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Diálogos com a Gramática, Leitura e Escrita
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Diálogos com a Gramática, Leitura e Escrita
E-book582 páginas6 horas

Diálogos com a Gramática, Leitura e Escrita

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Sobre este e-book

Este livro tem uma história: a da minha paixão pela escrita e pelo ensino. Não me lembro de quando escrevi a primeira palavra e qual foi ela. Só sei que não foi na escola. Foi lá em casa, à beirinha do rio Muzambo da minha Jureia mineira. Eu ficava olhando o rio horas e horas, sozinho, do alto do barranco, debaixo de uma goiabeira, e eu tinha um canivete que o meu padrinho um dia me dera. Foi com ele, ah! Me lembro, sim, foi com ele que, no tronco da goiabeira, escrevi a primeira palavra da minha vida. E foi o nome da minha mãe. Foi sim, foi Janira, como todo mundo falava o nome bonito dela, Dijanira. Eu nem imaginava que minha vida seria com a escrita, que escrever me garantiria o viver, que sem a palavra que escrevo não dou rumo à vida que ganhei de presente de Deus e à vida de tantos que conviveram comigo como alunos e com tantos que ainda haverão de conviver, sei lá até quando. Enquanto eu tiver vida, meu caminho será atravessado pela escrita, margeado pelo ato de desenhar meus pensamentos nas linhas de um pano, de um tronco, de um papel, de um coração, de uma alma – a sua, quem sabe.

Este é um livro de crônicas linguístico-literárias de um professor apaixonado pelo ensino. Não são crônicas à moda de um Rubem Braga nem de um Otto Lara Resende, mas de um professor que não consegue sair da sala de aula. E tudo o que ele fala, conversa e escreve tem o tom de uma aula, fundamentada nas reflexões filosóficas de Mikhail Bakhtin e seu círculo de estudos sobre a linguagem. Os textos são datados e foram publicados no período de 2011 a 2015, cada um deles em edição semanal de O Jornal de Batatais, da Estância Turística de Batatais, cidade em que vivo há 38 anos. Os assuntos que inspiram meus textos são a gramática, a leitura, a literatura, a escrita, a sala de aula, a minha vida, enfim. Viver é o que há de melhor.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento5 de dez. de 2017
ISBN9788547308667
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    Diálogos com a Gramática, Leitura e Escrita - Juscelino Pernambuco

    Editora Appris Ltda.

    1ª Edição - Copyright© 2017 do autor

    Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

    Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98.

    Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores.

    Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010.

    COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO LINGUAGEM E LITERATURA

    Para Lélia, Emílio, Juliana, Beatriz, Eduardo e Mariana, com o meu carinho e amor.

    Agradecimentos

    A todos os meus leitores e seguidores nas redes sociais;

    à Cristina Alliprandini Riul, proprietária de O Jornal de Batatais, e a toda a sua equipe;

    ao Rodrigo César, da Claretiana FM de Batatais, meu parceiro no programa Análise Musical, e aos meus ouvintes de todo o Brasil;

    aos meus amigos e colegas de magistério de todas as escolas, faculdades e universidades por onde passei, nessa minha longa, doce e apaixonante jornada.

    PREFÁCIO

    Língua e literatura entre gramática e estilística

    Sheila Vieira de Camargo Grillo¹

    Os textos que compõem este livro foram originalmente produzidos para uma coluna semanal de O Jornal da Estância Turística de Batatais, entre 22.01.2011 e 20.03.2015, pelo professor, pesquisador, escritor literário e estudioso da língua e da literatura Juscelino Pernambuco, com quem tenho o prazer de conviver no grupo de pesquisa de Estudos Bakhtinianos da Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Letras e Linguística (Anpoll). As crônicas linguístico-literárias de Juscelino transitam com bom humor e sutileza por variados temas concernentes à gramática, à estilística, à literatura, à variação linguística, à análise de gêneros não literários de esferas constituídas da atividade humana (jurídica, jornalística, política etc.) e também da ideologia do cotidiano (conversas informais, dizeres populares, piadas etc.), que, a meu ver, se articulam em torno de quatro eixos orientadores.

    O primeiro deles é a assunção da necessária conexão entre gramática e estilística, seja na atividade de leitura e produção textual de escritores experientes, seja na metodologia do ensino de língua e literatura, pois, segundo Juscelino na crônica A boa escrita, Saber uma língua é dominar as diferentes possibilidades de uso do seu vocabulário e dos seus recursos gramaticais.

    O segundo eixo é o posicionamento ético de Juscelino professor sobre a finalidade do ensino de língua e literatura, expresso na crônica Literatura, aula e vida: Antes de servir para a instrução, a aula tem de ser um caminho para a formação do ser humano. O sentido de qualquer disciplina de estudos está nos valores que ela transmite para o acontecimento do existir humano, muito mais do que no conteúdo que se ensina. Essa defesa de valores humanistas está presente, por exemplo, na crônica A linguagem e a etiqueta, em que Juscelino reflete sobre como os usos da linguagem são importantes para construir relações sociais mais humanas, cordiais e respeitosas.

    Um terceiro eixo é a fixação da norma-padrão, aquela presente nos instrumentos linguísticos (sobretudo gramáticas e dicionários) de uma comunidade, por meio da observação de usos desviantes da norma e da exposição da regra gramatical. Essa fixação, no entanto, não é absoluta e imutável, mas está sujeita às transformações históricas de uma língua, como o próprio professor Juscelino defende na crônica Cuidados com a língua: A língua não pode servir de instrumento de opressão ou de humilhação. Ela existe para promover o bem-estar social, a boa convivência entre os homens, o amor e a paz. O falar certo e o falar errado dependem de avaliação social. O que ontem foi considerado certo na gramática é, muitas vezes, hoje considerado erro. Vemos que o compromisso ético do professor e pesquisador Juscelino a respeito do ensino de língua e literatura é promover o pleno desenvolvimento do ser humano em uma sociedade pautada pela igualdade e pela justiça social, valores que estão presentes nos usos e nas concepções de língua e literatura.

