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O submundo do futebol: Confissões de um manipulador de resultados
Descrição
- Editora:
- Astral Cultural
- Lançado em:
- Nov 7, 2016
- ISBN:
- 9788582463734
- Formato:
- Livro
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Amostra do livro
O submundo do futebol - Wilson Raj Parumal
contato@astralcultural.com.br
OS AUTORES
Wilson Raj Perumal (31 de Julho de 1965) Cidadão singapuriano condenado por manipular partidas de futebol. Perumal foi um dos membros de uma organização mafiosa com sede em Singapura que modificou o placar de partidas de futebol no mundo todo por meio de apostas em resultados manipulados. Foi preso em Helsinque, na Finlândia, em 2011, e se tornou o primeiro manipulador de jogos asiático a colaborar com a polícia e as autoridades.
Alessandro Righi (11 de Abril de 1975) Bacharel em Jornalismo pela Universidade de Nova York, trabalhou para veículos importantes como o jornal japonês Yomiuri Shimbun, em Tókio, a Al Jazeera etc. Em 2011, junto com o coautor deste livro, Emanuele Piano, fundou a editora, produtora e portal de jornalismo investigativo Invisible Dog.
Emanuele Piano (9 de maio de 1977) Bacharel em Economia e Mestre em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Livre Internacional de Estudos Sociais (LUISS) de Roma. Cobriu, como escritor freelancer, produtor e diretor, as áreas de conflito na África e no Oriente Médio para grandes meios de comunicação italianos e internacionais. Em 2011, junto com o coautor deste livro, Alessandro Righi, fundou a editora, produtora e portal de jornalismo investigativo Invisible Dog.
SUMÁRIO
OS AUTORES
NOTA DO AUTOR
REIS DO KELONG
PREFÁCIO
PRÓLOGO
1.
O MENINO DO VILAREJO
2.
SÓ UM PEIXINHO NO MAR
3.
ATRÁS DAS GRADES
4.
DEZ ANOS DE FÉRIAS
5.
NO MEU MUNDINHO PERFEITO
6.
AH BLUR
7.
A ORGANIZAÇÃO
8.
A CASA DE APOSTAS
9.
MEU PRÓPRIO CHEFE
10.
DÍVIDAS A ACERTAR
11.
HERÓI ANÔNIMO
12.
UM A UM
13.
O REINCIDENTE
14.
ADEUS, SINGAPURA
15.
EU SOU O SALVADOR
16.
AQUELE QUE COMEU DO MEU PÃO
17.
ESTRAGARAM A SOPA
18.
O DELATOR
APÊNDICE
NOTA DO AUTOR
No verão de 2012, a Editora Invisible Dog produziu uma reportagem investigativa intitulada A manipulação
que foi veiculada nas maiores emissoras internacionais. A manipulação
foi uma investigação transnacional sobre uma organização mafiosa capaz de influenciar os resultados de partidas de futebol no mundo todo. De sua base, em Singapura, os membros da Máfia lucraram apostando grandes quantias de dinheiro em resultados que fraudaram esse esporte em todos os níveis.
Durante a produção da matéria nós viajamos a Singapura, onde entramos em contato com um comparsa de Wilson Raj Perumal – um dos associados da organização criminosa – que nos colocou em contato com o próprio Wilson. Wilson foi o primeiro membro do grupo de Singapura a ser preso e também o primeiro que decidiu colaborar com as autoridades europeias, revelando assim a verdadeira extensão do alcance global de sua organização criminosa. Como não podia nos encontrar pessoalmente, Wilson começou a se corresponder conosco via e-mail. Um ano mais tarde, nós o convencemos de que sua história valeria muito a pena ser contada.
Quando conheci Wilson pessoalmente em Budapeste, na Hungria, para onde ele tinha sido extraditado para testemunhar contra um companheiro e membro de sua organização, e ouvi a sua história, nós fomos surpreendidos inicialmente com a quantidade e variedade de resultados de partidas que Wilson afirmava ter alterado. Imediatamente, embarcamos em uma odisseia de verificação escrupulosa dos fatos em meio a um mar de partidas e campeonatos anônimos e ligas que empresas de apostas oferecem aos apostadores. Rapidamente nos convencemos: Wilson não estava apenas dizendo a verdade, ou pelo menos a sua versão dela. Ele estava abrindo a Caixa de Pandora do futebol internacional. Decidimos contratar um agente para publicar o nosso trabalho. Ficamos convencidos de que não seria difícil colocar as revelações de Wilson nas livrarias. Estávamos, no entanto, enganados; quando as opiniões de dezenas de grandes
editoras começaram a chegar, percebemos que a definição mais recorrente que recebíamos de nossos manuscritos era um pesadelo jurídico
. Por mais surpreendente que isso fosse para nós – pensamos que as grandes
editoras também tinham grandes
escritórios jurídicos –, não deixamos que suas reações covardes nos tirassem do objetivo e decidimos publicar o livro por conta própria.
Carregar todo o peso das revelações de Wilson em nossos ombros – e também nos dele – significou que tivemos de ser muito cuidadosos em relação à maneira como trataríamos essas circunstâncias envolvendo pessoas, associações, empresas etc. Em consideração a tudo isso, decidimos retirar os nomes completos ou parte deles; mudá-los, usar apelidos, evitar títulos e em alguns casos até mesmo remover totalmente as circunstâncias. Isso não significa que fomos seletivos quanto ao que Wilson disse, mas sim que alguns eventos descritos no livro, especialmente aqueles testemunhados unicamente por Wilson, não podem ser suficientemente confirmados ou descritos em um contexto que possa ser comprovável por escrito. Este livro não é uma simples coleção de fatos e números sobre a manipulação de resultados, nem uma acusação dos responsáveis pela proliferação global de fraudes no esporte. Mais importante do que tudo, este livro é a história da vida de um homem.
