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A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes

A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes

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A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes

Comprimento:
327 página
7 horas
Lançado em:
Mar 7, 2019
ISBN:
9788574924540
Formato:
Livro

Descrição

Este livro destaca-se na obra de Dostoiévski por representar uma de suas faces mais surpreendentes como escritor: o prosador satírico, criador de personagens e narrativas cômicas e patéticas.
Ambientado numa propriedade rural do interior da Rússia, A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes narra as intrigas e confusões que se dão na convivência de uma família cercada por estranhos agregados e parasitas. No centro dos acontecimentos está Fomá Opískin – com um passado de bufão da corte, mas com a pretensão de ser considerado um grande pensador – dominando a todos com seus caprichos e excentricidades.
Com um estilo diferente daquele apresentado em outras obras, o grande autor de Crime e castigo revela, nesta narrativa, a atormentada alma humana por meio do humor e da sátira mordaz, constituindo, assim, a matéria-prima para a construção de alguns de seus personagens mais emblemáticos.
Lançado em:
Mar 7, 2019
ISBN:
9788574924540
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do Livro

A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes - Fiódor Dostoiévski

Titulo original: Cieló Stiepântchikov i ievó inabitant

© Copyright, 2001. Editora Nova Alexandria Ltda.

2010 - Edição em conformidade com a nova ortografia

Todos os direitos reservados à

Editora Nova Alexandria Ltda.

Av. Dom Pedro I, 840

01552-000 - São Paulo - SP

Fone/Fax: 11 - 2215-6252

Email: novaalexandria@novaalexandria.com.br

site: www.novaalexandria.com.br

Revisão: Alexandra Costa e Carla de Melo Moreira

Revisão da segunda edição: Thiago Lins

Layout da capa: Lúcio Kume

Editoração eletrônica: Suzete J. da Silva

ISBN 978-85-7492-216-4

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

D762a

Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881

A Aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes / Fiódor Dostoiévski / tradução de Klara Gourianova - São Paulo / Nova Alexandria, 2010

240 p.

Tradução de: Cieló Stiepântchikov i ievó inabitant

Texto integral

1. Romance russo. I. Gourianova, Klara. II. Título.

09-6524 CDD: 891.73

CDU: 821.161.1-3

21.12.09 29.12.09 016924

Sumário

APRESENTAÇÃO 7

Primeira Parte 10

I - Introdução 12

II - O Senhor Bakhtchéiev 34

III - Meu Tio 52

IV - Na Hora do Chá 69

V - Iejevíkin 82

VI - Do Touro Branco e do Mujique Komárinslú 97

VII - Fomá Fomitch 106

VIII - Declaração de Amor 124

IX - Vossa Excelência 132

X - Mizíntchikov 148

XI - Pasmaceira Total 164

XII - A Catástrofe 178

Segunda e última parte 186

I - A Perseguição 188

II - Novidades 205

III - O Dia do Santo de Iliucha 211

IV - A Expulsão 223

V - Fomá Fomitch faz a Felicidade Geral 236

VI - Final 255

APRESENTAÇÃO

O PECULIAR HUMOR DE DOSTOIÉVSKI

Os leitores de Dostoiévski, acostumados a temáticas como o temor ao pecado e a expiação da culpa – marcantes nas obras mais conhecidas do grande escritor russo – farão agora uma descoberta surpreendente: o livro A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes, cujo estilo, enredo e personagens são exemplares da melhor literatura satírica produzida em todos os tempos.

O livro – que recebeu tradução direta do russo, num significativo trabalho de Klara Gouriánova – foi escrito dez anos após a volta de Dostoiévski do exílio na Sibéria. O autor queria marcar seu retorno ao mundo literário e, portanto, decidiu escrever uma obra deliberadamente distinta das escritas até então.

Ambientado numa propriedade rural do interior da Rússia, o romance narra as intrigas e confusões que se dão na convivência de uma família cercada por estranhos agregados e parasitas. O protagonista é Fomá Fomitch, que, por muitos anos, serviu na casa do general Krakhótkin como um simples agregado, em busca de nada mais nada menos que um pedaço de pão.

Após uma série de humilhações e depois da morte do general, ocorre uma reviravolta: a viúva – chamada de generala –, que tinha pelo bufão uma espécie de veneração mística, fará dele seu protegido, elevando-o à condição de fidalgo, em desfavor de seu próprio filho, o coronel Rostaniov, tio de Serguei, narrador e personagem da história.

