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Os sertaníadas - vol. 1 - de 1500 a 1900 - (500 anos de hipocrisia na história do brasil): A epopeia dos esquecidos nos Sertões
Os sertaníadas - vol. 1 - de 1500 a 1900 - (500 anos de hipocrisia na história do brasil): A epopeia dos esquecidos nos Sertões
Os sertaníadas - vol. 1 - de 1500 a 1900 - (500 anos de hipocrisia na história do brasil): A epopeia dos esquecidos nos Sertões
E-book1.699 páginas27 horas

Os sertaníadas - vol. 1 - de 1500 a 1900 - (500 anos de hipocrisia na história do brasil): A epopeia dos esquecidos nos Sertões

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Sobre este e-book

Este livro tenta vislumbrar a epopeia dos heróis esquecidos que ajudaram a construir a história dos Sertões. Não é um livro ufanista, bairrista, ou segregacionista. É apenas um sussurrar telúrico, bem brasileiro, da epopeia secular que já contabilizou mais de cinco milhões de mortos, dezenas de milhões de fugitivos e milhões de crianças que não completaram um ano de idade. Resultado de 40 anos de indagações e mais de 1,5 milhão de quilômetros nos Sertões. São cerca de 4.000 citações documentadas e centenas de outras consideradas como de *domínio público*. Por uma conspiração silenciosa, a História dos Sertões foi decepada em muitos momentos, entronizando pseudo-heróis e sepultando os verdadeiros, nos livros escolares. A História, manipulada depois da proclamação da República, mostra os Sertões empobrecendo cada vez mais, transformando-se em currais eleitorais.
Os Sertões nordestinos são dos mais chuvosos do planeta. Acusar os proprietários rurais é escamotear a verdade para acobertar os políticos e governantes que continuam sepultando a voz dos sertaníadas, dos que podem gerar empregos e felicidade nos Sertões.
A Bíblia mostra o caminho: Jesus nasceu numa manjedoura, na região semiárida, deitado no feno, onde havia cabras e ovelhas, leite, mel, frutas e plantas típicas. Ela humanizou mais da metade dos habitantes da Terra. Do Nordeste pode sair a voz que humanizará uma nova história para o Brasil.
Vozes: *O bode e o burro têm dado mais vida ao Sertão (…) do que todos os governos que têm abandonado aos seus próprios recursos a população sofredora das secas* (Felipe Guerra). *Se a História, em algum dia futuro, pedir contas a todos nós, brasileiros, das oportunidades que aproveitamos ou perdemos na luta para edificar a pátria com que sonhamos, será para o Nordeste que se voltará nosso pensamento. Aqui se terá consumado nossa derrota ou vitória* (Celso Furtado). Não haverá Brasil feliz com Nordeste miserável; é hora de quebrar as algemas da hipocrisia.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento24 de dez. de 2016
ISBN9788592098520
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    Os sertaníadas - vol. 1 - de 1500 a 1900 - (500 anos de hipocrisia na história do brasil) - Rinaldo Dos Santos

    OS SERTANÍADAS:

    A Epopeia dos Esquecidos nos Sertões:

    (Uma hipocrisia de 500 anos na História do Brasil)

    Volume 1

    Rinaldo dos Santos

    2017

    Agradecimento

    A Zaida Nunes, que não mediu dias e noites na revisão crítica, com absoluta espontaneidade e empolgação pela verdade.

    Copyright - Rinaldo dos Santos. Não só autorizamos, como sugerimos, a publicação de frases e trechos deste livro. Favor citar a fonte.

    CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE


    Arquivo ePub produzido por Revolução eBook


    Sumário

    Prefácio

    Introdução

    O uso político das secas nordestinas

    A hipocrisia como regra de conduta

    Por que rever a História? A profecia da hecatombe que está já bem perto

    Os Sertões de 1500 a 1600

    Muito antes do descobrimento

    Portugal explorador comerciante

    Deus e as novas terras

    A Índia que tudo muda

    O Brasil entra na História

    O nome Brasil

    América: a falsidade no nome

    Machados e enxadas para um mundo talvez possível

    Braços para o trabalho numa terra alegre

    Brasil em lugar de Santa Cruz

    A Nova Lusitânia, ou Pernambuco

    A cana-de-açúcar

    Salvador, jesuítas, vacas e corrupção

    Primeiros escravos negros

    Os valores do negro escravo

    Na época do primeiro açúcar

    Cristãos-novos no Brasil

    Vacas, ovelhas, cavalos e cabritos

    As sesmarias, ou primeira Reforma Agrária

    Colonização, mas não civilização

    O Rio de Janeiro nasceu francês

    A primeira Seca

    Índios selvagens nada bonzinhos

    Índios selvagens quase bonzinhos

    O Nordeste garantiu a língua portuguesa

    As doenças matadoras de índios

    A sífilis na Europa

    O tabaco da rainha Catarina

    A escravidão negra começou com o Bom Jesus, da Inglaterra

    Pouca afeição ao trabalho

    Escravidão indígena: um negócio razoável

    Escravos brancos, no mundo

    Escravidão negra: um excelente negócio

    A marcha silenciosa do gado

    A disparada do açúcar

    Um Portugal espanhol

    A Seca chega ao litoral

    Gente brasileira aos trancos e barrancos

    O santo remédio e o Agreste

    A Paraíba em construção

    A invencível que afundou, vencida

    A sociedade do açúcar

    Terror dos padres

    Saqueando e construindo

    A cidade de Natal

    Os Sertões de 1600 a 1700

    Brasil: um purgatório para pecadores

    O Siará, ou Ceará

    Algemas coloniais e a Lei do pau-brasil

    A galinha que transformou o negro açúcar em branco

    O gado nos Sertões

    O Brasil francês: São Luís

    Primeira feira de gado

    Terra boa com povo transitório

    Buscando a guerra

    A Bahia holandesa

    Bandeirantes, também bandidos

    Pernambuco holandês

    A Nova Holanda

    Calabar: herói ou bandido

    Cidade Maurícia, ou Recife

    Um rei brasileiro de mentira inaugura o dia da mentira

    Uma terra holandesa bem brasileira

    Judeus e holandeses

    Estudando as secas e os trópicos

    Fumar e beber: remédios pouco santos

    Os ingleses colocam cabresto em Portugal

    O esplendor holandês

    A farinha de mandioca que poderia ter mudado o Brasil

    Começa a Insurreição Pernambucana

    A Padroeira do Brasil

    Defendendo a fábrica de escravos

    Pernambuco quase vendido

    As batalhas de Guararapes e os heróis

    As Companhias Gerais de Comércio

    Índios em pé de guerra

    O açúcar valia mais que a Inglaterra

    Os holandeses foram embora, mas levaram o dinheiro

    O açúcar holandês e o golpe da reinvasão

    Agregando valor ao produto primário

    O profeta Antônio Vieira do Quinto Império Mundial

    Tapuias, Cariris, Tabajaras e Potiguares

    A revolta da pouco inocente cachaça

    Contra os padres

    Golpe até na Princesa que virou Rainha Catarina

    A peste e o incêndio de mãos dadas

    Um povo manso e ordeiro

    A guerra total contra os índios

    As grandes sesmarias, o gado e os índios

    Vaqueiros, soalheiras e vaquejadas

    A tentativa maranhense com Beckman

    Quantos escravos cabem num navio negreiro

    As bexigas da morte

    A Guerra dos Bárbaros

    Guerra aos índios, Grande Seca e a Peste durante a guerra

    Surge o ouro alvoroçador

    A Guerra dos Palmares

    O Zumbi inventado pelos marxistas brasileiros

    O terrível Zumbi do imaginário

    Todos em direção ao ouro fácil

    No final de século surge a mulata e prossegue o genocídio indígena

    Os Sertões de 1700 a 1800

    Os paradoxos da ignorância

    A corrida do ouro

    Um dia para o plantio

    A Inglaterra algema Portugal

    Gente e boi para as minas de ouro

    Os emboabas

    Primeira República: mascates querem independência

    Vida nos Sertões

    Escravos banhados a ouro

    Um governador vaca

    A Inglaterra, dona da escravidão no mundo

    A última guerra de extermínio dos índios

    A Civilização da Palha

    Opulência no Brasil e progresso na Inglaterra

    Grande Seca de 1723 a 1728, a primeira Frente de Emergência

    O luxo no litoral e o dinamismo comercial nos Sertões

    As fontes secretas de ouro e diamantes

    A Dona do Sertão

    Boa sugestão: transferir Portugal para o Brasil

    A ordem é colocar cercas

    A Civilização do Couro

    O ouro branco e os alimentos

    Como o negro Benedito virou São Benedito

    Um tesouro chamado escravo

    Transformando boi em carne-seca

    A bocarra do governo pantagruélico

    Brasil e Estados Unidos eram iguais em 1750

    Brancos, índios e negros em sociedade de compadres

    A temível derrama nunca derramada

    Liberdade aos índios do Maranhão e da Colônia

    O Brasil e a cachaça ajudaram a reconstruir Lisboa

    As Companhias de Comércio

    A expulsão dos jesuítas

    Brasil sem professores

    A revolução pombalina

    Nas costas das mulas

    A capital do Brasil é o Rio de Janeiro

    O discutível racismo contra negros

    A terrível derrama, antiga e moderna

    Primeiro campo de concentração para os flagelados

    O abade que sabia a verdade em 1770

    Os Estados Unidos e o ouro branco

    A maldição dos 100 anos

    Acabou Pombal, acabou Portugal

    Traindo a carne-seca do Ceará

    Agora, ingleses contra a escravidão

    O pitoresco caso de Tiradentes

    A miopia lusitana e brasileira

    A falta de água provoca tragédias

    A Grande Seca dos pedintes

    No Haiti, os negros deram a volta por cima, ou por baixo

    Do boi para o latim

    Mais açúcar e mais mortos

    Insurreição baiana, mais que Tiradentes

    Confisco de terras

    Os Sertões de 1800 a 1900

    Renascimento agrícola

    A Inglaterra proclama a extinção do tráfico de escravos

    O Brasil antes da chegada da Família Real

    O Brasil poderia ser Portugal

    A Família Real no mar

    Um Rei em Salvador777

    A Família Real chega ao Rio de Janeiro

    Fim do Colonialismo: abertura dos Portos, Banco do Brasil e a Indústria788

    A nobreza brasileira no Rio de Janeiro

    Esvaziamento de Portugal

    Perambulando pelos Sertões

    A abertura econômica

    As negras valentes e o sangue nas veias brasileiras

    O jeitinho brasileiro de Dom João

    A proclamação de um Rei no Brasil

    A República pernambucana

    O casamento de arromba

    O Brasil dos ingleses

    O Brasil será uma grande nação

    Com Rei, sim, mas em casa suja e barulhenta

    Escravos, algodão e mulatos

    O genocídio do Reino Encantado

    A Independência do Brasil

    As Guerras da Independência

    O Brasil na encruzilhada da História

    A ideia de uma República no horizonte

    A Primeira Constituição, a da mandioca

    Libertação nordestina, a Confederação do Equador

    Dois males num só: a Seca e a guerra

    O blefe inglês da independência

    Buscando caminhos para a abolição

    O Brasil ganha um rei: chamava-se Rothschild

    Patrões, escravos e a carta de alforria

    Uma terra ingovernável, diz Bolívar

    O Rei volta para Portugal, de novo

    O coronelismo e os açudes

    Outra lei para inglês ver e Darwin no Brasil

    Carnaval, feijoada e seca no Nordeste

    Manipulando as consciências

    A Guerra dos Farrapos

    Os malês queriam uma África brasileira

    A Guerra dos Cabanos

    O holocausto da Pedra do Reino

    A Sabinada

    Dos balaios e da Balaiada

    O Segundo Império

    Ninguém queria ser soldado

    O ouro verde e o ouro branco

    A Grande Seca de 1845 e a vitória do jumento

    As águas cobiçadas do rio São Francisco

    Afundando navios brasileiros, com escravos

    A Padroeira do Brasil é N. S. da Conceição

    Parlamentarismo às avessas durante o Império

    Abolição dos escravos na França

    A revolta Praieira

    Imigrantes brancos para o trabalho

    Sinos que se calam por causa da Febre Amarela

    O café tinha tudo, até a mula, para deslanchar

    A indústria do escravo enquanto a abolição avança

    Primeira Lei de Terras

    A Lei de Terras e os pobres

    A Guerra dos Marimbondos, ou Ronco das Abelhas

    A cólera e as crendices brasileiras1131

    Mauá: o farol quebrado, no passado

    Novidades e a Comissão Científica

    Uma História do Brasil para despertar alegria

    A corrupção numa terra sem heróis

    Carne sem osso, farinha sem caroço; ou Revolta dos Chinelos

    Trocando jegues por camelos

    A força do ouro branco

    As alforrias verdadeiras, as falsas e as camufladas

    Reforma Agrária, lá e cá

    Norte-americanos tinham suas fábricas de escravos

    Enquanto isso, os ingleses vendiam as próprias esposas e crianças

    Negros norte-americanos para a Amazônia: a ciência

    Negros norte-americanos para a Amazônia: a atitude

    Perseguindo o que resta dos índios

    Um casamento para a Princesa Isabel

    A Guerra do Paraguai em 1864

    A Guerra do Paraguai em 1865

    A Guerra do Paraguai de 1866 a 1869

    A Guerra do Paraguai - o final

    Um poderoso Brasil depois da Guerra do Paraguai

    Depois da grande guerra, nos Estados Unidos

    Nordeste: ainda a região mais rica do Brasil

    O populismo vicioso já existia no Império

    Escravo nascido é escravo livre

    Brasil, um feudo da agiotagem internacional

    A revolta do Quebra-Quilos

    O motim das mulheres potiguares

    O café impulsiona o Sudeste versus o algodão nordestino

    Um Brasil de mestiços índios levaria ao sucesso

    A Maldição dos 100 Anos - 1877, primeiro ano

    A Maldição dos 100 Anos - 1878, segundo ano

    A Maldição dos 100 Anos - 1879, terceiro ano

    A Maldição dos 100 Anos - Aprendizados - na economia

    A Maldição dos 100 Anos - Aprendizados - na política

    A Maldição dos 100 Anos - Aprendizados - na ciência

    O bom e o mau trabalhador nordestino

    O voto de cabresto, na monarquia

    Quebrando os bondes na Revolta do Vintém

    O Brasil econômico, antes da abolição

    Abolição dos escravos - os últimos anos

    Abolição dos escravos: a grande festa

    Abolição dos escravos: a grande farsa

    Abolição dos escravos - os indesejados

    Abolição dos escravos - a queima dos livros

    A Indústria da Seca em funcionamento

    Um cafezinho e muita preguiça

    Proclamação da República: a democracia no Império

    Proclamação da República: a orquestração

    A Princesa dançou com um negro e a monarquia descambou

    A proclamação da República: o golpe e os militares

    A República, revolução que não foi revolução

    O Brasil no cair da monarquia

    República, sim; educação democrática, não

    Temos República: e agora?

    República: paraíso dos malandros e sangrentos

    A luta pelo voto feminino

    Nordeste, civilização descartável

    Canudos e Antônio Conselheiro, salvadores da República

    Canudos e seu povo ordeiro, ou nem tanto

    Canudos: a pregação do fim do mundo

    Canudos, o começo da guerra: a primeira expedição

    Canudos: a segunda expedição

    Canudos: a terceira expedição

    Canudos, a imprensa e Euclides da Cunha

    Canudos, a quarta e quinta expedições: o final

    Canudos: a charqueada humana

    Canudos: as jaguncinhas que não morreram

    Canudos: a memória proibida que restou

    Canudos: vozes para serem ouvidas

    Nordestinos para a Amazônia

    Os imigrantes chegando aos borbotões

    Bibliografia (volume 1)

    Obras citadas de 1500 até 1900

    Outras obras do autor

    Notes

    Prefácio

    ● O Brasil Colonial teve 3,3 milhões de escravos - e até hoje há pessoas que bradam aos céus por isso, esquecendo que uma parte chegava ou conquistava a alforria, bem antes da abolição. Por outro lado, morreram mais de 5 milhões de sertanejos nordestinos e outros 21 milhões foram algemados a uma forjada escravidão, mas os espíritos urbanos calam-se, camuflando a hipocrisia que já dura 500 anos. A História mostra mais de 10 milhões de retirantes e milhões de crianças que não lograram completar um ano de idade - vítimas da incúria e do descaso de autoridades e de políticos que continuam ocupando o Poder, ano após ano. Muitos se elegeram presidentes do Brasil utilizando as medonhas cifras nordestinas e, depois de eleitos, silenciaram, criminosamente. A elite política do Brasil, arremedo da nobreza da extinta monarquia, mantém sua opulência à custa da miséria do povo. É preciso que a história dos esquecidos, essa voz de tantos escravizados e sertanejos mortos saia de seus túmulos para ajudar os que teimosamente continuam vivos, amando seu rincão e sua terra, ansiando por um futuro que insiste em não chegar. Este livro tenta vislumbrar a epopeia dos que ajudaram a construir a história dos Sertões; daí o nome: Os Sertaníadas.

