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Programa de Seguros de Riscos Ambientais no Brasil: Estágio de Desenvolvimento Atual
Programa de Seguros de Riscos Ambientais no Brasil: Estágio de Desenvolvimento Atual
Programa de Seguros de Riscos Ambientais no Brasil: Estágio de Desenvolvimento Atual
E-book520 páginas6 horas

Programa de Seguros de Riscos Ambientais no Brasil: Estágio de Desenvolvimento Atual

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Sobre este e-book

Nesta terceira edição, Walter Polido introduz novas questões ligadas ao tema seguros ambientais. Outras questões, não novas, foram atualizadas e revisitadas. De forma ampliada, o livro resgata, na linha do tempo, os objetivos que realmente precisam ser alcançados pelo mercado segurador brasileiro nesse segmento: a discussão da obrigatoriedade do seguro; os riscos portuários e o atendimento que as seguradoras oferecem na atualidade; a quase inócua cobertura parcial para o risco de poluição acidental e súbita no âmbito da apólice do ramo Responsabilidade Civil Geral; a "confusão" acerca da cobertura para os riscos ambientais em apólices D e o tratamento atual para os riscos do petróleo. Nos mais diversos países, o seguro ambiental constitui a principal ferramenta financeira existente para gerenciar os diversos riscos ligados ao meio ambiente, tema crucial para a sociedade nos dias que correm. O Brasil não pode nem deve ficar atrás.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento26 de fev. de 2018
ISBN9788570525802
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    Programa de Seguros de Riscos Ambientais no Brasil - Walter Polido

    Abreviaturas

    Sumário

    APRESENTAÇÃO DAS EDIÇÕES – TERCEIRA E SEGUNDA

    INTRODUÇÃO DO TEMA

    1EVOLUÇÃO DA COBERTURA PARA RISCOS AMBIENTAIS NO BRASIL

    2PROGRAMA ESPECÍFICO DE SEGURO AMBIENTAL – CONCEITO E FUNDAMENTOS JURÍDICOS

    2.1 Coberturas Básicas

    2.1.1 Danos e Perdas Cobertas – Custos e Despesas de Limpeza ( clean up costs )

    2.1.2 Custos com a Defesa do Segurado

    2.1.3 Responsabilidade civil do Segurado perante Terceiros

    2.1.4 Despesas com a Contenção de Sinistros

    2.1.5 Perda de uso e perdas financeiras

    2.2 Coberturas Especiais

    2.2.1 Depósitos de resíduos – Tanques Subterrâneos – Responsabilidade Subsidiária do Segurado pelo Transporte de Mercadorias

    3ESPECIFICIDADES DO PROGRAMA SEGURO AMBIENTAL

    3.1 Condição de Poluição Ambiental

    3.2 Segurado

    3.2.1 Quem deve contratar o seguro ambiental e a efetividade do contrato como garantia de proteção ambiental

    3.2.1.1 Base legal da responsabilização das pessoas naturais e jurídicas

    3.2.1.1.1 Quadro resumo: categorias expostas ao risco ambiental e o seguro correspondente

    3.2.1.2 Os agentes promotores da justiça ambiental

    3.2.1.3 Seguro Ambiental – garantia efetiva de proteção ambiental

    3.3 Coberturas para os próprios locais segurados: danos materiais e lucros cessantes

    3.4 Danos a recursos naturais

    3.5 Danos morais ambientais

    3.6 Despesas de Contenção e de Salvamento de Sinistros

    3.7 Custos com a defesa do segurado

    3.8 Situações Especiais de Riscos e Coberturas

    3.8.1 Transportes de Bens ou de Mercadorias em geral

    3.8.2 Distribuição ou Circulação de Produtos

    3.8.2.1 Logística Reversa e Responsabilidade Compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos – Resíduos Sólidos

