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Vidas trans: A coragem de existir

Vidas trans: A coragem de existir

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Vidas trans: A coragem de existir

notas:
4/5 (1 nota)
Duração:
207 páginas
2 horas
Lançados:
13 de jun. de 2017
ISBN:
9788582465585
Formato:
Livro

Descrição

Neste livro, Amara Moira, João W. Nery, Márcia Rocha e T. Brant – todos pessoas trans – relatam, em depoimentos intensos, urgentes e necessários, o momento no qual percebem que havia algo diferente com seus corpos, sobre o sentimento de inadequação perante os padrões exigidos pela sociedade, sobre os preconceitos e as dores vividos dentro e fora da família, sobre o momento de transição e, enfim, da liberdade sentida por esta decisão. Em cada um dos relatos individuais, os autores contam suas histórias de vida, de luta e militância – constante e diariamente –, a fim de reafirmar o direito ao nome, ao corpo e à existência plena.
Lançados:
13 de jun. de 2017
ISBN:
9788582465585
Formato:
Livro

Sobre o autor


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Amostra do livro

Vidas trans - Amara Moira

prefácio

por Laerte

Ali por volta de 1972, eu com uns 21 anos, tinha decidido que era um heterossexual e que minhas transas com homens até então se constituíam numa fase superada.

A prova era que, pela primeira vez, eu tinha uma namorada.

Eu estava na faculdade, mas, como muita gente, frequentava o Colégio Equipe, que se tornara centro cultural, promovendo shows, debates, festas — já com a direção do Serginho Groisman, esse azougue.

Ali se juntavam alunos do Equipe e uma boa fauna jovem — em meio a qual conheci um menino que tomava hormônios. 

Lembro dele dizendo: já comecei a ter peitinho, e abria a camisa o suficiente para mostrar o andamento do processo.

Eram dois pequenos e delicados morrinhos.

Essa visão me encheu de perturbadoras inquietações.

Tento trazer à lembrança esses sentimentos.

Certamente eu o considerava gay — embora a tensão em relação ao meu próprio desejo homossexual estivesse apenas adormecida, ser gay ou lésbica fazia parte da naturalidade relativa do ar.

Só que eu o entendia como alguém tão gay que queria ser mulher.

A ponto de tomar hormônios, agir sobre o organismo, violar a ordem natural que minhas ideias supunham existir.

A expressão naquele meio era bastante festiva e variada; havia muitas tribos — inclusive meninos que usavam batom e desenhavam o olho, além de garotas de coturno e cabeças peladas.

Mas não me vem à memória gente transgênera, além desse de que falo.

A própria ideia de transgeneridade era estranha ao vocabulário e à compreensão da época.

Havia travestis, mas como população à margem do circuito aceitável — vistas como pessoas ligadas à prostituição ou ao crime.

Havia também pessoas que mudavam de sexo — e neste caso a chave tinha mais a ver com questões de medicina e psiquiatria.

Fico pensando que, se é verdade que essa visão ainda predomina em muitas áreas da nossa cultura, já existem experiências relatadas — como as deste livro — que ajudam a criar uma rede de modelos positivos suficiente para que muitas pessoas trans se sintam amparadas em suas vivências — como foi o meu caso.

Foi por meio de vozes como as que você lê aqui que pude superar o estigma e a proibição — primeiro, em relação à homossexualidade; depois, para me perceber trans.

Daquele garoto — digo garoto porque naquela época não reivindicava o gênero feminino — não consegui mais saber, e não lembro o nome.

Achando que era pessoa conhecidíssima, fiz uma busca entre as pessoas com que ainda mantenho contato — ninguém soube dar notícia.

Espero que ela esteja bem.

Acho que gostaria de se encontrar aqui.

