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Escravismo e abolição no Rio Grande do Sul
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Escravismo e abolição no Rio Grande do Sul
E-book294 páginas3 horas

Escravismo e abolição no Rio Grande do Sul

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Sobre este e-book

O presente livro propõe-se a discutir, do ponto de vista político, questões relativas ao período que antecedeu a abolição da escravatura no Rio Grande do Sul.
Para melhor entender esse período próximo à abolição, recorreu-se ao pensamento de Antonio Gramsci (1891-1937), cujas ideias começaram a circular no Brasil em meados da década de sessenta do séc. XX, época em que se iniciaram as pesquisas para a realização deste livro. De forma sistemática, acadêmica, o livro procura levar o leitor aos jornais de época que registraram os protestos, por vezes silenciosos, mas sempre ativos, do povo negro contra a escravidão, bem como a atitude de políticos de diferentes partidos que buscavam, com a defesa dessa causa, tirar proveito, mormente de caráter político, o que, de certa forma, comprova o que Lilia Moritz Schwarcz vem afirmando em suas relevantes pesquisas: "Todo brasileiro se sente uma ilha de democracia racial cercada de racistas"
IdiomaPortuguês
EditoraEDUEL
Data de lançamento28 de nov. de 2018
ISBN9788572169714
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    Escravismo e abolição no Rio Grande do Sul - Margaret Marchiori Bakos

    REFERÊNCIAS

    PREFÁCIO

    O cancro roedor que amesquinha as nossas glórias: o processo abolicionista e os partidos gaúchos

    Este livro, ao qual tenho a honra de prefaciar a segunda edição, é um clássico da historiografia nacional. Publicado seis anos antes das comemorações que pensaram criticamente o centenário da Lei Áurea, de certa forma este livro antecipou várias das questões que nortearam a renovação da historiografia sobre a sociedade escravista. A primeira edição deste livro foi publicada em 1982, momento em que o campo acadêmico sentia a gradual redemocratização que ocorria na sociedade brasileira. Não à toa, o volume integrou a Série Documenta, publicação a cargo da editora Mercado Aberto, que investiu em livros autorais e coletâneas que apontavam desdobramentos teóricos e temáticos de um meio universitário que se desprendia do regime militar.

    Como se sabe, nas últimas décadas, a pesquisa histórica teve nos programas de pós-graduação um espaço fértil para o desenvolvimento de investigações autônomas, contestadoras de formas conservadoras de pensamento, fortemente enraizadas na sociedade brasileira. Este trabalho, ora novamente publicado, é fruto dessas inspirações (ou aspirações) democráticas e um dos primeiros produtos desse fértil campo ainda embrionário naquele período, os Programas de Pós-Graduação em História (PPGHs). Conforme escreveu Xavier (2007, p. 39-40),

    Se entre 1970 e 1980, por exemplo, tivemos em nosso banco de dados o registro de nove dissertações e teses, depois elas se expandiram muito, de 1990 a 2006, temos o registro de sessenta e quatro. Esse crescimento, naturalmente, acompanhou a proliferação de artigos publicados em revistas acadêmicas e a participação em congressos. Assim, a história da escravidão e do pós-abolição reafirmou-se como um dos temas mais renovadores de nossa historiografia. Os números impressionam. Do final do século XIX até 1920 foram registradas 14 referências. Da década de 1930 a 1940, temos 45 títulos. Da década de 1950 a 1970, esse número já pula para 65 e, na década de 1980, já seriam 114. De 1990 até 2006, os números são, pois, de nos deixar estupefatos, por somarem 613 referências.

    Assim, o livro RS: escravismo e abolição, de Margaret Marchiori Bakos, faz parte daquele movimento de renovação dos atores e cenários da produção historiográfica (MONTEIRO, 2006, p. 331), de uma cena intelectual que procurava se desprender do engessamento provocado pelo autoritarismo das últimas décadas. O caminho teórico-metodológico escolhido foi o da perspectiva gramsciana, percebendo os jornais como porta-vozes dos posicionamentos das classes dominantes, tomando como marco cronológico preferencial (mas não único) a década final da vigência do escravismo (1878-1888).

