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Histórias da química

Histórias da química

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Histórias da química

Duração:
388 páginas
5 horas
Lançados:
1 de jan. de 2017
ISBN:
9788547305314
Formato:
Livro

Descrição

Histórias da Química reúne dez textos, de diferentes autores, mas com uma característica única: contar a história da Química para utilização dentro da sala de aula e para preparação de aula, mesmo não sendo um livro-texto. Traz momentos de leitura e lazer, ainda que não seja um romance. Contribui com extenso conteúdo sobre conceitos químicos, apesar de não ser um livro técnico. A ideia seguida foi a de apresentar uma obra que possa somar à produção nacional em História da Química, com a participação de nomes consolidados e nomes emergentes da Química e de seu ensino com interesse na temática. O conteúdo significativo e a linguagem plural e dinâmica são fatores que colocam a obra como um importante adendo às coleções de professores do ensino médio e superior, bem como de leitores interessados e curiosos em aprender mais sobre os fatos e contextos que marcam a evolução de diversas ideias dessa área do conhecimento.
Lançados:
1 de jan. de 2017
ISBN:
9788547305314
Formato:
Livro


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Histórias da química - José Euzebio Simões Neto

Editora Appris Ltda.

1ª Edição - Copyright© 2017 dos autores

Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98.

Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores.

Foi feito o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nºs 10.994, de 14/12/2004 e 12.192, de 14/01/2010.

COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO ENSINO DE CIÊNCIAS

Aos amigos e colegas que acreditaram

no projeto ao longo do tempo de maturação desta obra.

PREFÁCIO

Peço licença para me dirigir a um grupo específico de leitores em que me incluo e com que me identifico: os professores de Química. Se você parou para ler este livro, seja por indicação ou por curiosidade quanto ao conteúdo, vai encontrar, no conjunto de seus capítulos, não só uma obra sobre a história da Química, mas uma obra que irá fazê-lo repensar sua concepção sobre essa Ciência e sobre aquilo que envolve o seu processo de ensino e aprendizagem. O que encontramos aqui nos leva, a partir do olhar crítico dos autores, a refletir sobre aspectos históricos e epistemológicos que envolvem a Química enquanto Ciência, e até mesmo antes de se estruturar como Ciência.

Este livro está divido em dez capítulos, e sobre o conteúdo buscarei fazer considerações e/ou um breve resumo nas próximas linhas. Contudo é possível que o leitor tenha uma interpretação diferente da minha, o que naturalmente pode acontecer, visto que certamente temos (in)experiências e (pré)conceitos diferentes sobre o que cada um se propõe a explorar.

No primeiro capítulo os autores apresentam uma análise da emergência da Alquimia na cultura moderna, incluindo obras da literatura, cinema, televisão e fotografia, que podem levar a concepções alternativas conflitantes com os fatos históricos. A análise possibilita ao leitor uma reflexão sobre a forma como a Ciência é apresentada em espaços/materiais não didáticos ou não científicos, o que pode, por sua vez, ser um aliado no processo de alfabetização científica. Temos, então, um texto que se coloca como um instrumento de debate, de interpretação e apropriação sobre a Alquimia e sua presença na cultura moderna. Uma boa forma de iniciar um livro. Uma pergunta: Alquimia é a precursora da Química? Espero que a leitura possa fazer com que você, leitor, tire suas próprias conclusões.

Em seguida, o capítulo dois propõe problematizar a Natureza da Ciência e seu progresso a partir de alguns questionamentos, apresentando contribuições que a perspectiva histórico-social da Ciência traz à reflexão acerca do progresso da Ciência. Contextualiza essa reflexão a partir do processo de separação entre a Ciência e a Metafísica que permitiu o surgimento de novas perspectivas na Filosofia da Ciência. O texto nos leva a pensar sobre a evolução científica, e, conforme defende o autor, é necessária uma reflexão constante acerca da organização da Ciência e sobre seu papel na sociedade.

