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O Movimento Indígena e a Luta por Emancipação

O Movimento Indígena e a Luta por Emancipação

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O Movimento Indígena e a Luta por Emancipação

notas:
5/5 (1 nota)
Duração:
542 páginas
7 horas
Lançados:
1 de out. de 2018
ISBN:
9788547314477
Formato:
Livro

Descrição

As organizações indígenas no Brasil apresentam um quadro de redes de articulação e mobilização política equivalencial que abarcam demandas indígenas por todo o território. Essas formas organizacionais estão calcadas e orientadas por políticas de direitos à terra, à autodeterminação, ao exercício da tradicionalidade, à cidadania, à participação política e a outros direitos assegurados pela Constituição Federal de 1988, além dos tratados internacionais. As relações entre o Movimento Indígena e o Estado-Nação são analisadas à luz dos espaços institucionais de discussão política. Nesse sentido, a representação indígena é uma questão-chave. Sobretudo, o objetivo está em dar visibilidade e propiciar um canal de expressão para as lideranças, organizações, comunidades e o Movimento Indígena como um todo. A obra pretende ser uma ferramenta de reflexão e análise histórica e sociológica para lideranças indígenas e suas bases, bem como uma fonte de informação à sociedade não indígena alheia às questões e aos direitos indígenas. Podendo, também, servir como fonte de pesquisa para futuros estudos e investigações acerca do tema.
Lançados:
1 de out. de 2018
ISBN:
9788547314477
Formato:
Livro


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O Movimento Indígena e a Luta por Emancipação - Catiúscia Custódio de Souza

Editora Appris Ltda.

1ª Edição - Copyright© 2018 dos autores

Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98.

Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores.

Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010.

COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS

Ao Movimento Indígena e sua resistência histórica.

AGRADECIMENTOS

Agradeço às professoras Dr.a Ilse Scherer Warren e Dr.a Maria Dorothea Post Darella, pelo acolhimento na Universidade Federal de Santa Catarina, e por terem me impulsionado e acreditado neste trabalho.

Ao antropólogo e professor Dr. Ledson Almeida, por ter apoiado a iniciativa de analisar as organizações indígenas pelo viés político e sociológico e apoiar esta publicação como forma de contribuição às reflexões do Movimento Indígena. E por ter contribuído com o prefácio deste livro.

Ao filósofo e indigenista Orivaldo Nunes Junior (Nuno Nunes), por ter me aberto as portas para o indigenismo.

Às lideranças indígenas que me confiaram suas palavras e me proporcionaram aprendizados e trocas singulares de universos únicos.

Aos meus pais, Inês Ana Custódio e Erni de Souza, que com amor e o suor de seus trabalhos me disponibilizaram todas as ferramentas para meu crescimento pessoal e profissional.

APRESENTAÇÃO

Este livro é, sobretudo, resultado da pesquisa de mestrado desenvolvida entre os anos de 2013 a 2015 na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por meio do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política e do Núcleo de Pesquisa em Movimentos Sociais (NMPS). A temática indígena nunca foi um objeto de pesquisa pelo qual eu me interessasse fortemente, ainda que, como professora da educação básica, trabalhasse fortemente a situação histórica e atual dos povos indígenas no Brasil. O contato com os indígenas surgiu entre o fim de 2011 e o início de 2012, por meio da experiência como professora na educação escolar indígena e da participação de algumas reuniões em aldeias Guarani da região da Grande Florianópolis. Por meio das vivências nas aldeias é que surgiu o interesse pela temática; daí o projeto de pesquisa que sucedeu ao ingresso na pós-graduação. Entendendo que a construção e a difusão do conhecimento servem à práxis com o intuito de alterar a dinâmica social com fins de transformação social para que nós, seres humanos, possamos viver mais igualitariamente é que me propus a trilhar o caminho da temática indígena e, assim, de alguma forma, contribuir para a alteração do quadro social em que se encontram as populações indígenas do País. A temática indígena, por mais difusão que tenha atualmente, ainda assim enfrenta muitos obstáculos, mesmo nos meios acadêmicos, em áreas para além da Antropologia e da História. Nesse sentido, dar voz e visibilidade ao Movimento Indígena no campo da Sociologia durante a pós-graduação foi uma tarefa pedagógica, de resistência e de muitos enfrentamentos. Assim, é com grande alegria que apresento o resultado desse processo por meio deste livro, que contou com o apoio de professores e de lideranças e comunidades indígenas. Dessa maneira, ainda que haja críticas acadêmicas, é com grande ênfase que reforço o objetivo deste trabalho: dar voz e visibilidade ao Movimento Indígena e às suas demandas. A formulação de teorias do conhecimento, ou a elaboração de novos conceitos, não é a preocupação fundamental desta publicação. Dessa maneira, o leitor aqui terá uma oportunidade de conhecer um pouco melhor a situação dos povos indígenas no Brasil. Aspectos culturais, sociais, econômicos e políticos são abordados tanto do ponto de vista histórico quanto da atualidade. Não obstante é preciso atentar ao leitor que a dinâmica política do País tem alterado cotidianamente e concomitantemente as decisões acerca das demandas indígenas também. Ou seja, o leitor disporá de informações bastante atuais, mas que também podem ter sofrido modificações em questões de dias, semanas ou meses. Portanto, a pesquisa e a coleta de informações para além do que aqui está escrito são relevantes. Característica fundamental desta publicação é a voz dos entrevistados, que relatam suas realidades, experiências e desafios para sua sobrevivência física e cultural em um país em que são considerados entraves ao desenvolvimento econômico. Não obstante suas áreas, que são fonte de cobiça da exploração natural e mineral, constituem-se em verdadeiras ilhas de preservação ambiental. Atualmente a preservação do meio ambiente é de interesse de toda sociedade que quer assegurar um futuro rico e pleno às futuras gerações. A partir disso, o leitor perceberá o quanto as demandas dos povos indígenas também são demandas de toda a sociedade. O Grito da Floresta e de seus protetores é um chamado para que toda a sociedade participe de um processo que visa à efetivação de direitos, à participação política, ao real reconhecimento das diferenças e, sobretudo, à proteção do meio ambiente do qual fazemos parte.

