Aproveite milhões de eBooks, audiolivros, revistas e muito mais

Apenas $11.99 por mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

A democracia corinthiana: futebol e política

A democracia corinthiana: futebol e política

Ler a amostra

A democracia corinthiana: futebol e política

Duração:
218 páginas
2 horas
Editora:
Lançados:
26 de set. de 2017
ISBN:
9788595130487
Formato:
Livro

Descrição

A Democracia Corinthiana foi uma experiência desenvolvida de 1981 a 1985, a partir de gestões menos autoritárias que propiciaram a participação dos jogadores de futebol na tomada de decisões sobre a vida no clube corinthiano. À luz do contexto social brasileiro, marcado pela emergência de novos atores políticos, como movimentos sociais, o novo sindicalismo e o avassalador ciclo de protestos das Diretas Já, buscamos compreender a experiência corinthiana, entendendo as afinidades eletivas entre a efervescência social que se desenrolava e a participação política dos jogadores.
Deste modo, o objetivo do livro foi descrever a narrativa da Democracia Corinthiana, a partir de suas relações com o contexto social brasileiro. Descrevemos e analisamos os plurais sentidos de democracia que se desenvolveram entre os principais sujeitos do movimento corintiano, de modo a entender o grau de espontaneidade, de diferenças de envolvimento e de entendimento que fizeram parte dessa criação histórica. Como parte disso, abordamos também quais os sentidos e possibilidades que a participação conferiu aos jogadores, de modo a circundar a cultura política que se desenvolveu entre os mesmos, envolvendo reflexões sobre o grau de autonomia e de conscientização. Com isso, podemos pensar como a Democracia Corinthiana conseguiu concretamente avançar para além do interior do departamento de futebol do clube para influenciar o restante da categoria, forjando uma configuração de trabalhadores da bola.
Conduzimos nosso trabalho a partir de um esforço de contextualização do objeto para conseguir elaborar os nexos entre o olhar histórico e o sociológico. Com isso, pretendemos trabalhar as falas e entendimentos a partir da processualidade da Democracia Corinthiana, não como um fato isolado, mas como produto e sujeito de um tempo histórico.
A pesquisa utilizou-se de um levantamento de fontes documentais sobre a Democracia Corinthiana, procurando nelas elementos que dialoguem com nosso objeto de pesqu
Editora:
Lançados:
26 de set. de 2017
ISBN:
9788595130487
Formato:
Livro


Relacionado a A democracia corinthiana

Livros relacionados

Artigos relacionados

Amostra do livro

A democracia corinthiana - Mariana Zuaneti Martins

Mariana Zuaneti Martins

Heloisa Helena Baldy dos Reis

A Democracia Corinthiana

futebol e política

AutorEsporte

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE


Arquivo ePub produzido pela Simplíssimo Livros


Editora AutorEsporte

a serviço da divulgação do conhecimento produzido sobre esporte

Conselho Editorial

Alcides Scaglia

Carlos José Martins

Heloisa Helena Baldy dos Reis

Laércio Elias Pereira

Wilton Carlos de Santana

Coleção: Esporte e Ciências Humanas

A Democracia Corinthiana:

futebol e política

Capa

Samuel Tabosa

Copyright © 2017 by Editora AutorEsporte LTDA.

A avaliação de livros para publicação pela editora AutorEsporte é feita por análise de pares, por meio de emissão de pareceres ad hoc.

Contato com a editora pelo e-mail: meryautoresporte@gmail.com

A todos e todas que amam o futebol e o Corinthians.

E àquelas e àqueles que acreditam no futebol como um veículo para transformar e a ser transformado.

Mariana Zuaneti Martins

Ao Casemiro dos Reis Júnior, corinthiano, responsável pelas minhas primeiras militâncias políticas, quando eu tinha apenas nove anos de idade. Foi também com ele e sentada em seus ombros que, nove anos mais tarde, eu participei do comício das Diretas Já na Praça da Sé, o qual mudaria minha forma de ver e atuar neste mundo. Sem estas oportunidades, dificilmente a pesquisa que desenvolvi juntamente com a Mariana faria tanto sentido em minha vida.

Heloisa Helena Baldy dos Reis

SUMÁRIO

PREFÁCIO

Arlei Sander Damo

INTRODUÇÃO

O momento Histórico, Político e Econômico de surgimento da democracia corinthiana.

