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Manual de Teologia Sistemática: Edição Revista e Ampliada
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E-book661 páginas14 horas

Manual de Teologia Sistemática: Edição Revista e Ampliada

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Sobre este e-book

Este completo manual apresenta a definição, bem como a distinção do que é Teologia e sua inegável importância. Traz também conceitos e a necessidade da revelação, a autoridade da Escritura Sagrada bem como sua divina inspiração. Aborda de forma detalhada a Doutrina de Deus, a Trindade Divina, As Obras de Deus, Os Anjos, a Doutrina do Homem, a Doutrina do Pecado, a Doutrina de Cristo, Doutrina da Salvação e a do Espírito Santo, a Doutrina da Igreja e ainda a Doutrina das Últimas Coisas. Inegavelmente é a obra mais utilizada por teólogos e estudantes de teologia pela sua praticidade e abrangência.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento23 de mar. de 2016
ISBN9788574590554
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    Manual de Teologia Sistemática - Zacarias de Aguiar Severa

    Severa

    Prefácio à Segunda Edição

    Depois de quase quinze anos de circulação da primeira edição do Manual de Teologia Sistemática, com várias reimpressões, apresento agora o novo Manual de Teologia Sistemática, revisado e ampliado.

    Durante esse tempo, desde a primeira edição do livro até agora, continuei estudando Teologia e servindo na obra de Deus. De 2000 a 2007, pastoreei com tempo integral a Igreja Batista do Cajuru, em Curitiba. Em 2009 e 2010, fiz um segundo curso de mestrado em Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC). Li também vários livros novos de Teologia, lançados no Brasil nos sete últimos anos. Em 2009 voltei a lecionar Teologia na Faculdade Teológica Batista do Paraná, onde já havia serviço como Professor por dezesseis anos, e como Diretor por 13 anos, quando ainda era Seminário. Continuo na mesma Instituição como Professor, lecionando no curso de graduação, tanto no presencial quanto no à distância.

    O novo Manual de Teologia Sistemática, revisado e ampliado, não acrescenta nenhum capítulo novo, além dos treze da primeira edição, mas coloca novos parágrafos, modifica a redação em alguns pontos, acrescenta novas referências bibliográficas, e faz novos arranjos da matéria, melhorando a sua organização e apresentação.

    O Manual contém o conteúdo da disciplina Teologia Sistemática, que normalmente é oferecida num curso de graduação em Teologia. O livro foi preparado para ajudar os estudantes universitários nessa disciplina. Mas ele está redigido em linguagem simples, numa forma bem didática, de modo que se torna acessível a qualquer um que queira conhecer mais profundamente as verdades da fé cristã. Assim, este Manual pode ser utilizado nas igrejas, em classes da Escola Bíblica Dominical, ou em cursos especiais.

    Reitero aqui minha gratidão feita no prefácio da primeira edição, com relação à minha esposa, Marisan Quintanilha Severa, pelo incentivo e apoio nos estudos e na docência teológica. Minha gratidão também aos meus três filhos: Liana Cristina, Ricardo e Cláudia Regina, pelo convívio e valorização que dão ao meu trabalho. Nesta segunda edição, posso fazer menção também aos meus seis netos, que Deus me deu nesse período de tempo: Henrique, Lucas, Thiago, Luise, Isabelle e Raphael. Todos estes têm sido para mim motivo de alegria e inspiração no viver e servir, com reflexo também na produção desta obra. A eles desejo ardentemente o conhecimento das verdades referidas neste livro.

    Agradeço também A. D. Santos Editora, pelo incentivo na preparação deste material, publicação e circulação da primeira edição, tornando a obra conhecida em várias partes do Brasil, e agora, pelo interesse de fazer o mesmo, e de forma ainda mais aprimorada, com esta nova edição.

    Por fim, o reconhecimento de que "há um só Deus, o Pai, de quem todas as coisas procedem e para quem vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual todas as coisas existem e por meio de quem também existimos (1Co 8.6). Portanto, ao Pai e ao Filho, toda honra e glória. E ao Seu povo, minha parcela de contribuição na forma deste Manual de Teologia Sistemática, revisado e ampliado.

    Curitiba, janeiro de 2014

    Zacarias de Aguiar Severa

    Capítulo 1

    INTRODUÇÃO

    Bem-vindo ao estudo da teologia. Estudar teologia significa buscar conhecimento logicamente ordenado acerca de Deus e seus desígnios. É uma tarefa que demanda esforço e persistência, mas o resultado é compensador. O profeta Oséias apelou ao povo de Israel para que buscassem continuamente o conhecimento de Deus, e fez menção dos benefícios que receberiam: Conheçamos e prossigamos em conhecer o Senhor; como o sol nascente, a sua vinda é certa; ele virá a nós como a chuva, como a primeira chuva que rega a terra (Os 6.3).

    Através do profeta Jeremias, Deus afirma que a maior glória para o ser humano é entendê-lo e conhecê-lo: Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte na sua força, nem o rico nas suas riquezas. Mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, pois eu sou o Senhor, que pratico a fidelidade, o direito e a justiça na terra, porque me agrado dessas coisas (Jr 9.23,24). Jesus Cristo declarou que o conhecimento de Deus significa vida eterna. E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que enviaste (Jo 17.3).

    Nas passagens acima citadas, temos a indicação da importância do conhecimento de Deus. Naturalmente, não se trata de um mero saber a respeito de Deus, mas sim de um conhecimento que envolve vivência pessoal com ele. É com esta convicção e com esta perspectiva que estudamos teologia.

    I. O que é Teologia

    Muitos têm uma concepção um tanto negativa de teologia. Argumentam que o que importa para o cristão é a fé, a vida prática, o serviço cristão. Sem dúvida, esta é uma ideia equivocada de teologia e da própria vida cristã. Precisamos, portanto, primeiro esclarecer o que é teologia, para depois tratarmos do seu conteúdo.

    A. Definição

    A palavra teologia vem do grego (theós, Deus, e logos, palavra, assunto, tratado), e significa, literalmente, tratado ou palavra acerca de Deus. Mas não basta saber apenas o sentido etimológico da palavra; precisamos entender o que realmente significa teologia. Seguem duas definições para serem consideradas.