Alessandro Righi
Emanuele Piano
REIS DO KELONG
Na Malásia, o kelong
é uma plataforma de madeira construída sobre a água que serve para pescar. Os líderes mundiais do negócio de manipulação de resultados são chamados de Reis do kelong
, porque sua atuação também é silenciosa, ponderada, calculada e sobretudo paciente. É preciso estabelecer uma relação de confiança com os possíveis parceiros
, jogar o anzol e aguardar até que as vítimas mordam a isca. Quando a pescaria é bem-sucedida, o lucro é garantido. Se o trabalho não trouxer resultados, o pescador se limita a recolher seus instrumentos e se sentar em outro ponto, recomeçando o trabalho.
PREFÁCIO
Você nunca mais vai ser o mesmo se ler este livro até o fim. Ele vai entrar em você, envolvê-lo e levá-lo ao extraordinário labirinto pessoal de Wilson, com todas as suas voltas e reviravoltas; e ainda assim você não vai conseguir ter uma ideia clara do caminho que ele escolheu ou por quê. Mais ou menos como o próprio apostador. É ao mesmo tempo um livro desconcertante e fascinante, um campo minado de revelações pessoais, exploração e confronto com muitos fantasmas e realidades. Se você ama o futebol assim como eu, ou talvez qualquer tipo de jogo competitivo no qual as pessoas apostem, nunca mais vai conseguir assistir a uma partida sem que uma infinidade de dúvidas surja. Não tenho certeza se isso é uma vantagem, ou se de alguma forma é, mas sei que adiciona à nossa experiência algum nível de enriquecimento no quesito esperteza, o que não deve ser de todo mal. É um livro que destrói o mito da inocência, bem como o do pecado mortal, em um contexto mais amplo, e ainda assim eles não são independentes. Alternadamente, explicam um ao outro, e o que é ser um humano, afinal.
Eu cresci em uma pequena cidade no oeste da Irlanda, e quando cheguei à adolescência aquele enclave secreto, quase um conclave de agentes de apostas, suas empresas de apostas e os pubs nas proximidades, seus primeiros clubes, por assim dizer, começaram a me intrigar. Havia um toque de mistérios sussurrados e da solenidade de uma igreja escura naquela gente. Nunca entrei ali porque meu pai (por sorte!) não era um homem de apostas, exceto uma quedinha pelos cavalos, de vez em quando, no Jóquei Clube Nacional, o Derby Irlandês, Ascot, e assim por diante. Relativamente inocente. Mas eu era fascinado pelas casas de apostas por si sós, os seus segredos sedutores, sinistras até mesmo em termos de caráter, esse senso de exclusividade, de intriga masculina, de algo distante de sua própria aura de mistério, quase tangível, agarrada a seu mundo peculiar e particular. Quando comecei a visitar os pubs cúmplices adjacentes, a atmosfera era ainda mais densa. Grupos de conspiradores reunidos, conversando aos sussurros em um código próprio e apostando sem parar ao redor de aparelhos de TV onde as probabilidades das apostas piscavam. Nada mais parecia existir ou ter importância além daquilo. Era incrivelmente sério, totalmente envolvente, intrigante e absoluto. Isso também tinha uma qualidade destrutiva que arruinou a vida de alguns deles para sempre. Comecei a compreender e a ser curioso em relação a seus aspectos mortais também. De repente, deixou de ser apenas um passatempo bem-intencionado e masculino, um mundo de fantasia para uma criança curiosa, mas também cheio de perigos insidiosos e ocultos e também de armadilhas. Talvez especialmente estas.
Dois antigos alunos meus, agora adultos e amigos, me apresentaram este livro, e à pessoa e personalidade de Wilson. Sinto-me grato e enriquecido pela experiência do próprio livro em si. Poderia ter sido uma bomba e ter atingido o mundo que ele retrata e expõe. Outro risco e aposta, talvez. Neste mundo, Wilson é amoral e ainda assim tem moral suficiente para não querer prejudicar seus amigos ou sua família, nem mesmo por dinheiro. O dinheiro e a experiência são tudo, tanto no mundo dele quanto no nosso, e ainda assim não são nada: temporários e transitórios, não são gratificantes em si mesmos, apenas a roda estrutural ao redor da qual tudo gira. Riquezas e bens vêm e vão em quantidades imensas, e ainda assim não significam nada. O jogo, a conhecida mentalidade das apostas, a manipulação dos resultados, a emoção de organizar apostas, apostas imensas, a ambientação imediata em torno delas, envolver e manipular os outros de forma hábil e rentável, de usá-los sem escrúpulos como eles usariam você, de saborear a emoção e a euforia temporária desse momento evanescente que é ganhar – é aqui que estão sua aspiração e sua vida, até o fim.
Eu gosto de Wilson. Desenvolvi um gosto e um apreço cada vez mais profundos por ele ao longo do livro, uma empatia e simpatia para com o caminho que ele tomou na batalha diária pela sobrevivência, suas voltas e floreios labirínticos. Sua filosofia é, talvez, bruta, mas autêntica: somos todos animais que vão atacar uns aos outros quando e se necessário. É difícil contestar isso, mesmo com as mais nobres intenções morais e altruístas, quando as fichas realmente caem, para usar uma metáfora pertinente. Tudo o que você tem de fazer é assistir a um bom programa sobre hábitos e sobrevivência animal, ou ouvir ou ler um comentário profissional sobre o amplo e deprimente estado do mundo de hoje, as condições de vida horríveis dos muito pobres; a indiferença cínica e o nariz empinado dos muito ricos, o estado espiritualmente empobrecido da religião sob políticos corruptos e líderes religiosos insensíveis e burocráticos, quase sem exceção. As apostas que essas pessoas fazem são de um tipo diferente, o tipo mais pernicioso dos jogos de azar, com consequências muito mais graves, em que os riscos sem nome são consideravelmente mais elevados em termos humanos.