Nascimentos em livro

por Jaqueline Gomes de Jesus¹

Eu adoro ser uma mulher trans. O momento em que se reconhece como pessoa trans é maravilhoso. Quão difícil é explicar para as pessoas cis — que não são trans — o sentimento de plenitude que nos preenche. A transição entre como nosso corpo era, para a forma com a qual nós nos identificamos, é um nascimento: tornamo-nos nós mesmos. Engana-se terrivelmente quem acha que nossa jornada é para fora, ela é para dentro.

Mas quem ouve a pessoa trans? — Age-se como se não falássemos. Quem a lê? — Age-se como se não escrevêssemos... É contumaz que terceiros (geralmente cis) falem por nós, iniquamente, sem considerar nossos pontos-de-vista, nossa visão de mundo, nosso protagonismo em todas as suas expressões.

Somos tão estigmatizadas. Silenciadas. Ridicularizadas. Violentadas. Invisibilizadas. O machismo e a transfobia nos perseguem, ferem e causam sofrimento.

O aumento da visibilidade tem sido positivo para a nossa população. Encontramos espaços como o deste livro para tomar conta de nossa própria representação, sem nos submeter aos filtros e aos rótulos de terceiros.

Os relatos corajosos dos meus queridos amigos Amara Moira, João W. Nery, Márcia Rocha e T. Brant não são, de modo algum, entretenimento para os que, enganosamente, buscam nos tratar como figuras exóticas.

Com a sua vida, seus amores e desafios, os autores defendem, sobretudo, a diversidade de ser humano, das identidades de gênero, do que podem homens e mulheres.

A vida e as opiniões aqui registradas são um instrumento poderoso de transformação social e de empoderamento das pessoas trans, principalmente as mais jovens, que destas páginas poderão extrair aprendizados e afetos relevantes para que, oxalá, tenham uma vida menos difícil do que a de nós, que ainda vivemos no país que mais mata mulheres trans e travestis no mundo.

Que a delícia de ser quem somos lhe anime também a ser quem você pode ser, seja você trans ou cis.


1 Professora de Psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de Brasília (UnB). Pesquisadora-Líder do ODARA – Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura, Identidade e Diversidade (IFRJ – Campus Belford Roxo). Pesquisa e publica sobre identidade e movimentos sociais, com foco em gênero e feminismos. É autora e organizadora do livro Transfeminismo: Teorias e Práticas. Agraciada com a Medalha Chiquinha Gonzaga (2017), concedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro a mulheres com reconhecidas contribuições à sociedade.

Apresentação

Pense em tudo o que você já ouviu falar sobre pessoas trans. É provável que a maior parte desse tudo, que talvez nem seja tanto assim, seja puro senso comum, envolto muitas vezes em preconceito e ideias que seguem reafirmando que não devíamos sequer existir ou, então, apenas longe dos olhos de todos. No entanto, essas pessoas cada dia mais vão conseguindo um cantinho sob o Sol e, com isso, também o direito a ter voz e vez; o mundo aos poucos está se dando conta de que o que elas têm a dizer faz diferença, muda a forma como enxergamos a vida. Já imaginou você também poder aprender algo com travestis e transexuais, descobrindo o que só as palavras deles e delas sabem dizer? 

É uma tarefa complicada definir ou delimitar os contornos do que é a transexualidade ou a travestilidade. Mas tudo começa no mesmo ponto: nossa sociedade ainda tem muito o que avançar para tratar homens e mulheres de forma menos desigual. 

A transexualidade não é um transtorno, uma doença ou um problema psiquiátrico, pelo contrário. Na teoria, é algo mais simples: você não se identifica com o gênero que lhe designaram ao nascer. Imagine ter de se obrigar a viver uma vida que não é a sua, você, atriz/ator, atuando em uma eterna peça de teatro sem poder errar as falas (senão, ai de você!)? Parece ruim, mas é isso que cobram das pessoas trans... 