    ● Depois de 40 anos de indagações, percorrendo 1,5 milhão de quilômetros nos Sertões, foi possível coletar muitos fatos históricos familiares, ou de regiões, ou do próprio país, em centenas de fazendas e povoados. Estes fatos formaram uma grande e colorida colcha de retalhos sobre a história de todo o Brasil, que engrandece a alma do povo que ali ajudou a construir a nação. Resolvemos consultar os livros mais antigos e - surpresa! - boa parte dos fatos estava lá. Por algum motivo bastante censurável, muitos outros fatos que erigiram a alma brasileira, repleta de lances épicos, simplesmente não estão presentes nos livros escolares. Por isso, as aulas de História do Brasil são monótonas, pois não têm alma, nem paixão, exibindo heróis que, nem sempre foram heroicos, e fatos entronizados, mas sem mérito. Por uma conspiração silenciosa, a História dos Sertões foi decepada em muitos momentos. O Brasil é ainda pobre na divulgação de histórias de sua gente que suou, gemeu, sorriu, viveu e morreu, ou continua lá, sobre o chão banhado pelo sol, tentando construir a ainda diáfana nação do futuro. Uma linda história tão pobremente apresentada nos livros escolares.

    ● Tentando recompor uma visão do passado, este livro mostra como a História do Brasil estava longe do que se passava nos Sertões e das pessoas pobres. A História, bastante manipulada depois da proclamação da República, mostra que o Nordeste foi ficando para trás: toda boa iniciativa institucional era rapidamente engavetada. Os Sertões foram empobrecendo cada vez mais. Constata-se, ainda hoje, uma clara obsessão em reduzir a importância, ou mesmo apagar a memória dos heróis populares do país inteiro para ceder lugar a personagens muito menos importantes. O Nordeste é a principal vítima, padecendo uma crucificação cultural sem tréguas, sob o sorriso melífluo de suas lideranças políticas.

    ● Sem qualquer pretensão acadêmica, este livro vasculhou um alentado conjunto de fontes bibliográficas, mas nem de longe o esforço esgotou cada um dos muitos temas abordados. São cerca de 3.000 citações documentadas no livro, afora centenas de outras consideradas como de domínio público, por estarem em enciclopédias, ou já na Internet.

    ● No livro, a história é percorrida, cronologicamente, ano a ano, justamente para mostrar os momentos em que vários fatores acumulam-se e dificilmente podem ser compreendidos, isoladamente, ora pela Economia, ora pela Religião, ora pela Política. A vida sertaneja é torpedeada por muitos eventos, ao mesmo tempo e, então, eles influenciam as decisões que fazem a história.

    ● Este livro concorda com Balzac, ao afirmar que sempre há duas histórias: A oficial, geralmente mentirosa para uso do povo e a secreta, em que estão as verdadeiras causas dos acontecimentos.¹ Ou seja, não raramente, a boa História está nos subterrâneos dos acontecimentos daquela outra história que é contada para o povo. Schlegel lembra que o historiador é um profeta olhando para trás, enquanto Jacques Le Goff afirma que a história cresce na memória e, ao mesmo tempo, a alimenta, procurando salvar o passado para servir ao presente e ao futuro

    ● Rui Barbosa dizia que solapando a História, chega-se à burrice e esta não tem fronteiras ideológicas, pois há sempre um espertalhão para tentar modificá-la em seu interesse. Também Rui Barbosa destacava o papel da falta de ousadia: Outrora se dava milho aos asnos, porcos e galinhas, mas hoje em dia há outra sorte de galinheiros, pocilgas e estrebarias oficiais, onde o milho é dado também aos escritores.³ Rui Barbosa queria dizer que os espertalhões tinham se amiudado, exatamente como acontece modernamente, em que alguns se aproveitam dos Sertões como seu cofre-forte eleitoreiro. Nessa obsessão, tais pessoas desvirtuam a própria cultura regional, tentando tirar proveito dela, criminosamente, a seu exclusivo favor.

    ● Diz-se que memória sem opinião é um mero banco de dados, mas - por outro lado - opinião sem memória é tolice. Por isso, para bem discutir a viabilidade do Semiárido nordestino e outras regiões empobrecidas do Brasil exige-se o uso da memória e da opinião. O objetivo desse livro é juntar a História com a opinião abalizada de quem pisa o chão rico e incompreendido há séculos: o sertanejo. Já dizia Horace Walpole: Quem não quer pensar é um fanático; quem não pode pensar é um idiota; quem não ousa pensar é um covarde. O uso da miséria, dos que pensam apenas no próprio estômago, leva às ideologias enganadoras, principalmente ao marxismo, sempre colocando os pobres contra os que querem e podem produzir riquezas.

    ● Modernamente, escritores, poetas, músicos, teatrólogos e cineastas tentam captar a alma do povo brasileiro que começa a descobrir que está no Hemisfério Sul e que sua realidade é bastante diversa daquela dos colonizadores vindos do Hemisfério Norte. Os colonizadores, brancos de pele fina, espertalhões, queriam logo voltar para sua terra, mas os homens simples, misturando-se aos índios e negros, ficaram, assumiram a terra e construíram uma nação de gente morena e sangue fervente. Sua beleza histórica, porém, não foi incluída adequadamente nos livros escolares, um gesto de lesa-cultura.

    ● O riquíssimo Nordeste tem sido tema para muita literatura, mas não conseguiu produzir qualquer movimento consistente de mudança, como explica Eloy de Souza: Pelo nosso passado, pela virilidade da raça, por todos os sacrifícios que temos feito para dilatar as fronteiras do Brasil, depois de havermos bravamente defendido a integridade da Pátria, a literatura que merecíamos e merecemos é a das ideias generosas e criadoras, irmanação e inteligência e do coração para que não tarde a redenção esperada.

    ● Aqui interessa mostrar o principal exemplo da alienação brasileira: o Sertão nordestino, engessado lentamente no correr da História e que, mesmo ocupando 80% do espaço regional e 30% de sua população, continua mantendo intacta uma vulnerabilidade secular, premeditadamente. Por séculos pensou-se que era um caso de fatalidade geográfica e social, um mundo de escassez hídrica, retirantes humanos e cabritos meio selvagens, mas é falsidade. Hoje, em várias regiões semiáridas do planeta - em que chove menos que no Nordeste brasileiro – as pessoas desfrutam uma vida digna, justa e saudável. O Nordeste brasileiro, portanto, foi vítima de um blefe – e continua sendo uma encenação da mais pura e cristalina hipocrisia adotada pelos governantes, presidentes e autoridades.

    ● Ultimamente, há uma avalanche de informações sobre o Semiárido, mentirosamente apontando-o como local que vai saindo do primitivismo, da fome e da desigualdade. A imprensa manipulada por verbas governamentais afirma que as tragédias sempre foram provocadas pelos fazendeiros tradicionais, ainda apelidados de coronéis. Ora, apontar todos os fazendeiros como culpados pelo sofrimento dos sertanejos pobres é um crime, uma distorção diante da realidade. Eles, os fazendeiros, são também sertanejos e produzem riquezas. No correr da História e ainda hoje 90% dos fazendeiros tradicionais sofrem com as secas, lutam e tentam sobreviver, sejam grandes, médios, ou pequenos. Os 10% restantes, sim, constituem exceção e atuam em estreita ligação com os governos municipal, estadual e federal, desfrutando da esperteza da Indústria da Seca solidamente implantada dentro dos palácios das autoridades. Há, portanto, milhares e milhares de médios e grandes fazendeiros que sempre ajudaram seus antigos escravos, depois moradores, meeiros, parceiros e trabalhadores, nos momentos de aflição. A culpa pelas tragédias nunca esteve dentro das porteiras, mas - repita-se - esteve sempre nos palácios governamentais, exatamente como ficou provado até na eleição para presidente, em 2014. Acusar todos os latifundiários e proprietários rurais é escamotear a verdade para acobertar os políticos e governantes que, estes sim, já poderiam ter revolucionado a existência nos Sertões, mas continuam sepultando a voz dos sertaníadas, ou seja, dos que querem produzir riquezas, gerar empregos e felicidade nos Sertões.

