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Poesia Negra: Solano Trindade e Langston Hughes

Poesia Negra: Solano Trindade e Langston Hughes

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Poesia Negra: Solano Trindade e Langston Hughes

notas:
5/5 (1 nota)
Duração:
441 páginas
14 horas
Lançados:
5 de fev. de 2018
ISBN:
9788547309152
Formato:
Livro

Descrição

Poesia Negra: Solano Trindade e Langston Hughes é sem dúvida um livro de referência para todo estudioso da poesia negra. Este trabalho ultrapassa o seu título, pois nele confluem as Américas, incluindo o Caribe, os EUA, o Brasil, o Canadá e a África. Como é de esperar, Elio demonstra o seu conhecimento de Luiz Gama, Castro Alves, Cruz e Souza e de muitos poetas da negritude. Mas eu pessoalmente destacaria o trabalho primoroso que ele cumpriu ao resgatar a poesia das mulheres negras, de Esmeralda Ribeiro, Miriam Alves, Lourdes Teodoro e Tânia Lima, entre outras.

Elio sabe se valer de um discurso técnico. No seu texto florescem as palavras da Tribo, o linguajar de Teoria Literária. As notas de rodapé também apresentam esse rigor. Mas não recua diante da neológica, por exemplo, usando "caldeia" [do verbo caldear, o ferro]. Agradam-me ainda mais os momentos estilísticos em que o poeta Elio Ferreira pede passagem ao crítico Elio Ferreira.

O tom do livro é de uma pessoa engajada na sua enunciação. A voz do discurso revela um timbre pessoal que assume plenamente a sua negritude. Essa singularidade muitas vezes ganha a abrangência de um Nós coletivo. São todos os seus irmãos de "raça" que se exprimem por sua voz. Elio cita Franz Fanon, o famoso autor de Pele negra, máscaras brancas, um livro no estilo dele próprio.

O estilo é direto, bate na cara pelo ritmo das frases curtas, ou cortadas pelas vírgulas nas enumerações. A metáfora do "Navio Negreiro" e outras metáforas aguardam o leitor em muitas outras páginas, como a metáfora do tambor e a figura de Palmares.
Lançados:
5 de fev. de 2018
ISBN:
9788547309152
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Poesia Negra - Elio Ferreira de Souza

Editora Appris Ltda.

1ª Edição – Copyright© 2017 dos autores

Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98.

Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores.

Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010.

COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO LINGUAGEM E LITERATURA

À minha mulher, Francira, ao meu filho, Irapuá, à minha filha, Egbara,

ao meu sobrinho-filho, Ricarte.

Aos meus pais, Aluízio Ferreira de Souza e Inez de Souza Rocha (in memoriam).

Aos meus irmãos, Maria Anésia, Elza Maria, Ilza Maria, Vitorino, Maria Onélia, Aluísio Filho, Francisca Paula, Betânia, Chico e José do Egito, este in memoriam, e sobrinhos, pelas lembranças e memórias da nossa casa, da oficina de ferreiro do meu pai, da rua, do bairro, da cidade e da gente simples e amiga que marcaram a minha infância e adolescência com narrativas, ensinamentos e histórias maravilhosas.

