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O conceito de medo em Winnicott
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E-book269 páginas5 horas

O conceito de medo em Winnicott

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Sobre este e-book

O tema do medo, que Danit Pondé tirou da sombra e colocou no centro do seu estudo, é trabalhado no interior da teoria do amadurecimento de Winnicott, já amplamente articulada pela Escola Winnicottiana da São Paulo. Esse quadro é assumido explicitamente e em primeira pessoa. Considerado sob esse aspecto, o presente livro é elaborado numa perspectiva reconhecidamente brasileira sobre a totalidade da obra de Winnicott, rompendo com a tradicional tendência de muitos pesquisadores brasileiros de se limitarem a fazer comentários sobre comentários feitos previamente no exterior.Este livro oferece também ao leitor um índice remissivo de casos clínicos de Winnicott nos quais o medo ou sentimentos afins estão presentes. De ajuda significativa para todos que se debruçam sobre os textos de Winnicott, esse índice, elaborado à luz da teoria winnicottiana do amadurecimento e dos estágios do amadurecimento, aponta para uma tarefa ainda maior não cumprida até hoje pela pesquisa winnicottiana: a de explicitar e analisar os significados dos termos e das expressões do léxico winnicottiano na sua totalidade, de forma claramente articulada e levando em conta seu desenvolvimento histórico.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento1 de mar. de 2015
ISBN9788562487385
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    O conceito de medo em Winnicott - Danit Zeava Falbel Pondé

    Agradecimentos

    Ao professor Zeljko Loparic, pela orientação e presença acolhedora em todo o percurso deste trabalho.

    Aos professores Oswaldo Giacoia e Ariadne Rezende Engelberg de Moraes, pelas importantes observações.

    À professora Elsa Dias, por sua importante contribuição teórica e prática na minha formação.

    Ao meu marido Luiz Felipe Pondé e aos meus filhos, Noam Falbel Pondé e Dafna Falbel Pondé, por estarem comigo ao longo de todo este processo.

    O medo é uma sombra que escurece e ilumina o sentido de hoje, de ontem e não consegue alcançar o amanhã...

    (anônimo)

    Quando eu nasci, minha mãe deu a luz a mim e ao meu irmão gêmeo, o medo.

    (Thomas Hobbes)

    Não tenho tudo que ilumina,

    mas quero iluminar tudo que não tem brilho.

    Porque não posso ter tudo que ilumina,

    mas posso ter tudo que reflete.

    Uma luz que caia sobre a minha alma

    e tire meu medo

    afaste minhas dificuldades

    e traga alegria

    sobre mim

    sobre meu viver.

    Sumário

    Capa

    Agradecimentos

    Epígrafes

    Prefácio

    Introdução

    1. Aspectos gerais

    2. Antecedentes: Freud e Klein

    3. Winnicott

    Capítulo I – O conceito de medo na perspectiva winnicottiana 

    1. Os fundamentos do conceito

    2. O binômio saúde/doença

    3. A classificação dos distúrbios

    4. O normal e o patológico

    5. O medo, o normal e o patológico

    Capítulo II – O medo nos estágios de amadurecimento emocional 

    1. O medo na dependência absoluta

    2. O medo na dependência relativa

    3. O medo no estágio do concernimento

    4. O medo no estágio das relações triangulares

    5. O medo na adolescência

    6. O medo na fase adulta

    6.1. O medo da dependência e o medo da mulher

    6.2. Os medos da mãe

    Considerações finais

    Referências

    Índice remissivo de casos clínicos

    Sobre a autora

    Créditos

    Prefácio

    Nos dias de hoje, Winnicott se tornou um autor conhecido. O seu pensamento não apenas inspirou a criação de instituições psicanalíticas dedicadas ao seu estudo e transmissão como penetrou nas universidades, tanto no Brasil como no exterior. Por isso, observa­-se a tendência de os pesquisadores muitas vezes retomarem os temas já tratados anteriormente a fim de aprofundá­-los ou dar­-lhes nova roupagem, quando não fazem – mais preocupados em ir falando do que em dizer algo de novo – simples retoques retóricos dos lugares­-comuns aos quais o pensamento de Winnicott é ainda tão frequentemente reduzido. A autora do presente livro não cedeu a esse tipo de facilidade.

