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Estilo Moderno: Humor, literatura e publicidade em Bastos Tigre
Estilo Moderno: Humor, literatura e publicidade em Bastos Tigre
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E-book482 páginas6 horas

Estilo Moderno: Humor, literatura e publicidade em Bastos Tigre

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Sobre este e-book

Hoje esquecido pelo público e pela crítica literária, Manuel Bastos Tigre foi um dos grandes personagens do agitado início do século XX. Em sua insessante busca para ser moderno, testava novas linguagens para atrair o público que o aplaudia e se divertia com seus textos. Como profissional das letras, produziu poemas humorísticos, peças do teatro ligeiro e foi um pioneiro da publicidade no Brasil, compondo jingles e anúncios que circulavam pela imprensa, em cartazes de rua e até bondes elétricos da capital federal, além de militar pela causa dos direitos autorais. Por tudo isso, este personagem abre caminho para uma análise ampla dos sentidos da modernidade e da cultura urbana carioca no período. A obra, que disponibiliza 182 imagens e sete fonogramas, desvenda os significados da produção literária e das escolhas profissionais desse autor, relacionando-as ao tempo em que ele viveu e atuou, atravessado por dilemas políticos, sociais, de gêner e raciais. As polêmicas que provocou e o legado de sua trajetória profissional permitem também refletir sobre a natureza e as fronteiras da literatura e sua relação com a história.
Em formato ePub2, o livro tem uma introdução, dez capítulos e um epílogo, com 182 imagens e seis fonogramas, permitindo ver e escutar ao mesmo tempo em que se realiza a leitura do texto. Como todos os volumes da coleção "Históri@ Illustrada", a obra é acompanhada por um vídeo que pode ser visto (ou baixado) gratuitamente. Acesse o vídeo "Humor, literatura e publicidade" no canal do Cecult - Históri@ Illustrada no Youtube.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento12 de abr. de 2017
ISBN9788526813816
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    Estilo Moderno - Marcelo Balaban

    Estilo Moderno

    MARCELO BALABAN

    ESTILO MODERNO

    Humor, literatura e publicidade

    em Bastos Tigre

    ImagemImagem

    UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

    Reitor

    JOSÉ TADEU JORGE

    Coordenador Geral da Universidade

    ALVARO PENTEADO CRÓSTA

    Imagem

    Conselho Editorial

    Presidente

    EDUARDO GUIMARÃES

    ELINTON ADAMI CHAIM – ESDRAS RODRIGUES SILVA

    GUITA GRIN DEBERT – JULIO CESAR HADLER NETO

    LUIZ FRANCISCO DIAS – MARCO AURÉLIO CREMASCO

    RICARDO ANTUNES – SEDI HIRANO

    Imagem

    Coleção Históri@ Illustrada

    Comissão Editorial

    SILVIA HUNOLD LARA (COORDENADORA)

    MARIA CLEMENTINA PEREIRA CUNHA – MARTHA CAMPOS ABREU

    RICARDO ANTUNES – SIDNEY CHALHOUB

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    Para Marília, a surpresa e a alegria da vida.

    fontespicio

    Diz a fábula que um dia

    um tigre, d’alma malvada,

    deitou a garra aguçada

    numa ovelhinha macia...

    Por isso nunca resisto

    quando, abraçado, contemplo

    - d’amizade um grande exemplo –

    O D. Xiquote e o Calixto!...

    E fico a pensar comigo,

    convencido e verdadeiro,

    que o tigre, do bom cordeiro,

    é alias muito amigo!

    (Sir. Epigrama, Tagarela, 6 dez. 1902).

    SUMÁRIO

    INTRODUÇÃO

    CAPÍTULO I – MUITO TALENTO

    Um Rio gavrochesco

    Mulheres de toda casta e condição

    Preto que salta muros de noite...

    Menino prodígio

    CAPÍTULO II – O BOM DON XIQUOTE

    A antessala da posteridade

    Poetas e águias

    O pesadelo do pavão

    CAPÍTULO III – DEPRESSA! DEPRESSA!

    Bota-abaixo

    Saneando a cidade

    Saneando as pessoas

    CAPÍTULO IV – A NOSSA CIVILIZAÇÃO

    A rua está outra, não a conheci bem

    O conquistador das regiões etéreas

    CAPÍTULO V – MUSA BOÊMIA E VADIA

    Um gênero difícil

    Os promptos

    Os alfinetes do epigrama

    CAPÍTULO VI – MAXIXE FOR EVER!