APRESENTAÇÃO

Escrevi este livro entre os anos de 2002 e 2006. A obra prioriza o estudo da poesia afro-brasileira de Solano Trindade (1908-1974) e a poesia africano-americana de Langston Hughes (1902-1967). Frequenta a obra de outros poetas negros como Countee Cullen (EUA), os caribenhos Nicolás Guillén (Cuba), Aimé Césaire (Martinica), de poetas brasileiros, romancistas, narrativas escravas, cantos, canções, música brasileira e estado-unidense de matriz africana, contos, lendas, mitologia dos Orixás, religiosidade, ritos de passagens e outras expressões da tradição africana em Diáspora, no Novo Mundo. Inicialmente, faço uma apresentação breve do Renascimento Negro do Harlem, do Movimento da Negritude na França, da Negritude no Brasil, dentre outras manifestações literárias, culturais e sociais representativas na Diáspora africana. Em seguida, analiso a poesia de alguns precursores da literatura afro-brasileira, assim como poemas de autoras negras de hoje. Faço uma leitura comparativa entre a épica ocidental da tradição europeia e a épica quilombola Canto dos Palmares, de Solano Trindade, detendo-me na análise poética e histórica da epopeia afro-brasileira. Enfatizo a relação, o entrecruzamento da literatura afrodescendente com a música negra das Américas, a herança griot, este poeta da antiga tradição oral africana, e de outros mestres de cerimônia da Diáspora. Enfoco a memória pessoal e coletiva no discurso poético, a construção da identidade afrodescendente em processo, o engajamento da negritude marxista, a história da escravidão, a violência, o exílio social do negro, a cultura e suas estratégias de resistência. Conto minhas memórias de infância, falo sobre o Boi da minha cidade – a gênese do Bumba-meu-boi no Piauí, memórias e sua transferência para o Maranhão. Relaciono os poemas de Langston Hughes à alegria de ser negro, à reivindicação dos direitos civis e da América também para os negros, denunciando a ação terrorista da Ku Klux Klan. Analiso a poesia de Hughes, que traduz os motivos temáticos, filosóficos e estéticos das canções de blues/jazz. Destaco o processo de criação, temas e função social da poesia afrodescendente, do blues, do jazz, da capoeira. Mapeio semelhanças e diferenças na performance do poeta, do jazzista e do capoeirista, que evocam a memória gestual do corpo por meio da poesia, do canto, da música, da dança, da ginga, da luta, da trama e da dissimulação. Abordo a poesia de Hughes e de Solano sob a perspectiva da leitura intertextual, destacando as memórias pessoal, autobiográfica e coletiva desses autores, em relação com os contos populares de tradição oral e as narrativas de experiência dos nossos antepassados negros. Retomo minhas considerações acerca da tradição africana, da ancestralidade, da identidade negra e as experiências da vida moderna na Diáspora, que resultaram na negralização de identidades culturais das Américas mediante hibridização. Faço ainda a tradução de 14 poemas de Langston Hughes, da língua inglesa para a língua portuguesa.

O fato de haver poucas traduções de Langston Hughes, ao nosso alcance e em língua portuguesa, fez com que me empenhasse na tradução de alguns poemas para subsidiar nossa leitura. Nesta obra, incluí a tradução de 14 poemas, dos quais cinco foram traduzidos unicamente por mim e na tradução dos outros nove contei com a colaboração do professor Antônio de Sampaio. Todos os poemas, inclusive os textos teóricos traduzidos, foram revisados pelo Prof. Dr. Roland Walter. Na tradução de alguns poemas, solicitei também a revisão do meu amigo e poeta José Lira. Além das minhas traduções, utilizei as de Domingos Carvalho da Silva, Francisco Burkinski, Guilherme de Almeida, Orígenes Lessa, Ribeiro Couto e Sylvio Back.

O autor

PREFÁCIO

My race began as the sea began/with no nouns, and with no horizon/with pebbles under my tongue/with a different fix on the stars/ ... with no memory (Derek Walcott).

As artes negras das Américas nasceram do cri, como dizia Édouard Glissant. Para Glissant é necessário escutar os gritos de todos os seres neste planeta; gritos dos quais um tipo iniciou-se nas costas africanas e se prolongou nos negreiros e nas plantações do continente americano. Segundo o poeta Derek Walcott, os gritos dos migrantes afrodescendentes – migrantes nus nas palavras de Glissant – continuam ecoando no mar, sem palavras e sem memória. Existem traços mnemônicos nas terras, nos mares, entre lares preenchidos de emoção e imaginação constituindo os lieux de mémoire que nascem da não memória: uma contramemória das artes da Diáspora negra que preenche os vazios e retifica as distorções e falsificações da História oficial. Essa contramemória das artes negras constitui diversas encruzilhadas de uma episteme transculturada: espaços onde formas, práticas, costumes, línguas, ritos e mitos de diversas culturas e povos se encontram e agem de maneira heterotópica, criando círculos que ligam gerações, tempos e lugares num processo de contínua transculturação. Elio Ferreira, em diálogo sincópico-rizomático-analítico com dois grandes poetas das Américas Negras, o brasileiro Solano Trindade e o norte-americano Langston Hughes, coloca-se nessa encruzilhada capoeirando a energia rítmica da poesia negra. Nesse processo, ao utilizar as artes negras como lugar de memória, ele nos faz lembrar a importância da memória no processo da descolonização da desumanização negra pela ideologia supremacista branca e da reconstrução das coisas e dos mundos em terras americanas que se tinham despedaçados (Chinua Achebe) em terras africanas. Uma reconstrução de identidades, epistemes e línguas enquanto viagem – esse motivo par excellence que caracteriza a experiência negra, tanto vivida quanto imaginada – entre a distopia e a utopia. Uma reconstrução-viagem entre a desterritorialização e a reterritorialização que implica um processo multidimensional de ressignificação, o que Henry Louis Gates, Jr., no seu estudo seminal The Signifying Monkey: A Theory of African-American Literary Criticism¹ (1989), teoriza como signifyin’.

