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Por que direitos humanos
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E-book245 páginas2 horas

Por que direitos humanos

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Sobre este e-book

A discussão sobre os Direitos Humanos apareceu no Brasil em 1956, quando foi apresentado um Projeto de Lei à Câmara dos Deputados criando o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, sancionado oito anos depois. A criação da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados ocorreu apenas em 1995, portanto, a defesa dos Direitos Humanos no País é recente. Neste livro, Nilmário Miranda apresenta a evolução dessa prática e aponta a Educação em Direitos Humanos como absoluta prioridade. Para ele, essa concepção incorpora o entendimento de que o povo brasileiro só vai se apropriar dos seus direitos se construir uma cidadania democrática ativa, sendo protagonista na busca de seus direitos. O jornalista Nilmário Miranda é o maior representante da luta em defesa da ampla aplicação dos Direitos Humanos no Brasil. Foi o primeiro a presidir a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Em sua história política, foi Deputado Estadual Constituinte (1987-1991); Deputado Federal por três mandatos (1991-1995; 1995-1999;1999-2002); um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores em Minas e presidente do Diretório Municipal em Belo Horizonte (1999-2000). Em 2002, candidatou-se ao Governo de Minas, ficou em segundo lugar com 30,72% dos votos. Foi Secretario Especial dos Direitos Humanos da presidência da República (2003-2005), e, em 2005, foi eleito presidente do PT de Minas Gerais. Foi também presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) (CONANDA) e do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH ). É autor dos livros "Dos filhos deste solo", em parceria com o jornalista Carlos Tibúrcio e "Memória Essencial – A trajetória vitoriosa do PT em Minas Gerais."
IdiomaPortuguês
Data de lançamento22 de jun. de 2018
ISBN9788582179413
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    Por que direitos humanos - Nilmário de Miranda

    Nilmário Miranda

    PREFÁCIO

    Luiz Inácio Lula da Silva

    Quando o companheiro Nilmário, ainda ministro, falou-me, pela primeira vez, sobre o livro que pretendia escrever acerca dos Direitos Humanos, relacionando sua profunda experiência com o tema, as principais ações do nosso governo e as verdadeiras armadilhas contra a dignidade humana, que, ao longo da história, foram sendo construídas no nosso País, eu disse a ele o que repito aqui:

    – Nilmário, você é um dos brasileiros mais capacitados a contribuir para ampliar a consciência do nosso povo sobre o que realmente significam os Direitos Humanos, não só em termos de princípios, mas também da realidade concreta do nosso dia-a-dia. Faça isso, com sua experiência e talento, do modo mais direto e simples possível.

    Agora, o livro está pronto, e nós vamos usufruir dos resultados.

    Desde o início, quando planejávamos as mudanças relativas aos Direitos Humanos que gostaríamos de ver efetivadas no nosso País, fazíamo-nos perguntas assim: como uma pessoa pode ter uma vida digna sem poder se alimentar suficientemente todos os dias? Como pode ter uma vida digna sem oportunidade de emprego, condições de trabalho e remuneração decentes? Como pode ter uma vida digna sem moradia adequada? Como pode usufruir plenamente da liberdade e da cidadania sem ter acesso à educação de qualidade, à saúde, à segurança pública, à justiça?

    Sabíamos que a questão dos Direitos Humanos, no Brasil, era muito abrangente. Sabíamos ainda que o leque de problemas envolvidos era de tamanha magnitude, que o ministro responsável pela política de Direitos Humanos, por vezes, assume também o cargo de ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, ministro do Trabalho, ministro da Saúde, ministro da Justiça, ou seja, ele passa a ser um multiministro.

    Felizmente, em todas essas áreas, acumulamos, nesses 40 meses, um conjunto de realizações e resultados, que está fazendo diferença na vida da maioria da população brasileira.

    Posso citar alguns deles: combate sem tréguas ao trabalho escravo, levando o Brasil a ser reconhecido internacionalmente como país-modelo nessa iniciativa; redução significativa do trabalho infantil; forte enfrentamento da exploração sexual de crianças e adolescentes, que é hoje uma bandeira de luta em todo o território nacional. Sem falar da diminuição da miséria e da desigualdade social em nosso país, como atestam pesquisas feitas por institutos nacionais e do exterior.