    3.8.3 Riscos Profissionais Ambientais – E&O

    3.8.4 Empreiteiros – Contractors Pollution Liability

    3.8.5 Tanques Armazenadores

    3.8.6 Instituições Financeiras

    3.8.7 Seguro Garantia para o TAC e Seguro Garantia para Dano Ambiental

    3.9 Aterros sanitários (depósitos de resíduos)

    3.10 Limites de coberturas da Apólice

    3.11 Poluições históricas ou passivos ambientais

    3.11.1 Obrigação propter rem : reflexos no seguro ambiental

    3.11.2 Cost Cap Insurance Policy – Seguro para a cobertura de Custos de Remediação Suplementar

    3.11.2.1 Particularidades acerca do Clean-Up Cost Cap Program

    3.11.2.2 Pollution Legal Liability Insurance – PLL – Seguro de Responsabilidade Legal pela Poluição

    3.11.2.3 Procedimentos encontrados no Mercado Segurador Brasileiro

    3.12 Subscrição de Riscos Ambientais ( underwriting ) – especialização requerida

    3.13 Trigger – o gatilho que dispara o mecanismo indenizatório da apólice

    3.14 Riscos Excluídos

    3.14.1 Prestação de serviços fora dos locais ocupados pelo segurado

    3.14.2 Amianto

    3.14.3 Ação ou omissão deliberada do Segurado

    3.14.4 Responsabilidade do Empregador – Danos a empregados

    3.14.5 Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) e nanotecnologia

    3.14.6 Manutenção dos imóveis e instalações seguradas

    3.14.7 Uso de veículos rodoviários, embarcações e aeronaves

    3.14.8 Operações offshore – petróleo e gás

    3.14.8.1 Comentários acerca da cobertura dos riscos de RC e Poluição Ambiental no ramo específico Riscos do Petróleo

    3.14.9 Multas

    3.14.10 Dano ambiental preexistente (passivos ambientais)

    3.14.11 Riscos nucleares

    3.14.12 Guerra e terrorismo

    3.14.13 Alteração do uso no local segurado

    3.14.14 Despesas com a substituição e a rechamada ( recall ) de produtos

    3.14.15 Rede subterrânea de esgoto

    3.14.16 Riscos de desenvolvimento

    3.14.17 Alteração da legislação ambiental durante a vigência da apólice

    3.14.18 Eventos da natureza

    3.14.19 Sabotagem

    3.14.20 Campos magnéticos ou eletromagnéticos

    3.14.21 Bens de terceiros sob a guarda ou custódia do segurado

    3.15 Outras situações particularizadas que envolvem o Programa de Seguro Ambiental

    3.15.1 Poluição transfronteiriça

    3.15.2 Prazo de Extensão para Reclamações de Sinistros

    3.15.3 Inspeções técnicas dos locais de riscos

    3.15.4 Causalidade – Concausalidade e imputação da responsabilidade civil ambiental

    4DA DISCUSSÃO ACERCA DA OBRIGATORIEDADE DO SEGURO AMBIENTAL

    5DOS OPERADORES PORTUÁRIOS

    5.1 A introdução deste tipo de seguro no Brasil

    5.2 Comentários sobre o novo clausulado de Operadores Portuários utilizado pelo Mercado Brasileiro

    5.3 Conclusões sobre a cobertura de Poluição Ambiental concedida no ramo Operadores Portuários no Brasil

    6SALVADOS – DESMANCHES DE VEÍCULOS – LEI DA POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS

    6.1 Introdução do tema

    6.2 Salvados – conceito

    6.3 Lei de Desmanche de Veículos

    6.4 Lei da Política Nacional dos Resíduos Sólidos

    6.5 Análise dos temas sob o viés do contrato de seguro

    6.6 Possíveis soluções em face dos novos riscos

    6.6.1 Nos Seguros de Propriedades ( property )

    6.6.2 Nas apólices específicas de Seguros Ambientais

    6.6.3 Nos Seguros de Responsabilidade Civil Geral

    6.6.4 Cláusulas encontradas em programas mundiais do ramo property

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    ÍNDICE REMISSIVO

    Apresentação das edições – terceira e segunda

    Apresentação do autor à 3ª edição

    Deixar de escrever sobre os Seguros Ambientais por tempo prolongado, a partir de um texto já existente, corre-se o risco dele se tornar completamente obsoleto. Os conceitos não resistem e sofrem alterações de maneira célere. Os campos se alargam, a ciência se multiplica em descobertas, a nomenclatura adiciona novos termos, surgem novas perspectivas de riscos e o Direito, de forma voraz, regulamenta a cada dia o comportamento dos homens e as suas atividades, mas sempre fica aquém do processo evolutivo da sociedade. Segundo o célebre Hans Jonas, questões que nunca foram antes objeto de legislação ingressam no circuito das leis que a cidade global tem de formular, para que possa existir um mundo para as próximas gerações de homens¹. As obrigações e as consequentes responsabilidades, portanto, se expandem.

