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Combate à corrupção na visão do Ministério Público

Combate à corrupção na visão do Ministério Público

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Combate à corrupção na visão do Ministério Público

Duração:
486 páginas
9 horas
Lançados:
1 de jan. de 2018
ISBN:
9788577893904
Formato:
Livro

Descrição

Os ensaios selecionados nessa obra são de autoria de integrantes do Ministério Público Brasileiro com atuação em vários Estados da Federação, os quais, há anos, lidam com inúmeros casos de corrupção no desafiador cotidiano de investigações, atuações extrajudiciais e no curso de processos cíveis e criminais.
Na obra são abordadas - em linguagem clara e com olhos atentos à realidade nacional e em aspectos fundamentais do ordenamento jurídico - problemáticas acerca da prevenção dos atos de improbidade administrativa; do enfrentamento dos crimes contra a administração pública e sua punição em regime fechado; atividades das organizações criminosas no setor estatal; colaboração premiada; portais da transparência; dano moral coletivo por atos de corrupção; poder discricionário e corrupção; a refutação da teoria da reserva do possível ante a malversação de recursos; controle social e institucional de verbas públicas; composição dos tribunais superiores e foro privilegiado; a cultura da sociedade como fator de contenção ou estímulo à corrupção; e os riscos à democracia em um ambiente de corrupção sistêmica.
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1 de jan. de 2018
ISBN:
9788577893904
Formato:
Livro


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Combate à corrupção na visão do Ministério Público - Vínicius de Oliveira e Silva

I. A cultura da sociedade

enquanto fator de contenção

ou de estímulo à corrupção

Emerson Garcia¹

SUMÁRIO. 1. Aspectos introdutórios. 2. Os valores como diretrizes comportamentais. 3. A tensão dialética entre cultura e juridicidade e a propagação da corrupção. 4. Epílogo. 5. Referências.

1 Aspectos introdutórios

A corrupção é um mal muito difundido nos mais variados círculos de convivência humana. Trata-se de fenômeno multifacetário, sendo tarefa assaz difícil apresentar uma relação exauriente de todas as suas formas de manifestação.

Em sua expressão mais comum, pode variar desde a singela entrega de recursos para que um agente, público ou privado, pratique ou deixe de praticar atos que se ajustem à sua posição jurídica, e avançar até a estruturação de relações plúrimas, em que, sequencialmente, um agente ofereça vantagens a um segundo agente, este a um terceiro e assim sucessivamente, até que o ciclo se feche no primeiro, que somente então será beneficiado pelo ato inicial.

Pode, igualmente, assumir contornos mais sutis, sendo, não raro, encoberta por relações de companheirismo que redundarão na obtenção de vantagens e no rompimento com a impessoalidade. É o que ocorre, por exemplo, quando um agente recebe benesses, como convites para eventos internacionais, com todas as despesas pagas, e suas decisões irão projetar-se sobre a esfera jurídica do benfeitor. Nesses casos, ensinam as regras de experiência que benesses frutificam novas benesses. Não é incomum, aliás, que a relação sequencial entre as benesses siga um código silencioso, o que busca afastar da conduta, ao menos sob o olhar obnubilado dos atores envolvidos, o rótulo da ilicitude. Afinal, tudo não passara de mera relação de amizade.

Em não poucas ocasiões, a corrupção é mais que atrativa. Desvios morais à parte, permite que obstáculos sejam contornados e fins alcançados com maior celeridade e menor dispêndio de energia, não raro com reduzidos custos para o interessado. Na composição dessa equação, é igualmente considerada a perspectiva de descoberta e punição do ilícito. Apesar dos benefícios que tende a oferecer, a corrupção, quando se propaga e generaliza, produz efeitos desastrosos no ambiente sociopolítico.

