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O paraíso entre luzes e sombras: Representações de natureza em fontes fotográficas (Londrina, 1934-1944)

O paraíso entre luzes e sombras: Representações de natureza em fontes fotográficas (Londrina, 1934-1944)

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O paraíso entre luzes e sombras: Representações de natureza em fontes fotográficas (Londrina, 1934-1944)

Duração:
233 páginas
3 horas
Editora:
Lançados:
1 de jun. de 2014
ISBN:
9788572167543
Formato:
Livro

Descrição

A fotografia é um fragmento do espaço e do tempo que, construída por meio de um "clique" numa situação específica, irrepetível, perdura ao longo da história como indício do passado. No entanto, na ânsia de "capturar" o mundo no enquadramento da câmera, o fotógrafo elabora representações matizadas pela subjetividade do observador que, ao olhar os fenômenos, sempre o faz a partir de um lugar social.
Editora:
Lançados:
1 de jun. de 2014
ISBN:
9788572167543
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Livro


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A Eduel é afiliada à

Catalogação elaborada pela Divisão de Processos Técnicos

Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina

Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP)

A555p

André, Richard Gonçalves.

O paraíso entre luzes e sombras [livro eletrônico] : representações de natureza em fontes fotográficas (Londrina, 1934-1944) / Richard Gonçalvez André. - Londrina: Eduel, 2015.

1. Livro digital : il.

Inclui bibliografia.

ISBN 978-85-7216-754-3

1. Fotografia - Londrina. 2. Fotógrafos londrinenses. 3. Historiografia. I. Título

CDU 77(091)

Direitos reservados à

Editora da Universidade Estadual de Londrina

Campus Universitário

Caixa Postal 6001

86051-990 Londrina PR

Fone/Fax: (43) 3371-4674

e-mail: eduel@uel.br

www.uel.br/editora

Depósito Legal na Biblioteca Nacional

2015

Dedico este livro a Ana Raquel Abelha Cavenaghi, que, com amor, paciência e companheirismo, tem me acompanhado nos fios que tecem nossas histórias.

Agradecimentos

Nas ideias de uma pessoa, como em qualquer dimensão de sua vida, há o peso invisível de inúmeras outras pessoas cujas influências a marcam para sempre. Agradeço aqui àqueles que, para além de contribuírem com este livro, marcaram ao mesmo tempo as diversas facetas de minha vida.

Agradeço especialmente a Célia Reis Camargo, por ter encaminhado, quando do mestrado que originou o texto preliminar deste livro, a pesquisa de forma inteligente, paciente e sensível. A Gilmar Arruda, Jozimar Paes de Almeida, Carlos Alberto Sampaio Barboza, Jorge Romanello, Rogério Ivano, Nelson Dacio Tomazi, Edméia Ribeiro, Ana Cristina Teodoro da Silva, José Cézar dos Reis, Angelita Marques Visalli, Luiz Bertipaglia, Edson Castro, Luiz Juliani (in memoriam) e à minha esposa Ana Raquel Abelha Cavenaghi. Aos funcionários e ex-funcionários do Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade Estadual de Londrina, da Biblioteca Municipal de Londrina e do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss, especialmente Célia e Áurea. Por fim, aos meus alunos, que têm sido os principais interlocutores de minhas ideias.

Sumário

Prefácio

Introdução

Fios de um tecido: o paraíso terreal e a natureza produtiva

Enquadramento e instante: José Juliani e a companhia de terras norte do Paraná nas décadas de 1930 e 1940

Conceitos e composições: representações de natureza nas fotografias de Juliani

Revendo fotografias em sépia: apropriações das imagens de Juliani

Conclusão

Fontes e Referência

[...] toda a observação do mundo da natureza envolve a utilização de categorias mentais com que nós, os observadores, classificamos e ordenamos a massa de fenômenos ao nosso redor, a qual de outra forma permaneceria incompreensível [...] (Keith Thomas)