Se, segundo Hélène Cixous², a escrita é o espaço que pode servir de trampolim para o pensamento subversivo, o movimento precursor de uma transformação das estruturas sociais e culturais³, então gostaria de acrescentar que o que Linda Hutcheon⁴ problematiza como reordenação ex-cêntrica da cultura, na transescrita afrodescendente das Américas envolve tanto resistência quanto assimilação ou colaboração enquanto estratégias de potencialização/sobrevivência para redefinir a posição do sujeito mediante uma afirmação da diferença recriada. Na transescrita negra trata-se de uma reconstrução do self ligada à busca de um lugar coletivo dentro e entre espaços/estados/condições, ou seja, entre lugares e mares onde a colonização e a descolonização, a dominação e a resistência dançam de rostos colados aos ritmos esquizofrênicos do poder. Esse movimento entre a distopia e a utopia é de suma importância, porque gera uma dinâmica de tensões que implica o sujeito em constantes cruzamentos e recruzamentos de fronteiras e nesse processo estilhaça o sentido estável e unitário do eu. Se, segundo a escritora afro-canadense Dionne Brand⁵, o esquema cognitivo dos africanos da Diáspora interamericana é caracterizado pelo cativeiro, situando-os sempre no meio de uma viagem, neste espaço inexplicável do mar intervalar, a viagem e a existência intersticial de tantos personagens da ficção negra demonstram que esse cativeiro – uma vida nômade dentro do gueto ou entre regiões, nações e continentes – contém seus lugares livres de descoberta, conscientização e criatividade. Em outras palavras, a consciência interior da Diáspora negra, que, segundo Brand, é a porta da não volta determinada por uma história apocalíptica e esquizofrênica, é, ao mesmo tempo, a porta de novos horizontes constituída por diversos atos de resistência, inclusive aquele da escrita.

Isso significa que a recuperação da memória no processo de estabelecer um saber epistêmico é algo mais do que a simples recuperação arquivística de dados. É uma vontade/necessidade de sentir, cheirar, ouvir, ver, tocar, cantar, escrever, dançar e entender que estabelece a continuidade entre o passado e o presente; uma dialética heterotópica em fluxo entre o interior e o exterior, o próprio e o alheio, o oral e o escrito, a camuflagem (opacidade) e a revelação (transparência), o deslocamento e a reterritorialização, entre lugares (e em entre lugares), tempos, cores, vozes e consciências; entre a fusão e a fissura identitária, cultural e epistêmica: le chaos du tout-monde em constante processo de metamorfose; ou melhor, um quilombismo mitopoético cujo objetivo principal é o remapeamento das relações culturais por meio dos imaginários da circularidade ou da espiralidade, como dizia Glissant⁶, estabelecendo um saber terra-mar enquanto legitimidade cultural que serve de base para a (re)construção da identidade humana.

Esse processo mnemônico, que revela um saber terra-mar, deve ser considerado uma prática social por duas razões: (1) retifica as distorções e vazios da História oficial por meio de histórias subalternas, iluminando as atrocidades bárbaras cometidas em nome do progresso civilizador e (2) esboça uma vivência alternativa. Elio Ferreira, em diálogo antifónico com Solano Trindade e Langston Hughes, utiliza o lugar da memória para revelar, no sentido sartreano de "révéler c’est changer, e assim descolonizar a não história esquizofrênica dos afrodescendentes. Para que uma revelação se traduza em transformação é necessário conscientizar-se que segundo o pensador afro-caribenho René Depestre a história da colonização é o processo da zumbificação geral do ser humano". Essa zumbificação vibra como fantasma na violência neocolonial da América Negra, onde segundo o poeta Elio Ferreirao que passou, não passou deixando seus traços (in)visíveis como parte de, para usar a frase memorável de Eduardo Galeano⁸, la memoria secuestrada de toda América.

