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Duração:
401 páginas
5 horas
Editora:
Lançados:
Nov 6, 2020
ISBN:
9788562487163
Formato:
Livro

Descrição

Este livro é uma coletânea de estudos a respeito do pensamento do Jürgen Habermas. A quase totalidade dos textos aborda algum debate ou interlocução em que o filósofo e sociólogo alemão se envolveu durante sua trajetória intelectual, ainda em curso. Os trabalhos foram apresentados e discutidos por especialistas no pensamento de Habermas ou no pensamento de algum de seus interlocutores durante o VII Colóquio Habermas: Habermas e lnterlocuções, acorrido na Universidade Estadual de Londrina em outubro de 2011. Entre os diversos interlocutores de Habermas, alguns são apresentados apenas no estudo preliminar, ao passo que outros, como Arendt, Foucault, Gadamer, Hobbes, Nietzsche e Kant recebem capítulos específicos, em que as indagações habermasianas suscitadas à luz de seus respectivos pensamentos são reconstruídas e examinadas criteriosamente. Por essa razão, este livro deve interessar tanto aos estudiosos de Habermas quanto aos de seus interlocutores aqui discutidos.
Editora:
Lançados:
Nov 6, 2020
ISBN:
9788562487163
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Livro


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Amostra do livro

Habermas e interlocuções - Delamar José Volpato Dutra (Org.)

capa do livro

Habermas

e

interlocuções

Charles Feldhaus e

Delamar José Volpato Dutra

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© by DWW editorial para a edição em língua portuguesa

1ª edição: outubro de 2012

ISBN: 978-85-62487-16-3

Diretores: Elsa Oliveira Dias (elsadias@uol.com.br)

Zeljko Loparic (loparicz@uol.com.br)

Conselho editorial: Ariadne Moraes (ariadne.moraes@hotmail.com)

Conceição A. Serralha (serralhac@hotmail.com)

Eder Soares Santos (edersan@hotmail.com)

Oswaldo Giacoia Junior (ogiacoia@hotmail.com)

Róbson Ramos dos Reis (robsonramosdosreis@gmail.com)

Roseana Moraes Garcia (roseanagarcia@uol.com.br)

Vera Laurentiis (veralaurentiis@terra.com.br)

Coordenação editorial: Meire Cristina Gomes (meire@sbpw.com.br)

Diagramação/EPUB: Microart (www.microart.com.br)

Capa: Sandra Rosa

Revisão: Teresa Cristina G. Soares

Texto em conformidade com o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária

Eliana Marciela Marquetis – CRB-8 n. 3573

Índice para catálogo sistemático

Filosofia alemã------------------------------------------193

Ciência política – Filosofia----------------------------320.01

Ética----------------------------------------------------_-170

Filosofia contemporânea-----------------------------.-190

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DWW editorial

Rua João Ramalho, 146 – Perdizes

CEP 05008-000 – São Paulo – SP

Tel.: (11) 3676-0635

E-mail: dwweditorial@sociedadewinnicott.com.br

www.dwweditorial.com.br

Apoio

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Agradecimentos

Agradeço a todos os professores conferencistas de diversas universidades do país que contribuíram apresentando suas pesquisas durante o VII Colóquio Habermas: Habermas e Interlocuções e, posteriormente, as submeteram para publicação na presente coletânea.

Agradeço a todos os professores da Universidade Estadual de Londrina que de alguma maneira colaboraram com a realização do VII Colóquio Habermas: Habermas e Interlocuções, em especial àqueles que colaboraram apresentando suas conferências durante o evento e, posteriormente, as submeteram para publicação na presente coletânea.

Agradeço o apoio financeiro concedido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior – CAPES/PAEP à realização do evento e à publicação da presente coletânea.

Agradeço o apoio financeiro concedido pela Fundação Araucária à realização do evento.