    Muitos jovens historiadores não devem recordar, mas não muitos anos atrás, raros pesquisadores dialogavam com as autorrepresentações europeizantes veiculadas orgulhosamente sobre o nosso estado sulino. Historiadoras como Margaret Bakos inauguraram essa obstinada empreitada acadêmica de combate à invisibilidade da presença negra na história do Rio Grande do Sul e também do mito da escravidão mais branda.

    Para evidenciarmos a vinculação deste livro com as demandas sociais e raciais do período, parte delas veiculadas através dos movimentos negros que emergiam dentre a sociedade civil organizada, podemos notar a presença da revista O Tição entre os suportes das argumentações da autora. Lançada em Porto Alegre, no ano de 1978, essa revista foi um marco das tentativas de desmistificação da democracia racial brasileira:

    Concomitante à reorganização das entidades negras, registrou-se a volta da imprensa negra. Alguns dos principais jornais desse período foram: SINBA (1977), Africus (1982), Nizinga (1984), no Rio de Janeiro; Jornegro (1978),41 O Saci (1978), Abertura (1978), Vissungo (1979), em São Paulo; Pixaim (1979), em São José dos Campos/SP; Quilombo (1980), em Piracicaba/SP; Nêgo (1981), em Salvador/BA; Tição (1977), no Rio Grande do Sul, além da revista Ébano (1980), em São Paulo (DOMINGUES, 2007, p. 100).

    Bakos denunciou a farsa abolicionista das alforrias condicionais da nossa pretensa abolição antecipada de 1884, além de, em alguns momentos, extrapolar a ação partidária das elites, dando voz à agência escrava, como quando chama a atenção para a militância dos negros reunidos na Irmandade do Rosário de Porto Alegre. Aliás, a pormenorizada descrição do processo abolicionista feito pela autora, no decênio final do escravismo brasileiro, assemelha-se a uma crônica histórica das ações e dos posicionamentos dos partidos políticos envolvidos. Empolgados com suas próprias ações, descritas verborragicamente como humanitárias e destituídas de qualquer vaidade pessoal, os jornais prestavam dezenas de homenagens públicas aos seus libertadores correligionários. Nomes de senhores benfeitores desfilavam pelas páginas dos jornais diários, em um cínico autoelogio, que até mesmo para alguns contemporâneos soava excessivo. O Século, em 17 de agosto de 1884, pedia mais cuidado e critério na escolha dos nomes dos generosos senhores publicizados nos periódicos, já que alguns deles não tinham um gato sequer para libertar, quanto mais um homem. Assim, gralhas enfeitavam-se com penas de pavão!

    A análise do abolicionismo pelo viés político-partidário feito pela autora valoriza a ideologia positivista, que teria servido de substrato do pensamento republicano local e base das análises justificadoras da emancipação gradual. Defendendo que a raça negra era superior à branca em sentimentos e inferior em termos de inteligência, os republicanos castilhistas defendiam o fim do escravismo, ao mesmo tempo que propugnavam a hegemonia das classes inteligentes (e pelo menos socialmente brancas).

    Apresentar a autora deste livro é atividade carente de necessidade, pois trata-se de profissional sobejamente conhecida e reconhecida. Ao longo de sua trajetória acadêmica, Margaret orientou 43 dissertações de mestrado e 14 teses de doutorado, além de ter supervisionado estágios de pós-doutoramento. Ela publicou 59 artigos, 25 livros e 39 capítulos, voltados para temáticas diversas. Através de suas pesquisas, mas também das provocações que semeou entre os seus orientandos e alunos, Margaret abriu veredas e descobriu atalhos que fizeram avançar a historiografia regional e nacional. Sempre profissional, simpática, generosa e discreta, é com indisfarçável orgulho que dizemos que fomos seus alunos.

