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Rock Me Like The Devil: A Assinatura Das Cenas E Das Identidades Metálicas

Rock Me Like The Devil: A Assinatura Das Cenas E Das Identidades Metálicas

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Rock Me Like The Devil: A Assinatura Das Cenas E Das Identidades Metálicas

notas:
5/5 (1 nota)
Duração:
110 páginas
1 hora
Editora:
Lançados:
19 de dez. de 2014
ISBN:
9788567125084
Formato:
Livro

Descrição

O livro tem origem em um entre-lugar que abriga ao mesmo tempo pesquisa acadêmica sobre música e paixão pelo metal, transitando entre as discussões sobre gosto, gênero musical e afeto através de uma pergunta assombrosa: "o que é, afinal, música?"
Editora:
Lançados:
19 de dez. de 2014
ISBN:
9788567125084
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Rock Me Like The Devil - Jeder Janotti Junior

Referências

Ideía de Músíca

Somos constantemente bombardeados por estímulos sonoros no mundo contemporâneo. Muitos desses sons surgem de organizações propositais do ser humano, produzindo o que, de modo diverso e em diferentes culturas, tem sido denominado música, ou seja, uma ambientação socialmente organizada de sons e materializada na relação entre corpos humanos e aparatos técnicos. Nesse sentido, assume-se neste livro o reconhecimento de que, apesar de todas as divisões de gosto e distinções sociais recortadas nesse ambiente, podemos identificar traços comuns entre concertos de música de câmara – com suas plateias silenciosas (salvo as tosses) – e apresentações dos gêneros musicais ditos pop.

É possível notar, assim, certo compartilhamento que permite a rotulação de música a formas de expressão que em princípio parecem muito diferentes. Um comum que pode ser identificado tanto através da capacidade de relacionar certos sons, reconhecidos como notas, ritmos, melodias e harmonias, quanto na noção de música como algo que se distingue de um som qualquer e tem a capacidade de nos afetar e intervir em nossos modos de vinculação e pertencimento no mundo.

Contudo, não há como estabelecer uma noção totalizante, imutável ou de maneira definitiva para o que chamamos de música. Isso porque há, em torno da vivência com relações sonoras reconhecidas como música, envolvimentos estéticos, sociais, econômicos e culturais que transformam a ideia de continuidade de uma experiência dita musical. E é partindo dessa premissa que iremos refletir sobre a ampla possibilidade de relações sensoriais abertas pela existência da música, inclusive através de seus aspectos contraditórios e tensivos.

Se pensarmos a música enquanto expressão comunicacional, é possível pressupor que, para além do estar junto e da partilha, ela também pode ser da ordem do enfrentamento, da emergência de dissensos, que colocam em cena os aspectos políticos em torno daquilo que é reconhecido como música, como música de qualidade ou como não-música. Negus e Pickering (2004) mostram como a escuta também pode operar através da negação, silenciando o status de música às expressões que não se enquadram em certas expectativas estéticas:

Então, por exemplo, Roger Scruton, respondendo ao rock grunge e heavy metal, só pode chamar esses gêneros de negação da música, uma desumanização do espírito da canção por causa de seu uso de padrões estéticos e critérios da tradição da textura harmônica e tonalidade associadas com arte musical ocidental, e devido a seu fracasso em atender a experiência de uma audiência popular informada e entendê-la quando escutam tais gêneros. (2004, p. 14)¹.

Nesse caso, está explícito que os processos comunicativos envolvendo expressões ditas musicais não são somente da ordem da partilha, mas também da violência. Uma fratura que parece marcar como tensivo o comum de um sensível, de gostos e valores musicais. Mesmo quando observado do outro lado, do ponto de vista da valorização positiva de seus aspectos musicais, o metal também pode ter como pressuposto dessa valoração o tensionamento das fronteiras entre música e ruído.

A música metal extrema frequentemente oscila à beira do ruído sem forma. Considerando que o heavy metal era pelo menos inteligível como música por seus detratores, o metal extremo pode não parecer ser música absolutamente e suas práticas conexas podem parecer assustadoras e bizarras. O metal extremo prospera nas bordas da música, nas bordas da indústria da música. (KAHN-HARRIS, 2007, KindleEdition, localização 91 de 3871).

A partir desse exemplo (e considerando que não é o único), podemos pensar na aplicação da ideia de dissenso ao universo estético da música, sem maiores sobressaltos, considerando que se trata, para Rancière, do fundante da política em todas as instâncias, inclusive culturais:

É isso o que chamo de dissenso: não um conflito de pontos de vista nem mesmo um conflito pelo reconhecimento, mas um conflito sobre a constituição mesma do mundo comum, sobre o que nele se vê e se ouve, sobre os títulos dos que neles falam para ser ouvidos e sobre a visibilidade dos objetos que neles são designados. (1996, p. 374).

Ao valorizarmos essa trilha, estamos diante da ideia de que, enquanto fenômeno comunicacional, a música pode ser da ordem da violência porque tem a possibilidade de nos tirar da repetição cotidiana, das escutas amaciadas ao longo de mais de um século de gravações formatadas por grandes indústrias fonográficas. Nesse sentido, podemos apreender exemplos que se constituem como de outra ordem, para além da comunicação como partilha. Comunicação não é um fenômeno que precisamos domesticar; ao contrário, é de seu caráter ‘selvagem’ que iremos extrair a experiência do novo. (MARCONDES FILHO, 2010, p. 94).

Nesse caso, podemos ainda pensar em exemplos estratégicos, pois como mostra Fabrício Silveira (2013), o enfrentamento pela música extrema, como o metal, pode ser visto como algo deliberado, um petardo com miras e construções pensadas de modo orgânico². E aqui surge uma questão política para músicos e pesquisadores: será que ao operacionalizar sonoridades em que o estranhamento é ativado como uma reivindicação de autonomia no mundo da música, não estaríamos diante de uma zona de conforto, em que o político se transforma em policiamento? Alguém teria dúvidas desses lugares artísticos do pop presentes no livro de Silveira, como Radiohead, R.E.M, Lou Reed em suas trajetórias dissonantes?

Recentemente, chamou-me atenção em uma navegação despretensiosa, um dos inúmeros exemplos em que gêneros ligados a culturas periféricas são desqualificados, no caso a comunidade do Facebook: "Funk, isso não é musica"³. Na página da comunidade vê-se um logotipo, mimetizando a placa de trânsito proibido, com uma tarja cortando um círculo, ambos em vermelho, onde ao centro lê-se: Funk. Em outra imagem na mesma página, vê-se uma montagem fotográfica de um suposto terrorista com uma bazuca apontando para um aglomerado de pessoas, com indicações em inscrições toscas: "no suposto terrorista, eu, na multidão, baile funk.". Aqui, estamos diante de um dissenso não estratégico, não um enfrentamento de dentro da música, mas de algo que também tem relação com a descaracterização do grunge e do metal como música, a negação ao direito de escuta musical do outro.

Estamos diante, portanto, de uma violência simbólica

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