Charles Feldhaus

Sumário

Capa

Habermas e interlocuções

Agradecimentos

Prefácio

Sobre os autores

Sobre os condicionamentos e a relevância do conceito de liberdade comunicativa 

Flávio Beno Siebeneichler

1. Introdução

2. A liberdade comunicativa como pressuposto da racionalidade comunicativa

3. Interligações entre os conceitos de liberdade comunicativa, liberdade da vontade e autoria responsável

3.1 Uma proposta atual de abordagem do tema da liberdade

3.2 O jogo de linguagem da autoria responsável

3.2.1 Autoria responsável e atividade comunicativa

3.2.2 Autoria responsável e censura moral

3.3 Condicionamentos da liberdade comunicativa

4. Relevância dos conceitos de liberdade comunicativa e autoria responsável para a discussão de problemas levantados por pesquisas neurológicas e teorias naturalistas

5. Relevância do conceito de liberdade comunicativa na concepção de uma democracia radical

Referências

As críticas de Habermas a Rousseau 

Delamar José Volpato Dutra

1. Introdução

2. Rousseau nas bordas da alienação total

3. Das críticas de Habermas a Rousseau

Referências

A racionalidade estética em Adorno como possibilidade de superação da crítica à razão instrumental 

Franciele Bete Petry

1. Os limites da crítica à racionalidade instrumental segundo a leitura de Habermas

2. A possibilidade de uma racionalidade estética na obra de Adorno

Referências

Foucault incorre em contradição performativa? Notas marginais à interpretação habermasiana da crítica foucaultiana à modernidade 

Marcos Nalli

Referências

A racionalidade ético-comunicativa de Habermas: considerações a respeito do ponto de vista moral laico e suas implicações éticas 

Jovino Pizzi

1. Crise de legitimação ou a pergunta a respeito de qual legitimidade

2. A razão pública e transparência

3. As justificações como retroalimentação

4. As implicações do ponto de vista moral laico

Referências

Sobre a relação entre os direitos e a ética discursiva de Habermas 

Milene Consenso Tonetto

1. Os direitos humanos na ação comunicativa

2. Direitos humanos e a ética do discurso

3. Os direitos humanos em Direito e democracia

4. Considerações finais

Referências

Validade e correção de normas morais: breves apontamentos a partir de Habermas e Wittgenstein

Marciano Adilio Spica

Referências

Habermas, Arendt e o conceito de poder 

Adriano Correia

Referências

Moralidade, autonomia e heteronomia em Kant e Habermas 

Aguinaldo Pavão

Referências

Habermas e o projeto kantiano de uma paz perpétua 

Charles Feldhaus

1. Introdução

2. Um exame do projeto de Zum ewigen Frieden após duzentos anos

3. O projeto de Zum ewigen Frieden à luz da história recente

4. Uma alternativa conceitual à proposta de Kant

5. Alguns possíveis equívocos interpretativos

6. Considerações finais

Referências

O abismo sob a ponte: os limites da controvérsia entre Gadamer e Habermas 

Roberto Wu

1. A compreensão em Verdade e método

2. A recepção habermasiana de Verdade e método

2.1 Método e emancipação

2.2 Autoridade e linguagem

3. Análise geral da fundamentação da crítica habermasiana

4. Considerações finais

Referências

Habermas crítico de Hobbes em Direito e democracia

Frederico Lopes de Oliveira Diehl

1. Introdução

2. Visão de Habermas a respeito de Hobbes

2.1 O plano de Habermas

2.2 O Hobbes de Habermas

2.3 O direito moderno

2.4 O direito proposto por Hobbes

3. Críticas de Habermas a Hobbes

4. Análise das críticas de Habermas

5. Conclusão

6. Síntese da estrutura argumentativa

Introdução

1) Visão de Habermas sobre Hobbes

2) Críticas de Habermas a Hobbes

3) Análise das críticas de Habermas

Referências

Discurso e racionalização de processos em organizações 

Clóvis Ricardo Montenegro de Lima

Fernanda Kempner Moreira

José Rodolfo Tenório Lima

Lidiane dos Santos Carvalho

1. Introdução

2. A dinâmica organizacional complexa dos processos produtivos

3. Racionalidade burocrática e racionalidade comunicativa em organizações

4. A racionalização discursiva dos processos organizacionais

5. Considerações finais

Referências

Nietzsche perdeu por completo sua capacidade de contágio: sobre a crítica de Habermas a Nietzsche 

