua expansão seriam necessários para atingir o desenvolvimento sustentável.

Na esfera governamental, as políticas públicas voltadas para esse segmento, entre elas o Programa Nacional de Fortalecimento para a Agricultura Familiar (Pronaf), criado em 1996, tornou-se o principal instrumento para o desenvolvimento da agricultura familiar. Os recursos do Pronaf, mesmo que insuficientes, têm contribuído para a expansão desse tipo de agricultura. Na esfera social, os movimentos sociais empreenderam ações e reivindicações, sobretudo na luta pela terra.

Responsável pela maior parcela da produção de alimentos básicos no país, a agricultura familiar despertou o interesse de pesquisadores, e os agricultores familiares ganharam visibilidade no processo de discussão sobre a questão agrária.

Os grupos de pesquisa foram, e continuam sendo, uma dessas iniciativas para o aprofundamento dos estudos, considerando-se a importância da agricultura familiar nos processos de desenvolvimentos social, econômico e ambiental do País.

Nesse contexto, insere-se a Rede de Estudos Agrários (REA), formada por um grupo de pesquisadores de Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. O resultado dessa integração é o livro Faces da agricultura familiar na diversidade do rural brasileiro, organizado por Flamarion Dutra Alves e Ana Rute do Vale. A obra reúne quinze capítulos sobre as transformações socioespaciais, econômicas e ambientais de uma parcela do rural brasileiro: o espaço rural do Sul e Norte de Minas, o espaço rural de São Paulo e o espaço rural do Rio Grande do Sul.

O diálogo entre as quatro instituições (Unifal, Unimontes, UFPel e Unesp/Rio Claro), representado no conjunto do livro, mostra a importância desse intercâmbio: um projeto para formar cidadãos comprometidos com as transformações social e espacial em direção a uma Geografia cidadã, que fomente um conceito crítico.

Assim, dois motivos me levaram a aceitar o convite para prefaciar este livro. O primeiro, os laços de amizade que me unem a Flamarion e Ana Rute, jovens pesquisadores comprometidos com mudanças na sociedade. O segundo, a qualidade dos trabalhos apresentados. A preocupação dos autores em realizar pesquisas com uma combinação de teoria e prática permeia os textos. A pluralidade de ideias na discussão da Geografia Pragmática e da Geografia Crítica, aliada à pesquisa qualitativa presente nos textos, enriquece a reflexão.

Assim, o presente livro estimula o debate sobre os temas que envolvem a agricultura familiar e permite ao leitor posicionamentos críticos acerca das diversidades socioespaciais presentes no agro brasileiro. A leitura é de fundamental importância e possibilita refletir sobre políticas públicas que possam, efetivamente, contribuir para o fortalecimento da agricultura familiar.