    O sertanejo é sempre vítima do abandono e da exploração, do ridículo e da esperteza dos urbanos - já comentava o Padre Heitor Araújo. Afinal, o Semiárido é uma eterna seca com pequenos momentos de verde entre elas, como lembrava Rodolfo Teófilo.⁵ O resultado da alienação é uma realidade cruel alicerçada na pobreza para gáudio de uma minoria politizada que vive fora dos Sertões. Diz Rodolfo: Ao lado da miséria, caminham a moléstia, a fome, a penúria e a deseducação, transformando o Sertão num vasto hospital das mentes e dos corpos. Por isso é preciso erguer a voz, como queria o ilustrado Rui Barbosa: Uma raça, cujo espírito não defende o seu solo e o seu idioma, está entregando a alma ao estrangeiro, antes de ser por ele absorvida.⁶ Também o cearense Barão de Studart apostrofou: O povo foi e será sempre uma criança, necessitando de mimos e de guias. Encontrando quem o pavoneie ou lhe dê a senha, despedaça seus próprios ídolos e canoniza bandidos, embora amanhã o arrependimento o esmague, ou a vergonha lhe purpurize as faces.

    ● Felipe Guerra escreveu: Estamos ainda tão atrasados que podemos receber lições da vida dos antigos egípcios, cujos governos bárbaros e cruéis fundavam lagos e reservatórios, a fim de suprir a falta de chuvas pelas águas do Nilo. Mandavam abrir aguadas ao longo das estradas tanto para os exércitos como para o comércio. Regulavam a cobrança de impostos pela altura da cheia dos rios, ou seja, conforme a fertilidade, ou esterilidade das estações. Esses bárbaros e cruéis faraós poderiam fornecer humanitários ensinamentos aos nossos hodiernos estadistas que, com igual quota de impostos, sobrecarregam a população sertaneja, quer a fertilidade cante em todos os lábios, quer a fome encove todas as faces.⁸ Se os impostos fossem proporcionais à chuva que cai dos céus, o Nordeste seria uma região próspera.

    ● Manoel Dantas Vilar Filho (Dr. Manelito), nos Cariris paraibanos, engenheiro que dedicou a vida inteira a descobrir maneiras de conviver com o clima é taxativo, ao mostrar que todas as boas iniciativas estão descritas na Bíblia: Jesus nasceu numa manjedoura, na região semiárida, deitado no feno, onde havia cabras e ovelhas, leite, mel, frutas e plantas típicas. Suas palestras são taxativas: As políticas para os Sertões são uma farsa histórica, pois o caminho é claro, faltando apenas vontade de fazer o correto.

    ● A boa História, então, precisa ser ouvida e confirmada pelos próprios protagonistas, confirmando a opinião do Padre Heitor Araújo ao afirmar que a pior espécie de sertanista é a dos que nunca vieram ao Sertão.⁹ Segundo Wilson Lins: Os sertanejos, sós, perdidamente sós, construíram, inconscientemente, sem planos e sem esperança, uma civilização à parte; uma sociedade de proscritos econômicos dentro de um deserto acinzentado.¹⁰ Este povo merece um bom destino pela sua bravura secular, como lembrado por Paul Sears ao afirmar que a verdadeira medida do deserto não está na sua água, nem na sua areia, mas na quantidade e na qualidade de sua vida, ilustrada pelos sertanejos que não querem nunca abandonar seu pedaço de chão.¹¹ Sua vida é uma sertaníada

    ● Depois de tantas vicissitudes por séculos, corretamente exprimiu Felipe Guerra: O bode e o burro têm dado mais vida ao Sertão, têm concorrido mais para o seu progresso e têm amparado mais nas calamidades, do que todos os governos que têm abandonado aos seus próprios recursos a população sofredora das secas.¹² Concordando com ele, Celso Furtado foi taxativo: Se a História, em algum dia futuro, pedir contas a todos nós, brasileiros, das oportunidades que aproveitamos ou perdemos na luta para edificar a pátria com que sonhamos, será para o Nordeste que se voltará nosso pensamento. Aqui se terá consumado nossa derrota ou vitória.¹³ Por isso, o objetivo desse livro é tentar reerguer o ardor patriótico dos sertanejos depois de terem sido açoitados pela incúria e rejeição por séculos. Com ele está Rui Barbosa: Um povo cuja fé se petrificou é um povo cuja liberdade se perdeu. (...) Maior que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado".¹⁴

    ● Outras secas virão e a História continuará cobrando uma posição e acusando a hipocrisia dos que estão no poder. Cada brasileiro pode passar pela vida como bom cidadão que luta para levar justiça e dignidade para os sertanejos, ou como vilão, que leva apenas o assistencialismo barato, desestruturador das pessoas e grupos, como faz a Indústria da Seca que é forjada nos corredores palacianos urbanos. É hora de conclamar todos os cidadãos para que não enxerguem no Semiárido apenas um conjunto de molambentos miseráveis, incapazes, esmoleres e recebedores do supérfluo de outras regiões, pois - na verdade - são cidadãos que sempre lutaram, mesmo não tendo oportunidades, e que tentam praticar uma política da convivência com o clima seco, ligados que são ao próprio chão.

    ● Tão perversa como a Indústria da Seca é a Indústria da Água. O culto à irrigação é um blefe, uma ferramenta de empobrecimento contínuo de 98% do Semiárido. Enquanto se defender a agricultura em minúsculas propriedades, ou a irrigação de menos de 2% das terras como panaceia, o Nordeste sertanejo será palco de uma existência medíocre, fadada à degenerescência e ao auxílio público, aumentando o já imenso curral eleitoral em que foi transformado para consolidar a pseudo República proclamada em 1890 e jamais implantada. A riqueza do Nordeste está na adequada exploração do Sequeiro, utilizando as chuvas, a água já estocada em barragens e açudes, e o uso dos suficientes mananciais do subsolo. É preciso tirar as algemas que prendem as riquezas nordestinas. É preciso adequar a Educação e assumir a terra como ela é.

    ● Trancafiem-se os políticos nordestinos que não erguerem a bandeira a favor de sua gente. Não haverá Brasil feliz com Nordeste miserável. Se, até hoje, os políticos foram coniventes com o crime, chegou a hora de a civilização das secas mostrar que não admite mais algemas. É melhor a revolta contra políticos e autoridades, do que a região e o país permanecerem por mais tempo na penumbra da humanidade, enquanto outros Sertões, em outros países, estão já saboreando uma vida digna.

    ● Finalizando, este livro não é ufanista, bairrista, ou segregacionista - nada disso - é apenas um sussurrar telúrico, bem brasileiro, desejando dias melhores para uma parte de seu povo que vive uma epopeia secular que já contabilizou - repita-se - mais de cinco milhões de mortos, dezenas de milhões de fugitivos e milhões de crianças que não lograram completar um ano de idade. Remexer nas brumas do passado é um presente que se dá ao futuro. Que a voz de tantos mortos saia de seus túmulos para ilustrar sua Sertaníada.

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    Nota - Com o objetivo de facilitar a leitura e a compreensão, a ortografia de textos antigos e nomes foram atualizados de acordo com as regras da língua portuguesa vigente em 2014.

    Introdução

    O uso político das secas nordestinas

    A seca não é um problema; a seca é um equívoco - resumiu Otávio Sitônio Pinto. A solução do equívoco da seca não será sua supressão, mas seu aproveitamento ecológico-econômico-estratégico. O equívoco da seca só se resolverá 'sem água', pois sua solução é cultural.¹⁵ O aproveitamento racional do Semiárido dispensa grandes investimentos em tecnologia, desde que seja adotada a indústria compatível profetizada por Arrojado Lisboa, ou a mesma economia xerófila reclamada por Guimarães Duque. Qualquer esforço noutro sentido será nadar contra a maré da seca e demandará inutilmente toda tecnologia do mundo e recursos irresgatáveis, finaliza o autor de Dom Sertão, Dona Seca.