Os custos sociais da corrupção são simplesmente incalculáveis. Os danos mais perceptíveis são aqueles decorrentes do desvio ou do não ingresso de recursos nos cofres públicos. Mas também existem aqueles danos que, embora não sejam vertidos em cifras monetárias, causam imensos prejuízos à coletividade. A criação de códigos paralelos de conduta, à margem da juridicidade, talvez seja o mais deletério desses efeitos. Práticas injurídicas e de grande potencial lesivo passam a ser aceitas com naturalidade pelos mais variados seguimentos sociais, o que gera visível ruptura entre referenciais deontológicos, colhidos no direito posto, e axiológicos, inerentes ao ambiente sociopolítico.

Mais que um ato ilícito, a corrupção exterioriza um especial modo de ser e de interagir com o meio circundante, em uma visão de mundo que atribui primazia ao interesse individual sobre o coletivo. Não é incomum que faça surgir uma espécie de síndrome de Janus. Janus é o Deus romano dos inícios e das escolhas. É artisticamente representado por uma figura masculina com duas faces, que olham em direções opostas. Os olhares em direções opostas podem representar tanto uma vigilância exacerbada, uma capacidade superior para avaliar todos os fatores existentes, como uma personalidade bipolar, com alternância de conceitos éticos e decisórios.

É recorrente que certas pessoas manifestem intensa repulsa à corrupção, não raro tendo a obrigação funcional de combatê-la, e, na primeira oportunidade que têm, pratiquem-na com singular esmero. Essa síndrome de Janus pode ser vista como uma disfunção do caráter individual, o que é mais comum, ou resultar de deturpações presentes na base de valores do organismo social. Neste último caso, considerável parcela da coletividade arvora-se em defensora da honestidade, enquanto relevante valor social, mas dela se desvia, diuturnamente, sem maiores dificuldades. Daí decorre uma espécie de insinceridade normativa, muito comum em países de modernidade tardia, que tentam moldar sua imagem a partir de textos normativos, não em harmonia com a base de valores que direciona suas ações.

O objetivo de nossas breves considerações é tão somente o de demonstrar que a corrupção não é fenômeno axiologicamente asséptico. Pelo contrário, tende a se expandir ou retrair conforme a base de valores do ambiente social, espelhando o que a maior parte da coletividade pensa a respeito da possibilidade de certas condutas, normativamente ilícitas, serem justificáveis, ou não, no plano pragmático.

2 Os valores como diretrizes comportamentais

Tanto o ambiente coletivo como a esfera jurídica individual são permeados por uma base de valores que direciona a formação de conceitos como justo e injusto, certo e errado, bom e ruim. Como já afirmamos², o valor, cuja essência é transitória e contingente,³ pode assumir contorno puramente subjetivo, derivando da crença, individual ou comunitária, da preferibilidade de certos fatores quando cotejados com outros;⁴ ou objetivo, sendo extraído de certa base de análise, como a sociedade ou o direito posto. Em outras palavras, reflete tanto uma atitude por parte do sujeito, o ato de avaliar ou valorar,⁵ como uma característica atribuída ao objeto.⁶

Os valores não apresentam uma geração espontânea e muito menos neutral. Surgem e se desenvolvem umbilicalmente ligados a certas experiências humanas, experiências estas que têm origem bem diversificada, podendo ser associadas a praticamente qualquer seara do pensamento e da atuação humana. Essa origem diversificada não afasta a constatação de que o processo de formação dos valores não se desenvolve em compartimentos estanques e incomunicáveis. Pelo contrário, é comum que os paradigmas existentes exerçam uma influência recíproca.

Com o objetivo de preservar a coesão do discurso, faremos referência a três paradigmas de análise, que ostentam natureza econômica, religiosa ou moral: enquanto os dois primeiros versam sobre temática definida, o último é particularmente aberto, permitindo que absorva distintos planos de análise. Cada um desses paradigmas ostenta relativa independência em relação aos demais, sendo plenamente factível que certo ato ou fato ostente valor positivo em um dado sentido e negativo em outro.