José Fernandes Weber

1. Posicionamento da crítica de Habermas

2. Conhecimento, ilusão e arte no jovem Nietzsche

3. Dionisismo e perspectivismo: a crítica de Habermas a Nietzsche

Referências

Prefácio

Habermas: uma trajetória repleta de interlocuções

¹

Charles Feldhaus

Jürgen Habermas (1929- ), nascido em 18 de junho de 1929 na cidade de Gummersbach, nas proximidades de Düsseldorf, no decorrer de sua trajetória intelectual travou e ainda trava discussões, muitas vezes acirradas e duradouras, com outros pensadores do passado ou do presente. No início de sua carreira intelectual, Habermas (Baxter, 2011, p. 2) retomou o debate travado entre Theodor Adorno e Karl Popper a respeito do estatuto da sociologia alemã, o que resultou na sua primeira grande obra Erkenntnis und Interesse (1968), em que ele sustenta que as ciências humanas e naturais estão relacionadas com interesses cognitivos fundamentais ou constitutivos de conhecimento (erkenntnisleitende), os quais estão enraizados na vida da espécie humana, a saber: interesse técnico de controle da natureza, interesse prático de estabelecimento de relações sociais mútuas e interesses emancipatórios na eliminação da repressão. Desse debate durante a década de 1960, em que Habermas (Pinzani, 2007, p. 53) atacava a visão de que a ciência (tanto as ciências naturais quanto as ciências humanas) fosse axiologicamente neutra, o teria levado a realizar uma revisão em seu pensamento sociológico, que resultou na publicação da obra Zur Logik der Sozialwissenschaften (1967).

Alguns anos depois da publicação de sua primeira grande obra, Habermas inicia um debate com o sociólogo alemão Niklas Luhmann que dura até a morte de seu opositor (em 1998). Desse embate resultará, entre outros escritos, sua obra Legitimationsprobleme im spätkapitalismus (1973). Com isso, Habermas inicia sua interlocução com a teoria dos sistemas, o que resultará no desenvolvimento de uma concepção de sociedade de duplo nível (sistema e mundo vivido). Além disso, essa obra marca a tentativa de Habermas atualizar a teoria das tendências de crise de Karl Marx (Baxter, 2011, pp. 2-3). Em sua obra Technik und Wissenschaft als Ideologie (1970), contra Marx, Habermas defende que o trabalho não é a única dimensão da interação social, mas há também a dimensão da reprodução simbólica, mediada pela comunicação linguística (Pinzani, 2007, p. 63). Com isso, ele antecipa a tipologia de ações que desenvolverá posteriormente de maneira mais precisa e detalhada, em sua obra magna Theorie des kommunikativen Handelns (1981), em que trava um debate com Max Weber, Karl Marx, Theodor Adorno entre outros.

Durante algum tempo, Habermas trava um debate com Hans Georg Gadamer, autor de Wahrheit und Methode (1960), a respeito da universalidade hermenêutica. Para Habermas, a perspectiva hermenêutica gadameriana estaria deixando de levar em consideração que a linguagem também é um meio de dominação e que pode sofrer distorção sistemática. Habermas parece criticar Gadamer pelo mesmo motivo, o qual mais tarde, em Erläuterungen zur Diskursethik (1991), irá criticar as éticas neoaristotélicas, como a de Alasdair MacIntyre, que defende em sua obra After Virtue o retorno de uma concepção ética inspirada na ética aristotélica. A hermenêutica gadameriana, assim como uma ética baseada na tradição, carece de um poder de reflexão que seja capaz de transcender as tradições. Ou seja, uma concepção de ética normativa baseada na tradição de pesquisa racional parece incapaz de transcender o contexto histórico e social e corre o risco de manter o status quo, de ser conservadora. Segundo Edgar (2006),

A noção de comunicação sistematicamente distorcida tem implicações importantes para a teoria política. Com efeito, ela oferece a Habermas um modo de desenvolver uma teoria da crítica da ideologia, a saber, um método para explorar e expor os modos como as desigualdades políticas são mantidas em uma sociedade através da manipulação das ideias disponíveis na cultura dominante. A comunicação sistematicamente distorcida sugere que a ideologia trabalha, não simplesmente oferecendo uma legitimação da estrutura política existente, mas antes impedindo de perceber, falar sobre, e criticar essa desigualdade. A comunicação sistematicamente distorcida cega as pessoas às desigualdades e aos processos de repressão dentro do qual estão entrelaçados. A tarefa do teórico crítico é, portanto, parecida com a do psicanalista, ajudando a sociedade a tornar-se consciente dos pontos cegos, dos gestos realmente sem sentido que abarrotam a comunicação quotidiana. (p. 148)

Nesse debate ocupa papel central o conceito de ideologia. Além disso, uma abordagem centrada apenas na tradição parece incapaz de realizar um processo de reflexão e superar os preconceitos.