O outro lado dessa zumbificação é o que Depestre descreve como o sal revitalizante capaz de restaurar o uso da imaginação e cultura ao ser humano. A música, a dança, a escrita, entre outras artes, é esse sal purificador capaz de curar os efeitos da colonização – o que Houston Baker⁹ chamou de os horrores de uma economia e política americana de violação; sal esse cuja substância crucial é a memória. O processo de lembrar o passado é um dos, se não o mais importante, meios para os afrodescendentes a) reunirem os pedaços estilhaçados da sua identidade fragmentada; b) assumirem a responsabilidade pelos seus atos e pelas suas atitudes; c) resistirem ao silêncio da amnésia nacional institucionalizada pelo discurso supremacista branco.

A contramemória dos afrodescendentes das Américas é uma re-visão, que Adrienne Rich¹⁰ define como o ato de ver com novos olhos, adentrando um texto antigo a partir de uma nova direção crítica, para explicar e conscientizar-se, nas palavras de Toni Morrison¹¹, onde estávamos, através de que vale corríamos, como eram as margens, a luz que havia lá e o caminho de volta ao nosso lugar original. Além de uma estrutura espacial, o ato da memória precisa da experiência individual e coletiva, de fatos, emoção e imaginação. A memória somente pode conduzir à compreensão e agência, a um conhecimento produtivo da condição do indivíduo e das forças e práticas históricas e socioculturais que a ocasionaram, se as experiências individuais e coletivas estiverem entrelaçadas.

O blues/jazz/reggae/capoeira, a música e dança negra, portanto, constituem uma matriz poderosa para o entendimento cultural: transformam as experiências de uma paisagem extremamente e continuamente opressiva para as energias de ritmos e movimentos que possibilitam sobrevivência e resistência à injustiça, à perda, à ausência, à desesperança, à dor e ao sofrimento. Ao lembrar em performance, a música, dança e escrita perlaboram o trauma sofrido em memória sedimentada, estabelecendo um círculo que liga o passado no presente com o futuro entre as gerações passadas, vivas e ainda não nascidas. Nesse sentido, nas palavras do escritor e jazzista afro-americano Ralph Ellison¹², cujo romance Homem Invisível é um clássico mundial, o impulso do blues é manter vivo na consciência [...] os detalhes e episódios dolorosos de uma experiência brutal [...] e transcendê-la. Destarte, a música, dança e escrita constituem a encruzilhada performativa e fluida entre o fixo e as infinitas mudanças e possibilidades do móvel, entre a dor e a alegria, a perda e a recuperação; enfim, a viagem entre as mortes e as vidas, ou seja, a viagem-vivência entre mares e lares na Diáspora negra.

Onde se encontra e como encontrar um lar neste entre-mar, eis, um dos assuntos-chave deste livro do poeta, ensaísta, professor universitário e capoeirista Elio Ferreira. Ao comparar dois gigantes da arte negra das Américas, os poetas Solano Trindade e Langston Hughes, Elio se coloca entre mares e lares geográficos, o Brasil e os Estados Unidos, e epistêmicos criando um "atonal ensemble"¹³ com base em interdisciplinaridade e comparatismo intersemiótico que liga três artes negras – música, poesia, dança – que não somente revolucionaram as artes mundiais, mas, e talvez mais importante, contribuíram crucialmente para a reconstrução do colapso do ego individual e coletivo dos afrodescendentes na zona de não ser¹⁴; nesse processo, transformaram-na numa zona de estar.

Assim, o livro do Elio Ferreira é um importante trabalho que contribui para criar um mapa de uma geografia epistêmica crítica que revela, teoriza e problematiza semelhanças e diferenças do Dasein negro nas Américas; um mapa que é urgente se traçar, porque existem fronteiras invisíveis entre as comunidades e porque os problemas de língua, entre outros, estabelecem uma zona de não conhecimento na Diáspora negra das Américas.