A autora

PREFÁCIO

O livro de Catiúscia Custódio de Souza é baseado em sua dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política, Departamento de Sociologia e Ciência Política, do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina, como requisito para obtenção do Título de Mestra em Sociologia Política, no ano de 2015. Ele é consideravelmente mais rico em dados do que a dissertação, além de ter tido a abordagem ampliada com uma articulação mais cuidadosa entre a reflexão teórica e os dados obtidos em campo.

Esta obra chega a um importante momento do processo democrático brasileiro em que o País vive uma profunda crise de representatividade decorrente de um Governo sem legitimidade do voto popular. O executivo com o apoio majoritário do Congresso Nacional está com o compromisso de garantir, a todo custo, a permanência das elites no poder, principalmente dos setores financeiros especulativos e grandes agropecuaristas, em detrimento de setores menos privilegiados como operários, camponeses, indígenas e quilombolas. Vivemos um déjá vu de momentos políticos de autoritarismo e repressão que assolou gerações de jovens brasileiros, contando com a colaboração da grande mídia nacional. É um governo que fecha os olhos à violência no campo, tapa os ouvidos às instituições de apoio aos Direitos Humanos e vira as costas aos movimentos sociais.

Em seu trabalho, Catiúscia tem como foco os indígenas enquanto protagonistas na construção do texto e da análise, mas aborda o modelo de democracia brasileira ajudando a refletir sobre a busca de caminhos para a ampliação das formas inclusivas de representatividade dos movimentos sociais. A atuação concreta da autora na realidade vivida nas aldeias a aproxima da metodologia antropológica. Possui um viés de pesquisa-ação por meio da contrapartida atuando na área da Educação e da valorização cultural. Problematiza a divisão dos campos da sociologia política e etnologia indígena na atualidade. O texto não esconde a personalidade e o engajamento da autora, como alguém formada na área da História e da Sociologia Política buscando uma aproximação da etnologia indígena. Isso expressa coragem diante da profundidade e complexidade alcançadas pelos estudos etnológicos das sociedades ameríndias. Dessa forma, a temática é abordada mediante a trajetória na sociologia com estratégias da etnografia por meio da observação participante, não podendo deixar de lembrar dois personagens célebres da interlocução entre esses campos do conhecimento, como Darcy Ribeiro e Roberto Cardoso de Oliveira. A forma de encarar este projeto perpassa uma visão da juventude acadêmica no anseio por transformações estruturais. A mentalidade revolucionária na obra é alimentada por esta energia.

Dois aspectos centrais inter-relacionados com os sistemas de representatividade chamam atenção: a organização de um movimento indígena para além das organizações locais e o processo de emancipação em relação ao controle de agências de mediação (governamental ou não governamental) apontando para um confronto com a definição de tutela indígena utilizada de formas distintas em diferentes contextos, tanto pelo Estado brasileiro quanto por grupos opostos aos Povos Indígenas durante a tomada de seus territórios.

Leva a refletir sobre um modelo original para a participação das populações indígenas com autonomia e poder de decisão. O que sugere inúmeros dilemas de contradições com o modelo de democracia vigente que influencia os movimentos indígenas e com os paradoxos desse modelo enfrentados pelas próprias lideranças indígenas na construção de uma representatividade supralocal. A obra, portanto, é importante para problematizar os conceitos de representatividades e legitimidade.

O movimento indígena é distinto de outros movimentos sociais. Possui particularidades importantes. Há uma multivocalidade a partir da realidade de cada etnia, assim como de cada terra indígena, de cada aldeia e de cada grupo local ou família extensa. A expressão de interesses difusos, muitas vezes contrapondo o local ao geral, é um aspecto mais potencializado no âmbito das organizações indígenas. Externamente, os conselhos regionais envolvem a participação indígena, em diferentes áreas com destaque para saúde e educação. Lideranças atualmente atuam em diferentes instâncias de participação das definições de projetos e de políticas públicas. Muitas lideranças ressentem-se da falta da disponibilidade de tempo para permanecerem mais em suas aldeias como forma de participar de suas famílias e da vida local. Esse é um paradoxo próprio das sociedades indígenas, que valorizam profundamente as relações familiares e as articulações políticas de seus grupos mais específicos. Sem contar que a liderança indígena possui características muito peculiares de obrigações. De outra parte, que também dá um caráter particular ao movimento indígena, está a existência de uma legislação específica a nível nacional e internacional que permite o controle das ações que influenciam os aspectos da pessoa e do território, contando com importantes agências fiscalizadoras de âmbito governamental e não governamental.