    A pergunta isoladora das ironias diretas

    La Mattchitche, a nova dança da sensação

    O arauto da nossa pátria

    CAPÍTULO VII – DE VOLTA À ESTACIÓPOLIS

    Yankomania

    O poeta satírico da raça

    Cidade volúvel

    CAPÍTULO VIII – SÁTIRA PARNASIANA

    Un tigre de poche

    Avis rara

    Musa risonha

    CAPÍTULO IX – O FEIJÃO E A CARNE FRESCA

    A profissão literária

    Aristocracia intelectual

    Viriato versus Fróes

    CAPÍTULO X – GRITANDO ESPALHAREI POR TODA A PARTE

    A correta linguagem literária

    Senhora onipotente do mundo

    Engenho e arte

    EPÍLOGO

    ABREVIATURAS UTILIZADAS

    NOTAS

    CRÉDITOS DE IMAGENS E FONOGRAMAS

    FONTES E BIBLIOGRAFIA

    SOBRE O AUTOR

    INTRODUÇÃO

    COMECEMOS com uma piada.

    Imagem

    1. Caricatura de Bastos Tigre e Olavo Bilac publicada na revista D. Quixote em 1917.

    Fazia pouco tempo que a revista D. Quixote começara a circular. Autodefinindo-se como um jornal de graça... por 200 réis, o periódico humorístico logo caiu nas graças do público carioca, bastante acostumado a esse tipo de publicação. Entre suas seções, O perigo do trocadilho desperta particular interesse. Desenhada pelo renomado caricaturista Calixto Cordeiro, que assinava apenas K. Lixto – o que era também um ligeiro jogo de palavras –, essa seção brinca com o potencial de confusão embutido no humor trocadilhesco, capaz de causar toda sorte de conflito. Mas, afinal, poderia o trocadilho oferecer algum perigo real no Rio de Janeiro das primeiras década do século XX?

    Piadas como essa são geralmente difíceis de interpretar. Talvez seja o humor um dos mais perturbadores desafios da análise histórica. Compostas por lógicas muito especificas, geralmente as piadas operam com uma quantidade enorme de não ditos cujo sentido tende a perder-se no tempo. Também não são nada evidentes os objetivos e os princípios organizadores de uma piada quando colocada fora de contexto. De maneira geral, o humor é uma experiência histórica particular. Carece de muito pouco tempo para perder o sentido, ou perder a graça.1 Por isso, é um tipo de testemunho particularmente difícil de interpretar. No entanto, mesmo estando o efeito cômico perdido, desvendar os sentidos sociais de antigas pilhérias constitui um meio instigante para analisar tensões, desvendar diferenças sociais e ter acesso a significados de outra forma perdidos para a história.

    No caso dessa charge de K. Lixto, a agitação gira em torno do Dr. Bastos Tigre, de Raul [Pederneiras], do próprio Calixto e do grande Olavo Bilac, nada menos do que o mais renomado poeta daquele momento, cujo comentário gerou a grande balbúrdia. O moleque de rua, fonte de informação do intrigado policial, logo tratou de explicar a confusão: "não é barulho não, seu polícia. O menino queria dizer que não se tratava de briga ou baderna, coisa de gente desqualificada. Barulho", na gíria policial da época, servia para definir incidentes em geral atribuídos a pessoas de posição social mais baixa, alvos constantes das forças de repressão. Em muitos casos, acabava com os evolvidos sendo recolhidos ao xadrez. Não era o caso dos homens de letras, indivíduos prestigiados e cultuados, olhados permanentemente com admiração e respeito.

    O menino se apressa em explicar tratar-se apenas de um mal-entendido resultante de um comentário inocente, mas ambíguo, de Bilac. Até onde consigo imaginar, há três possíveis significados para a frase dita por ele. O primeiro, bastante literal, seria a constatação de que o doutor Bastos Tigre portava uma bengala, algo talvez pouco usual para ele. Não foi esse o entendimento geral, pois de uma observação assim não resultaria tumulto. Um segundo, era o resultado de juntar o sobrenome Tigre com o substantivo bengala. Um verdadeiro Tigre de bengala, fera solta nas ruas do Rio de Janeiro, seria motivo suficiente para um grande reboliço. O único felino real do desenho, contudo, é o pequeno e inofensivo gato que, vítima de uma pisada na cauda, parece soltar um miado dolorido e agudo. Finalmente, o terceiro sentido seria a percepção de que Bastos Tigre portava uma potencial arma. Além de servir para compor a indumentária masculina, a bengala era, não poucas vezes, desde o século XIX, um artefato usado por homens em barulhos e brigas eventuais.