    Nesta terceira edição do livro despontam várias novas questões ligadas ao tema Seguros Ambientais e outras tantas, não novas, foram revisitadas, de modo a não se perderem na linha do tempo os objetivos que realmente precisam ser alcançados pelo Mercado Segurador Brasileiro neste segmento. Velhas questões: a discussão da obrigatoriedade do seguro; os riscos portuários e o atendimento que as Seguradoras oferecem na atualidade; a quase inócua cobertura parcial para o risco de poluição acidental e súbita no âmbito da apólice RC; a confusão acerca da cobertura para os riscos ambientais em apólices D&O; o tratamento atual para os Riscos do Petróleo.

    As novas questões, por sua vez, são muitas. A responsabilidade ambiental das Seguradoras em face dos salvados e cuja discussão, anterior à LPNRS, sequer fora cogitada um dia. Não somente no ramo Automóvel através do qual o volume de salvados se agiganta, mas atualmente qualquer outra carteira está igualmente sujeita a considerações jurídicas dessa natureza, na medida em que as Seguradoras tomarem para elas os salvados dos diversos tipos de seguros. Originalmente fornecedoras de garantias para riscos diversos, nesta vertente também as Seguradoras são transpostas para a categoria de agentes passivos e sujeitas à responsabilização pelos possíveis efeitos da posse e da guarda de bens diversos que ainda possuem algum valor econômico e provenientes das sobras dos sinistros efetivamente indenizados (salvados, na nomenclatura securitária). Alinhando salvados entulhos originários de sinistros e LPNRS – vasto campo de análise exsurge para o Mercado Segurador Nacional, necessariamente, e não só voltado para aquilo que já se convencionou chamar de práticas de sustentabilidade. Não é só esta a vertente que impacta os seguros e a atividade seguradora. As determinações legais impregnam de responsabilidade também as Seguradoras e não só quanto à oferta de coberturas para novas situações de riscos, mas também enquanto agentes sujeitos à responsabilização por danos ambientais.

    A evolução da efetiva necessidade de proteção dos bens naturais tem sido também observada no país com maior relevância, especialmente quando casos espetaculares de sinistros ambientais acontecem e passam a ocupar os noticiários em todos os tipos de mídias atualmente disponíveis. Os sinistros, na atualidade, invadem os lares e os locais de trabalho das pessoas, através da TV e da internet e mostram a evolução de cada um deles, em tempo real. A cronologia dos fatos, antes adstrita àquelas entidades encarregadas do combate e da contenção dos acidentes, hoje é retratada pela imprensa e com auxílio de drones, ficando disponível a todos. Somente o Seguro Ambiental específico pode oferecer garantia para praticamente todos os prejuízos decorrentes de grandes acidentes. Ao contrário disso, uma apólice tradicional do Seguro de Responsabilidade Civil, com cobertura adicional para o risco de Poluição Acidental e Súbita, em face das limitações técnicas e contratuais pertinentes e dos entendimentos subliminares considerados, não pode oferecer respaldo significativo, notadamente em casos de sinistros que podem se estender para além das 72 (setenta e duas) horas usualmente previstas neste tipo de cláusula e na condição dele ter iniciado e terminado dentro do mesmo período de tempo para o segurado fazer jus à garantia. Além disso, a cláusula não oferece garantia para os bens naturais, limitando-se àqueles danos materiais causados a propriedades tangíveis de terceiras pessoas com titularidade conhecida e determinada. Toda essa conceituação poderá, inclusive, ser objeto de conflitos uma vez submetida às Cortes de Justiça do país na medida em que, mesmo neste âmbito aparentemente tão restrito, não se pode olvidar que as Seguradoras pretenderam sim oferecer garantia ao risco ambiental, assim como os próprios clausulados expressaram textualmente. Aliada a esta conjectura, também o fato de que elas não desconhecem a amplitude que tem a responsabilidade civil no âmbito do Direito Ambiental. Guerra e Guerra asseveram neste sentido o seguinte: é certo que a responsabilidade civil no âmbito do direito ambiental se apresenta de maneira distinta do direito civil, posto que não visa a satisfação de um particular, mas de grupos indeterminados de pessoas que dependem das condições naturais para sobrevivência.²