Depois disso, em sua obra magna Theorie des kommunikativen Handelns (1981), Habermas realiza um exame criterioso do processo de racionalização no ocidente baseando-se fortemente nos estudos de Max Weber, embora critique esse sociólogo alemão por ignorar uma dimensão importante da racionalidade, a saber, a concepção de racionalidade comunicativa. Nessa obra, ele também sustenta a continuidade do projeto Iluminista de emancipação contrapondo-se ao que denominou de aporias do pensamento de Adorno e Horkheimer. Ele faz isso mostrando que os pais fundadores da Escola estavam presos a um conceito de razão, a saber, ao de razão instrumental e ignoraram a racionalidade comunicativa. Nos anos seguintes, Habermas desenvolve uma concepção de ética normativa reformulando o conceito kantiano de razão (Vernunft). Para o filósofo alemão contemporâneo, a ética baseada no imperativo categórico do filósofo de Königsberg consiste em uma concepção monológica, ou seja, vinculada à filosofia da consciência ou do sujeito. A ética do discurso é desenvolvida principalmente, embora não apenas, na obra Moralbewusstsein und kommunikatives Handeln (1983), e substitui o imperativo categórico kantiano pelo princípio do discurso, em que as decisões morais deixam de ser tomadas por um único sujeito particular e passam a ser o foco de um esforço cooperativo de busca da regra moralmente correta, desenvolvido intersubjetivamente, em que deve valer apenas a força do melhor argumento. O enunciado do princípio do discurso é o seguinte: somente podem pretender ser válidas aquelas normas que encontrem o assentimento (ou é possível que encontre) de todos os afetados na condição de participantes de um discurso prático (Habermas, 1983, p. 103).

Em Der philosophische Diskurs der Moderne (1985), ele trava um debate com pensadores que considera pós-modernos, como Foucault, Derrida, Nietzsche, sustentando que a modernidade, ao contrário do que os pós-modernos costumam defender, não é um projeto inacabado e por isso é preciso continuar o processo de emancipação do ser humano. Na década de 1990, Habermas se confronta com o tema do direito e tal enfrentamento dará origem a outra de suas obras magistrais, qual seja, Faktizität und Geltung: Beiträge zur Diskurstheorie des Rechts und des demokratischen Rechtsstaats (1992) em que o mesmo discute com grandes pensadores como Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, Immanuel Kant, Hannah Arendt, Ronald Dworkin, Richard Hart, entre outros. Nessa obra, Habermas reconstrói o sistema de direitos fundamentais travando um debate com o contratualismo clássico de Thomas Hobbes, Immanuel Kant e Jean-Jacques Rousseau. Acusa o primeiro de inconsistência, uma vez que busca fundamentar o Estado absoluto apenas com base no interesse esclarecido das partes contratantes, porém teria introduzido sorrateiramente uma regra moral, a regra de ouro, entre as leis naturais. Acusa Kant de fundamentar moralmente o estado de direito liberal e Rousseau de fundamentar a legitimidade das normas jurídicas em uma autocompreensão ética, o que seria inaceitável em sociedades democráticas e pluralistas, das quais a obra de Habermas pretende reconstruir a autocompreensão. Com isso, Kant e Rousseau, a despeito de pretenderem conciliar a liberdade dos antigos (autonomia política) com a dos modernos (autonomia privada), teriam dado precedência a uma das duas. Além disso, nessa obra, o pensador trava um importante debate quanto à aplicação de sua teoria discursiva do direito, com as principais posições acerca da temática, a saber: positivismo jurídico, hermenêutica jurídica e realismo jurídico. Habermas aqui sustenta que as três correntes supracitadas teriam sido incapazes de conciliar a tensão existente na aplicação do direito entre segurança jurídica e legitimidade. Habermas trata especificamente dessa tensão no contexto da jurisdição constitucional. Ele oferece uma solução discursiva a esse problema transportando as idealizações do juiz Hércules da interpretação construtiva de Ronald Dworkin à prática comunicativa de interpretação da constituição e do direito que dá lugar de destaque ao procedimento (Baxter, 2011, pp. 106-147).