E isso acontece porque, ao nascer com uma genitália x, a criança já é condicionada a ser colocada em determinada categoria: homem se nasceu com pênis, mulher se nasceu com vagina. Mas com o tempo — que pode ser durante a infância, a adolescência, a vida adulta ou até na velhice — algumas pessoas percebem que a vida não faz sentido no gênero com que foram obrigadas a viver. A pessoa nasceu com pênis, mas tem aversão à ideia de ser homem e só se sente ela mesma quando se vê mulher, quando pode existir como mulher. Isso também ocorre com a pessoa que nasceu com vagina, mas se entende homem e dessa forma gostaria de poder viver. Homens com vagina, mulheres com pênis, e quanto mais pessoas trans conseguem existir, ocupar espaços, menos é possível imaginar a genitália que a pessoa tem só de olhar para ela. É a isso que damos o nome de identidade de gênero: a forma como as pessoas se entendem, independentemente da genitália. É como se a genitália não dissesse mais quem a pessoa é, como ela deve viver sua vida, imaginar seu corpo. E também é como se ela abandonasse a personagem que a obrigaram a ser para assumir seu verdadeiro eu. 

Em algum momento você pode se perguntar: então existe diferença entre transexuais e travestis? O ativismo trans, como é chamado o grupo que briga pelos direitos dessa população, não tem uma resposta única e coesa sobre isso. Transgeneridade é uma espécie de termo guarda-chuva, ou seja, abriga em si as várias identidades trans, como travestis, transexuais e pessoas não-binárias, por exemplo. Mas não é fácil traçar limites rígidos que separem essas várias identidades, pois isso pode acabar estabelecendo novas normas de como a pessoa deveria ser, o que volta a segregar quem não se encaixa, quem não quer se encaixar. A luta é para que cada pessoa tenha o direito de experimentar, de ir atrás de descobrir quem é, e que possa viver da forma como se entende, como melhor se sente, sem ser discriminada por isso, segregada, vendo seu direito à vida, à família, ao estudo e ao trabalho postos em risco. Afinal, nada mais libertador do que poder se olhar no espelho e amar o que se vê.

A pessoa não precisa de cirurgias, tratamento hormonal, laser, binder, packer, cabelo curto ou comprido, gostar do gênero oposto, odiar a genitália para ser trans de verdade. Se quiser se valer de alguns desses elementos, bem, mas, se quiser pensar outras formas, não previstas nessa lista, bem também. A verdade da pessoa trans não pode ser averiguada com base em um conjunto fechado de regrinhas, como a Medicina insiste em nos dizer. Acima de tudo, precisamos entender que, se no passado os modelos de masculinidade e feminilidade à disposição não levavam em conta o próprio corpo das pessoas trans, agora quanto mais elas vão conseguindo ocupar a sociedade, mais vão poder se espelhar em si mesmas para pensar seus próprios modelos de masculino e feminino, a forma como querem existir. 

A questão central na definição trans reside na autoidentificação. Se em algum momento da vida a pessoa percebe que pertence a outro gênero que não o que lhe designaram ao nascer, a luta é para que ela possa ser respeitada quanto a isso, sendo tratada pelo nome e pelo gênero com que se entende, sem ser discriminada por isso. É ofensivo dizer o travesti, por exemplo, já que essa é uma identidade feminina. Se ela se expressa como mulher e se refere a si mesma como mulher, é assim que deve ser tratada pelas demais pessoas. Isso também vale para os homens trans!

O termo LGBT refere-se às pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Aqui reside boa parte da confusão: como estão dentro da mesma sigla, muitas pessoas confundem orientação sexual (o gênero que o atrai) com identidade de gênero (o gênero em que se enxerga). Mas não se trata da mesma coisa. Uma pessoa trans pode ser também lésbica (mulher que sente atração por mulheres), gay (homem que sente atração por homens) ou bissexual (pessoa que sente atração por homens e mulheres), já que a orientação sexual refere-se ao desejo e à sexualidade, e não à forma como a pessoa se entende. 