Wilson abriu meus olhos e minha mente para um mundo diferente do que eu enxergava quando era criança. Não posso condená-lo pelo que fez, pelo caminho que seguiu. Quem sou eu para julgá-lo? Ele abriu o jogo com compaixão, bondade e gentileza. E com lucidez e franqueza, um grande senso de auto-honestidade e consciência, conforme descreve os caminhos tortuosos que tomou ou que a vida o levou a tomar. Certa vez ouvi uma piada de um apostador sério: um irlandês e um inglês, amigos, em sua última noite de bebedeira em Roma, descobrem que o papa está morto quando tropeçam em seu cadáver caído pelas ruas estreitas de St Peter’s. Forçados por um cardeal a jurar segredo (de modo que a cena da morte pudesse ser adequadamente
manipulada), os dois retornam a Londres e decidem que fazer uma aposta sobre a morte do papa não significaria que estavam quebrando sua promessa. Todo mundo iria simplesmente achar que eles estavam loucos. Eles seguem caminhos separados e se reúnem novamente seis meses depois. Tommy está em uma Mercedes com motorista e vê um homem que acredita ser Paddy sentado diante das escadas de um grande hotel de luxo. De fato é Paddy, que prontamente implora por alguns trocados
para apostar em um cavalo naquela noite. Perplexo, Tommy pergunta se ele não havia apostado na morte do papa, uma vez que a ideia e a sugestão foram suas em primeiro lugar. A resposta de Paddy é clássica:
— Ah, eu apostei, mas acabei achando melhor tentar o dobro no Arcebispo de Canterbury.
Há muito de Wilson em Paddy e muito de Paddy em Wilson por todo o livro. A piada me parece ter ido sempre diretamente ao coração do apostador. Uma aposta certeira, a certeza sobre o resultado de uma aposta, nunca terá a mesma emoção do risco. Wilson é um personagem forte e está envolvido de todas as maneiras, em todos os sentidos, neste mundo bizarro que o livro retrata e expõe. Que o resto de sua estranha vida, talvez pouco invejável, embora profundamente multifacetada, lhe conceda a paz que ele parece (muito!) merecer.
Prof. Tony Brophy
La Vela
Trevignano Romano
Para minha mãE.
Wilson Raj Perumal
PRÓLOGO
Quando me prenderam na Finlândia, pensaram que seria apenas uma história sobre como Wilson Raj foi mandado de volta para Singapura, trancafiado e mantido longe dos holofotes por cinco longos anos. Nunca imaginaram que a máfia das partidas manipuladas seria delatada, nunca pensaram que a polícia poderia conferir o meu celular, o meu computador ou mesmo os meus pertences.
Eu tinha acabado de aterrissar no aeroporto de Vantaa, em Helsinque, na Finlândia, vindo da cidadezinha ártica de Rovaniemi, quando me pararam. Apenas eu. Então eu imediatamente senti que tinha algo errado. Não era uma conferência aleatória de pertences; eles já estavam atrás de mim, seguindo cada passo meu. De alguma maneira eles tinham me perdido de vista em Rovaniemi; talvez não esperassem que eu pegaria o primeiro avião do dia, às seis da manhã. Então, quando apareci no aeroporto de Vantaa, a polícia me abordou, conferiu meu passaporte e me escoltou até a área de operações do aeroporto. E um policial veio até mim.
— Você está viajando com um passaporte falsificado — disse ele
O policial estava segurando uma foto minha, bem grande. Não consegui reconhecer a camiseta que eu estava usando naquela foto.
Onde diabos eu consegui essa camiseta?
Parecia ser uma foto antiga.
O oficial examinou a foto cuidadosamente, e depois começou a me olhar com atenção.
— Não é esse.
Foto antiga.
Alguém havia guardado aquela foto antiga onde eu aparecia... mas quem?
Ele procurou um corte na minha testa; tenho uma pequena cicatriz bem no lugar onde os cabelos começam a nascer, mas o oficial não conseguiu percebê-la.
— Não, não, não — ele disse, balançando a cabeça. — Não é esse cara.
Mas a polícia de Rovaniemi insistia que não me liberassem. Assim, fiquei ali, sentado na sala de interrogatório do aeroporto de Vantaa, em Helsinque.
No dia anterior, a polícia havia capturado o indiano errado em um hotel de Rovaniemi.
— Você é Wilson Raj Perumal?
— Sou Perumal — disse o homem, erguendo as mãos acima da cabeça —, mas não sou Wilson Raj.
Alguém havia passado todos os detalhes sobre mim para as autoridades finlandesas: singapuriano de origem indiana, meu nome verdadeiro e minha foto. A polícia havia ligado para todos os hotéis da cidade.
— Quando ele fizer o check-in, entrem imediatamente em contato conosco — ordenaram eles. Alguém tinha guardado essa foto minha antiga para isso... Mas quem? Na noite anterior à minha prisão eu tive uma discussão por e-mail com um cara de Macau chamado Benny.
Talvez tenha sido o Benny
, pensei. Ele é bem influente
.
Nossa discussão foi sobre um dinheiro que eu devia para ele, um milhão e cem mil dólares singapurianos, cerca de novecentos mil dólares americanos. Eu tinha perdido essa quantia apostando nas partidas Premier League inglesa, e já havia pago cerca de oitocentos mil dólares a Benny.
— Vou lhe dar os trezentos mil que faltam. Espere só mais um pouco — escrevi para Benny. — Tenha paciência.
— Não! — ele respondeu. — Tem pessoas me pressionando por causa desse dinheiro.
