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Mulheres na Prisão: Um Estudo Qualitativo
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E-book150 páginas2 horas

Mulheres na Prisão: Um Estudo Qualitativo

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Sobre este e-book

É preciso dar voz às mulheres privadas de liberdade. Pensando nisso, este livro examina as condições de vida das mulheres em situação de prisão em Minas Gerais, buscando identificar quais são, desde seu ponto de vista, as políticas públicas que podem ser desenvolvidas no sentido de garantir os direitos humanos na prisão
IdiomaPortuguês
Data de lançamento2 de fev. de 2018
ISBN9788547306373
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    Um livro de suma importância para aqueles que se debruçam sobre o sistema carcerário e buscam melhorias.

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Mulheres na Prisão - Betânia Diniz Gonçalves

COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS

AGRADECIMENTOS

Às mulheres que se dispuseram a dar entrevistas, contando-nos seus percursos e processos dentro das diversas penitenciárias pelas quais passaram ou em que ainda se encontram.

Ao FIP/PUC Minas, pelo financiamento.

Prisão

Nesta cidade quatro mulheres estão no cárcere. Apenas quatro. Uma na cela que dá para o rio, outra na cela que dá para o monte, outra na cela que dá para a igreja e a última na do cemitério ali embaixo. Apenas quatro.

Quarenta mulheres noutra cidade, quarenta, ao menos, estão no cárcere. Dez voltadas para as espumas, dez para a lua movediça, dez para pedras sem resposta, dez para espelhos enganosos. Em celas de ar, de água, de vidro estão presas quarenta mulheres, quarenta ao menos, naquela cidade.

Quatrocentas mulheres, quatrocentas, digo, estão presas: cem por ódio, cem por amor, cem por orgulho, cem por desprezo em celas de ferro, em celas de fogo, em celas sem ferro nem fogo, somente de dor e silêncio, quatrocentas mulheres, numa outra cidade, quatrocentas, digo, estão presas.

Quatro mil mulheres, no cárcere, e quatro milhões – e já nem sei a conta, em lugares que ninguém sabe, estão presas, estão para sempre – sem janela e sem esperança, umas voltadas para o presente, outras para o passado, e as outras para o futuro, e o resto – o resto, sem futuro, passado ou presente, presas em prisão giratória, presas em delírio, na sombra, presas por outros e por si mesmas, tão presas que ninguém as solta, e nem o rubro galo do sol nem a andorinha azul da lua podem levar qualquer recado à prisão por onde as mulheres se convertem em sal e muro. 1956.

(Cecília Meireles, 2001, v. 2, p. 1759­60)

APRESENTAÇÃO

Neste momento, na história do sistema prisional brasileiro, marcado por ondas de rebeliões, assassinatos e depredações nas prisões masculinas, não temos nenhuma notícia sobre as condições nas prisões de mulheres detentas. De fato, um segmento de nossa sociedade cujos problemas e condições de vida são geralmente ignorados, seja pelas autoridades ou pesquisadores acadêmicos é o de mulheres detidas no sistema prisional. São poucos os estudos sobre essa parte da grande população penitenciária e suas necessidades e vivências no contexto de privação da liberdade.

Talvez a crescente incidência de violência coletiva em prisões masculinas tenha tirado o foco do sofrimento de mulheres submetidas à reclusão prisional por elas serem menos propensas a se amotinar contra as condições de vida das penitenciárias atuais. No entanto, esse viés em privilegiar pesquisar detentos produz uma grande lacuna de conhecimento que é importantíssimo para pensar reforma prisional e mudanças na maneira com que a sociedade lida com os egressos dessas instituições correcionais. Nesse sentido, estudos sobre mulheres na prisão são importantes para trazer subsídios para política pública e para organizações da sociedade civil em definindo suas políticas de prestação de serviços a esse segmento prisional.

Considerando as dificuldades em realizar pesquisa no ambiente prisional, a complexidade dessa problemática e as restrições que situações de instituições totais impostas nos esforços de obter conhecimento sobre as condições, assim como o desafio de acessar detentos para serem entrevistados, são em parte compreensíveis porque há poucos estudos na literatura sobre prisões de perspectivas psicossociais e psicopolíticas. Por essas razões é muito importante a publicação do livro Mulheres Presas: um estudo qualitativo. As autoras Betânia Diniz Gonçalves, Carolina Marra Simões Coelho e Cristina Campolina Vilas Boas trazem ao público leitor um estudo que revela as condições de vida, deficiências e falhas nas políticas do Estado no contexto prisional e os dilemas enfrentadas por essas mulheres em lidando cotidianamente com a estrutura, agentes e imposições de uma instituição total.

