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Elementos do júri
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E-book561 páginas5 horas

Elementos do júri

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Sobre este e-book

A ideia de escrever um livro voltado para um instituto tão complexo como o Tribunal do Júri ocorreu justamente com estudantes e profissionais da área jurídica que gostariam de conhecer com detalhes como um advogado, promotor poderia sustentar com tranquilidade as teses numa tribuna com uma retórica consistente. Dentro dessa visão, o presente livro tem por finalidade demonstrar que é possível qualquer pessoa atuar no plenário do Júri desde que siga certos elementos fundamentais. Para isso, no escrito apresenta um pouco da história do Júri, uma abordagem jurídica, analise jurisprudencial, estudos de quesitos, escolhas de tese, como postar o corpo e voz no plenário – seguindo orientação clássica dos oradores gregos. Por fim, temos leves histórias de júris realizados, fazendo com que o leitor viva um pouco do cenário do tribunal. Elementos do Júri vêm demonstrar que nada há de impossível para a realização do plenário, bastando uma pitada de estudo neste livro, uma pitada de dedicação e uma grande porção de amor ao plenário, que certamente se atingirá com plenitude a eloquência na tribuna do Júri com sucesso.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento25 de set. de 2017
ISBN9788583383758
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    Elementos do júri - Marco Mejìa

    ©

    Marco Mejìa 2017

    Produção editorial: Vanessa Pedroso

    Revisão: 3GB Consulting

    Capa: Editora Buqui

    Editoração: Cristiano Marques

    CIP-Brasil, Catalogação na fonte

    Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

    Todos os direitos desta edição reservados à

    Buqui Comércio de Livros Digitais Ltda.

    Rua Dr Timóteo, 475 sala 102

    Porto Alegre | RS | Brasil

    Fone: +55 51 3508.3991

    www.buqui.com.br

    www.editorabuqui.com.br

    www.facebook.com/buquistore

    Printed in Brazil/Impresso no Brasil

    Iba ZANTO

    Ao meu tio Odil de Oliveira, por me ensinar

    a ver que a leitura faz parte de nosso espírito.

    À minha tia Piedad Mejìa por ensinar-me

    a ser um humilde e obreiro Mejìa.

    E por fim, a minha avó adotiva, Neith Becker.

    PREFÁCIO

    E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou.

    (Gênesis, capítulo 4, versículo 8)

    AConstituição Federal fixou a competência do Tribunal do Júri para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida. Sobral Pinto vaticinou que a advocacia não é profissão de covardes. Nessa trilha, ouso arrematar que o plenário do Tribunal do Júri não é lugar de aventureiro.

    O estudo perene faz-se imperioso para o exercício da plenitude de defesa no plenário. Não basta o conhecimento do direito penal, processo penal ou constitucional. Impõe-se, ao advogado criminalista, na tribuna, dominar a oratória, lógica, filosofia, medicina legal, balística forense, química, física, matemática, biologia, além de outras ciências.

    Restei imerecidamente honrado pelo tribuno Marco Mejìa para prefaciar esta sua obra. Induvidosamente tal privilégio emergiu da fraternal amizade que nos une há tempos, ao revés de ostentar predicados para tal desiderato.

    Objetivando levar a efeito esta empreitada, anoto que este trabalho retrata a evolução histórica do Tribunal do Júri, desde os seus primórdios. Mais ainda, desfila singular abordagem sobre os autores clássicos, cujo conhecimento se faz necessário para os operadores do direito na porfia dos argumentos.

    Mejìa traz a evolução histórica do Tribunal do Júri no direito pátrio. Mais ainda, disseca com extrema propriedade a sua estrutura, discorrendo sobre a atuação dos personagens nele envolvidos.

    Retrata julgamentos históricos nos quais as atuações de pessoas renomadas foram efetivadas com singular maestria e competência. Não passou distante do seu acurado olhar a influência da imprensa nos julgamentos afetos ao Tribunal do Júri, que vez por outra se mostra deveras perniciosa, eis que descabidamente produz prejulgamentos.