O regime ditatorial militar no Brasil

A distensão e crise do regime

A emergência dos movimentos sociais

A emergência na cena pública da ação coletiva, dos movimentos sociais e dos ciclos de protestos

A campanha das Diretas-Já e seus desdobramentos

TECENDO A NARRATIVA DA DEMOCRACIA CORINTHIANA

A narrativa da Democracia Corinthiana

A saída de Matheus e a consolidação do projeto da abertura

A vitória do projeto de abertura e da democracia

De projeto de abertura à Democracia Corinthiana

A radicalização da abertura

O retorno da hierarquia à Democracia Corinthiana

A Nação [Corinthiana] Frustrada

A Democracia Corinthiana na corda bamba

A derrocada da Democracia Corinthiana

DEMOCRACIA E PARTICIPAÇÃO DOS JOGADORES DE FUTEBOL DA DEMOCRACIA CORINTHIANA

Os sentidos da democracia para os sujeitos da Democracia Corinthiana

A política e a participação dos jogadores da Democracia Corinthiana

A participação dos jogadores na Democracia Corinthiana

ENTRELAÇARES DE POLÍTICA, FUTEBOL E DEMOCRACIA

Referências Bibliográficas

PREFÁCIO

Houve um tempo no Brasil em que democracia chegou a ser sinônimo de participação, e futebol de arte. Aconteceu no início da década de 1980, com a eclosão, no plano da política, de uma ampla campanha pela redemocratização que culminou com o Movimento Diretas Já e, no âmbito futebolístico, com a performance exuberante da seleção brasileira na Copa da Espanha. Nenhum dos dois eventos foi plenamente exitoso se pensarmos que não lograram os fins imediatos, mas isto não os impediu de entrar para a memória nacional, e não sem razões.

O Diretas Já visava apressar o final da ditadura militar e floresceu na segunda metade de 1983, recebendo a adesão de artistas, intelectuais e políticos de diferentes matizes – exceto os da velha Arena, obviamente -, que aderiram a uma demanda lançada por sindicatos, partidos e movimentos sociais de esquerda. Apesar dos apoteóticos comícios, os maiores que já se registrou no Brasil, a mobilização foi insuficiente para sensibilizar o Congresso, que rejeitou uma emenda constitucional prevendo a eleição direta para presidente da república em 1984. A elite política conservadora conseguiu protelar o sufrágio, que só ocorreria em 1989, mas não sufocar a mobilização por um novo Brasil, pois esta não se restringia ao desejo de votar para presidente. Ao menos alguns partidos e movimentos sociais sonhavam com uma democratização ampla, com plenos direitos para que os cidadãos pudessem se organizar e decidir os rumos da sua própria história, o que incluía a participação direta na gestão do Estado. Essas utopias, gestadas por uma geração que fora sufocada pela repressão militar, não sucumbiram com o ocaso das Diretas Já, mas reapareceram em diversas experiências de gestão participativa ao longo das décadas seguintes quando floresceu, em diferentes partes do Brasil, o Orçamento Participativo - infelizmente, o pragmatismo tornou-se hegemônico e restam atualmente poucas experiências desse tipo em funcionamento.

Pouco antes das Diretas Já, mais precisamente em junho de 1982, Telê Santana dirigiu uma das mais célebres gerações de jogadores, entre os quais estavam Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo e Júnior. O escrete venceu seus quatro primeiros jogos na Copa da Espanha, apresentando um repertório de lances individuais e coletivos que tornariam aquela uma das mais elegantes e virtuosas exibições que o público futebolístico já presenciou. A capitulação diante do selecionado italiano pode ser tributada às coisas do futebol, um jogo no qual nem sempre o melhor é o vencedor. A extraordinária performance daquele time pode ser dimensionada pelo gesto dos profissionais da mídia, de diferentes nacionalidades, que aguardavam Telê Santana para a entrevista depois da derrota: eles o aplaudiram de pé! Telê teve nova oportunidade de dirigir a seleção em 1986, e outra vez foi vitimado implacavelmente, sendo eliminado nos pênaltis para a França, embora o time já não fosse performático quanto aquele de quatro anos antes. Dali em diante a CBF faria escolhas mais pragmáticas, enfatizando o resultado, como fariam quase todos os dirigentes de clubes e federações, o que implicou na capitulação da virtude técnica para um modelo esportivo no qual importa o resultado, um paradigma em que o negócio sobrepujou a arte.