— Eu já paguei oitocentos mil! — escrevi. — Você acha que eu não vou pagar os trezentos que faltam? Me dê só mais alguns meses e eu acerto tudo que devo.
— Eu sei o nome que você está usando — ele ameaçou. — E qual passaporte está usando, Raja Morgan Chelliah.
— Foda-se! — respondi. — Pode fazer o que quiser!
Agora eu penso: deve ter sido aquele desgraçado!
Mas por que ele iria querer fazer isso? Se eu for preso, ele nunca mais vai conseguir o dinheiro de volta.
1.
O MENINO DO VILAREJO
O meu nome é Wilson Raj Perumal, e eu sou um indiano tâmil nascido em Singapura.
Singapura é um país desenvolvido agora, mas não era em 1965, quando eu nasci. Naquele mesmo ano, Singapura se separou da Malásia e conseguiu sua independência. Meus pais nasceram também malasianos, mas, depois da divisão, escolheram morar em Singapura e acabaram se tornando cidadãos do novo estado. Nós, os filhos, nascemos singapurianos.
Fui o terceiro de cinco filhos: eu tinha um irmão e uma irmã mais velhos, e um irmão e uma irmã mais novos; eu estava exatamente no meio.
Quando criança, eu era um menino de vilarejo. Em malaio, o termo kampong significa vilarejo
. Minha família tinha um pedacinho de terra em Chua Chu Kang, uma área rural na parte ocidental de Singapura, com grandes fazendas de porcos e lavouras.
Não vivíamos muito da terra; morávamos na periferia, mais perto da cidade, perto do trilho de trem que vai da Malásia a Tanjong Pagar, o coração do distrito empresarial de Singapura.
Éramos uma família pobre. Durante a minha infância, o meu pai lutava muito para conseguir trabalho, e depois se tornou empreiteiro. Abriu a sua própria empresa e participava de licitações públicas para fazer pinturas, trocar a luz dos postes, colocar cabos e coisas do tipo. Ele não era de apostar, era um homem direito que fazia trabalho voluntário na polícia.
Meu pai era também faixa-preta em judô e instrutor de artes marciais.
Eu tinha muitos parentes em Johor, na Malásia, por todo o Estreito de Johor. A maioria deles era de seringueiros que tinham trabalhado para os britânicos durante o período colonial. Quando a Malásia se tornou independente, em 1957, meus parentes de Johor começaram a trabalhar para o Governo e foram morar em uma fazenda de borracha. Eles tinham seringueiras, um monte delas, e coletavam o látex que escorria pelos troncos da árvore para vender. Na época das férias escolares eu viajava para a Malásia e os ajudava. O trabalho começava às quatro da manhã e terminava à uma da tarde; depois, íamos todos para casa descansar pelo resto do dia.
Durante os anos 1970, Singapura era um país extremamente subdesenvolvido, onde as pessoas tinham que despejar os seus dejetos manualmente. Os chineses é que ficavam incumbidos dessa tarefa vil. Você estava sentado no banheiro fazendo as suas necessidades quando de repente a bandeja utilizada para recolher os excrementos desaparecia debaixo do seu traseiro.
— Caramba! Cadê a bandeja?!
Em seguida, um chinês colocava uma bandeja nova e removia os dejetos manualmente.
Havia carros, mas não para nós. Tínhamos eletricidade, mas não água na torneira, até 1975. Quando eu era menino, minha mãe tinha de caminhar cinco quilômetros só para conseguir água limpa para beber.
Felizmente nós possuíamos um poço com uma roldana bem ao lado da casa, onde pegávamos água para tomar banho e todos os outros fins.
Quando menino, eu frequentava a escola primária Teck Whye, bem próximo de onde nós morávamos. Durante as férias escolares, a minha mãe às vezes me chamava para dizer:
— Wilson, por que você não vai vender uns cocos?
Nós tínhamos um pequeno jardim com árvores que davam jacas — uma fruta grande com espinhos rombudos que você pode cortar pela metade e vender —, rambotãs, durians, cocos, bananas e outras frutas. Tínhamos árvores de curry e um vegetal comprido que atende pelo nome de murungai, em tâmil. As mulheres indianas cozinham murungai porque é muito bom para ter ereções. Minha mãe contratava um cara especializado em escalar coqueiros e ele recolhia os cocos para nós. Depois, meus irmãos e eu passávamos as tardes a descascá-los e eu saía pelo bairro para vendê-los, além de outras frutas, para os amigos de minha mãe em troca de algum dinheiro. As férias escolares também eram uma oportunidade de procurar pequenos trabalhos na área industrial perto de casa. Eu usava o dinheiro extra para comprar livros escolares ou um uniforme novo.
Havia lama e água por toda Chua Chu Kang. As enchentes eram frequentes, especialmente nas estações de muita chuva. Durante as enchentes, as pessoas morriam eletrocutadas pelos cabos de energia que caíam dos postes. Quando eu tinha sete anos, houve uma enchente que cobriu o bairro todo com uma camada grossa de lama. As crianças saíram às ruas para ajudar a empurrar os carros e as pessoas nos pagavam uns trocados por isso.
Bem ao lado da minha casa havia um velho córrego que transbordava sempre que chovia forte. Em dias como esses, minha mãe não nos deixava sair, então eu me sentava na cozinha com as pernas esticadas no beiral da janela e observava os objetos flutuando no meio da enxurrada. Eu observava a superfície da enxurrada com atenção, procurando por bolas ou qualquer coisa que valesse a pena pegar. Havia uma pequena ponte de madeira que atravessava toda a propriedade e passava sobre o córrego que as pessoas usavam como atalho para chegar ao outro lado do nosso bairro. A ponte era bastante estreita e extremamente arriscada para atravessar, especialmente quando o córrego transbordava. Uma vez, com doze ou treze anos, eu vi um guarda-chuva flutuar na corrente, um guarda-chuva novo em folha. Ele estava virado de cabeça para baixo.