    A liturgia do procedimento processual penal disciplinadora dos caminhos do Tribunal do Júri não foi esquecida. Na mesma esteira, desvenda-nos o autor os segredos para a atuação do advogado no plenário, recaindo suas lições sobre a escolha das teses defensivas e a utilização destas durante o julgamento popular. A presente obra é indispensável para estudantes e operadores do direito.

    Por derradeiro, permito-me tecer algumas considerações sobre Mejìa. Exímio tribuno, advogado aguerrido, versado nos clássicos, detentor de lealdade ímpar, obstinado na defesa dos seus patrocinados e amigo fiel.

    Já dividi com ele diversas vezes o plenário do Tribunal do Júri, merecendo destaque nosso trabalho na defesa de Marcos Aparecido dos Santos no Caso Bruno. A experiência profissional desse extraordinário tribuno é compartilhada nesta obra.

    Ércio Quaresma Firpe

    Advogado criminalista

    SUMÁRIO

    1. INTRODUÇÃO 17

    1.1 Antecedentes históricos do júri 19

    2. ELEMENTOS ESTRUTURAIS PARA A

    DEFESA EM PROCESSO DO JÚRI 23

    3. DOS CRIMES ADJUNTOS AO JÚRI E A POSIÇÃO NA DEFESA E ANÁLISE DO AGENTE ATIVO 29

    4. DAS ANÁLISES DO CONJUNTO PROBATÓRIO 65

    4.1 Subjetividade do corpo de jurados e testemunhas, vítimas, réu,

    pessoas do plenário 67

    5. REFLEXÕES SOBRE A LEI DO JÚRI 75

    6. A ESCOLHA DA TESE A SER USADA NO PLENÁRIO 87

    6.1 Debates no plenário do júri 100

    6.2 O representante da defesa falará sempre

    depois da acusação 101

    7. PROCESSOS DE COMPETÊNCIA DO

    TRIBUNAL DO JÚRI 103

    8. DA LEI ESPECIAL DO JÚRI:

    SUA INSTRUMENTALIDADE NA PRÁXIS PROCESSUAL 129

    9. OS APARTES 163

    10. O CRACK 177

    11. ESCOLAS PENAIS 183

    12. DO QUESTIONÁRIO 189

    12.1 Quesitos 191

    12.2 Da fadiga quanto à apregoação dos

    quesitos para os jurados 202

    13. CLAREZA E OBJETIVIDADE DOS QUESITOS 207

    13.1 Tentativa de homicídio 211

    13.2 Materialidade 212

    13.3 Do homicídio simples 213

    13.4 Do homicídio privilegiado 214

    13.5 Tentativa de homicídio qualificado 215

    13.6 Veneno 216

    13.7 Explosivo 219

    13.8 Do homicídio qualificado 221

    14. DA DESQUALIFICAÇÃO DO HOMICÍDIO QUALIFICADO PARA HOMICÍDIO CULPOSO 225

    15. HOMICÍDIO COM A TESE DE

    LEGÍTIMA DEFESA 229

    16. TESE DE LEGÍTIMA DEFESA PUTATIVA E LEGÍTIMA DEFESA POR EXCESSO DOLOSO

    OU CULPOSO 233

    16.1 Legítima defesa de terceiros 235

    17. DESCLASSIFICAÇÃO POR

    EXCESSO CULPOSO 237

    18. INFANTICÍDIO 241

    19. TENTATIVA DE INFANTICÍDIO 249

    20. HOMICÍDIO POR EMBRIAGUEZ 253

    21. INDUZIMENTO AO SUICÍDIO 257

    22. HOMICÍDIO 261

    22.1 Tese de participação de menor importância 263

    23. ARREPENDIMENTO EFICAZ 265

    24. DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA 269

    25. ERRO NA EXECUÇÃO 273

    26. SEMI-IMPUTABILIDADE 277

    27. EMBRIAGUEZ NÃO COMPLETA 281

    28. GESTOS E POSTURAS DO CORPO 285

    28.1 Linguagem do júri 287

    29. DA VOZ E SUA ENTONAÇÃO

    NO PLENÁRIO 301

    30. CASUÍSTICAS DO JÚRI 323

    30.1 Elementos essenciais para defesa e

    acusação do processo 325

    30.2 Local do crime 325

    31. DO MOVIMENTO NO CENÁRIO DO CRIME REALIZADO PELOS PARTICIPANTES 335

    32. DOS ESTUDOS DA TRAJETÓRIA DO

    PROJÉTIL E SUA ATUAÇÃO NO CORPO 343

    ANEXO I. CASOS DE JÚRI 351

    ANEXO II. JURISPRUDÊNCIAS 489

    REFERÊNCIAS 721

    – 1 –

    INTRODUÇÃO

    1.1 Antecedentes históricos do júri