    Dessa gama de significados resultou a desordem. Na charge, além de Bilac, que segue tranquilo seu caminho, alheio à confusão, figuram o personagem central deste livro, o humorista Manoel Bastos Tigre, atracado ao escritor e desenhista Raul Pederneiras, junto à autocaricatura de K. Lixto, além do policial, do moleque de rua e demais transeuntes. Os três destacados nomes do humor carioca, nesse caso, são parte da piada. Calixto tematiza a si próprio junto com dois de seus mais contumazes parceiros. Dispostos no centro da cena, veem-se metidos em uma enrascada. A frase de Bilac, no lugar de ser compreendida como uma piada, um autêntico trocadilho, arte bastante apreciada naquele instante, teria sido interpretada ao pé da letra por alguns dos presentes – e cada um escolheu um sentido diferente. Além de ser reputado o maior poeta vivo do país, Bilac cultivava a imagem de literato sério, não um humorista. Ademais, o calemburgo,2 no modo de entender de muitos, era arte menor, indigna do príncipe dos poetas do Brasil. Sendo assim, está explicada a piada: como da boca de Bilac jamais sairia um trocadilho, qualquer dos significados de sua frase poderia ser tomado ao pé da letra, inclusive o de haver um verdadeiro tigre de bengala solto nas ruas, ou de Bastos Tigre estar dando – ou na iminência de dar – bengaladas em seus colegas de humorismo, algo decerto considerado absurdo. Dada a calma de Bilac, é provável que ele tenha apenas reparado na nova peça do figurino do amigo.

    Trata-se, como se pode concluir, de uma piada sobre a moda de fazer piadas. Nela, Calixto Cordeiro, amigo de longa data de Tigre e parceiro em muitos trabalhos, afirma não ser o humorismo algo simples ou trivial. Apenas os mestres do gênero, como ele próprio, o Raul e o Dr. Bastos Tigre, saberiam fazer boas pilhérias. Era arte delicada, potencialmente perigosa, caso não fosse praticada por especialistas. Uma frase colocada fora de contexto poderia gerar confusão e nem sempre haveria um atento e bem informado garoto para explicar a situação. Se até mesmo o grande Olavo Bilac poderia gerar transtornos, o que dizer de reles mortais.

    A relação de amizade e parceria entre Cordeiro e Tigre também é parte importante dessa caricatura. Apesar da aparente briga, a cena mostra somente um ligeiro contratempo, um tumulto passageiro. Por isso deve ser lida como uma simples pilhéria. Os leitores da época sabiam muito bem das boas relações de Tigre, Pederneiras, e K. Lixto. A epígrafe deste livro, aliás, é mais uma brincadeira bem à moda do tempo sobre a amizade entre D. Xiquote – principal pseudônimo de Bastos Tigre – e Calixto Cordeiro. A fama do humorista Bastos Tigre, vítima recorrente de incontáveis brincadeiras envolvendo seu nome, com as quais o leitor deve começar a se acostumar, era o oposto de uma alma malvada. No lugar de assemelhar-se a uma fera sempre pronta a cravar garras e dentes afiados na carne macia de ovelhas e cordeiros distraídos, seria mais bem descrito como um inofensivo gatinho. Com o talento de humorista de primeira e poeta de grande capacidade técnica, seria Tigre um dos mais legítimos representantes da nova geração de literatos em atuação no Rio de Janeiro do início do século XX.