Um convite à busca pela substância é feito no capítulo três. O autor objetiva levar o leitor a refletir sobre o caráter inacabado dos conceitos científicos e apresenta um breve percurso histórico do desenvolvimento do conceito de substância. Apesar de não se deter a questões educacionais, o autor convida o leitor a refletir sobre a forma como esse conceito é apresentado, por exemplo, nos livros didáticos. Segundo ele, a falta de reflexão profunda sobre o conceito de substância, e outros conceitos científicos, pode ocasionar o reforço de concepções alternativas, podendo até incorrer em erros conceituais.

Mostrar uma Ciência humana, por meio da história do desenvolvimento atômico, é o que objetiva o capítulo quatro da presente obra. De modo mais específico, o capítulo tem como meta contar a história dos modelos atômicos seguindo dois parâmetros, a saber: o histórico e o epistemológico. Apoiado no aspecto histórico, o autor faz um recorte teórico para expor a história, iniciando em Dalton e terminando em Niels Bohr, que, para ele, é o responsável por grandes mudanças na teoria atômica. O viés epistemológico fica por conta das ideias de Ludwik Fleck, por meio dos Estilos de pensamento. O que temos nesse texto é uma história, a partir do que coloca o autor, contada de forma diferente daquela presente nos livros didáticos, trazendo uma nova dimensão aos pesquisadores responsáveis pela proposição das diferentes teorias atômicas.

No capítulo cinco o leitor é introduzido ao universo de Linus Pauling, cientista visionário, responsável por mudar nossa forma de ver como átomos e moléculas interagem. O texto, com características biográficas, inclui fotos do cientista em momentos com família e amigos, nos envolvendo em uma história de vida longa e com multiplicidade da obra de Pauling, que tinha interesse em áreas científicas como Química, Física e Biologia. O autor afirma que sua obra vasta continua influenciando a Ciência nos dias atuais, destacando-se seu interesse pela vitamina C, que passou a ingerir diariamente, e o envolvimento na II Guerra Mundial. É, sem dúvida, um dos mais notáveis cientistas que o século XX conheceu.

No sexto capítulo temos a apresentação de três recortes da vida de Marie Curie. Apesar de falar sobre a vida de Marie Curie, o texto, segundo o autor, não possui pretensão de ser uma biografia, mas se baseia em uma das três biografias existentes sobre a cientista, o livro Marie Curie, uma vida da autora Susan Quinn. Não encontramos apenas relatos de fatos que aconteceram; ao contrário, é possível por meio da história contada conhecer o contexto cientifico, social e cultural da época em que Marie Curie viveu. Uma mulher à frente do seu tempo, que enfrentou preconceitos, rejeição, numa época em que a Ciência era (ainda é) privilégio dos homens.

A ideia de espontaneidade e de transformação química é abordada no capítulo sete. A autora apresenta um percurso histórico desde os gregos até os dias atuais, investigando e discutindo a transformação da matéria em vários períodos da história da Ciência, apontando diferentes visões e concepções associados a esses períodos. Essas visões e concepções são articuladas, numa aproximação entre dois campos, a Termodinâmica e a Química. Além de abordar o desenvolvimento histórico baseado nessa articulação, o texto também reflete sobre implicações educacionais a respeito dessa aproximação.

Tradicionalmente o ensino de Química Orgânica, baseando-se na forma como é apresentado nos livros didáticos, seja no Ensino Médio ou Superior, resume-se a funções orgânicas, seja no que tange a nomenclatura, estrutura e propriedade, ou nos diversos mecanismos de reação a elas associadas. O capítulo oito pode ajudar a ampliar essa abordagem, pois nos dá possibilidades de compreender os questionamentos, problemáticas, contribuições e cientistas envolvidos, por meio da construção histórica que os autores chamam de inícios da Química Orgânica, que corresponde ao período de Lavoisier até a proposição da teoria estrutural de Kekulé.