Prefácio

Para além de uma história local e de identidade

Muitos visitantes de Londrina, no norte do Estado do Paraná, que chegam via aérea comentam a paisagem formada pela agricultura em toda a região. Milhares e milhares de hectares de terra cultivados com soja, milho ou trigo, com suas cores e traçados uniformes, representando para os viajantes aéreos pequenos retângulos recortados na superfície, uma espécie de mosaico verde. Uma paisagem, ou um quadro, que encanta e surpreende pela quase total uniformidade dos desenhos. Mesmo os restos da vegetação pretérita são incorporados nessa composição como molduras desses quadros do mar verde da agricultura moderna, ou do agronegócio. Pode ser que, para algum desses viajantes, ocorra perguntar sobre quem e como foi pintada aquela paisagem. Então, aquela visão de uniformidade e naturalidade, existente nos espaços da agricultura, se turva, os fragmentos de vegetação transformam-se em documentos de um passado recente, que insiste. Há não mais que ٨٠ anos, essa região era coberta por uma rica e densa floresta, na qual viviam outros tipos de populações humanas. Pode-se buscar os momentos iniciais dessa gigantesca transformação, embora a busca das origens seja uma das maldições da história.

Um dos primeiros momentos dos novos tempos, das novas relações entre os humanos e a natureza no espaço que viria a ser denominado Norte do Estado do Paraná, pode ser identificado com o estabelecimento da Colônia Militar e do Aldeamento no baixo Tibagi, em Jataí. Esse fato representa um marco significativo do processo de transformação das formas de apropriação da natureza, que seria intensificado, no século seguinte, e tornar-se-ia hegemônico. A Colônia e o Aldeamento estão associados a formas de ocupação do território a partir de fazendas de criar, cujos limites eram precariamente estabelecidos; as formas de circulação pelo território eram as estradas, caminhos, e o principal meio de transporte, o cavalo. Havia poucos mapas, sendo que a maior parte das representações do espaço eram corografias. Os novos territórios, especialmente a propriedade privada, ainda estavam limitados a determinados lugares da bacia, principalmente na sua parte alta. Porém, no final do século XIX, um novo marco significativo da coevolução dos humanos e do mundo natural naquele espaço pode ser apontado na expansão da produção cafeeira. Em meados do século XIX, iniciava-se a expansão da cafeicultura no Nordeste da Província do Paraná.¹ Durante quase uma centena de anos, a cafeicultura foi o motor da grande transformação da natureza, até os anos 1960/1970, quando, então, foi substituída, majoritariamente, pelo cultivo de outra espécie exótica: o feijão soja. A introdução da espécie exótica Coffea Arábica representa a evidência maior de que o processo da grande transformação da natureza na mercadoria fictícia terra estava em marcha para se tornar dominante. Ainda assim, seriam necessários pelo menos mais sete décadas até que a marcha, como foi denominada a expansão do cultivo do café, ultrapassasse os espigões do Rio Cinza, do Laranjinha e as margens do Tibagi, instalando-se a oeste, na região de sua foz no Rio Paranapanema.

Mas, uma vez ultrapassada a margem oeste do Rio Tibagi, em fins da década de 1920, a grande transformação não demorou mais que 30 anos para chegar às barrancas leste do Rio Paraná. A grande floresta estacional semidecidual, que cobria o território circunscrito pelos cursos baixo do Tibagi, da margem sul do Paranapanema, pelo Rio Piquiri e Ivaí, estava em processo acelerado de desaparecimento. O avanço não ocorreu como um arado que tudo tomba e uniformiza em um mesmo e monótono sentido. Várias foram as origens e os motivos das pressões sobre essa grande floresta, que ocupava a parte baixa do Rio Tibagi. Nem todos os espaços foram transformados em uma segunda natureza. Aqui e ali sobreviveram formas de apropriação da natureza situadas diferenciadamente no tempo: terras indígenas, terras quilombolas, faxinais, bairros caipiras teimaram por resistir à homogeneização do espaço promovida pela grande transformação.

A introdução e expansão, principalmente, da espécie exótica Coffea Arábica, o café, junto com dezenas de outras espécies vegetais e animais caracterizaram o processo de coevolução da espécie humana, do final do século XIX até a década de 1960. Constituiu-se uma nova paisagem composta pela segunda natureza, organizada pelos humanos e pelos seus objetos técnicos, como pontes, estradas e ferrovias, máquinas e carros, cercas, açudes, drenagens, sítios, fazendas, casas e cidades.