Merda!
, eu pensei, ali sentado. É um guarda-chuva novinho!
Então vi uma cabeça, a cabeça de uma menina, surgir e continuar descendo com a enxurrada espumosa. Chamei a minha mãe e juntos nós corremos lá fora para buscar o guarda-chuva e ver se conseguíamos ajudá-la, mas a correnteza estava muito forte. Ela deve ter escorregado e caído enquanto atravessava a ponte. No dia seguinte o seu corpo foi encontrado em Kranji Reservoir, mais ao norte.
Os trilhos ao lado da minha casa também eram um marco fatal. Quando eu era criança, uma amiga da minha mãe cometeu suicídio ali, jogando-se na frente do trem para escapar dos abusos do marido violento. Jovens casais que não tinham a aprovação dos pais para se casar também acabavam com a vida ali; e também assim foi com o nosso pastor alemão, quando eu tinha dezessete anos.
Naqueles anos nós não tínhamos televisão, então íamos à casa do vizinho para assistir a filmes em tâmil. Meu pai sempre gostou de partidas de futebol, já que muitos de seus amigos foram grandes árbitros em Singapura. Certa noite, quando eu tinha mais ou menos onze anos, ele veio até a minha cama e me acordou.
— Venha — ele disse. — Sente-se aqui perto de mim. Vamos assistir a um jogo de futebol.
Foi a primeira partida de futebol a que eu assisti na vida, uma final do campeonato inglês. Não me lembro claramente, mas acho que o Manchester United perdeu por 1 a 0. Eles atacaram sem parar por oitenta minutos, mas perderam devido a um único contra-ataque. Eu me tornei um fã do United daquele dia em diante. Toda a minha família torcia para eles. Mas o meu jogador favorito de todos os tempos era Diego Armando Maradona, que, em seguida, jogou pelo SSC Napoli. Para mim ele sempre será especial, o maior jogador de futebol ainda vivo. Eu tentava nunca perder as suas atuações. Com exceção da Copa do Mundo, não havia futebol ao vivo na TV em Singapura. Por isso eu ignorava todas as minhas outras atividades para assistir às reprises de jogos do Maradona. Ele era o meu ídolo, um verdadeiro gênio do futebol. Eu também admirava outros atletas de destaque, como Gheorghe Hagi, Johan Cruyff, Enzo Francescoli e Eder. Eu era realmente fã de esportes quando era jovem; além de jogadores de futebol, meus outros heróis eram Sebastian Coe, Muhammad Ali e John McEnroe.
O meu inglês era muito ruim naquela época. Quero dizer, embora o inglês fosse a nossa primeira língua na escola — matemática, história, ciências... todas eram ministradas em inglês —, nós não dominávamos essa língua quando éramos jovens. Nós todos falávamos um inglês medíocre, e os chineses eram ainda piores. Eles eram tão sem cultura que nós chamávamos os meninos de Ah Beng e as meninas de Ah Lian, que seriam o equivalente a patife
e biscate
no dialeto de rua chamado de hokkien. Eram geralmente jovens de etnia chinesa que moravam na Malásia, de origem pobre, e que tentavam — sem sucesso — imitar a moda dos japoneses com seus cabelos tingidos de loiro, tatuagens malfeitas e roupas esquisitas. Quando nos encontrávamos na saída da escola, deixávamos escapar um:
— E aí, Ah Beng! Tá indo pra onde?
— Ho, hey.
— Como vai, la?
Nós também misturávamos outras línguas com o inglês: tâmil, chinês, malaio, às vezes tudo numa mesma frase.
"Na bei chee-bye. Que merda esse cara tá fazendo? Vai se ferrar!"
Os palavrões eram muito comuns, especialmente entre os chineses. A primeira coisa que eles falavam pela manhã era um belo Na bei chee-bye, o que literalmente significa a boceta de sua mãe
em hokkien, uma linguagem de rua de origem chinesa. Era o modo deles de dizer bom dia
.
Na escola nós todos estudávamos nossa língua-mãe como segundo idioma. Não era obrigatório; um indiano poderia optar por estudar mandarim e um chinês podia aprender tâmil. Bem, eu realmente nunca conheci um chinês de Singapura que tenha estudado tâmil, mas muitos indianos estudavam mandarim. Estudei tâmil como segunda língua, mas também sei falar malaio, um pouco de chinês e cingalês. Nem me importei em aprender filipino ou tailandês; a maioria dos singapurianos que falam essas linguagens é de cafetões — a prostituição é legalizada em Singapura — ou pelo menos se interessa pelas mulheres desses países.
Fiz a minha primeira aposta aos treze anos. Eu disse ao meu vizinho, que era muito mais velho que eu, que o Manchester United iria vencer a final do campeonato inglês. Apostamos. Ele perdeu e se recusou a pagar, mas eu era muito jovem para brigar com ele e exigir meu dinheiro. Naquela época eu já jogava cartas com meus amigos e ocasionalmente fazia uma aposta com trocados. Nosso passatempo favorito era o si ki phuay, um jogo de cartas chinês que lembra o pôquer. Apostar era ilegal em Singapura, e nossos pais não nos deixavam jogar cartas por dinheiro, então tínhamos de fazer isso em esconderijos pela cidade. Quando eu tinha dezesseis anos, enquanto jogávamos cartas atrás da escola, os policiais fizeram uma emboscada e nos pegaram. Um amigo e eu corremos para o mesmo lado com um policial nos perseguindo. Quando estávamos em campo aberto, o oficial apontou a arma na nossa direção e gritou:
— Vocês dois: parem ou eu atiro!