De humilhado e ofendido a opressor, Fomá exercerá seu jugo sobre tudo e todos. Sua forma de agir poderá despertar repulsa, mas, contraditoriamente, ele se mostra, por vezes, simpático. Mero jogo de aparência para manter o poder conquistado sobre o cada vez mais submisso coronel Rostaniov, que faz vistas grossas ou aceita, resignado, caprichos e excentricidades, como ensinar duvidosas lições de francês e astronomia aos camponeses.

A aldeia de Stiepântchikov acaba por se revelar um microcosmo da opressora Rússia czarista, com economia baseada em uma agricultura rudimentar ao mesmo tempo em que seus fidalgos falavam francês e imitavam a moda daquele país. A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes, com suas personagens caricatas, clima denso e soluções inusitadas, é, na definição do jornalista Paulo Moura, uma leitura da qual não se sai ileso: Engraçado na superfície, o livro torna-se claustrofóbico e angustiante ao jogar com personagens solitários, que lutam desesperadamente para se afirmar como indivíduos.

Com referências evidentes a outro grande escritor russo satírico e genial, Nicolai Gogol, o autor de Crime e Castigo e Irmãos Karamázov cria neste livro a sua galeria de situações estranhas e paradoxais, para exercer com humor e sarcasmo sua crítica à sociedade e à moral de seu tempo, forjando, assim, a matéria prima para muitos de seus personagens emblemáticos.

Primeira Parte

I - Introdução

Meu tio, o coronel Iegor Ilitch Rostaniov, ao se reformar, mudou-se para Stiepântchikov, aldeia que recebera de herança e nela passou a viver como se fosse um senhor de terras que nunca saíra de suas propriedades. Há pessoas que se contentam com tudo e a tudo se adaptam; assim era a índole do coronel reformado. Seria difícil imaginar um homem mais pacato e mais prestativo. Se inventassem de pedir, brincando, que carregasse alguém nos ombros por um percurso de duas verstas, possivelmente ele teria carregado: era tão bom que estava pronto a dar qualquer coisa ao primeiro pedido e a dividir até a última camisa com o primeiro que necessitasse. Tinha aparência de um atleta: alto e esbelto, faces coradas, dentes brancos como marfim, bigode castanho comprido, voz forte e sonora. Ria às gargalhadas, falava rápido e entrecortado. Nessa época ele tinha uns quarenta anos. Praticamente em toda sua vida servira como ­hussardo — desde os dezesseis anos. Casara-se muito jovem, amara loucamente sua mulher, mas ela falecera, deixando nele uma indelével lembrança de gratidão. E, ao herdar a aldeia de ­Stiepântchikov, que aumentou seu patrimônio em até seiscentos servos da gleba, deixou o serviço militar e, como já foi dito, instalou-se no campo junto com seus filhos: Iliucha, de oito anos, cujo nascimento custara a vida de sua mãe, e a filha mais velha, Sáchenka, menina de quinze anos, que, após a morte da mãe, foi para um colégio interno em Moscou. Mas logo a casa de meu tio virou uma arca de Noé. Eis como isso aconteceu.

Há dezesseis anos, quando recebeu a herança e se afastou do serviço militar, sua mãe, a generala Krakhótkin, enviuvou. Meu tio ainda era alferes da cavalaria, porém já com pretensões de casar e ­formar a própria família quando sua mãe se casou em segundas ­núpcias com o general. Ela não lhe dava sua bênção para o ­casamento, derramava lágrimas de amargura, repreendia-o pelo egoísmo, ingratidão e falta de respeito; tentava persuadi-lo de que sua propriedade, mesmo com duzentas e cinquenta almas, mal sustentava sua família (isto é, a mamãe e toda a corte de agregados, cachorrinhos de estimação, gatos da China etc.), e no meio dessas censuras, reprimendas e gritos histéricos, de súbito e para surpresa total, casou-se ela própria, antes das bodas do filho, tendo já seus quarenta e dois anos. Aliás, ela usou seu próprio casamento como mais um pretexto para acusar meu pobre tio, asseverando ter se casado unicamente para garantir um abrigo em sua velhice, o que seu filho, irreverente e egoís­ta, negava-lhe, intentando uma petulância imperdoável: montar a própria casa.