    Seu propósito de penetrar em áreas ainda não exploradas da imensa obra de Winnicott revela­-se já na escolha do tema: o medo. Tradicionalmente, tanto em Freud como em Klein, a psicanálise punha ênfase na angústia, a começar pela forma paradigmática dessa modalidade de afeto: a angústia de castração. Danit percebeu o que há de novo em Winnicott: o sentimento de medo não é um fenômeno relacionado a certos problemas relativos ao desenvolvimento da sexualidade humana (as fobias) e à clínica respectiva dos mesmos, mas ocupa um lugar estratégico no processo de amadurecimento, considerado no seu todo, e no seu tratamento. Ela valeu­-se desse resultado para mostrar ainda que, nesse novo contexto teórico, o paradigma das angústias não é inspirado pela ameaça da perda da capacidade genital – considerada pelos freudianos como a mais apreciada entre todas as outras, dando origem a um afeto perfeitamente pensável e, por isso mesmo, interpretável verbalmente –, mas pelos efeitos das intrusões ambientais que ameaçam a própria capacidade de existir e de se relacionar com o quer que seja. Essa capacidade é reconhecida, numa mudança radical da teoria freudiana, como condição de todas as outras capacidades e como objeto principal do cuidado de si. O que está em jogo na vida humana, dirá Winnicott, pensando as coisas nessa perspectiva, é muito mais poder ser e ir sendo do que poder fazer ou ir fazendo sexo.

    O tema do medo, que tirou da sombra e colocou no centro do seu estudo, é trabalhado no interior da teoria do amadurecimento de Winnicott, já amplamente articulada pela Escola Winnicottiana de São Paulo. Esse quadro é assumido explicitamente e em primeira pessoa. Considerado sob esse aspecto, o presente livro apresenta uma segunda originalidade: ele é elaborado numa perspectiva reconhecidamente brasileira sobre a totalidade da obra de Winnicott, rompendo com a tradicional tendência de muitos pesquisadores nacionais de se limitarem a fazer comentários sobre comentários já feitos previamente no exterior. Dessa forma, esse trabalho insere­-se numa série de tentativas do mesmo tipo que emergiram não só na Escola Winnicottiana de São Paulo, mas também em outros grupos de pesquisadores, que romperam com o que no passado chamei de colonialismo internalizado ainda presente, embora em grau cada vez menor, em várias áreas da ciência, na mídia e na cultura brasileira em geral.

    Assumindo a teoria do amadurecimento, o livro apresenta uma terceira originalidade: faz um esforço detalhado e preciso em explicitar os sentidos que o conceito winnicottiano de medo possui nos sucessivos estágios do amadurecimento. Como todos os outros fenômenos tratados pela psicanálise winnicottiana, o de medo muda com o tempo, sua tonalidade afetiva varia com a passagem de um estágio maturacional para outro. O leitor encontrará aqui uma exemplificação clara de mais uma mudança introduzida por Winnicott no modo de teorização característico da psicanálise freudiana. Ele abandona a perspectiva tradicional, que pode ser chamada de estruturalista – por privilegiar funções e estados de um aparelho psíquico ainda que em processo de constituição –, para um modo de teorização que vários entre nós chamamos de acontecencial – por considerar o ser humano não como realização de uma estrutura no tempo objetivo, mas como amostra no tempo, tanto subjetivo como objetivo, da natureza humana, cuja principal riqueza é um potencial de relacionamento e de integração criativos.

    Não posso deixar de mencionar um quarto mérito do trabalho de Danit que merece destaque: o de oferecer ao leitor um índice remissivo de casos clínicos de Winnicott, nos quais o medo ou sentimentos afins estão presentes. De ajuda significativa para todos que se debruçam sobre os textos de Winnicott, esse índice, elaborado à luz da teoria winnicottiana do amadurecimento e dos estágios do amadurecimento, aponta para uma tarefa ainda maior não cumprida até hoje pela pesquisa winnicottiana: a de explicitar e analisar os significados dos termos e das expressões do léxico winnicottiano na sua totalidade, de forma claramente articulada e levando em conta seu desenvolvimento histórico.