    Paulo Roberto Staudt Moreira

    (Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Professor na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. Contato: moreirast@terra.com.br).

    APRESENTAÇÃO À SEGUNDA EDIÇÃO

    O sequestro de africanos ao continente americano foi marcado pelo primeiro grupo que chegou ao Caribe, em 1518, com apoio da coroa espanhola. Em Portugal, a realeza também legalizou o tráfico, e os primeiros africanos chegaram às costas brasileiras em 1551. A partir desse ano, indo até o final do século XIX, cerca de 40% dos dez milhões de africanos arrancados da África desembarcaram em portos brasileiros. Longe da terra natal, depois de cruzarem os mares em agonia profunda, aglomerados em jaulas como animais, os africanos traziam consigo um sentimento de raiva, com planos de fuga, e sempre em posição defensiva (ORTIZ, 1983). Eles formaram uma corrente contínua humana, de etnias e culturas diversas em conjunto com seus descendentes e, apesar dos sentimentos contrários, tiveram que ajustar-se a um fabuloso sincretismo de culturas europeias e de outras origens que, ao longo de quatro séculos, aconteceu no Novo Mundo.

    Contar a história do processo abolicionista é falar sobre o papel dessas pessoas, que foi o de minar o servilismo imposto, no processo de trânsito de uma cultura para outra. É narrar sobre as múltiplas reações físicas e emocionais deles, a partir da amputação social sofrida. É buscar em cada africano, em particular ou em grupo, a sua participação no caminho, de todos, à liberdade. Entretanto, isso seria insuficiente para explicar o processo histórico e para valorizar o importante papel deles no processo abolicionista do Rio Grande do Sul. Para isso, é preciso, em primeiro lugar, mostrar quais eram as forças poderosas que enfrentaram e que sustentavam o escravismo, reveladas pelas ações coercivas, mas, principalmente, pelos discursos abolicionistas.

    APRESENTAÇÃO À PRIMEIRA EDIÇÃO

    O tráfico de escravos negros da África para o Brasil realizou-se incessantemente do século XVI ao XIX (BETHELL, 1976), contribuindo para a formação, no país, de um sistema de produção escravagista colonial, dependente do mercado de consumo europeu.

    Nos primórdios do século XIX, desenvolveu-se um movimento internacional de combate à escravidão, liderado pela Inglaterra, que visava imediatamente proibir o tráfico negreiro e condenar, a médio e/ou longo prazos, a instituição. O fato acarretou modificações estruturais no modo de produção empregado, até então, nas Antilhas, no sul dos Estados Unidos, em certas regiões da América Espanhola e no Brasil. Em cada um desses locais, a desagregação da ordem escravocrata apresentou características peculiares, manifestando-se sob a forma de revolução ou de lenta evolução, ou até mesmo de guerra civil (CARDOSO, 1979).

    A reformulação do modo de produção brasileiro vem recebendo significativa atenção dos estudiosos, não apenas no que se refere ao seu aspecto econômico, mas também no que concerne aos aspectos de ordem jurídica, política, administrativa e cultural que apresenta.

    Robert Conrad publicou, em 1977, uma revisão bibliográfica sobre o assunto, apresentando cerca de 250 obras. Jacob Gorender (1978), em O Escravismo Colonial, realizou uma crítica minuciosa à metodologia adotada na historiografia nacional e estrangeira que aborda a escravidão e o abolicionismo no Brasil. Esse autor desenvolveu, em sua obra, um trabalho semelhante ao já apresentado por Maria Stella Martins Bresciani na XXV Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, no Rio de Janeiro, em julho de 1973 (BRESCIANI, 1976).¹