Não há um nexo causal entre os eventos do início da década de 1980 ou de seus desdobramentos subsequentes. Todavia, há ao menos um personagem que os atravessou: o jogador Sócrates. Ele foi o capitão da seleção de Telê em 1982 e foi uma presença assídua no movimento Diretas Já. Como capitão, exerceu a liderança de forma serena e articulada, tratando seus companheiros com a mesma elegância com que tratava a bola. Como cidadão engajado às causas democráticas, estava longe de ser um figurante, um tipo de celebridade bem comum nos dias atuais. Se lhe perguntassem algo a respeito da causa a qual estava militando expressava-se com desenvoltura; estando a anos luz desse tipos caricatos que saem de campo ou das quadras para se associar aos políticos, em geral aos mais conservadores, visando algum proveito pessoal.

Sócrates era irreverente, radical, polêmico, mas sempre elegante e cordial. Foi no Sport Club Corinthians que liderou a mais inusitada experiência de democracia direta no espectro do futebol profissional brasileiro. Pode ter sido efêmera e sujeita a controvérsias, mas nem por isso menos louvável do ponto de vista político e digna de interesse acadêmico. É o que vai nos mostrar o livro de Mariana e Heloisa, cuja origem é uma dissertação orientada por Heloisa, na Unicamp.

Para dimensionar a importância do trabalho de Mariana e Heloisa é preciso tornar bem clara a diferença, nem sempre levada em conta, entre o jogo de futebol e contexto no qual ele está inserido, especialmente no caso da democracia corinthiana, levada à cabo no interior de uma das mais tradicionais instituições clubísticas brasileiras. O futebol é um esporte assentado numa estrutura agonística, característica do jogo, cuja alternância de posições entre vencedores e perdedores produz expectativas que geram emoções. Por vezes esta alternância ocorre no decurso de um jogo, de uma temporada ou de um tempo mais alargado. Em todo o caso, a incerteza é essencial para aquilo que Norbert Elias chamou de equilíbrio das tensões, um tipo de dinâmica na qual o poder deve, por definição, ser alternado. Capturar o poder é eliminar o sentido lúdico do jogo e como tal o envolvimento que ele suscita. Isso vale para os circuitos profissionais e também para as brincadeiras cotidianas. Retire-se delas a possibilidade de alternância de posições entre os contendores – pelo desequilíbrio técnico ou qualquer outro motivo – e se terá perdido a excitação que o jogo poderia despertar. Por conta disso, alguns imaginaram que o futebol poderia ser um espaço no qual a democracia realizar-se-ia plenamente. Mas uma coisa é a estrutura do jogo, da qual temos falado até aqui; outra, bem distinta, é a estrutura econômica e política na qual está assentado o futebol de espetáculo.

Por mais efêmera que tenha sido a democracia corinthiana, ainda assim ela foi um oásis num contexto dominado por conservadores de todas as matizes. O jogo pode ser democrático e até pode haver alternância de facções na gestão dos clubes e federações, mas iniciativas autogestionárias não são bem vindas no interior dessas instituições. Os homens que delas se aproximam – e aqui me refiro a homens em sentido estrito, pois salvo exceções a gestão política e econômica do futebol de espetáculo tem uma nítida clivagem de gênero, com o monopólio masculino – visam, entre outros objetivos, exercer sobre outros homens o poder. Trata-se de um dos espaços ainda pouco explorados pela literatura acadêmica, no qual se destaca o gosto pelo exercício do poder. Ao contrário do que parece à primeira vista, apenas alguns poucos indivíduos conseguem extrair das instâncias diretivas de clubes e federações vantagens utilitárias, tais como dinheiro ou prestígio para futura reconversão no campo da política. Na maior parte das vezes o que predomina entre esses coletivos são intrigas comezinhas, geradas por disputas entre facções ou indivíduos, que não tem repercussão para além do circuito que as produz. Daí porque, no mais das vezes, trata-se de um envolvimento sem consequências para além da experiência em si mesma. Dizendo isso de outro modo, o cotidiano das instituições clubísticas é tão politizado que ele possibilita aos seus frequentadores o mesmo tipo de experiência vivida no âmbito de partidos políticos, parlamentos ou gestão do Estado, com todos os riscos que isso pressupõe.

É preciso ter em conta este cenário para compreender a ousadia daquele grupo de jogadores liderados por Sócrates, Vladimir e Casagrande, e pelo vice-presidente de futebol Adilson Monteiro Alves (literalmente, um peixe fora d’agua). Ao contrário das formas mais convencionais de democracia, aquela que instiga a participação direta e efetiva fundamenta-se no direito de expressão das diferenças e desconforminades, no diálogo e na tentativa de produzir um consenso antes de uma decisão pela maioria pura e simples (esta última alternativa em geral oblitera o diálogo e suscita a formação de facções).

