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E o pai?: Uma abordagem Winnicottiana
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E o pai?: Uma abordagem Winnicottiana
E-book421 páginas10 horas

E o pai?: Uma abordagem Winnicottiana

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Sobre este e-book

Importante por si só, o aprofundamento do tema do pai em Winnicott preenche uma lacuna e busca corrigir um equívoco existente nos estudos da obra do autor. Ainda que altamente relevante, a questão recebeu até o presente momento pouca atenção das pesquisas dedicadas à obra winnicottiana. A literatura secundária sobre Winnicott deu especial ênfase à relação mãe-bebê, justificável pela importância que o próprio autor dá ao assunto em suas formulações teóricas. Embora exista essa ênfase na provisão materna, Winnicott não deixou de tratar da questão do pai e da enorme importância e valor que sua presença, ações e falhas exercem durante toda a vida da criança, desde o momento da concepção, passando pelas fases iniciais – quando o pai, em conjunto com a mãe, forma o ambiente total no qual o bebê habita – e acompanhando todas as fases posteriores (concernimento, vida familiar, relações triangulares com base genital, adolescência etc.) do amadurecimento humano.
O presente volume reúne artigos apresentados no XVII Colóquio Winnicott Internacional, realizado na PUC-SP em maio de 2012 com o tema "E o pai?". O leitor encontrará nesta coletânea, sob diversos ângulos, um amplo panorama a respeito do tema do pai na obra de D. W. Winnicott. Cada um dos autores trouxe, à sua maneira, uma contribuição especial. Os artigos aqui reunidos, ao mesmo tempo que desenvolvem aspectos teóricos a respeito do assunto, utilizam casos clínicos como material de ilustração. Espera-se que esta compilação amplie os horizontes dos psicanalistas e demais interessados no tema, e sirva de incentivo e subsidio para pesquisas ulteriores.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento1 de abr. de 2014
ISBN9788562487279
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    E o pai? - Claudia Dias Rosa (Org.)

    capa

    E o pai?

    Uma abordagem

    winnicottiana

    Claudia Dias Rosa

    (org.)

    Sumário

    Apresentação

    Parte I

    Winnicott e o pai: aspectos teóricos

    O pai em Winnicott

    Claudia Dias Rosa

    O pai e o monoteísmo em Winnicott

    Zeljko Loparic

    O pai suficientemente simbólico?

    Laura Dethiville

    Considerações sobre o desenvolvimento excessivo da inteligência na criança e o papel do pai na dependência relativa

    Maria José Ribeiro

    O pai nos dias de hoje e as consequências para o desenvolvimento

    Maria Lucia Toledo Moraes Amiralian

    Reflexões sobre as funções do pai na inserção da criança na realidade partilhada a partir de Winnicott

    André Martins

    Considerações a respeito das teorias da neurose em Winni­cott e Lacan

    João Paulo Barretta

    O Pai devorador de seus filhos. Do mito de Saturno à interpretação fenomenológica e analítica do tempo

    Irene Borges­-Duarte

    Parte II

    O pai na clínica winnicottiana

    A criança agressiva e o pai

    Conceição Aparecida Serralha

    Pai, identificação parental e homossexualidade masculina

    Elsa Oliveira Dias

    O pai e a problemática do falso si­-mesmo em um contexto edípico: um caso de Winnicott

    Gabriela B. Galván

    Da adolescência para o mundo: o pai no caso Frederico

    Tânia Corrallo Hammoud

    O desmoronamento da rocha firme: um caso de impotência sexual

    Maria Cecilia Schiller Sampaio Fonseca

    O lugar do pai no contexto da regressão clínica

    Flavio Del Matto Faria

    O lugar e a função do avô, aquele que é pai duas vezes: um estudo com base em D. W. Winnicott

    Alfredo Naffah Neto

    Sobre os autores

    Sobre a organizadora

    Apresentação

    O presente volume reúne os artigos apresentados no XVII Colóquio Winnicott Internacional, realizado na PUC-SP em maio de 2012 com o tema E o pai?. Os colóquios Winnicott tiveram início em São Paulo, em 1995, e desde então vêm acontecendo anualmente. Ao longo do tempo esses eventos foram se multiplicando e alcançando outras cidades e regiões, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Triângulo Mineiro, Campinas, Vale do Paraíba (Lorena), entre outras.