Vera Lúcia Salazar Pessôa

Ex-professora do PPGEO/UFU e atual professora do PPGEO/UFG/Regional Catalão

Outono/2016

Sumário

I

O ESPAÇO RURAL NO SUL DE MINAS GERAIS

TERRITORIALIZAÇÃO DA MOBILIDADE POPULACIONAL ENTRE OS MUNICÍPIOS DE CARMO DO RIO CLARO/MG E SANTALUZ/BA 

Haroldo Junior Martins Cardoso

Flamarion Dutra Alves

ANÁLISE DA DINÂMICA SOCIOESPACIAL DA AGRICULTURA FAMILIAR NO DISTRITO DE VILELÂNDIA, CARMO DO RIO CLARO/MG 

Ana Lívia de Almeida Silva

Flamarion Dutra Alves

TRANSFORMAÇÕES NO ESPAÇO RURAL DE ALFENAS A PARTIR DA IMPLANTAÇÃO DA USINA HIDRELÉTRICA DE FURNAS 

Ana Rute do Vale

Deywison Tadeu Resende Gonçalves

QUESTÃO DE GÊNERO NO ESPAÇO RURAL DE ALFENAS/MG: UMA ANÁLISE SOBRE A ORGANIZAÇÃO DAS MULHERES DO BAIRRO MATÃO 

Letícia Silvério da Silva

Ana Rute do Vale

II

O ESPAÇO RURAL NO NORTE DE MINAS GERAIS

A SUSTENTABILIDADE DOS ASSENTAMENTOS RURAIS: ESTUDO DE CASO DO ASSENTAMENTO PARA-TERRA FAZENDA SERRADOR 

Ana Cláudia Soares da Silva

Ana Ivania Alves Fonseca

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AGRICULTURA FAMILIAR NO BRASIL E NO NORTE DE MINAS 

Lilian Damares de Almeida Silva

Ana Ivania Alves Fonseca

AS RELAÇÕES DE GÊNERO: PRONAF MULHER 

Vanderlei Cardoso dos Santos

Ana Ivania Alves Fonseca

O BAIRRO SÃO GERALDO II - MONTES CLAROS/MG: ELEMENTOS RURAIS E URBANOS 

José Maria Luiz

Cássio Alexandre da Silva

III

O ESPAÇO RURAL NO RIO GRANDE DO SUL

AGRICULTURA FAMILIAR, POLÍTICAS PÚBLICAS E DESENVOLVIMENTO RURAL NO MUNICÍPIO DE CERRITO/RS: O CENÁRIO ATUAL E AS PERSPECTIVAS FUTURAS 

Juliana Lima Fagundes

Giancarla Salamoni

PLURIATIVIDADE COMO ESTRATÉGIA DE REPRODUÇÃO SOCIAL DA AGRICULTURA FAMILIAR: UMA ANÁLISE NO MUNICÍPIO DE LAJEADO/RS 

Juliana Cristina Franz

Giancarla Salamoni

POLÍTICAS PÚBLICAS PARA O SISTEMA AGRÁRIO FAMILIAR: OS INSTRUMENTOS PARA O DESENVOLVIMENTO RURAL NO MUNICÍPIO DE PELOTAS/RS 

Maiara Tavares Sodré

Giancarla Salamoni

ESTUDO SOBRE O SISTEMA DA AGRICULTURA FAMILIAR CAMPONESA: UMA APROXIMAÇÃO COM A TEORIA DOS SISTEMAS AGRÁRIOS

Sibeli Fernandes

Giancarla Salamoni

IV

O ESPAÇO RURAL EM SÃO PAULO

INTERAÇÕES ENTRE PRODUTOR E CONSUMIDOR EM UMA FEIRA NO INTERIOR PAULISTA/BRASIL: A ORGANIZAÇÃO DE SISTEMAS AGROALIMENTARES LOCAIS 

Darlene Aparecida de Oliveira Ferreira

Wilyan Rodrigo Luciano

Stephan Cabrini de Oliveira

A FRAGMENTAÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR: E O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS 

Jonatan Alexandre de Oliveira

José Giacomo Baccarin

Darlene Aparecida de Oliveira Ferreira

DIFERENTES VISÕES DE MUNDO SOBRE O RURAL EM ALUNOS DO ENSINO BÁSICO 

Cibele Marto de Oliveira

Darlene Aparecida de Oliveira Ferreira

SOBRE OS AUTORES 

I

O ESPAÇO RURAL NO SUL DE MINAS GERAIS

TERRITORIALIZAÇÃO DA MOBILIDADE POPULACIONAL ENTRE OS MUNICÍPIOS DE CARMO DO RIO CLARO/MG E SANTALUZ/BA¹

Haroldo Junior Martins Cardoso

Flamarion Dutra Alves

O processo de formação do território brasileiro é marcado por deslocamentos populacionais, ocupando e explorando novos e velhos espaços. A dinâmica dos deslocamentos ocorre por inúmeros fatores, sobretudo políticos, econômicos e ideológicos. Eles direcionam a mão de obra disponível, visando atender às necessidades dos diferentes setores da economia. No contexto nacional, as migrações internas se tornam significativas a partir da década de 1940, com a intensificação da industrialização, da urbanização brasileira, reflexo também da concentração fundiária nacional. Nas décadas de 1970 e 1980, a estagnação econômica produziu um grande contingente de trabalhadores desempregados ou subempregados, período em que o Estado continuou a ter papel influente na determinação do sentido e da dinâmica dos fluxos migratórios.