Após a publicação de Faktizität und Geltung, obra em que tenta reconstruir a autocompreensão normativa das sociedades democráticas contemporâneas, Habermas envolve-se num amplamente conhecido debate com outro gigante da filosofia política contemporânea, autor das obras A Theory of Justice (1971) e Political Liberalism (1993) nas páginas do periódico The Journal of Philosophy (em 1995). Apesar de consistir em um debate familiar, nas palavras de Habermas, esse embate evidencia diferenças significativas entre o defensor da justiça como equidade e da teoria discursiva do direito e da moral. Esse debate, além do mais, em parte definirá a agenda das questões abordadas pelo pensador alemão desse momento em diante. A concepção política de justiça desenvolvida por Rawls em Political Liberalism, parte do fato do pluralismo razoável de concepções abrangentes de bem, uma vez que sociedades livres são necessariamente divididas por doutrinas abrangentes razoáveis, porém incompatíveis (Baxter, 2011, p. 193). Para enfrentar esse fato, Rawls recorre à estratégia de desenvolver uma concepção política de justiça que seja independente (freestanding) de quaisquer concepções abrangentes de bem. Desse modo, a concepção política de justiça serve como um módulo que se ajusta ou pode obter o apoio de diversas concepções abrangentes de bens razoáveis. E, se isso for possível, então seria alcançado o que ele denomina de overlapping consensus baseado apenas em razões públicas em torno dos princípios de justiça acordados na posição original (esse é o nome que Rawls dá à situação hipotética de seu contratualismo político). A noção de razão pública aqui é compreendida por Rawls de modo similar ao que Kant (1995, pp. 15-16) denomina de uso público da razão em Was ist Aufklärung? A saber, como contraposto ao uso privado da razão que somente é permitido em associações privadas ou assembleias domésticas. Ou seja, ao tratar de temas de relevância pública, como os elementos essenciais da constituição política do estado ou questões de justiça básica, os cidadãos não podem recorrer ao uso privado da razão, mas apenas ao uso público, o que significa dizer que não podem, ao tratar de temas de relevância política recorrer a argumentos que dependam da aceitação prévia da concepção abrangente de bem que possuem, uma vez que a sociedade é marcada pelo pluralismo razoável. Isso constitui o que Rawls chama de ideal de cidadania democrática, que exigiria dos cidadãos a disposição de explicar a base de suas ações mutuamente em termos em que cada um poderia esperar que os outros endossassem de maneira consistente com a igualdade e a liberdade. Essa exigência é interpretada como implicando que os cidadãos religiosos não poderiam recorrer a razões oriundas de sua religião ou concepção abrangente de bem quando discutidas questões de justiça básica ou os elementos essenciais da constituição (Baxter, 2011, p. 194). Rawls denomina o ponto de vista que exclui argumentos religiosos do debate político de visão exclusiva (exclusive view), embora o próprio pensador norte-americano reconheça que, sob certas circunstâncias, razões religiosas poderiam ocupar um papel importante no debate político, e essa última visão é denominada por ele de visão inclusiva (inclusive view). Essa questão suscita o tema do papel da religião na esfera pública, tema a que Habermas irá se devotar na obra Zwischen Naturalismus und Religion (2005). Habermas defende que a visão exclusiva imputa um ônus assimétrico ao cidadão religioso, razão pela qual, ele defende, não que argumentos religiosos podem necessariamente, em termos religiosos, migrar ao centro do sistema político e decidir questões de justiça básica e elementos essenciais da constituição, mas, antes, que cidadãos seculares e religiosos precisam dividir o ônus cooperativamente buscando uma tradução secular das razões religiosas na esfera pública (Baxter, 2011, p. 203).