    Esses Colóquios fazem parte do conjunto de atividades realizadas pela Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana (SBPW), instituição fundada por Elsa Oliveira Dias e Zeljko Loparic em 2005 e, desde 2013, integrante da Internacional Winnicott Association (IWA). Composta fundamentalmente por psicanalistas, pesquisadores e estudiosos da obra de D. W. Winnicott, a SBPW vem se dedicando ao aprofundamento, desenvolvimento e difusão de sua teoria, por meio da realização de projetos de pesquisa, edição de livros e revistas científicas especializadas, como Natureza humana e Winnicott e-prints, ensino e formação de psicanalistas, e vários tipos de eventos clínicos e científicos.

    Muitos foram os temas específicos da obra winnicottiana trabalhados ao longo desses anos. Se, inicialmente, a maioria deles girava em torno dos vários aspectos relativos aos estágios primitivos – momento do amadurecimento em que as bases da saúde emocional estão sendo erigidas –, com o tempo e o desenvolvimento das pesquisas, o leque se expandiu e temas como os da família, adolescência, democracia, socialização, para citar alguns, passaram a compor o rol de objetos de estudo.

    O tema relativo ao papel do pai no processo de amadurecimento apareceu em algum momento nesse caminho e, ao que tudo indica, chegou em boa hora. Importante por si só, o estudo do pai veio também preencher uma lacuna e tentar corrigir um equívoco existente nos estudos da obra do autor. Embora altamente relevante, o tema recebeu até o presente momento pouca atenção dos autores dedicados à obra winnicottiana. A literatura secundária sobre Winnicott deu especial ênfase à relação mãe-bebê, justificável pela importância que o próprio autor lhe dá em suas formulações teóricas. A tarefa materna é destacada e detalhadamente analisada por Winnicott e esta prioridade deve-se ao fato de sua obra repousar na ideia de que o indivíduo humano amadurece – e que esta é a sua natureza essencial – a partir de um estado de extrema imaturidade, que caracteriza o início da vida, durante o qual ele precisa, necessária e inapelavelmente, ser assistido por um cuidado materno suficientemente bom. Por essa temática ter sido pouco trabalhada pela psicanálise tradicional e também baseado na vasta experiência que teve como pediatra, Winnicott dedicou boa parte de seu trabalho a estabelecer os fundamentos da psicologia da lactância.

    Apesar da ênfase na provisão materna, Winnicott não deixou de tratar da questão do pai e da enorme importância e valor que sua presença, ações e falhas exercem durante toda a vida da criança, desde o momento da concepção, passando pelas fases iniciais – quando o pai, em conjunto com a mãe, forma o ambiente total no qual o bebê habita – e acompanhando todas as fases posteriores (concernimento, vida familiar, relações triangulares com base genital, adolescência etc.) do amadurecimento humano.

    Uma vez que Winnicott construiu novas bases teóricas para apoiar sua compreensão da natureza humana e da prática clínica, era natural que o papel do pai também se modificasse nesse novo quadro teórico. Nesse contexto o pai não se restringe ao clássico interventor do estágio edípico, mas assume diferentes aspectos ao longo das fases do amadurecimento pessoal, de acordo com a crescente maturidade do indivíduo. Com efeito, antes de o pai surgir como um dos polos do triângulo edípico, ele já está presente, de diferentes maneiras, na vida do bebê. Mas não apenas: à luz do amadurecimento, em suas etapas mais primitivas, Winnicott redescreve a fase das relações triangulares e, nela, o papel do pai e as relações que caracterizam a situação edípica. O estágio edípico ou, na linguagem de Winnicott, o estágio das relações triangulares com base genital, não é mais pensado como o período no qual se constitui o psiquismo humano, sendo apenas uma etapa – da maior importância, é certo – entre as que compõem o processo de amadurecimento. A figura paterna será de importância capital na adolescência e na maturidade, quando o indivíduo humano fizer tentativas de fundar sua própria família e tornar-se membro ativo na vida social.