    Pelo conjunto de obras arroladas nos trabalhos anteriormente citados, percebe-se a importância que tem sido dada ao estudo do processo abolicionista nas províncias de economia basicamente açucareira ou cafeicultora. As historiografias regionais, nesses casos, oferecem uma gama variada de estudos que exploram os aspectos super e infraestruturais do problema. Há outra dezena de obras que referem os aspectos específicos da desagregação da ordem escravocrata nas demais províncias brasileiras.²

    Quanto ao caso rio-grandense, no entanto, há poucas pesquisas publicadas sobre o assunto. Entre todas, destaca-se a obra de Fernando Henrique Cardoso (1977), autor que tem como mérito maior ser o pioneiro em desmitificar a decantada democracia racial gaúcha.³ A obra fornece subsídios históricos que estabelecem a trajetória do escravo no modo de produção sulino; sua participação em charqueadas, estâncias e centros urbanos, sob condições de trabalho desumanas, coagido por mecanismos de controle social inerentes à escravidão. Cardoso demonstra também que, em finais do século XIX, o escravo não era utilizado como mão de obra fundamental no Rio Grande do Sul, o que permitia a sua libertação sem danos à economia provincial. O sociólogo explica que a incorporação do liberto à formação social sulina foi um processo doloroso, ainda não acabado devido ao despreparo do negro diante da concorrência da mão de obra branca, melhor capacitada tecnicamente.

    Robert Conrad (1975), em Os Últimos Anos da Escravatura no Brasil, estabelece uma comparação entre o processo abolicionista desenvolvido no Rio Grande do Sul e nas demais províncias. O autor julga ter havido na Província, ao longo da campanha antiescravagista, menos idealismo do que no Amazonas e no Ceará. Essa conclusão representa, efetivamente, a maior contribuição de Conrad à historiografia regional.

    Além dessas obras, muitas outras poderiam ser apontadas, especialmente recentes estudos econômicos,⁴ embora abordem superficialmente o problema escravo no Sul. No entanto, observa-se que em quase todas há uma tendência em repetir as conclusões de Cardoso. Em verdade, Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional: o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul (CARDOSO, 1977)⁵ é uma pesquisa que cobre um largo período de tempo da história rio-grandense, tendo seu autor examinado exaustivamente a bibliografia (na sua grande maioria de cunho idealista ou positivista) existente sobre o assunto, que compreende também coleções de jornais do século XIX.⁶

    Todavia, as pesquisas realizadas até agora sobre a abolição da escravatura no Rio Grande do Sul são ainda insuficientes para que se forme um quadro referencial completo do processo ocorrido. Acredita-se que a inexistência, até o momento, de novos estudos específicos encontra sua explicação na pouca divulgação de dados estatísticos que comprovem a importância do escravo no modo de produção gaúcho (LANDO; BARROS, 1980). O fato gera o descaso pelo processo de transformação do sistema servil em livre e o consequente processo dialético que o acompanha, ou seja, o jogo de interesses ideológicos dos grupos dominantes na questão.

    O interesse por esse aspecto da abolição no Rio Grande do Sul, que esta obra se propõe a examinar, foi despertado por uma citação de Cardoso (1977, p. 222), que afirma ter predominado na Província, no decorrer do abolicionismo, o aspecto de pura ideologia de mascaramento das coisas. Foi, sem dúvida, um movimento político que visava reconstituir o Brasil sobre o trabalho livre (p. 222).

    A partir do conceito de Adam Schaff (1974, p. 176), que define ideologia como um conjunto de pontos de vista que determinam atitudes dos homens, ou seja, a sua disposição para adotar certos comportamentos em situações determinadas, bem como o seu comportamento efetivo nas questões sociais, busca-se, aqui, identificar, no ideário republicano rio-grandense, as raízes do posicionamento radical que o partido assume diante da questão servil. Acredita-se que o posicionamento dos republicanos gaúchos, ao solicitar a libertação imediata e incondicional da escravatura rio-grandense, reflete a influência do grupo da doutrina de Comte, contrário à escravidão (BOEIRA, 1980a, 1980b).