Sob a ótica econômica, o valor exprimiria a utilidade de um dado objeto ou a sua possibilidade de troca por outros cuja utilidade é reconhecida.⁸ Em uma hierarquia axiológica, a primazia seria atribuída àqueles objetos de maior relevância econômica, indicando uma "eficiente alocação de recursos (effizienten Allokation von Ressourcen),⁹ o que serviria para indicar a correção dos atos praticados.¹⁰ Trata-se do princípio da maximização das utilidades (Prinzip der Nutzenmaximierung").¹¹ Esse tipo de concepção, apregoada por pensadores como Marx e Engels, defende que toda ordem social encontra-se alicerçada no fato econômico, de natureza exclusivamente humana, que determina a formação da consciência social. Os fenômenos sociais, como realçado por Groppali,¹² podem ser observados de modo heterônomo ou autônomo: no primeiro caso, é analisada a relação de dependência que mantêm entre si, como o efeito em relação à causa; no segundo, são identificadas as suas próprias regras de surgimento e desenvolvimento, o que permite uma análise independente, mesmo que sofram a influência de outros fenômenos sociais.

É factível que a visão dos valores sob o prisma econômico pode considerar atrativa a prática da corrupção, que tende a oferecer mais benefícios, tanto para o corruptor como para o corrompido, que aqueles passíveis de serem alcançados com estrita observância do referencial de juridicidade.

Adotando-se um paradigma religioso, os valores seriam encontrados a partir da espiritualidade, alicerçada em referenciais superiores, que agem na formação dos standards responsáveis pelo direcionamento do pensar e do agir da pessoa humana. Esses standards, por sua vez, que têm reconhecida a sua imperatividade, importância ou mero valor a partir de um estado mental baseado na fé, vale dizer, na crença de sua infalibilidade e correção, apresentam inúmeras variações. É nesse contexto que surgem e se propagam as religiões, desenvolvendo-se à margem da razão,¹³ no plano da espiritualidade, e encontrando sustentação na fé. Individualizados os standards preferidos pelo intérprete, deles se desprenderão os valores tidos como relevantes.

A religião, quando desagua em referenciais superiores de espiritualidade, tende a ser mais receptiva a padrões éticos, rechaçando os comportamentos que deles destoem com grande afinco. O complicador é que mesmo comportamentos amparados pela juridicidade podem vir a se rechaçados quando colidentes com os valores da fé.

O paradigma moral, por sua vez, apesar de assumir contornos eminentemente voláteis, apresentando conteúdo compatível com a época, o local e os mentores de sua densificação, busca prestigiar a base de valores que se desprende de um dado contexto (social, político etc.). Moral, como se sabe, é conceito mais fácil de ser sentido que propriamente definido, o que não afasta a constatação de que, no ambiente sociopolítico, são formulados conceitos abstratos, que condensam, de forma sintética, a experiência auferida com a convivência em sociedade, terminando por estabelecer concepções dotadas de certa estabilidade e com ampla aceitação entre todos, o que contribui para a manutenção do bem-estar geral. É justamente a moral que aglutina tais concepções, podendo ser concebida como o conjunto de valores comuns entre os membros da coletividade em determinada época, estando submetida a um "controle social direto",¹⁴ ou, sob uma ótica restritiva, como o manancial de valores que informam o atuar do indivíduo, estabelecendo os seus deveres para consigo e a sua própria consciência sobre o bem e o mal. No primeiro caso, conforme a distinção realizada por Bergson,¹⁵ tem-se o que se convencionou chamar de moral fechada e, no segundo, a moral aberta. A moral representa uma teoria das obrigações do homem que prescinde da especialidade das obrigações do direito.¹⁶