    O epicentro histórico do júri, na condição de plenário, debates, acusação e defesa da forma que conhecemos nos dias de hoje perde-se na história. Várias são as visões de nossos estudiosos quanto à sua origem propriamente dita. Tem-se conhecimento de que os antigos gregos, na sua sagacidade de publicitar fatos que diziam respeito a pessoas que infringiam a polis, levavam o assunto para julgamentos públicos. Da mesma forma, os próprios problemas políticos eram conduzidos a debate público. A história vem provar que, para os gregos irem à guerra, tinham que passar por vários debates e discussões que conduzissem a um conhecimento verdadeiro sobre o modo como deveriam agir. Não é de se estranhar que grande parte dos filósofos (pré-Socráticos) já tecia discursos pré-tribúnicos, situação em que a solução de algum problema estava na capacidade discursiva levada ao povo.

    A crença é de que os debates, as trocas de acusações, as várias formas de defesa, já estavam inseridos na Grécia antiga como fenômeno de crescimento cultural.

    O homem grego, antigo por excelência, deveria saber falar e discutir. Considerava-se impossível, para o ser humano daquela época, adotar o silêncio como forma de defesa. Era inaceitável permanecer inerte numa acusação. O homem heleno, na sua essência, era um ser de transformação. Nesse celeiro, é evidente que surgiram pensadores exponenciais que até hoje repercutem na nossa visão de mundo. Temos, então, o mais sábio dos homens, Sócrates, que, quando do seu julgamento, não usou defesas nem anátemas discursivos em favor de sua vida, nem qualquer forma de dialética: escolheu o suicídio, transformando a sua genialidade em figura mítica, influenciando pensadores até os dias de hoje.

    A figura de Platão surge logo depois, assim como a de Aristóteles. Este último, por sua vez, estuda a fundo os referidos debates em que os tópicos combatem os comezinhos caminhos da dialética.

    As contradições e o poder da linguagem vêm da cultura grega, fermentando grandes oradores. O pensamento filosófico criou esses homens – entre eles Demóstenes, um dos melhores da história –, mantendo as cidades (polis) unidas contra invasões. Tal figura, que vem ressaltar o espírito de eloquência, não ficaria restrita à tribuna, mas defenderia a própria sociedade, trazendo também grandes opositores com a mesma envergadura.

    Nesse aspecto, o júri, de forma remota, já está estabelecido. As discussões não ficaram restritas ao povo grego. As conquistas romanas fazem desses povos seres formidáveis, que absorvem a cultura grega como um todo. O estudo da eloquência, até então conhecimento restrito aos gregos, agora é capitaneado pelos romanos. Surgem grandes oradores – como Cícero, Marco Antônio e César –, todos, de uma forma geral, lançados na contenda do júri, na tribuna patrícia. A história acabou por fazer de Cícero expoente em eloquência e nos embates tribúnicos.

    Nascido raquítico, pequeno de estatura, quando jovem tomou a decisão de ser um dos maiores oradores de Roma. Sabia que deveria buscar em solo grego o conhecimento da arte da eloquência e da atuação frente ao plenário, bem como da mímica de tribuna.

    Com tais ensinamentos, transformou-se num grande orador e é considerado por muitos como um dos maiores advogados que existiram. Cícero, lançado em uma causa julgada como perdida, teve atuação realizada e, para o descrédito de todos, ganhou a contenda, sendo o melhor de todos os oradores surgidos.

