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O urbano como negócio: habitação de interesse social

O urbano como negócio: habitação de interesse social

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O urbano como negócio: habitação de interesse social

Duração:
360 páginas
4 horas
Lançados:
1 de jan. de 2016
ISBN:
9788547300401
Formato:
Livro

Descrição

A habitação como negócio, ao abranger a área metropolitana, evidencia a circulação do capital em busca da forma econômica da propriedade e de mais-valia, além da transferência de ativos públicos para empresas privadas. Para se chegar a esse entendimento da atuação empresarial e produtiva do urbano pelo governo, tendo a habitação social como nexo valorativo e instrumento de captação de capitais para a reprodução do espaço, recorreu-se às condições materiais e discursivas estipuladas para o ordenamento do território e à execução da política habitacional no contexto empresarial da realização econômica no lugar. O resultado desta publicação é a reflexão sobre a importância do estudo da reprodução do espaço a partir das relações potencializadas na economia política e indutora, segundo a lógica do valor na instituição da metrópole. Conteúdo da moderna luta de classes, o espaço configura as contradições inerentes às estratégias permanentes do capitalismo, bem como o devir político construído a partir dos conflitos das relações sociais no urbano. Nesse contexto, o livro de Rosângela Viana Vieira estuda a primeira parceria público-privada para a habitação de interesse social no Brasil. Seu objetivo é compreender a reprodução do espaço na área metropolitana em suas reverberações a partir do processo da produção habitacional. O espaço reproduzido pela administração pública, que atua, ao mesmo tempo, como um agente imobiliário, é feito para determinar o lugar de cada um segundo sua condição de classe, reafirmando a segregação e o enfraquecimento do coletivo. Sendo assim, esta obra aborda de forma categórica temas como atuação empresarial, práticas de economia política, habitação de interesse social, negócios e capital, tornando-se leitura indispensável para todos que almejam mais conhecimento e concepções empreendedoras sobre essa área de pesquisa.
Lançados:
1 de jan. de 2016
ISBN:
9788547300401
Formato:
Livro


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Amostra do livro

O urbano como negócio - Rosângela Viana Vieira

Editora Appris Ltda.

1ª Edição - Copyright© 2016 dos autores

Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98.

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Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010.

COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS

Agradecimentos

Embora cada um seja solitário em seu caminho, não estamos sós. São tantas e tantos amigos, facilitadores, desconstrutores, aqueles que quase nos carregam no colo, que doam um pouco do seu tempo para conversar, informar, que nos fazem sorrir e praguejar... Há também aqueles que fomentam nosso pensar, enquanto outros nos fizeram percorrer um caminho comprido para depois indicar o desvio. Entretanto, todas e todos estimularam nosso querer prosseguir, ainda que permeado de momentos de quase desistência. Cada um contribui, à sua maneira, com aquilo que tem e isso nos movimenta. Obrigada a todas e todos, sempre!

Obrigada à FAPEG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás), que financiou as pesquisas e a publicação deste livro. Agradecimentos que se estendem ao CNPQ e à CAPES, que em momentos distintos financiaram as pesquisas que embasam esta obra.

Ao Claudio Scliar e aos nossos filhos, filha, netos, netas, irmãs, irmãos e mães.

Ao Willian Rosa Alves (in memoriam), que me ensinou: Deus cria, o diabo estraga, o vento espalha e a geografia reúne.

Com afeto.

PREFÁCIO

As publicações sobre Brasília permitem verificar uma diversidade de perspectivas que não são unas, mas, ao contrário, são múltiplas. O que torna singular este livro, escrito pela Dra. Rosângela Viana Vieira, é sua visão política e as políticas espaciais que expõem com vigor metodológico os conflitos e as contradições na produção do território do Distrito Federal, onde se produziu uma cidade monumental e, ao mesmo tempo, banal.

A crítica estabelecida à cidade, concebida e construída na relação dialética que a produziu, forma um aprendizado fecundo e uma compreensão das práticas espaciais que conduziram a um pacto territorial sem consonâncias, mas também a desacordos profundos sobre o espaço cotidianamente vivido. Essa perspectiva é alcançada a partir do enfoque que a autora considera a economia, implicada na produção do espaço para que não sejam preteridas as relações sociais como substância dinamizadora da totalidade, de suas transformações e mediações contraditórias no interior da realização política (VIEIRA, 2016).