De acordo com o ceticismo moral, valores de natureza moral seriam insuscetíveis de conhecimento. Afinal, não seria possível determinar, racionalmente, se uma conduta é moralmente boa ou ruim, correta ou incorreta, justa ou injusta. Valores, longe de serem passíveis de análise, seriam objeto de mera escolha, que surgiria dissociada de qualquer critério ou base de sustentação, externando, apenas, as preferências pessoais e o subjetivismo do responsável pela sua individualização. Críticas dessa natureza certamente teriam maior receptividade se a ideia de moral efetivamente levitasse no imaginário de cada membro da coletividade, não encontrando alicerce em qualquer paradigma que a tornasse apreensível e passível de conhecimento. Diversamente da parcialidade ideológica e do caráter unidirecional dos paradigmas econômico e religioso, o paradigma moral valoriza a vertente sociológica, em que se estabelece a vinculação dos valores subjacentes ao direito com o ambiente social em que pretende fazer-se eficaz.¹⁷ A coerência e consequente correção dos valores assim apreendidos será aferida de acordo com a representação do contexto.¹⁸

A vertente sociológica tem o mérito de estimular a construção de uma ordem de valores que consubstancia um espelho do ambiente social, marcado pelo pluralismo e que não prescinde da tolerância, o que certamente contribui para assegurar a sua estabilidade: lembremos que a essência de qualquer sociedade se situa na solidariedade moral dos conviventes, denotando a sua solidariedade no bem, de todo refratária ao mal.¹⁹

A movimentação no plano axiológico, por ser sensível às vicissitudes do ambiente social, não pode prescindir do sentido histórico que os valores assumem e que permite seja delineada a identidade de um povo. Considerando que cada povo possui uma variedade de fontes de identidade, é intuitivo que os indivíduos podem delas se apropriar de diferentes maneiras,²⁰ daí decorrendo uma diversidade de valores. Nesse particular, é de todo conveniente lembrar, com Baker, que as generalizações a respeito de aspectos socioculturais de um dado povo devem ser precedidas de grande cautela, máxime quando o pluralismo seja a tônica e os pontos de consenso apresentem inegável fluidez.²¹

Com os olhos voltados à realidade brasileira, é factível que nossa sociedade ainda não se libertou por completo de certos males semeados ainda à época do processo de colonização. Esse processo foi plenamente voltado ao saquear das riquezas naturais, não ao estabelecimento de uma nova sociedade, sendo utilizada mão de obra escrava e com severas restrições à evolução intelectual da população, incluindo a não criação de universidades e a vedação expressa à impressão de livros e jornais, quadro somente alterado com a chegada da família real. Trata-se de modelo diametralmente oposto àquele utilizado pelos britânicos junto às colônias americanas, com resultados naturalmente distintos.

As práticas adotadas em terra brasilis contribuíram para a estruturação de uma Administração Pública calcada no tráfico de influências e no tratamento diferenciado aos apaniguados, que passou a coexistir com usuários de baixa instrução e práticas moldadas durante séculos de autoritarismo, o que é típico da servidão colonial. Esse quadro não sofreu sensíveis alterações com o surgimento, em 1822, do Estado brasileiro, máxime pela reduzida influência do princípio democrático nesse período. Aliás, mesmo após a proclamação da República, a democracia passou por incontáveis períodos de eclipse em nossa realidade, o que tem dificultado a estruturação de um sistema voltado, na forma e na essência, ao bem comum.

O regular funcionamento do regime democrático, permitindo que a minoria se incline às deliberações da maioria, exige que aos valores comuns a todos os membros da comunidade seja atribuída maior importância que às forças de dissenso, que acentuam as diferenças e diminuem a coesão social. Esses valores não devem ser postos em questão. A fidelidade a eles, tanto quanto possível, deve ser incondicional e não se deve negligenciar em reforçar a sua ação sobre os membros da comunidade.²² O que se verifica, na nossa realidade, é a constante tentativa dos detentores do poder em pôr o interesse coletivo à margem de sua atuação funcional, o que tem acarretado incontáveis danos intergeracionais. Esses danos decorrem da dificuldade de a geração posterior dispor de meios aptos a contornar os equívocos estruturais praticados pela geração anterior em certos planos, como o econômico, o habitacional e o educacional.