    Nessa perspectiva teórica, a análise do papel do pai parte da ideia de um bebê amadurecendo dentro de uma família e, em seguida, inserido em ambientes cada vez mais amplos, compostos por pessoas reais que lhe dispensam cuidados efetivos. Assinalo esse ponto para tornar clara uma diferença essencial entre Winnicott e a teoria psicanalítica tradicional: esta última pensa as relações familiares em termos de um jogo de representações (fantasias) referidas a conflitos internos vividos pelo bebê e com a função precípua de exercer a censura e repressão da instintualidade, e não como o ambiente que provê cuidados reais e cuja finalidade é a de fornecer proteção aos novos indivíduos que ela gera.

    Winnicott trouxe, assim, contribuições significativas para o entendimento do papel do pai, em todas as fases do processo de amadurecimento, seja apresentando perspectivas radicalmente novas, seja reformulando determinados aspectos da psicanálise tradicional.

    O estudo mais sistemático do tema do pai, em nosso grupo de pesquisadores, teve início com a discussão que se seguiu à minha dissertação de mestrado,¹ na qual examinei o que Winnicott considera ser o papel do pai e suas contribuições no processo de amadurecimento, do nascimento até o estágio das relações triangulares com base genital, tendo em vista um desenvolvimento saudável. Em minha tese de doutorado,² ampliei e aprofundei o tema, dirigindo-o para o exame das falhas paternas e do modo como elas, direta ou indiretamente, atingem o indivíduo, gerando distúrbios específicos. O passo seguinte, visando ao aprofundamento da questão, foi a utilização do tema do pai como fio condutor dos Seminários de pesquisa realizados mensalmente no Centro Winnicott de São Paulo (CWSP),³ entre meados de 2011 e junho de 2012, e em seguida, ampliando o âmbito da discussão, como assunto do XVII Colóquio Winnicott Internacional de São Paulo. Essas pesquisas estão na origem de um expressivo número de trabalhos, muitos deles reunidos na presente coletânea, a qual inclui também contribuições de colaboradores externos à SBPW, que apresentam estudos significativos, embora não necessariamente de acordo com a linha de pesquisa adotada por essa sociedade. Nesta coletânea, o leitor encontrará, portanto, estudos que resultaram de horizontes amplos e diversos, sendo que, a maioria deles, ao mesmo tempo que desenvolve aspectos teóricos do tema, utiliza casos clínicos como material de ilustração.

    A coletânea está dividida em duas partes. O texto inaugural da primeira parte reúne os principais resultados de minhas pesquisas sobre o tema. Acompanhando as necessidades específicas do indivíduo em cada uma das fases do processo de amadurecimento humano, analiso as diferentes contribuições e responsabilidades paternas para o favorecimento da saúde emocional da criança e de que maneira as falhas do pai podem estar, direta ou indiretamente, na etiologia de alguns distúrbios psíquicos.

    No texto seguinte, Zeljko Loparic, depois de apresentar, em linhas gerais, os fundamentos da derivação winnicottiana do monoteísmo – a situação do bebê no colo da mãe como situação-problema exemplar, a teoria do amadurecimento emocional e pessoal, o estágio do EU SOU –, examina, em detalhes, esse estágio e o papel do pai nesse período do amadurecimento para, em seguida, abordar a concepção psicanalítica de Winnicott em relação ao surgimento do monoteísmo.

    Na contramão das críticas feitas a Winnicott na França, ainda nos dias atuais, de que o autor não estabeleceu um lugar suficiente para o pai dentro de seu corpo teórico, Laura Dethiville percorre a obra winnicottiana, aponta para a importância que o autor atribuiu ao pai e ressalta a existência não apenas de um pai simbólico mas, sobretudo, o valor de um pai real, com características próprias, e da relação efetiva que estabelece com os filhos.

    Em seu artigo, Maria José Ribeiro se detém na análise do período de dependência relativa e mostra que o pai pode falhar e contribuir para um funcionamento exacerbado da mente infantil quando a mãe, sobrecarregada pela falta de apoio e sustentação do marido, não realiza uma desadaptação gradual, na medida das possibilidades do bebê, levando o último a suprir a falha ambiental por meio de um uso exagerado e, ao mesmo tempo, cindido do intelecto.