O estudo desenvolvido neste livro não se apresenta como o de uma cidade em particular, ou seja, examina as metrópoles como um produto da modernidade. Apresenta-se como uma proposta de análise intensa das teorias urbanas postas por essa modernidade, que aprofundaram a relação entre o desenvolvimento das políticas públicas territoriais elaboradas pelo Estado e o desenvolvimento do capital ante a sua necessidade incessante de encontrar a sua reprodutibilidade. Assim, revela com clareza o papel subordinado do Estado em tentar garantir para as classes desfavorecidas algum direito à cidade sob o signo da habitação social.

O papel do Estado e dos governos, o processo de incorporação da moradia pelo capital financeiro, a valorização da mercadoria terra urbana e mesmo o comportamento e as práticas socioespaciais dos moradores estão envolvidos e articulados na análise contraditória e conflituosa do fenômeno da urbanização da sociedade atual. A cidade se apresenta, para a análise da autora, como o espaço fundamental para essa dinâmica geográfica da produção de valor. Espaços e lugares são criados por um modelo global de cidades empreendedoras com conteúdos específicos neoliberais que projeta a cidade como negócio.

Esse é o contexto da análise realizada, no qual a reprodução do espaço se dá em correlação à extensão do urbano como negócio (VIEIRA, 2016), a partir do Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV), realizado no Distrito Federal com o Programa Morar Bem, do Governo do Distrito Federal, destinado a prover habitação de interesse social, formalizado em parceria Estado-Capital e definido como Parcerias Público-Privadas.

Ao agradecer pela gentileza do convite e pela oportunidade de escrever esse prefácio, concluo parabenizando a Rosângela pela excelente abordagem sobre o urbano, a metrópole e a cidade, resultado de um trabalho sério e comprometido com a obra coletiva que se deseja como cidade. A autora coloca em evidência um dos temas de reflexão mais importantes da sociedade contemporânea – a cidade – lugar onde se constrói a vida, a nossa humanidade.

Profa. Dra. Nelba Azevedo Penna

Departamento de Geografia

Universidade de Brasília-DF

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

sumário

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1

PENSAR A CIDADE EM SUA TERRITORIALIDADE: A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO ESPAÇO

1.1 O empreendedorismo urbano na gestão administrativa de Brasília

CAPÍTULO 2

A HABITAÇÃO COMO UM CATALISADOR DA PROBLEMÁTICA URBANA

2.1 A cidade e a economia política do território

2.2 Das estratégias territoriais e financeiras para a habitação

2.3 No ordenamento do território a política habitacional no Distrito Federal

2.3.1 A política habitacional a partir da autonomia do território do DF

2.3.2 O PDOT como regionalização do território

Capítulo 3

Jardins Mangueiral: o sentido na metrópole

3.1 De como a metrópole nega para reafirmar São Sebastião

3.2 Da Parceria Público-Privada no Setor Habitacional Jardins Mangueiral

3.3 A estratégia de localização do Jardins Mangueiral

3.4 A moradia no Setor Habitacional Jardins Mangueiral

Capítulo 4

Valparaíso de Goiás e Luziânia no contexto de reprodução do espaço na metrópole de Brasília

4.1 De como a cidade nova reitera seu processo de expansão metropolitana

4.2 Do Plano Estadual de Habitação de Interesse Social

4.3 Do Plano Diretor de Valparaíso de Goiás à prática espacial

4.4 Da prática espacial ao lugar do corpo em Valparaíso de Goiás

4.4.1 Setor Rio Branco: JCGontijo – Garden City

4.4.2 Setor Valparaíso I – Etapa A

4.4.3 Setor de Chácaras Anhanguera – A

4.4.4 Setor Pacaembu

4.4.5 A cidade de Luziânia na mediação do Jardim Ingá: o PDL como articulação de proximidade com a metrópole

4.4.5.1 Da ausência-presença do PDL à produção de habitação social

CONCLUSÃO

A INTERCONECTIVIDADE POLÍTICO-ECONÔMICA NO PROCESSO DE PRODUÇÃO IMOBILIÁRIA ENTRE DF E GOIÁS

REFERÊNCIAS

INTRODUÇÃO

A construção deste livro se deu a partir de uma pesquisa sobre a produção do espaço na cidade, em seus condicionantes teórico-conceituais-práticos no interior da política habitacional e dos sujeitos do processo na Área Metropolitana de Brasília (AMB). Deriva de uma realidade na qual as cidades, em sua ampla e histórica transformação ao longo do tempo-espaço, foram e são constituídas. O livro analisa a política de habitação de interesse social, resultado da primeira parceria público-privada para a habitação no Brasil, e sua materialidade na cidade de Brasília, a partir do Setor Habitacional Jardins Mangueiral, bem como a produção habitacional nas cidades de sua Área Metropolitana, especificamente Valparaíso de Goiás e Luziânia. Busca-se compreender a reprodução do espaço de Brasília e sua área metropolitana na relação público-privada da política habitacional do Governo do Distrito Federal em suas reverberações.