    A primeira é de Strong, uma definição clássica e sucinta, que diz: Teologia é a ciência de Deus e das relações entre Deus e o universo.¹ A outra é de Millard Erickson, para quem teologia é o estudo, a análise e a declaração cuidadosa e sistemática da doutrina cristã.² Vamos considerar três aspectos dessas definições.

    1. A teologia como ciência.

    A palavra ciência, empregada na teologia por Strong e por outros, não tem o mesmo sentido de quando é usada para as ciências naturais, como a física e a biologia, por exemplo. Na teologia, a palavra ciência tem sentido mais amplo, assim como é usada para as ciências humanas, como a psicologia, a sociologia, a história, e outras, querendo indicar conhecimento adquirido mediante critérios que asseguram a validade de tal conhecimento. Neste sentido se diz que teologia é ciência.

    Clodovis Boff argumenta que o que a teologia tem em comum com outras ciências é o modelo formal, caracterizado pelos seguintes traços: criticidade, sistematicidade e dinamicidade. Ou seja, a teologia é um saber crítico, que procura criar um corpo de saber unificado, e que tende sempre a crescer, tanto em extensão quanto em compreensão.³

    Millard J. Erickson identifica quatro critérios tradicionais do conhecimento científico que precisam estar presentes na teologia para que esta seja considerada ciência. São eles: 1) objeto definido de estudo; 2) método para investigar o objeto em questão e para verificar suas declarações; 3) objetividade, no sentido de que o estudo lida com fenômenos externos à experiência imediata do pesquisador, sendo, portanto, acessível à investigação de outros; e 4) coerência entre as proposições do objeto em questão, de modo que o conteúdo forme um corpo definido de conhecimento, não uma série de fatos desconexos.

    Portanto, teologia é ciência na mediada em que ela representa um conhecimento adquirido mediante critérios utilizados em estudos científicos e que, por isto, ela tem as características do saber científico.

    Entretanto, a teologia é também uma reflexão que depende da fé, isto é, de se crer naquilo que está testemunhado nas Escrituras. Porém, não se trata de uma fé cega, destituída de fundamentos racionais, sem qualquer comprovação. Ao contrário, a fé cristã é nutrida com as verdades reveladas e testemunhas nas Escrituras, verdades que são comprovadas em parte pelo crente em sua experiência de vida (Hb 11.1), e são explicitadas, racionalmente, de maneira ordenada e convincente na teologia. Portanto, teologia é a fé cristã vivenciada levada a conceitos.

    2. O campo de estudo da teologia.

    A teologia se ocupa de Deus e suas relações com o universo. Ela não trata apenas de Deus em si, mas também de suas obras e seus desígnios, podendo abranger toda e qualquer realidade, desde que esta seja considerada na perspectiva de Deus e seus desígnios.

    Contudo, o assunto principal da teologia, como bem expressou Karl Barth, é Deus na história de suas ações.⁵ Pannenberg também ressalta Deus como o assunto principal e centralizador da teologia ao afirmar que na histórica do pensamento cristão Deus é o ponto de referência unificador de todos os objetos e temas que são tratados na teologia, e neste sentido, então, ele é naturalmente o objeto da teologia em si.⁶

    3. O tipo de estudo.

    Conforme já foi citado nas palavras de Erickson, teologia é o estudo, a análise e a declaração cuidadosa e sistemática da doutrina cristã. Por doutrina cristã entende a declaração das crenças mais fundamentais do cristão.⁷ Portanto, não é qualquer estudo sobre Deus que pode ser chamado de teologia. Para ser teologia, o estudo deve envolver a análise e a declaração cuidadosa e unificada daquilo que a Escritura como um todo ensina sobre os tópicos fundamentais da fé cristã.

    Concluímos dizendo que teologia é um estudo criterioso acerca de Deus e suas relações com o mundo, envolvendo análise e declaração cuidadosas das verdades mais fundamentais do cristianismo, formando um todo ordenado e consistente. Para ser relevante, a teologia deve ser exprimida no idioma contemporâneo, no contexto da cultura geral e relacionada com a maneira de viver do homem. Daí o seu caráter dinâmico na sua forma de expressão e na sua aplicação. A verdade é a mesma que foi revelada nas Escrituras, mas a aplicação dela pode variar no tempo e no espaço, dependendo em parte da cultura de cada povo e do seu momento histórico.

    B. Distinção entre Teologia e Estudos Afins

    Para melhor compreensão do que é teologia, vamos ainda observar a distinção que há entre a teologia e algumas disciplinas que têm estreita relação com ela.

    1. Teologia e religião.

    A palavra religião vem de religare⁸ (ligar de novo), com o significado de religar o homem a Deus. Em sentido amplo, o termo religião é usado para expressar a crença na existência de um poder ou princípio sobrenatural do qual depende o ser humano e ao qual se deve respeito e obediência. Em outras palavras, religião designa a vida do homem nas suas relações com o poder soberano e sobrenatural do universo. A religião baseia-se em diferentes conceitos da realidade sobrenatural e assume formas distintas que materializam a religião na vida prática de cada grupo social.

    A religião cristã tem seu fundamento na revelação especial de Deus encontrada nas Escrituras, e por isto suas ideias acerca da divindade e seus desígnios são mais desenvolvidos, bem como a maneira do homem relacionar-se com a realidade sobrenatural. Strong expõe que, na perspectiva cristã, "Religião, em sua ideia essencial, é vida em Deus, vivida no reconhecimento de Deus, em comunhão com Deus e sob o controle do Espírito de Deus, que habita o homem".

    A teologia está intimamente relacionada com a religião, mas dela se distingue. A teologia ocupa-se em entender e explicar o conteúdo doutrinal da religião, aquilo que se crê e se pratica. A relação da teologia com a religião é semelhante a que há entre a botânica e a vida das plantas: a botânica estuda a vida das plantas, mas é distinta dela. Ou como a astronomia que trata do universo sideral e dos corpos celestes, mas não se confunde com o universo nem com os corpos celestes.