    ● Haroldo Schistek, idealizador do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada - IRPAA , diz que não há seca no Nordeste, a rigor. Para ele a palavra seca não cabe bem no contexto climático do Semiárido. A palavra seca caracteriza uma situação climática excepcional, de baixa pluviosidade, numa região que normalmente apresenta chuvas regulares. Esta definição não se aplica ao Semiárido brasileiro. Quando um ano de baixa precipitação assusta a sociedade e os governos, isso é um sinal de que até hoje o Semiárido continua sendo uma região mal compreendida. Para a natureza, os seus animais e plantas, um ano de poucas chuvas não é nenhuma catástrofe, pois em milhares de anos souberam se adaptar e criar resistência adequada.

    Uma catástrofe, isto sim, é a falta de preparo dos nossos governos, garante Haroldo Schistek. Tiveram três décadas, deste a última grande seca (1978-1983), para, mais uma vez, serem apanhados de surpresa (2012 e 2015), forçados a medidas de emergência, a gastar grandes somas para evitar mais prejuízos econômicos e mortes na população.

    ● Não há segredo: a preservação da Caatinga é fundamental para garantir a regularidade da temperatura, das chuvas e a fertilidade do solo do Semiárido. Cabe ao Homem¹⁶ compreender a necessidade de harmonia entre o clima e a tecnologia, garantindo assim o escoamento lucrativo da produção. O solo, animais e plantas são um formidável patrimônio genético para a ciência e já estão ali, fazem parte do ambiente.

    ● No Brasil, em cinco minutos, as televisões mostram a miséria liquidando vidas e condenando milhões a uma existência miserável nos Sertões e, logo a seguir, mostra as facilidades e riquezas nas regiões férteis do Centro-Sul. As imagens acumulam-se no cérebro, sugerindo que a seca é a vilã do Sertão, a causadora das tragédias e que a melhor solução é imitar as regiões ricas, fornecendo água à terra, apontando a irrigação como única tecnologia possível. O problema do Sertão nordestino, porém, não está no pedaço de céu acima da cabeça das pessoas, nem no pedaço de chão abaixo dos pés. Mesmo já tendo injetado bilhões de dólares, ou irrigando terras onde possível, ou tentando uma industrialização interiorana, a lentidão do crescimento econômico exibe indicadores sociais muito abaixo da média brasileira. É o que se verifica em momentos de estiagem prolongada, sempre repetindo a situação de calamidade para as pessoas e animais.

    ● Muitos escritores e técnicos apontaram suas conclusões sobre a viabilização econômica do Semiárido e, popularmente, algumas anotações são bem claras, como se observam a seguir.

    1 - De todo o conhecimento da história das secas depreende-se que elas são uma constante e que as chuvas, sim, são irregulares.

    2 - O Semiárido do Nordeste sofre pela má distribuição das chuvas e pelos períodos muito longos entre o fim de um inverno e o início do período chuvoso. Nesses momentos falta a água de beber e também a água para a produção: é a caracterização da seca. A falta de alimentos para as pessoas e para os animais é muito mais prejudicial economicamente que a falta de água.

    3 - O Nordeste brasileiro não tem as características de um deserto. Chove mais no Nordeste que, normalmente, em vários países de zonas tropicais e temperadas. Os estudos apontam quatro características: a) o Semiárido nordestino tem a maior população vegetal do planeta, entre 3.000 a 4.000 espécies típicas, provando sua viabilidade e riqueza, embora esteja catalogado apenas um terço delas; b) tem uma pluviosidade média, variando de 70 a 800 mm, mais elevada que em muitos outros semiáridos; c) tem a maior densidade demográfica, provando que a tradição ali fixou uma civilização; d) incrivelmente, é o único Semiárido ainda sem uma equação definida para sua viabilização.

    4 - Mais grave que a falta de chuvas regulares são as consequência sobre a economia do Semiárido, principalmente sobre as lavouras temporárias. O GTDN¹⁷ deixou claro que as lavouras são um insistente fator de pobreza no Sertão, devido à irregularidade das águas. São as lavouras lotéricas: de cada 10 safras, uma é boa, duas são razoáveis, três são fracas, quatro são ruins.

    5 - A primeira vítima da seca é a chamada agricultura de subsistência, sempre frustrada com a perturbação na distribuição das chuvas. Por isso, o nome mais apropriado seria lavouras de insubsistência. Como consequência, o minifúndio sertanejo exaure-se com facilidade, rapidamente. Com a falência das lavouras periga a sobrevivência das populações rurais, tanto os minifúndios como o rendeiro, o meeiro e todo produtor rural. Insistir em lavoura, como estratégia econômica para o Semiárido, é persistir na enganação de toda uma Civilização das Secas.

    6 - O fato é que existe um notável contraste entre o Semiárido Oficial e o Semiárido Real. As boas políticas adotadas para o Semiárido Real são melancolicamente desmontadas pelos governos sucessivos, como estratégia para manter uma região dócil, submissa aos caprichos eleitoreiros. A concentração de força reside na manutenção do engodo e não na busca de soluções reais para os Sertões. Uma grande hipocrisia sobre milhões de pessoas confinadas num gueto semiárido, algemadas pela imprevidência desastrosa e criminosamente calculada pela classe política.

    7 - Quando começa o êxodo, o Governo Federal tem oscilado entre duas opções: a) financiar o produtor através de empréstimos com juros menores e prazos mais longos; b) abrir Frentes de Emergência para simular, em grande parte, trabalho manual em obras públicas, tudo a fundo perdido. As Frentes de Trabalho salvam as famílias afligidas pela fome, porém viciam o trabalhador na sua visão de trabalho, quando retornar à normalidade. O êxodo rural é uma tendência do mundo moderno, mas não deveria inviabilizar o campo. O êxodo é explicável, pois a população rural brasileira - em 2050 - será de apenas 6,0%, ou menos, segundo o IBGE e a ONU. A redução é feita, pari passu, com injeção de tecnologias redutoras de mão-de-obra. Remeter as pessoas para as periferias das grandes cidades é a semente da violência urbana sempre crescente e preocupante.

    8 - Os proprietários rurais não têm uma política agrícola adequada. Sem colheita e sem crédito vem o desastre. A correta política seria casar o crédito ao regime de chuvas, como acontece nos semiáridos civilizados, evitando a confusão entre o subsídio e o incentivo fiscal/financeiro à produção. Havendo boa política de crédito, os produtores sabem fazer o resto, depois de 500 anos de aprendizado. Além disso, a boa política de crédito já induz ao progresso tecnológico.

    9 - O grande açude seria uma solução? É preciso saber se a água acumulada tem utilidade que compense o investimento. Calcula-se que toda a área irrigável por submersão representa no Semiárido cerca de 1,5% do território, podendo chegar a 3,0% com uso da aspersão. Então, a prática da irrigação equivale ao rabo balançando o cachorro, e não o cachorro balançando o rabo - diz Manoel Dantas Vilar Filho, da Paraíba. A irrigação é uma ferramenta simplesmente eleitoreira, simploriamente complementar e jamais deveria ser buscada com tanta ansiedade pelos técnicos.

    10 - Se não existe relação prática entre água acumulada e terras irrigáveis, faz-se necessária uma política de aproveitamento dos recursos hídricos, que deverá ser instalada para integral atendimento de todas as terras disponíveis que fixem o irrigante à terra. Uma política de compra, ou desapropriação, de terras não utilizadas, ou mal utilizadas, deve ser uma meta de interesse social e humano.  Não se compreende a existência de terras inaproveitadas a montante e a jusante dos açudes. Na modernidade, a terra é cada vez mais um bem social e, como tal, deve ser utilizada em benefício da comunidade.

    11 - Conjugação, quando possível, da pequena e pouca agricultura irrigada e a de sequeiro. Instalação de comunidades rurais com atividades múltiplas, com saúde, educação, lazer, comunicação, crédito, como base de uma política de colonização - como estava no GTDN.

    12 - Manoel Dantas Vilar diz: Jesus Cristo, com sua Onipotência e Onisciência, não escolheu para nascer na Babilônia, Atenas, ou Roma, onde estavam os grandes exércitos e notável produção; ele escolheu Belém, uma pequena comunidade de pastores. Nasceu numa manjedoura, cercado por vacas, cabras e ovelhas e dali sua voz espalhou-se pelo mundo inteiro, enquanto os impérios naufragavam. O exemplo da viabilização do Semiárido está na Bíblia, descrito no presépio: pecuária rústica, feno, leite, mel, vegetação adequada, etc. Da região seca vem a palavra que leva o bem-estar a todos os brasileiros. Não pode haver Brasil duradouramente feliz com um Nordeste miserável.