É importante incluir, nessa dependência da forma e do conteúdo de Brasília no plano contraditório das relações sociais, o mercado e o próprio Estado. Esse enfoque é preciso para que, ao considerar a economia implicada na produção do espaço, não sejam preteridas as relações sociais como substância dinamizadora da totalidade, de suas transformações e mediações contraditórias no interior da realização política. Permite, ao mesmo tempo, compreender que as necessidades presentes na produção da mercadoria no capitalismo instituem um mundo no qual as relações sociais devem ser pautadas a partir das suas realizações acumulativas, mas sendo realizadas pela força produtiva em coletividade. Sublinha-se que tal produtividade do trabalho social continua a produzir valor¹, ainda que sob o capitalismo financeiro atual o capital apareça, ele mesmo, como valor que produz a si próprio.

Para manter a acumulação capitalista, analisa Marx (2006), a noção de produção de mais-valia é dependente de uma determinada produção e reprodução de relação social. Isso faz com que, contraditoriamente, o capital, em seu desenvolvimento e para alcançar – e não produzir – cada vez mais valor, se movimente em direção à desqualificação da força de trabalho. Compreender a reprodução do espaço na atual fase do capitalismo pressupõe pensar as modificações das relações de produção em sua dependência e desarticulação das forças produtivas (meios de produção e força de trabalho), bem como suas modificações profundas na condição humana.

As análises de Lefebvre (2001, p. 129) sobre a categoria valor o levaram a concluir que cada modo de produção produz, necessariamente, um tipo de sociedade que desvela a sua prática socioespacial. Para a cidade da sociedade capitalista, essa prática residiria no par dialético lugar de consumo e consumo de lugar, que compõe a cidade como negócio. A cidade neocapitalista, denominação dada pelo autor (2001) à prática socioespacial, possui reciprocidade com elementos como o desenvolvimento tecnológico, o domínio da informação, entre outros, que conformam a produção do valor no capitalismo financeiro.

O desenvolvimento da produção técnico-material parece ser, atualmente, o único fator que leva a modificações importantes nas forças produtivas, mas essa análise não pode se dar no âmbito dual. As inovações advindas da tecnologia modificam as forças produtivas, sem, no entanto, permitir, na análise, a separação entre a reprodução das relações de produção e as forças produtivas. A concomitância no processo de desenvolvimento do capitalismo e as forças produtivas são, por sua vez, engendradas pelas modificações nas relações de produção da sociedade capitalista. Contudo, frente aos novos conteúdos da lógica do capitalismo financeiro, quais elementos constituiriam a novidade, além da mundialização dos processos produtivos no espaço internacional? Quais os novos conteúdos que a produção do espaço adquire no interior do capitalismo na contemporaneidade?

Em termos gerais, a partir da análise de que a participação da indústria no valor agregado do Produto Interno Bruto (PIB), em escala global, tem diminuído, e a participação do agronegócio e dos serviços na economia mostra o capital financeiro dominando o capital industrial com o rentismo congregando as pontas desse processo, assevera-se, no entanto, que a indústria continua a ser a espinha dorsal do capitalismo. Essas implicações profundas na forma de o capital se reproduzir em escala global, desde a quebra do padrão monetário internacional na década de 1970, são a base econômica do empreendedorismo urbano, surgido nas últimas décadas do século XX. Os termos teóricos do empreendedorismo urbano estão presentes no pensamento catalão desenvolvido por Borja e Forn (1996) e Castells (1996), que difundiram e venderam para muitos gestores municipais, de grande parte do mundo, suas salvadoras ideias de gestão empreendedora para as cidades, segundo Compans (2005) e Sánchez (2003). Harvey (2005) alerta para o conteúdo especulativo e de risco para os bens e finanças públicas das práticas de salvação das cidades.

É esse contexto que funciona como quadro teórico-analítico para a análise do novo negócio urbano a partir da habitação de interesse social na cidade de Brasília extensivo a sua área metropolitana. Aquilo que moveu a pesquisa foi compreender como os interesses do terciário sofisticado se articulavam ao PMCMV no Distrito Federal (DF), precisamente no momento em que a gestão pública da cidade passou a adotar os princípios do empreendedorismo urbano². Na base do histórico da habitação de interesse social brasileiro evidencia-se a permanência da sobreposição de interesses econômicos em detrimento dos sociais. O que modifica, a partir do Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) é o contexto no qual a reprodução do espaço se dá em correlação à extensão do urbano como negócio. A habitação de interesse social é o elo que dá sentido às contradições entre as necessidades capitalistas atuais e que fomentam a reprodução do espaço como mercadoria na cidade e aquelas da existência humana. Embora haja concretamente uma imposição de ordem mercantil, as necessidades da existência humana definem, também e contraditoriamente, o valor de uso no mundo das mercadorias.