    Sinistros ambientais de grande porte e extensão não podem permanecer descobertos ou com a falsa ideia de estarem garantidos através de cláusulas que oferecem coberturas parciais e minimamente efetivas nos dias atuais. Os Corretores de Seguros têm especial responsabilidade e atribuição profissional neste sentido, esclarecendo adequadamente cada um de seus clientes sobre a realidade dos riscos de cada um deles, assim como a respeito das coberturas que podem e devem ser contratadas especificamente.

    A necessidade da contratação de Seguros Ambientais é premente nos dias atuais. Antes disso, no setor industrial, as preocupações se voltaram ao gerenciamento dos riscos afetos sendo que a respectiva ciência evoluiu, assim como a normatização dos procedimentos. Agora, o seguro passa a ser requerido na condição de garantia acessória, alinhado às técnicas de gerenciamento eficaz. Nesta linha de entendimento, o gerenciamento de riscos e o seguro ambiental protegem o balanço das empresas. Além disso, eles asseguram a boa reputação delas, na medida em que a existência de uma apólice específica propicia não só maior conforto ao corpo diretivo, como também deixa transparecer para além dos muros da empresa o grau de preocupação dela para com a sociedade e com a preservação do meio ambiente. A preocupação com o meio ambiente e a imagem da empresa constituem na contemporaneidade itens de primeira importância no mundo corporativo e não há como distanciar-se desta imposição econômica-social. Cresce, inclusive, o número de empresas que divulgam os respectivos índices de emissões de GEE (gases de efeito estufa) no país, acompanhando o mesmo movimento encontrado no exterior há mais tempo. Metodologias são desenvolvidas neste sentido, assim como o Programa Brasileiro GHG Protocol³, criado em 2008 e que hoje já divulga centenas de inventários empresariais. Indústrias de transformação, atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados, eletricidade e gás, assim como atividades profissionais científicas e técnicas, transportes, armazenagem, correio e construção são os principais aderentes ao referido programa até o momento.

    Não está longe a possibilidade de também os financiadores passarem a exigir a demonstração da existência de seguros ambientais bem estruturados, sendo que esta horizontalização tende a se expandir, assim como já vem acontecendo em relação aos seguros de responsabilidade civil de forma geral. Aquele que contrata serviços de outrem exige que o contratado apresente apólice de Seguro de Responsabilidade Civil em face dos possíveis danos a terceiros que poderão ocorrer durante a execução dos trabalhos. Este movimento impulsionou o ramo RC de forma expressiva nos últimos anos e demonstra sinal de desenvolvimento da sociedade empresarial brasileira. Antes dele, a empresa conscientizada de seus riscos e obrigações, buscava se garantir através de apólice RC própria incluindo toda sorte de terceiros atuando em nome dela. Hoje, a mesma empresa exige que o terceiro contrate o respectivo seguro RC dele, apesar dela possuir a apólice concedendo amplas garantias. Os acionistas, por sua vez, também poderão observar quais empresas dispõem de seguros ambientais no respectivo portfólio delas, lastreando o patrimônio. O Índice de Sustentabilidade da BM&FBOVESPA, e administrado pela Fundação Getulio Vargas, já leva em conta para o estabelecimento do respectivo grau a empresa que possui seguro ambiental específico. Questão, portanto, de aprimoramento cultural e de tempo à atuação maximizada do respectivo seguro em várias frentes e situações econômico-financeiras do país. Os Seguros Ambientais se encontram, desta forma, no radar deste paradigma emergente.