O livro de Mariana e Heloisa trata da democracia corinthiana destacando desde o contexto político nacional mais amplo, caracterizado pela derrocada da ditadura militar, até os meandros da política clubística. Não espere, o leitor, encontrar uma narrativa apologética, mascarando os impasses e contradições. Trata-se, sem sombra de dúvidas, de uma contribuição muita oportuna, sobre um tema ainda pouco explorado pela recente produção voltada à compreensão do fenômeno esportivo pelo viés das ciências sociais, com a qual Mariana e Heloisa dialogam do início ao fim do seu texto. E ainda mais relevante na medida em que a publicação do livro coincide com a emergência de um novo movimento de jogadores, ainda incipiente, o chamado Bom Senso FC. À propósito, este lapso de três décadas que separa a Democracia Corinthiana do Bom Senso FC é, em si mesmo, um tema digno de investigação. Não quero avançar neste assunto tão delicado, mas gostaria de adiantar, com certa licenciosidade, três ou quatro hipóteses que poderiam nos auxiliar a compreender as razões pelas quais a experiência corinthiana não teve continuidade.

A principal razão tem a ver com a própria radicalidade da proposta e dos investimentos que a democracia direta requer. Tive o privilégio de acompanhar uma das experiências mais bem sucedidas desse tipo, levada a cabo por intermédio do Orçamento Participativo na cidade de Porto Alegre - e também documentar o seu ocaso, infelizmente. Sem entrar em pormenores, devo dizer que a democracia direta exige um grau de politização acentuado e uma abertura para a alteridade que não são usuais em nossas práticas políticas usuais. Quando confrontadas estas exigências com o cotidiano do futebol profissional, percebe-se quão remotas eram as chances da experiência corinthiana ter avançado no tempo e no espaço.

Há que se considerar também que a partir de meados da década de 1980 a circulação de jogadores aumentou significativamente e, na década seguinte, quando esta movimentação se tornou ainda mais intensa, raramente um jogador completava mais do que uma temporada num mesmo clube, o que contribuiu para a formação de grupos extremamente fluídos, que por vezes mal tinham tempo para se conhecerem, quanto menos para projetar uma ação coletiva. A circulação intensa tem a ver com a mercadorização sem precedentes e corresponde à expatriação dos jogadores mais talentosos, ricos e prestigiados. Sócrates, Wladimir, Casagrande e companhia faziam parte de uma elite entre os jogadores, mesmo no Corinthians, e isso foi determinante para que eles pudessem enfrentar os dirigentes e até mesmo os técnicos. A partir de meados dessa década os jogadores mais destacados seriam expatriados e o movimento só teria um refluxo nos anos mais recentes, coincidindo, pois, com a formação do Bom Senso FC. A possibilidade de um jogador ser perseguido em razão de ideias ou comportamentos pouco ortodoxos é real, razão pela qual são os já consagrados e financeiramente estabilizados aqueles que vão estar na vanguarda do movimento atual.Não menos importante de se levar em conta são as transformações na carreira dos jogadores, completamente seduzidos pelas possibilidades de sucesso econômico e de acesso ao mundo das celebridades midiáticas. Não é que o futebol tenha, em algum momento do passado, produzido líderes políticos comprometidos com as causas progressistas. Apenas que ficaria ainda mais difícil de comprometê-los tendo a concorrência desse mundo fantasioso e fugaz das celebridades. Na mesma linha de influência estão os assessores que intermediam quase tudo o que diz respeito à vida dos jogadores famosos, da negociação dos contratos à vida afetiva, da orientação em relação aos investimentos até a gestão das futricas familiares. Quando realizei trabalho de campo no interior de um clube, mais de uma vez ouvi meus interlocutores, jovens em formação, invocarem a presença de seus agentes/empresários para intermediar suas demandas junto a dirigentes ou membros das comissões técnicas dos clubes, num claro movimento de delegação política. Se isto é observável em relação às questões privadas, quanto mais

Você chegou ao final dessa amostra. para ler mais!
Página 1 de 1

Análises

O que as pessoas acham de A democracia corinthiana

0
0 notas / 0 Análises
O que você achou?
Nota: 0 de 5 estrelas

Avaliações do leitor