A diversidade inerente ao seu processo de formação indica que os valores não ostentarão, em relação a cada pessoa, uma uniformidade de importância. A própria existência dos valores está associada à liberdade do ser humano em participar do seu processo de formação, realizando verdadeiras valorações.²³ Daí a possibilidade de apresentarem variações e de serem ordenados de distintas maneiras,²⁴ de acordo com a prioridade que mantêm entre si. Cada pessoa terá sua "escala ideal de valores",²⁵ que pode ostentar intensas zonas de convergência ou de divergência com os demais atores do círculo em que inserido. Com os olhos voltados à individualidade do ser humano, não será possível afirmar que certos juízos morais sejam objetivamente falsos, enquanto outros se mostrem objetivamente verdadeiros. Padrões de correção ou incorreção somente se formarão no plano exterior, a partir da escolha de um paradigma de comparação, como a moral social. Tanto os valores pessoais do intérprete, como as diferentes concepções do processo de justificação, são diretamente influenciados por sua experiência no meio social, o qual se encontra umbilicalmente associado às tradições culturais e institucionais, daí decorrendo a aceitação de certos padrões comportamentais e a correlata exclusão de outros.²⁶

O referencial de bem comum, indissociável de toda e qualquer ação estatal, apresenta uma essência nitidamente comunitária, sendo o telos de análise deslocado do homo para a societas. Igualmente sensível aos influxos morais, é especificamente direcionado à preservação e à evolução do ambiente sociopolítico, no qual assumem especial importância a paz, a segurança e a solidariedade. Não está, desse modo, primordialmente voltado à solução de questões afetas à "vida justa, mas, sim, à vida boa em sociedade", o que lhe confere particular relevância na integração social.²⁷ Em seus contornos mais extremados, de viés utilitarista, chega a subjugar direitos e liberdades individuais em prol do bem-estar geral.

A acolhida ou a resistência aos juízos de valor tende a ser maior, ou menor, conforme se ajustem, ou não, aos postulados de coerência e consequencialidade adequada. Enquanto a coerência aponta para a necessidade de certo valor se compatibilizar com os demais valores prestigiados pelo artífice de sua estruturação, máxime quando ambos possuem influência na mesma estrutura argumentativa, a consequencialidade adequada exige que o seu artífice esteja disposto a absorver ou suportar todas as consequências, mediatas ou imediatas, que possam se desprender desse valor.

3 A tensão dialética entre cultura e juridicidade e a difusão da corrupção

Cultura, longe de ser conceito unívoco, apresenta contornos bem variáveis²⁸. Em seu sentido originário, indicaria o efeito da ação de cultivar; em Cícero, passa a ser vista como a filosofia da alma ("cultura animi philosophia est"); posteriormente, é aplicada sobre tudo o que o homem faz e produz, podendo gerar frutos, beleza ou utilidade.²⁹ Daí decorrem três modos de expressão da cultura: (1) cultura como atividade – expressando a ação de cultivar;³⁰ (2) cultura subjetiva – o cultivo do próprio homem, indicando sua educação e base moral de sustentação; e (3) cultura objetiva - o produto da ação do homem, o cultivado.

Cultura é processo. É fruto de constantes contextualizações, sempre sensíveis à ação do tempo e às vicissitudes que surgem a partir da interação entre os distintos integrantes da comunidade. Engloba o conhecimento que cada indivíduo deve ter e as crenças que deve partilhar para que possa estar inserido em certo meio.³¹ Individualiza uma comunidade e a distingue de outras comunidades. Trata-se de conhecimento adquirido, utilizado na vida diária, que é constantemente construído e reconstruído, o que bem demonstra a impossibilidade de a linguagem, enquanto instrumento de interação social, permanecer em um plano estático. A cultura, na concepção aqui referida, assume, a um só tempo, (1) os mesmos traços que os antropólogos costumam atribuir-lhe, vale dizer, é algo que todos têm, contrastando com a cultura encontrada em certos ciclos intelectualizados;³² e (2) os mesmos contornos que formam o plano de desenvolvimento de qualquer investigação de natureza sociológica, apontando para a identidade de uma comunidade.