    Ora, qual a relação desses homens com o júri? A imposição do contraditório, da legalidade de defesa instituída pelo Estado, do orador em defesa de um terceiro cidadão, tudo isso vem a ser o júri antes mesmo de ser balizado constitucionalmente. O júri é condição pétrea em nosso ordenamento constitucional porque já existe desde antes da própria Constituição.

    – 2 –

    ELEMENTOS ESTRUTURAIS PARA A DEFESA EM

    PROCESSO DO JÚRI

    Aanálise rigorosa que compõe toda a estrutura do procedimento do júri em nosso país em grande parte se baseia em dois grandes espíritos jurídicos. O primeiro deles é a análise dessa instituição sob uma visão histórico-romântica, em que os estudos se alavancam dentro de um contexto comparativo de várias ordenações pátrias. Temos o início do júri como instituição legal, baseado em posicionamentos históricos, valendo-se de sua importância para solução de vários delitos. Nisso temos exemplo de Rui Barbosa, com seus escritos literários, especialmente na obra Histórias dos júris nas Constituições. Logo, na sucessão, temos, ao longo de todos os estudos doutrinários, apanhados arqueológicos que retratam grandes vultos no estudo do júri e que, por sua vez, fizeram parte da história – como o juiz Margarino Torres, que, como operador duro e rigoroso em seus pensamentos, manteve, até os dias de hoje, a importância do júri.

    São de fato personagens que mostraram a importância do júri, e conseguiram evidenciar o caráter social e jurídico para o povo.

    Graças a homens como Evandro de Lins e Silva e Rui Barbosa, a defesa do júri ganhou contornos soberbos e fez com que suas atuações ecoassem para o futuro, levando o júri a sua valoração "ad perpetua" como norma constitucional.

    Porém, duas são as grandes fontes que consideramos de suma importância: a doutrina pura do júri, já determinada; e a percepção de que grande parte das obras são norteadas pela jurisprudência. São compêndios que retratam o júri e seus procedimentos processuais de forma positiva, dando sempre a impressão de que somos tão somente estudantes, não devendo esquecer as regras de condução do respectivo processo. São assim milhares de livros, cada qual apresentando alguma forma de novidade; porém, em sua maioria, perdem-se em um sempre estudo crônico. Somos, assim, na verdade, quase vítimas de tais conhecimentos, pois não sabemos onde, muitas vezes, está a efetiva novidade. Tudo não passa de um continuísmo viral que assim nos projeta ao futuro. Para aqueles que trabalham na Tribuna do Júri, a renovação deve ser um quadro necessário. As verdades muitas vezes apresentadas pela doutrinas já escritas devem ser refletidas.

    Novas diretrizes reforçam a importância daqueles que de fato atuam na área do júri, como também dos que tentam compreender a sua estrutura: o júri deve acompanhar o progresso e as súplicas do povo; entretanto, não podemos ver isso agora e ficar à mercê de uma intencionalidade de legisladores até que o rito do júri seja modificado pela imposição da mídia e do clamor social e novos regramentos.

    Temos assim, visto que o prazo do júri deve ser reduzido, e é bem crível que o número de testemunhas possa ser reduzido num futuro próximo. Por fim, temos notícias de que os réus perigosos devam ficar trancafiados em seu cárcere, e uma câmera com sua imagem ficará na tribuna junto a uma tela. É incrível imaginar-se um telão no qual possamos ver a face dos réus com toda a sua expressão.

    Tudo isso pode acontecer, porque a sociedade, os juízes, promotores e advogados temem os criminosos e o crime organizado.

    Essas não passam de medidas surreais. Esquecem os legisladores de certos princípios seculares, que não permitem, a nosso ver, essa panaceia. Seria então melhor que todos os elementos que compõem o júri fossem transferidos para o presídio. Esquecemo-nos do princípio da identidade física do juiz, uma vez que deve o juiz analisar e julgar – o todo consiste em observar o réu, desde seu pequeno nervosismo até uma breve mentira –, bem como aos jurados analisar a entonação da voz a fim de detectar se o réu está a mentir ou não. São condições necessárias tanto para a condenação como para a absolvição do acusado.