    Nas páginas a seguir, conto parte da história desse escritor esquecido. Manoel Bastos Tigre nasceu a 12 de março de 1882 em Recife, Pernambuco, e faleceu no Rio de Janeiro em 1957, com 75 anos. Filho de Delfino da Silva Tigre e Leopoldina de Oliveira Bastos, frequentou o Colégio Diocesano de Olinda, onde lançou seu primeiro projeto como escritor, o jornalzinho O Vigia, redigido inteiramente à mão pelo próprio Tigre. Em 1898 foi para o Rio de Janeiro estudar engenharia na Escola Politécnica, mas, apesar de concluir o curso, sua vida na capital federal foi dedicada a uma atividade literária caracterizada por ser peculiarmente múltipla: era um contumaz colaborador de jornais e revistas ilustradas, foi um inventivo publicitário – um dos primeiros a profissionalizar essa atividade –, frequentou diversas rodas boêmias e literárias, foi conferencista de sucesso, publicou livros de poesias, consagrou-se como autor teatral e ainda encontrou tempo para ser bibliotecário. Em todas essas atividades era conhecido como um dos grandes da literatura humorística carioca ou até nacional, ainda que sua fama não tenha suportado a impiedosa passagem do tempo.3 Ao longo de sua nada tranquila ou linear trajetória profissional, Tigre procurou reiteradamente associar sua perspectiva humorística a uma concepção de civilização, frequentemente relacionada às ideias de progresso, elegância e ilustração, atitude reputada moderna. Este livro é um esforço de decifração de alguns significados dessa associação.

    Nele, a trajetória de Bastos Tigre revela uma tendência importante, vivenciada por muitos escritores do início do século como um impasse e um desafio. Por isso vale a pena acompanhar, através dos capítulos que se seguem, a história desse bem pouco lembrado literato. Com ela, busco entender os dilemas de um indivíduo devotado ao gênero do humor e da sátira, que tanto se empenhava em se sagrar homem de letras (nos velhos moldes de uma atividade ungida pela respeitabilidade e o prestígio das Belas Letras) em uma circunstância em que o nobre ofício dos escritores passava por intensas transformações. Além de desenvolver alta literatura, alcançando assim um status social adequado a seus próprios anseios, buscava também sobreviver exclusivamente da pena, o nobre instrumento de trabalho dos escritores. Isso significava, na prática, usar o talento para produzir uma literatura voltada para públicos mais amplos e finalidades entendidas como menos nobres, distintas da simples fruição estética ou da dedicação a uma causa unificadora – como fora a Abolição e a República para a geração boêmia que precedeu a de Tigre e que ele tanto admirava. Humor e jornalismo, teatro de revista, reclames e mais reclames saíam da sua pena e lhe garantiam visibilidade e dinheiro: a literatura saía de seu suporte exclusivo – o papel impresso – para achar outros nichos profissionais e suportes, por Tigre devidamente valorizados, como os cartazes de bonde, os jingles, as letras de maxixes gravados pela Casa Edson. Tigre não foi o primeiro a fazê-lo, mas certamente foi pioneiro na profissionalização dessas novas possibilidades abertas pelos e para os homens de talento literário, criando ofícios capazes de gerar novas oportunidades de ganho financeiro. Não o fez sem dilemas ou sem explicações, que buscou pela associação às qualidades alegres, elegantes, cosmopolitas, mundanas e civilizadas que sincronizavam seu trabalho com um mundo em processo acelerado de mudanças, ao qual atribuiu insistentemente o rótulo de moderno.4

    O adjetivo – transformado em categoria histórica – ocupa lugar de destaque na historiografia do Brasil e alhures. Por isso, não pretendo bulir com ele nem polemizar com tantos, e tão bem fundamentados, trabalhos centrados na ideia de modernidade. Minha opção, decerto um tanto imprudente, de conferir lugar destacado ao termo, neste livro, decorre tão somente da recorrência com que ele é utilizado por seu personagem principal. Trata-se, arrisco afirmar, de questão central para Bastos Tigre. Por isso ela ocupa lugar de destaque e ganha a forma de um verdadeiro problema histórico: quais os sentidos de moderno para Tigre e seus pares? E por que esse termo era tão importante para ele? Sem pretender uma resposta única e fechada, o leitor irá encontrar neste livro um conjunto amplo e dinâmico de respostas, as quais oscilam à medida que Bastos Tigre lhe confere sentidos diferentes. Por isso, neste livro, o moderno não pode ser identificado com qualquer unidade ou com um conceito capaz de explicar as linhas mestras de um tempo, nem pode definir qualquer experiência unívoca. Ao contrário, é entendido como um foco de disputas entre homens de letras. Cada um dava sentido particular à noção. Sendo central para a geração de escritores do início do século XX, era uma identidade reivindicada pela maioria deles. Mas, querendo ser modernos, não buscavam a mesma coisa: sob o mesmo rótulo visões de mundo, interpretações do presente e expectativas para o futuro eram confrontadas.