    Portanto, a teologia estuda e expõe de modo coerente as verdades que o ser humano procura vivenciar e expressar em atitudes e ações religiosas, mas não se confunde com a religião. A teologia surge da necessidade de se explicar o que se crê na religião. Primeiro vem a religião, depois a teologia. Esta ilumina racionalmente aquela e a fortalece com sua fundamentação lógica.

    2. Teologia e apologética.

    A apologética ocupa-se com a defesa racional das verdades cristãs. Ela pode ser definida como "um discurso sistemático e argumentativo na defesa da origem e da autoridade da fé cristã".¹⁰ O propósito da apologética é justificar a religião cristã diante das ideias contrárias e provar sua veracidade. Para isto, ela inclui tanto argumentos positivos em defesa do cristianismo quanto rebate as críticas levantadas contra a fé cristã. O propósito da teologia é outro: conhecer e expor o conteúdo e o significado da fé cristã para fins práticos. A teologia até pode incluir argumentos apologéticos, isto é, defender sua posição frente a ideias contrárias, mas este não é o seu papel principal.

    3. Teologia e filosofia da religião.

    A filosofia da religião investiga, com métodos próprios, os aspectos mais gerais do fenômeno religioso. Trata de problemas como a origem, a natureza e a função da religião na vida do homem. Procura descobrir a verdade e o valor da interpretação religiosa no mundo. Quanto à teologia, a sua maior consideração é com os aspectos práticos da religião na vida, e busca interpretar o cristianismo mais em minúcias, abrangendo todo o conteúdo doutrinal da religião, com base nas Escrituras.

    4. Teologia e ética cristã.

    A ética cristã investiga as obrigações morais do homem à luz da revelação bíblica. Em outras palavras, trata do conjunto de princípios e valores fundamentados na revelação cristã que permitem ao indivíduo orientar sua conduta no mundo.¹¹ Ela expõe o significado do cristianismo para a vida moral do homem. Na teologia muitas vezes observamos o efeito ético de uma doutrina, mas este não é o único objetivo, e nem sempre o principal interesse imediato ao considerar-se uma doutrina.

    Portanto, a teologia está bem relacionada com todas essas disciplinas, mas delas se distingue essencialmente; e devemos lembrar essas distinções.

    II. A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DA TEOLOGIA

    Qual a importância do estudo da teologia? Que diferença ela faz na vida do cristão e da igreja? Por que fazer um curso de teologia, como este? Na verdade, o estudo da teologia é muito importante, mas nem todos pensam assim.

    A. Negação da Importância da Teologia

    Muitas vezes tem-se negado a importância do estudo da doutrina cristã ou da teologia, alegando-se que o que importa é a vida com Deus, a experiência ou a fé. Quais os motivos que levam a essa atitude negativa em relação ao estudo da teologia? Algumas razões podem ser apontadas aqui.

    Primeiro, a ênfase exagerada na doutrina em contraposição ao cuidado com o caráter cristão, evangelização e serviço social, que por vezes tem-se verificado na história da igreja. Naturalmente, a teologia não pode ignorar ou substituir a vida prática do cristão. Antes, o seu propósito é fundamentar intelectualmente a fé para que o cristão possa desenvolver a sua vida espiritual e ter uma atuação mais eficaz no mundo, nos diversos contextos culturais.

    Uma segunda razão para o desprezo da teologia é o dogmatismo sobre vários aspectos da religião, resultando daí atritos, divisão, confusão doutrinária e desinteresse pela doutrina, preferindo-se, então, os aspectos práticos da vida cristã. Entretanto, entre os teólogos que tomam as Escrituras como autoridade final para a sua elaboração teológica, em geral, não há grandes divergências, senão em aspectos de pouca importância para a fé e a vida com Deus. Nestes casos, é preciso respeitar o princípio da livre interpretação das Escrituras, manter a unidade do corpo de Cristo, sem, contudo, transigir com a verdade básica claramente ensinada na Palavra de Deus.

    Um terceiro motivo para o desinteresse pela teologia, e talvez o principal, é a falta de conhecimento do que seja a teologia ou doutrina, quais os seus objetivos e efeitos na vida do cristão. É preciso que se entenda que a fé cristã baseia-se em verdades ensinadas na Bíblia, quer dizer, em doutrinas (Rm 6.17), e que conhecer melhor as verdades bíblicas é imprescindível para a firmeza e o desenvolvimento da vida com Deus. Portanto, não se justifica a negação da importância do estudo da teologia. Ao contrário, conhecer teologia é de grande valor.

    B. Razões da Importância da Teologia

    Há fundadas razões para o estudo da teologia. Destacamos aqui seis motivos, embora não sejam os únicos.

    Primeiro, a teologia ajuda o crente no conhecimento de Deus. O alvo de todo o cristão deve ser ficar cheio do pleno conhecimento de Deus e sua vontade, para que possa viver de maneira digna do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, fortalecido com todo o vigor (Cl 1.9-10). A teologia é a explicação coerente do conteúdo e do significado do que Deus revelou de si mesmo e de seus propósitos. Logo, o estudo da teologia ajuda o crente no conhecimento de Deus e, por conseguinte, no desenvolvimento da vida cristã. Pedro saúda seus leitores dizendo: graça e paz vos sejam multiplicadas pelo pleno conhecimento de Deus e de Jesus nosso Senhor (2Pe 1.2). O crescimento na graça de Deus, ou o desenvolvimento da vida espiritual está atrelado ao pleno conhecimento de Deus.

    Segundo, a teologia satisfaz a mente humana. É da natureza do ser humano querer entender aquilo que ele crê ser de relevância vital, como é o caso da religião. Se a teologia é a sistematização dos princípios, das doutrinas, das verdades básicas da religião que professamos, então, ela é indispensável para que tenhamos um conhecimento técnico e teórico daquilo que aceitamos e reputamos como sendo de absoluto valor para a existência. Não podemos separar os aspectos práticos da vida cristã dos aspectos teóricos. A vida humana requer esse lastro teórico em que repousa nossa atitude e ação.