Nesse sentido, o trabalho de Catiúscia demonstra as dificuldades de um movimento indígena ser institucionalizado de forma autônoma fora dos espaços criados pelo Estado ou por ONGs. O que não deixa de lembrar a grande atuação da UNI no contexto da elaboração da Constituição de 1988, quando o movimento indígena estava em um processo de articulação nacional e mobilização com a participação de diferentes agências de apoio aos direitos indígenas. Era um momento de mobilização intensa com envolvimento de setores da esquerda e de ONGs ligadas, principalmente, a Igreja Católica e Igrejas Protestantes Históricas, com influência da Teologia da Libertação. O movimento organizado indígena alcançou grande visibilidade na Assembleia Nacional Constituinte com o discurso de Ailton Krenak diante dos deputados no Congresso. A partir das conquistas efetivadas na nova Carta houve uma gradativa redução dessa mobilização como se estivesse atingido o ápice de sua finalidade.

Não tirando o mérito de todas as expressividades políticas de apoio ao movimento indígena, este livro problematiza o nascimento de organizações de fora para dentro. O texto permite refletir sobre esta instabilidade e sobre a ambiguidade de instituições que se pretendem autônomas, mas passam a ser vinculadas a agências em processos de interdependência com reduzida representatividade e legitimidade. O discurso dos representantes indígenas ao longo da análise aponta para articulação com as lideranças locais e com parceiros, por outro lado, a realidade apresenta a fragilidade dessa articulação por uma série de fatores. Paradoxos da unidade na diversidade diante das políticas de Estado, confrontando com as concepções indígenas marcadas pelo sistema de lealdades e pelas relações de parentesco.

Envolvendo esse cenário complexo, o trabalho trata da conjuntura atual da política indígena e indigenista no Brasil, analisando a situação de hoje com perspectivas para o futuro. Evidencia os problemas da política indigenista dependente das ambiguidades das políticas de Estado, muitas vezes contraditórias entre uma maior participação da sociedade civil e a defesa dos interesses privados. Aborda as principais estratégias atuais dos grupos políticos dominantes no sentido de cerceamento dos direitos indígenas garantidos pela legislação nacional e internacional que visam basicamente à negação de consulta aos indígenas e à Funai diante do interesse econômico e do avanço de empreendimentos sobre terras indígenas.

A subjetividade da autora se faz presente por meio do seu posicionamento crítico em relação ao processo de estruturação das organizações indígenas e das políticas de Estado. Independentemente da análise dos posicionamentos, estes, em si mesmos, explicitam o discurso da própria pesquisadora no contexto dialógico que coloca em cena outros discursos como dos próprios indígenas, das ONGs e do indigenismo oficial.

A escrita na parte teórica sobre representação e democracia é densa. Teoria que busca encontrar espaço para a participação política dos povos indígenas de forma mais simétrica com os poderes constituídos. Discussão situada em uma reflexão atual sobre a natureza da democracia, das formas de representação e da legitimidade. Coloca em questão as formas de representatividade eleitoral que existem no Brasil atual propondo novas vias para a participação em uma sociedade plural, tipicamente brasileira. Reflexão que contribui para elaborar uma proposta de maior intervenção dos povos indígenas nos desígnios da política de Estado.

Não é por acaso, no contexto atual, o convite a um etnólogo prefaciar um texto com abordagem majoritariamente das áreas da Sociologia e da Política. O esforço para aproximar essas três áreas, respeitando a construção histórica de campos específicos ao longo da formação da identidade delas, é louvável quando o foco é a participação das sociedades indígenas no cerne da estrutura do Estado. A complacência de muitos intelectuais da academia com a restrição dos direitos indígenas e subtração de seus territórios os tem tornado cúmplices de tais processos de conquista dos povos indígenas e ausência de diálogo com seus interesses. Necessita-se de um esforço conjunto e interdisciplinar para a participação plural neste ente construído a partir da dizimação, do jugo, da subordinação, da discriminação e da dominação política dos diversos povos que compõem o território reconhecido jurídica e politicamente como Brasil a partir da tomada e divisão das terras da América Latina pelas Coroas de Espanha e Portugal.