Ainda no cenário da Química Orgânica, o capítulo nove apresenta um texto que fala das contribuições de um dos químicos mais influentes, o russo Butlerov. É assim que o autor chama o cientista, que é praticamente desconhecido no Ocidente. Após ler esse capítulo certamente o leitor irá preencher a lacuna existente sobre a obra do cientista, e isso não é apenas uma promessa feita pelo autor para que o leitor se interesse pelo texto. Além das contribuições para a Ciência, é possível também se aproximar mais do cientista humano, já que dedicam um espaço para falar sobre a vida pessoal e acadêmica de Butlerov.

O livro finda com um capítulo que fala sobre a História do Ensino Superior de Química no Brasil. A Química enquanto disciplina chega ao Brasil no início do século XX, quase três séculos depois que, segundo os autores, se estruturou enquanto Ciência, a partir das contribuições de Boyle, particularmente com a sua obra O Químico Cético. Ainda, é possível compreender como atualmente os cursos de Licenciatura em Química são estruturados e sua distinção com o bacharelado. Um resgate histórico que se coloca como leitura obrigatória para todos aqueles que se interessam pela Química e, principalmente, pelo Ensino de Química.

Este livro nos proporciona uma leitura intrigante, questionadora, reflexiva – algumas vezes parece que estamos pisando em terras desconhecidas –, e, ao mesmo tempo, familiar e envolvente. Escrita por professores e pesquisadores que se interessam pela história da Química, por questões que envolve o seu processo de construção, mas, sobretudo, que trazem mais uma contribuição para a área ao nos apresentar essa produção sem precedentes. Boa leitura!

Professora Flávia Cristiane Vieira da Silva

Unidade Acadêmica de Serra Talhada – Universidade

Federal Rural de Pernambuco (UAST/UFRPE)

Sumário

1 EMERGÊNCIAS DA ALQUIMIA NA CULTURA MODERNA: MARGINALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DA CIÊNCIA COMO MARCA DE CONCEPÇÕES ALTERNATIVAS EM MANIFESTAÇÕES CULTURAIS

Hemerson Henrique Ferreira do Nascimento

José Euzebio Simões Neto

2 Contribuições da perspectiva epistemológica histórico-social para a questão do progresso da Ciência

Caio César Bispo Teodoro

3 EM BUSCA DA SUBSTÂNCIA: uma história para o desenvolvimento do conceito de Substância Química

João Roberto Ratis Tenório da Silva

4 O MODELO ATÔMICO – UMA HISTÓRIA DA MUDANÇA DE ESTILOS DE PENSAMENTOS

Ehrick Eduardo Martins Melzer

5 Um cientista de olhos azuis brilhantes: Linus Pauling

Paulo Marcelo Pontes

6 Marie Curie: três dolorosas estações de um calvário glorioso

Attico Chassot

7 VISÕES E CONCEPÇÕES SOBRE A TRANSFORMAÇÃO DA MATÉRIA: UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA PARA A PROPOSIÇÃO DOS CONCEITOS DE ENTROPIA E ESPONTANEIDADE DE PROCESSOS

Edenia Maria Ribeiro do Amaral

8 Teoria dos Radicais, Teoria da Substituição, Teoria dos Tipos: um caminho tortuoso na evolução da Química Orgânica

Ricardo de Carvalho Ferreira

Maria Angela Vasconcelos de Almeida

Marcelo Brito Carneiro Leão

Francislê Neri de Souza

9 A IMPORTÂNCIA DE ALEKSANDR BUTLEROV PARA A HISTÓRIA DA QUÍMICA E AS CONTROVÉRSIAS EM TORNO DA SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A TEORIA ESTRUTURAL

Cristiano de Almeida Cardoso Marcelino Jr.