    Terceiro, o estudo da teologia é uma expressão de amor e obediência a Deus. Nosso dever é amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento (Mt 22.37). No estudo da teologia nós expressamos um pouco desse amor todo envolvente a Deus. Bruce Milne diz que o estudo da doutrina é uma expressão de amor ao Senhor através de nossas mentes.¹² Cristo manda que ensinemos os crentes a obedecer a todas as coisas que ele ordenou (Mt 28.20), e isto demanda estudo, compreensão e exposição da Palavra de Deus: teologia, portanto.

    Quarto, a teologia contribui para a pureza e defesa do cristianismo. Na sua caminhada histórica, o cristianismo está sujeito a ataques e contaminações de superstições, imoralidades, pensamentos filosóficos, científicos ou religiosos que lhe são contrários. Uma teologia bem fundamentada na Bíblia é necessária para combater esses ataques e preservar a verdade cristã. O cristão tem o dever de denunciar o falso ensino e defender a verdade (1Tm 1.3,4; 3.15; Hb13.9; 2Jo 9,10).

    Quinto, a teologia auxilia na propagação do evangelho. Para se propagar o evangelho na sua inteireza é necessário ter alguma compreensão inteligente do seu conteúdo e significado e ser capaz de dar uma explicação inteligível da verdade a outrem. Sem uma base doutrinária segura e firme, um lastro teológico bem fundado, a igreja perde sua capacidade militante. A teologia é uma arma poderosa no ministério (Tt 1.9). Lloyd Jones afirma que não há nada mais importante para um pregador do que ter uma teologia sistemática, conhecê-la e ser bem versado nela, e que Cada mensagem que brota de um texto em particular ou de uma afirmativa das Escrituras, deve ser sempre uma parte ou aspecto desse corpo total de verdade.¹³

    Sexto, a teologia fundamenta a prática cristã. A doutrina é o conteúdo da fé e a base de toda a prática cristã. Em suas epístolas, o apóstolo Paulo, normalmente, antes de apelar para a prática da fé, oferece primeiro uma explicação doutrinária da verdade. O autor de Hebreus também intercala várias sessões de encorajamento e exortação após cada longa exposição doutrinária. A exposição da verdade (teologia) fundamenta e encoraja a prática da fé. Quanto mais conhecemos a verdade, tanto mais entusiasmo vamos ter por ela, e mais comprometidos com ela ficamos. Portanto, é aconselhável que antes de apelarmos para a prática cristã, se mostre primeiro a razão dessa prática.

    Em suma, a teologia faz parte da essência do cristianismo.¹⁴ Todo cristão precisa da teologia. Quanto melhor compreendermos os ensinamentos da Palavra de Deus e nos firmarmos neles, tanto mais base teremos para edificar a nossa vida espiritual e cumprir a nossa missão no mundo. Os que são chamados por Deus para serem líderes do seu povo, têm ainda mais necessidade de conhecer bem a teologia cristã, e serão os primeiros a gozar do fruto de tal conhecimento.

    Portanto, com esse entendimento, isto é, convencidos de que o estudo da teologia é de vital importância para o cristão, em particular, e para a humanidade, de modo geral, prossigamos nesta introdução, olhando agora para as partes da teologia e os métodos apropriados para o estudo.

    III. DIVISÃO E MÉTODOS DA TEOLOGIA

    A. Divisão da Teologia

    A teologia cristã comporta quatro divisões ou ramos: teologia bíblica, teologia histórica, teologia sistemática e teologia prática. Embora esses ramos estejam relacionados entre si, contudo, eles constituem disciplinas distintas.

    1. Teologia bíblica.

    Teologia bíblica é a parte da teologia que se ocupa com a exposição do conteúdo dos ensinos dos autores bíblicos. Sua preocupação é estudar cada segmento das Escrituras individualmente, especialmente quanto ao seu lugar na história da revelação progressiva de Deus.¹⁵ As principais divisões da teologia bíblica são teologia do Antigo Testamento e teologia do Novo Testamento. A teologia do Antigo Testamento pode ser subdividida em teologia do Pentateuco, teologia dos Salmos, teologia dos profetas, etc.. A teologia do Novo Testamento pode ser subdividida em teologia dos sinóticos, teologia de João, de Paulo, e outras. Pode-se ter a teologia de cada um dos autores da Bíblia.

    2. Teologia histórica.

    Teologia histórica é o estudo do desenvolvimento doutrinário no curso da história da igreja, enfocando as origens, o progresso e as correntes doutrinárias. A teologia histórica está relacionada com a evolução do pensamento cristão. A importância de semelhante estudo para a completa compreensão da fé que hoje confessamos jamais poderá ser exagerada, porque o cristianismo é uma religião histórica. A teologia histórica pode ser dividida em teologia patrística, teologia medieval, teologia dos reformadores, teologia contemporânea, e outras teologias mais recentes.

    3. Teologia sistemática.

    A teologia sistemática pode ser definida como a apresentação ordenada e harmônica das verdades teológicas a fim de alcançar a unidade e a totalidade.¹⁶ Ou, a formulação e explicação das doutrinas do cristianismo.¹⁷ Enfim, a teologia sistemática é a apresentação das verdades mais fundamentais do cristianismo, formando um todo harmonioso e consistente.

    A teologia sistemática às vezes é chamada de dogmática. Isto ocorre quando o sistema doutrinário é baseado num credo ou credos adotados por alguns grupos de cristãos. Quer dizer, teologia dogmática designa o estudo e a sistematização do conteúdo dos credos, dos símbolos e das confissões de fé que o cristianismo tem produzido em diversos momentos de sua história.

    Em toda e qualquer teologia sistemática há um caráter dogmático que reflete o modo de crer do teólogo ou de sua denominação. Por isto que a teologia sistemática não é completamente uniforme e homogênea. Os autores diferem em alguns aspectos, porque há pontos doutrinários que os teólogos sustentam de modo diferente. Contudo, nos aspectos mais básicos e essências da doutrina cristã, pouca divergência há entre aqueles que têm a Escritura como fonte suprema de teologia.