    Enfatizando a importância do ambiente na teoria winnicottiana e refletindo a respeito das relações familiares contemporâneas, Maria Lucia Toledo Moraes Amiralian coloca em pauta o pai e seu papel diante dessa nova realidade.

    Seguindo o mesmo fio condutor, o papel do pai na atualidade, André Martins, reconhecendo a importante contribuição paterna para a maternagem satisfatória e, ao mesmo tempo, uma certa diluição do que era considerado tradicionalmente o papel exclusivo do pai, se pergunta, então, se o que restou ao pai foi apenas um papel coadjuvante.

    João Paulo Barreta revisita Freud e mostra como o psicanalista se valeu de suas descobertas a respeito do narcisismo e da identificação com o objeto para rever sua teoria das neuroses. A esse propósito, apresenta, por meio do exame do caso clínico O Homem dos Ratos, as diferentes contribuições que Winnicott e Lacan também fizeram para a teoria e clínica das neuroses.

    Esse primeiro grupo de trabalhos, de cunho mais teórico, conta, por fim, com o texto de Irene Borges-Duarte. A autora, apoiada na psicanálise freudiana, sustenta que o projeto winnicottiano de reequacionar o papel do pai no amadurecimento pessoal da criança implica uma análise da triangulação relacional pela qual ela se abre ao mundo circundante. Nessa perspectiva, propõe-se a tratar do lugar que, nessa abertura, tem a experiência do tempo. Partindo da leitura mitológica do fenômeno tempo no mito de Krónos-Saturno, o trabalho contrasta a experiência de conflito exposto no mito com a vivência de plenitude, alheia ao tempo, ligada ao momento da relação fusional do bebê com a mãe. Segundo a autora, a intervenção do pai no relacionamento materno-filial deverá contribuir para a abertura do indivíduo ao mundo, culminando no que Heidegger chamou Geviert (quadrindade), e, nessa medida, sustentará o processo de amadurecimento do infante até o pleno desenvolvimento da vida pessoal. O desequilíbrio que provoca o não cumprimento dessa função traduz-se em vivências patológicas do tempo.

    O segundo grupo de textos põe em evidência a aplicabilidade clínica de vários aspectos da teoria winnicottiana do papel do pai.

    Conceição Aparecida Serralha examina a correlação existente entre o aparecimento de uma agressividade sintomática em crianças de dois a três anos de idade e falhas na provisão ambiental, em especial as paternas, no tocante à criação de um ambiente estável e indestrutível no qual a criança possa crescer.

    A partir de premissas gerais sobre a constituição da identidade sexual de uma criança, Elsa Oliveira Dias aborda a questão das identificações parentais e sua relação com as tendências hetero e homossexuais; mais especificamente, a necessidade do menino de um pacto homossexual com o pai na fase dos relacionamentos interpessoais. Examina a tese de Winnicott de que é a falta dessa experiência homossexual com o pai uma das etiologias da tendência homossexual. A autora propõe ainda a distinção entre uma homossexualidade de raiz instintual e outra de raiz identitária.

    Trazendo à luz a problemática das relações triangulares, e servindo-se de um fragmento clínico de Winnicott, Gabriela Galván analisa o caso de um menino que, em meio aos conflitos próprios da vivência edípica, não encontra na relação efetiva com o pai o caminho que o conduziria à identificação e, recorrendo à defesa do tipo falso si-mesmo, apresenta dificuldades na integração do aspecto masculino de sua personalidade.

    Tânia Corrallo Hammoud e Maria Cecilia Schiller Sampaio Fonseca voltam sua atenção para o período da adolescência, e analisam algumas consequências das falhas paternas durante essa fase. Fonseca aborda o surgimento de impotência em um rapaz como forma de proteção (defesa) diante de um pai invasivo. Hammoud, por sua vez, analisa as dificuldades que um paciente encontrou durante a adolescência, as quais o acompanharam até o início da idade adulta, por não contar com um pai forte com quem pudesse se identificar e na direção de quem pudesse ir.