A tomada das áreas de ocupação indígena, por meio de várias estratégias e mecanismos ao longo dos anos, ainda em curso, ocupa uma arena eminentemente jurídica e política nos nossos dias. A mediação do Estado, mais do que nunca, estará garantindo, daqui pra frente, a derrocada ou a defesa dos direitos territoriais indígenas, das poucas áreas restantes desde os primeiros passos da ocupação europeia deste continente. O posicionamento do Governo se dá diante de um parlamento com características comuns ao longo da história no que tange às elites hegemônicas nacionais. A abordagem histórica alerta sobre a ocorrência de mudanças na complexidade e na dinâmica dessa elite. Contudo as consequências para os interesses dos povos indígenas pouco mudaram. Os rumos políticos são dominados por um conjunto de setores articulados: da especulação imobiliária, da agropecuária, da construção civil, da energia, da mineração, da indústria baseada na extração vegetal, de pesca comercial, dentre outros. Esses setores estão enquadrados numa perspectiva desenvolvimentista tacanha, individualista, oportunista e clientelista, pautada em modelos importados de países responsáveis por criar a dor e a miséria de outros povos.

As características socioambientais do Brasil e da América Latina, de forma geral, reivindicam um modelo autêntico, original e autônomo de desenvolvimento que tenha como princípio fundamental a sobrevivência do pluralismo cultural e da diversificação ecossistêmica. Um passo importante para essa conquista está sendo apontado nesta obra por meio do delineamento da constituição de uma arena política capaz de contemplar a participação efetiva do pluralismo nacional colocando em cena o debate simétrico entre ideias e diferentes interesses.

Ledson Kurtz de Almeida

Doutor em Antropologia Social

Antropólogo Independente

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

Apib Articulação dos Povos Indígenas do Brasil

Apoinme Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas e Espírito Santo

Arpinsul Articulação dos Povos Indígenas do Sul

CCNAGUA Concejo Continental de la Nácion Guarani

Cepi Conselho Estadual dos Povos Indígenas do Rio Grande do Sul

Cepin Conselho Estadual dos Povos Indígenas de Santa Catarina

CF Constituição Federal de 1988

CGY Comissão Guarani Yvy Rupa

Cimi Conselho Missionário Indigenista

Coiab Confederação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira

CNA Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil

CNPI Conselho Nacional de Política Indigenista

Cnv 169 OIT Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho

CPICT Conselho dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais do Paraná

CTI Centro de Trabalho Indigenista

DDPI/ONU Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas

DSEI Distrito Sanitário Especial Indígena

EIA Estudo de Impacto Ambiental

Funai Fundação Nacional do Índio

Funasa Fundação Nacional de Saúde

GF Governo Federal

Ibama Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis

Incra Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

Insi Instituto Nacional de Saúde Indígena

ISA Instituto Socioambiental

MI Movimento Indígena

MJ Ministério da Justiça

MPF Ministério Público Federal

PAA Política de Ações Afirmativas

PEC Proposta de Emenda à Constituição

PNGATI Plano de Gestão Ambiental e Territorial de Terras Indígenas

PF Polícia Federal

PGR Procuradoria-Geral da República

Rima Relatório de Impacto Ambiental

Sesai Secretaria Especial de Saúde Indígena

SPI Serviço de Proteção ao Índio

STF Supremo Tribunal Federal

STJ Supremo Tribunal de Justiça

SUS Sistema Único de Saúde

TAC Termo de Ajustamento de Conduta

TI Terra Indígena

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

1.1 O CAMPO ENTRE A ANÁLISE ETNOLÓGICA E SOCIOLÓGICA: UMA PESQUISA PARTICIPANTE

1.2 MOVIMENTO INDÍGENA: HISTÓRIA E MARCO INSTITUCIONAL

1.3 MOVIMENTO INDÍGENA E AS CATEGORIAS POLÍTICAS

1.4 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 AOS TRATADOS INTERNACIONAIS

2

AS ORGANIZAÇÕES INDÍGENAS ONTEM E HOJE: REPRESENTAÇÃO, ARTICULAÇÃO E MOBILIZAÇÃO

2.1 ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO SUL (ARPINSUL)