    E Nilmário, como o ministro que assumiu no início do nosso governo a Secretaria Especial de Direitos Humanos, contribuiu de modo decisivo para que atingíssemos esses objetivos, definindo prioridades e articulando as ações de forma integrada com o conjunto de Ministérios. Mário Mamede, que o substituiu, e agora, Paulo Vannuchi, deram e estão dando continuidade a essa missão do nosso governo, enfrentando novos desafios e realizando novas conquistas.

    Temos consciência de que há muito mais por fazer, e vamos persistir, cada vez com mais empenho, nessa empreitada.

    Eu não tenho dúvida nenhuma de que uma das marcas fortes do nosso governo, que ficará para o futuro, é a política de efetivação dos Direitos Humanos, que vem sendo aplicada em benefício do nosso povo, em especial dos seus segmentos mais pobres.

    DESARMANDO AS ARMADILHAS

    Fui prisioneiro político durante os anos de chumbo, entre 1972 e 1975, quando a tortura, os assassinatos de opositores políticos e os desaparecimentos forçados de pessoas tornaram-se política de Estado. Passei por diversos Centros de Detenção ilegal e de tortura e por vários presídios. Foi então que aprendi, sofrendo na pele junto com milhares de pessoas, a importância dos Direitos Humanos.

    Converti-me à luta de mães, esposas, filhos e filhas, irmãos e irmãs; da igreja de São Paulo e do Brasil; dos dignos e honrados advogados de presos políticos; dos jornalistas que não se calaram; dos deputados autênticos que não temeram o látego do AI 5 e denunciaram a brutalidade da ditadura.

    Ao sair da prisão, deixei para trás todo sentimento de revanche e olhei para a frente, feliz por sair de quase uma década de clandestinidade e prisões e poder mergulhar na vida do nosso povo cheio de esperanças e planos curtidos no cárcere.

    Sempre concebi os Direitos Humanos como direito de todos, não só dos perseguidos políticos. Daí o projeto do Jornal dos Bairros que se propôs a dar a versão dos fatos pela ótica dos oprimidos. Por sete anos, atuando nas periferias esquecidas da Região Metropolitana de Belo Horizonte, somamo-nos aos que corajosamente organizaram as oposições sindicais, os movimentos comunitários por direitos mínimos de cidadania, como água, esgoto, transporte digno, creches e ruas pavimentadas. Trabalhamos na defesa dos campos de futebol de várzea, que eram tragados pela especulação imobiliária sem freios; contra a poluição descontrolada da Cidade Industrial; pela valorização da cultura do povo.

    Ao mesmo tempo, juntamo-nos aos movimentos de redemocratização do País, pela Anistia ampla, geral e irrestrita e de apoio aos presos políticos.

    Nessas três décadas, meu compromisso com os Direitos Humanos foi uma constante. Como deputado estadual (1987/1990), tive o meu mandato voltado para o apoio aos atingidos por barragens do Vale do Jequitinhonha; aos sem-teto da Região Metropolitana; à luta do povo das favelas por dignidade e respeito; à denúncia do extermínio de crianças por esquadrões da morte; aos pobres do campo.

    Como deputado federal, por 12 anos (1991/2002), dediquei-me por inteiro à luta contra o vilipêndio dos Direitos Humanos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais do povo brasileiro.

    Já eleito presidente, Lula convidou-me para ser o primeiro ministro de Direitos Humanos, mandato que cumpri por dois anos e meio e que só deixei para assumir a Presidência do PT mineiro, em outubro de 2005, em um momento em que o partido que ajudei a fundar estava sendo massacrado.

    Escrevi este livro para provocar a reflexão, a indignação e o engajamento de mulheres e homens de bem. A sociedade brasileira está passando por um processo civilizatório sem precedentes nessas décadas em que deixamos o autoritarismo político para trás. No entanto, deparamo-nos no cotidiano com as marcas da herança pesada dos quatro séculos de escravismo, colonialismo e cultura senhorial de uma sociedade verticalizada, em que as relações sociais e intersubjetivas revelam que o autoritarismo está presente nessa mesma sociedade, nas empresas e nas famílias.

    As enormes desigualdades que afetam as crianças, as mulheres, os negros, os indígenas, os migrantes, os idosos, os trabalhadores são postas como inferioridade natural. Os de cima, que entre si estabelecem relações de iguais, de compadrio e de proteção mútua, continuam a manter com a maioria – os de baixo – relações de clientela, favor, cooptação e tutela, que facilmente descambam para a violência e a opressão.