Baseadas em uma pesquisa qualitativa de grupos focais com mulheres presas realizada em três penitenciárias na região de Belo Horizonte/Minas Gerais, as pesquisadoras, por meio de análises cuidadas das entrevistas coletivas, conseguem revelar uma trama de relações dominantes, necessidades, alternativas para atendê-las e resistências a imposições arbitrárias, seja das autoridades prisionais ou de outras detentas. Essa pesquisa exploratória consegue ir além dos muros das prisões para dar voz às mulheres que vivem cotidianamente a vida das mais excluídas de qualquer sociedade. Ignoradas pelos pesquisadores de assuntos penitenciários e segurança pública, ignoradas por pesquisadoras de temas feministas e excluídas de sua sociedade pelas condições intersetadas de gênero, estigma prisional e afastamento da sociedade, essas mulheres confiaram nas autoras para contar com certo detalhe suas vivências, expressar suas opiniões e trazer a público suas dúvidas quanto ao que podem esperar do futuro. Sem poder de significativamente alterar os rumos de suas histórias controladas pela instituição total, as pesquisadoras ofereceram, em registrando seus depoimentos, um veículo para que as entrevistadas contribuam para mudanças da prisão, um contexto cristalizado na Idade Média. É notável a habilidade das pesquisadoras de poder realizar uma pesquisa com entrevistas no contexto prisional, e ainda mais admirável o fato de que 28 detentas concordassem em participar nos grupos focais, revelando assim a realidade social produzida dentro dos muros da prisão.

As autoras apresentam um retrato pintado pelas vozes das 28 entrevistadas de um tipo de vida ocultada da vista da grande sociedade. A contribuição do estudo é evidente, na medida em que as autoras apresentam elementos das experiências dessas mulheres que são relevantes para subsidiar esta grande tarefa que hoje enfrenta a sociedade: a reforma prisional. Por esse motivo, o livro Mulheres Presas: um estudo qualitativo é uma leitura obrigatória para conhecer de perto um dos maiores desafios das sociedades contemporâneas.

Salvador A. M. Sandoval

Professor titular

Núcleo de Psicologia Política e Movimentos Sociais

Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social

PUC-SP

PREFÁCIO

MULHERES: visibilizar o invisível

Dois gestos eloquentes

No dia 25 de março de 2017, o Papa Francisco visitou a Arquidiocese de Milão, Itália, e lá fez questão de ir ao encontro dos detentos na prisão de San Vittore. É habitual que o Pontífice visite detentos e se reúna com eles por ocasião de suas visitas apostólicas. É inabitual, entretanto, que o Papa converse reservadamente com alguns deles, almoce com outros e ainda descanse, em pequeno sono restaurador, na própria prisão antes de presidir a celebração da eucaristia. É a primeira vez na história que um Papa descansa dentro de uma prisão.

Em 9 de julho de 2015, o Papa Francisco foi à Bolívia para o seu II Encontro com Movimentos Populares. A caminho de um de seus compromissos, ele ouviu cantos. Eram mulheres cantando, e cantando para ele que passava. Imediatamente mandou parar o carro, desceu e foi acenar àquelas mulheres, confinadas em uma penitenciária feminina. Ele ouviu a cantoria por trás de muros e grades. Acenou para elas e abençoou as mulheres tornadas invisíveis para a sociedade. Se de algumas coisas que se passam em penitenciárias masculinas nós sabemos, não sabemos o que se passa em penitenciárias femininas. Esse aceno nos faz dar conta de que precisamos ver o que ali se passa com as mulheres.

Mulheres eloquentes

Quatro mulheres se uniram em uma empreitada pertinente à condição da mulher, de toda mulher, mas sob o ângulo específico da mulher em situação de privação de liberdade e de seus direitos humanos. A bem da verdade, visto de outro prisma, o trabalho diz respeito também, lúcida e energicamente, aos homens. São elas, Betânia Diniz Gonçalves, Carolina Marra Simões Coelho,

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