Após a Segunda Guerra Mundial, com a introdução em larga escala da agricultura química, surgem novos componentes técnicos: adubos e agrotóxicos, que causariam grandes impactos socioambientais sobre os moradores humanos e não humanos das zonas rural e urbana, como os da cidade de Londrina, surgida no início dos anos 1930.

Essa cidade, situada na margem esquerda do baixo Rio Tibagi, assim como centenas de outras nos Estados de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná, é um exemplo claro dessa nova forma de ocupação e utilização do espaço desencadeada pela grande transformação, durante o século XX. Esse foi o processo de incorporação do interior do país, dos chamados sertões, especialmente no sul/sudeste, à modernidade, em que os territórios, e a natureza, foram transformados em mercadorias e colocados em circulação no mercado. O resultado foi uma radical transformação da paisagem, por meio da mudança das formas de apropriação da natureza, com o surgimento de centenas de pequenas cidades naquele espaço. Nessas cidades, as narrativas sobre o passado, tanto a memória quanto a história, fundamentam-se em demonstrar a transformação da natureza e o surgimento e modificações do urbano como evidências para expressar o sentido da passagem do tempo, como a construção da articulação do passado e do presente indicando qual futuro se almeja. Miríades de mensagens com esse sentido são encontradas em todas essas cidades: mapas, fotografias, pinturas, monumentos, relatos memorialísticos.

O livro de Richard André é sobre fotografias e fotógrafos da cidade de Londrina, no Estado do Paraná. Poderá parecer ao leitor que se trata de um estudo de história local, ou mesmo de uma história de identidade que só interessaria aos que por lá nasceram ou vivem, mas essa percepção não seria correta. As análises das fotografias de José Juliani e de Haruo Ohara revelam muito mais que a história de uma cidade. A principal contribuição de Richard neste livro está na demonstração do processo de legitimação da radical transformação da natureza ocorrida a partir do início do século XX. Com um apurado suporte metodológico, o autor ultrapassa as interpretações impressionistas, tão comuns em análises de fotografias e imagens, retirando de suas fontes muito mais que apenas relatos dos motivos iconográficos presentes nas fotos, como é frequente nos estudos que buscam uma identidade, ou as verdadeiras origens dessa ou daquela cidade. André não se engana quanto às disputas de poder existentes na sobrevivência e valorização de determinada representação presente no trabalho de José Juliani e no esquecimento das fixadas por Haruo Ohara. A luta em torno de qual representação, memória e história do processo de transformação da natureza em ecossistema agroecológico tornar-se-iam hegemônicas é o tema central deste livro. Nas próprias palavras de André: [...] apropriação [que] permite construir uma história isenta de conflitos, ignorando a expropriação de populações indígenas e sertanejas e a marginalização de diversos grupos sociais. Portanto, uma narrativa ‘limpa’ que, ao silenciar a memória de determinados sujeitos, pode desempenhar o papel de legitimação política de outros segmentos da sociedade.

A disputa pela hegemonia política envolveu, desde sempre, a construção de memórias e identidades passadas como forma de suportar as disputas atuais. Quem controla o passado, controla o presente, por isso a memória não é alguma coisa que está depositada em museus, embolorada de mofo e coberta de poeira. A memória, ou determinada memória, é sempre ativada, reforçada, explicitada, publicizada quando aparecem na cena pública outros sujeitos que demandam outras memórias, outras leituras do passado. O livro de Richard André está inscrito em um amplo processo de democratização da sociedade brasileira, no qual sujeitos sociais, que tiveram sua memória sobreposta pelos discursos triunfantes do progresso e da utilização da natureza a qualquer preço, começam a exigir seus espaços na cena pública, nos lugares de memória. Essas demandas por representação repercutem no espaço da produção historiográfica, no mundo da academia, originando novas interpretações, novos ambientes para que memórias silenciadas encontrem espaço para serem ouvidas.

Ao final do livro, percebemos, de uma forma bastante surpreendente, para quem está acostumado à pesquisa historiográfica e seus métodos, que o ato de olhar fotografias nunca é inocente. Olhar sempre atribui sentidos: Seja o velhinho que observa as fotos de juventude e tem um sentimento de nostalgia que percorre seu corpo, seja a sociedade que enxerga e reconhece nos clichês seu passado, real, realista ou inventado, ambas as atitudes possuem projeções de sentidos e intenções, racionais e afetivas, que não podem ser ignoradas.