Nesse sentido que habitação é analisada como mediação concreta da vida e da realização contraditória do valor capital nas dimensões do espaço reproduzido na cidade como negócio. A produção habitacional permite compreender a partir da materialidade da cidade, mas em direção ao processo no qual área metropolitana brasiliense é instituída nas condições proporcionadas para a realização do seu valor de uso e de troca.

Os elementos (capital, condições políticas, terrenos, consumidores e força de trabalho) necessários à produção do valor se encontram reunidos no espaço da metrópole. Ademais, os problemas falsos ou reais nela presentes, tecnicamente tratados, se submetem aos conteúdos e direcionamentos da política pública. Essa complexa associação faz com que o valor de uso na cidade seja submetido ao valor, ainda que o uso seja determinado no desenvolvimento da produção de valor. A materialidade desse uso é realizada na forma funcionalizada e desordenada do espaço, que, por sua vez, permite condicionar, facilitar e obstaculizar transformações vindas de interesses de classes³ e suas práticas.

Essas práticas tanto da política pública, dos agentes imobiliários e dos sujeitos coletivos, articulam o plano da vida e o capital pela política habitacional, refere-se ao investimento no espaço, que em Brasília possui especificidades próprias: a habitação de interesse social. Devido a um contexto socioespacial triádico, no qual o Governo do Distrito Federal (GDF) ainda é proprietário de parte da terra, dos terrenos e lotes urbanizados, a cidade é patrimônio mundial e as relações sociais se desenvolvem para atender à capital federal. Nesse sentido, Brasília, sede do poder político brasileiro, é metrópole. Não se trata de uma simples coexistência observada, porque torna as políticas habitacionais diferenciadas mesmo no âmbito de uma mesma lógica de desenvolvimento nacional. Por fim, refere-se a um tipo de governo que

realiza na propriedade da terra o controle e poder político sobre a produção da cidade, exercendo seu domínio hegemônico sobre a terra, por intermédio dos planos diretores, zoneamentos, controle dos gabaritos e outros instrumentos políticos e jurídicos. (PENNA, 2012, p. 116-117).

Nessa conjunção, a venda de terrenos, lotes e habitações em Brasília não pode ser feita desvinculada dos pressupostos que influenciam o movimento dos preços das frações de seu espaço no mercado. Para a cidade não perder seu valor de troca, as políticas públicas buscam estabelecer vínculos, e estes, compreendidos no âmbito do processo de circulação mundial dos capitais, são realizados para buscar inversões da escala mundial no lugar. Não é, portanto, a existência direta e física de investidores institucionais (CHESNAIS, 2005) ou mesmo de suas sedes em cada lugar que importa nesse estágio. A articulação das redes de relações políticas e suas influências na cidade burocrática tornam a metrópole valor e, portanto, passível de extrair rendas.

Ao considerar a volatilidade adquirida pelo capital devido ao desenvolvimento da tecnologia e de sua demanda por incrementos, impõe-se à análise as especificidades do lugar em relação à acumulação capitalista mundializada. Associar o movimento global dos capitais ao espaço exige compreender a política local, como ideologia, prática e discurso, na reprodução do espaço, articulada globalmente pelo urbano. A investigação aqui proposta a respeito do processo de reprodução do espaço na política habitacional poderá, assim, explicar o modelo de moradia adotado pelo governo do Distrito Federal e que, por sua vez, atualiza a cidade como negócio na reprodução do espaço da metrópole. A perspectiva adotada se dá a partir da categoria espaço como síntese da produção na atualização do urbano como negócio. Dessa maneira, torna-se possível compreender os fundamentos da reprodução do espaço na manutenção da sociedade capitalista.

A apreensão dialética da categoria ‘reprodução do espaço’, como constitutiva da realidade em um mundo capitalista sob a forma de mercadoria, exige que o pensamento consiga apreendê-la, não apenas em seu aspecto de superfície, mas em sua profunda ligação com as condições de vida. A habitação, como forma de apropriação-espoliação do espaço na vida cotidiana, também é a mediação no interior das condições da vida, do mercado imobiliário e do capital no processo acumulativo, sob as legislações do Estado para garantir o equilíbrio social.