Jamais consegui saber o verdadeiro motivo que levara uma pessoa aparentemente tão ponderada como o general Krakhótkin a esse casamento com uma viúva de quarenta e dois anos. É de se supor que ele a imaginava cheia de dinheiro. Alguns pensavam que ele simplesmente precisava de uma babá, porque já naquele tempo pressentira todo o enxame de doenças que iria assediá-lo na velhice. Sabe-se de certo que o general desprezava profundamente sua mulher durante todo o convívio e caçoava dela aproveitando cada ocasião. Era uma pessoa estranha. De pouca cultura, mas nada tolo, desprezava todos, não tinha normas de conduta em absoluto, zombava de tudo e de todos e, com a idade avançada, por causa das doenças decorrentes do modo de vida não muito regrado nem muito justo, tornou-se maldoso, irritadiço e impiedoso.

Seu serviço militar foi bem-sucedido, porém, um caso desagradável obrigou-o a pedir reforma, perdendo sua aposentadoria e escapando por pouco de um processo judicial. Isso definitivamente deixou-o exacerbado. Quase sem meios de vida, possuindo apenas uma centena de almas desunidas, cruzou os braços e durante seus últimos doze anos de vida nunca indagou do que vivia nem quem o sustentava; entretanto, exigia todo o conforto, não reduzia os gastos e mantinha uma carruagem. Logo viu-se privado do uso das pernas e os dez anos restantes passou acomodado na cadeira de balanço movida, quando necessário, por dois lacaios enormes que jamais ouviram dele nada além das mais variadas injúrias. A carruagem, os lacaios e a cadeira de balanço foram pagos pelo filho irreverente, que mandava para sua mãe os últimos recursos que possuía, empenhando inúmeras vezes sua propriedade, privando-se do mais necessário, contraindo dívidas que certamente não poderiam ser pagas por causa das dificulda­des daquela época, mas mesmo assim, o título de filho egoísta e ingrato permanecia imutável. Mas o caráter do meu tio era tal que ele mesmo acabou acreditando que era egoísta e por isso, para deixar de sê-lo e para se castigar, mandava cada vez mais dinheiro. A generala tinha um profundo respeito por seu marido. Aliás, o que mais a agradava era o fato de ele ser general e ela — generala, junto a ele.

Metade da casa era para uso dela. Lá, durante toda a existência do marido inválido, prosperava em companhia das agregadas, le­va e traz e devotas. Em sua cidadezinha ela era uma pessoa importante. As fofocas, os convites para ser madrinha de batismo ou de casamento, o jogo de cartas a vinténs e o respeito geral a seu generalato compensavam-lhe plenamente os embaraços domésticos. As maritacas da cidade apareciam em sua casa trazendo relatórios, os melhores lugares sempre e em toda parte destinavam-se a ela; em uma palavra, tirava do seu generalato todo o proveito que podia. O general não se intrometia nessas coisas, mas na presença de outros achincalhava a mulher, perguntando-se, por exemplo: para que é que ele foi se casar com essa fazedora de hóstia, e ninguém se atrevia a dizer nada contra. Pouco a pouco todos os seus conhecidos abandonaram-no; no entanto, ele precisava de companhia: gostava de bater papo, de discutir, gostava de ter sempre diante de si alguém que o escutasse. Era livre-pensador e ateu à moda antiga, e por isso adorava discorrer também sobre altas matérias.

Mas os ouvintes da cidadezinha de N* não apreciavam as altas matérias e rareavam cada vez mais as visitas. Tentou organizar em casa partidas de whist-préférence, mas para o general o jogo costumava acabar em tamanha crise de nervos que a generala e suas agregadas, apavoradas, acendiam velas, cantavam te-deuns, deitavam as cartas ou as favas, iam ao cárcere para distribuir pães, e com tremor aguardavam a hora após o almoço, quando tinham de jogar a partida de whist-préférence e a cada erro receber gritos histéricos, injúrias e quase pancadas. Quando alguma coisa não era do seu gosto, o general não se envergonhava diante de quem quer que fosse: gritava agudo como uma mulher, xingava como um cocheiro e, às vezes, rasgando as cartas e jogando-as no chão, enxotava seus parceiros e até chorava de desgosto e de raiva simplesmente por causa de um valete que aparecia na mesa em lugar de um nove. Um dia, por causa da vista fraca, precisou de alguém que lesse para ele. Foi então que surgiu Fomá Fomitch Opískin.