    Bastos Tigre, sempre querendo estar up to the date, buscava desenvolver uma literatura identificada com a novidade. O humor desenvolvido por ele, oposto à tristeza e à melancolia do passado, deveria ser uma das marcas dos novos tempos, quando a cidade do Rio de Janeiro era remodelada, o combate aos comportamentos e às ações das classes populares ganhava impulso renovado em nome de hábitos, valores e comportamentos igualmente definidos como melhores e civilizados. Por estas e tantas outras razões, Tigre perseguia uma maneira diferente de fazer literatura: buscava escrever em estilo moderno.5

    Seu estilo não tardou a perder espaço para o modernismo, que tomou de assalto o cenário literário no Brasil a partir dos anos 1920. Aliás, as décadas de 1900 e 1910, época áurea de Bastos Tigre, foram definidas pela crítica literária como pré-modernismo. Com tal rótulo, os sentidos da literatura moderna, não modernista, perseguidos por Tigre e seus pares foram sendo apagados, e esquecidos, em um processo semelhante ao do bota-abaixo, sustentado pela noção de construir o novo sobre os escombros do passado. Oswald e Mário de Andrade, Manuel Bandeira e tantos outros artistas que se tornaram referências obrigatórias nos manuais de história literária, pela sua ousadia formal e extremo nacionalismo, certamente olhariam com desprezo ou condescendência para o velho Tigre em seu ocaso. Desde então, ele foi desaparecendo das rodas literárias e da memória coletiva. Visitá-lo – e tentar encontrar novamente o sabor de suas pilhérias e calemburgos, como o significado de suas escolhas profissionais – pode, entretanto, nos levar por uma proveitosa viagem por um tempo cujos desdobramentos ainda se revelam em nossos conturbados dias.

    Imagem

    Por princípio, livros são obras coletivas. Por isso, constitui uma grande injustiça colocar na capa apenas o nome de uma pessoa, chamada de autor, entre as tantas envolvidas em sua criação. Agradecimentos são uma forma, ainda que modesta, de reduzir essa falta.

    Começo com as organizadoras da coleção. Além de me oferecer uma deliciosa oportunidade de revisitar e finalizar minha pesquisa iniciada ainda no primeiro ano da graduação em Letras na Unicamp, permitindo-me lembrar dos bons tempos em que era um historiador em formação, as professoras Silvia H. Lara e Maria Clementina Pereira Cunha, com a competência e a generosidade de que apenas elas são capazes, aturaram atrasos, incentivaram e ajudaram a dar forma final ao livro. Bem mais do que isso, leram cada capítulo, corrigiram muitos dos meus equívocos e dividiram comigo a rica experiência de escrever um livro em suporte eletrônico. Além de revisitar as fontes e a bibliografia sobre o Rio de Janeiro e a literatura do início do século XX, ao escrever este e-book pude aprender muito sobre o tão importante e difundido debate acerca do futuro dos livros. O nome das duas, com certeza, deveria aparecer na capa.

    Já se vão 15 anos desde a conclusão da primeira versão do que hoje constitui este livro. Tive a grande sorte e a imensa alegria de conviver nesse período com a professora Margarida de Souza Neves. Foi com ela que aprendi o ofício do historiador. Suas lições, Guida, estão espalhadas em cada parte da obra agora acabada. Por isso, o nome da professora Margarida deveria também figurar junto ao meu.

    Ainda no capítulo orientação, mesmo não participando diretamente desta pesquisa, as lições do professor Sidney Chalhoub estão presentes em muitas partes deste livro. Não poderia esquecer o povo todo do Cecult, em especial o Bob, o Cláudio, o Jefferson, o Fernando e a sempre atenta, e tranquila, Flávia. O Cecult é, para mim, uma espécie de celeiro no qual eu e tantos colegas nos formamos profissionalmente.

    Ainda que inteiramente remodelada – transformei três capítulos em dez –, boa parte da essência da pesquisa inicial está preservada no livro. Durante a investigação e a escrita da primeira versão, pude contar com longos comentários de Flora Sussekind, assim como de Ilmar R. Mattos que, certa vez, me disse palavras perturbadoras: apenas sabemos o que queremos com uma pesquisa quando chegamos ao final dela. Terminado o livro, creio ter finalmente entendido o sentido dessas sábias palavras.