No início do novo milênio, ele enfrenta temas controversos e adentra em campos até então inusitados em seu itinerário intelectual, como a bioética, em obras como Der Zukunft der menschlichen Natur (2001) e Die Postnational Konstellation: Politische Essays (1998), nas quais discute temas como a clonagem humana, o aperfeiçoamento genético, a pesquisa com células-tronco embrionárias, o diagnóstico genético de pré-implantação. Ao discutir esses temas, sustenta um forte antirreducionismo do normativo ao fático, defendendo que é a decisão democrática e não a biologia que deve ser responsável pela tomada das decisões a respeito de questões bioéticas. Com isso, Habermas está ressaltando o caráter eminentemente normativo da reflexão moral em relação às ciências empíricas, ou seja, as ciências empíricas podem até oferecer informações altamente relevantes às questões éticas, não obstante o critério decisivo nunca são apenas fatos, mas o próprio exercício discursivo em que deve prevalecer apenas a força do melhor argumento como critério decisivo. Além disso, Habermas desenvolve uma estratégia argumentativa baseada no que denomina de ética da espécie (Gattungsethik) com o que se convencionou chamar de eugenia liberal (o termo foi cunhado por Nicholas Agar, um professor de filosofia da Nova Zelândia) em sua obra Die Zukunft der menschlichen Natur. Habermas argumenta contra a eugenia liberal, a saber, contra o emprego da engenharia genética na medicina reprodutiva de modo não regulado pelo estado, porque considera que permitir principalmente a eugenia positiva (ou o aperfeiçoamento genético) viola a liberdade ética do futuro indivíduo que fora geneticamente manipulado. O argumento principal contra o aperfeiçoamento genético é a impossibilidade de presumir o consentimento da pessoa afetada quando a intervenção supera a lógica da cura, ou seja, quando não se trata apenas de corrigir uma falha genética, mas também de selecionar traços desejáveis escolhidos pelos progenitores orientados pelas regras do livre mercado. Com isso, Habermas defende uma proteção jurídica contra o uso da manipulação genética aperfeiçoadora que chama de direito a um patrimônio genético não manipulado. Essa posição tem levado alguns críticos sustentarem que ele se compromete com algum tipo de ontologia de valores, como Fenton, em Liberal Eugenics & Human Nature. Against Habermas. Porém, Habermas adota uma posição fortemente antirreducionista ao tratar de temas de bioética como a clonagem humana e a própria eugenia liberal. Seu argumento é eminentemente normativo, e por essa razão é errôneo também sustentar, como faz Eduardo Mendieta, ao afirmar que a posição de Habermas acerca da nova eugenia marca uma nova guinada no pensamento do mesmo em direção a uma metafísica neoaristotélica. Antes, pelo contrário, é possível visualizar uma forte continuidade com seu pensamento anterior. E isso foi o que tentei mostrar em outra oportunidade (Feldhaus, 2011, pp. 149-160). Para perceber como ele adota uma forte posição antirreducionista em relação à moral e à verdade basta considerar sua revisão de sua visão acerca da verdade em Wahrheit und Rechtvertigung (1999), obra na qual dialoga com Willard Van Orman Quine e Martin Heidegger e defende o que chama de naturalismo mitigado, diante do naturalismo forte do primeiro e o idealismo do segundo. Ao criticar o naturalismo forte e defender apenas uma versão amenizada, denominada por ele de naturalismo mitigado, Habermas está claramente se opondo a uma redução da compreensão do ser humano somente à sua descrição biológica, como os que o identificam com um defensor da ressacralização da natureza humana, como Fenton, pretendem defender. Há ainda quem defende um comprometimento de Habermas com o determinismo genético forte, o que também parece questionável (Feldhaus, 2011, pp. 45-69).

Nos últimos anos, em parte influenciado pelo processo de criação de um regime continental europeu e pelos conflitos internacionais no Oriente Médio, Habermas tem se devotado ao direito internacional e buscado expandir sua concepção de democracia para além dos estados nacionais, e, com isso, pretende retomar, embora realizando o que denomina de uma revisão conceitual cabível, a proposta de Kant de uma paz mundial (desenvolvido principalmente, embora não exclusivamente, em Zum ewigen Frieden). O filósofo e sociológo alemão defende a necessidade dessa revisão conceitual do projeto do filósofo de Königsberg, primeiramente, no capítulo sétimo de sua obra Die Enbeziehung des Anderen (1996), depois ainda na parte final de Der gespaltene Westen (2004) e no capítulo final de Zwischen Naturalismus und Religion (2005). Habermas sustenta, em Der gespaltene Westen (Habermas, 2004, pp. 154-155), que o projeto de Kant entrou na agenda internacional com a criação da Organização Nações Unidas pelo presidente norte-americano Woodrow Wilson. O modelo de Habermas de uma ordem internacional conjuga estados nacionais, regimes continentais e uma instituição mundial similar à Organização das Nações Unidas, porém essa última deve sofrer reformas significativas como a conversão da Assembleia Geral em um tipo de Parlamento Mundial com representantes dos cidadãos e dos Estados nacionais, a abolição da regra de unanimidade nas decisões do Conselho de Segurança, e também a representação dos regimes regionais ou continentais. Além disso, a ordem jurídica mundial assumiria uma forma sui generis, uma vez que não seria nem um estado mundial, nem uma federação de estados livres, mas carente de uma constituição como pensara Kant. Seria uma sociedade mundial politicamente constituída sem um governo mundial, ou seja, uma constituição mundial sem um Estado centralizado que abrangesse todo território do planeta Terra (Baxter, 2011, p. 245). Ao tratar da revisão conceitual do projeto de Kant de uma ordem mundial pacífica e de sua própria proposta, Habermas sustenta que o cenário atual, após as intervenções unilaterais dos Estados Unidos da América no Oriente Médio, a despeito das deliberações do Conselho de Segurança da ONU, leva a um dilema no direito internacional: idealismo kantiano ou realismo schmittiano? O que novamente evidencia mais algumas interlocuções na qual o pensador alemão se insere ao tratar de temas de relevância filosófica e, porque não dizer, prática.