    Zeljko Loparic

    Introdução

    1. Aspectos gerais

    O tema a ser desenvolvido neste livro foi escolhido diante de sua expressiva presença identificada na prática clínica. Os pacientes frequentemente trazem para o consultório medos suscitados por uma gama de objetos determinados, tais como o medo de avião, de cachorro, de insetos e de escuridão. Ali, também manifestam aqueles de origem mais abstrata que, entre outros, podem ser o medo da morte, do abandono, da dependência de outros e, até mesmo, o medo de si mesmo. A pluralidade de atribuições de sentido nas multifacetadas expressões desse afeto em diferentes pessoas não retira, mas, pelo contrário, confirma seu caráter universal de manifestação compartilhada por todo e qualquer ser humano através dos tempos. Na própria relação entre terapeuta e paciente, essa condição de compreensão sine qua non desdobra­-se em empatia para o necessário trabalho de acompanhamento das questões implicadas.

    A proposição do medo como um afeto humano relaciona­-se à ideia de que sua vivência está intimamente ligada a seus efeitos, de tal forma que é através destes que se pode mensurar o grau de seu impacto tanto no psiquismo como no cotidiano da pessoa. No dia a dia, aquilata­-se a potência dessa afetividade através da quantidade e do grau de restrições que se impõem, traduzindo­-se em mobilizações e imobilizações na vida das pessoas. Nesse sentido, parte do reconhecimento atual da importância desse fenômeno subsidia a versão mais contemporânea, conhecida como Síndrome do Pânico, assunto recorrente nas produções das ciências médicas e psicológicas. Em termos estatísticos, o DSM­-IV (APA, 2002, pp. 423­-429) informa que, em amostras clínicas, o Transtorno do Pânico é diagnosticado em pelo menos 10% dos indivíduos encaminhados para consultas de saúde mental. No contexto da clínica médica, as porcentagens variam de 10% a 30%, em clínicas de neurologia, otorrinolaringologia e doenças respiratórias, a até 60% nos consultórios de cardiologia, considerando que estão associados aos episódios de pânico numerosos sintomas fisiológicos, como tontura, arritmia cardíaca, asma, doença pulmonar, entre outros. O Transtorno do Pânico é um exemplo paradigmático de uma manifestação insidiosa de medo, uma vez que, por constituir­-se caracteristicamente de ataques súbitos e recorrentes sem origem aparente, ou seja, sem uma evidente associação causal externa, ele se transforma na pauta principal do cotidiano de quem o vivencia. Sob a condição de preocupação e ameaça, a pessoa se vê obrigada a mudar significativamente seus comportamentos para tentar evitar novos ataques ou mesmo todas as implicações a eles associadas.

    No entanto, o medo vem se tornando foco temático para muitos saberes, tendo percorrido todo um caminho de apropriações de sentido antes de chegar no campo da saúde, do qual a Psicanálise faz parte. Sob a forma de fenômeno social datado e contextualizado historicamente, pode­-se encontrar um estudo sobre o tema na obra La Peur en Occident, de Jean Delumeau,¹ na qual se percorre os diferentes contextos e significados que circunscreveram a relação dos homens com o medo. Desde a Antiguidade até a Renascença, a valentia individual era exaltada como justificativa do valor e poder dos heróis e líderes que dirigiam a sociedade. No reverso da medalha, o medo estava associado à vergonha, à covardia e ao comum, presentes naqueles que eram subalternos. Mesmo após a Revolução Francesa, o discurso ideológico falava do heroísmo do povo que conquistou à força seu direito à coragem. O medo, no entanto, permanecia escondido como sentimento vergonhoso não merecedor de atenção. Pouco a pouco, foi se livrando desse enquadre através da literatura, das produções filosóficas e das obras artísticas, em um movimento de naturalização, ou seja, consolidando­-se como um tema de preocupação focado na busca da verdade psicológica. Como fenômeno universal, a normalização é acompanhada pela compreensão da necessidade de segurança como base fundamental da afetividade e moral humanas. Distintos dos animais, que não antecipam sua própria morte, os homens se inscrevem como seres únicos na Terra, pois têm consciência de sua irredutível condição de finitude. Contrariamente ao medo imutável do animal circunscrito à problemática de ser devorado, o medo humano, filho da imaginação (Delumeau, 1978, p. 22), é diversificado e mutante.