2.2 COMISSÃO GUARANI YVY RUPA (CGY) 

2.3 O MOVIMENTO INDÍGENA, AS ORGANIZAÇÕES NAS LUTAS HISTÓRICAS POR

DIREITOS E O MOMENTO POLÍTICO ATUAL 

3

DEMOCRACIA, REPRESENTAÇÃO E A QUESTÃO INDÍGENA

3.1 DE QUE PROJETO POLÍTICO ESTAMOS FALANDO? 

3.2 DEMOCRACIA RADICALIZADA: PLURALISMO E AGONISMO COMO ALTERNATIVAS 

3.3 ENTRE A POLÍTICA DE IDEIAS E DE PRESENÇA: É POSSÍVEL A REPRESENTAÇÃO PLURAL? 

3.4 PARTICIPAÇÃO INSTITUCIONAL E PARLAMENTAR: OS DESAFIOS E IMPASSES PARA

UMA REPRESENTAÇÃO PLURAL DOS POVOS INDÍGENAS 

4

O MOVIMENTO INDÍGENA E O ESTADO

4.1 CONSELHOS ESTADUAIS INDÍGENAS: A RETOMADA DIANTE DOS CONFLITOS FUNDIÁRIOS 

4.1.1 Conselho Estadual dos Povos Indígenas de Santa Catarina (Cepin) 

4.1.2 Conselho dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais do Paraná (CPICT)

4.1.3 Conselho Estadual dos Povos Indígenas do Rio Grande do Sul (Cepi) 

4.2 SAÚDE INDÍGENA: O DESAFIO PARA A SOBREVIVÊNCIA FÍSICA DAS POPULAÇÕES INDÍGENAS 

4.3 EDUCAÇÃO ESCOLAR E SUPERIOR INDÍGENA: É PRECISO DESCOLONIZAR 

4.3.1 O Processo de implantação de Políticas de Ações Afirmativas no ensino

superior no Brasil e na UFSC 

4.3.2 Pensando na possibilidade de desaprender 

4.3.3 Das PAAs às Universidades Indígenas 

4.3.4 Breve análise do desempenho das cotas para indígenas na UFSC e os

desafios para a educação superior indígena 

4.4 DE COMISSÃO A CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA INDIGENISTA: AVANÇOS E PERSPECTIVAS 

4.5 OS INDÍGENAS E O ESTADO: CONTRATO SOCIAL? 

4.5.1 Contrato Social: as teorias ocidentais normativas da organização social e política 

4.5.2 Povos Indígenas: formas de organização social e política 

4.5.3 Diferentes formas de organização social e política: o que significa o Contrato? 

5

TERRITÓRIOS INDÍGENAS: ENTRE OS CONFLITOS E O DIREITO

5.1 MESAS DE DIÁLOGO: O QUE ELAS FORAM DE FATO? 

5.1.1 Mesas de Diálogos em Santa Catarina 

5.1.2 Mesas de Diálogos no Rio Grande do Sul 

5.2 OS CONFLITOS FUNDIÁRIOS NO SUL DO BRASIL: AS COMUNIDADES ENCURRALADAS PELA BUROCRACIA, O PRECONCEITO E OS INTERESSES POLÍTICOS E ECONÔMICOS 

5.2.1 TI Morro dos Cavalos/Tekoa Itaty/Palhoça (SC) 

5.2.2 TI Piraí Tiaraju/Araquari (SC) 

5.2.3 Território Kaingang 

5.2.4 TI Chapecó/Ipuaçu (SC) 

5.2.5 TI Mangueirinha (PR) 

5.2.6 TI Laklãnõ/Xokleng (SC) 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS

Referências virtuais 

1

INTRODUÇÃO

1.1 O CAMPO ENTRE A ANÁLISE ETNOLÓGICA E SOCIOLÓGICA: UMA PESQUISA PARTICIPANTE

Sempre se considerando humano, o etnógrafo procura conhecer e julgar o homem de um ponto de vista elevado o suficiente para abstraí-lo das contingências próprias a esta sociedade ou àquela civilização. Suas condições de vida e de trabalho o isolam fisicamente de seu grupo por longos períodos; pela brutalidade das mudanças a que se expõe, ele adquire uma espécie de desarraigamento crônico: nunca mais se sentirá em casa, em lugar algum, permanecerá psicologicamente mutilado. Como a matemática ou a música, a etnografia é uma das raras vocações autênticas. Podemos descobri-la em nós, ainda que não nos tenha sido ensinada por ninguém. (LÉVI-STRAUSS, 1996, p. 53, grifos do autor).

Ao adentrar o velho e o novo mundo, motivada pelo desconhecido, pelo exótico, pelo incompreendido e, ao mesmo tempo, pelo explorado e expropriado universo indígena, perdi-me em um caminho sem volta, em um labirinto sem fim. Mutilada de minhas raízes e sem mais saber onde de fato minha casa está, e qual é o grupo a que pertenço, encontrei pedaços do lar perdido nas andanças da mata, nos rituais de beleza sem fim, na esperança e na certeza de que um mundo para além do determinado socialmente pela cultura ocidental existe e é possível.

Motivada por sentimentos de justiça, solidariedade e, principalmente, de humanidade, encontrei um ideal que me possibilita ser humana e cientista, que me permite a teoria e a práxis. Encontrei na investigação sociológica e na observação etnológica o meu lugar no mundo da vida e do trabalho. Acima de tudo, encontrei, de fato, aquele sentimento que nos eleva à grandeza de ser e viver. Aquele sentimento que motiva o cotidiano e a luta. Aquele sentimento de razão objetiva e de um propósito que me responde à pergunta de Hanna Arendt: O que estamos fazendo no mundo?.

Politicamente emergida em um universo no qual imperam as desigualdades material e política, percorri um longo caminho de impasses científicos e choques culturais que, longe de se encerrarem neste trabalho, afirmam-se apenas como o início de uma experiência e as primeiras impressões desse universo com que me deparei. Graduada em História a partir de pesquisas de cunho político e econômico, jamais imaginei tamanho salto em uma pós-graduação que me levou à prática interdisciplinar pelo desejo de estudar as sociedades indígenas − antes totalmente desconhecidas por mim − pelo viés político institucional. Embora, mais tarde, tenha percebido que tamanha tarefa não se encerra em uma área do conhecimento, mas perpassa a História, a Filosofia, a Antropologia, a Geografia, o Direito, as Ciências da Saúde e da Natureza, ainda que todas estejam permeadas pelo político.