Por fim, é importante ressaltar que Habermas também tem se devotado nos últimos anos, em parte devido às discussões acerca do papel da religião na esfera pública sob a influência do pensamento de John Rawls e pelas constantes discussões a respeito da União Europeia, com o tema do multiculturalismo e os pretensos direitos coletivos ou culturais. A respeito desse tema, o filósofo alemão se posiciona tendo como pano de fundo o debate entre dois outros pensadores: Will Kymlicka, um multiculturalista liberal, que defende a necessidade de direitos diferenciados de grupos (e não direitos coletivos propriamente ditos) (Baxter, 2011, p. 208) e Brian Barry, um liberal e forte crítico do multiculturalismo, que sustenta que a opressão e o acesso desigual a recursos materiais e não direitos culturais devem ser a preocupação principal da igualdade. Para Barry, não apenas o multiculturalismo e os direitos coletivos não fazem nada para modificar a estrutura de desigualdade em oportunidades e riqueza, mas também consolida essa estrutura na medida em que envolvem aqueles que estão nas posições mais baixas em guerras mutuamente destrutivas (Baxter, 2011, p. 215). Habermas, por sua vez, posiciona-se contra qualquer visão multiculturalista forte ou radical, entretanto, diz Baxter Habermas tem alguma simpatia com alguma posição multiculturalista. O que é difícil avaliar é a força da simpatia de Habermas (p. 220). O tema do multiculturalismo é discutido por Habermas em obras como Ach, Europa (2008), entre outras.

Esta coletânea reúne as conferências apresentadas durante o VII Colóquio Habermas: Habermas e Interlocuções que ocorreu em outubro de 2011 no campus da Universidade Estadual de Londrina. A seguir, dar-se-á de maneira breve uma ideia geral da temática de cada um dos artigos que compõem a coletânea.

O artigo de Flávio Beno Siebeneichler busca reconstruir o conceito de liberdade comunicativa habermasiano e mostrar como o mesmo consegue lidar, de modo mais satisfatório do que o conceito monológico de liberdade vinculado à filosofia da consciência, com as questões suscitadas pelas pesquisas recentes no campo da neurociência, da engenharia genética e da democracia em sociedades pluralistas contemporâneas.

O artigo de Delamar José Volpato Dutra busca reconstruir a crítica de Habermas em Faktizität und Geltung à concepção política de Jean-Jacques Rousseau em sua obra Contrato Social, a saber, a incapacidade do pensador francês de conciliar, a despeito de sua intenção de tentar fazê-lo, aquilo que Benjamin Constant chamou de liberdade dos antigos e liberdade dos modernos. Para Habermas, Rousseau subordina a liberdade dos modernos, à autonomia privada, à liberdade dos antigos, a autonomia pública na medida em que pressupõe uma autocompreensão ética como pano de fundo da legitimidade das normas.

O artigo de Franciele Bete Petry procura reconstruir as críticas de Habermas às teses de Adorno e Horkheimer em Dialética do esclarecimento e indicar a possibilidade de se encontrar nos escritos de Adorno, especialmente na obra Teoria estética uma concepção de racionalidade estética que seria capaz de romper com os limites da racionalidade instrumental e, com isso, os mestres fundadores da Escola de Frankfurt não estariam nem necessariamente presos a aporias nem restritos aos limites do irracionalismo e da contradição.

O artigo de Marcos Nalli reconstrói as críticas desfechadas por Habermas contra Michel Foucault em sua obra Der philosophische Diskurs der Moderne e busca oferecer uma resposta foucaultiana às objeções, tentando principalmente mostrar que Foucault não cometeu a contradição performativa.

O artigo de Jovino Pizzi busca mostrar como é possível desenvolver a partir de

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O que as pessoas acham de Habermas e interlocuções

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