    Focalizando que em Winnicott a importância do pai não se restringe ao momento edípico, mas abarca também as fases inicias da vida, Flavio Del Matto Faria considera que, no processo de regressão na clínica, notadamente em pacientes que apresentam sintomatologia borderline, ao encontrarmos casos em que há uma nítida concentração de lembranças e conflitos com foco na relação com a figura paterna, pode ser um equívoco interpretar como edípicas as origens da problemática do paciente e, por decorrência, encobrir, com riscos reais ao paciente, as origens primitivas do quadro apresentado.

    Por meio do relato de um paciente, Alfredo Naffah Neto realiza um estudo a respeito da função do avô no seio da família contemporânea, constatando que ele, por ocupar um lugar de maior distanciamento com relação a papéis e estereótipos familiares, tem a possibilidade de intervir e ajudar no cuidado dos netos, fazendo, em muitos momentos, as vezes do pai.

    Como o leitor poderá conferir, este volume apresenta, sob diversos ângulos, um amplo panorama a respeito do tema, tendo como fio condutor o pensamento de Winnicott. Não há dúvidas que há ainda muito a se percorrer no âmbito da psicanálise winnicottiana referente a esse assunto de expressiva importância. Cada um dos autores trouxe, à sua maneira, uma contribuição especial e espero que esta compilação sirva de incentivo e subsidio para pesquisas ulteriores e para o desenvolvimento desta área do conhecimento, teórico e clínico.

    Por fim, faço constar que o presente livro faz parte da Coleção Psicanálise Winnicottiana, que se destina a publicar trabalhos acadêmicos, monografias, coletâneas de artigos e outros tipos de texto que apresentem resultados de pesquisas originais relativos a diferentes aspectos do pensamento de Donald W. Winnicott ou busquem determinar seu lugar na história da psicanálise e no horizonte mais amplo da cultura contemporânea. Entre os volumes disponíveis, menciono Winnicott na Escola de São Paulo, Winnicott e Heidegger: aproximações e distanciamentos, O pensamento de Winnicott: a clínica e a técnica e Winnicott e a ética do cuidado.

    Dirijo aqui os meus agradecimentos a todos os que contribuí­ram para a feitura deste livro, em especial, à FAPESP e à CAPES, que apoiaram o XVII Colóquio Internacional E o pai?, e também agradeço a cuidadosa dedicação da coordenadora editorial da DWW editorial Meire Cristina Gomes, e aos trabalhos especializados de diagramação de Julia Ana Fatel, de revisão de Cláudia Guarnieri e de arte visual de Sandra Dias Rosa que criou a capa.

    A normatização foi feita segundo as regras da APA e as datas das publicações originais das obras de D. W. Winnicott seguem a classificação de K. Hjulmand, publicada na Natureza humana, v. 1, n. 2, 1999 e também em: http://www.winnicottnaturezahumana.com.br.

    Claudia Dias Rosa

    Notas

    1 O presença do pai no processo de amadurecimento saudável: um estudo sobre D.W.Winnicott, defendida em 2007 na PUC-SP .

    2 As falhas paternas em Winnicott, defendida em 2011 também na PUC-SP.

    3 A SBPW é composta por vários Centros de estudo, pesquisa e formação em psicanálise winnicottiana, dentre eles o de São Paulo.

    Parte I

    Winnicott e o pai: aspectos teóricos

    O pai em Winnicott

    ¹

    Claudia Dias Rosa

    Neste trabalho apresentarei um panorama geral e analisarei o papel do pai no processo de amadurecimento – do estágio inicial da primeira mamada teórica ao período das relações triangulares, à luz da teoria de D.W.Winnicott. Pretendo, neste percurso, mostrar que a importância da presença paterna começa desde os primórdios da vida, antes mesmo de o bebê ter condições de reconhecer o pai como pai, e que durante todo esse período inicial o pai contribui de diferentes maneiras para que o bebê tenha condições de chegar a si e de se estabelecer como uma identidade integrada. Explicitarei, de maneira sucinta, os diversos papéis que ele assume no decorrer da vida do indivíduo, e que variam segundo as necessidades relativas a cada estágio. Deixarei clara a sua importância como membro do casal parental – o segundo ambiente, depois da mãe, que a criança encontra e com o qual conta para continuar amadurecendo – e deter­-me­-ei, mais longamente, na discussão de sua participação no estágio das relações triangulares, quando ele assume um papel privilegiado para auxiliar a criança na elaboração das questões próprias a este período. Por fim, analisarei de que forma algumas patologias podem surgir em decorrência de suas falhas.