    13 - Os poços profundos são uma exigência para o Semiárido. Tem-se constatado que a profundidade média dos poços é de 50 metros, mas há poços tubulares variando de 15 a 1.000 metros. Na região de Mossoró os poços chegam a águas fósseis, em abundância, mas com certeza trata-se de um bem finito. Além disso, a água estocada em grandes açudes é suficiente para abastecer todo o Nordeste, mas levar essa água até as torneiras significa acabar com a Indústria da Seca tão lucrativa para os espertos políticos que abundam nos corredores palacianos.¹⁸

    14 - A salinização é real e pode transformar largas faixas de terra em deserto. O dessalinizador obtém 50% de água sem sal, mas condena os 50% restantes a apresentarem o dobro, ou mais, de sal. Comenta Manoel Dantas Vilar que ainda não se atentou para a socialização do sal, como fonte geradora de renda, ao invés de persistir no erro de tentar irrigar com água salobra. Pequenas áreas pavimentadas podem evaporar a água, retendo o sal, um produto de bom valor econômico. A Civilização das Secas também pode ser a civilização do sal da terra.

    15 - O rio São Francisco é uma dádiva para o Nordeste, muito além de fornecer energia elétrica. Ele, com seus afluentes, é fonte permanente de água para irrigação em suas margens. A irrigação das margens do São Francisco é uma chance espetacular de sucesso e não apenas um desafio a ser vencido. Pensar em utilizar águas do rio São Francisco para atender regiões longínquas, pela transposição, sempre foi uma aberração técnica e um crime contra a natureza, um mero estelionato eleitoreiro, um crime que deverá ser julgado, um dia, pelos tribunais.

    16 - O Nordeste é rico em fontes alternativas de energia elétrica: solar, nuclear, eólica e química (biodiesel, petróleo, etc.). No futuro, o produtor rural nordestino agregará o rendimento da energia obtida em sua gleba em seu patrimônio, transformando o Semiárido em região viável e invejável, pois tem energia no fundo do quintal.

    17 - O rigor climático não precisa ser um motivo de falência patrimonial. De nada adianta os governos permitirem a falência do pequeno e médio produtor, pois não há substitutos com mais experiência e amor à terra do que eles. Não tem sentido uma multidão de produtores vivendo um holocausto coletivo, com a marca indelével de devedor sem solução. Nos momentos de água regular o pequeno e o médio produtor sempre foram bons pagadores, de alta honra.

    ● Viabilizar a economia dos Sertões é um exemplo para o resto do país. A história mostra que nunca se uniram os fatores: justiça social, prudência ecológica, eficiência econômica, competência técnica e cidadania política. O dinheiro gasto em bolsas mantém certo ritmo na economia sertaneja, evitando a imagem trágica de antigamente, mas é insuficiente, ou mesmo provisório, pois pode amenizar o problema de pessoas, mas não os problemas dos setores produtivos. A interrogação está dentro das porteiras e somente de lá pode sair a solução para o resto da civilização que vive nas regiões secas. Saco vazio não fica em pé; região sem produção caminha para o deserto. Já dizia Euclides da Cunha: O que há de combater e debelar nos Sertões é o deserto. O martírio do homem, ali, é o reflexo de tortura maior, mais ampla, abrangendo a economia geral da vida.¹⁹

    ● Diz Celso Furtado: São duas as condições que poderão levar ao êxito: a primeira é uma mobilização de forças sociais em todo o país, afim de que se tome consciência de que é o nosso destino como povo que está em jogo; de que se o Brasil persiste pelo atual caminho das crescentes desigualdades sociais e regionais é o nosso futuro como nação que poderá ser posto em xeque. A segunda condição é que a o próprio Nordeste venha a se mobilizar, despertando-se da letargia à qual foi reduzido pelo centralismo autoritário que se implantou no país, a partir de 1964. Em 2014, muito longe de 1964, o centralismo agudizou-se, mascarando o encaminhamento da nação para o tão condenável marxismo.

    ● A História mostra as pessoas simples sendo extorquidas por tributos, impostos disfarçados, sem uma contrapartida de atendimento governamental. O Governo tira, mas não retribui. De cada R$ 1,00 destinados ao Nordeste, cerca de R$ 0,85 termina na região Sudeste - dizia o ex-ministro Delfim Netto. Ao invés de apenas considerar o PIB per capita o melhor seria adotar um critério de felicidade social na região Semiárida.

    A hipocrisia como regra de conduta

    ● A hipocrisia tem sido a tônica dos governantes, com olhos nos resultados eleitoreiros e o bem-estar de seu partido, dos correligionários e apaniguados. A hipocrisia que afeta o Nordeste está explicada a seguir.

    Hipocrisia dos mandões - Desde 1980, os últimos presidentes, mesmo tendo ferramentas à mão, exerceram a hipocrisia em alto som: Sarney, Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef - todos conheciam os caminhos e todos escolheram prestigiar o trono de seus partidos políticos, para azar dos sertanejos.

    Hipocrisia geopolítica - Não há como ir contra a tendência de dominação, pois os próprios políticos nordestinos participam da orgia dominadora. Os norte-americanos querem asiáticos e latinos americanizados, brasileiros americanizados, etc. e os paulistas querem nordestinos apaulistados. Basta conferir: a maioria dos deputados, senadores e governadores mora no litoral nordestino, ou na Zona da Mata, mas raros são os que querem viver no Sertão. Incrivelmente, os sertanejos são reduzidos a tal miserabilidade que somente lhes resta votar em gente que mora muito longe de seus problemas, a troco de alguma esmola. Um senador nordestino, no terceiro mandato, dizia: Não devo nada ao Nordeste; em cada eleição, eu venho e compro cada voto, um por um.²⁰

    Hipocrisia cultural - Quando a cultura sertaneja vira norte-americana, paulista, ou carioca, morre a alma do Sertão. O litoral nordestino já se corrompeu, perdeu sua identidade, pois sua potencialidade produtiva vem sendo reduzida ao turismo. Mais uma ou duas gerações e o litoral nordestino será internacional, cosmopolita, como tantos outros pelo mundo. A Zona da Mata já vai se corrompendo. No Sertão, porém, ainda restam cordéis, violeiros e escritores, mas até quando? Atualmente são debochados pelos demais artistas, apontados como primitivistas e frutos do atraso. Na Alemanha, os Mestres Cantores de Nuremberg sustentaram a alma germânica, cantando poesias diante de muitos inimigos e guerras; hoje, é a poderosa nação europeia que continua apegada à poesia de seus antigos. Diz a Filosofia que a solidez de uma região está na língua, religião e cultura. Foi o Nordeste que garantiu o domínio da língua portuguesa, talvez o maior fator de unidade do país. Paradoxalmente, se o café tivesse sucedido ao período das minerações, a língua oficial do Brasil talvez fosse o Tupi-Guarani, ao invés do Português. Incrivelmente, hoje, o Nordeste foi reduzido à região com menor índice de escolaridade: uma grande distorção. Foi a religiosidade nordestina que garantiu boa parte da unidade nacional. Foi a cultura nordestina que engendrou parte das artes brasileiras. A rejeição à língua, religião e cultura do Nordeste é uma condenação de seu povo.

    Hipocrisia empresarial - Todo industrial paulista, dizendo ajudar o Nordeste, monta sua fábrica no litoral, ou na Zona da Mata, para passar o inverno nas lindas praias de águas verdes e quentes. Uma distorção básica para quem pretende ajudar os Sertões. Quase não recebe estímulo para montar uma indústria típica no Sertão. Apesar disso, a alma nordestina, por enquanto, resiste no Sertão e, dali, pode resgatar a alma de todo o Nordeste.