    4. Teologia prática.

    A teologia prática cuida da aplicação prática das verdades tratadas noutros ramos da teologia, especialmente na teologia sistemática, objetivando uma vida espiritual mais profunda. A teologia prática nos orienta como viver, como orar, como pregar, como evangelizar. Ela trata da aplicação das doutrinas na vida dos cristãos e da igreja. Inclui disciplina como teologia pastoral, teologia do evangelismo, teologia da educação cristã, teologia do culto cristão, e outras. Nosso estudo aqui é de teologia sistemática. Mas também faremos referência a aspectos da teologia histórica, bíblica e prática.

    As divisões acima são da teologia fundamentada nas Escrituras, chamada por alguns de teologia revelada. Mas há também a teologia natural, a que é baseada na revelação natural, quer dizer, na revelação divina dada através da natureza e na consciência humana. É a teologia própria da filosofia.

    Os teólogos discutem se é possível ou até que ponto se pode elaborar uma teologia com base somente na revelação natural. Sobre isto podemos dizer que a Bíblia fala de um conhecimento dado por Deus aos homens através das coisas criadas (Rm 1.19,20) e da providência divina (At 14.17), e que o ser humano tem em sua consciência algo da lei moral de Deus (Rm 2.14,15), independentemente da revelação bíblica.

    Contudo, é preciso ressaltar que a revelação natural, isto é, dada por meio da natureza, não é completa, pois não fala da redenção e pouco diz do caráter de Deus. E também, que o ser humano está afetado pelo pecado em sua natureza, e por causa dessa condição moral e espiritual, ele é incapaz de compreender adequadamente a revelação natural de Deus; e mesmo aquilo que ele compreende, não pratica como convém, antes, desvia-se e faz para si deuses segundo a sua imaginação (Rm 1.21-23). Por esta razão, Deus se deu a conhecer de modo especial através dos profetas e de Jesus Cristo. Assim, a única teologia válida possível é a que tem como fonte primária a Escritura.

    B. Métodos da Teologia

    Método é a maneira de se fazer algo. Em relação à teologia, método é o modo como é feita a investigação para que se obtenha um conhecimento seguro e certo da realidade estudada. Há vários métodos que são utilizados no estudo teológico. Cada um deles determina a natureza do sistema daquela teologia. Daí a importância de se adotar um método que conduza a uma teologia válida do ponto de vista bíblico. Vamos ver os principais métodos e por ultimo, um procedimento básico.

    1. Os principais métodos.

    a) Método dedutivo. Este método deduz o sistema de princípios gerais aceitos a priori. Isto é, leva-se o sistema teológico a se acomodar a princípios filosóficos previamente aceitos. Por exemplo, se o teólogo aceita o deísmo, o panteísmo, o evolucionismo, ou o racionalismo como princípio filosófico, certamente os temas teológicos estudados serão interpretados em consonância com o princípio geral aceito. Esta é a razão de termos na historia teologias diversas que se afastaram da ortodoxia cristã. O método dedutivo pode ser usado, mas ele não é o principal, e as deduções devem ser tiradas de premissas corretas.

    b) Método místico. Alguns afirmam ter recebido revelações especiais de Deus, independentes das Escrituras, e com base nessas revelações têm elaborado suas teologias. Como exemplo da utilização desse método podemos citar Ellen G. White (adventista), Joseph Smith (mórmon), e até mesmo Kenneth Hagin (teologia da prosperidade). O místico depende mais de impressões internas ou subjetivas do que de autoridade e instruções externas.

    A experiência religiosa tem seu valor e é fundamental na teologia. Entretanto, a experiência com Deus deve ser entendida em conformidade com o ensino da Escritura. Não deve ir além, acrescentando algo novo, nem subtrair da Palavra o que é ensinado. Por exemplo, marcar o dia e a hora da volta de Jesus, como já tem sido feito por alguns, com base em alguma visão ou percepção pessoal, é contrariar o claro ensino da Palavra de Deus que diz que quanto ao dia e à hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, senão somente o Pai (Mt 24.36).

    c) Método indutivo. Este método procura encontrar princípios gerais partindo de premissas ou dados particulares. Contrapõe-se ao método dedutivo. É usado nas ciências em geral. É o método mais adequado para o exame das Escrituras. Implica na coleção dos fatos bíblicos, sua classificação e estudo acurado do conteúdo e significado deles, determinando suas verdades fundamentais.

    2. Um procedimento básico¹⁸.

    Vamos agora apresentar alguns passos no estudo da teologia, relacionados com o método indutivo. Esses passos ajudam o estudante na elaboração de uma teologia bem fundamentada e contextualizada. São seis passos.

    a) Definir e esclarecer o problema ou a questão teológica a ser estudada, como, por exemplo, a Pessoa de Cristo, o Pecado, o Espírito Santo, a Salvação.

    b) Identificar as várias soluções do problema que foram sugeridas na história cristã. Isto ajuda a entender a questão nos diversos contextos históricos.

    c) Estudar a fonte da teologia cristã, a Bíblia, para determinar exatamente o que dizem os textos, e chegar a conclusões preliminares.

    d) Relacionar as conclusões preliminares com a revelação em geral e com as outras doutrinas já estabelecidas para concretizar a resposta teológica.

    e) Defender esta conclusão diante da oposição de outras ideias.

    f) Aplicar as conclusões teológicas às situações específicas da vida neste mundo. Há uma verdade divina, mas há muitas aplicações nos diferentes contextos e situações em que vive o ser humano.

    É preciso cuidar do método que vamos adotar, porque ele vai determinar aonde vamos chegar. Neste estudo, para os fins que temos em vista, vamos analisar os principais temas da fé cristã, servindo-nos dos melhores autores. Analisaremos os assuntos à luz da revelação bíblica, sem menosprezar as reflexões históricas, procurando explicitar as verdades de Deus para a vida hoje. Para tanto, é preciso ter a mente aberta para ouvir e questionar com o intuito de compreender melhor o que Deus revelou. Não podemos evitar completamente nossos pré-conceitos, mas podemos ter consciência deles e tentar não permitir que eles controlem nossa compreensão da verdade ensinada por Deus.