Na década de 1990, com a intensificação do processo de globalização, identifica-se um novo padrão migratório, caracterizado pela migração de retorno e pelas migrações temporárias e/ou sazonais. Essas últimas se territorializaram principalmente no campo, onde a modernização tecnológica produziu alterações significativas na organização espacial. O formato da inserção desigual da modernização capitalista no espaço agrário brasileiro enfatizou as desigualdades regionais e propiciou a constituição dos centros de atração e repulsão de força de trabalho, que perpetuam até os dias atuais. Como exemplo, a região Nordeste e o Norte de Minas representaram historicamente um exército de mão de obra para atender às necessidades capitalistas (PÓVOA NETO, 2007; BECKER, 2006). Embora as perdas populacionais dessas regiões tenham ocorrido sobretudo no século XX, ainda hoje o movimento migratório para o Centro-Sul do Brasil permanece. O sul de Minas Gerais tem recebido grande quantidade de migrantes nordestinos para o trabalho na cafeicultura.

As formas de pensar a mobilidade populacional acompanharam as perspectivas de análise das correntes do pensamento geográfico. Cada vertente privilegiou análises da mobilidade populacional sob uma ótica, proporcionando contribuições significativas para a análise do fenômeno. Contudo, existem lacunas e discussões ainda pertinentes sobre as formas de análise dos deslocamentos populacionais, principalmente em relação aos métodos de análise da mobilidade populacional temporárias e/ou sazonais, embora exista uma vasta gama de trabalhos em diversas campos científicos, como a Sociologia, Antropologia, Economia, etc.

Este trabalho teve como objetivo a análise da mobilidade sazonal entre os municípios de Santaluz/BA e Carmo do Rio Claro/MG, sendo o primeiro município a origem dos trabalhadores e o segundo, o destino. Para a realização da análise, foram estabelecidos alguns percursos metodológicos que permitiram o levantamento e exame das informações. A adoção de uma metodologia multiescalar na pesquisa ocorreu a partir da incorporação dos aspectos de níveis macro e micro, no caso representado pelas escalas regionais relacionados aos modos de produção predominantes tanto na origem quanto no destino, buscando compreender os aspectos históricos-estruturais que contribuem para a configuração da mobilidade entre as localidades. A segunda escala de análise compreende o nível local, com a finalidade de obter informações atreladas aos indivíduos. As informações foram obtidas com base em questionários com questões preestabelecidas, aplicadas com os 60 trabalhadores migrantes e com 100 pessoas residentes no Distrito de Vilelândia, em Carmo do Rio Claro. A exposição teórica de Barbieri (2007) indica que a mobilidade da população afeta tanto a origem quanto o destino, alterando as estruturas socioeconômicas dos domicílios e da comunidade. O próprio autor ressalta que o trabalhador migrante não se desloca sozinho, atribuindo a categoria das redes na análise da mobilidade da população para o trabalho.

Migração ou mobilidade: repensando conceitos

As reflexões teóricas a respeito da migração apontam para dois enfoques principais. O primeiro corresponde ao neoclássico, concebendo o fenômeno migratório como um fator positivo na economia, capaz estabelecer equilíbrio entre os espaços, analisando a migração a partir de métodos de quantificação dos fluxos populacionais e considerando os fatores de atração e repulsão da força de trabalho como critérios de análise, e a migração, como uma escolha individual. Entre os principais autores dessa vertente, destaca-se Ravenstein (1885), o qual teve como foco as migrações no Reino Unido. Em sua análise, buscou identificar o padrão migratório no contexto da Revolução Industrial, no século XIX, estabelecendo leis que determinavam os padrões e processos integrados aos deslocamentos populacionais, relacionados à busca por trabalho nos centros industriais (SILVA, 2007).