    O estudo do aspecto político-ideológico do processo abolicionista rio-grandense, no entanto, esbarra na problemática constituição dos partidos políticos brasileiros no II Império. Buscando conceituar partido político, Darcy Azambuja, baseado em Duverger, julga a agremiação partidária como um fenômeno nascido no século XVIII, tendo crescido de importância juntamente com o poderio dos parlamentos e com a tendência a universalizar o voto. O autor define os partidos como agremiações voluntárias cujos elementos tendem a conquistar o poder com vistas a realizarem determinadas ideias, contidas em um programa largamente difundido entre as camadas populares (AZAMBUJA, 1964). Contudo, Nelson Werneck Sodré alerta para as dificuldades de caracterizarem-se os partidos monárquicos, tendo em vista conceitos rígidos, em razão da impossibilidade de atribuir-lhes uma divisão nítida de ideais, de sorte a torná-las fixadas em partidos antagônicos (SODRÉ apud CRUZ COSTA, 1967, p. 123).

    Um dos momentos da história nacional em que mais se percebe a desorientação ideológico-partidária das agremiações políticas é no decorrer do encaminhamento político da questão servil. Segundo Luiz da Câmara Cascudo (1945, p. 29), nessa conjuntura os dois partidos, liberal e conservador, eram lados dum ângulo reto, o Imperador significava o vértice.⁸ Boehrer (1954) sintetiza os contrastes entre os programas partidários liberais e conservadores que, consoante Cascudo, assemelham-se muito nas proposições apresentadas e nos atos praticados pelos correligionários:

    Esse grupo de liberais e conservadores nem sempre vivia conforme aos seus ideais. Pregando a reforma, os liberais quase nada faziam quando chegavam ao poder; os conservadores, empenhados em resistir às inovações, eram, freqüentemente, responsáveis por reformas básicas. Foram os conservadores, e não os liberais, que fizeram passar os três grandes projetos de lei de 1871, 1885 e 1888 sobre a abolição parcial, e completa, da escravidão. Em vista dessa situação, alguns começaram a pôr em dúvida o idealismo e a sinceridade dos dois partidos (BOEHRER, 1954, p. 24).

    Liberais e conservadores buscavam, na verdade, proteger a propriedade escrava, opondo-se às reformas que afetavam o direito de posse do senhor. Atitudes nesse sentido configuram-se ao longo do processo abolicionista que medeia entre 1878 e 1888 (BEIGUELMAN, 1973).¹⁰ Nessa conjuntura, já não era lícito confessar-se alguém, sem desdouro, contrário à emancipação (HOLANDA, 1977, p. 123), embora esse fosse o desejo de muitos. Tal fato transparece nas discussões prolongadas em torno de projetos de reformas servis que, transformados em lei, revelam-se anódinos diante da magnitude do problema.

    A despeito do clima ambivalente e da aparente diversidade ideológica, a década de 1878-1888 constituiu-se em um momento histórico vital para o desencadeamento das mudanças estruturais que permitiriam ao Brasil tornar-se, como as demais nações americanas, uma república com o modo de produção baseado no trabalho livre, inserindo-se, sob novas perspectivas, no contexto internacional capitalista.

    A grandiosidade da transformação requereu um processo de elaboração interno da problemática, tanto em nível parlamentar quanto popular, até o momento em que se exigiram iniciativas decisivas: abolição da escravatura e proclamação da república. O processo de transformação, contudo, foi dificultado por incongruências partidárias e pela tendência ao personalismo dos políticos em evidência no país (HOLANDA, 1977).