    O quarto grande eixo é o trabalho com textos literários em prosa e poesia, de escritores clássicos e contemporâneos, tudo isso articulado a uma visão indissociável entre vida e arte: A literatura tem também uma função decididamente conscientizadora. Quem lê acaba aprendendo a ver melhor o mundo e a vida humana na terra (da crônica Literatura, vida e sonhos).

    Conforme convém ao gênero, o cronista Juscelino adota um tom leve e descontraído, ao tratar de temas ligados à língua em suas diversas esferas de atividade humana (musical, literária, jornalística, jurídica etc.). A abordagem desses tópicos alia conhecimento de teorias linguísticas a um vasto repertório de leituras, que cita com desenvoltura. Um jeito de falar didático e professoral está presente nas explicações, nas reformulações, no uso de definições e sinônimos, nos exemplos elucidativos das questões tratadas. Permeiam todo o material um encantamento pela linguagem e uma atitude amorosa com o outro, o mundo e a vida. O bom humor e o diálogo amistoso com o leitor, assim como a temática abrangente agradarão mestres e estudantes dos ensinos fundamental e médio, em busca de material de apoio para o ensino e a aprendizagem de língua e literatura, bem como a todos aqueles cativados pela língua portuguesa.

    Conteúdo

    1 - GRAMÁTICA E ESTILO

    2 - ADJETIVOS

    3- TALVEZ EU DEVA...

    4 - NÓS É QUE SOMOS ESPERTOS

    5 - A LINGUAGEM E A ETIQUETA

    6 - TORNO, RETORNO E ENTORNO

    7 - PERCA E PERDA

    8 - TUDO A VER COM A LÍNGUA E COM A VIDA

    9 - EM DIA COM A LITERATURA E COM A LÍNGUA

    10 - A BOA ESCRITA

    11 - Literatura, aula e vida

    12 - Eu te amo em línguas diferentes

    13 - Infinitamente belo

    14 - DIVERSOS

    15 - CUIDADOS COM A LÍNGUA

    16 - VULPINO E VULTURINO

    17 - CUIDADOS COM O E-MAIL

    18 - SOBRE PAÍSES, LÍNGUAS E PESSOAS

    19 - LITERATURA, VIDA E SONHOS

    20 - FIGURAS DE LINGUAGEM

    21 - COSTUMES, DE PAULA FERNANDES

    22 - CONSIDERANDO QUE...

    23 - De bem com o leitor e as palavras

    24 - Sobre maiúsculas e minúsculas

    25 - Ainda sobre maiúsculas e minúsculas

    26 - Aplainando o terreno

    27 - Nós procrastinamos

    28 - Uma nova atitude

    29 - A boa pronúncia

    30 - Literatura e gramática

    31 - O lavarroz e outros assuntos

    32 - A letra bonita

    33 - Viva o professor

    34 - Assuntos ortográfico-gramaticais

    35 - Falar bem o português

    36 - Vinícius e a bilirrubina

    37 - Soletrando certo: e-s-f-o-l-i-a-ç-ã-o

    38 - Congresso Brasileiro de Escritores

    39 - Eficaz e eficiente

    40 - Resiliente e renitente 

    41 - Tecnologia e educação 

    42 - Perigos da interpretação 

    43 - Novas palavras no Dicionário Aurélio 

    44 - Regimes de verbos 

    45 - Leitura dinâmica e sugestão de livros 

    46 - A libertação pela língua 

    47 - O recém-chegado não delínque 

    48 - Recordando o Acordo Ortográfico 

    49 - Modos de escrever palavras compostas 

    50 - Guimarães Rosa e a religiosidade 

    51 - O conjugador de verbos 

    52 - A linguagem do futebol 

    53 - Desvios de gramática 

    54 - Sobre a norma culta 

    55 - Rubem Braga e a Gramática 

    56 - Cecília Meireles: gramática e educação 

    57 - Verbos do momento 

    58 - Lendo jornal 

    59 - O gênero feminino nos diplomas 

    60 - Variedades 

    61 - A vivacidade da língua 

    62 - Risco de vida 

    63 - Salve o carro de boi 

    64 - Em busca da crase 

    65 - A GRAÇA DOS DITADOS POPULARES 

    66 - Poemas da triste alegria 

    67 - Acabar em pizza 

    68 - MORTE DO LEITEIRO: UM POEMA SEMPRE ATUAL 

    69 - PARA COMPREENDER MORTE DO LEITEIRO 

    70 - A Linguagem Poética de Carlos Drummond de Andrade 

    71 - A PERIGUETE E CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE 

    72 - Gramática e ciência 

    73 - O ACORDO ORTOGRÁFICO EM VIGOR 

    74 - Recordando o Acordo Ortográfico 

    75 - Análise do romance O Filho Eterno 

    76 - Entre o Texto e a Gramática 

    77 - O nome da bola da Copa é... 

