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Processos de construção de formas na criação: o projeto poético de Pedro Nava

Processos de construção de formas na criação: o projeto poético de Pedro Nava

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Processos de construção de formas na criação: o projeto poético de Pedro Nava

Duração:
215 páginas
2 horas
Editora:
Lançados:
1 de jun. de 2016
ISBN:
9788572168717
Formato:
Livro

Descrição

Os bastidores da criação representam um desa o e um convite ao pesquisador de documentos e de rascunhos textuais. Na relação entre esses registros e a obra entregue ao público, encontramos um pensamento em construção. As re exões que esses documentos proporcionam, oferecem ao leitor outra maneira de se aproximar do texto, incorporando seu movimento construtivo. Por meio do contato com arquivos de criação, apreende-se o sentido de deixar de operar apenas com a ideia de produto e passar a adotar, permanentemente, a noção de processo. Ao preservar os arquivos com os quais organizou o conteúdo de sua obra, Pedro Nava possibilitou o desvendamento do seu processo de criação e de sua forma de perceber a realidade. A atividade de construção carrega, em seu interior, conteúdos de complexidade e a exigência de total dedicação. Implica, ainda, a busca da matéria mais adequada aos objetivos uma vez que o impulso criativo direciona a seleção das escolhas que aparecem em diferentes
contextos e torna possível, ao artista, contemplar esse movimento em direção à concretização de seu projeto poético. A análise dos manuscritos permite perceber a incessante pesquisa a que se atira o escritor no intuito de tecer os os que irão compor a sua escrita e compreender a diferença funcional e a seleção entre os vários documentos arquivados no processo de seu trabalho criativo.
Editora:
Lançados:
1 de jun. de 2016
ISBN:
9788572168717
Formato:
Livro

Sobre o autor


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A Eduel é afiliada à

Catalogação elaborada pela Divisão de Processos Técnicos

Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina

Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP)

P192p

Panichi, Edina.

Processos de construção de formas na criação [livro eletrônico] : o projeto poético de Pedro Nava / Edina Panichi. – Londrina : Eduel, 2016.

1 Livro digital : il.

Inclui bibliografia.

ISBN 978-85-7216-871-7

1. Nava, Pedro, 1903-1984 – Crítica e interpretação. 2. Escritores brasileiros. 3. Criação (Literária, artística, etc.). I. Título.

CDU 869.0(81).09

Direitos reservados à

Editora da Universidade Estadual de Londrina

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Fone/Fax: (43) 3371-4674

e-mail: eduel@uel.br

www.eduel.com.br

Depósito Legal na Biblioteca Nacional

2016

Sumário

Apresentação

O DEVIR DO TEXTO

TRILHANDO O PERCURSO DA CRIAÇÃO

A MEMÓRIA VISUAL

A POESIA

GEOGRÁFICA DE MINAS

A FUNCIONALIDADE DA PÁGINA DIREITA

O PINTOR DE PALAVRAS

LINGUAGEM EM PROCESSO

ASPECTOS COMUNICACIONAIS DA TRADUÇÃO ARTÍSTICA

DA DESORDEM ESCRITURAL AO TEXTO PUBLICADO

OS RETRATOS VERBAIS

OS COMPONENTES DA ESCRITURA

A CONCRETIZAÇÃO DO PROJETO POÉTICO

REFERÊNCIAS

ANEXO

Apresentação

Edina Panichi, da Universidade Estadual de Londrina, apresenta a seu leitor um belo ensaio inovador em crítica genética e na crítica naveana. Analisando os cadernos de anotações e de desenhos, a autora destaca a complexidade e a plasticidade do pensamento em criação do autor, o que poderia interessar aos estudiosos em ciências cognitivas. Não hesita em contar a espinafração que Nava levou de Carlos Drummond porque jogava fora seus rascunhos: respeite-se – foi a expressão dele – tenha respeito pelo que você escreve. De fato, Nava tinha jogado fora os manuscritos de Baú de Ossos e Balão Cativo. O que não aconteceu mais, depois, para os outros livros, salvo um caderno misterioso da infância que reapareceu. De um certo modo, é, portanto, graças a Drummond que os arquivos de Nava sobreviveram e estão disponíveis para pesquisadores na Fundação Casa de Rui Barbosa.

Qualificar a escritura de Nava como autobiográfica seria um erro segundo a autora: Nava ultrapassa os limites da autobiografia individual […] As suas memórias baseiam-se em um manancial de informações que poucos conseguem, seja em documentação carinhosamente recolhida pelo tempo afora, ou pela tradição transmitida por várias gerações, acrescida de um poder de observação raríssimo numa criança e completado por uma memória privilegiada.