    Embora não diretamente ligada ao seguro ambiental, uma vez que este se vincula prioritariamente aos danos ambientais a partir da atividade empresarial do homem, passa por expressiva potencialização na contemporaneidade a questão da precificação dos chamados serviços ambientais. A experiência de remuneração por serviços ambientais atualmente dão-se predominantemente em torno de um grupo de quatro serviços ambientais: conservação da biodiversidade, proteção a bacias hidrográficas, sequestro e estocagem de carbono e beleza cênica⁴. Com doutrina diversa sobre a exequibilidade e mesmo da juridicidade deste modelo, a única justificativa que se mostra plausível tem sido aquela que mantém intocáveis os recursos da natureza, diante da mais valia representada pela manutenção deles ao invés da degradação com a utilização substitutiva das áreas por outras atividades econômicas. Neste sentido, o novo Código Florestal (Lei nº 12.651/12) introduziu no ordenamento nacional o pagamento pelos serviços ambientais⁵, cujo modelo não foi aplaudido por todos os doutrinadores e tampouco pela totalidade dos ambientalistas. Para Larissa Packer, em tese contrária ao mecanismo, a autora aduz que as métricas construídas por economistas no mundo todo para se tentar imputar valor direto à água, ao ar, à polinização de abelhas e a diversas funções ecológicas, que passam a ser compartimentadas em serviços ambientais prestados, esbarram na própria revolta ontológica dos bens comuns, inapropriáveis, indisponíveis e inalienáveis⁶. No mesmo sentido e, portanto, contrária ao novo código, a mesma autora determina que ao voltar sua política de incentivos para financiar a recomposição das áreas ilicitamente desmatadas, suspendendo-se e posteriormente extinguindo-se os crimes ambientais praticados, em detrimento daqueles que cumpriram a lei, premia os comportamentos antijurídicos e viola fundamentalmente os artigos 192 e o § 3º do art. 225 da Constituição Federal⁷. Alguns dispositivos do novo Código Florestal estão sub judice no Supremo Tribunal Federal e justamente pela arguição de inconstitucionalidade deles. Portanto, constituem matérias ainda em construção no ordenamento nacional.

    Essa dialética acerca dos serviços ambientais nos faz recordar o texto da resposta do chefe Seatle no ano de 1854 ao presidente dos EUA, quando este último propôs a compra das terras daquele povo:

    Como se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa ideia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los? (…) Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue une uma família. Há uma ligação em tudo. (…) O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um dos seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo. (…)

    Igualmente a ONU, através da Carta Mundial da Natureza, de 1982, num evidente movimento ecocentrista declarou:

    Toda forma de vida é única e merece ser respeitada, qualquer que seja a sua utilidade para o homem e com a finalidade de reconhecer aos outros organismos vivos este direito, o homem deve se guiar por um código moral de ação.

    A perda de chance, antes voltada quase que exclusivamente para as questões médicas ou mesmo para outras atividades como a dos advogados e suas respectivas performances profissionais agora se alarga na doutrina atual, espraiando-se também para a seara ambiental. Em relação aos produtos que contêm elementos nanotechs, por exemplo, o dever de informação sobre o referido conteúdo se sobressai no ordenamento vigente, ainda que de maneira principiológica¹⁰ em face da lacuna da lei a respeito. Mas, apesar da incompletude do Direito, a sistematização do ordenamento determina este entendimento e o consumidor tem a prerrogativa de ser informado sobre a periculosidade dos produtos colocados em circulação. Nesta dialética, ele deve ter a chance de não utilizar os produtos elaborados a partir de elementos nanotecnológicos, se assim ele desejar. Na preleção de Sérgio Savi, aquele que perdeu uma chance séria de obter uma vantagem ou de evitar um prejuízo será considerado vítima de um dano injusto e, por este motivo, deverá ser indenizado¹¹. A doutrina se baseia no instituto da reparação integral previsto no ordenamento civil brasileiro¹², assim como no princípio constitucional da preservação da dignidade da pessoa humana¹³.