    Não podemos esquecer que o corpo de jurados é livre para decidir e produzir os questionamentos que bem entender. Com isso, não vejo uma aproximação para a solução de um julgamento em prol da segurança, mas sim, cada vez mais e mais, o afastamento do então jurado da análise criteriosa dos pares julgadores do povo.

    Logo, tais avanços acreditamos que sejam apenas uma análise efervescente de clamor social, nada mais do que isso. Mudanças no Tribunal do Júri devem ser sopesadas e muito bem analisadas. Nesse sentido, espera-se que o rigor processual se faça presente; as obliterações sociais devem ser respondidas com inteligência, com medidas duras no combate direto ao crime.

    O texto a seguir demonstrará certos elementos necessários e mínimos para a realização de uma boa atuação no júri. Elementos como estudo rigoroso do processo e das leis, teoria e prática da eloquência, estudos dos grandes oradores, análise das provas, estudo do cenário do crime, discursos de grandes tribunos, estudo dos jurados, são estruturais para a complexão de uma defesa de tribuna. Tudo isso pode ser visto em um espírito prático.

    – 3 –

    DOS CRIMES ADJUNTOS AO JÚRI E A POSIÇÃO NA DEFESA E ANÁLISE DO AGENTE ATIVO

    Ojúri tem a existência dentro de patamares constitucionais, estando de forma pétrea na Constituição, o que o torna quase impossível de ser modificado. A instituição do júri é reconhecida com a organização que lhe der a lei, assegurados:

    • a plenitude de defesa;

    • o sigilo nas votações;

    • a soberania dos veredictos;

    • a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.

    Trata-se, historicamente, de uma relativa segurança constitucional penal, que felizmente, até os dias de hoje, dentro da égide Constitucional, progride pela tradição histórica que foi e sempre será a tribuna do júri. Indispensável dizer, em breves traços, a nossa quase isolada colocação no cenário jurídico internacional sobre a tribuna. Hoje grande parte das nações, com raras exceções, como EUA e sua Grand Court, conseguiu manter a forma do júri. René David (1986, p 445) complementa:

    A instituição do júri foi mais acentuada nos Estados Unidos do que na Inglaterra. O fato acontece nas jurisdições federais em que a instituição do júri é garantida pela própria Constituição dos Estados Unidos (sete emendas): um cidadão pode exigir que a questão seja julgada por um júri, desde que o interesse do litígio seja superior a 20 dólares, com única condição de que não se trata de um processo em equipe. Não foi possível contornar esta regra constitucional e é somente por processos indiretos que se tem conseguido restringir, nos Estados Unidos, de fato, o emprego do júri. Nas jurisdições dos Estados Unidos, pois se a questão, de saber se em virtude da 14ª emenda, do direito do júri, não era garantida, igualmente, aos cidadãos. Foi uma resposta negativa a esta questão: a possibilidade de pedir à constituição do júri é contudo largamente admitida nos diversos Estados. Mais de 100.000 processos são assim julgados em cada ano com a participação dum júri.

    Em grande parte da América Latina, o júri já se extinguiu, não tendo resquício de retorno algum. Como exemplo, temos Argentina (apenas um estado argentino usa o instituto do júri), México, Peru, e ainda países que, historicamente, pouco tiveram ou onde jamais existiu, como Equador e grande parte da América Central.

    Fato é que somente os Estados Unidos conseguiram manter certos princípios inerentes, como o contraditório princípio da oralidade e da publicidade. Exemplo disso é a cultura televisiva, em que a imprensa faz, muitas vezes, a construção do veredicto; em outras, temos avanços de cunho particular de forma incontestável. Temos julgamentos de formas exemplares, que merecem atenção e estudo – além de certa sutileza na análise –, como o caso de O.J. Simpson, em que um negro rico e famoso mata uma mulher branca e acaba absolvido. O caso merece estudo das técnicas e abordagens utilizadas na defesa, pois há quem diga que a razão do seu brilhantismo estaria num conjunto de táticas defensivas, como a análise do corpo de jurados, inserida em um contexto científico psicológico na escolha e atuação, do ponto de vista acusativo e defensivo, no caso em questão.