Com imensa alegria e orgulho enfatizo que o processo da orientação que realizei foi uma via dupla: uma relação de aprendizagem mútua onde dois seres humanos de diferentes contextos étnico-culturais se deram as mãos lutando pelos mesmos objetivos, ou seja, a humanização deste mundo. Nesse sentido, este livro de Elio Ferreira, além de ser uma fonte rica e indispensável para pesquisadores de qualquer área dos Estudos da Diáspora Negra das Américas, é um símbolo de que, nas palavras de Édouard Glissant¹⁵, as fronteiras existem para ser transcendidas.

Recife, 1º de outubro de 2017

Roland Walter

(UFPE / CNPq)

Sumário

CANTO DE ENTRADA

CAPÍTULO 1

A POESIA AFRO-BRASILEIRA: ALGUNS PRECURSORES

Caldas Barbosa, Gonçalves Dias, Luiz Gama, Inácio da Catingueira, Cruz e Sousa e outros

A sátira fundadora de Luiz Gama: paródia e diálogo com a poesia dos Cadernos Negros

A representação do negro na poesia de Castro Alves: filantropia e estereótipo

O emparedamento e o diálogo com a poesia feminina afro-brasileira hoje de Esmeralda Ribeiro e Lourdes Teodoro

CAPÍTULO 2

SOLANO TRINDADE, O POETA DA NEGRITUDE BRASILEIRA

A invenção da diáspora africana nas Américas

CAPÍTULO 3

A POESIA AFRO-BRASILEIRA DE SOLANO TRINDADE: a metáfora do navio negreiro, narrativas escravas e autobiográficas da escravidão

O curso da memória autobiográfica e coletiva na escrita afrodescendente

CAPÍTULO 4

CANTO DOS PALMARES: UMA EPOPEIA QUILOMBOLA DE SOLANO TRINDADE

Identidade, discurso de fronteira, encruzilhada, hospitalidade, mitopoética de Exu e memória engajada

Evocação aos tambores: memória, utopia e resistência quilombola 

Poesia, cantiga de capoeira e narrativa griot: um diálogo possível entre África e América

CAPÍTULO 5

A POESIA ENGAJADA DE SOLANO TRINDADE: NEGRITUDE E MEMÓRIA HISTÓRICA

História da escravidão, violência e exílio social dos negros na modernidade

O diálogo da negritude marxista: Solano Trindade e Nicolás Guillén

CAPÍTULO 6

LITERATURA E CULTURA POPULAR: CIDADE, MIGRAÇÃO, CANÇÃO E MEMÓRIA

Migração e cidade: navio, trem de ferro, memória, música, canção popular e escrita engajada 

Poesia afro-brasileira e o bumba-meu-boi do Piauí: gênese, narrativas, memória e canções do Boi de Floriano, Piauí 

A gênese do Bumba-meu-boi do Piauí 

O Bumba-meu-boi: uma criação do negro escravizado 

Memórias, narrativas e canções do Boi de Né Preto de Floriano, no Piauí

As narrativas protagonizadas por Né Preto e o Boi 

O boi chorou, eu vi. Quem não chora na hora da morte?

Entre as fronteiras de dois Mundos

A memória social e mítica da cidade: a história da deusa jovem e bela Oxum e do ferreiro Ogum

Oxum dança para Ogum na floresta e o traz de volta à forja

CAPÍTULO 7

A POESIA DE LANGSTON HUGHES: MEMÓRIA, HISTÓRIA E IDENTIDADE NEGRA

Identidade, história da escravidão, preconceito racial e arte engajada

A memória mítica e histórica dos rios e a rota da escravidão ao longo do rio Mississippi

Poesia autobiográfica e identidades afrodescendentes: narrativa de encruzilhada

A poesia afrodescendente de Langston Hughes: identidade híbrida e fronteiras raciais

CAPÍTULO 8

O NEGRO E A AMÉRICA NA POESIA DE LANGSTON HUGHES

A alegria de Ser negro, memória, segregação racial, diálogos da negritude, cidade, metrô, arte engajada e a violência da Ku Klux Klan

Literatura afrodescendente, blues e baião: migração, cidade, trem de ferro, amor infeliz e pactos na poesia de Langston Hughes, nas canções de Robert Johnson e de Raimundo Machado de São Francisco do Piauí

