Curta este título agora mesmo, além de milhões de outros, com um período de avaliação gratuita

Grátis por 30 dias, depois $9.99/mês. Cancele quando quiser.

Trindade

Trindade

Ler amostra

Trindade

Comprimento:
62 páginas
46 minutos
Lançado em:
Nov 17, 2020
ISBN:
9788581361161
Formato:
Livro

Descrição

Trindade é mais uma coletânea de contos de Marcio Sgreccia: A voz que me fala, Cidade brilhante e Sobre os telhados de Hamburgo. De uma maneira diferente da usual o autor expões suas opiniões sem se importar com a crítica.
Lançado em:
Nov 17, 2020
ISBN:
9788581361161
Formato:
Livro

Sobre o autor


Amostra do Livro

Trindade - Marcio Sgreccia

Hoje, amanhã, depois, és um pedaço de mim. No futuro, serás minhas mãos. No passado, meus pés. A qualquer hora do dia, meu coração. Tu armazenas meus olhos, meus pulmões. Serás a outra sombra. Uma árvore morta. Um desenho perdido por aí. Um pouco do lixo jogado na rua. Coisas inúteis, desprezadas. Serás a torre da igreja com seu relógio quebrado. És uma tatuagem do tempo, no tempo. As nuvens estão chorando hoje. Por tua \ minha causa. Somos um retrato desconhecido, abandonado numa gaveta qualquer. Quem mais vai se lembrar de ti?

De mim? Com certeza, ninguém."

"Aqui as manhãs são frias. Vejo apenas paredes. Encosto-me nelas, me esfrego nelas para sentir a sensação de que me abraçam, me tocam. Mas quem ama as paredes? Elas me amam em silêncio. As noites também são frias. O céu não tem estrelas. Nunca mais vi o luar de setembro. Meus olhos marejam. Dizem que a cor azul é também fria.

Meus pés tocam o império dos mortos."

É isso. Já é tarde. A escuridão da noite afasta de mim todas as estrelas.

Aquelas vozes voltaram. Voltavam sempre. Sem menos esperar, elas chegavam, assim como quem não quer nada. Acabavam por tomar conta dele. Vozes e vozes se misturando pelo corpo inteiro. O corpo também falava, respondia. Por várias vezes tentara impedi-las. Nunca dava certo. Vinham dominadoras, festejando um coral de sons diferentes. Um dia, quando estava em uma lucidez temporária, ele começou a interferir. Resolveu recebê-las como visitas, ora oportunas, ora inoportunas.Era uma tentativa. Havia imaginado esse jogo. Dentro dele, todos os movimentos estavam perfeitos. Fora dele, uma imobilidade absoluta. Mas o jogo deu certo. As vozes voltavam quando ele as chamava. Era um encontro compartilhado.

Sair, ir, voltar, retornar, desistir. Chorar copiosamente, mergulhado em catatonia.

O abandono o abraçava com lençóis encardidos. Sua vestimenta enquadrando-o num pequeno cubículo com uma fresta, por onde, vez ou outra, entrava a luz do sol. A cela é quente e úmida durante o dia. À noite, esfria. Contra todas as possibilidades, poucos sobrevivem. Não há mais lei, nenhum deus.

Estou semimorto faz tempo. A gente se acostuma com a realidade. Não é uma má ideia. Um detalhe: aqui se agoniza, mas não se morre. Foi o início de uma carta não terminada. Sem destinatário. Sem endereço. A loucura estava do lado de fora. Mais do que se imagina. Nunca dentro dele. Conseguia perceber uma presença invisível. Ele via aquelas mãos, ora os pés, depois os olhos. Um olhar que dominava o mundo. Ele sentia uma estranha sensação de júbilo.

Caminho horas e horas sobre as pedras do jardim porque gosto de ouvi-las. Componho meu oratório com os fragmentos dessas canções. Hoje, as pedras cantaram um trecho sobre a dor. Meu réquiem em pedaços.

Troca-se ali a loucura pela vida. Uma troca embaraçosa no começo. Depois, nada mais tem importância. E que importância tem o futuro? Ele serve para quê? O futuro é um espelho embaçado.Até que haja uma transformação para sempre.

O prisioneiro e a cela se tornam uma coisa só. Pedra, cimento, umidade, calor abrasivo, frio intenso, desespero, angústia e um final feliz: a loucura. Não se despede de nada nem de ninguém ali. Longas despedidas costumam ser fatais.

Passaram os anos, muitos anos.

A loucura dele chegou na hora certa e era a única saída. Mesmo não sendo uma solução. Tinha certeza de que vivia em outro mundo. Desigual. Era como se várias orquestras tocassem músicas de vários compositores ao mesmo tempo. Vez ou outra percebia algo estranho. Percebia claramente que os espíritos dos humanos estavam enfermos, e também quando a cólera do Espírito se manifestava na natureza. Totalmente absorto, cantarolou uma música triste que sua mãe cantava. Não lembrava mais a letra, apenas a melodia. Aquele som permanecia na sua mente horas e horas. Ele repetia, repetia, repetia.

Você chegou ao final desta amostra. Inscreva-se para ler mais!
Página 1 de 1

Análises

O que as pessoas pensam sobre Trindade

0
0 avaliações / 0 Análises
O que você acha?
Classificação: 0 de 5 estrelas

Avaliações de leitores