Confesso que o anuncio com certa solenidade, pois Fomá Fomitch é, sem dúvida, um dos personagens mais importantes da minha história. Quanta atenção o leitor dará a ele não vou dizer: é mais conveniente e mais oportuno que o próprio leitor resolva essa questão. Fomá Fomitch apareceu na casa do general Krakhótkin como um simples agregado, em busca de nada mais nada menos que um pedaço de pão. De onde ele surgiu — está envolto nas trevas do mistério. Aliás, informei-me e soube algo sobre o passado dessa pessoa notável. A primeira coisa que diziam é que ele fora funcionário não se sabe onde e quando, que sofrera em algum lugar defendendo, naturalmente, a justiça. Diziam ainda que outrora de­dicara-se às letras em Moscou. Nisso não há nada de estranho, pois a ignorância crassa de Fomá Fomitch não poderia ser obstáculo para sua carreira literária. Mas com certeza sabe-se apenas que ele não conseguiu nada e que acabou sendo obrigado a trabalhar para o general na qualidade de leitor e de mártir. Não havia nenhum tipo de humilhação à qual não se submetesse para ganhar seu pão. A verdade é que mais tarde, após a morte do general, quando Fomá, inesperadamente, tornou-se uma figura importante e extraordinária, assegurava a todos nós que, concordando em fazer o papel de bobo da corte, sacrificou-se magnanimamente em prol da amizade: o general foi seu benfeitor, um grande homem, porém incompreendido, e que apenas a ele, Fomá, confessava os segredos recônditos de sua alma. E que se ele, Fomá, representara diversos bichos e alguns quadros vivos¹ a pedido do general, foi unicamente para divertir e alegrar seu amigo sofredor, desalentado pelos males. Mas neste caso, as afirmações e as interpretações de Fomá Fomitch despertam grandes dúvidas. Enquanto ainda se fazia de bufão, desempenhava um papel totalmente diferente na parte feminina da casa do general. Para um leigo em assuntos dessa natureza é difícil imaginar como ele conseguiu arranjar aquilo. A generala tinha por Fomá uma es­pécie de veneração mística. Por quê? Não se sabe. Pouco a pouco ele conseguiu exercer uma influência surpreendente sobre a metade feminina da casa. Em parte, essa influência parecia-se com a dos Ivan-Iakóvlevitches² e semelhantes sábios e profetas que são visitados nos manicômios por certas grã-senhoras, as diletantes. Fomá lia em voz alta livros que tratam da salvação da alma, com lágrimas eloquentes nos olhos falava das virtudes cristãs, contava sua vida e suas proezas, frequentava as missas, até as matinas. Predizia parcialmente o futuro, sobretudo sabia interpretar bem os sonhos e reprovava o próximo magistralmente. O general percebia o que estava aconte­cendo nos quartos dos fundos e tiranizava o seu comensal com crueldade ainda maior. Mas o martírio de Fomá fazia crescer por ele o respeito da generala e de todos os de casa.

Finalmente tudo mudou. O general morreu. Sua morte foi bastante original. O ex-livre-pensador e ateu acovardou-se incrivelmente. Ele chorava, reconhecia seus erros, levantava os ícones, chamou os sacerdotes. Celebraram a missa e ministraram a extrema-unção. O coitado gritava que não queria morrer e, com lágrimas nos olhos, até pedia perdão a Fomá. Posteriormente, esta circunstância propor­cionou a Fomá uma extraordinária importância. Aliás, pouco antes da alma generalícia se despedir do corpo generalício aconteceu outro fato inesperado: a filha do primeiro casamento da generala, minha tia solteirona Praskóvia Ilínichna, que sempre morou na casa do general e que foi uma de suas vítimas prediletas, além de lhe ser indispensável para constantes cuidados durante todos os dez anos de sua invalidez, a única que sabia agradá-lo com sua humildade simplória, chegou perto de sua cama, derramando lágrimas amargas e querendo ajeitar o travesseiro debaixo da cabeça do sofredor. Mas o sofredor aproveitou o momento, agarrou-a pelos cabelos e deu-lhe três puxões, espumando de raiva. Uns dez minutos depois ele morreu.