Isauro Beltrán Núñez

10 BREVE HISTÓRICO DO SURGIMENTO DO ENSINO SUPERIOR DE QUÍMICA

José Euzebio Simões Neto

Angela Fernandes Campos

SOBRE OS AUTORES

1

EMERGÊNCIAS DA ALQUIMIA NA CULTURA MODERNA: MARGINALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DA CIÊNCIA COMO MARCA DE CONCEPÇÕES ALTERNATIVAS EM MANIFESTAÇÕES CULTURAIS

Hemerson Henrique Ferreira do Nascimento

José Euzebio Simões Neto

Estudos especializados, muitos em língua inglesa e, não raramente, em língua portuguesa, apontam para a necessidade de incorporação da História da Ciência (HC) no ensino há pelo menos cinquenta anos (JENKINS, 1990, apud BIZZO, 1992). Ao longo da última década o interesse pela HC tem crescido substancialmente, não somente em função da sua contribuição enquanto campo de pesquisa, fornecendo suporte para as mais variadas áreas de conhecimento, mas também como ferramenta metodológica no Ensino das Ciências – em que emerge como proeminente aliada do professor –, como destacam Meglioratti, Bortolozzi e Caldeira (2005) e Martins (2005). De fato, essa maior representatividade da HC no Ensino das Ciências se evidencia no avultante número de publicações especializadas: Enseñanza de las Ciencias, Science & Education, Ciência & Educação, entre outras.

De fato, a HC permite uma aprendizagem mais significativa, num sentido abertamente ausubeliano, posto que atua como elemento facilitador, contextualizador e humanizador das Ciências, diminuindo, dessa forma, seu caráter prescritivo e formal e fazendo o ensino tanto mais construtivista. Conforme Mathews (1994) – fundador da Science & Education – há boas razões para adotar a HC como ferramenta didática:

A História promove melhor compreensão dos conceitos e métodos científicos; Abordagens históricas conectam o desenvolvimento do pensamento individual com o desenvolvimento das ideias científicas; A História da Ciência é intrinsecamente valiosa. Episódios importantes da História da Ciência e da cultura – a Revolução Científica, o Darwinismo, a descoberta da penicilina, etc. – deveriam ser familiares a todo estudante; A História é necessária para entender a natureza da ciência; A História neutraliza o cientificismo e o dogmatismo que frequentemente são encontrados nos livros de ciências e nas aulas; A História, por meio do estudo da vida e da época dos cientistas, humaniza o objeto da ciência, tornando-a menos abstrata e mais interessante para os estudantes; A História permite fazer conexões com assuntos e disciplinas científicos, assim como com outras disciplinas acadêmicas; a história expõe a natureza integrativa e interdependente das aquisições humanas (MATTHEWS, 1994, p. 50, tradução nossa).

Dentre os aspectos citados, destaquemos a compreensão do fazer científico. A aproximação com a HC permite melhor compreender como se desenvolve a Ciência, deixando claro que esta é um construto humano e não linear, o que invariavelmente remonta à proposta de Thomas Kuhn (2007). É preciso entender o passado para compreender, não o presente, mas o progresso científico, suas revoluções, dadas as modificações sócio-histórico-culturais.

A percepção do alcance da história da Ciência como ferramenta no processo de ensino-aprendizagem levou o Brasil a oficializar a necessidade de contextualização histórico-social. Dessa forma, constam atualmente nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM) (BRASIL, 1999), nas Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN+) (BRASIL, 2002) e nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio (OCN) (BRASIL, 2006) instruções para que o currículo se organize em torno de eixos orientadores para a seleção de conteúdos significativos, dentre os quais um eixo histórico-social, dada a natureza mutável da sociedade.

Reconhecer e compreender a ciência e tecnologia químicas como criação humana, portanto inseridas na história e na sociedade em diferentes épocas; por exemplo, identificar a alquimia, na Idade Média, como visão de mundo típica da época. Perceber o papel desempenhado pela Química no desenvolvimento tecnológico e a complexa relação entre ciência e tecnologia ao longo da história; por exemplo, perceber que a manipulação do ferro e suas ligas, empírica e mítica, tinha a ver, no passado, com o poder do grupo social que a detinha, e que hoje, explicada pela ciência, continua relacionada a aspectos políticos e sociais (BRASIL, 2002, p. 92).