Após mais de meio século, sem formulações capazes de ser generalizadas, o demógrafo estadunidense Lee (1966) retoma as discussões sobre a mobilidade populacional, dedicando-se principalmente na compreensão dos fatores que produzem a migração, a partir dos aspectos presentes no local de origem e no local de destino. Sua proposição envolvia um conjunto de fatores negativos e positivos nas áreas de origem e destino dos migrantes, um conjunto de obstáculos intervenientes e uma série de fatores pessoais (BECKER, 2006, p. 327).

As críticas a essa vertente ocorrem em função da exclusão de fatores inerentes ao próprio desenvolvimento do sistema capitalista, que propicia o fenômeno da migração, uma vez que os neoclássicos analisavam a migração com base nas concepções deterministas, reduzindo o fenômeno à identificação dos fluxos e sua quantificação, considerando o migrante como elemento capaz de equilibrar o espaço (BECKER, 2006, p. 332; PÓVOA NETO, 2007).

A abordagem neomarxista, por sua vez, atrela a migração a fatores exclusivamente econômicos, avaliando a migração como um processo determinado pelo capitalismo, aplicando o enfoque dialético em uma análise histórico-estrutural, considerando a migração como um processo determinado por fatores pretéritos, que produzem estruturas sociais condicionadas à mobilidade. Entre os precursores dessa vertente, destacam-se as contribuições de Singer (1987), pela incorporação dos aspectos históricos-estruturais nas análises da migração, enfatizando a incorporação do sistema capitalista aos modos de produção agrícola, considerado pelo autor como fatores de mudança, expropriando o pequeno produtor, dedicado à agricultura de subsistência. A manutenção da agricultura de subsistência representa os fatores de estagnação, pela dificuldade de inserção dos produtos no mercado capitalista e pelas limitações da produção, atrelados às condições físicas da terra, como é o caso do Nordeste. Singer aponta como os fatores de mudança e estagnação que favorecem a mobilidade dos trabalhadores, sobretudo no seio nas atividades agrícolas, em que o trabalhador ou é expropriado da terra ou dos meios de produção:

Os fatores de expulsão que levam às migrações são de duas ordens: fatores de mudança, que decorrem da introdução de relações de produção capitalistas nestas áreas, a qual acarreta a expropriação de camponeses, a expulsão de agregados, parceiros e outros agricultores não proprietários, tendo por objetivo o aumento da produtividade do trabalho e a conseqüente redução do nível de emprego; [...] e fatores de estagnação, que se manifestam sob a forma de uma crescente pressão populacional sobre uma disponibilidade de áreas cultiváveis que pode ser limitada tanto pela insuficiência física de terra aproveitável como pela monopolização de grande parte da mesma pelos grandes proprietários. (SINGER, 1987, p. 38).

Peek (1978) apud Becker (2006) relacionou a migração à transição da produção agrícola não capitalista para a capitalista nos países em desenvolvimento, principalmente na América Latina. Gaudemar (1977) partiu do enfoque neomarxista para explicar que a mobilidade acompanha os movimentos do capital. Assim, a mobilidade seria uma decisão forçada, divergindo da visão neoclássica, em que o migrante tomava a própria decisão de migrar, tornando-se força de trabalho sujeita ao capitalismo como mercadoria com valor agregado. A obra de Gaudemar se apoia na dialética marxista para entender as forças econômicas que provocam a mobilidade, a qual ele inicia uma diferenciação conceitual entre migração e mobilidade populacional.

[...] na linguagem dos praticantes, entre mobilidade e migração, indica claramente a elaboração indutiva à qual eles se entregam: não podendo, através de estatísticas e das diferentes observações da vida econômica, considerar senão os próprios movimentos dos homens, são estes movimentos que para eles qualificam o conceito de mobilidade. (GAUDEMAR, 1977, p. 64).

As críticas a esse enfoque estão atreladas ao fato de desconsiderar as perspectivas dos próprios migrantes como critério para análise da migração (PÓVOA NETO, 2007; MENEZES, 2012; BECKER, 2006). A partir dessa breve exposição, é relevante enaltecer que ambas as vertentes contribuem para a análise dos deslocamentos populacionais, cabendo ao pesquisador atribuir-lhes significado durante a realização da pesquisa.