Meu amigo diminuiu o passo e olhou para trás, pensando em se entregar, mas eu tinha um plano diferente.
— Seu idiota! — gritei para ele. — O guarda não vai atirar em você por estar jogando cartas. Corra!
Nós demos um jeito de sair daquela situação e chegar em casa.
Em outra ocasião, dois amigos e eu fomos presos por jogar cartas nas escadarias de um shopping center e levados para a delegacia. Como não havia policiais de origem indiana por perto, comecei a falar com os meus amigos em tâmil.
— Vejam bem — eu sugeri. — Quando forem ouvir o nosso depoimento, vamos dizer que só dois de nós estávamos apostando e o outro estava só assistindo.
— E quem a gente fala que estava assistindo? — eles perguntaram.
— Eu, claro, seus idiotas! — respondi. — Fui eu que tive a ideia.
Eu não nasci para estudar. Era um aluno mediano: nem muito inteligente nem muito burro. O único momento em que eu realmente me sentava para estudar era nas últimas três semanas antes das provas, e só. Ninguém nunca teve tempo de me explicar a importância da educação.
O meu verdadeiro talento era para os esportes. E, embora eu fosse apaixonado pelo futebol, fui convencido pelos meus professores a fazer atletismo. Eu havia chegado em segundo lugar em uma corrida transnacional para a qual eles tinham me recrutado. Minha escola tinha a reputação de haver preparado excelentes corredores nos anos 1970, então o atletismo tinha importância primordial sobre as outras disciplinas. Não nasci um atleta talentoso; tive de me esforçar muito. Acordava às quatro da manhã e corria de dez a quinze quilômetros antes de ir para a escola. Depois da escola eu descansava um pouco e, mais tarde, ia para a pista de corrida a fim de encerrar o dia com mais um treino.
Eu sonhava vencer o campeonato interescolar. Corria a meia distância, oitocentos metros, em cerca de um minuto e cinquenta e oito segundos; e os mil e quinhentos metros em quatro minutos e sete segundos. Nada mau para um menino de escola. Não tive treinamento adequado e faltou orientação na minha dieta, mas eu treinava entre os atletas profissionais que competiam em distâncias mais longas. Meu treinador na época era um homem muito bom que sacrificava boa parte do seu tempo e dinheiro com seus alunos sem receber nada em troca. Seu nome era Sr. Sivalingam, e ele me permitiu treinar com um grupo de atletas nacionais que pertenciam a um clube de elite chamado Associação dos Atletas Céleres. O treinamento era difícil e cansativo. Quando nossas sessões eram estendidas, nós todos íamos a um lugar próximo com barracas de vendedores ambulantes — uma praça de alimentação ao ar livre — para comprar comida e bebida. Minha vida de adolescente girou em torno dos esportes; ninguém se preocupou em me dizer que não havia futuro no que eu estava fazendo. Mesmo que eu tivesse quebrado um recorde mundial, não poderia esperar nenhum tratamento especial. Só muito mais tarde percebi que quase todos os amigos com quem eu treinava e competia abandonaram o atletismo quando terminaram a escola ou se tornaram professores de Educação Física.
A minha outra atividade extracurricular era o escotismo. Ainda sei recitar o nosso juramento a Deus, à República de Singapura e à Lei dos Escoteiros. Nós tínhamos acesso às chaves de certas instalações reservadas no campus da escola, incluindo a sala do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), que nós arrumávamos periodicamente para impressionar o diretor. Um dia, um amigo e companheiro de escotismo deu um jeito de fazer uma cópia da chave da sala de AVA, para que nós pudéssemos passar os fins de semana assistindo a filmes até tarde. Numa dessas noites de cinema particular, o meu amigo decidiu furtar o videocassete da sala e o vendeu no centro de Singapura por quinhentos dólares. Nós dividimos a grana igualmente. O ano era 1984, e eu já tinha dezoito anos. Naquela época, ir até o centro da cidade era uma grande aventura para nós. Com quinhentos dólares no bolso, fomos ao cinema na cidade, e não consigo lembrar qual filme vimos. Quando o furto foi descoberto, a escola fez um boletim de ocorrência mas ninguém foi preso. O diretor ficou impressionado com o fato de o videocassete ter sido levado sem que arrombassem a sala.
Depois desse incidente, alguns dos meus amigos continuaram a passar as noites dentro da escola. Começaram a trazer gente de fora e planejaram um roubo enorme. Naquele momento eu já tinha completado o ensino básico e estava começando a vida pré-universitária; estava me preparando para estudar Artes e Ciências Sociais. Se tivesse cursado uma universidade e conseguido meu diploma, hoje eu seria um professor, mas o destino tinha reservado outro caminho para mim.
Durante o fim de semana, meus ex-colegas entraram na escola e furtaram todos os aparelhos eletrônicos da sala de vídeo. Em seguida, eles atacaram a cantina e levaram toda a comida e bebida que viram pela frente. Um dos meus amigos, cujo nome era Rajah, pegou um par de chuteiras usado que estava guardado na cantina. O idiota resolveu usá-las no campeonato interclasses e, quando o verdadeiro dono viu, gritou:
— Ei! Essas chuteiras são minhas!
Nós éramos todos amigos. Se eu estivesse presente, teria apaziguado a situação, pedido desculpas e não haveria grandes consequências, mas Rajah era teimoso demais para se render e devolver aquele ganho ilícito.
— Não! — rebateu Rajah. — Elas são minhas!
Diante disso, o dono das chuteiras, sabendo que eram dele mesmo, foi reclamar para o dono da cantina, que tinha prometido guardá-las para ele.