    Para os de cima, a lei é para ser transgredida sem perigo; imposto é para ser sonegado. Já para os de baixo, a lei é sinônimo de repressão e não-direitos. Por mais que tenhamos avançado, é grande ainda o recurso à ostentação para demarcar a distância entre os de cima e os de baixo; o recurso à criadagem doméstica como símbolo de prestígio e poder. A filósofa Marilena Chauí repugna o desprezo das elites pelo trabalho manual, pelo salário mínimo, a naturalização do trabalho degradante e as trapaças com os direitos trabalhistas.

    O balanço dos 500 anos mostra-nos como o patrimonialismo dos donos do poder, desde a Colônia, o Império e a República Velha, foi alargando o espaço privado e encolhendo o espaço público e os direitos das pessoas. Mostra-nos como os conflitos de classe, dos movimentos sociais urbanos e rurais são freqüentemente associados à desordem, às crises e outros perigos, como se uma sociedade auto-organizada pudesse representar não a esperança de uma democracia para todos, mas, sim, um perigo para o Estado e o mercado.

    Daí a obsessão de controlar a mídia, de bloquear a sociedade civil, os movimentos sociais e populares, a esfera pública das ações sociais e de opinião como expressão dos interesses e direitos das maiorias, das classes populares.

    Muita coisa tem sido mudada desde o fim do regime autoritário. Mas, para avançar mais, temos de desarmar as armadilhas dos perversos, do legado maldito. Desarmar as armadilhas da cultura que considera natural a existência de milhões de crianças sem infância e reforça o mito da tendência natural dos pobres à vadiagem, à preguiça, à delinqüência.

    Desarmar as armadilhas que justificam a persistência do analfabetismo, dos milhões de sem-terra, sem-teto e de desempregados como fruto da incompetência, da ignorância e da indolência das próprias vítimas.

    Desarmar as armadilhas dos perversos é mudar radicalmente de atitude na esfera pública e privada para com os idosos e as pessoas que carregam deficiências. É não admitir brasileiros sem registros e sem os documentos civis básicos. É abrir as portas do coração e da cidadania para os indígenas e os quilombolas. É buscar não o combate, mas a erradicação do trabalho infantil, do trabalho infantil doméstico, do trabalho escravo, do trabalho degradante. É combater a discriminação no trabalho e respeitar os que lutam para torná-lo digno.

    Desarmar as armadilhas dos perversos é acabar com a violência doméstica, com o abuso sexual e a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes. É acabar com o flagelo das torturas, do extermínio de pessoas, melhorar o acesso dos pobres ao Judiciário e denunciar sem medo a injustiça de raça e de classe, inacessível, secreta.

    Este livro pretende dar uma contribuição ao principal, que, a meu juízo, é a massificação da educação em Direitos Humanos.

    Nilmário Miranda e o advogado Dino Miraglia visitam o detento Wagno Lucio da Silva, na penitenciária de segurança máxima Nelson Hungria, em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte.

    Foto: Auremar de Castro/Estado de Minas – 14/02/2006

    Às 6h45 do dia 12 de novembro de 2002 morreu Larissa, de câncer, antes de completar quatro anos. Seu pai, Alexandre de Oliveira, ex-garçom, operário da construção civil, foi preso e, sob tortura, confessou ter estuprado a criança, então com um ano e sete meses.

    Ao chegar do trabalho, num sábado, foi informado por vizinhos da pequena Bom Jardim de Minas que sua mulher, Rosângela, internara a filha no Hospital Municipal. A menina apresentava sinais de anemia e dificuldade para andar. Larissa foi examinada superficialmente pelo médico Edson Meireles, que fez um laudo que apontava estupro.

    Vendo a vagina da criança vermelha e inchada, o médico interrogou sutilmente a mãe, para que ela não percebesse que estava sendo inquirida, e chegou à conclusão de que o pai era o estuprador. Ele perguntava para Rosângela quem mais lidava com a criança, e a mãe respondia que era o pai dela quem trocava as fraldas, que era ele quem cuidava da pequena, sem saber que estava dando informações que, posteriormente, iriam ser úteis para que ele acusasse o pai de estuprador. Completando sua obra de leviandade e despreparo, o médico comunicou à polícia o estupro e o suposto responsável.