    78 - Para evitar deslizes gramaticais 

    79 - Sobre o ensino de gramática 

    80 - O prefeito escritor, Graciliano Ramos 

    81 - A Gramática respeitada

    82 - Aula romanceada 

    83 - A fala e a escrita 

    84 - Explicações gramaticais 

    85 - Paralelismos na escrita 

    86 - Para ler Clarice Lispector 

    87 - Correspondência oficial e comercial 

    88 - Correspondência oficial e comercial (II) 

    89 - Organização de currículo e procuração 

    90 - SOBRE DEDICATÓRIAS 

    91 - O adiamento do Acordo Ortográfico 

    92 - Trata-se de causas perdidas 

    93 - Estar em férias ou de férias? 

    94 - Plurais estranhos 

    95 - Os problemas do mal 

    96 - Fi-lo porque qui-lo 

    97 - Redações criativas no ENEM 

    98 - Acertos com certos plurais 

    99 - O aposto e as vírgulas 

    100 - Pleonasmos 

    101 - Vacilos e exageros linguísticos 

    102 - Descrições na literatura oriental 

    103 - Ducentésimo rodapé literário 

    104 - Palavras poéticas 

    105 - Tirando dúvidas 

    106 - Leitura e interpretação 

    107 - Uma poeta assombrosa 

    108 - Silabadas e crase 

    109 - De gratuito a beneficente 

    110 - Tatuagem 

    111 - Palavras e expressões do momento 

    112 - Sobre ortografia e descrições 

    113 - O bom tratamento dos pronomes 

    114 - Para hifenizar bem 

    115 - De repente, Vinícius de Moraes 

    116 - Explicando usos populares 

    117 - Verbos e palavras do momento 

    118 - Verbos dos sabiás 

    119 - Antimetábole e Enálage 

    120 - Frases para a vida 

    121 - A vida espia 

    122 - A misantropia de Drummond 

    123 - Conversa sobre assuntos variados 

    124 - A prova do Enem (1) 

    125 - A prova do Enem (2) 

    126 - A arte da conversa 

    127 - Uma conversa informal 

    128 - Cuidados com a língua e com o ensino 

    129 - Palavras e mais palavras 

    130 - Cuidados com citações 

    131 - Bons livros para as férias 

    132 - Amores roubados 

    133 - Queijo Minas de Aiuruoca

    134 - Machado de Assis e a Presidenta 

    135 - Riscos da vida e da língua 

    136 - Letra de música e poesia 

    137 - Enigmas de Grande Sertão: veredas

    138 - Sobre farpas e felpas 

    139 - Se eu fizer o que devo... 

    140 - Cuidados com os sinônimos 

    141 - Eu me indigno 

    142 - Lígia, a musa de Jobim 

    143 - Eu sei que vou te amar 

    144 - Voltando à gramática 

    145 - Luíza, de Tom Jobim: desafio 

    146 - CHÃO DE GIZ: HISTÓRIAS 

    147 - LER NAS ENTRELINHAS 

    148 - Dúvidas em pares 

    149 - Gabo e a literatura 

    150 - Elis, atrás da porta 

    151 - Vinícius de Moraes: Silêncio 

    152 - Para pensar e extasiar 

    153 - Citações poéticas e filosóficas 

    154 - Durante a Copa do Mundo 

    155 - João Ubaldo Ribeiro e Murakami 

    156 - Acaso e ocaso 

    157 - João e Maria 

    158 - A travessia de Fernando Brant 

    159 - Quando o se não é problema 

    160 - Millôr, como vai? 

    161 - Cuidados com a linguagem 

    162 - Boas recomendações para a fala e A escrita

    163 - AFORISMOS 

    164 - Vivam os professores! 

    165 - Bem-vindo ao texto 

    166 - A viagem do elefante, de José Saramago 

    167 - Tesouros semânticos 

    168 - Imponderável 

    179 - De volta a casa 

    170 - Rodapé em Vestibular 

    171 - A língua e as meias verdades 

    172 - Uma dança, um poema 

    173 - Drummond, Saramago e as ilhas 

    174 - A vida nos romances 

    175 - Sobre o ato de escrever 

    176 - Amar a língua 

    177 - Redação exemplar 

    178 - A terceira lâmina e a arte 

    179 - O I Festival NACIONAL de MPB de Batatais 

    REFERÊNCIAS 

    - 1 -

    GRAMÁTICA E ESTILO

    Batatais, 22-01-2011 – O texto jornalístico, diferentemente do texto literário, tem um compromisso sério com a gramática. Pode-se dizer que a norma que é considerada culta encontra-se muito mais nos jornais e nos textos de caráter científico e didático do que nos textos literários. A literatura não tem como função servir de modelo para a gramática. Podemos encontrar em romances, contos e novelas bons exemplos de construções de frases na norma chamada de culta, mas não é esse o compromisso do artista da literatura.

    Esta minha crônica foi buscar conteúdo na edição do jornal Folha de S. Paulo do dia 18-1-2011. Li com atenção o texto de opinião do professor Eduardo Portela, intitulado: Cultura, política de Estado. Acompanhem a análise estilístico-gramatical que pretendo fazer. O autor começa assim o texto: São válidos, mesmo que contraditórios, os recentes debates sobre o lugar da cultura hoje. A ordem dos termos na frase já indica a opção estilística do autor. Ao iniciar com a expressão "São válidos", o texto quer realçar mais o fato de os debates sobre a cultura terem validade do que o fato de serem contraditórios. Caso o autor quisesse chamar a atenção para a contradição dos debates, poderia ter começado a frase assim: mesmo que contraditórios, os recentes debates... são válidos. Se quisesse dar ênfase mais aos debates do que para a sua validade ou sua contradição, teria construído a frase na ordem direta: os recentes debates sobre o lugar da cultura hoje são válidos, mesmo que contraditórios. Ou também: os recentes debates sobre o lugar da cultura hoje, mesmo que contraditórios, são válidos. Vejam que o autor tinha à sua disposição diferentes possibilidades de elaboração da frase, dependendo da intenção de seu dizer textual.