    Também o risco da exploração de petróleo se sobressai no Brasil, notadamente a partir da descoberta do pré-sal. O Mercado Segurador deverá buscar ferramentas de subscrição adequadas para ele, sendo que dificilmente as operações se efetivarão sem o respaldo de seguros bem estruturados e também no âmbito do risco ambiental. No profético livro de Al Gore, o ilustre autor identifica que a tecnologia relativamente nova, e imperfeita, utilizada para a perfuração em águas profundas envolve mais riscos do que as técnicas convencionais, pois no fundo do oceano a pressão é maior¹⁴. Embora o autor relacione a preleção dele à pretendida exploração no Ártico e o risco de provocar vazamento em ecossistema primitivo e no qual as operações de reparação e salvamento seriam impossíveis na maior parte do ano, também no Brasil em áreas bastante afastadas da costa, o risco não se apresenta de forma alguma diminuído. Qual o respaldo garantidor que o seguro oferecerá ou não para as operações do pré-sal, incluindo nelas o risco de poluição ambiental? As Seguradoras nacionais oferecem este tipo de garantia na atualidade e elas encontram capacidade de resseguro disponível no Brasil?

    A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei n° 12.305/2010), já em plena vigência, determina, também ao Mercado Segurador, postura diferenciada em relação aos salvados em sinistros, antes mesmo de eles serem dispostos em locais adequados. Os Estados da Federação promulgam suas respectivas diretrizes operacionais e relativas à responsabilidade pós-consumo, assim como a Resolução SMA nº 45, de 23.06.2015, do Estado de São Paulo. As determinações aqui expressas impactam não só os Seguros Ambientais, mas também todos os demais ramos que de alguma forma geram algum tipo de resíduo uma vez sobrevindo os sinistros. Todo o Mercado Segurador Nacional precisa oferecer respostas urgentes e eficazes aos segurados, em todos os tipos de seguros contratados.

    Com o advento da Resolução nº 4.327/2014 do Banco Central do Brasil, a qual dispôs sobre as diretrizes que devem ser observadas no estabelecimento e na implementação da Política de Responsabilidade Socioambiental (PRSA) pelas instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Bacen, não há dúvida de que foi dado no país novo impulso à responsabilização dos agentes financeiros em questões ambientais. O posterior Normativo SARB nº 14, de 28.08.2014, do Sistema de Autorregulação Bancária da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), com mais detalhamento, especificou os critérios e os mecanismos a serem observados para a avaliação e a gestão dos riscos socioambientais dos projetos a serem financiados. Há, inclusive, menção expressa no sentido de serem averiguadas as licenças ambientais, assim como os Certificados de Qualidade em Biossegurança emitidos pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Há, neste campo autorregulatório, impulso na adoção de procedimentos de compliance ambiental, de forma ampla. O que antes era defendido muito mais pela doutrina especializada e atenta, agora o próprio Agente Regulador do sistema estabeleceu diretrizes a serem observadas pelas entidades a ele subordinadas, ressaltando a responsabilidade de todas elas, ainda que de forma bastante comedida e implícita, em face dos usuários dos serviços financeiros. Ainda que a norma administrativa buscasse de alguma maneira reduzir ou neutralizar a exposição dos referidos agentes, a LPNMA (Lei n° 6.938/1981), em patamar hierarquicamente superior à mencionada Resolução, já determinava a responsabilidade indireta dos bancos, por conta do disposto no art. 3º, IV. Com esta nova regulamentação, ressurge de forma ainda mais acentuada a necessidade de as instituições financeiras buscarem a concretização de seguros ambientais específicos, garantindo-se dos riscos determinados, assim como já se procede em outros países, notadamente nos EUA. Paulo Affonso Machado faz perfeita colocação desta questão, ao afirmar que o conteúdo da Resolução nº 4.327/2014 espelha o que já se entendia como uma norma costumeira – quem financia a poluição ou a destruição da natureza passa a ter por ela uma responsabilidade compartilhada com o empreendedor que cause poluição ou degradação¹⁵. No seguimento desta obra, em tópico específico, o tema seguro ambiental para as instituições financeiras se renova e alcança especial destaque diante da novel regulamentação do Bacen.