Além de processo, cultura é significado. Exige a percepção do contexto e a realização de juízos valorativos, permitindo sejam individualizadas as características de uma comunidade. A apreensão da identidade cultural é influenciada não só por uma base empírica, como, também, pelos referenciais de racionalidade, expressando convergência e um locus comum no ambiente sociopolítico, e emotividade, que externa a sensibilidade do intérprete no delineamento de uma identidade que, em última ratio, é igualmente sua. Cultura nada mais é que o adquirido sócio-individual. É resultado e origem dos valores que estabelecem as diretrizes do comportamento da sociedade e do indivíduo, sendo formada a partir deles e servindo de alicerce à formação de novos valores.

É justamente o alicerce cultural que conduzirá à aceitabilidade das decisões dos órgãos primários de produção normativa, responsáveis pela confecção do texto, e dos intérpretes, que fazem as vezes de órgãos secundários – não no sentido de subsidiariedade, mas, sim, no de continuidade, desenvolvendo o iter de produção normativa iniciado pelos órgãos primários. Trata-se de aspecto meramente propedêutico de qualquer sistema normativo. Quando falamos nessa correlação entre cultura e juridicidade, ainda precisamos ter em mente que qualquer povo pode desenvolver conceitos culturais de aparência, que apregoa como objetivamente corretos, e conceitos reais, que põe em prática em seu cotidiano.

Pode-se afirmar que a justiça é o valor-mor, a fonte basilar de qualquer sistema jurídico fundado em bases democráticas: dela emanam e para ela convergem os demais valores jurídicos. Portanto, todo e qualquer sistema será estruturado de modo a satisfazer a justiça. Apesar disso, o modo como a justiça alcançará a realidade não é alheio às vicissitudes dessa mesma realidade, sendo influenciado pelo comportamento dos integrantes do grupamento. É perfeitamente possível que sistemas jurídicos formalmente justos sejam palco de incontáveis injustiças. A oscilação entre os paradigmas do justo e do injusto será influenciada pela feição real da cultura, vale dizer, pelo modo de agir da maior parte dos distintos segmentos da sociedade.

As fraturas mais intensas na juridicidade surgem quando a cultura aparente, que direcionou a formação dos textos normativos, não anda de braços dados com a cultura real, que expressa o padrão comportamental voluntário rotineiramente adotado. O resultado, sob o prisma da corrupção, é torná-la socialmente aceitável³³. Como já tivemos oportunidade de afirmar³⁴, essa ausência de consciência coletiva, com a correlata supremacia das aspirações individuais sobre as coletivas, é, igualmente, um poderoso elemento de estímulo à corrupção.

Na conhecida classificação de Arnold Heidenheimer³⁵, que leva em consideração a percepção das elites e da opinião pública em relação à corrupção, esta última se subdivide em negra, cinza e branca. Na corrupção negra, vê-se um consenso entre as elites e a opinião pública quanto à reprovabilidade de um ato e à imprescindibilidade de sua punição. Na corrupção cinza, alguns elementos, normalmente oriundos das elites, defendem a punição do ato, enquanto a maioria da população assume uma posição dúbia. Por último, na corrupção branca, a maior parte das elites e da população, por tolerar certos atos de corrupção, não apoia com vigor a sua criminalização e consequente coibição.

O jeitinho brasileiro reflete uma zona cinzenta moral, em que, a depender das circunstâncias, condutas normalmente tidas como erradas passam a ser vistas como certas ou, ao menos, como toleráveis³⁶. A aceitação social da corrupção possui um potencial expansivo diretamente proporcional à possibilidade, ou não, de que certa conduta seja considerada um mero jeitinho, o que, sob os olhos da realidade social, a retiraria do plano da ilicitude. Seu combate está diretamente relacionado ao desenvolvimento dos padrões educacionais e da consciência cívica da população, fatores que exigem um processo contínuo de aperfeiçoamento e que somente apresentam resultados satisfatórios a longo prazo.