Por vários motivos é que o componente histórico ganha destaque em meio as disciplinas científicas, apoiando-se, inclusive, na proposta de Monk e Osborne (2007) sobre urgência da implementação de agregar aspectos da História e da Filosofia da Ciência (HFC) no currículo para uma melhor educação científica – facilitando principalmente a formação de conceitos. Vale, por fim, ressaltar que, em decorrência de a relação entre História da Ciência e Ensino de Ciências ter se tornado tão íntima, aquela passou a integrar, já há algum tempo, propostas de alfabetização científica de forma mais ou menos incisiva, como pontua Cachapuz et al. (2005). Além disso, a história da Ciência tem se feito presente sempre que se discutem as relações entre Ciência-Tecnologia-Sociedade-Ambiente (CTSA), referendada como elemento integrador desses quatro pilares e também representativo da realidade cultural – o que reforça o que, até agora, explicitamos.

Óticas sobre a ciência, o fazer científico

e a história da ciência

Para melhor compreender a história da Ciência, é preciso antes compreender do que trata a própria Ciência e o seu funcionamento, o fazer científico. Definir o que é Ciência ao longo de séculos tem se provado uma tarefa complexa, considerando as várias interpretações que se pode ter, inclusive aquelas do senso comum que abrangem concepções alternativas advindas do cotidiano e derivadas de um escopo cultural, como mostra Chibeni (2001, p. 1-5). Do mesmo modo simplificado pelo qual Kosminsky e Giordan (2002) e também Oki (2004) elencam concepções formais a partir de teóricos da epistemologia, distinguimos:

Augusto Comte: o conhecimento científico apresentado na forma de leis surge do refinamento do que se experimenta no senso comum, sendo ferramenta desse refinamento um método científico único (método positivista). Defende que o conhecimento passa por três estados históricos – teológico, metafísico e positivo ou científico – até a descoberta das leis efetivas dos fenômenos.

Gaston Bachelard: ao inserir a noção de obstáculos epistemológicos, Bachelard demonstra que o conhecimento científico também pode ser alcançado pela dúvida, desabilitando assim a segurança do método positivista.

Karl Popper: o científico é tudo aquilo que permite a refutação, dessa forma o conhecimento é tanto mais sólido quanto possa ser posto à prova. Seguindo a mesma linha de pensamento racionalista que Bachelard, Popper enxerga no erro uma nova forma de aprender.

Imre Lakatos: a Ciência é um conjunto formado por um corpo de ideias aceitas como irrefutáveis pela comunidade científica, conservadora, e por um número previsto de anomalias que são adequadas, observando-se certas limitações, a um paradigma vigente (núcleo duro).

Thomas S. Kuhn: a Ciência é resultado de uma sucessão de duas espécies de momentos históricos, os quais Kuhn chama de Ciência Normal e Ciência Revolucionária. Essa sucessão garante o progresso da Ciência pela superação de paradigmas quando eles se tornam insuficientes na explicação de dados fenômenos.

Considerando as ideias acima expostas, parece bem razoável o ponto de vista khuniano para estabelecer relações entre a HC e a Ciência em si. O principal aspecto da teoria de Kuhn é que um somatório de anomalias, isto é, fenômenos que não encontram explicação ou solução num paradigma vigente – entendendo paradigma como o conjunto de conhecimentos válidos num determinado contexto temporal – acabam por esgotar esse paradigma denominado Ciência Normal, então se estabelece um período de crise. Grandes são os esforços dos cientistas para adequar o paradigma às anomalias, mas, em casos extremos, é inevitável a ruína daquele. Inúmeros novos paradigmas surgem – muitos dos quais até mesmo em completo desacordo com aquele até então vigente – para trazer novas explicações. Kuhn chama esse momento em que emergem paradigmas de Revolução (Ciência revolucionária), a transição para um novo paradigma é a revolução científica (KUHN, 2007). A Revolução chega ao fim quando um novo paradigma se estabelece.