    Há a tendência e, cada vez mais intensamente, de se buscar a responsabilização de diretores e administradores de empresas em face dos acidentes ambientais, inclusive pela via da desconsideração da personalidade jurídica da empresa. Os administradores, de certa forma, sempre estão envolvidos nas decisões e nas operações das empresas naquelas ocasiões que antecedem os desastres ou até mesmo por falta de ação que seria devida. Tem sido aceito pelas sociedades desenvolvidas este tipo de imputação, e de maneira bastante unânime, até porque esses profissionais de fato podem fazer ou representar a diferença no grau efetivo da tomada de medidas de gerenciamento adequado dos riscos pertinentes. Qualquer tipo de negligência neste sentido abre o campo da responsabilização e nem sempre os Seguros D&O podem oferecer garantias adequadas e completas, como de fato não oferecem, até porque não é do escopo deles também a oferta de garantia de indenizações referentes à recuperação do meio ambiente agredido. Somente os Seguros Ambientais específicos podem oferecer garantia completa e também aos diretores e administradores de empresas, na condição de segurados da apólice. Acentua-se, inclusive, o risco da alteração ou da evolução legislativa, cuja circunstância pode determinar uma reclamação atual e para exposição de risco relativa à determinada substância ou processo industrial que anteriormente era permitido ou admitido pelas normas então vigentes. O risco da mudança de padrão legislativo deve ser garantido por apólices específicas de Seguros Ambientais, de forma automática e ampla, sendo que este tema começa a preocupar e também a despertar a atenção dos dirigentes empresariais brasileiros.

    Os temas afetos aos seguros ambientais começaram a ser discutidos no cenário internacional apenas a partir de meados dos anos 1960 e dentro das concepções estreitas das apólices dos seguros de responsabilidade civil¹⁶. Na contemporaneidade, entretanto, eles já alcançaram outro grau de importância e atenção particularizada, notadamente nas sociedades e respectivos mercados seguradores desenvolvidos. No Brasil, os estudos começam a evoluir e na direção da formulação das bases contratuais específicas, cada vez mais com destaque e de modo a estruturarem este novo segmento de seguro no mercado nacional.

    Walter Polido

    Apresentação à 2ª edição

    Otema seguro ambiental sempre me instigou a ponto de eu escrever três livros sobre ele. Este é o terceiro deles, na sua segunda edição ampliada. Já me perguntaram um sem número de vezes se eu de fato acredito na eficácia dele enquanto instrumento de gestão ambiental no país. Eu sempre respondo que sim, apesar de algumas vezes, muito intimamente, desacreditar, não na condição dele de garantia financeira de potencial eficiência, mas na sua materialização de fato no mercado segurador brasileiro. O nosso mercado é ainda reticente em relação às novas ideias e aos novos riscos que se apresentam no decorrer do tempo, frutos do desenvolvimento da sociedade pós-moderna. Impressionante o fato de ainda persistir este tipo de postura na contemporaneidade. Somos uma sociedade de risco, segundo o conceito firmado por Ulrich Beck e, atualmente, todos aceitam essa realidade, efetivamente como condição de paradigma absoluto. Até mesmo por isso os cidadãos se sentem um pouco culpados pelo fato de não abrirem mão do consumismo exacerbado e do sentimento hedonista que subjaz em todas as pessoas: as com condições intelectuais suficientes para entenderem as razões desse comportamento e também aquelas que não têm o mesmo nível, mas que desejam igualmente usufruir das benesses oferecidas pelo mundo contemporâneo e que as elas se achegam, com inegável voracidade. O meio ambiente se recente disso, não há a menor dúvida. Contudo, me parece que não há mais o que tratar desse tema que as pessoas já não saibam. Ignorar as consequências, portanto, tem se mostrado mais confortável para todos. Canotilho, com insofismável sabedoria, já retratou o Estado Ambiental na condição base de democracia plena, muito além do Estado simplesmente Social.