    Com os amigos de longa data, bem como com os mais recentes, contraí dívidas impagáveis. O que eu teria feito sem minha amiga Elciene, sem Cris, Gabriela, Lerice, Endrica, Ana Carolina e Eneida, Tiago, Arthur, Marcos, Neuma, Antulio, Massaya, Vera e Ela? Também devo muito a meus alunos – tanto aqueles que tive e tenho a sorte de orientar como os que conheci somente em sala de aula.

    No capítulo família, começo com seu Arnoldo, dona Geralda, Wendo, os cachorros e, mais recentemente, a Tati e minha por nascer sobrinha Malu. Desde o início de meu namoro com a Marilia, fui recebido com imenso carinho por todos. Tamanho acalanto faz com que eu me sinta parte da família desde sempre.

    A família em que nasci é enorme. Thiago (saudações tricolores) e Marisinha (minha irmã de coração), mesmo de longe, sempre dão seu jeito de ficar por perto. Aos demais tios e primos, agradeço por meio da minha mais do que muito amada vó Lygia. Ela, além de me ensinar muita coisa sobre o tempo de Bastos Tigre, na juventude dos seus 97 anos segue esbanjando vida, força e energia. É uma fonte constante de inspiração e alegria.

    Minha mãe segue firme, forte e tão querida. É simplesmente um agradecimento impossível. Sergio e Claudia continuam por perto, mesmo nem sempre estando ao alcance da vista. Minha amada sobrinha Jujuca ainda é a minha professora de brincadeira. Meu pai não viu mais este livro. Tenho certeza que, como ocorreu com os demais, teria ficado bastante feliz com esta nova publicação.

    Em casa, Tobias e Bonifácio, sempre alegres, fazendo uma festa sem fim todas as manhãs na hora da ração, foram capazes de mudar meu humor em dias bastante ruins. Desde que conheci Marília, a vida ganhou sentido e sabor novo. Minha companheira de vida aturou maus humores, assumiu tarefas domésticas, sempre me incentivou e apoiou. Você faz tanto, que nem sei quanto...

    Capítulo 1

    MUITO TALENTO

    Um Rio gavrochesco

    ASSIM QUE chegou ao Rio de Janeiro, pediu a seu pai que o levasse até o número 32 da rua Gonçalves Dias. Era esse o endereço da mítica Confeitaria Colombo, onde se reunia a mais celebrada roda de escritores da cidade.

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    2 e 3. Fachada e interior da Confeitaria Colombo, c. 1914.

    Mesmo estando um tanto nervoso, o que lhe provocava um ligeiro tremor no corpo, não hesitou em ir apertar as mãos de Olavo Bilac, a estrela alfa daquele cenáculo literário, declarando-lhe toda a sua estima e admiração. E não fez por menos: apresentou-se como o maior entre todos os seus admiradores. Não deixou de reparar nos menores detalhes: da flor exótica elegantemente disposta na lapela do terno cinzento ao carinho com que Bilac recebera seu humilde, mas sincero, cumprimento. Tudo parecia estar em perfeita harmonia naquele que considerava ser o maior poeta do Brasil. Com tamanha emoção, como fez questão de ressaltar, as lágrimas foram inevitáveis.

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    4 e 5. Fotografia e caricatura de Olavo Bilac em 1907 e 1910.

    Naquele ano de 1901, quando chegara ao Rio de Janeiro para iniciar os estudos superiores, contava apenas 17 anos. A paixão pela literatura e pelos literatos da Colombo fez da confeitaria a sua primeira e obrigatória parada na cidade. O primeiro encontro confirmou e reforçou a imagem dos escritores daquela roda literária cultivada pelo jovem aspirante. Não apenas o figurino elegante, mas os modos cativantes e a palestra inteligente encaixavam-se com perfeição, formando uma unidade indissolúvel com a imagem criada com base em suas poesias, seus romances, contos e crônicas, dos quais o rapaz já era íntimo há algum tempo.

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    6. Martins Fontes em 1915.

    O moço em questão era Martins Fontes.1 Ele vinha de Santos para estudar medicina e, como tantos outros, nutria o sonho de integrar o cobiçado mundo das letras cariocas. Exceção à regra, o jovem poeta não tardou a cativar aqueles que idolatrava e por isso conseguiu atingir sua meta, passando de admirador a membro do grupo. Por essa razão, o dia em que conheceu Olavo Bilac foi especial e ficou gravado na memória. Anos mais tarde, depois de sagrar-se poeta parnasiano respeitado, escreveu sobre o que significava o grupo da Colombo para ele e sua geração:

    Talento, talento, muito talento. Cada um de nós reproduzia a cidade, reflamejava.