CAPÍTULO 9

POESIA, JAZZ E CAPOEIRA: O CANTO, NARRATIVAS E A MEMÓRIA DO CORPO

Jazz e identidade cultural: desafio, improvisação e performance (1920-1945)

Capoeira e memória: identidade e função social

As vertentes da capoeira: Angola e Regional

Capoeira, cultura de resistência e entretenimento popular

O berimbau totêmico: ritmos, improvisação e cantos na roda de capoeira

CAPÍTULO 10

IDENTIDADE E MEMÓRIA NA POESIA NEGRA DE SOLANO TRINDADE E LANGSTON HUGHES

CANTO DE SAÍDA

BIBLIOGRAFIA

Boletim, cd, dvd, disco vinil, entrevista, relatório, revista

BOI DA CARA BRANCA

Boi, boi, boi...

Boi da cara branca

Pega esta criança

Que tem medo de Carranca.

Elio Ferreira

CANTO DE ENTRADA

MULHER BARRIGUDA

Solano Trindade

Mulher barriguda que vai ter menino

qual o destino

que ele vai ter?

que será ele

quando crescer?

Haverá guerra ainda?

tomara que não,

mulher barriguda,

tomara que não...¹⁶

O Canto de entrada inicia o rito das manifestações da cultura oral de tradição africana, assim como o Canto de saída indica o final. Peço licença para apresentar minha leitura da poesia de Solano Trindade (1908-1974), poeta brasileiro, e de Langston Hughes (1902-1967), poeta norte-americano. Peço atenção às repetições enfáticas do meu estilo persuasivo, martelado e ao tom de manifesto que, em algumas ocasiões, fala por meio do megafone como nas minhas performances poéticas que andei realizando por ruas, praças, escolas, universidades, igrejas, parques de diversões, rodoviárias, estações ferroviárias do Brasil. Os tambores reverberam a ancestralidade, a memória, a cosmogonia, a espiritualidade, a força vital dos afrodescendentes, traduzidos na tradição oral e na escrita dos autores negros em Diáspora.

Minha leitura reúne uma série de escritos desses dois autores do Brasil e dos Estados Unidos. Se, por um lado, Hughes e Solano estão distantes pelo espaço geográfico, histórico e social, encontram-se unidos na atitude básica comum que nutriu seus ideais: contar, a partir de suas próprias experiências, a memória pessoal e coletiva, a história de homens e mulheres negras na Diáspora africana, cujas identidades culturais se criam e recriam mediante a hibridização, com o diálogo dessas culturas entre si e dessas com as culturas de diferentes povos, e resultam em novas identidades no espaço diaspórico. A assertiva do martinicano Édouard Glissant de que o mundo se criouliza, no contato entre as culturas do mundo, está se tornando uma realidade nas sociedades ou nações que vivenciaram as experiências da globalização, pós-colonização, descolonização e, mais recentemente, do fluxo migratório de africanos motivado pelas crises políticas, sociais e as guerras. Equacionei à minha leitura a afirmação de Glissant, pois entendo que a crioulização seria também um processo de negralização do mundo por hibridização das identidades culturais, de forma dialogada ou negociada. Não é difícil notar a migração das narrativas originárias da América Negra e da África na direção da Europa e dos Estados Unidos, como a música, a literatura, a presença de jogadores negros ou afrodescendentes nos clubes de futebol europeu; a crescente valorização da capoeira afro-brasileira pelos europeus, norte-americanos negros e brancos, latino-americanos, judeus, africanos. Para se ter uma ideia desse fenômeno, apenas o ABADÁ Capoeira, um entre as centenas de grupos organizados da capoeira brasileira, tem escola ou academia em todos os continentes, com destacada recepção das nações europeias e africanas. Enfim, temos presenciado um dos maiores ou senão o maior fluxo migratório já registrado nos últimos séculos, que procederam ao tráfico escravagista do africano.

Nas sociedades colonizadas sob o regime de escravidão administrada pelo europeu, a negralização se deu como recusa à opressão, à assimilação imposta pela invasão colonialista. A experiência de homens e mulheres na Diáspora africana resultou na construção de novas identidades culturais e religiosas, recriadas a partir da memória ancestral e da convivência com o mundo dos brancos, considerando-se as estratégias de resistência na relação social. Essa negralização é evidenciada como cultura de encruzilhada, fruto da hibridização de diferentes culturas, como se sucedera a religiões afro-brasileiras, como a Umbanda, dentre outras manifestações religiosas, artísticas ou culturais do povo brasileiro.