    Com certeza veremos, mais adiante, a análise dos jurados, sua posição social e seu seguro juízo de convencimento, como também a importância da imprensa na absolvição do jurado.

    É evidente que os grandes crimes, de forma feliz ou infeliz, sempre tiveram o acompanhamento da imprensa. O Brasil não é diferente – vide caso de Zulmira Brandão e, no Rio Grande do Sul, o caso da morte de Daudt, um político e jornalista renomado, e ainda o assassinato do empresário Richthofen, cometido pelos irmãos Cravinhos, tendo o envolvimento da filha da vítima. Nesses casos vimos, desde o início, uma pré-condenação por parte da mídia. Justa ou não, essa imparcialidade prova o reflexo capital do poder da imprensa em casos de grande repercussão, e sua influência nos profissionais da acusação e defesa. Tais casos, sem sombra de dúvida, provam que nossa nação ainda ama o julgamento de grandes crimes. Somos uma sociedade criada nesse meio, vendo a justiça popular ser feita entre seus pares.

    Existem, em nossa doutrina e na história jurídica, grandes criminalistas. Entre tantos, Evaristo de Moraes, militante e defensor fervoroso do plenário do júri, que escreveu vários livros em que é possível apreciar suas defesas brilhantes – que mais tarde se tornariam documentos jurídicos (que mostram, também, como um profissional deve se portar em plenário).

    Suas defesas repercutiram em nosso país; ele despertou a população e trouxe a compreensão de que esta faz parte atuante do plenário, seja relacionada à vítima, seja relacionada ao réu.

    Não obstante, nesse contexto em que o povo vê, analisa e participa no julgamento, vemos que a imprensa age não como mera operadora de informação, mas sim como operadora moral. É um agente que tenta, já no primeiro momento, deliberar sobre o certo e o errado no contexto do acontecido.

    A nossa história de júri está baseada em grandes julgamentos nos quais está contida a presença latente da imprensa. Citamos como exemplo o julgamento do guarda-costas de Getúlio Vargas, Gregório Fortunato Matos, o Anjo Negro. O julgamento de Gregório Fortunato tinha cunho político. O jornalista Carlos Lacerda atacava, via imprensa, Getúlio, com atentados à sua pessoa. O suspeito principal passava a ser Gregório e mais outros réus, que foram logo mais condenados injustamente. A imprensa estava presente nisso, e a população cada vez mais clamava por informação. Por fim, o julgamento foi político, e condenou-se um inocente – Gregório Fortunato –, que veio a falecer durante o cumprimento da pena.

    A história está aí para mostrar que a mídia é um elemento de forte composição condenatória ou absolutória. Basta estarmos atentos às várias publicações jornalísticas existentes. Exemplo que não podemos deixar de alegar é o caso referente à morte do jornalista José Antonio Daudt, membro renomado da sociedade gaúcha, que acabou assassinado na porta do prédio onde morava. Tanto a defesa quanto a acusação foram complexas, haja vista que Daudt era deputado federal e poucos políticos eram processados a época. Destaca-se, nesse caso, além do processo em si, que o julgamento foi transmitido ao vivo, num dos primeiros exemplos de que a mídia tem interesse inconteste de buscar de forma premente a verdade, livre de escamoteios.