    Dando continuidade a essa perspectiva do medo como fenômeno social, Zygmunt Bauman (2006) atualiza os sentidos do medo na sociedade pós­-moderna, entendendo que, sob os efeitos de contextos sociais atuais, tais como a globalização, o terrorismo e o desemprego, o homem se vê impotente e fragilizado diante da qualidade líquida do ambiente que o circunda. A família, mais próxima, até as instituições sociais mais distantes, nas quais o indivíduo está inserido e com as quais se relaciona, compõem esse ambiente marcado pelas transformações tecnológicas, relacionais e sociais constantes somente em seu aspecto mutante. Imbuídas de um espírito moderno de busca pela própria felicidade através de meios e esforços individuais, as pessoas se deparam com vitórias cada vez mais temporárias. Essas mudanças impõem a elas a necessidade de exercícios adaptativos em um universo onde as próprias regras do jogo são cambiantes. A atmosfera de instabilidade gera a insegurança de não ser mais útil ou de não fazer parte da comunidade de consumidores importantes. Vive­-se, então, sob o espectro do medo da exclusão, uma espécie de morte metafórica. Da mesma forma, os adventos após a Segunda Guerra Mundial, como holocausto e Hiroshima, e o reconhecimento da banalização do mal, surgidos da identificação da capacidade de qualquer um ser mal sem os devidos sinais de psicopatia esperados, implicam a desconfiança sobre o outro. Certamente isso subsidia a superficialidade e a fragilidade nos laços relacionais, produtos da instalação de um ciclo maligno. As profecias apocalípticas também ganham espaço na formatação de um medo do inimaginável à medida que se sabe concretamente que a tecnologia humana atual é suficientemente poderosa para acabar com toda e qualquer vida no planeta. Enfim, esses medos evidenciam o quanto o homem e a sociedade continuam às voltas com o embate entre a liberdade e a segurança, duas condições essenciais da existência humana que não são necessariamente compatíveis.

    Atualmente, o medo se inscreve como um objeto de estudo cada vez mais presente no discurso patologizante e medicável, cuja perspectiva se impõe como um olhar unilateral sobre o que é humano. As ciências neurológicas apontam o conjunto funcional entre cerebelo, limbo e bulbo como o promotor e a condição determinantes para o sentimento do medo. Os etólogos e simpatizantes de Darwin, grosso modo, assinalam o aprimoramento evolutivo desse apetrecho diante das necessidades de sobrevivência. Sob a ótica do instintual e do biológico no homem, faz­-se uma correspondência equivocada com a condição dos animais. Assim, o instintual arvora­-se como marco originário do medo humano.

    No discurso médico, a busca por desvelar as causas e almejar a eliminação da sintomatologia faz parte do fluxo curador. Entretanto, essa equação causa­-efeito, focada em um sentido linear, delineia­-se simplista diante da complexidade do psiquismo humano, no qual se sabe imperar o interjogo entre fantasia e realidade, consciente e inconsciente, dentro e fora. O medo, ainda que caracteristicamente possa ser contextualizado e datado como fenômeno social, mantém sua impertinência e persistência nas vivências humanas, indicando que sua compreensão resvala na consideração de fatores intrapsíquicos, inter­-relacionais e ambientais que circunscrevem o existir humano.

    2. Antecedentes: Freud e Klein

    No desenvolvimento da teoria psicanalítica, Sigmund Freud aborda as questões ligadas ao medo sob o nome de angústia. Como identifica Laplanche e Pontalis (1983, p. 62), está posta uma questão a respeito da palavra angst, à medida que o sentido em alemão e o atribuído no uso freudiano não são coincidentes. As expressões coloquiais como "Ich habe Angst vor... traduzem­-se como eu tenho medo de". No entanto, a distinção entre medo, como uma manifestação direcionada a um objeto determinado, e angústia, como uma ausência de objeto, não se ajusta às formulações de Freud. Da mesma forma, é complicada a tradução de Furcht, que seria medo ou temor, mas que também pode ser receio. Nas traduções francesas da obra de Freud, encontra­-se a tradução de Angst por angoisse, ao passo que, nas traduções inglesas de sua obra, encontra­-se a tradução de Angst por anxiety. Da mesma forma, a nebulosidade terminológica entre os termos angústia e ansiedade se perpetua também em nossa língua. Enquanto em angústia parece haver maior ênfase no sentido de dor psíquica e é emprestado ao termo um caráter existencial, ansiedade parece ter uma conotação de expectativa e de agitação interna.² De qualquer forma, a definição e a distinção dos termos não correspondem apenas a um problema de tradução propriamente dita como questão linguística, mas à dificuldade de se transpor objetivamente e exprimir através de palavras e conceitos essa experiência subjetiva comum a todos os seres humanos. Na tentativa de definir angústia, Freud remete seu entendimento a uma situação inicial pertencente tanto à pré­-história de cada indivíduo como à pré­-história da humanidade, ligada significativamente à separação da mãe que ocorre no nascimento, o que confere à apreensão a ideia de uma angústia originária. Em suas palavras:

    Acreditamos que, no caso do afeto da angústia, sabemos qual é a vivência original que ele repete. Acreditamos ser no ato do nascimento que ocorre a combinação de sensações desprazíveis, impulsos de descarga e sensações corporais, a qual se tornou protótipo dos efeitos de um perigo mortal, e que desde então tem sido repetida por nós como o estado de ansiedade. (Freud, 1916­-17/1976, p. 462)

    Sob sua perspectiva, Freud acredita ser a angústia o maior flagelo do neurótico, muito embora não seja somente um sofrimento pertencente a ele. A angústia realística, de caráter racional e inteligível, e em oposição à angústia neurótica, refere­-se à reação diante da percepção de um perigo externo que, portanto, está associado à tentativa de fuga como uma pulsão de autoconservação. Se, por um lado, o aumento da atenção sensória e motora configura um estado de alerta de alguma forma positivo em termos de estratégia de sobrevivência, as angústias ditas realísticas conservam seu aspecto negativo, uma vez que a fuga ou a luta pode ser muito mais apropriada do que esse estado mobilizado perante uma situação de perigo.

    Ao longo de sua obra, Freud desenvolve seu entendimento sobre a angústia neurótica, que se manifesta de duas formas: a angústia expectante, ou aquela pautada por um sentimento de apreensão que pode vir a se ligar a qualquer material afim, e a fobia, vinculada a determinados objetos e situações. Também foram dois os seus modelos de entendimento sobre a angústia. Em seu texto de 1926, Inibição, sintoma e angústia, no qual denominou a segunda teoria da angústia, Freud superou a compreensão dada na primeira teoria, de 1917. No primeiro modelo de 1917, a angústia foi considerada como resultado, ou seja, uma manifestação subjetiva do fato de uma quantidade de energia não ser dominada. Associada à teoria da libido, a explicação era econômica. Nos indivíduos que se expõem à excitação não consumada, a libido desaparece e a ansiedade surge em seu lugar como ansiedade expectante ou na forma de ataques de angústia. Nesse sentido, fica explícito o vínculo estreito das ansiedades com a limitação sexual (Freud, 1916­-17/1976, p. 469).

    Na nova formulação, Freud acrescentou implicitamente na expressão sinal de angústia a ideia de um motivo de defesa do ego, ou seja, um dispositivo que o ego põe em ação diante de uma situação de perigo, evitando submergir pelo afluxo das excitações. Mais relevante é o acréscimo de que essa possibilidade de defesa só é possível por ser uma reprodução atenuada de algo vivido primitivamente em uma situação traumática.

    Por comparação ao termo anterior, a expressão angústia automática, também desenvolvida no texto de 1926, designa uma reação do indivíduo sempre que se encontra em uma situação traumática, ou seja, em um afluxo de excitações que é incapaz de dominar.

    Esse segundo modelo de angústia dá uma ideia de funcionalidade, ou seja, a angústia passa a ser um sinal ou um símbolo de experiências passadas que ela repete. Outra diferença é a determinação do perigo vinculada à causa traumática anterior, considerando que esses perigos estão relacionados sempre à separação, à perda de um objeto amado ou à perda do amor. O acúmulo de circunstâncias insatisfatórias oriundas da perda gera o desamparo, um estado de tensão acumulada. As situações traumáticas englobam o nascimento, a perda da mãe como objeto, a perda do pênis, a perda do amor do objeto e a perda do amor do superego. Destacam­-se, assim, os aspectos significativos a respeito do desenvolvimento da segunda teoria da angústia: a angústia em sua relação com o processo defensivo, a angústia em sua relação com o ego – sendo este o lugar ou o originador da angústia – e a pressuposição de um perigo real na origem da angústia.³

    O desenvolvimento do tema das fobias está diretamente relacionado ao

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