O texto em epígrafe, Mulher Barriguda, ilustra o tom reivindicatório da negritude marxista e a literatura em busca da oralidade, da canção, dos versos para serem entoados ou cantados, que os reaproximam da tradição musical africana, do canto e das canções dos negros do Brasil, da escrita oralizada em forma de canção – lugares de encruzilhadas onde transitam as poesias de Solano e de Langston.

Nesse diálogo, presente e passado se interpenetram: o passado vive dentro do presente e o presente dentro do passado, formando uma engrenagem, uma espiral se movimentando na direção de novas possibilidades. Isso se consubstancia na recriação ou (re)escrituração da memória mítica e histórica a partir da experiência dos poetas da Diáspora, como na escritura poética de Solano, Hughes e outros autores negros, significando as cosmogonias temática, rítmica, a simplicidade dos versos musicais, sonoros, marcados pela repetição de palavras, pela memória ancestral, que traduzem a estética da literatura afrodescendente recorrente em poemas como OLURUM SHANÚ, de Solano Trindade, que narra a criação do mundo pelo Ser Supremo Olorum, segundo o mito genesíaco da tradição iorubá-nagô:

OLURUM SHANÚ

Solano Trindade

Antes de Olurum

Nada havia

Nem o mar

Nem o céu

Nem a lua

Nem o sol

Tudo era nada

Depois de Olurum

Veio Obatalá o céu

Odudua a terra

Yemanjá a água

Okê os montes

Orum o sol

Oxu a lua

Depois Oxum

O pecado

Com Xaluga

A riqueza

Xapauam a doença

E Ogum a guerra

Depois

Veio Obalabou

Para evitar

Os males de Oxum

Olurum Shanu

Dada e Orishako

Com plantas e verduras

Olurum Shanu

Olukum o mar

Olaxá os lagos

Okê os montes

Encheram Odudua

De beleza

Olurum Shanu

De dia

Orum apareceu

No corpo de Obatalá

Dando luz e calor

A Odudua

Orum

Oxalá

Okê

Olurum Shanu

De noite

É Oxu

Ao lado das estrelas

Embelezando

Obatalá

Olurum Shanu...¹⁷

A memória oral do africano (especialmente a transmitida por música, contos, narrativas orais, ritos religiosos) fertilizou a cultura das Américas. Tal memória identitária é veiculada por uma espécie de rede de transferência da cultura afrodescendente em Diáspora, que se abre ao diálogo intenso com a própria cultura das diferentes etnias negras e com a cultura de outros povos: indígenas, brancos, árabes, asiáticos. O processo de construção de novas identidades negras se evidencia na cultura das Américas desde a chegada dos primeiros africanos escravizados, consubstanciando-se na obra poética de autores afrodescendentes como Langston Hughes e Solano Trindade. Nessa perspectiva, estou tentando aproximar essa poética da negralização de identidades culturais, por hibridização, para beber das águas do rio potável e perene da crioulização, de Édouard Glissant; de O local da cultura, de Homi K. Bhabha; da reterritorialização de Gilles Deleuze e Félix Guattari; da (re)leitura da Porta do Não Retorno, de Dionne Brand.

Meu objetivo é analisar os poemas de Trindade e Hughes, vendo como se expressam as suas semelhanças e diferenças. Para tanto, fundamentarei minha leitura na teoria da memória e da identidade cultural, principalmente sistematizada por Dionne Brand, A Map to the Door of No Return; Édouard Glissant, Introdução a uma poética da diversidade; Frantz Fanon, Pele negra, máscaras brancas; Gilles Deleuze e Félix Guattari, Kafka para uma literatura menor; Henri Bérgson, Matéria e memória; Homi K. Bhabha, O local da cultura; Paul Gilroy, O Atlântico negro; Stuart Hall, A identidade cultural na pós-modernidade; W. E. B. Du Bois, As almas da gente negra, e na obra de outros autores.