O dono da cantina reportou o acontecido ao diretor e este ligou para a polícia. Rajah foi interrogado e afirmou que tinha comprado as chuteiras fora do campus da escola. A pessoa que, na versão de Rajah, lhe vendeu as chuteiras, outro amigo meu chamado Maniam, foi então detido e recebeu um tratamento a frio
até admitir seu envolvimento na invasão. Se você está se perguntando o que é tratamento a frio
, me permita esclarecer como a polícia de Singapura fazia as suas investigações naquele tempo. Se eles tivessem o menor indício do seu envolvimento em um crime e você negasse ou minimizasse seu papel na história, você recebia o tratamento a frio
. Isso significava que você seria forçado a tomar um banho nas primeiras horas do dia, ou seja, às quatro da manhã. Em seguida, enquanto ainda estava ensopado, você era colocado só de cueca diante de um aparelho de ar-condicionado. Se isso não fosse suficiente para convencê-lo a falar, eles passavam para a segunda etapa: a polícia lhe batia sem deixar marcas externas, algo que ela era bem treinada para fazer. Uma vez que você passasse por um exame médico antes de ser levado ao tribunal, os médicos fechavam os olhos para eventuais contusões no seu corpo. Depois de receber esse tratamento, Maniam piou feito um passarinho e o gato teve de sair da sacola: chuteiras, videocassetes e tudo o mais tiveram seus destinos revelados. Enquanto os meus ex-colegas de escola eram caçados por todo lado, eu estava na Malásia participando da Competição das Escolas de Atletismo da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).
Ao retornar a Singapura, recebi um comunicado para me apresentar na delegacia, e o meu pai me acompanhou. Meus amigos tinham entregado o ouro e me dedurado como cúmplice. Fomos todos acusados de roubo e eu fui colocado em liberdade condicional. Eu tinha dezoito anos na época, e, até aquele momento, meus pais pensavam que eu fosse um anjo de candura. Meu pai tentou ignorar o incidente, mas a minha mãe não. No momento em que eu pisei dentro de casa, ela começou a jogar tudo o que via pela frente em mim. Para piorar ainda mais a história, por ter representado as escolas de Singapura no evento de atletismo internacional, a manchete do meu caso no jornal era: Atleta de escola ASEAN condenado por invasão de propriedade e roubo
.
Porra, como você dá as caras na escola depois de o seu nome ter aparecido no jornal da cidade por roubo? Eu era um azarado de merda. Fui tão humilhado que decidi mudar de escola.
Ao completar o meu exame de nível A no final do curso pré-universitário, comecei o serviço militar nacional. Eram dois anos e meio de serviço obrigatório, ao qual todos os cidadãos de Singapura tinham de se submeter. Como eu era atleta, frequentei sessões de atividades especiais e consegui evitar os campos de treinamento na maior parte do tempo. Durante os primeiros três meses de serviço, nós fomos submetidos ao treinamento militar básico. Foi difícil, mas eu gostei da nova experiência. Aprendemos sobre combate desarmado, sobre o manejo de um fuzil M-16 e sobre o disparo em alvos em movimento. Foi durante esse tempo que eu tentei refazer o meu caminho na escola de aspirantes.
— Quero ser um oficial naval — pensei. — Quero me alistar!
Alguns dos meus amigos já estavam na Marinha. Usar aquele uniforme branco e o chapéu redondo de marinheiro era um dos meus sonhos. Eu estava entre os melhores soldados que eles tinham em termos de condicionamento físico. Também tinha ganhado todos os prêmios que um atleta de escola poderia ganhar. Mesmo entre os militares, eu era o mais rápido corredor dos 2,4 quilômetros e o segundo mais rápido quando a corrida tinha obstáculos. Quando me candidatei, a Marinha buscou o meu documento de identidade no sistema.
— Você não pode se alistar por causa da sua ficha criminal — disseram. — Desculpe, mas você não está autorizado.
Fiquei arrasado. Precisei de uns dois dias para digerir a notícia. Se pudesse me alistar, eu ganharia um salário de cerca de mil dólares singapurianos por mês, um dinheiro muito bom naquele momento. Em vez disso, fiquei me perguntando como deixaram que eu fosse um militar e manuseasse um M-16 com a mesma ficha criminal, mas não permitiram que eu me alistasse para ser um militar de carreira. A vida de repente ficou sem rumo, e todas as aspirações de servir ao meu país e me tornar um cidadão responsável simplesmente desapareceram. Foi quando eu comecei a fazer de qualquer jeito o meu serviço como recruta.
Só comecei a apostar seriamente com dezenove anos. Um dia, o meu melhor amigo e colega de atletismo do time da escola, Kanan, veio me procurar.
— Wilson. — Ele parecia empolgado. — Fui ao Estádio Jalan Besar assistir a uma partida de futebol e vi um monte de homens apostando nos joos; eram uns chineses mais velhos.
O Jalan Besar era um estádio muito famoso localizado perto do bairro de Little India, em Singapura. Foi o berço do futebol do país. Abrigou a Associação de Futebol de Singapura e era como um museu dos jogadores locais. Esse estádio tinha um enorme valor sentimental para jogadores e funcionários, e foi assim que se tornou muito frequentado por eles. A equipe nacional costumava treinar lá antes dos jogos internacionais, e o campo sempre estava em bom estado. Durante os anos 1970 e 1980, o time nacional de Singapura era o nosso orgulho e alegria; eles conseguiam vencer facilmente equipes como a dos filipinos, goleando de 5 a 0. Fandi Ahmad era o nosso melhor atacante, provavelmente o melhor de todos os tempos. Ahmad era muito simpático e tinha os pés no chão. Até cheguei a pensar que ele teria uma carreira e sucesso no futebol internacional. Ele havia jogado no time holandês Groningen e tinha até mesmo marcado um gol na Copa de campeões da taça UEFA contra a Inter de Milão.