Comunicaram a morte ao meu tio coronel, embora a generala declarasse que não queria vê-lo, que preferia morrer a deixá-lo aparecer diante de seus olhos naquele momento. O enterro foi suntuoso, por conta, é claro, desse filho irreverente, que não queriam deixar aparecer diante dos olhos dela.

Na aldeia de Kniázev, levada à ruína, que pertencia a vários senhores de terras e na qual o general tinha uma centena de almas, existe um mausoléu feito de mármore branco, coberto de inscrições louvando a inteligência, os talentos, a nobreza de alma, as condecorações e o generalato do falecido. Fomá Fomitch participou ativamente da redação dessas inscrições. Durante muito tempo a generala fazia-se de rogada, recusando o perdão ao filho indócil. Rodeada de suas agregadas e de seus cachorrinhos, ela dizia, entre soluços e gritinhos, que preferia comer pão duro, regado, é claro, com suas lágrimas, que preferia andar com uma bengala, pedindo esmola debaixo das janelas, a aceitar o pedido do filho desobediente para morar com ele em Stiepântchikov, que nunca, nunca poria os pés na casa dele! Geralmente, as palavras os pés, usadas nesse sentido, são pronunciadas com grande efeito por certas senhoras. A generala falava com maestria, com arte… Em poucas palavras, a eloquência foi desperdiçada em quantidades fabulosas. É preciso notar que durante esses gritinhos, já devagarzinho estavam se fazendo as malas para a mudança. O coronel esfalfou todos os seus cavalos, viajando quase que diariamente umas quarenta verstas de Stiepântchikov até a cidade. E somente duas semanas depois do enterro do general ele recebeu a permissão para aparecer diante dos olhos da ofendida progenitora. Fomá Fomitch foi usado para as negociações. Durante essas duas semanas ele censurava e envergonhava o desobediente, chamava sua conduta de desumana, fazendo-o chorar e levando-o quase ao desespero. Justamente a partir daquele dia começou toda essa incompreensível, desumana e despótica influência de Fomá Fomitch sobre o meu pobre tio. Fomá sentiu que tipo de pessoa estava diante dele e em seguida entendeu que seu papel de bobo acabara e que em terra de cegos mesmo Fomá pode ser um fidalgo. E ele não perdeu por esperar.

— Como o senhor iria se sentir — dizia Fomá — se sua própria mãe, por assim dizer, a causa de vossos dias, pegasse uma bengala e, apoiando-se nela com as mãos trêmulas e ressecadas de fome, realmente fosse pedir esmolas? Isso não seria monstruoso, considerando, em primeiro lugar, sua importância generalícia e, em segundo, todas as suas virtudes? Como o senhor iria se sentir se de repente ela aparecesse — por engano, é claro, mas isso pode acontecer — diante de sua própria janela e estendesse a mão, enquanto o senhor, sangue de seu sangue, talvez nesse mesmo instante, estivesse se deliciando num colchão de penugem e… enfim, nadando em luxo? Que horror! Que horror! Mas o pior de tudo, permita-me dizer-lhe com toda a franqueza, coronel, o pior, de tudo é que agora o senhor está aqui na minha frente feito um poste insensível, boquiaberto e papando moscas, o que é até vergonhoso, enquanto numa mera suposição de uma situação semelhante o senhor deveria arrancar os cabelos e derramar lágrimas aos borbotões… o que estou dizendo!… derramar rios, lagos, mares, oceanos de lágrimas!…

Enfim, de tanto ardor, Fomá atrapalhou-se. Mas o desfecho de sua eloquência sempre foi assim. É evidente que a generala, junto com todas as suas amiguinhas, cachorrinhos, Fomá Fomitch e a donzela Perepelítsina, sua principal amiga, finalmente fizeram a felicidade de Stiepântchikov com a sua chegada. Ela dizia que ia experimentar morar na casa do filho, que por enquanto ia apenas testar sua deferência. Pode-se imaginar a situação do coronel enquanto estavam testando sua deferência! No começo, na qualidade de viúva recente, a generala considerava sua obrigação cair em desespero umas duas ou três vezes por semana ao lembrar-se do seu irrecuperável general e não se sabe por que o coronel pagava regularmente o pato a cada vez. Às vezes, principalmente durante a visita de alguém, a generala chamava seu neto, o pequeno Iliucha, e Sáchenka, sua neta de quinze anos, mandava-os sentar perto de si e olhava longamente para eles, como para crianças condenadas, com uma triste expressão de compaixão por terem um pai como este. Soltava um profundo e penoso suspiro e, finalmente, punha-se a derramar lágrimas silenciosas e misteriosas pelo menos por uma hora. Ai do coronel se não soubesse entender essas lágrimas! Ele, coitado, quase nunca conseguia entendê-las e, por ingenuidade, quase sempre aparecia justamente nesses momentos chorosos e, quisesse ou não, passava por um vexame. Porém, seu respeito não diminuía e, finalmente, chegou ao extremo. Isto é, ambos — a generala e Fomá Fomitch — convenceram-se totalmente de que a tempestade que retumbara sobre eles durante tantos anos, vinda da parte do general Krakhótkin, passou e não voltaria jamais. Acontecia que de repente, sem nenhuma razão, a generala caía no sofá desmaiada. Começava então uma correria, uma confusão. O coronel, aniquilado, tremia como vara verde.