    Primeiramente, saliento que a prioridade dada por Winnicott ao tema materno acabou por obscurecer o fato de que, para o autor, desde o início, o pai participa de modo decisivo do processo de amadurecimento e de que, muitas vezes, a origem ou o agravamento de um determinado distúrbio deve­-se a uma falha paterna.

    De fato, na clínica, nos deparamos com histórias de vida cuja problemática apresentada, muitas vezes a central, toca em aspectos que dizem respeito à relação com o pai e suas falhas. A qualidade de sua presença, ou sua ausência, os distúrbios que o afetam e que transbordam para a relação com os filhos, a imaturidade de sua personalidade, sua incapacidade de dar apoio à esposa ou sua necessidade de ocupar o lugar desta, a impossibilidade de confrontar, de se envolver íntima e pessoalmente com as questões que afligem a criança ou o adolescente, sua omissão perante determinados assuntos, sua violência, ou total complacência, são exemplos de como o pai pode falhar em seu papel e afetar a vida dos filhos. A questão do pai não é, pois, um tema secundário, não é meramente teórico e tem implicações clínicas que não podem deixar de ser analisadas.

    1. Alguns dos papéis que cabem ao pai nos diferentes estágios do processo de amadurecimento saudável

    ²

    1.1 O pai no período de dependência absoluta

    Durante esse período, bebê e mãe formam uma só unidade; embora indiretamente, o pai participa desta relação e a qualidade da sua presença no ambiente é de extrema importância, pois modula o espírito da mãe: o sentimento de estar protegida e amparada depende, em grande parte, do que o pai é capaz de fornecer. É natural, portanto, a constatação de que todo o efetivo cuidado paterno – no tocante à qualidade do ambiente em que a dupla mãe­-bebê habita e quanto ao atendimento das necessidades especiais da mãe – faz parte do colo materno que o bebê recebe. Daí a importância de se conjeturar que, nas formulações de Winnicott, está contida a ideia de que a mãe e o pai, juntos, compõem o ambiente total que o bebê precisa encontrar para amadurecer, ainda que o lugar do pai não seja o mesmo da mãe na relação direta com o bebê. O pai nesse período ajuda a mãe a ser mãe. Se tiver uma presença efetiva e fizer a sua parte, contribui, de maneira preciosa e particular, para que ela seja suficientemente boa. A maternagem, como diz Winnicott,

    Inclui os pais, mas eles devem me permitir o uso da palavra maternal para descrever a atitude global em relação aos bebês e o cuidado a eles dispensados. O termo paternal tem, necessariamente, de chegar um pouco depois do termo maternal. Geralmente, o pai torna­-se um fator significativo enquanto homem. Depois vem a família, cuja base é a união de pais e mães, compartilhando a responsabilidade por aquilo que fizeram juntos, aquilo que chamamos de um novo ser humano – o bebê. (1969a/1999, p. 149)

    No período da dependência absoluta, pode­-se dizer que, basicamente, o pai assume dois principais papéis: o de mãe substituta, oferecendo seu colo e dividindo com a mãe parte das tarefas inerentes aos primeiros anos de vida, e o de dar sustentação à mãe, protegendo­-a das interferências externas, de modo que ela possa dedicar­-se integralmente ao seu bebê. Além disso, ele propicia, com a esposa, os alicerces do sentido de família. Veremos como nesta teoria a família tem um valor relevante e decisivo para muitas das questões envolvidas na conquista da saúde. Ela, entre outros aspectos, fornece a continuidade no tempo desde a concepção da criança até o fim da dependência, que caracteriza o término da adolescência (cf.Winnicott, 1988/1990, p. 57).