A experiência de pesquisa permitiu-me, de fato, a formulação da interdisciplinaridade defendida por Imannuel Wallenstein e tantos outros cientistas. Somando-se a essa real e necessária atitude científica, pude realmente entender os riscos dos apriorismos nas pesquisas de campo, advertidos por Max Weber, e o holismo existente nos ambientes sociais, proferido por Émile Durkheim. A atividade tanto prática como teórica em uma pesquisa lança-nos aos mais diferentes caminhos em que autores e teorias podem encaixar-se perfeitamente, ainda que discordantes, como se cada conceito ou categoria pudessem abarcar ao mesmo tempo todas as significações que lhe foram atribuídas. De tamanha diversidade científica, não faltando leituras e verificações empíricas, o marxismo, os estudos culturais, os estudos pós-modernos, os fundacionismos e as teorias pós-coloniais são aplicáveis como formas de entendimento, compreensão e análise diante da realidade social circundante.

Diante das inúmeras possibilidades, o pesquisador – ciente das implicações contraditórias e críticas que todas elas contêm – faz uma ou várias escolhas e se lança na vã certeza da produção de um conteúdo científico que contemple as facetas da contradição. Imbuída da crença de que a justa contestação e a contradição são inerentes à produção científica, assim como a crítica é sua fundante como habitus de sua existência, problematizado por Bordieu, fiz minhas opções teóricas. Propus-me, assim, a construir uma narrativa que, muito longe de encontrar as definições conceituais e categóricas apropriadas ou verdadeiras, é usada somente como possível explicação e passível de toda ordem de insuficiências. Optei pelo anarquismo epistemológico somado à tentativa de produzir algumas asserções no campo da pós-colonialidade. Entendendo perfeitamente a proposta dessa última, não me furtei a lançar mão dos mais variados autores, de distintas áreas do conhecimento e correntes teóricas, filosóficas e políticas, no intento de produzir um pensamento que dê conta da realidade étnica experienciada. Desafio que, sinceramente, não sei se foi alcançado, mas, intentado. Assim, mais do que lançar mão do conhecimento científico que descreve e explica o social, inversamente, da experiência vivida e observada, lancei mão da teoria existente.

Este trabalho tem como meta dar visibilidade e voz aos atores sociais e coletivos investigados a partir da compreensão de que, mais do que teorias que advogam para a construção desse tipo de conhecimento, é necessária a iniciação dessa tarefa. Dessa maneira, o texto apresenta um número considerável de enunciações discursivas da realidade social, política e cultural vivenciada pelos pesquisados. As falas transcritas contemplam, ainda, trajetórias de vida e militância das lideranças indígenas, revelando, assim, seus percursos, desafios, superações, envolvimento com a sociedade não indígena, alfabetização e formas de empoderamento. O objetivo é justamente lhes dar o devido caráter de produtores ou coprodutores do conhecimento acadêmico produzido – de que ainda em boa parte são alijados –, oportunizando-os a serem mais do que sujeitos/atores do cotidiano investigado, isto é, a serem plenamente sujeitos/atores do mundo que produzem. Chegar ao entendimento claro do que o trabalho elaborado significa para o seu autor é, antes de tudo, a certeza do que se pretende com tal, ainda que isso implique custos de ordem crítica e acadêmica. No puro sentido, é sentir que o dever foi cumprido.

Não obstante todo o caminho percorrido teve início no Fórum Social Temático, em Porto Alegre (RS, 2011), no qual participei dos debates da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) acerca dos Movimentos Indígenas no Brasil diante do desenvolvimento de empreendimentos governamentais. Na ocasião, apresentaram-se lideranças de algumas organizações indígenas do Brasil (Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas e Espírito Santo – Apoinme; Confederação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira – Coiab; Arpinsul/PR, SC e RS; Arpin-Sudeste, RJ e SP; e Arpinpan/Pantanal do MS e MT), além de representantes de organizações da América do Sul. Após o primeiro contato com os indígenas, em março de 2012, estabeleci contato com a comunidade de Massiambu, da etnia Guarani, localizada em Palhoça/SC, ocasião em que fui convidada a lecionar no Ensino de Jovens e Adultos (EJA), na Escola Indígena Pirá Rupa. As visitas às aldeias Guarani mantiveram-se, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, e também no acompanhamento de eventos e cursos, como a Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica (Departamento de História/UFSC), em que contatei lideranças das etnias Kaingang e Lãklanõ/Xokleng, cujas Terras Indígenas (TI) encontram-se entre o oeste e o norte catarinense, no interior do Paraná e no Rio Grande do Sul. Outra experiência significativa derivou de colaboração de trabalho com a Coordenação Regional Litoral Sul/Funai, localizada em São José/SC, no projeto Arte e Cultura Xokleng, financiado pelo Museu do Índio/Funai para atuar na TI Ibirama Lãklanõ, da etnia Lãklanõ/Xokleng.