Para as pessoas cisgêneras, ou seja, aquelas que se identificam com a genitália e o gênero com que nasceram, uma das maiores dificuldades é saber como tratar uma pessoa transexual. A dica é prestar atenção em como é a expressão de gênero dessa pessoa e, caso ainda reste dúvida, perguntar da forma mais tranquila e respeitosa como ela prefere ser tratada (qual é seu nome? como devo lhe tratar?). Pessoas trans sofrem várias violências no decorrer da vida, e todo mundo, incluindo quem não é trans, tem papel importante para evitar que isso continue. 

Para mudar esse cenário, tudo começa pelo respeito. A parte mais gostosa da vida é poder ser livre sendo quem se é e não precisar mais se preocupar com o que querem que você seja. Afinal, todo mundo merece ser feliz com o corpo, o estilo, a orientação sexual e a identidade de gênero que tem, seja quem for. 

Destino amargo

amara moira

ME DISSERAM HOMEM

Por onde se começa uma história, minha história, sendo eu travesti? Vasculho os porões da memória atrás de indícios de que eu já fosse o que sou, de que eu já tivesse essa consciência, então encontro flashes de quando eu pegava os terços da casa e punha em volta do pescoço como se fosse colar (que criança beata!, minha avó dizia; 3 anos, e meu pai já morrendo de medo de aquilo me tornar padre), daí a minha obstinação em dizer, para horror dos homens da família, que eu não queria casar, que tinha nojo de beijo (lembro até mesmo de um tio brincando que ia me levar no puteiro para ver se eu pegava gosto; por volta dos 12 anos, que raiva eu sentia disso), as tantas vezes que brinquei escondido com as bonecas da minha irmã ou mesmo quando vesti suas roupas sem que ninguém visse, as viagens para visitar a família em Campo Grande e a liberdade e a leveza de por alguns dias poder viver a vida das minhas primas, pular elástico, jogar amarelinha, as brincadeiras delas, não precisando me preocupar com o que pensariam de mim, se eu estava sendo suficientemente homem... Mas a verdade é que ali eu ainda não fazia ideia, ali era pura experimentação, eu, muito temerosamente, tateando até onde poderia ir sem ter de abrir mão da minha sanidade mental e integridade física.

A vida inteira me disseram homem, e não foi difícil perceber que, se não fosse o homem que me criaram para ser, eu muito provavelmente estaria em apuros. Castigos, abandono, chantagem emocional, tudo era válido em se tratando de me fazer aceitar quem eu era, e o que me consolava é que, no final das contas, tudo aquilo se tratava de teatro, jogo de espelhos, personagem, bastando parecer, e aí, pronto, era como se desde sempre eu já fosse, aparência refletindo uma suposta essência, eu só precisando repetir e repetir as mesmas ações até ir internalizando as regras e nem precisar mais pensar. Ser homem, para mim, era quase um comportamento obsessivo compulsivo, mecânico, doença a que fui sendo condicionada, e por isso o incômodo ao recentemente escutar de uma tia:

— Se você fosse assim, menina, desde criança, seria mais fácil te aceitar agora.

— Ah, é? E, se eu fosse desde criança essa menina, você seria do grupo que me violentaria até eu entrar nos eixos ou do que lutaria pelo meu direito de ser uma criança feminina?

O medo de sofrer violência, primeira coisa que me ensinaram, primeira coisa que ensinam uma criança a temer, era muito maior do que a vontade de descobrir quem eu era. Escolha? Não sei bem se podia pensar em escolha, bloqueio talvez, travas, adestramento sistemático para você sequer perceber a máscara que puseram em seu rosto quando nasceu e, caso um dia perceba, não ousar jamais perguntar-se o que há por trás dela.

No caso das pessoas trans, isso se torna um processo eficientíssimo de enlouquecimento, a criação para o medo junto a uma vida inteira ouvindo que a compreensão que você faz de si é equivocada, impossível, já que você tem o genital que tem. Mas, se era para ser impossível, por que no meu caso não foi? Por que vim a me entender dessa forma se isso não faz sentido? Devo ignorar o que sinto, me conformar com o destino que essa genitália decretou, abrir mão de tentar existir

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