    E continua o texto de Portela: Cabe ao Ministério da Cultura a função de operar políticas públicas enraizadas e promissoras, tornando-se inadiável formular, ver e rever o seu percurso, selecionar questões pertinentes, absorver formas de criação e compreensão. Novamente houve a escolha de iniciar a frase na ordem inversa. A ordem direta da oração principal seria: a função de operar políticas públicas enraizadas e promissoras cabe ao Ministério da Cultura... A intenção do texto foi chamar a atenção para a obrigação do Ministério da Cultura, já que temos agora nova ministra e o ilustre articulista produziu seu texto de opinião para alertá-la sobre os rumos que deve imprimir à sua ação ministerial. Nessa frase do texto, é de se notar o emprego do verbo operar. Tal verbo vem ganhando dia a dia novas acepções e novos usos que merecem destaque nessa análise. A origem dele é latina, operare: executar, produzir, acionar. Hoje se usa para significar sofrer ou executar cirurgia, entrar em função, produzir efeito e, no texto em foco, trabalhar ou executar. Se antes a tendência era usá-lo para atividades físicas, hoje seu uso estende-se também para atividades mentais ou espirituais. É interessante que se note que o substantivo operário só é ainda empregado para o trabalhador em atividades físicas. O adjetivo promissoras, atribuído às políticas públicas, origina-se de prometer. Quem promete é promissor, promitente ou prometedor. Vejam que o uso dos três sinônimos é diferente. Aliás, é bom que se diga que sinônimo designa semelhança, mas não igualdade de significados. No caso de promissor, costumamos usar para se referir, por exemplo, a futuro, a carreira etc. Dizemos que tal pessoa tem um futuro promissor, uma carreira promissora. Promitente aplica-se mais na área jurídica e comercial, para se referir àquele que promete pagar ou cumprir algum compromisso assumido. Prometedor tem um uso bastante restrito e é usado para apontar aquele ou aquela que geralmente falha no cumprimento de promessas.

    Leiamos juntos outro período sintático do texto do professor Portela: A reversão desse quadro clínico desfavorável deve ser rigorosamente priorizada, o que exige a inclusão da cultura como trabalho social avançado. Vou enfocar o substantivo reversão. Vem do verbo reverter, por sua vez derivado prefixalmente de verter, da mesma forma que subverter, converter, perverter. Desses verbos derivam-se os substantivos: subversão, conversão, perversão. Observem a grafia deles: um S apenas, já que, depois das letras R e N, não se empregam dois esses (SS). É o caso de aniversário, compreensão etc.

    Prometo continuar a análise desse texto na próxima semana. Vou ficando por aqui, para não cansar meus leitores e para não pecar por excesso de informações. Espero ter sido de seu agrado o que acabei de escrever e recorro a Machado de Assis que, genialmente, encerra a abertura de Memórias Póstumas de Brás Cubas com estas palavras:

    A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

    - 2 -

    ADJETIVOS

    Batatais, 29-01-2011 – Uma das classes de palavras mais importantes, porém, vez por outra, considerada perigosa para o estilo literário é o adjetivo. O dicionário Aurélio assim o define:

    1.  "Palavra que modifica o substantivo, indicando qualidade, caráter, modo de ser ou estado: pessoa caridosa; boa casa."

    Para muitos, o adjetivo tornou-se até sinônimo de ornamento ou de coisa secundária. Se se diz que algo tem valor substantivo é porque tem importância maior; se se afirma que o fato é de valor adjetivo, é porque é secundário. Até para distinguir estilos de autores leva-se em conta o uso maior ou menor de adjetivos. Costuma-se dizer que o grande romancista português, Eça de Queirós, tem um estilo adjetivoso. Realmente as descrições de Eça são carregadas de adjetivos, porém, é importante que se diga que o notável escritor soube fazer uso deles e não pecou por excesso.

    Nosso poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, tem outra visão sobre o uso dos adjetivos. No seu fabuloso livrinho em prosa, intitulado Confissões de Minas, ele confessa: À medida que envelheço, vou me desfazendo dos adjetivos. Chego a crer que tudo se pode dizer sem eles melhor talvez do que com eles. Por que ‘noite gélida’, ‘noite solitária’, ‘profunda noite’? Basta ‘a noite’. O frio, a solidão, a profundidade da noite estão latentes no leitor, prestes a envolvê-lo, à simples provocação dessa palavra noite.

    Não deixa de ter razão o genial poeta, e quem seríamos nós para contestá-lo!? Ele estava na sua fase de concretude e economia de sentimentos.

    Já o romancista e poeta polonês, Adam Zagajewski, em um belo texto traduzido por Rubens Figueiredo, sai em defesa dos adjetivos de forma poética e contundente. Vejamos alguns trechos do seu texto: Muitas vezes nos mandam cortar nossos adjetivos. O bom estilo, conforme dizem, sobrevive perfeitamente sem eles; bastariam o resistente arco dos substantivos e a flecha dinâmica e onipresente dos verbos. Contudo, um mundo sem adjetivos é triste como um hospital no domingo. A luz azul se infiltra pelas janelas frias, as lâmpadas fluorescentes emitem um murmúrio débil.

    Só nesse parágrafo, ele utilizou nove adjetivos: bom, resistente, dinâmica, onipresente, triste, azul, frias, fluorescentes, débil.