    ● Diz Marco Antônio Villa, em O Sertão do Abandono, que o Nordeste como região-problema é uma velha construção das elites sulistas. Eles conseguem meter a mão nas verbas de ajuda à crise e as dirige para outras regiões que não são tão problemáticas. Afastam o interesse do capital privado, mostrando que ninguém quer investir em um local fadado ao fracasso. Dessa forma, durante os quase 200 anos do Brasil independente, o Nordeste e, em especial, o Semiárido, ficaram relegados a um plano secundário, mesmo após a adoção do regime republicano. Sem poder político e estando o eixo econômico localizado no Sul, restou à região viver das migalhas enviadas pelo Governo Federal, com total conivência de uma escabrosa elite política regional a serviço dos maiorais de outras regiões. O Semiárido continua abandonado e os sertanejos sobrevivem graças às bolsas e, principalmente, à aposentadoria rural. Confirma Renilson Rosa Ribeiro, dizendo que mudam-se as leituras e vestimentas, mas o país continua criando os outros, os exóticos, os anormais, as raças inferiores, os pobres coitados e os que se sentam à margem, quando não são forçados a serem eternamente servos no banquete nacional reservado somente para os eleitos. Os mandatários construíram para si o lugar de honra e, para os outros, o de submissos.²¹

    ● Por não haver Dignidade e Justiça²² embutidas nas políticas públicas, o sistema acaba voltando-se para a manutenção de privilégios, por meio do fisiologismo e para a caça aos votos das pessoas pobres que, exatamente por isso, são mantidas na condição de eterna miséria. É a ignorância e a pobreza que mantêm um republicanismo viciado, evidente nos currais eleitorais, geralmente guetos urbanos ou na zona rural de regiões longínquas, como o Semiárido. Paradoxalmente, a Igreja mancomuna-se com tal sistema, repetindo Antonil: Dar esmolas é dar juro a Deus, que paga cento por um.²³ Por isso, os Sertões tornaram-se um grande centro recebedor de esmolas e, como gratidão, elegem seus tiranos.

    ● O resultado dessa criminosa perversão institucional leva ao surgimento de líderes carismáticos que agem às avessas, dividindo a sociedade, inaugurando novos extratos sociais, ou novos currais eleitorais (negros, índios, homossexuais, deficientes, ricos, pobres, miseráveis, homens, mulheres, presos, microproprietários, e vários outros) o que resulta, geralmente, na formação de novas castas de militantes privilegiados. Essa é a realidade atual do Brasil, misturando doutrinas sociais, caminhando para a completa desagregação da família e desunião das pessoas, formando grupamentos que não auguram bom futuro. Falta alma nas políticas públicas, falta respeito à família que deseja apenas ficar viva, feliz, digna e justa.²⁴ O resultado é o surgimento de violências que, antes, não existiam.

    ● Desde D. Pedro II, em 1878, diante da devastadora seca no Nordeste, proclamou a sentença que viria a abrir a ladainha de promessas para a região: Não restará uma única joia na coroa, mas nenhum nordestino morrerá de fome. Diz-se que palavra de rei não volta atrás, mas o fato é que todas as joias continuam lá, na coroa, e morreram milhões de nordestinos depois disso. A coroa estava muito longe dos Sertões, já naqueles dias da Maldição dos Cem Anos (Grande Seca de 1877, com cinco anos de duração).

    ● Depois do imperador D. Pedro II, muitos presidentes da República comoveram-se com a pauperização nordestina e prometeram recuperar o tempo roubado à História do Semiárido. Suas palavras e lágrimas entraram para os livros, mas os Sertões continuam como dantes. Na campanha presidencial de 1950, Getúlio Vargas, ao discursar no Ceará, lembrava que seu governo, em menos de 15 anos (de 1930 a 1944), conseguira aumentar a capacidade de acumulação de água no Nordeste, de 630 milhões para 2 bilhões de m³, com a construção de 225 açudes, tendo gasto 15 milhões de cruzeiros. Juscelino Kubitschek, ao assumir a Presidência, em 1956, garantiu no discurso de posse: Esta é a última seca que assola o Nordeste. A garantia do presidente que inaugurou a barragem do Açude de Orós, na época o maior do país, evaporou-se como a água na próxima seca. Durante os anos de regime militar (1964-1985), o tratamento seguiu os trâmites ortodoxos: estado de calamidade pública nos municípios afetados e abertura de crédito extraordinário. Os presidentes Sarney e Collor de Mello sequer olharam para a região, para o povo. Também Fernando Henrique Cardoso, um sociólogo, fechou os olhos ao fenômeno das secas. Iniciou um tímido programa de alistamento para uma bolsa de emergência. O então presidente pronunciou: O povo do Nordeste e do norte de Minas deve encarar a seca, criando condições de enfrentamento no qual o cidadão será o vencedor. Hipocrisia. Distribuiu 30 milhões de bolsas para se reeleger, ensinando o caminho da malandragem para seu sucessor, o ilusionista Luís Inácio Lula da Silva que explorou ao máximo a confiança nordestina, sacando de seu embornal de muitos milagres não o necessário, mas uma obra picaresca e inútil, a transposição do Rio São Francisco, apesar da diminuição de suas águas, ano após anos. Hipocrisia e demagogia. Os presidentes deveriam ser julgados num tribunal, como criminosos, por manterem o genocídio sertanejo em marcha, para dele tirarem proveito eleitoreiro.

    ● Dizia Eurípedes Oliveira: O que está faltando é uma voz que se levante em nossa defesa. Nos campos do sul, falam os donos das grandes empresas, dos vastos cafezais, das pastagens sem fim. São eles os representantes nas Câmaras para a defesa do seu povo, de suas empresas e de seus interesses. No Nordeste, os nossos representantes articulam-se, separam-se, agindo sempre conforme seus imediatos interesses pessoais e são facilmente compráveis. Não tivemos força para a reação ao cerceamento das nossas lideranças desde os dias de 1930. Estamos sem lideranças capazes. O que existe é o político profissional, ou seja, aquele que quer apenas um emprego de político, parasita gerado pelo aulicismo ressuscitado nos últimos 50 anos. Ele não sente o apelo da terra que diz representar, fala da agricultura e pecuária como falaria de direitos sociais e de mexericos palacianos.²⁵

    ● Foi Delfim Netto, quando no Ministério da Fazenda, tocador do modelo e feitor do milagre brasileiro, quem comandou com eficácia final o assalto aos recursos da SUDENE - então depositária habilitada das esperanças nordestinas, para melhorar de vida com parte desse dinheiro. Alegou-se na ocasião, seria fundado o PROTERRA para financiar o melhoramento da infraestrutura agropecuária e a redistribuição de terra, na região. Na prática, a SUDENE foi esvaziada à exaustão e o PROTERRA, rapidamente, virou só mais uma sigla.²⁶ Ficou por isso mesmo. Nem Delfim, nem o Governo, explicaram-se. Ambos criminosos.

    Por que rever a História? A profecia da hecatombe que está já bem perto

    ● A maldição dos 100 anos, ou Grande Seca (1978 a 1983) foi prognosticada por um estudo de Carlos Girardi e Roberto da Mota Girardi, divulgado pelo CTA e mantido engavetado pelo Governo, na ocasião, sob pretexto de não gerar pânico. Todos os governos estaduais foram avisados, todos os políticos tiveram conhecimento do estudo, mas todos preferiram silenciar. Aquele estudo baseava-se em dados das chuvas de Fortaleza abrangendo 129 anos (1849 a 1977). Era o mais abrangente estudo até então. Esse engavetamento resultou em 3,5 milhões de mortos - mas ninguém foi responsabilizado. Hipocrisia diante de um claro genocídio.  Foi divulgado, na época, apenas pela revista rural do Nordeste (Agropecuária Tropical) e por jornais do exterior. Mais tarde, ganhou repercussão, e a escabrosa estatística acabou sendo ardilosamente incluída pelo IBGE em seus estudos somente a partir do ano 2000, para quem se dispuser a decifrar os números. (ver a descrição da seca de 1978 a 1983 no capítulo Os Sertões de 1900).

    ● Depois, os estudos prosseguiram, incorporando informações de muitas outras fontes, pois foram distribuídos pluviômetros em milhares de localidades dos Sertões. A continuidade dos estudos mostrava que uma seca prolongada aconteceria entre 2005 e 2013 e, finalmente, um pico catastrófico acontecerá entre 2030 e 2035 (ver gráfico). Novamente, todos os governos receberam cópia do documento, mas novamente pouco se ouviu a respeito. Quando a seca flagelou a maior parte do Semiárido entre 2012 e 2015, o Governo fez de conta que não sabia, feliz por estar escudado no programa Bolsa Família. Hipocrisia.

    ● Para enfrentar o grave momento de 2030 a 2035, os governos deveriam iniciar a estruturação das propriedades desde já. Isso significa possibilitar investimentos diretos - dentro das porteiras - e garantia de escoamento da produção, bem como estímulo às iniciativas mais positivas de convivência com as secas. (Atenção: o gráfico mostra que também haverá uma pequena seca nos anos 2020-21).