    Ao chegar ao hospital, Alexandre foi enfiado numa viatura da PM e levado para local ermo onde foi tratado com truculência pelos quatro policiais: Francisco Lagrota, Sidney Correia, Averaldo Feliciano e Claudinei Nunes. Ameaçado de morte com arma na cabeça, Alexandre confessou. Imediatamente foi levado à delegacia e novamente torturado pelo detetive Jorge Vaz, na presença do delegado Anderson Carrilho Lobato. Depois de levar choque elétrico, varada na sola dos pés e sofrer ofensas morais, Alexandre assinou uma nota de culpa. Foi então encaminhado à cadeia de Andrelândia, onde correu risco de morrer com a divulgação, pelo carcereiro, de que ali estava um monstro, um estuprador da própria filha.

    Enquanto isso, a pequena Larissa foi removida para a Santa Casa de Juiz de Fora para ser tratada do estupro. Examinada pelo cirurgião pediatra Hebert Tanius, ele constatou que Larissa tinha um tumor de sete centímetros na vagina. Daí a vermelhidão e o inchaço no local, a anemia e a dificuldade de andar.

    A assistente social Simone Mathiase, por telefone, comunicou ao delegado Anderson Carrilho Lobato o equívoco. O delegado, no entanto, em vez de soltar Alexandre imediatamente, tergiversou e disse que só poderia fazê-lo mediante ordem judicial porque houve flagrante e confissão. Uma situação completamente surrealista porque ele já possuía a informação de que não tinha havido estupro e a confissão tinha sido obtida sob tortura, com sua própria participação e omissão.

    Por sorte de Alexandre, uma competente repórter do jornal Tribuna de Minas, de Juiz de Fora, Daniela Arbex, deu a notícia em primeira página, e o juiz Edir Guerson de Medeiros, daquela cidade, ordenou a sua soltura. O delegado torturador então mandou levar Alexandre, já livre, para o Hospital Municipal de Bom Jardim de Minas, onde o clínico-geral Clério Dilmar Carvalho prestou-se ao triste papel de emitir um laudo atestando ausência de lesões no corpo de Alexandre. É dever legal e ético notificar a tortura.

    A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Juiz de Fora assumiu a defesa do jovem Alexandre, designando Dr. Maurínio Santarém como seu advogado, e garantiu seu exame pelo Instituto Médico Legal (IML) de Juiz de Fora, e o laudo do legista Fernando Sales concluiu que as lesões avaliadas por ele eram compatíveis com os relatos de Alexandre.

    A jornalista Daniela Arbex encontrou-me no Fórum Social Mundial de Porto Alegre e por telefone me informou sobre o episódio. Aí passei a acompanhar o caso. Imediatamente fui para Juiz de Fora visitar Alexandre e ouvi-lo, conhecer Larissa e Rosângela. Levei meu apoio à OAB na figura de seu presidente, doutor Néri de Mendonça, e ao advogado Maurínio Santarém, que abraçou a causa de Alexandre. Falei com o representante do Conselho Regional de Psicologia, José de Almeida Guedes, e com o Centro de Defesa de Direitos Humanos. Procurei também o vereador Flávio Checker, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal.

    Apresentei o caso à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana e ao ministro José Gregori. Em Belo Horizonte, acompanhei Alexandre ao Procurador-Geral de Justiça, Nedens Ulisses Freire Vieira, que nos recebeu com vários procuradores; à ouvidora de Polícia, Maria Caiafa; ao secretário de Segurança, Márcio Domingues, que designou o jovem e correto delegado Renato Patrício, pela Corregedoria de Polícia, para investigar o caso.

    "A repercussão do caso Alexandre contribuiu

    para a criação, pela primeira vez, de uma ação articulada do Estado brasileiro."

    Em 2001, como coordenador da subcomissão de combate à tortura da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, levei o caso à ONU, em Genebra. A repercussão do caso Alexandre contribuiu para a criação, pela primeira vez, de uma ação articulada do Estado brasileiro. Após reuniões – eu como representante da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, com Gilberto Saboya, secretário nacional de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, com o Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, com o Movimento Nacional de Direitos Humanos e a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão –,

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