A partir desses contatos e trabalhos, o canal de diálogo foi aberto para a realização desta pesquisa, que, a princípio, jamais fora pensada até frequentar como aluna especial a disciplina de Movimentos Sociais sob direção da Professora Dra Ilse Scherer Warren, do Programa de Pós-graduação em Sociologia Política (UFSC). Ao ter contato com as teorias dos movimentos sociais, percebi o quanto a produção sociológica brasileira nesse ramo desconhece ou pouco estuda as organizações e o Movimento Indígena. Acometida pelo interesse em suprir essa lacuna científica e já familiarizada com o objeto de estudo, devido às experiências citadas, lancei-me na produção de um projeto de pesquisa que foi acolhido pelo programa de pós-graduação. Durante dois anos, as pesquisas de campo foram intensas e reveladoras. Participei de um sem número de reuniões entre indígenas e instituições governamentais, reuniões e assembleias das organizações indígenas, dos atos de protesto e mobilização do Movimento Indígena (MI) em âmbito nacional, regional e local. Essas pesquisas envolveram semanas de viagens entre os estados de SC, PR, RS e Brasília/DF, em noites maldormidas, experiências jamais vividas, percepções de um universo amplo e multifacetado e, muitas vezes, no conflito teórico-prático e choques culturais com os quais despi-me lentamente. Realizei um sem número de leituras científicas a respeito dos povos indígenas e de teorias políticas, sociológicas, filosóficas e jurídicas. Analisei documentos das instituições governamentais, da sociedade civil organizada (ONGs) e das organizações indígenas. Entrevistei 12 lideranças indígenas das etnias Guarani, Kaingang e Laklãnõ/Xokleng, o que resultou em quase 20 horas de gravação. Participei de congressos internacionais apresentando artigos ainda crus sobre o Movimento Indígena. Em suma, aprendi sem querer o que é a etnologia, compreendendo-a como um processo que comporta três etapas:

[...] experiências de interação; aplicação das técnicas de coleta de dados (com as descrições de morfologia e situações sociais, aplicação de questionário e entrevistas fechadas e abertas, as técnicas genealógicas e estatísticas, etc.); e produção textual, que transcreve essa experiência visando a submetê-la a critérios de controle e verificação científica, garantindo sua objetividade. (FERREIRA, 2013, p. 5, grifos do autor).

E foi justamente na etapa da interação com as comunidades e as lideranças indígenas, que tem um começo, porém nunca um fim, é que a pesquisa ganhou o caráter de participante. Isso explica-se pelo simples fato de que esses atores sociais e coletivos são objetos de estudos antropológicos de longa data e, assim, usurpados cultural e cientificamente por tanto tempo. Atualmente não aceitam mais pesquisas sem algum tipo de contrapartida. Ou seja, mesmo que isso ainda aconteça, as comunidades indígenas não querem mais ser somente o objeto de estudo do não índio que adentra seus territórios, toma informações sobre sua cultura e parte para a cidade tornando-se detentor legítimo de um conhecimento alheio, nunca mais retornando à comunidade investigada. A contrapartida pode dar-se de diferentes formas por meio do apoio político, social e cultural que abarca a implementação de projetos nas comunidades, na ajuda para captar recursos de editais, na interlocução com as instituições governamentais, na ajuda para elaboração de atas das reuniões das associações ou simplesmente na presença e apoio dos protestos e mobilizações. E foi dessa maneira, na execução dessas contrapartidas, que a pesquisa se tornou mais que investigativa, mas também participante. De outra maneira, quando o pesquisador se depara com populações que vivem muitas vezes em condições sub-humanas, em que o Estado é ausente e negligente, com populações que têm direitos assegurados juridicamente, porém não efetivados, entre outras situações, agir simplesmente como mero observador analítico é uma impossibilidade humana e também científica. Essa última porque, se a produção do conhecimento tem como meta e objetivo a transformação do mundo, abster-se de ações é como transformar o ato do conhecimento em simples retórica. Noutro sentido, essa transformação do mundo pela via do conhecimento produzido não tem um tempo final, ou seja, ela não está condicionada à entrega de um produto – a dissertação ou a tese. A produção do conhecimento e a sua utilização como ferramenta de transformação social caminham paralelamente e ao mesmo tempo.

Por fim, de todo o processo etnológico e participante descrito, o resultado foi uma análise sociológica das organizações indígenas no Sul e do Movimento Indígena no Brasil em sua conjuntura atual a partir de suas demandas, mobilizações, formas organizacionais, sociais e políticas e suas articulações na interface das relações com o Estado-Nação por meio das mais diferentes instituições governamentais e a sociedade civil organizada. As análises estão distribuídas em cinco capítulos que apresentam e discutem 1) as organizações e o Movimento Indígena em seus marcos históricos e institucionais; 2) os atuais formatos organizacionais das organizações indígenas bem como suas demandas, desafios e perspectivas de futuro; 3) a participação e a representação indígena nas instituições políticas formais no âmbito do sistema democrático brasileiro; 4) a relação do Movimento Indígena e de suas organizações com o Estado brasileiro acerca das demandas por saúde, educação, legislação indigenista e demarcação territorial; e 5) os atuais problemas enfrentados por algumas comunidades indígenas no que tange aos conflitos fundiários entre indígenas e não indígenas que perpassam questões de violência, identidade, preconceito, negligência estatal quanto à assistência social nas áreas da saúde, educação, habitação e problemas ambientais. Por último, as considerações finais refletem sobre o universo discutido e o panorama conjuntural que está posto ao Movimento Indígena visando instigar pesquisas futuras.