4 Epílogo

Ao nos depararmos com práticas corruptas e os incontáveis danos que causam à coletividade, identificamos os primeiros fatores de uma circularidade argumentativa de difícil compreensão. Afinal, se a corrupção causa danos à coletividade e o corrupto está integrado à coletividade, como justificar racionalmente a sua conduta? Causaria ele, voluntariamente, danos a si próprio? Os corruptos, em verdade, partem da curiosa lógica de que os seus interesses estão apartados daqueles afetos à coletividade. Seriam como ilhas, indiferentes ao seu entorno. Esquecem, no entanto, que também as ilhas estão sujeitas às intempéries do mar.

De sociedades degradadas pela corrupção podem decorrer efeitos imprevisíveis, que principiam pelas distorções quanto a regras básicas de convivência humana, as quais somente existem quando lembramos que nossos interesses não podem ignorar os coletivos, justamente por não sermos ilhas, e, no extremo, geram violência generalizada e a bancarrota fática das próprias estruturas estatais de poder, sangradas, anos a fio, por corruptos inescrupulosos. Esses efeitos, em maior ou menor medida, hão de projetar-se sobre os corruptos e seus familiares.

O combate à corrupção começa, em primeiro lugar, pelo combate aos impulsos da vontade individual, que pode idealizar sonhos e aspirações de difícil realização. Daí se projeta para o ambiente familiar e, somente em um terceiro momento, alcança as relações sociais. Imaginar que pode ser combatida apenas neste terceiro momento é pura ingenuidade, máxime quando o ambiente social ampara, no plano axiológico, um elevado número de condutas que, com maior ou menor purismo técnico, poderia ser enquadrado sob a epígrafe da corrupção.

Quando a grande maioria dos integrantes de uma sociedade consegue compreender a essência do imperativo categórico kantiano, segundo o qual cada um deve agir conforme princípios que possam ser generalizados entre todos, a corrupção tende a diminuir.

5 Referências

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II. Poder discricionário e atos de corrupção: Uma análise de casos concretos

Ruth Araújo Viana³⁷

SUMÁRIO. 1. Introdução. 2. O poder discricionário. 3. Ética, Moral administrativa e Corrupção. 4. Análise de casos concretos de atos administrativos discricionários: crítica e construção de um novo paradigma. 5. Conclusão. 6. Referências.

1 Introdução

A sociedade contemporânea, irradiada com informações midiáticas sobre má prestação dos serviços públicos, tributos exacerbados e desvios de dinheiro público, vem exigindo um maior comprometimento dos gestores públicos na condução dos bens da coletividade. Na mesma proporção, o Ministério Público, como protetor da ordem jurídica e do Estado Democrático de Direito, tem sido cada vez mais provocado pela sociedade a combater atos do poder público abusivos e dentre eles atos de corrupção.

A Administração Pública é um poder gestor de cunho social que visa concretizar políticas públicas e tomadas de decisões para melhor prestar o serviço à sociedade e desenvolvê-la. Para executar os serviços e ordens que lhe são inerentes a Administração Pública pode se utilizar do poder discricionário que consiste na tomada de decisões por parte do agente público com o uso de critérios de oportunidade e conveniência.

A discricionariedade administrativa concede ao administrador público um maior leque de opções para enfrentar e solucionar os problemas sociais. Alguns exemplos de atos administrativos discricionários são a forma de utilização de verbas públicas, nomeações para cargos de livre exoneração e outros.

Ao passo que a discricionariedade administrativa é necessária para concretizar o interesse público, ela pode se tornar uma ferramenta de abuso de poder do administrador público para concretizar a sua vontade ou de terceiros. Essa utilização da discricionariedade é incompatível com

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