    No entanto, cabe ressaltar que os esforços da mídia de divulgar um fato à população muitas vezes em nada vêm a colaborar com a verdade dos fatos, criando uma falsa realidade do processo – daí a importância capital dos que defendem uma causa ou dos que acusam de saber utilizar-se do sigilo profissional. No entanto, diferentemente de épocas passadas, quando tínhamos uma visão de que os homens da imprensa parcamente conheciam o sentido do direito (mas tinham um breve conhecimento do mundo processual do crime, ou ainda, uma simples visão social), temos hoje profissionais de primeira linha. Alguns desses já cursaram faculdade de Direito e são técnicos na arte da informação e da contrainformação. Muitos têm fontes de informação mais capacitadas do que as da polícia judiciária. Mas, com prudência, deve o profissional, principalmente o que fará parte de uma tribuna, refletir sobre até que ponto a mídia deve ser operante no curso do processo extra-autos.

    Vejamos o exemplo notório dos irmãos Cravinhos, que nos oportuniza uma reflexão pertinente: até que ponto a mídia deve ser operante no curso do processo extra autos. No caso da entrevista de uma das filhas do casal morto, o repórter grava todas as instruções dadas pelos advogados à cliente, colocando o microfone junto a eles. O fato mostra, de um lado, a ingenuidade do defensor; de outro, a astúcia do jornalista, que queria todas as informações aguardadas pela população.

    Tal caso deve ser usado como exemplo para os operadores da tribuna, que devem primar por zelo e atenção. Muitas vezes, a arte de bem falar, por mais tenaz que seja o operador, não consegue se sobrepor à mídia, principalmente quando o crime foi executado de forma horrenda ou cruel. Veremos mais tarde nesse caso que os irmãos Cravinhos tiveram dificuldades defensivas decorrentes do juízo pré-condenatório contra os agentes do crime.

    Tais impressões deixadas neste mundo processual dos irmãos Cravinhos, desde a fase policial, passando pela fase instrutória, até a conclusão na tribuna do júri, deixam-nos a refletir sobre como deve ser a preparação do profissional em litígios dessa envergadura.

    Entende-se que a mídia age como um quarto poder, que atinge de forma direta a ampla defesa e, seguramente, o contraditório. Nos casos em que a mídia elabora um julgamento popular, segue-se, então, uma espécie de processo paralelo, com diretrizes próprias, ao fim do qual o réu já está ou condenado ou absolvido. Em grande parte desse julgamento, o redator-chefe é que tabula o dimensionamento da publicação. Certo ou errado, entendemos como um processo invisível em que pouco podemos fazer. Somente os meios do Tribunal do Júri e os tribunos podem, relativamente, analisar, por tratar-se de juízo de valoração, a partir de toda a instrumentalidade jurídica ao seu alcance ou, ainda, usando o poder da oratória.

    Nesse cenário, em que o advogado usa todos os meios pertinentes para a defesa de seu constituído, é que a preparação jurídica deve estar presente. Deve-se valer o advogado de uma análise criteriosa e verificar até que ponto as bases constitucionais estão preservadas.

    O direito à liberdade de informação deve ser contado seguindo um princípio pelo qual possam valer os elementos e a garantia dos indivíduos. A mídia deve ter, acima de tudo, cunho de interesse social, não podendo criar valores supinos, que transformam uma pseudoverdade em verdade absoluta.

    Dizia Afonso da Silva (2016, p248):

    É nesta que se centra a liberdade de informação. Nela concentra-se a liberdade de informar e é nela, ou através dela que se realiza o direito coletivo à informação, isto é a liberdade de ser informado.

    Por outro lado, salvo algum posicionamento jurisprudencial contrário que permita ao advogado contradizer a publicação jornalística que venha a atingir os interesses de um cliente em fase de julgamento, não há a possibilidade da adoção, também, de medidas contra a imprensa, haja vista que, de forma positiva, a Lei no 5250, principalmente na questão do abuso punível, alçado no artigo 15 e nos artigos 14, 16, e 17, não proporciona qualquer ponto confortável para a defesa.

    De forma dialética, acredita-se, tendo a Lei de Imprensa, já na sua formação histórica a presença do Júri, mantendo esse Tribunal para os crimes de jornalistas principalmente na Carta de Lei de 20 de Setembro de 1830 no seu artigo 20.

    Segundo Miranda (1995, p. 707/709):

    A instituição do júri surgiu com os seus primeiros albores na vida jurídica brasileira, exatamente com

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