    Assim, sabendo já o que é teologia, sua importância e o melhor método para o estudo dela, vamos prosseguir tratando agora da fonte da teologia, isto é, a revelação bíblica.

    Capítulo 2

    REVELAÇÃO E ESCRITURAS

    Vimos na introdução o que é teologia, distinção entre ela e outros estudos afins, importância da teologia, divisão e método. Agora vamos considerar a fonte da teologia, que é a revelação de Deus nas Escrituras. Este assunto é de suma importância, pois trata de onde vamos extrair nosso conhecimento teológico. Precisamos estar bem seguros acerca da fonte do nosso entendimento.

    I. A REVELAÇÃO DE DEUS

    A. Conceito e Necessidade da Revelação

    A palavra revelação significa desvendar o que está encoberto, tornar conhecido o que antes estava oculto. Na teologia, revelação é a manifestação que Deus faz de si mesmo e de seus propósitos aos seres humanos, dando-lhes o conhecimento dele e de sua vontade. A revelação inclui a compreensão por parte do ser humano daquilo que Deus manifesta. Se não houve compreensão, a revelação não se realizou.

    O que Deus revela é a si mesmo e a sua vontade, e não apenas algo acerca dele mesmo. Quer dizer, Deus se mostra presente na história e na vida de pessoas, age e manifesta seus desígnios e a sua vontade, para que essas pessoas o conheçam e vivam em comunhão com ele.

    A revelação é absolutamente necessária para que o homem conheça a Deus, porque Ele está acima dos pensamentos e das palavras do homem. Deus não integra a substância das coisas criadas. Ele transcende a criação, e só pode ser conhecido quando Ele mesmo se dá a conhecer. Wolfhart Pannenberg ressalta que A sublimidade da realidade de Deus torna-a inatingível para o homem se ela não se dá a conhecer por si mesma.¹⁹

    A inacessibilidade de Deus é acentuada pelo pecado que faz o homem perder a familiaridade com o Criador. Há uma distância mental e moral entre o homem e Deus. Assim, o ser humano só pode conhecer a Deus e ter comunhão consciente com Ele através da revelação divina e do auxílio do Espírito Santo na compreensão da revelação dada.

    Felizmente, Deus se revelou e o Espírito Santo está entre nós para nos ensinar todas as coisas reveladas (Jo 14.26). Por isto podemos conhecer a Deus e a sua vontade e ter comunhão com Ele; e, por conseguinte, ter uma teologia, que é a exposição ordenada e coerente do nosso conhecimento daquilo que Deus revelou.

    A revelação de Deus pode ser vista como sendo de dois tipos, normalmente chamadas de revelação geral e revelação especial.

    B. Revelação Geral

    A revelação geral consiste na manifestação que Deus faz de si mesmo e seus desígnios a todas as pessoas, em todos os lugares e tempos. Os meios que Deus usa na revelação geral são seus atos na criação, na história e na consciência humana. É uma revelação geral, porque ela é dirigida a todas as pessoas em todos os tempos, e também porque o seu conteúdo é mais geral. Ela não inclui o plano da redenção, nem certas qualidades de Deus, como temos nas Escrituras.

    1. Meios da revelação geral.

    Como já foi dito, os meios desse tipo de revelação são a criação, a história e a consciência humana.

    a) A criação. As obras da criação manifestam Deus e seus atributos. A realidade da criação reflete a existência de um ser sobrenatural, poderoso, eterno e sábio, que trouxe à existência todas as coisas e as mantém. O apóstolo Paulo afirma que o que se pode conhecer sobre Deus é manifestado entre eles [os homens], porque Deus lhes manifestou. Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas (Rm 1.19,20).

    O salmista também afirma que Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia declara isso a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite (Sl 19.1,2). E diz mais: Que Deus pôs a sua glória nos céus, e que os céus são obras dos seus dedos (Sl 8.1,3).

    O profeta Isaías tem a mesma percepção. Ao olhar para cima, vê as maravilhas da criação e afirma que quem criou todas estas coisas e as governa é aquele que é grande em força e forte em poder (Is 40.26). Portanto, o universo, com toda a sua beleza, grandiosidade e complexidade, manifesta que existe uma realidade superior, de quem tudo depende, e a quem devemos temer.

    Deus se manifesta na criação não apenas pelo ato de criar as coisas, mas também pela sua constante ação no mundo para manter e dirigir as coisas criadas. Isto é chamado na teologia de providência divina, isto é, o cuidado de Deus em manter e dirigir as suas criaturas. Falando da revelação geral, Paul Tillich argumenta que Oceanos e estrelas, plantas e animais, corpos humanos e almas, são meios naturais de revelação. E muitos são os eventos da natureza usados na revelação: os movimentos do céu, a mudança do dia e da noite, crescimento e declínio, nascimento e morte, catástrofes naturais.²⁰

    Paulo afirma que Deus dá testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos chuvas do céu e estações frutíferas, fartando-vos de mantimento e enchendo o vosso coração de alegria (At 14.17). Significa que a operação das leis naturais, dando condições de existência às diversas criaturas, testifica que há um ser poderoso, bondoso e sábio, que criou e sustenta todas as coisas (Sl 104.19-24; Mt 6.26,30).

    b) A história. Outro modo da revelação geral são os atos de Deus na história. Deus age na história dos homens e dos povos. Certos fatos que ocorrem na história denunciam a presença e atuação de Deus, embora isto seja mais difícil de ser percebido. O salmista reconhece que a exaltação não vem do Oriente nem do Ocidente, nem do deserto. Mas Deus é quem julga; ele abate um e exalta outro (Sl 75.6,7).

    O profeta Daniel afirma que é Deus quem muda os tempos e as estações; remove e estabelece os reis; é ele quem dá sabedoria aos sábios e entendimento aos que conhecem (Dn 2.21). O apóstolo Paulo declara que não há autoridade (governo) que não venha de Deus, e as que existem foram ordenadas por ele (Rm 13.1). Diz também que Deus De um só fez toda a raça humana para que habitasse sobre toda a superfície da terra, determinando-lhes os tempos previamente estabelecidos e os territórios da sua habitação (At 17.26).