A produção habitacional pode ser a démarche para se compreender as condições significativas, pois concretas, da produção do espaço no plano da individualidade e da totalidade do capital. Isso porque a habitação por congregar o trabalho – elemento básico da sociedade humana – e o próprio processo produtivo evidenciam uma contradição: a negação da moradia como uma das condições essenciais de existência do indivíduo pela produção de habitação como valor de troca⁴. Nesses termos é que a reprodução do espaço da metrópole de Brasília se realiza a partir da territorialização da política pública, que, por sua vez, produz a habitação de interesse social como negócio urbano na condição de agente imobiliário. Ao realizá-la, produz o valor de uso no território e, por conseguinte, seu valor de troca. A especificidade de Brasília é que o poder político já detém o poder privado da terra. Nesse processo, seus terrenos são valorizados em função do crescimento urbano e dos conteúdos engendrados, aí incluída sua Área Metropolitana. Para desenvolvê-la, tem-se que o direito à cidade permeia a pesquisa como reconstituição de uma unidade espaço-temporal (LEFEBVRE, 2008, p. 32), nas condições fragmentada, homogênea e simultânea do indivíduo, do lugar e da política para alcançar a síntese. A atenção a esse direito mostra, portanto, a produção de habitações inserida também no conhecimento da produção do espaço (LEFEBVRE, 2008, p. 32) e, consequentemente, na tríade econômica, social e política em seu desenvolvimento histórico.

Brasília é cidade pelos conteúdos dados nas relações sociais. Portanto, Brasília e DF são aqui sinônimos. Cumpre salientar, todavia, que DF é também território, por ser a essência desse espaço político. A relação existente entre as categorias cidade e metrópole se encontram em simultaneidade no pensamento, para alcançar os conteúdos da economia política no urbano que, por sua vez, enseja realizar o plano de vida no espaço do DF: o território da ação estadista na cidade. Nesse movimento, é preciso compreender a metrópole como processo que articula os fragmentos do espaço urbano, sem reuni-los, para a consecução da cidade como negócio. A constituição da metrópole não prescinde da sociedade humana, que, por sua vez, cria tensões e rupturas no território de ação do poder político do Estado em correlação à metropolização e à produção da cidade.

Nesse contexto, examina-se o extinto Programa Morar Bem, do GDF, destinado a prover habitação de interesse social, instituído em 2011 e encerrado em 2015, foi estabelecido a partir das diretrizes das políticas públicas, nas quais o direito à moradia é a unidade habitacional completa, inserida num ambiente dotado de serviços e equipamentos públicos que proporcionem a inclusão social da comunidade ao espaço da cidade formal⁵. O direito à moradia, assim compreendido, parece, a princípio, envolver uma relação com o espaço público. Destarte, ao determinar o ambiente físico como ‘espaço formal da cidade’, submete e reduz esse direito a um bem, a um plano cartesiano e, por isso, abstrato: integra as pessoas não à força do coletivo na cidade, mas às coisas, constituindo uma cidade sem cidadãos. O Programa segue as diretrizes metodológicas de definição de déficit habitacional (d.h.), segundo as concepções da Caixa Econômica Federal (CEF), sobre os conteúdos do PMCMV do governo federal. Esse livro aborda, mais especificadamente, o Setor Habitacional Jardins Mangueiral, que ocupa uma área de duzentos hectares, divididos em quinze áreas condominiais, ou seja, oito mil unidades habitacionais (u.h.) quando da conclusão da obra, situado na Região Administrativa (RA) de São Sebastião de Brasília. O Jardins Mangueiral é resultado de uma parceria público-privada (PPP). A PPP é, por si, uma interação nada desprezível em uma cidade na qual os negócios e as políticas públicas estão envolvidos em projetos comuns no contexto do empreendedorismo urbano.

Trata-se da primeira parceria público-privada voltada à habitação de interesse social no Brasil⁶ e isso torna evidente a ação estadista e os negócios imobiliários nas condições concretas da vida. Tais condições são intrínsecas às relações sociais, pois definem a dialética entre o público e o privado (CARLOS, 2011a, p. 63),. Permite, portanto, desvelar as formas como esse Setor Habitacional foi inserido no PMCMV, e, a partir desse Setor passaram a fomentar novos conteúdos articulados, embora diferenciados, no contexto da reprodução do espaço na área metropolitana de Brasília.

É esse uso, efetivado pela política habitacional do GDF, que torna possível a análise de práticas

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