    Cabe a cada indivíduo empreender a longa jornada que leva do estado de indistinção com a mãe ao estado de ser um indivíduo separado, relacionado à mãe, e ao pai e à mãe enquanto conjunto. Daí o caminho segue pelo território conhecido como família, que tem no pai e na mãe suas principais características estruturais. (Winnicott, 1961b[1957]/2001, p. 60)

    1.2 O pai no período de dependência relativa

    Ainda nos estágios iniciais, o bebê saudável, que pôde viver a experiência de onipotência pelo tempo necessário, começa a adquirir uma crescente compreensão mental e precisa que a mãe não mais o atenda prontamente – desiludindo­-o por meio de uma desadaptação gradual – para poder exercitar essa capacidade e realizar incipientes experiências de autonomia e de diferenciação relativamente à mãe.

    Não é difícil avaliar que nem sempre é tranquilo à mãe proceder à desadaptação gradual do bebê e dar início a todo o conjunto de cuidados relativos ao desmame. O pai tem uma contribuição valiosa a fazer para que a mãe consiga operar essa separação: nos bons casos ele tem um interesse particular para que os dois componentes desta dupla ganhem rapidamente autonomia: quer ver seu filho crescer e espera reaver sua mulher para si. Dessa forma, é de grande ajuda que o pai lembre à mãe que ela também é uma mulher, de modo que ela tenha mais um ponto de apoio para recuperar aspectos de sua personalidade e de retomar, aos poucos, a amplitude do mundo que havia sido estreitado pela preocupação materna primária. Diz Winnicott:

    Eu espero que, em última instância seja o pai quem intervenha e defenda a esposa. Ele também tem seus direitos. Não só quer ver sua esposa recuperar uma existência independente, mas também quer estar apto a ter sua esposa para si, mesmo que em certos momentos isso signifique a exclusão de crianças. (1993i[1960]/1999, p. 100)

    No mesmo sentido de facilitar o caminho que levará à separação e à autonomia, o bebê começa a poder distinguir, dentro do conjunto dos cuidados maternos, alguns aspectos que podem ser ditos paternos: de ordem, firmeza, dureza, inflexibilidade etc. O pai vai se tornando, paulatinamente, como uma duplicação da figura materna, e é no tocante a essa duplicação do papel materno que o paterno começa a se esboçar.

    O pai acaba entrando na vida da criança como um aspecto da mãe que é duro, severo, implacável, intransigente, indestrutível, e que, em circunstâncias favoráveis, vai gradualmente se tornando aquele homem, alguém que pode ser temido, odiado, amado, respeitado. (Winnicott, 1986d[1966]/1999, pp.126­-127)

    Ou seja, ao se iniciar a desadaptação materna, o colo da mãe começa a se diferenciar e a ficar pontilhado de características paternas antes desconhecidas. Elas trazem e anunciam para o bebê o início do contato com aspectos do mundo externo do qual o pai, como tal, um dia fará parte. Aos poucos, a criança terá condições de discriminar essas diversas características da mãe e dos cuidados maternos e as atribuirá, mais adiante, à figura masculina do pai. Diz Winnicott:

    Se começarmos pelos primeiros tempos, podemos observar que o bebê, antes de mais nada, conhece a mãe. Mais cedo ou mais tarde, certas qualidades maternas são reconhecidas pela criança e algumas delas – maciez, ternura – ficam sempre associadas à mãe. Mas a mãe também possui toda a sorte de qualidades austeras: por exemplo, pode ser ríspida, severa, e rigorosa; com efeito, a pontualidade dela acerca das mamadas é tremendamente apreciada pelo bebê, logo que pode aprender a aceitar o fato de que não pode ser alimentado exatamente quando lhe apetece. Eu diria que certas qualidades da mãe, que não fazem essencialmente parte dela, reúnem­-se gradualmente na mente infantil; e essas qualidades atraem sobre si próprias os sentimentos que o bebê, com o tempo, acaba por dispor­-se a alimentar em relação ao pai [...] Assim, quando o pai entra na vida da criança, como pai, ele chama para si sentimentos que a criança já alimentava em relação a certas propriedades da mãe e, para esta, constitui um grande alívio verificar que o pai se comporta da maneira esperada. (1945i[1944]/1982, pp. 128­-129; o itálico é meu)

    É interessante nessa citação sublinhar a ideia de que não é o pai quem decide por sua entrada na vida do filho, mas sim o bebê, que, à medida que se separa da mãe e do ambiente total, começa a reunir na figura do pai determinadas qualidades que lhe vinham da mãe, e assim vai criando a presença paterna em sua vida: o bebê amadurece a partir dos cuidados maternos, e, avançando na direção da independência e abrindo­-se para novas relações, cria e encontra o pai.