— Filho cruel! — grita a generala ao recobrar os sentidos —, você dilacerou minhas entranhas… mes entrailles, mes entrailles!³

— Mas por que, mãezinha, eu ia dilacerar suas entranhas? — retrucava timidamente o coronel.

— Dilacerou! Dilacerou! E ainda se justifica! E diz grosserias! Que filho cruel! Estou morrendo!…

O coronel ficava aniquilado, evidentemente.

Mas acontecia, meio por acaso, de a generala acabar sempre ­ressuscitando.

Meia hora depois o coronel explicava para alguém, numa conversa ao pé do ouvido:

— Pois ela, compadre, é uma grande dame⁴ a generala! Uma velhinha boníssima; mas, sabe, está acostumada a todo aquele re­finamento… quem sou eu perto dela! Um bronco! Agora está zangada comigo. É claro, sou o culpado. Não sei ainda que falta exatamente cometi, mas, sem dúvida, sou o culpado.

Por vezes, a donzela Perepelítsina, uma criatura passada de idade e que chiava contra o mundo inteiro, sem sobrancelhas, cabelo postiço, olhos pequenos e lascivos, lábios finos como linha e mãos lavadas em salmoura para pepinos, achava seu dever pregar sermões no coronel:

— Tudo isso acontece porque o senhor falta com o respeito, porque o senhor é egoísta e é por isso que o senhor ofende sua mãe. Ela não está acostumada a essas coisas. Ela é generala e o senhor ainda é apenas coronel.

— Essa donzela Perepelítsina, compadre — observava o coronel a seu interlocutor —, é uma moça excelente! Uma moça rara! Defende mamãe com todo seu zelo. Não pense que ela é uma agregada qualquer, ela mesma é filha de um tenente-coronel, meu caro. É isso aí.

Mas o pior ainda estava por vir. A mesma generala, que sabia fazer vários truques, por sua vez, tremia diante do seu antigo agregado como um ratinho diante de um gato. Fomá Fomitch enfeitiçou-a definitivamente. Ela respirava o ar por ele, escutava com os ouvidos dele, olhava com os olhos dele. Um dos meus primos em segundo grau, também hussardo reformado, jovem ainda, mas que esbanjara tudo até um grau inimaginável e que morou algum tempo na casa do meu tio, declarou-me franca e simplesmente que, segundo sua profunda convicção, a generala tinha uma ligação ilícita com Fomá Fomitch. É evidente que na mesma hora eu, indignado, repudiei tal suposição como sendo primitiva e por demais grosseira. Não, havia aí uma outra coisa, e esta coisa não posso expor sem previamente explicar ao leitor o caráter de Fomá Fomitch como eu mesmo o compreendi posteriormente.

Imaginem um homenzinho, o mais insignificante, o mais pusilânime, rejeitado pela sociedade, sem ninguém que precisasse dele, totalmente inútil e baixo, mas com um amor-próprio desmedido e que, além disso, não tivesse nenhum dom para poder justificar, pelo menos em algum grau, esse seu amor-próprio doentio e exasperado. Aviso de antemão: Fomá Fomitch representa o mais ilimitado amor-próprio ao mesmo tempo, um amor-próprio peculiar, precisamente aquele que surge em casos de absoluta insignificância e, como costuma acontecer nesses casos, é um amor-próprio oprimido pelos fracassos sofridos, apodrecido há muito tempo e que, desde então, expele inveja e veneno a cada encontro, a cada sucesso alheio. É desnecessário dizer

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