    ● Satisfeitos com a distribuição de esmolas eleitoreiras às pessoas, os governos acham que podem protelar, ou engavetar, novamente, o estudo. Os governos perdem, assim, a chance de realizar uma Reforma Fundiária ecologicamente correta, utilizando cientistas para determinar o tamanho das propriedades de acordo com a capacidade de sustentação. Até aquela data, todas as residências rurais e urbanas do Semiárido poderiam ter saneamento e acesso à água potável, com facilidade, uma vez que já existe água já estocada em quantidade suficiente.

    ● Novamente, o Governo tem as ferramentas nas mãos, mas optará a favor do povo, ou deixará acontecer outro genocídio camuflado, nos Sertões? Só há dois caminhos: 1) enfrentar os Generais do Apocalipse Nordestino, apoiando a produção dentro das porteiras e, com ela, a riqueza e os empregos nos Sertões; 2) sucumbir aos sussurros dos Generais do Apocalipse, permanecendo no lucrativo regime de esmolas, ou bolsas para as pessoas, mantendo o Semiárido como um enorme curral de miseráveis úteis para a manipulação eleitoreira.

    Quadro 1 - As previsões das Grandes Secas - que os governos esconderam e escondem. (Girardi, Carlos; Girardi, Roberto da Mota - S. José dos Campos, SP, 2001). De 1975 a 2040.

    Os Sertões de 1500 a 1600

    Muito antes do descobrimento

    710

    • A História dos Sertões nordestinos inclui a seca, os galhos esturricados, o gado morto e os retirantes, mas também de heroísmo de um povo que insiste em permanecer ali. Para interpretar a história dos Sertões nordestinos é preciso conhecer os homens que, muito tempo atrás, fundaram o que se chama hoje de Portugal. Foi essa história remota que moldou o espirito nordestino com a têmpera necessária para enfrentar obstáculos, grandes desafios, na busca sempre renovada de um melhor futuro. O nordestino, então, está ligado à alma portuguesa. A história começa quando a Hispânia ainda estava dividida em pequenos reinos bárbaros. Como não havia um rei, em 710, aconteceu a invasão muçulmana da Ibéria que iria durar até a última década do século XV. Bastava aos mouros ir atropelando cada pequeno reino, um atrás do outro. Logo após essa invasão sarracena no século VIII, formou-se um movimento de resistência nas Astúrias. Relata Marcos Albuquerque que o primeiro quartel-general situava-se na Gruta de Covadonga. As lutas eram constantes, ocupando pequenas faixas de terra. Pouco tempo depois já se havia formado um reino cristão na região norte da península. Mais terras foram sendo incorporadas pelos rebeldes e, ao final do século XI, um território na Galícia, que iria tornar-se Portugal, foi doado a um dos aliados na guerra contra os mouros, o conde borgonhês D. Henrique²⁷. Assim, a História do Nordeste brasileiro começa pelo brio das pessoas de Portugal que se reuniam dentro de uma gruta, em Covadonga²⁸. Esse brio impregnaria as almas do povo aventureiro que, depois, iria buscar terras longínquas e, por acaso, encontrariam o Brasil.

    1147

    • Os lusitanos tinham apenas um pequeno reino, mas eram valentes, lutando sem tréguas. Outros territórios foram sendo conquistados aos mouros, como a cidade de Lisboa em 1147, com o auxilio dos cruzados quando se dirigiam para as lutas na Palestina. Não havia momentos de paz na reconquista da pátria. O período da dinastia borgonhesa foi caracterizado por guerras, conquistas e intensas migrações internas. Na metade do século XIII Portugal já se encontrava geograficamente formado. A alma lusitana era forjada pela aventura, alma guerreira de conquistadores.

    • Os nobres locais, todavia, estavam em guerras contínuas entre si e os campos eram constantemente devastados pelos exércitos em marcha. Vários historiadores, como João D' Azevedo escrevem que provavelmente a população local agora se encontrava em situação pior do que quando estava sendo invadida pelos bárbaros. Na época das invasões mouras a população local tinha permissão para ficar com um terço da terra para si, mas agora, toda a terra era confiscada em nome do rei, sendo mantida pela coroa ou doada a seus chefes guerreiros. Albuquerque diz que cristãos e muçulmanos eram escravizados em grande número e não era incomum vê-los lutando lado a lado contra os novos conquistadores cristãos²⁹. A escravidão, portanto, já era uma realidade incorporada à economia.

    1290

    • Desde 1290, os assaltos e conquistas fizeram os soberanos portugueses assegurar à Coroa grande soma de terras e de riquezas. Naturalmente, o maior conquistador, dono do maior exército, era o rei. O monarca recebia de seus foreiros e rendeiros 50% do vinho, 1/3 do trigo e diferentes prestações de muitos gêneros e trabalhos. As propriedades tentavam sobreviver, buscando equilíbrio entre a produção e o consumo, depois de ter pagado ao rei. Nas feiras as sobras eram trocadas por outros produtos. O ouro dos cofres reais provinha, principalmente, dos tributos e presas de guerra. O sistema parecia bom, mas logo a Corte começou a gastar mais do que podia, tentando arrecadar dos proprietários, começando um desequilíbrio que só iria aumentar sem parar. A extorsão confundia-se com impostos e taxas enquanto a classe dirigente afastava-se enormemente da classe produtora.

    • A Corte descobriu que era preciso aumentar o número de pagadores e, então, começou a criar novas vilas e povoados, a fim de poder cobrar novas contribuições. O Rei transformava vilarejos em cidades, apenas para ter um feitor, um cobrador de impostos no local. Não se importava com as pessoas, mas com o imposto que ia arrecadar. Esse vício seria levado para as futuras colônias, como o Brasil, moldando a consciência governante de todos os tempos, até hoje. No Brasil Colônia e no Império, a intenção era arrecadar dinheiro, mesmo. Depois, na República, além do dinheiro, era para aumentar o poder, por meio de votos de cabresto. No Brasil moderno, até hoje, mais de três mil minúsculos municípios foram criados e vivem do dinheiro extorquido de impostos cobrados das pessoas que produzem alguma riqueza em outras regiões do país. A finalidade é manter a casta dos dirigentes do reino, ou seja, dos que estão no poder.

    • Com o passar dos tempos, houve uma crise de braços no campo e um êxodo das populações para as vilas e cidades, com grave prejuízo para a agricultura. Trabalho por trabalho, o da cidade era mais leve! O comércio interno, numa época em que não havia estradas, veículos de transportes e segurança para o tráfego, era precário e muito reduzido. Simonsen lembra que o padrão de vida era muito baixo naqueles tempos, em todos os países da Europa. A vagabundagem era grande, facilitada até pelas ordens religiosas e contra ela não se instituiu, como na Inglaterra, o trabalho forçado³⁰.

    1348

    • A Europa mudou de fisionomia com a chegada da Peste Negra: foi uma das epidemias mais devastadoras da história da humanidade, entre 1348 e 1350. Não há números reais, mas desapareceram entre 75 e 200 milhões de pessoas.  Em Portugal, a peste entrou no Outono de 1348, matando entre um terço e metade da população, levando a nação ao caos. Propriedades foram abandonadas; muitas eram assaltadas, proprietários ausentes foram substituídos por estranhos que chegavam e se apropriavam. Na esteira da praga surgiu uma série de revoltas religiosas, sociais e econômicas, que teve profundos efeitos sobre o curso da história europeia. Foram precisos 150 anos para a população da Europa se recuperar.  Foram convocadas as Cortes em 1352, para restaurar a ordem. Nenhuma outra peste foi nem remotamente tão devastadora como essa primeira. No mínimo, o povo relacionava a peste com a ira divina e a ignorância, a superstição e as crendices. A violência, a usurpação e todos os males foram utilizados para escapar do terrível mal. Foi nesse estado de espírito que os portugueses entenderam que o melhor seria tentar descobrir novos mundos.

    1385

    • Os portugueses eram muito arrojados: a dinastia de Borgonha conseguiu muito cedo o que outras nações europeias levaram séculos para fazer³¹. Em agosto de 1385, a vitória de Portugal sobre Castela, em Aljubarrota, consolidou a região como nação em expansão. Quando a dinastia de Avis galgou o poder em 1385, Portugal

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