    Como se vê, o testemunho bíblico é que Deus age soberanamente na história das nações e na vida de pessoas. E não foi somente na história de grandes homens e do povo de Israel que Deus agiu e se revelou. Em Amós Deus declara: Ó israelitas, não sois vós para comigo como os etíopes? Por acaso não tirei Israel da terra do Egito, e os filisteus de Caftor, e os sírios de Quir? (Am 9.7).

    Contudo, é na história de Israel que Deus tem dado maior testemunho de si mesmo. Millard J. Erickson observa que Essa pequena nação vem sobrevivendo ao longo de séculos, em ambientes basicamente hostis, muitas vezes em face de severa oposição.²¹ Percebe-se que Deus interveio pessoalmente na história de Israel, e, por intermédio de grandes homens, deu entendimento ao povo para que compreendesse o processo histórico que estava vivendo.

    c) Consciência humana. Deus também se revela na consciência humana, principalmente na consciência moral e religiosa. Há no ser humano uma noção do que é certo e do que é errado. Os julgamentos morais do homem envolvem mais que suas preferências – gostar ou não –, mais que mero utilitarismo. O apóstolo Paulo diz que os gentios, que não têm lei, praticam as coisas da lei por natureza, embora não tenham lei, tornam-se lei para si mesmos, demonstrando que o que a lei exige está escrito no coração deles, tendo ainda o testemunho da sua consciência e dos seus pensamentos, que ora os acusam, ora os defendem (Rm 2.14,15).

    Deus manifesta na consciência humana as exigências da sua lei; uma lei moral natural, sem ser escrita. Este fato atesta a existência de um Legislador e Juiz, que revela à consciência humana suas leis básicas e delas pede conta. Assim, os seres humanos têm noção da divindade, e a religião, como um fenômeno natural, aponta para a percepção comum que os seres humanos têm de Deus.

    Como vimos, Deus revela a si mesmo e os seus desígnios aos homens através da criação, dos fenômenos da natureza, da história de homens e povos, especialmente de Israel, e da consciência moral e religiosa humana. Esta é a revelação geral, que não inclui a revelação bíblica. Ela está aí para todos. Deus é real; ele age no mundo.

    2. Efeitos da revelação geral.

    A revelação geral não é completa, e não é suficiente para a redenção da humanidade. Contudo, ela produz os seus efeitos. Destacamos alguns deles.

    a) A revelação geral proporciona algum conhecimento de Deus. A Escritura afirma que os pagãos tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, e que eles substituíram a verdade de Deus pela mentira (Rm 1.25). Trata-se de um conhecimento que eles de fato tiveram, e não apenas uma possibilidade de conhecer.

    Mesmo tendo algum conhecimento de Deus, os homens tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu... e substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis (Rm 1.21,23). A prática da idolatria é o reflexo mais vívido do descaso do conhecimento de Deus obtido através da revelação geral. Esse é um retrato da humanidade que tem apenas a revelação geral.

    b) A revelação geral dá base para a vida moral na sociedade. Na organização da vida em sociedade, normalmente as pessoas aceitam, a priori, as normas de ordem moral, estabelecidas pelas autoridades. Isto porque a noção geral de moralidade e justiça está escrita no coração de cada um (Rm 2.15). Os princípios morais revelados nos Dez Mandamentos são em parte reconhecidos e aceitos por grande parcela da população em cada sociedade, independentemente da cultura e da religião. Assim, as normas morais da sociedade estão calcadas em fundamentos colocados na natureza moral dos cidadãos.

    c) A revelação geral torna o homem culpado diante de Deus. Os indivíduos são indesculpáveis; porque mesmo tendo conhecido a Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças (Rm 1.21). Há uma negligência humana em relação ao conhecimento de Deus dado na revelação geral. O orgulho espiritual e a idolatria manifestam esse descaso. A ruína moral em que muitos vivem também é sinal do abandono à verdade revelada (Rm 1.24-32), e é também manifestação da ira de Deus sobre a impiedade e injustiça dos homens (Rm 1.18). O decreto divino é que são dignos de morte os que praticam essas coisas (v. 32).

    d) A revelação geral ajuda no entendimento da revelação especial. Com a revelação geral, os seres humanos estão mais aptos para receber e entender a revelação especial de Deus, que trata de aspectos específicos da salvação. Daí que nas atividades missionárias, por mais que as pessoas desconheçam o evangelho, normalmente elas já têm uma noção da existência de um ser divino e de sua relevância para a vida, e lhe oferecem culto e orações. O missionário não precisa começar o seu trabalho tentando mostrar que existe um ser divino, soberano. Disto as pessoas já têm consciência (cf. At 17.23). Só precisam agora ouvir e conhecer a verdade de Deus, mediante a revelação especial.

    C. Revelação Especial

    Revelação especial é a manifestação que Deus faz de si mesmo e de seus desígnios a certas pessoas, em determinados tempos e lugares, possibilitando a elas um conhecimento mais específico dele. Na revelação especial, Deus mostra aspectos da sua natureza e de seus planos que não são vistos na revelação geral, como, por exemplo, a unicidade divina, sua graça, seu plano de salvação. O principal propósito da revelação especial é a redenção do homem.