Gilmar Arruda

Outono de 2014.

1 Em 1854, foi criada a Província do Paraná; até essa data, o território que se tornou paranaense era conhecido como a quinta comarca da Província de São Paulo.

Introdução

Enquadrando a discussão

O texto preliminar que ofereceu base para a elaboração do presente livro foi produzido em 2006 (ANDRÉ, 2006a). Desde então, como pesquisador, tenho abordado diferentes objetos e fontes de investigação, sem deixar de lado a questão da fotografia como documento ou, no dizer do historiador britânico Peter Burke (2004), indício para a pesquisa histórica. Como professor, ministrei, durante dois anos, a disciplina de Fotografia no curso de Comunicação e Multimeios da Universidade Estadual de Maringá (UEM), de forma que fui levado a refletir sobre a imagem fotográfica não apenas da perspectiva da análise, mas também da produção imagética. Por isso, após diferentes experiências de ensino e pesquisa, voltar o olhar para a pesquisa com o intuito de transformá-la em livro demandou mudanças significativas no texto, que teve de ser reescrito em diversas passagens, principalmente na interpretação das fontes. Há uma série de novas reflexões decorrentes das diferentes experiências ao longo dos anos e mesmo das necessárias adaptações para tornar um trabalho acadêmico numa obra mais agradável à sensibilidade dos leitores.

O ponto de partida para os fios que tecem a pesquisa é o seguinte: é possível fazer uma história das ideias de natureza? Desde o surgimento do movimento ecológico, por volta das décadas de 1960 e 1970, novas modalidades historiográficas têm emergido, assim como a chamada história ambiental (GONZÁLEZ DE MOLINA, 1999; DRUMMOND, 1991; WORSTER, 2003). No Brasil, a partir dos anos 1990, a abordagem passou a abrir novas veredas nas pesquisas (DRUMMOND, 1991). Os historiadores passaram a demonstrar que a natureza, considerada até então objeto a-histórico por excelência, poderia ser entendida no interior de uma perspectiva histórica. Cada sociedade, para não dizer grupo social, cria determinadas formas de lidar com o mundo natural que a cerca, dele retirando suas necessidades (ALMEIDA, 1996). Com isso, há uma transformação do ambiente em paisagens humanas, como extensões agrícolas, pontes, ferrovias e espaços urbanos.

Os seres humanos constroem diques, drenam lagos e rios, fazem irrigações, destroem florestas e, entre outras ações, transformam a natureza em metrópoles. Entretanto, a ação está relacionada à elaboração de modos de ver, compreender e sentir a natureza, às suas representações, no sentido em que Roger Chartier (1990) emprega ao conceito. Portanto, cada sociedade constrói também formas de perceber seu mundo natural matizadas por condicionamentos históricos. Não constituem modos unitários, mas sim modos múltiplos de ver determinada paisagem. Tais concepções nascem a partir de relações concretas e interagem, a todo o momento, com essas mesmas, sendo, com o passar do tempo, naturalizadas a ponto de parecerem universais e eternas (THOMAS, 1998).

Definindo o foco

O objetivo deste livro é analisar as representações de natureza inscritas nas fotografias feitas por José Juliani, fotógrafo contratado pela Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) no início do século XX. De capital britânico, a empresa foi responsável, em parte, pela ocupação do Norte do Paraná, principalmente de cidades em processo de formação, como Londrina, durante as décadas de 1930 e 1940.² Como recorte temporal, foi estabelecido o período de 1934 a 1944, marcos que correspondem, respectivamente, à data de contratação de Juliani e de nacionalização da Companhia, quando essa perde muito de seu poderio político e econômico sobre a região.

O acervo fotográfico de Juliani encontra-se, atualmente, no Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss, em Londrina. São, ao todo, quatrocentos e quarenta imagens (UNIVERSIDADE; MUSEU, 2011), parte significativa representando a natureza regional, cujo enfoque são temáticas como corte de árvores, queimadas, plantações diversas, trabalhos em serrarias e criação de animais. Elas não constituem a totalidade de documentos produzidos pelo fotógrafo, já que significativa quantidade de negativos de vidro foi parcial ou totalmente danificada devido à infiltração de água quando se encontrava ainda na residência do

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