Este livro possui dez capítulos que se subdividem em vários ensaios. O Capítulo 1 tem quatro partes. Faço a leitura da poesia de autores precursores da literatura afro-brasileira, tais como Caldas Barbosa, poeta árcade, mulato, primeiro escritor afro-brasileiro a assumir a cor da pele nos seus próprios versos, destacando o africanismo das suas modinhas e lundus; e Gonçalves Dias, mulato, romântico da primeira geração, com o abolicionismo inaugural e o Eu-poético negro de Meditações, prosa poética abolicionista que reúne história e alegoria para falar da escravatura no Maranhão e o genocídio contra os quilombolas, liderados por Cosme Bento das Chagas, pelas forças do Governo de Pedro II. Analiso a sátira fundadora da literatura afro-brasileira, escrita por Luiz Gama, que ri do branco e de seus preconceitos raciais; destaco a compaixão, a piedade e o exotismo dos versos de Castro Alves, demarcando as diferenças entre a poesia afro-brasileira de Gama e o negrismo¹⁸ de Castro. Trato ainda da poética do emparedamento na poesia de Cruz e Souza e da intertextualidade com a poesia de escritoras afro-brasileiras contemporâneas, como Esmeralda Ribeiro e Lourdes Teodoro.

O Capítulo 2 constitui-se apenas de uma parte. Atenho-me ao discurso relacionado à memória histórica da Diáspora africana, recriação/criação da memória oral, fragmentação e apagamento da memória ancestral, lembrança e esquecimento, preconceito racial, assimilação e recusa do discurso do colonizador, negralização da escritura poética, metáfora da Porta do Não Retorno e história da escravidão.

O Capítulo 3 divide-se em duas partes. Abordo os poemas de Solano Trindade que evocam a travessia do navio negreiro: o sentimento de ausência e vazio, provocado pelo exílio do africano nas Américas; discorro sobre o teor das cartas e narrativas escravas, das autobiográficas, dos relatos de testemunho, dos escritos pelos próprios escravos brasileiros e norte-americanos; analiso poemas que se reportam às lembranças do africano escravizado, à memória coletiva e à memória pessoal do poeta, que relembra a infância, o bairro onde morava e os parentes: pai, mãe e avós.

O Capítulo 4 é composto de duas partes, nas quais discorro sobre o espaço de fronteira cultural, hospitalidade e encruzilhada a partir da leitura dos cantos do orixá Exu, do culto religioso iorubá-nagô. Para em seguida fazer a leitura comparativa entre a épica clássica do colonizador europeu e a épica quilombola Canto dos Palmares, de Solano Trindade, apontando suas diferenças e semelhanças, no sentido de enfatizar os elementos estéticos da épica quilombola, a reconstrução da identidade cultural do escravo e seus descendentes e a resistência armada dos palmarinos contra o exército da sociedade escravagista. Aponto ainda alguns pontos da narrativa e da performance do griot, poeta da antiga tradição africana, que se assemelham às cantigas de capoeira, ao blues, à pregação dos pastores evangélicos da Igreja negra dos Estados Unidos, aos cantos dos ritos religiosos afrodescendentes, à poesia negra e outras expressões culturais da Diáspora.

O Capítulo 5 compõe-se de duas partes, onde faço a leitura de alguns poemas de resistência de Solano Trindade, que assumem a visão reivindicatória da negritude marxista ao enfocar a memória da escravidão, a violência e o exílio social dos negros na modernidade, denunciando a condição humana do africano escravizado, o abandono das crianças e dos jovens negros entregues ao acaso do destino, aos problemas sociais dos morros e das comunidades pobres das metrópoles brasileiras. No mesmo capítulo, falo do diálogo intertextual na poesia de Solano e de Nicolás Guillén, este poeta da negritude cubana, comparando o ritmo musical, o jogo de palavras e construção de imagens sonoras e visuais que põem em relação a obra poética de ambos os autores, a partir do uso de elementos estéticos inerentes às canções de origem africana.

O Capítulo 6 tem três partes. Aqui, analiso alguns poemas de Solano Trindade relacionados às suas experiências, à memória pessoal e coletiva: a condição de migrante nordestino e pobre que busca o sonho na cidade grande, no Sul do Brasil. O poeta rememora a infância em Recife: os pregões de rua, as manifestações culturais de matriz africana, os rios.

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