    1. Meios da revelação especial.

    A revelação especial foi dada por meio de fenômenos físicos especiais, fatos históricos, palavras inspiradas e, sobretudo, por meio de Jesus Cristo.

    a) Fenômenos físicos especiais. A Escritura testifica que Deus manifestou a sua presença poderosa e a sua glória por meio de fenômenos físicos que apresentavam aspectos especiais. Ele manifestou-se por meio de fogo (Gn 15.17; Ex 3.2), nuvens (Ex 19.9,16; 33.9; Sl 78.14; 99.7), trovões e relâmpagos (Ex 19.16), redemoinho (Jó 38.1; 40.6), ventos (Sl 18.10), brisa suave (1Rs 19.12, NVI). Nesses fenômenos havia algo de extraordinário que refletia a presença poderosa de Deus e chamava a atenção das pessoas. Normalmente, esses fenômenos vinham acompanhados de uma palavra da parte de Deus.

    b) Fatos históricos. Alguns fatos históricos, especialmente na histórica de Israel, davam testemunho da ação de Deus. O chamado de Abraão foi um desses acontecimentos de grande significado na revelação. As providências divinas na vida dele, de Isaque e Jacó, testificam do poder, do caráter e dos propósitos de Deus. Dos descendentes de Abraão, Deus formou o seu povo Israel a quem instruiu e constituiu como reino de sacerdotes e nação santa (Ex 19.6). O propósito divino para com Israel era, por meio dele, tornar-se conhecido de outros povos, e conduzi-los à salvação.

    Foi na história de Israel que Deus realizou os maiores feitos, como o livramento poderoso e miraculoso dos filhos de Israel da escravidão do Egito, as provisões divinas para a jornada do povo pelo deserto, a conquista da terra prometida, e também os constantes livramentos extraordinários que Deus proporcionou à nação de Israel sob o comando dos juízes e de reis.

    O cativeiro babilônico, toda a sua preparação, execução, e o retorno dos remanescentes, em tudo isto Deus também manifestou seu poder, seu caráter e seus propósitos para com o seu povo e a humanidade. Às vezes Deus agia de modo a manifestar a sua ira contra o povo, sujeitando-o a derrotas militares, calamidades e sofrimentos. Mas o propósito divino era sempre a redenção e a purificação do seu povo e da humanidade.

    c) Palavras proféticas. Os profetas de Israel constituíram o meio mais elevado de revelação divina antes de Cristo. O autor de Hebreus salienta este fato: No passado, por meio dos profetas, Deus falou aos pais muitas vezes e de muitas maneiras (Hb 1.1). Eles sintetizam toda a revelação do Antigo Testamento.

    A palavra profetas na Escritura às vezes é empregada em sentido mais amplo, abrangendo não apenas aqueles que oficialmente exerceram a função de profetas e cujas mensagens estão preservadas nos livros proféticos do Antigo Testamento, mas refere-se também outras pessoas que receberam revelação de Deus, tais como Abraão (Gn 20.7), Moisés (Dt 18.15,18; 34.10) e Davi (At 2.30).

    Os profetas de Israel tinham clara convicção de que Deus havia falado com eles, e de que eram portadores de uma mensagem de Deus para o povo (Jr 18.1; Ez 12.1,8,17,21,26; Os 1.1; Jl 1.1; Am 3.1). O modo de Deus falar com eles podia ser com voz audível ou um ouvir silencioso, interno, da mensagem divina. Muitas vezes a palavra de Deus aos profetas vinha associada com um sonho ou uma visão. Ouvi agora as minhas palavras: se houver um profeta entre vós, eu, o Senhor, me revelarei a ele em visão e falarei com ele em sonhos (Nm 12.6). Outros textos se referem a esse modo de Deus falar (1Sm 28.6; Is 6.1-8; Ez 1.1; Jl 2.28).

    Nas visões e sonhos, o Senhor mostrava a realidade que estava oculta, para que o profeta pudesse entender melhor o que Deus queria dizer. Mas, geralmente, o significado daquilo que eles viam ou sonhavam era explicado por Deus em palavras. As visões e sonhos preparavam a mente e o espírito do profeta para ouvir as palavras de Deus, que podiam ser ouvidas nas próprias visões e sonhos: falarei com ele em sonhos.

    Por meio dos profetas Deus falou acerca da sua vontade e dos seus planos para com o seu povo e a humanidade. Esses planos incluíam eventos futuros que foram anunciados previamente por eles. O principal acontecimento futuro anunciado pelos profetas do Antigo Testamento foi a vinda do Messias e a redenção da humanidade por meio dele.

    d) Jesus Cristo. Jesus Cristo é a suprema revelação de Deus para a humanidade. Nele e por ele a revelação divina atingiu o seu ponto mais elevado e final. Todas as formas anteriores de revelação tiveram sua expressão máxima em Cristo. Nele e por meio dele Deus falou conosco nestes últimos dias (Hb 1.2).

    Jesus Cristo é a manifestação perfeita de Deus. Ele mesmo afirmou: Quem vê a mim, vê o Pai (Jo 14.9). O autor de Hebreus diz: Ele é o resplendor da sua glória [de Deus] e a representação exata do seu Ser (Hb 1.3). Na mesma linha de pensamento, Paulo afirma: Ele é a imagem do Deus invisível (Cl 1.15), e nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl 1.19; 2.9).

    Significa que a pessoa de Jesus reflete perfeitamente quem Deus é, ou seja, um ser pessoal, santo, justo, bom e verdadeiro, poderoso e redentor da humanidade. As ações de Cristo representam o agir de Deus entre nós. A conduta de Jesus, como o Filho do homem, nos diz como Deus quer que nós vivamos: uma vida marcada por atos de bondade e de obediência a Deus. As palavras e os ensinos de Jesus são as palavras de Deus mesmo para nós.

    Jesus Cristo, então, é a última e a mais completa revelação de Deus para nós. Nada pode ir além do que Cristo já revelou. Sua encarnação, morte e ressurreição constituem o maior evento histórico da revelação. Sua pessoa e suas palavras cumprem e completam as palavras proféticas. Ele não trouxe apenas uma palavra de Deus, porque nele Deus mesmo veio a nós, Emanuel, Deus conosco (Mt 1.23). Nele e por meio dele os maiores milagres foram realizados. Portanto, todos os meios da revelação especial alcançaram o seu ponto mais alto em Cristo.

    2. A continuação da revelação em Cristo.

    Jesus Cristo revelou o Pai e seus desígnios mais diretamente aos apóstolos, que conviveram com ele. Mas os apóstolos ainda precisaram do auxílio do Espírito Santo para melhor compreender a revelação trazida por Cristo. Então, depois de cumprir a

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