    E continua, categórico e sensível, o poeta polonês:

    Substantivos e verbos bastam apenas a soldados e líderes de países totalitários. Pois o adjetivo é o imprescindível avalista da individualidade de pessoas e coisas. Vejo uma pilha de melões na bancada de uma quitanda. Para um adversário dos adjetivos, não há dificuldade: ‘Melões estão empilhados na bancada da quitanda.’ Todavia um dos melões é pálido como a tez de Talleyrand quando discursou no Congresso de Viena; outro é verde, imaturo, cheio de arrogância juvenil; outro ainda tem faces encovadas e está perdido num silêncio profundo e fúnebre, como se não suportasse a saudade dos campos da Provença. Não há dois melões iguais. Uns são ovais, outros são bojudos. Duros ou macios. Têm cheiro do campo, do pôr do sol, ou estão secos, resignados, exauridos pela viagem, pela chuva, pelo contato das mãos de estranhos, pelos céus cinzentos de um subúrbio parisiense. O adjetivo está para a língua assim como a cor para a pintura.

    Percebam, leitores, a secura da frase: Melões estão empilhados na bancada da quitanda. A frase alcança, sem dúvida, sua intenção de dizer, mas não o faz de modo tão docemente poético como Adam Zagajewski. Os melões por ele descritos ganham vida, cheiro, cor, consistência e sabor. O olhar poético e contemplativo do escritor faz dos singelos melões objetos de arte e reflexão, pois que passam a se assemelhar a seres humanos tão distintos entre si na aparência, mas tão iguais na essência.

    O que podemos perceber na opção dos escritores por mais ou por menos adjetivos nos seus textos é que essa classe de palavras não existe para enfeitar a frase, mas para reforçar o dizer textual. Mesmo nos textos que economizam no uso de adjetivos, eles se fazem pressentidos em cada um dos substantivos, de tal forma que se pode dizer que há uma cumplicidade tamanha entre ambos, que não se imagina um sem a marca do outro. E termino esta crônica também com adjetivos, com mais um trecho do texto de Adam Zagajewski: Vida longa ao adjetivo! Pequeno ou grande, esquecido ou corrente. Precisamos de você, esbelto e maleável adjetivo que repousa delicadamente sobre coisas e pessoas e cuida para que elas não percam o gosto revigorante da individualidade. Cidades e ruas sombrias se banham de um sol pálido e cruel. Nuvens cor de asa de pombo, nuvens negras, nuvens enormes e cheias de fúria, o que seria de vocês sem a retaguarda dos voláteis adjetivos?

    Boa semana para vocês todos, meus diletos, indispensáveis, caros, estimados e humorados leitores. Até a próxima!

    - 3-

    TALVEZ EU DEVA...

    Batatais, 05-02-2011 – O verbo dever anda me deixando intrigado pelo modo como vem sendo usado. Tenho um conhecido que, vez por outra, fala assim: — (1) Eu deva ir ao seu aniversário… (2) Ela deva chegar agora mesmo, espera um pouquinho. (3) A gente deva ir, sim. Note que até formou um nome de pessoa a expressão do caro amigo: devair. Comecei a reparar a fala de outras pessoas e não é que se vai generalizando esse uso estranho do presente do subjuntivo do verbo dever pelo presente do indicativo? A explicação do uso só pode ser pela marca forte do subjuntivo: que eu deva. Virou uma espécie de ultracorreção: pensando ser o correto ou mais culta a forma deva em vez de deve, as pessoas passam a usá-la e a assimilação da norma popular é muito mais rápida e aceita do que a da norma considerada culta. De: talvez ela deva chegar, vem: ela deva chegar.

    Dever é um verbo classificado como auxiliar, isto é, ele forma com outro verbo, considerado principal, uma locução verbal. Vamos a alguns exemplos: (1) O governo deverá propor novo reajuste do salário mínimo. (2) Ela deverá apresentar-se ao delegado amanhã.

    Um verbo auxiliar pode juntar-se a outros e formar o que chamamos de cadeias verbais, algumas até longas, como: eu quero poder ir passear pela Europa nas férias. Note-se que, nessa cadeia verbal, o verbo principal é passear, que constitui o núcleo semântico. São três verbos auxiliares e um principal. Se se tirar um só auxiliar, a ideia já não será a mesma.

    O verbo dever é classificado como auxiliar modal porque serve para formar locuções com valor modal, ou seja, com ideia de desejo, possibilidade, necessidade, probabilidade. Outros modais são os verbos: poder, ter de, haver de.

    A conjugação completa do verbo dever em todas as primeiras pessoas de cada tempo é a seguinte:

    Modo indicativo: Eu devo (presente). Eu devia (pretérito imperfeito). Eu devi (pretérito perfeito). Eu devera (pretérito mais-que-perfeito). Eu deverei (futuro do presente). Eu deveria (futuro do pretérito).

    Modo subjuntivo: Que eu deva (presente). Se eu devesse (imperfeito). Quando eu dever (futuro).

    Modo imperativo afirmativo: Deve tu, deva você, devamos nós, devei vós, devam vocês.

    Modo imperativo negativo: Não devas tu, não deva você, não devamos nós, não devais vós, não devam vocês.

    Muitas pessoas me perguntam se eu acho que decorar verbos é uma prática inadequada. Aliás, é bom que se diga que, depois do construtivismo, se passou, generalizadamente, a condenar a memorização na escola. Nem o construtivismo preconizou tanta aversão ao exercício de decorar ou memorizar dados, fatos, ideias, conceitos. Pois eu vou-lhes dizer que sempre apreciei o exercício de memorização que se popularizou e entrou para o dicionário com o nome de decoreba. O verbete decorar aparece assim no Novo Aurélio:

    Verbo transitivo direto.