V. Sundramoorthy foi outro atleta singapuriano muito famoso que atuou no time suíço Basel. Eu nunca tinha visto um meia jogar como Sundramoorthy. Tanto Fandi quanto Sundram começaram a carreira internacional no time de Singapura com dezesseis anos. Essas e outras lendas do futebol nacional aperfeiçoaram suas habilidades no campo do Jalan Besar, o que o fazia parecer o Maracanã, no Rio de Janeiro, para qualquer singapuriano que pisasse naquele gramado.
— Uns chineses mais velhos apostando nos jogos de futebol no Jalan Besar — disse Kanan.
Kanan e eu estávamos convencidos de que tínhamos muito mais conhecimento sobre futebol do que aqueles velhos; os chineses velhos. O que eles sabiam? Eu tinha certeza de que poderíamos superá-los facilmente.
— Caramba! — respondi para Kanan. — Vamos dar uma olhada nisso!
Os velhos chineses ficavam sentados no canto dos apostadores do Estádio Jalan Besar. Embora as apostas fossem ilegais em Singapura, todos sabiam que havia apostadores por lá, até mesmo a polícia e os funcionários da federação de futebol. Era assim desde os anos 1960, antes mesmo de eu nascer. Nenhum fã comum ocuparia os cinquenta e poucos assentos onde os velhos chineses ficavam, e nenhum oficial de polícia tentava lhes causar qualquer tipo de problema. Era um passatempo para aqueles homens; eles saíam do trabalho e passavam a noite ali sentados, tomando chá e apostando em qualquer time que jogasse. Os madrugadores geralmente começavam o dia conversando sobre a próxima aposta. Na maioria das vezes ninguém tinha a menor ideia de quem eram os jogadores em campo, por isso os agentes de apostas tinham de esperar vários minutos de partida para descobrir o padrão das equipes e oferecer os prognósticos adequados, apontando quais times eram melhores e quantos gols seriam marcados.
O time vermelho começava o jogo contra o time branco, e com cerca de cinco minutos os agentes de apostas gritavam:
— Eu aposto no time vermelho! — E assim as apostas estariam oficialmente abertas.
Naquele tempo havia a Liga Singapuriana de Negócios, a Liga Nacional e o Circuito Intereleitoral, todas elas competições amadoras. Os jogos internacionais que aconteciam em Singapura eram os do Sudeste Asiático, os Asiáticos, e assim por diante. Havia um cara chamado Tai Sun, a quem chamávamos de AQ, de alta qualidade
. Agentes e apostadores ligavam para a casa de AQ para descobrir onde seria o jogo; havia vários estádios em Singapura, e AQ era a nossa torre de controle. Uma vez que Tai Sun havia se tornado especialista nisso — como dizia o seu apelido —, era algo que nunca me preocupei em perguntar, mas ele sempre parecia bastante entusiasmado quando atendia o telefone para despachar os agentes e os apostadores aos respectivos locais.
— Hoje vai ser no Estádio Toa Payoh — ele anunciava
— O.k.
— Sete e meia.
— Vou estar lá!
Meus amigos e eu fazíamos todo tipo de aposta, mas apenas no futebol. Eu não apostaria em qualquer outra coisa. Não sei exatamente por que, mas o futebol sempre foi o esporte número 1 em Singapura entre os indianos e os malaios. Os singapurianos eram vistos jogando futebol em parques, nas quadras de basquete ou nas ruas, a qualquer momento do dia. Os indianos de Singapura não cediam ao críquete; eles vão dar um tapa em você se esse esporte for mencionado. Ainda não consigo entender esse jogo, um marmanjo tocando a bola e correndo para a frente e para trás atrás dela? O mais estranho é que uma partida pode durar até o dia seguinte. Que tipo de esporte é esse? Por sorte eu sou de Singapura; se tivesse nascido na Índia, provavelmente estaria fraudando os resultados de partidas de críquete também.
Poucos chineses de Singapura jogam futebol; eles preferem basquete. Quando você passa de carro pelos bairros deles, vê quadras de basquete em todos os lugares, mas até hoje eu nunca vi um jogador chinês enterrando uma bola ou sequer tocando no aro. Geralmente, depois que os chineses terminavam uma partida, as tabelas se tornavam os nossos gols e a quadra o nosso campo, e eram cinco contra cinco ou quatro contra quatro.
Nós também jogávamos muito em sete contra sete naquele tempo, especialmente nos fins de semana. Sete contra sete, dois reservas, um campo regular e um jogo de meia hora com cinco minutos de pausa. Não se joga esse tipo de futebol na Europa, e, acredite em mim, é bem cansativo: em cinco minutos você está morrendo. Podia haver qualquer quantidade entre cinquenta e cem times na mesma competição: três campos, cinco minutos de descanso, times de quatro pessoas. Nós sentávamos e esperávamos uma hora, às vezes uma hora e meia entre as partidas, e passávamos o tempo jogando 21. Eu tinha um time chamado de Os meninos brasileiros
, que existe até os dias de hoje, que organizava torneios de sete contra sete e onze contra onze. Fiz muitos amigos ali e até mesmo alguns que seriam meus sócios mais tarde, mas nunca manipulei nenhum daqueles jogos.
Durante os fins de semana, o serviço militar me mantinha muito ocupado. Houve um momento em que eu até fui transferido para servir na Escola de Socorristas.
— Mas que merda eu vou fazer com um diploma de socorrista? — eu me perguntava. — Não tenho nenhum interesse na área médica.
Singapura tem uma força de defesa que tem só o nome: Contra quem nós vamos lutar? Uma ilhota de nada como essa. Mas o curso de socorrista era bem puxado, porque você precisava carregar uma bolsa pesada e aprender a fazer ressuscitação cardiopulmonar e todos os outros tipos de procedimentos médicos