Ademais, é Kuhn quem propõe uma definição bem acertada para a história da Ciência:

Se a ciência é uma reunião de fatos, teorias e métodos reunidos nos textos atuais, então os cientistas são homens que, com ou sem sucesso, empenharam-se em contribuir com um ou outro elemento para esta constelação específica. O desenvolvimento torna-se um processo gradativo através do qual esses itens foram adicionados, isoladamente ou em combinação, ao estoque sempre crescente que constitui o conhecimento. E a história da ciência torna-se a disciplina que registra tanto esses aumentos sucessivos como os obstáculos que inibiram a sua acumulação (KUHN, 2007, p. 20).

Apoiemo-nos, assim, em Martins (2005, p. 306), que sintetiza Kuhn quando propõe que a HC se trata de um estudo metacientífico ou de segundo nível. Em outras palavras, a HC traz elementos de outras áreas das Ciências, notadamente da Filosofia da Ciência, que lhe servem de suporte. Dizer que a HC é um estudo metacientífico não implica dizer, contudo, que podemos presumi-la de forma simplista como mera soma de conhecimentos, sem características próprias. A história da Química, por exemplo, não pode ser limitada à equação História + Química = História da Química, como deixa claro Alfonso-Goldfarb (1994, p. 8), pois tem suas particularidades conceituais e metodológicas.

Dos objetivos e obstáculos da história da ciência

Razoavelmente mais clara a ideia do que é a história da Ciência e, consequentemente, a própria Ciência, cabe tratar dos seus objetivos e dos problemas que com frequência se impõem ao seu estudo. Seus objetivos ficam mais evidentes quando se aproximam da tarefa do historiador da Ciência: i) narrar e registrar os acontecimentos históricos desde o seu nascimento de forma cronológica, e ii) descrever e explicar fatores que retardaram o acúmulo de conhecimentos científicos adotados modernamente, dentre os quais erros e mitos.

No entanto, o registro e narração dos acontecimentos não deve ser meramente cronológico, pois essa é uma das causas principais de interpretações lineares em que frequentemente se observa abordagens biográficas e que incitam a HC pedigree (ALFONSO-GOLDFARB, 1994). Além disso, quando trazidos para a sala de aula, os registros devem ser significativos, vivenciados de forma contextualizada e problematizada, apresentando o erro como uma maneira de melhor compreender a Ciência, um caminho para o conhecimento – o que remonta a Bachelard e Popper. Em outras palavras, o erro deve ser considerado parte integrante do fazer científico, posto que é inerente ao caráter humano e fomenta a pesquisa ao incitar o não conformismo – importante fator que leva à revolução científica. Como salienta Gould (BASSALO, 1992, p. 61), uma razão para estudar História da Ciência é ver como, no passado, pessoas muito mais espertas que você se enganaram.

Ainda é importante salientar a importância do cuidado no trato do componente histórico no Ensino das Ciências, pois que, se não atenda aos objetivos i e ii acima descritos, acabará por incorrer em deficiências que representam verdadeiros obstáculos para a aprendizagem. Além da linearidade, já há muito condenada por Kuhn, e da narrativa pedigree que traz uma história de grandes nomes e pais da Ciência, podemos citar os problemas de interpretações extremistas e marginalização do conhecimento científico.

A primeira dessas interpretações, denominada whig, foi discutida em 1931 pelo historiador e filósofo britânico Sir. Hebert Butterfield em seu livro The Whig Interpretation of History (BURKE, 2002, p. 141-143). No âmbito da história da Ciência, assume um significado semelhante, como apontam Monk e Osborne (1997, p. 406):

Este termo é usado para descrever uma abordagem histórica que interpreta o passado em termos de ideias e valores do presente, elevando em significância todos os incidentes e trabalhos que contribuíram com a sociedade atual, em lugar de tentar entender o contexto social do período e os fatores contingentes da sua produção (MONK; OSBORNE, 1997, p. 406, tradução nossa).