Retomando a discussão conceitual sobre mobilidade e migração, BECKER (2006) aponta que a migração possa ser compreendida como mobilidade espacial da população. Hogan afirma que o termo mobilidade envolve fatores para além da mudança permanente ou temporária de residência. "O termo mobilidade é usado como um conceito mais amplo que migração, já que considera que uma parte crescente dos movimentos população com impactos sociais, econômicos, políticos e ambientais" (HOGAN, 2005, p. 326).

A noção do termo migração como simples mudança de residência está atrelada ao uso do termo nos censos demográficos realizadas pelo IBGE, que possibilita correlacionar alguns fatores ligados à migração, principalmente a origem e o destino dos deslocamentos populacionais (LOBO, 2009, p. 77-78). Para Mattos (2011, p. 130), o migrante pode ser caracterizado como indivíduo que realizou um movimento entre dois municípios no intervalo de dois censos, ou o que fez diversas mudanças de domicílio ao longo da sua vida. Esse breve arcabouço conceitual referenda a perspectiva neoclássica, a qual tinha como objetivo uma análise quantitativa e a formulação de leis gerais sobre os deslocamentos e desconsidera fatores importantes para a compreensão do fenômeno.

Devido à amplitude dos fatores relacionados ao deslocamento populacional, que será abordado neste trabalho, a opção pelo conceito de mobilidade populacional é recorrente, por abarcar uma dimensão maior dos fatores e processos relacionados ao movimento das pessoas no espaço, e por abarcar a dimensão do deslocamento para o trabalho. O conceito de mobilidade permite uma aproximação no campo da Geografia enquanto ciência. Haesbaert expõe que pode-se definir a mobilidade como a relação social ligada à mudança de lugar, isto é, como o conjunto de modalidades pelas quais os membros de uma sociedade tratam a possibilidade de eles próprios ou outros ocuparem sucessivamente vários lugares, o que possibilita que os indivíduos se desloquem e criem laços com diferentes lugares. Ele também define o migrante como uma parcela integrante ou que está em busca de integração numa (pós) modernidade marcada pela flexibilização e precarização das relações de trabalho (HAESBAERT, 2011, p. 238).

A modalidade de mobilidade temporária corresponde aos deslocamentos para atender à demanda por mão de obra em diferentes regiões do país, onde trabalhadores se deslocam para atuar em diversas atividades tanto no campo quanto na cidade e, com o fim do período de trabalho, retornam aos seus lugares de origem.

A mobilidade sazonal da população, que também se enquadra como temporária, é determinada pelas necessidades produtivas, com relevância para os períodos das safras agrícolas. No Brasil, esse tipo de mobilidade ocorre, sobretudo, na colheita da laranja, da cana-de-açúcar, no café, no algodão, entre outras monoculturas (CARMO, 2012). Essa caracterização da migração sazonal demonstra a relação entre a migração e a necessidade do migrante por trabalho, mesmo que temporário.

Dentro do contexto da mobilidade sazonal, vale destacar que os deslocamentos para outras regiões à procura de trabalho permitem que o trabalhador se mantenha no seu local de origem, garantindo a sobrevivência tanto no campo quanto na cidade, mesmo que exista uma submissão a longas jornadas de trabalho para conseguir atingir suas metas ou as metas impostas pelos empregadores. Nesse sentido, as contribuições dos trabalhos desenvolvidos por Silva (2007) são bastante relevantes, tendo em vista que relacionou as questões dos trabalhadores do campo com as migrações temporárias e/ou sazonais, abordando as condições de trabalho nas lavouras de cana-de-açúcar, laranja e café do interior paulista, partindo do viés da dominação de classe pela expropriação dos modos de produção, enfatizando o processo de transformação dos pequenos produtores em trabalhadores assalariados, migrantes, volantes, pelo processo de socialização para o trabalho.

No movimento de saída do lugar de origem e de chegada no lugar de destino e retorno, o trabalhador estabelece múltiplas relações socioespaciais. Nesse processo de deslocamento, como demonstra Haesbaert (1998) ao analisar as implicações

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