Do mesmo modo, a crítica assimilou muitas vezes a escritura de Nava à de Marcel Proust baseada nas próprias declarações do autor mineiro. Com efeito, poderíamos lembrar as alusões às memórias voluntária e involuntária, a realização sensorial do presente com alguma experiência do passado, a qual se associa àquela por um elemento comum (gosto, cheiro, visão, etc.), comparar as duas direções e os dois mundos da rua Direita de Juiz de Fora com os dois lados de Um amor de Swann, o caminho de Swann e o caminho de Guermantes, aproximar os quadros de Elstir, o pintor da Busca do Tempo Perdido, e as descrições de muitos trechos nos quais as figuras são fundidas em um todo homogêneo e indivisível, havendo uma clareza relativa do objeto, estando seu caráter expressivo enfatizado através do contraste entre luz e sombra, ilustrar a espiralação da memória com a psicologia no espaço de Proust, mostrar a admiração dos dois autores pelos vestidos e explorar a idolatria do Swann (Odette e Zefora) e do narrador naveano (Lenora e Dafne) por Botticelli, etc.

Mas o livro de Panichi não faz literatura comparada embora empurre o crítico proustiano que sou, a fazê-lo. Sem negar as influências, a autora insiste no conceito de tradução intersemiótica que exerce um papel fundamental, ao lado da ideia de tradução como (re)criação e (julga) indispensáveis as abordagens do complexo, da auto-organização [...]. Ela vê a discussão do texto como resultado de transmutação de formas, como objeto inacabado, que difere dos estudos sobre os fenômenos comunicativos, em suas diversas manifestações, os quais discutem produtos considerados finalizados ou acabados.

É aí que se revela o papel da crítica genética: oferecer outra maneira de se aproximar do texto que incorpora seu movimento construtivo, utilizar por exemplo os documentos de processo de Beira-Mar para o quarto volume que permitem observar os encaminhamentos da escritura e descobrir os componentes da dinâmica que lhe dão movimento, observar o movimento de colecionador ou de armazenamento para a disseminação dos dados na produção final e constatar que não há passagem em Pedro Nava em que não tenham sido utilizadas duas, três, dez fichas ou mais, além da organização das mesmas em uma espécie de síntese (boneco) para auxiliar a organização do texto e o desenvolvimento lógico do pensamento.

Há neste livro bastantes aproximações possíveis com a teoria psicanalítica. Quando Edina escreve que impressões sensoriais vão sendo transformadas em imagens mentais e traduzidas para linguagem verbal, ela não somente cruza o aparelho psíquico da Interpretação dos Sonhos quando Freud chama as imagens mentais de inconsciente, mas também o narrador proustiano, que retomando Leonardo da Vinci, sustém que a percepção antes de ser assimilada passa por cosa mentale.

Devo salientar que as pesquisas sobre Pedro Nava, de Edina Panichi, já marcaram a crítica literária brasileira, particularmente a crítica naveana, contribuindo de maneira significativa com a formação de seus orientandos. Que esse livro seja mais uma contribuição valiosa para a crítica genética no Brasil, é o que esperamos.

Philippe Willemart

Laboratório do Manuscrito Literário

Universidade de São Paulo

O DEVIR DO TEXTO

A construção da obra de arte é uma questão intrigante, pois o caminho trilhado pelo artista é de natureza diversa. Observações, pesquisas, experiências vividas, anotações são alguns dos trajetos que uma obra persegue até chegar ao público leitor. As interconexões que estabelecem os liames dessa criação emergem das ligações entre as muitas ações do fazer artístico. Penetrar no ambiente de criação do escritor e nas fontes que mobilizam a sua escrita, permite perceber que o processo criativo se inscreve e se orienta por múltiplas ações. São muitas as relações de tensão que orientam o expandir e a retração na construção da linguagem. Este fluxo se constitui num campo de experimentação e descoberta, onde o percurso é continuamente redesenhado mesmo diante do plano de projeto inicialmente descrito pelo criador (FARIAS, 2015, p. 368).

Ao longo das memórias que escreveu, Pedro Nava tratou de um arsenal de assuntos. Para dar conta de um material assim tão vasto e diversificado, era preciso ter grande habilidade, tanto literária quanto de organizar arquivos. O leitor logo percebe que Nava só pode ter trabalhado tendo, ao alcance das mãos, um arquivo considerável. Sua vocação para guardar vinha de tenra idade. Arquivou documentos de família, fotografias, cartas, bilhetes, frases soltas, citações de livros, gravuras, desenhos, etc. Todos esses guardados viriam a se tornar preciosos para dar corpo às memórias. Impunha-se, portanto, um método para aproveitar, no ato da escritura, um material volumoso e fragmentado, acumulado durante décadas. O contato com esse material despertou o interesse pelo estudo sobre a ligação entre a memória conservada e a elaboração da obra, além da busca pela compreensão e interpretação do movimento criador.

Nava dispunha de cadernos de anotações, instrumentos que davam suporte para a execução do que ele chamava boneco dos capítulos de seus livros. Antes de escrever, era preciso passar pela etapa de mineração; tratava-se de selecionar o material a ser utilizado. Muita coisa não era aproveitada e ficava aguardando a vez de ser integrada noutro boneco. Depois dessa etapa, vinha o momento de depurar o material incorporado no texto, até ser obtida a forma publicável. A fonte principal do trabalho literário de Pedro Nava é ele mesmo, ou seja, sua capacidade de operacionalizar criativamente a própria memória. Contudo, essa somente, sem apoio da documentação e do método, não o teria levado tão longe. Em outras palavras, seus bonecos não poderiam ter evoluído para os corpos vigorosos dos volumes finais.