A interpretação whiggista é anacrônica, como explicam Martins (2005) e Prestes (2010); ela incita julgamentos de valor quando o correto seria adotar uma cosmovisão semelhante àquela da época em questão para melhor compreendê-la. Assim, por exemplo, para entender as complexidades de um período como a Alquimia, o mais acertado seria colocar-se no lugar de um alquimista para entender seu pensamento e as limitações deste em função de fatores diversos que, por ventura, se apresentassem.

A interpretação inteiramente oposta também não oferece uma visão muito mais coerente ou, pelo menos, mais acertada sobre a HC. O que se costuma chamar de interpretação anti-whig ou prig ignora a história da Ciência moderna, bem como as diferenças entre passado e presente e o público ao qual a história é narrada. Como pontua Harrison (1987, apud MARTINS, 2010, p. 3), Reconstruir o passado requer comentários cuidadosos sobre as diferenças entre as ciências e linguagem do passado e do presente. Dessa forma, nenhuma das duas é recomendada, mas se possível um equilíbrio entre tais interpretações, deve se estabelecer de modo que abranja as visões de Ciência e sobre a História da Ciência de modo razoável.

Quanto ao problema da marginalização de certos conhecimentos científicos, buscamos suporte em Filgueiras (2001), que de forma bastante tímida – considerando publicações nacionais sobre o tema – propõe a seguinte tipologia para a Ciência: Ciência Central (Mainstream Science), Ciência Periférica (Peripheral Science) e Ciência Marginal (Marginal Science). Entendamos a Ciência Central como o paradigma vigente, em termos kuhnianos, que atende a certos critérios de cientificidade e divulgação; a Ciência Periférica entra em desacordo com a Central em termos dos critérios especificados, ainda que não em totalidade, e a Ciência Marginal, segundo o próprio Filgueiras:

[…] é aquele corpo de conhecimento ou de doutrina que se pretende ciência e que freqüentemente é apresentado na linguagem científica, mas que não compartilha suas mesmas premissas e regras de acordo com o elenco apresentado na conceituação de ciência central (FILGUEIRAS, 2001, p. 710).

Nota-se com clareza uma tendência whiggista nesse tipo de classificação da Ciência quando se quer encontrar a cientificidade dos moldes contemporâneos num momento histórico em que essa mesma cientificidade ainda não havia tomado corpo. Mais uma vez, e de forma taxativa, se faz necessário lembrar que só é possível compreender a complexidade de períodos como a Alquimia, por exemplo, assumindo uma mudança de cosmovisão e aceitando que, nesse caso em específico, o paradigma que explicava os fenômenos de transformação da matéria mantinha-se dominante há mais de dois milênios. Nas palavras de Pickstone (1995, apud MARTINS, 2010, p. 4), o historiador precisa entender o passado em seus próprios termos, mas também fazer uma análise de seu próprio mundo para ser capaz de falar para a audiência não especializada, além disso, a função do historiador da ciência inclui investigar os diversos paradigmas, mesmo os que já foram descartados ou superados, como sinaliza Filgueiras (2001).

Um recorte na alquimia

Na exploração de um tema tão complexo e conturbado quanto pode ser este da Alquimia, é importante primeiramente conhecê-lo, não minuciosamente, mas com a fundamentação necessária a uma mudança de cosmovisão que permita entender esse momento da história da Química sem assumir posturas extremistas, que dificultam o entendimento pleno do componente histórico, ou marginalizá-lo a ponto de fazê-lo inválido para o desenvolvimento da Ciência. É apresentado a seguir um apanhado da história da Alquimia com o intuito de promover uma melhor compreensão desse momento histórico ao possibilitar a adoção de uma nova cosmovisão, dessa forma, bem

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