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O que é candomblé
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E-book82 páginas1 hora

O que é candomblé

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Sobre este e-book

Xangô todo-poderoso, Exu mensageiro temido, Iansã senhora dos raios, Oxóssi bonito e sensual. Em uma sessão de candomblé qualquer um desses "santos" pode baixar. São orixás, identidades mitológicas que fazem parte do Eu profundo de todos nós.

Definem o comportamento e os desejos interiores de cada pessoa sem fazer distinção entre o bem e o mal. Afinal, em cada pessoa pode haver o lado maternal de Oxum, a implicância de Nana, a combatividade de Ogum.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento8 de set. de 2017
ISBN9788511350548
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    O que é candomblé - J. Carmo

    Avancini  

    Um incrível e valioso patrimônio cultural

    Os negros brasileiros ainda têm dificuldade em aceitar o candomblé como um valioso tesouro espiritual. Muitos relutam em frequentar um terreiro, porque acham que se forem vistos frequentando uma macumba, poderão sofrer prejuízos em sua imagem pública.

    Outros até aceitam consultar pais e mães de santo, mas apenas para se beneficiarem dos aspectos mágicos do culto, para auferir benefícios de ebós e despachos. Mas fazem isso sob o mais absoluto sigilo.

    É claro que esses negros assim envergonhados de sua ancestralidade estão sendo coerentes com o massacre cultural que sofreram durante mais de 300 anos. Os negros foram sistematicamente humilhados pela elite branca brasileira, sua cultura e seu modo de vida foram desprezados, suas divindades foram associadas a demônios, e seus guias espirituais foram estigmatizados como sem luz.

    Este livro é uma tentativa de se restabelecer um debate sobre as possibilidades do candomblé ser estudado com seriedade, como matriz de um valioso patrimônio cultural e espiritual, que não mais pertence apenas aos negros, mas a todo o povo brasileiro.

    Identidade genética e cultural

    Os brasileiros são, grosso modo, oriundos de povos nativos, autóctones; povos europeus e etnias africanas. Segundo dados do IBGE, cerca de 50% da população têm ascendência africana, em maior ou menor grau. É claro que um percentual semelhante têm ascendência europeia, e quase todos nós temos sangue indígena, somos geneticamente parentes dos povos que habitaram o país antes da chegada dos europeus e africanos.

    Então, qual é nossa real identidade genética e cultural?

    No dia 12 de setembro de 2004, um programa na TV mostrou a busca de uma família, que queria conhecer seus antepassados da etnia Guató, de Mato Grosso do Sul. Os guatós moram em uma ilha, são pouco mais de 200 indivíduos e tentam restabelecer seu idioma ancestral e sua identidade cultural. Mas os Ferreira não se intimidaram com as dificuldades.

    Somos guatós disseram emocionados diante das câmeras de TV.

    Na minha família acontece um fenômeno semelhante. Temos antepassados indígenas da etnia aimoré; temos antepassados negros e europeus (portugueses e italianos). Minhas irmãs assumiram toda a identidade italiana, sentem orgulho disso; um irmão adotou a identidade aimoré, fez pesquisas, tenta assumir aspectos do que considera identidade indígena. Eu sou negro na alma, sinto emoção pelo simples rugir dos atabaques, sinto-me feliz em pesquisar e difundir aspectos da cultura negra ancestral.

    Por que assumimos diferentes identidades culturais? Essa resposta só os cientistas e pesquisadores poderão dar. Em que medida é genético e cultural?

    Um sobrinho meu costuma zombar de mim, diz que sou negro 1/8(um oitavo), porque tenho uma bisavó negra, contra sete bisavôs de outras etnias, sendo quatro italianas, dois portugueses e um indígena. Então, geneticamente, deveria me identificar com a cultura italiana, como minhas irmãs. Mas não, eu me considero negro, e em alguns momentos me aborreço por ser 1/8, porque acho que alguns negros me olham com suspeita por isso.

    Então, tive dúvidas quando comecei a pesquisar o candomblé. Porque não queria me sentir um intrometido, um antropólogo olhando com distanciamento. Meu desejo é ser um observador participante, é contribuir para ampliar o diálogo ativo entre as lideranças negras políticas, religiosas e culturais.

    Porque considero a questão da identidade um fenômeno político de real importância no Brasil, e que passa pela grande matriz cultural negra, o candomblé.

    Por isso, especialmente para os negros de pele, e os que são negros de alma, mesmo os negros 1/8, considero importante estudar e pesquisar o candomblé.

    Formar grupos de estudo, buscar estudar novos ângulos das mesmas questões, analisar informações e opiniões — esse pode ser o passo inicial para um amplo diálogo nacional que reveja totalmente o papel aceito até agora pelos brasileiros, como importadores de culturas religiosas.

    Filosofia, ética, estética e espiritualidade inovadores

    Se você é brasileiro, provavelmente já viu o noticiário da TV mostrando multidões à beira mar na noite do Ano Novo. As pessoas se vestem de branco, e jogam flores no mar. Talvez você mesmo tenha participado dessas festas. Se isso aconteceu, saiba que você participou de um ritual do candomblé, e fez oferendas à divindade das águas, Iemanjá.

    Vestir-se de branco no Ano Novo e jogar flores ao mar é o único contato que milhões de brasileiros têm com o candomblé. No resto do ano, o assunto é esquecido.

    Mas, para outras milhões de pessoas, homenagear Iemanjá na virada do ano é um detalhe menor do culto que observam regularmente, em suas casas, em seus locais de trabalho, e nos terreiros de candomblé. Para essas pessoas, render homenagens aos orixás é uma atribuição diária. Essas pessoas cultuam as divindades africanas, com o mesmo fervor e devoção que os católicos cultuam seus santos.

    Por que essas pessoas cultuam estranhas divindades vindas da África? Por que, apesar de todo o preconceito, ataques de seitas evangélicas, os terreiros de candomblé seguem realizando regularmente seus rituais? Ou, ainda mais intrigante, por que artistas, intelectuais e escritores admitem com muita frequência que foram iniciados no candomblé?

    A reação da maioria das pessoas, quando o assunto é candomblé, é de medo. Medo não, a palavra certa é pânico. Eu mesmo senti esse pânico, quando visitei um terreiro pela primeira vez. Criado em uma família de evangélicos, tinha me tornado ateu quando cursava a

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