    Alguns momentos da conjuntura abolicionista são de fundamental importância para esta obra, seja por terem repercutido intensamente no Rio Grande do Sul, seja por terem como participantes ativos políticos gaúchos que, ocupando cargos altamente representativos na Corte, tomaram parte nas decisões nacionais. Deve-se salientar que a Província Rio-Grandense, embora não tenha baseado sua economia na monocultura, fundada no escravagismo – como as províncias açucareiras e cafeiculturas –, também necessitou, ao longo de sua história, de grandes contingentes de mão de obra escrava. Em certos momentos de sua história, a Província contava com um número elevado de escravos, que representavam cerca de um terço de sua população total, espalhados em atividades diversas, no campo e na cidade.¹¹

    Artigos e anúncios de jornais do século XIX denunciam práticas de mecanismos de controle social próprias do sistema escravagista brasileiro pleno, considerando-se como tal o inerente às províncias monocultoras dependentes totalmente do trabalho escravo. Tais formas de relações sociais evidenciam a tentativa dos gaúchos de preservarem a ordem escravocrata, revelando a importância atribuída à mão de obra servil. A resposta do negro aos rigores senhoriais também em nada difere da reação da escravaria no restante do país, manifestando-se pela formação de quilombos, violência pessoal e fugas isoladas dos locais de trabalho.

    A partir da segunda metade do século XIX, além das charqueadas e da criação de gado, iniciou-se uma progressiva diversificação na economia regional, baseada no trabalho livre, com vistas a atender às necessidades de gêneros alimentícios das zonas cafeicultoras. Isso permitiu a formação de um setor na economia regional independente, basicamente, do escravo para se manter. A situação não se configurou plenamente no primeiro momento, porém determinou as condições que levaram ao desprestígio o escravagismo no Rio Grande do Sul. Não obstante essa situação, a escravidão manteve-se na Província, embora, em grande parte, mascarada por milhares de libertações feitas mediante a cláusula de prestações de serviços dos ex-escravos para os senhores. Os contratos conferiam juridicamente ao escravo a condição de livres, mas, na prática, estes eram obrigados ao trabalho servil por prazos que iam até sete anos.

    Assim, pergunta-se: qual o motivo dessa resistência à abolição? Esta obra, portanto, objetiva o estudo de um período dado dentro do processo abolicionista brasileiro, o que se inicia com a formação do Gabinete Liberal de Sinimbu. O Gabinete Liberal inaugurou um período da história nacional a partir do qual será rara a composição de um ministério que não conte com a participação de um político gaúcho. Tornou-se costume, também, atentar-se, nas decisões parlamentares, para a conveniência de ‘contentar o Rio Grande’ (HOLANDA, 1977, p. 23). O ano de 1878 é importante porque determina o início de um movimento abolicionista na Corte, movimento que repercute intensamente nas províncias.

    O Ministério seguinte, nas palavras de Beiguelman, já encontrou a campanha abolicionista em andamento. José Antônio Saraiva, na Presidência, declarou não cogitar a questão servil, dedicando-se à realização de uma reforma eleitoral (BEIGUELMAN, 1973). De fato, a 9 de janeiro de 1881, conseguiu a aprovação da nova lei, que concedia, entre outros itens, a liberdade civil aos acatólicos, aos que tivessem alcançado a maioridade civil, aos libertos e aos naturalizados (HOLANDA, 1977, p. 240).

    As discussões em torno do projeto de reforma eleitoral, que terminaram por constituir o núcleo central da Lei Saraiva, repercutiram intensamente no Rio Grande do Sul, ocasionando uma cisão partidária entre os liberais. Formaram-se, na Província, dois grupos: o primeiro apoiava Osório, que, na Corte, manifestava-se contra a concessão da liberdade civil aos acatólicos no momento; o segundo apoiava Gaspar da Silveira Martins, que sustentava o direito de os grupos de religiões diferentes participarem imediatamente da vida política brasileira. Dessa forma, pretendia resolver a situação dos imigrantes rio-grandenses, na sua maioria protestantes.¹²

    O fato assumiu

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