    1. Aprender de cor; reter na memória: decorar uma lição.

    Verbo intransitivo.

    2. Procurar guardar na memória aquilo que leu.

    A doce poeta Adélia Prado escreveu o seguinte: Aquilo que a memória amou fica eterno. Se eu gosto da letra de uma canção, de um poema ou trechos de um texto marcante, eu tento aprendê-los de cor. Vejam que expressão bonita: de cor. Significa: de coração, pois cor é coração no latim. Para os ocidentais, o coração é a sede do pensamento, da memória. Saber de cor é, então, saber de coração. E eu guardo no coração só as coisas de que gosto. Não há mal algum em que se decorem ensinamentos escolares. Verbos, por exemplo, depois de entender as razões dos nomes dos tempos, modos e formas nominais dos verbos, depois de observar os tempos verbais combinando em frases e textos, é bom que se tente aprender de cor a conjugação deles. Não estou dizendo que só a memorização resolve o problema do ensino; é preciso entender, compreender, fazer inferências etc., mas decorar não faz mal nem atrapalha. As disciplinas das chamadas ciências humanas, por exemplo, são muito convidativas a um bom exercício de decoração aliado à construção do saber por conta própria.

    Sobre a decoreba, acabo de ler um artigo imperdível, do jornalista Hélio Schwartsman, na edição do dia 22-1-2011 da Folha de S. Paulo.

    O título sugestivo é A vingança da decoreba e nele lê-se o seguinte:

    Trabalho publicado anteontem na ‘Science’ mostra que alunos que estudam por métodos do tipo decoreba aprendem mais do que os que utilizam outras técnicas.

    O ‘paper’, que tem como autor principal o psicólogo Jeffrey Karpicke, da Universidade Purdue, comparou o desempenho de voluntários que estudaram um texto científico se valendo de um método que enfatiza a memória (leitura seguida de um exercício de fixação mnemônica) com o de alunos que usaram a técnica do mapa conceitual, na qual leem o texto e depois desenham diagramas relacionando os conceitos apresentados.

    Uma semana depois, os estudantes fizeram um exame para descobrir quanto haviam aprendido. O grupo da decoreba teve um índice de acertos 50% maior do que o do mapa. A grande surpresa, porém, foi que os memorizadores se saíram melhor tanto nas perguntas que envolviam a mera reprodução das ideias originais como também nas questões que exigiam que eles fizessem inferências, estabelecendo novas conexões entre os conceitos.

    Prometo continuar conversando com vocês, leitores meus, sobre esse assunto tão palpitante. Até a próxima!

    - 4 -

    NÓS É QUE SOMOS ESPERTOS

    Batatais, 12-02-2011 – Talvez você, leitor, estranhe o título da crônica de hoje. Aparentemente há uma discordância gramatical, porém lhe asseguro que não há nenhum deslize, mas, sim, o uso correto da expressão de realce, é que. As frases a seguir estão todas certas: (1) Elas é que nos devem uma resposta. (2) Vocês é que devem devolver o livro. (3) Os políticos é que devem ser serviçais do povo.

    A expressão é que serve para dar ênfase à declaração que se quer fazer e constitui um idiotismo da nossa língua, ou seja, é uma característica do português apenas, uma expressão idiomática. Nesse caso, nada a ver com idiota.

    Veja comigo como a locução se altera quando se separam o é e o que.

    (4) Foi ela que fez essa declaração. (5) Foram eles que fizeram tamanha confusão. No caso da (4), também poderia ser assim: Ela é que fez essa declaração. Também a (5) poderia ficar assim: Eles é que fizeram tamanha confusão.

    Leia esta gostosa quadrinha e observe a variação da locução expletiva ou de realce de que estamos tratando:

    As rosas é que são belas

    Os espinhos é que picam

    Mas são as rosas que morrem

    São os espinhos que ficam.

    Note que nas duas últimas estrofes, ao se distanciar o é do que, o verbo teve de ir para o plural: são… que.

    Por analogia com essa variação da expressão idiomática, é que, tem-se feito alguma confusão com a concordância verbal. Dia desses, li no jornal Folha de S. Paulo a seguinte manifestação de uma leitora indignada com a colunista Nina Horta:

    [...] Estou perplexa. Como alguém com tanta insensibilidade pode ter um espacinho como o teu numa coluna de jornal. O que precisamos hoje em dia são de pessoas de coração, de sensibilidade e não de pessoas frias que só usam a natureza para o que convém." Chamo a sua atenção para o uso do plural, são de pessoas, em vez de é de pessoas...

    A expressão de realce seria é de. Com ela, teríamos as seguintes possibilidades: (6) Precisamos hoje em dia é de pessoas de coração... (7) É de pessoas de coração que precisamos hoje em dia. (8) O que precisamos hoje em dia é de pessoas de coração... A expressão é de também traz ênfase à declaração. Pode ser retirada da frase, sem maiores prejuízos, porém seu uso dá realce ao dizer. Só não deve ser usada de forma equivocada, tal como fez a autora da carta para a colunista do jornal.

    Se você prestar atenção à fala das pessoas, certamente ouvirá frases como estas:

    (9) São nessas horas que a gente vê quem tem compromisso com a honra.

    (10) São nesses homens de bem que devemos confiar.