    Note­-se também que essas primeiras experiências com o que é paterno estão dentro do âmbito de cuidados que constituem o si­-mesmo do bebê e nada têm a ver com a situação, posterior no processo de amadurecimento, na qual o pai será visto como um outro, e, primeiramente, ele, o pai, será um não­-eu, diferenciado da mãe e do próprio bebê – um membro do casal parental – e, mais tarde ainda, um dos polos do triângulo edípico. No estágio ora descrito, a entrada do pai na vida da criança, ou, mais precisamente, do contato com aspectos paternos, não é imposta nem tem um caráter de intervenção ou interdição. Ao contrário, as mudanças necessárias para que o paulatino ganho de autonomia e independência da criança ocorra acontecem no interior da relação mãe­-bebê, e o pai, aqui, tem o papel de sustentador dessa relação para que o seu natural amadurecimento possa ir se realizando.

    Já perto do final desse estágio, munido das conquistas feitas até esse momento, o bebê, em vias de alcançar o estatuto de unidade, pode obter do pai uma importante ajuda nesse sentido. Pelo fato de o pai nunca ter estado tão misturado ao bebê como a mãe esteve, por suas próprias características masculinas que o diferenciam daquilo que são os cuidados maternos, ele é aquele que fornece à criança a primeira configuração da pessoa total. O pai é, nas palavras de Winnicott, o primeiro vislumbre que a criança tem da integração e da totalidade pessoal (Winnicott, 1989xa[1969]/1994, p. 188), antecipando o indivíduo unitário que vai chegar a si. Isto é, o bebê utiliza o pai como uma espécie de diagrama³ para a sua própria integração, em um momento em que essa integração ainda não foi conquistada por ele. Winnicott diz que

    [...] o pai pode ou não ter sido um substituto materno, mas em alguma ocasião ele começa a ser sentido como se achando lá em um papel diferente, e é aqui que sugiro que o bebê tem probabilidade de fazer uso do pai como um diagrama para a sua própria integração, quando apenas se torna, às vezes, uma unidade. (1989xa[1969]/1994, p. 188)

    Essa citação exemplifica um dos pontos da mudança paradigmática proposta por Winnicott: em vez de simplesmente interventor, o pai surge antes não como lei, mas como modelo de integração, antecipando o status unitário a que o indivíduo irá chegar, se tudo correr bem.

    1.3 O pai no estágio do concernimento

    Um pouco adiante na linha do amadurecimento, quando a criança alcança com mais consistência o estatuto de unidade, ela torna­-se apta para empreender a tarefa de integrar, como pessoal, sua instintualidade, assumindo com isso não só a potência de seus impulsos amorosos primitivos, mas também a destrutividade inerente a eles, adquirindo, dessa maneira, a capacidade de ser ambivalente. É somente nesse momento que Winnicott se refere a uma pessoa inteira (whole person), capaz de relacionar­-se com outras pessoas também inteiras e pertencentes ao mundo objetivo; é por volta dessa época que o pai, como pai, passa a ser reconhecido pela criança.

    A elaboração do concernimento, até seu estabelecimento, é longa, se faz no tempo, nas repetidas experiências de danificar­-reparar, e a criança necessitará do pai para proteger a mãe da impulsividade infantil, por vezes exagerada, e colocar um sentido de firmeza em toda a situação: é aqui que aqueles elementos paternos de inflexibilidade, dureza, força e rigor, presentes anteriormente no cuidado da mãe, passam a ficar reunidos na pessoa do pai.

    A presença do pai possibilita à criança ousar mais, ir mais fundo, proporciona que a experimentação da instintualidade se dê em sua plenitude sem ser restringida, diminuída ou empobrecida pelo medo. Ao ter um pai forte e protetor à frente, a criança não teme destruir a mãe, e assim não precisa inibir ou perder a capacidade para o amor excitado, podendo, portanto, viver de forma segura e espontaneamente sua destrutividade pessoal. A proteção que o pai oferece nesse momento é a de pôr limites, o que permite à criança vivenciar seus

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