Pedro Nava tem um grande mérito como memorialista. É profundamente fiel à verdade dos fatos observados e às emoções sentidas. A sua curiosidade de inquiridor, (herança de médico), levava-o a descer a minúcias como se desejasse fazer um diagnóstico, aplicando sua ciência à língua. Nada lhe escapava. Tudo era anotado e guardado como uma possibilidade de uso, como o próprio autor nos revela em uma entrevista:

Eu faço uma súmula do que vou escrever. Eu posso mostrar a você a coisa como eu faço. Tudo o que me ocorre – o meu mecanismo é este – me ocorre de lembrança interessante, de fato curioso, um achado de língua, digamos, uma combinação de duas palavras que eu ache bonita, que eu goste, que eu surpreenda num jornal, ou eu mesmo falando, ou um amigo, eu tomo nota daquela coisa como uma possibilidade de usar. De modo que eu vou tomando nota, seguidamente, em vários cadernos, escrevendo sempre num lado da página, respeitando sempre o outro lado porque, quando eu preciso daquilo, eu meto a tesoura, corto, arranco, e aquilo é uma fichinha que eu vou usando. Faço também a minha súmula e nessa súmula coloco a numeração daquelas fichas que eu vou tirando, que eu vou separando. Por exemplo, eu digo – PARANÁ. Se eu encontrar referências a poetas do Paraná, como Aderbal de Carvalho, por exemplo, que eu fui colega do filho dele, isso eu já teria posto numa ficha. Eu ponho nº 1, 2, 10, 30, 40 ali naquela coisa e assim eu vou usando essas fichas. Nos meus dois primeiros livros, eu joguei fora. Eu escrevia com uma cesta de papel ao lado e jogava fora a ficha. Contando isso ao Carlos Drummond, ele me passou uma espinafração muito grande e disse: respeite-se – foi a expressão dele – tenha respeito pelo que você escreve. Uma nota sua, você guarde, porque se você for estudado mais tarde, você deixa isso como documentação. Eu passei a guardar essas fichas e com isso eu adquiri mais respeito pelo que eu faço, pelo que eu escrevo. Não há página minha que eu não tenha consultado duas ou três fichas. Um livro meu, de 500 páginas, foram 1500 fichas consultadas, mais ou menos. De modo que isso foi uma coisa que me deu uma certa tranquilidade de um trabalho que não é leviano. O que eu escrevi é resultado de elaboração, de nota (PANICHI, 1984, p. 15).

Foucault (2002) ao referir-se à escrita etopoiética surgida através dos documentos do I e do II séculos, alude aos hypomnematas que eram livros de registros e notas nos quais eram consignadas citações, passagens diversas ou mesmo relatos de ações vivenciadas que serviriam para uso futuro na rememoração dos fatos, tal como fez Pedro Nava, ao garimpar o material que iria servir à composição de suas memórias. Os inúmeros cadernos arquivados pelo memorialista constituem material de suporte e garantia da captação do vivido, ao qual ele poderia retornar sempre que necessário para reativar as lembranças.

Figura 1: Cadernos de anotações de Pedro Nava

Fonte: Acervo de Paulo Penido.

Os longos anos dedicados à medicina foram decisivos para o amadurecimento do estilo do autor. Formado em 1927, Nava passou a vida estudando e aperfeiçoando-se na profissão que abraçou. A influência da medicina é patente em sua escrita. Contudo, os melhores resultados da infiltração médica em seu discurso literário se dão quando o escritor supera o cientista, absorvendo o domínio da linguagem hipocrática na construção artística da obra. Como médico, Nava mantinha suas atividades de desenhista e pintor bissexto. Suas leituras sobre pintura e pintores, somadas às visitas que empreendeu aos grandes museus da Europa e da América possibilitaram-lhe adquirir, nesse campo, um saber equiparável ao que possuía no terreno da literatura. As citações de artistas e telas, ao longo de sua escrita, chegam a impressionar. A transposição da experiência no campo das artes visuais não se evidencia somente nas incontáveis citações de pintores e telas em suas memórias. Ela se mostra também em passagens nas quais se sente a mão do desenhista apoiando a do escritor. O ato de lembrar adquire, em Pedro Nava, diversas formas, sendo algumas delas comuns a outros escritores e outras, por ele exploradas de maneira mais particular. Esses diferentes modos de trazer à tona a lembrança nos mostram que o autor entendia bem o funcionamento da memória individual e utilizava conscientemente as possibilidades de manifestação da lembrança para causar um efeito literário. Daí alcançar o leitor, através de seu texto, a sensação de um estilo único, porque as diversas maneiras de a imagem se manifestar na memória são exploradas com um colorido e uma riqueza de detalhes que imprimem ao texto forte teor artístico.

Os escritores prediletos de Nava eram ambos memorialistas: Marcel Proust

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