    Estão incorretas, por exagero de correção, ou hipercorreção, ambas as frases. A expressão é que está sendo empregada de forma inadequada. Se fizermos um exercício de reescrita, teremos: (11) Nessas horas é que a gente vê quem tem...

    (12) Nesses homens de bem é que devemos confiar.

    Sem a locução é que, teríamos: (13) Nessas horas a gente vê quem tem compromisso com a verdade. (14) Nesses homens de bem devemos confiar. Esses recursos que a língua portuguesa nos oferece é que tornam o nosso falar mais agradável e interessante.

    Voltando ao texto da leitora que escreveu para Nina Horta: Estou perplexa, digo que ela usou um bom adjetivo para a situação. Muitos hoje dizem assim: Estou passada. Convenhamos que perplexo é muito mais elegante, sem ser pedante.

    Depois de ouvir a minha explicação sobre a locução expletiva é que, uma aluna disse-me assim:

    — Professor, que tudo! Tô passada! O senhor causou. Tive ímpeto de dizer-lhe, com humor:

    — Engomada e passada está a língua portuguesa, mas não segurei o riso.

    Como explicar o surgimento de tantas expressões assim, esquisitas à primeira vista?

    Pela necessidade de causar mais impacto nas exclamações e fugir de expressões desgastadas pelo uso. Em vez de tudo de bom, surgiu agora: que tudo! No lugar de estou perplexa, surpresa, diz-se: Tô passada. E o verbo causar ganhou uma nova regência. Para significar provocar sensação, chamar a atenção, tornou-se intransitivo. Em vez de dizer: Ela causou impacto, sensação, diz-se simplesmente: Ela causou; hoje eu quero causar na festa.

    São modismos que vêm e vão. Eles atestam a riqueza do sistema da língua que permite todas essas mudanças e experimentos, sem perder o viço e a beleza. O importante mesmo é aprender a perceber que não se deve falar e escrever desse modo em todas as circunstâncias de nossa vida em sociedade.

    Tudo de bom para vocês, meus leitores e minhas leitoras. Até a próxima!

    - 5 -

    A LINGUAGEM E A ETIQUETA

    Batatais, 05-3-2011 – Cecília Meireles, poeticamente, chamava a atenção dos leitores para a força das palavras. Veja que versos bonitos e verdadeiros:

    Ai, palavras, ai palavras,

    que estranha potência, a vossa!

    Todo o sentido da vida

    principia à vossa porta;

    o mel do amor cristaliza

    seu perfume em vossa rosa;

    sois o sonho e sois audácia,

    calúnia, fúria, derrota…

    Nem é preciso que eu lhe assegure, leitor, que uma palavra bem posta é capaz de nos colocar em situação privilegiada ou, então, nos jogar nos braços da rejeição social. É preciso cuidado com as palavras, a nossa luta é com elas. Como escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade:

    Lutar com as palavras é a luta mais vã

    Entanto lutamos, mal rompe a manhã.

    O mesmo genial poeta alerta sobre a necessidade de termos em nosso poder a chave do reino das palavras:

    Chega mais perto e contempla as palavras.

    Cada uma

    tem mil faces secretas sob a face neutra

    e te pergunta, sem interesse pela resposta,

    pobre ou terrível, que lhe deres:

    Trouxeste a chave?

    Tudo isso eu lhes digo, meu caro amigo, minha cara amiga, para abrir uma conversa com vocês sobre o uso das palavras em diferentes circunstâncias da etiqueta social. O novo dicionário Aurélio assim apresenta o verbete etiqueta:

    Substantivo feminino.

    1. Conjunto de cerimonial, ordem de precedência e usos que devem ser observados na corte ou em solenidades e festas oficiais, públicas ou não, de que participam chefes de Estado ou altas autoridades.

    2. P. ext. Formas cerimoniosas de trato entre particulares; cerimonial.

    Fiquemos na acepção de número 2. As pessoas se mostram, se revelam pelo uso das palavras no trato com as pessoas. Vejamos juntos algumas situações sociais em que precisamos da linguagem.

    Ao telefone:

    Toca o telefone, você está ocupado e sai para atender prontamente.

    Do outro lado da linha, a pessoa pergunta: Quem?.

    Esse quem é uma simplificação do tradicional, quem fala?.

    É preciso muito bom humor para não responder: "Você, por enquanto".

    Porém, educado que é, você pergunta: Você deseja falar com quem?

    Se a pessoa que ligou para você perceber, aprenderá como deve ser a fala inicial de quem telefona.

    Sugestão de expressões ao telefonar:

    1.  Por gentileza, desejo falar com Maria. É possível?

    2.  Preciso falar com Maria. Ela pode me atender?

    3.  Eu sou o Juscelino e gostaria de falar com a Maria.

    Se você já for logo perguntando a Maria se encontra?, correrá o risco de a pessoa dar uma resposta como esta: "Graças a Deus, a Maria nunca se perdeu, ela sempre se encontrou. E você se encontra bem?".

    Pior é quando você telefona para marcar uma consulta médica e a secretária, toda solícita, responde:

    — O doutor não vai estar podendo atender você, ele não se encontra.

    Sorte sua, porque se o doutor não encontra nem a si mesmo, como poderá encontrar você, não é mesmo? E o gerúndio, tão mal-empregado pela secretária, vai-se tornando uma marca registrada de atendentes de empresas. Para evitar esses quatro verbos, a funcionária poderia dizer: O doutor não poderá atender você agora. Ele está trabalhando em outro local. Ou então: Ele não se encontra aqui, agora.