    Norberto Bobbio já havia igualmente retratado na obra Eras do Direito, a questão primordial da preservação ambiental e como condição de novos interesses também coletivos e muito além do individualismo reinante nas relações cotidianas. O meio ambiente é intergeracional, isto é, envolve a tutela das presentes e futuras gerações e essa determinação é constitucional e cogente no nosso país. As ciências jurídicas e alguns de seus institutos mais clássicos não conseguem mais dar respaldo ao Direito Ambiental nos dias atuais. A responsabilidade civil é exemplo recorrente dessa tentativa inglória. Não há como enquadrar a causalidade naturalística à causalidade jurídica diante da complexidade dos empreendimentos industriais modernos. Determinar a prescrição em matéria de danos ambientais, cuja iniciativa até mesmo seduz países desenvolvidos é algo inadmissível para as mentes mais deslocadas do dogmatismo e do positivismo clássico do Direito. Não há mais espaço para essas acepções em riscos ambientais. Basta a verossimilhança dos fatos para poder existir a responsabilização do poluidor. Não há como adotar a mera law in books nesses aspectos, tentando se valer de mecanismos que foram concebidos em épocas remotas, onde sequer haviam considerações precisas em relação aos danos ambientais, sobre os quais não havia preocupação alguma pelos nossos legisladores.

    O tempo é outro. A sociedade evoluiu em determinados aspectos e retrocedeu em outros tantos. Os seguros ambientais permeiam esses estratos de indefinições, as quais sequer são ainda realidades jurídicas, mas meros princípios gerais de Direito ainda em processo de concretização. Desafio e tanto, também para a atividade seguradora, muitas vezes avessa ao risco assim como já me referi retro, apesar deste elemento constituir a sua essência de existir. Sem risco não há seguro.

    Também no Brasil, em termos ambientais, existem situações várias que podem ser parametrizadas, conferidas, estratificadas e de modo a se tornarem riscos perfeitamente seguráveis. Outros mercados já fizeram isso, especialmente o norte-americano. A Conferência Rio+20 desbordou a necessidade por novos empreendimentos neste especial setor do mercado de seguros. Sustentabilidade está na ordem do dia para as grandes corporações econômicas. Para as Seguradoras essa dinâmica pode ser exercitada não só a partir de ações internas visando o carbono zero em prédios ecológicos, por exemplo. Os Seguros Ambientais despontam como fator de oportunidade para elas. Grande desafio, de verdade.

    Há amplo espectro de possibilidades neste segmento. Vários são os riscos e as garantias que podem ser oferecidas, todas elas podendo melhorar a qualidade ambiental do país. As externalidades ambientais podem ser internalizadas em parte através do mecanismo securitário. Seguros de Garantia podem validar ainda mais acordos empreendidos entre partes interessadas na solução de problemas ambientais (desativação de minas, recuperação de áreas contaminadas, p.ex.), conferindo maior credibilidade aos Termos de Ajustamento de Conduta e redobrada garantia aos entes públicos promotores desses acordos plúrimos. Programas de Seguros de Riscos Profissionais Ambientais e para Empreiteiros podem conferir ampla cobertura em face das atividades empreendidas, com variações no modo da contratação (através dos próprios empreiteiros, ou pelos contratantes dos serviços especializados ou ainda pelos projetistas). Em riscos industriais as possibilidades de coberturas podem ser amplas, garantindo não só a recuperação do meio ambiente eventualmente agredido (danos difusos ou ecológicos), assim como os danos a terceiros, mas também o próprio empreendedor que se vê obrigado a limpar a sua área que foi afetada por determinado evento, mais os lucros cessantes decorrentes da paralisação das suas atividades.

    Os agentes financeiros, na medida em que a doutrina se alarga no entendimento de que todos são solidários quando da produção de danos ambientais, também podem recorrer aos seguros ambientais, como garantia colateral em face

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