1.2 MOVIMENTO INDÍGENA: HISTÓRIA E MARCO INSTITUCIONAL

Os povos indígenas têm o direito de conservar e reforçar suas próprias instituições políticas, jurídicas, econômicas, sociais e culturais, mantendo ao mesmo tempo o seu direito de participar plenamente, caso o desejem, da vida política, econômica, social e cultural do Estado. (Artigo 5º, Direitos dos Povos Indígenas, ONU, 2007).

É latente, na atualidade, a existência e a atuação do Movimento Indígena¹ no mundo, principalmente na América Latina. Para além da visibilidade desses movimentos, a sociedade moderna do século XXI experiencia o desenvolvimento político das organizações indígenas na luta pela afirmação e cumprimento de direitos, bem como pela emancipação² política de suas organizações.

Desde o histórico levante neozapatista (Chiapas, México, 1994), que marcou o mundo por sua forma de luta política extrapolando os limites territoriais, utilizando a internet³ e a imprensa como ferramentas, e se transformando, assim, na primeira guerrilha informacional (CASTELLS apud SCHERER-WARREN, 2012), contribuindo para o encontro de um movimento indígena localizado com redes transnacionais, a opinião pública sobre o Movimento Indígena tem mudado, construindo críticas positivas a esse movimento, segundo SCHERER-WARREN (2012, p. 68).

No que tange ao Movimento Indígena do território brasileiro, é perceptível uma forte atuação na luta pela execução e cumprimento de direitos que estão assegurados na Constituição Federal⁴ de 1988, na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre Povos Indígenas e Tribais (C169/OIT) e, sobretudo, pela Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas das Nações Unidas em 2007 (DDPI/ONU).

Ya que el Convenio 169 ha sido ratificado por cierto número de Estados latinoamericanos, las organizaciones indígenas se refieren a él com razón como uno de los instrumentos legales existentes que obligan los gobiernos, y en consecuencia promueven activamente sú ratificación em los países que aún no lo han ratificado. En la medida que existe un derecho internacional emergente de los derechos indígenas, las organizaciones indígenas en América Latina lo utilizarán tanto en lo jurídico com en lo político. (STAVENHAGEN, 2007, p. 68).

A numerosa diversidade étnica e linguística⁶ indígena espalhada por todo território brasileiro comporta culturas extremamente diferenciadas no que tange à organização política, social e cosmológica, o que se reflete, por sua vez, na formação, atuação e organização do Movimento Indígena. Existe hoje um número considerável de organizações, associações e redes de articulação indígenas em todo o território brasileiro que passam da casa de mais de 1000 entidades. Apesar de muitas delas surgirem diante da necessidade da criação de CNPJ para o receber recursos de projetos derivados de financiamentos ou empreendimentos de ordem governamental ou privados, boa parte delas se constituíram em ferramentas de luta e fortalecimento de processos associativos e de ordem cultural. A disseminação das organizações indígenas, entre outros fatores, corresponde a uma transformação na esfera pública em relação aos povos indígenas, segundo Stavenhagen (2007), que historiciza os saltos qualitativos empreendidos por essas entidades que acabam por constituir-se em um novo tipo de Movimento Social.

Allá por anõs sesenta del siglo pasado tal vez existía solamente un puñado de organizaciones formales creadas y manejadas por personas indígenas que perseguían objetivos de interés pra los pueblos indígenas como tales. A mediados de los noventa, existen centenas de asociacones de todos os tipos y com propósitos diversos: organizaciones a nivel local, asociaciones intercomunitarias y regionales, grupos de interés constutídos formalmente, federaciones, ligas y uniones nacionales, así como alianzas y coaliciones transnacionales com contatos y actividades internacionales bien desarrolados. Se puede decir com razón que las organizaciones indígenas, su liderazgo, objetivos, actividades y ideologías emergentes, constituen un nuevo tipo de movimiento social y político en la América Latina contemporánea, cuya historia y análisis detallados quedan por hacerse. (STAVENHAGEN, 2007, p. 46).

Historicizar o MI no Brasil é uma tarefa complexa que envolve séculos de história, marcada por disputas sangrentas de territórios e sobrevivência física e cultural indígena diante do processo invasor e colonizador do Ocidente Europeu.

[...] os povos indígenas sempre reagiram à violação e à conquista de seus territórios tradicionais; e estas respostas variavam de acordo com o desafio imposto pelos distintos momentos da expansão capitalista, inicialmente europeia e, mais tarde, condicionada à formação econômica brasileira. Os confrontos com as frentes civilizatórias se davam ora através da guerra cruenta e aberta, ora através de guerra de guerrilhas, ou mesmo recorrendo à miserável subserviência calculada ao suicídio coletivo. A resistência⁷ destes grupos era determinada tanto pela especificidade da frente de expansão quanto pela lógica cultural do povo que a sustentava. Isto é, eram

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