    Expressões como por gentileza, por obséquio, por favor, com prazer, muito obrigado, obrigado, não há de quê, não há por que agradecer, desculpe-me, queira desculpar-me, foi um erro meu andam fazendo muita falta na convivência das pessoas em todos os ambientes sociais.

    Sugestão de expressões para um baile.

    Não sei por que fui lembrar-me de baile, agora. Ah! já sei. Em Delfinópolis, conta-se um caso verdadeiro de um cidadão que, em um baile, querendo ser gentil e sedutor, dirigiu-se a uma dama, educadamente:

    A senhorita poderia me dar o prazer desta contradança?

    — Com muito prazer, aquiesceu a moça.

    Já no andamento da dança, querendo mostrar-se cavalheiro, o ilustre cidadão dirige-se à jovem:

    Qual é a sua graça?

    E ela, prontamente, responde e depois pergunta ao embevecido dançarino delfinopolitano:

    — Eufêmia Pereira de Castro e Silva. E a sua graça qual é?

    — Eu macho, João Ferreira de Castro, foi a desastrada resposta do rapaz.

    Você acha, leitora, que a dança prosseguiu? Por essa situação, a elegante moça jamais esperaria passar.

    Também existem esses perigos, quando se quer ser gentil em exagero e não se tem o domínio apropriado do vocabulário e da gramática.

    O modo como nos dirigimos às pessoas marcam-nos muito mais do que as roupas que vestimos. Estar de bem com a língua é fundamental para se estar de bem com a vida.

    Agora, aqui, neste momento desta nossa conversa, eu gostaria de tratar da linguagem de e-mails. Deixarei, entretanto, para a próxima semana. Aguardem-me, por gentileza.

    Até lá!

    - 6 -

    TORNO, RETORNO E ENTORNO

    Batatais, 19-3-2011 – O título desta crônica linguístico-literária ficou muito sugestivo, pela leitura que pode provocar. Se você leu as três palavras com a vogal O aberta, como se fossem tórno, retórno e entórno, conjugou os verbos tornar, retornar e entornar. Se as leu com a vogal O fechada, como se fossem tôrno, retôrno e entôrno, encontrou-se com três substantivos: o torno, o retorno e o entorno. Desses três, chama a atenção entorno, pelo modismo em que acabou transformando-se: não se diz mais em torno de, ao redor de. Agora, o elegante é usar: o entorno, no entorno. Acabo de ver agora no jornal Folha de S. Paulo, edição de 14-3-2011, p. A11, em um mesmo texto, sobre a tragédia no Japão, dois exemplos ilustrativos do que quero apontar:

    1.  "A empresa que opera a usina disse ontem que os níveis de radiação no entornoestão acima do limite de segurança [...]" (2) "Até ontem, 210 mil pessoas já haviam sido removidas do entorno da usina de Fukushima 1 [...]".

    Perceba que a jornalista gostou de usar a palavra entorno. Poderia perfeitamente ter empregado: circunvizinhança, ao redor, em torno de, sem prejuízo da correção e elegância do período sintático. A preferência pelo substantivo entorno resulta da novidade do uso e do desgaste das demais expressões sinônimas. A história do uso das palavras dá-se dessa forma mesmo. Alcançam o sucesso máximo, vivem dias gloriosos e depois vão deixando de ser novidade e passam a ser substituídas por outras. Mais ou menos como a própria história dos seres humanos.

    Agora, é a vez de entorno, assim como também é a hora de — veja só— o agora. Acompanhe os exemplos que vi no jornal:

    1.  "Campeão mundial contratado peloagora empresário Ronaldo [...]".

    2.  "De um auxiliar próximo a Dilma, sobre aagora indefinidamente adiada compra dos caças para a FAB [...]". Não resta dúvida sobre o novo modismo do uso de agora.

    Na gramática, a palavra agora pode ser:

    Advérbio, com o significado de:

    1.  Neste instante, neste momento, nesta hora.

    2.  Presentemente, atualmente.

    3.  Nesse ou naquele instante, nesse ou naquele momento, nessa ou naquela hora; então.

    4.  Nesse ou naquele tempo; então.

    5.  Depois disto, diante disto.

    6.  De agora em diante; doravante.

    Conjunção, com o valor de:

    7.  Mas, porém, contudo, todavia.

    8.  Umas vezes... outras vezes; ora... ora.

    Interjeição, para denotar:

    9.  Ora essa; ora.

    O modismo de agora é usar, antes, os artigos o, e a, fazendo uma mudança de classe gramatical, porque substantiva-se o advérbio, em nome da simplificação da frase. Em vez de dizer: Contratado por Ronaldo, que agora é empresário, diz-se pelo agora empresário, do mesmo modo como até há pouco se dizia: pelo então empresário Ronaldo. Isso mostra como a língua vai-se alterando ao sabor da vontade que as pessoas têm de variar as construções gramaticais. Se o modismo perdurar e, nesse caso, duvido que isso aconteça, a gramática e o dicionário acabam por consagrar o seu uso e até recomendá-lo. Por enquanto, é bom que se evite o seu emprego dessa forma em textos que exigem domínio da norma padrão da língua.

    Não é o caso de entorno, como substantivo, porque esse já foi até dicionarizado, mas é também um modismo que aguarda ainda um tempo de maturação para se consagrar.

    Retorno ao título da crônica para escrever que as três palavras, torno, retorno e entorno, que podem ser verbos ou substantivos, dependendo apenas do seu emprego na frase, são classificadas gramaticalmente como homônimas homógrafas heterofônicas. Observe que elas se escrevem de forma igual, por isso homógrafas, porém se diferenciam pela pronúncia, assim se classificando como heterofônicas. É possível que se leia uma

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