    [...]

    O Rio gargalhava, guizalhava, gavrochesco. A roda literária, reunida em casa de Coelho Netto, em tertúlias famosas, ou, diariamente, na Confeitaria Colombo, em seratas memoráveis, deslumbrava a cidade, constituía o seu maior orgulho. Uma pilhéria de Emilio de Menezes corria a urbe de ponta a ponta, um novo soneto de Olavo Bilac recitava-se até nas ruas, entre aclamações, como tantas vezes tive ocasião de ouvir, até nos bondes. A amizade era religiosa. Amávamos até a bengalada, brigando por qualquer censura feita a qualquer dos companheiros. União maçônica, terribilíssima.2

    Reafirmando seu fascínio pelos escritores, Fontes estendeu a toda a cidade as características que definiam o grupo que se reunia diariamente, em "seratas3 memoráveis, nas mesas da Colombo. Idolatrando os principais nomes que formavam o que ficou conhecido como a segunda geração boêmia,4 pintava-os como verdadeiros semideuses. Para ele, o que definia aquele grupo era o talento em grande quantidade, noção de resto subjetiva, definida por meio de critérios e valores intrínsecos ao grupo. Para o poeta, toda a cidade gargalhava de forma gavrochesca",5 regida pelos literatos, os maestros absolutos daquela peculiar ópera de costumes. A vinculação do personagem de Victor Hugo à ideia de alegria chama a atenção. A síntese que ele procura construir unia as noções de amizade, juventude e destemor revolucionário. Mas tudo isso de forma alegre, muito alegre e jovial. A gargalhar, aquela peculiar confraria de homens de letras pretendia definir a cara da cidade. Por tudo isso, na visão do médico santista, aquela era uma época especial, não por acaso chamada de belle époque.

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    Um pouco antes, em 1899, chegou ao Rio um outro moço – este vindo de Recife para estudar engenharia na Escola Politécnica. Somente três anos depois do desembarque na cidade, por volta de julho de 1902, ele viveu experiência semelhante à de Martins Fontes. Bastos Tigre tinha então 20 anos e estava prestes a publicar seu primeiro livro de versos, com o sugestivo nome de Saguão da posteridade.6 A pequena brochura tratava de seus colegas e mestres da escola de engenharia. O sucesso dos versos que vez por outra lia para os amigos no saguão principal do prédio do largo de São Francisco motivara uma subscrição para juntar recursos e dar forma de livro aos poemas.

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    7. Largo de São Francisco, centro do Rio de Janeiro, em 1895.

    Certa manhã, Tigre estava revendo as provas do livro na tipografia Altina quando foi apresentado por Rodolfo Macedo, o proprietário, ao poeta Emilio de Menezes.

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    8 e 9. Fotografia e caricatura de Emilio de Menezes em 1908 e 1904.

    Para seu espanto, este pediu para ver suas rimas. Após alguns instantes de suspense e aflição – afinal, era um dos ídolos de Tigre que lia seus poemas –, a surpresa inicial aumentou ainda mais quando, terminada a leitura, Menezes desancou-o com as mais ferozes críticas. O poeta irritara-se com o desleixo com que os versos haviam sido confeccionados, estando repletos de licenças poéticas, coisa de cretinos no seu modo de ver. A poesia, segundo os princípios exortados por Menezes, exigia árduo trabalho com a língua e respeito às regras e técnicas próprias de cada tipo de versificação.7 Ao contrário do que imaginou Tigre, a severidade da crítica significava um reconhecimento do valor de seu autor. Entre outras qualidades, o renomado poeta satírico ressaltou a graça, a hilaridade que continham. Por conseguinte, intimou o jovem autor a trabalhar seus versos condignamente. E foi isso que o então calouro nas letras apressou-se em fazer, emendando os versos da melhor maneira possível. Estavam, assim, abertas as portas do mais famoso cenáculo literário da cidade àquele estudante de nome engraçado.

    Dias depois, foi levado à Colombo pelas mãos do próprio Emilio de Menezes. Com o entusiasmo característico de seu conhecido espírito folgazão, apresentou Tigre aos da roda: Conheçam aqui este animal de pelo, gritou à porta do estabelecimento.

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    10. Bastos Tigre em 1905.

    Naturalmente, a forma de introduzir o jovem estudante de longos e volumosos bigodes espetados nas pontas era uma pilhéria com seu nome. Além de Pedro Rabelo e Plácido Júnior, lá estava Olavo Bilac, a figura que despertou maior interesse e por quem Tigre também nutria maior admiração. Emocionado ao apertar as mãos do autor de Ouvir Estrelas, dele esperou a palavra exata, caprichosamente burilada no melhor estilo parnasiano. No mesmo instante, contudo, adentrava o recinto o poeta Guimarães Passos – o Guima, como era apelidado.

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    11. Guimarães Passos, o Guima, em 1904.

    Sem hesitar, Bilac lançou a inesperada pergunta: Seu Guima, que bicho deu?. Logo veio a resposta e a decepção: Bolas!, disse Bilac. Deu peru! E eu que joguei no elefante!.8

    Foi uma dupla decepção: enquanto o poeta perdia no jogo, desmoronava a imagem que Tigre idealizara daquele grupo de escritores, personificada na até então excelsa figura de Olavo Bilac. A decepção foi, no entanto, passageira. Não durou mais do que o tempo do susto. Naquele memorável dia, o jovem candidato a homem de letras sentou-se à mesa com seus ídolos e, assim, voltou a admirá-los com fervor. A partir de então, tornou-se contumaz frequentador da roda, o que muito o envaidecia. Mas qual a razão da decepção do jovem Bastos Tigre? Por que, afinal, lhe causou tanto desencanto descobrir que Bilac, como um simples mortal, jogava no bicho? E por que ele, sem muita demora, voltou a admirar Bilac?

    De forma semelhante a Martins Fontes, com quem manteve longa amizade, Tigre concebia aquele grupo de literatos como pessoas diferenciadas, sendo a literatura a razão da distinção. Ao narrar anos mais tarde o momento que considerou uma espécie de marco inicial de sua carreira como escritor, escolheu uma ocasião ordinária, na qual figuraram como pessoas comuns, não como a encarnação de uma inspiração poética constante. Com tal opção, Tigre buscava mostrar ao grande público um lado pouco visível do grupo da Colombo. Com essa estratégia, reforçava ainda mais a imagem idealizada dos homens de letras e sua própria importância como parte deles. Afinal, cena como aquela não estaria disponível a qualquer um. Somente os eleitos, os considerados iguais, poderiam desfrutar do lado mortal daqueles que eram vistos como semideuses das letras. Na melhor das hipóteses, seriam recebidos de forma graciosa e distinta, como ocorreu com Martins Fontes.

    A graça dos versos de Tigre despertou o interesse de Emilio de Menezes. Como um membro distinto da roda, ele tinha o poder de introduzir o estudante, imediatamente recebido como um parceiro. Tigre foi apresentado em uma condição especial: a de um iniciante nas letras com futuro promissor, o que já era o bastante para que desfrutasse da intimidade do grupo e pudesse presenciar cena tão prosaica. O ingresso no interior daquele mundo fechado se dava por meio das apresentações pessoais e do talento, medido por critérios internos ao grupo. Naqueles anos, o espírito, em grande parte associado à ideia de humor, era o bilhete de entrada ao mundo privado dos homens de talento.

    Escrever poemas constituía, no Rio de Janeiro dos anos iniciais do século XX, um costume compartilhado por jovens das escolas superiores e também pelos que não frequentavam as cadeiras da universidade. O próprio Olavo Bilac definiu em crônica de 1908 tal costume como uma verdadeira mania, verdadeira doença. No seu modo de ver as coisas, o grande número de candidatos a escritor era um problema sério: ‘Publicar um livro’! – é o sonho de todos os adolescentes, e até de todos os homens maduros, nesta harmoniosa terra em que todos os sabiás são poetas e todos os homens são sabiás.9 Citando ironicamente o conhecido poema de Gonçalves Dias, ele expressava de forma bastante enfática seu incômodo em relação à febre literária que dizia ter tomado conta da cidade. Para reforçar seu argumento, apresenta alguns dados interessantes.

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    12. Vendedores ambulantes de jornal em 1899.

    Naquele momento, eram publicados no Rio de Janeiro 12 jornais diários, dos quais oito saiam pela manhã, três eram publicados na parte da tarde, havendo ainda um que

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