Aproveite milhões de e-books, audiolivros, revistas e muito mais, com uma avaliação gratuita

Apenas $11.99 por mês após o período de teste gratuito. Cancele quando quiser.

A Morte e suas Representações
A Morte e suas Representações
A Morte e suas Representações
E-book425 páginas5 horas

A Morte e suas Representações

Nota: 5 de 5 estrelas

5/5

()

Sobre este e-book

O estudo sobre a terminalidade humana começou quando o homem, conscientemente, questionou sobre a Morte. Hoje nos perguntamos quando isso ocorreu e em que circunstância surgiu a descoberta do maior tabu e confl¬ito de humanidade que é o FIM da máquina humana ou corporis fabrica, como bem denominava Vesalius, o maior anatomista do mundo. Teria sido quando o homem assumiu a posição bípede e conquistou a braquiação? Teria sido quando o homem das cavernas passou a velar o familiar morto, sem entender ao certo o fenômeno deste sono profundo sem volta? Alguns estudiosos contemporâneos, como Morin e outros, talvez como um alento à humanidade, lembram que quem morre é o indivíduo e não a espécie. Portanto, hoje necessitamos discutir também academicamente o fenômeno da Morte, para que possamos fazer valer a Vida em todas os sentidos e prerrogativas.
IdiomaPortuguês
Data de lançamento1 de ago. de 2018
ISBN9788546210978
A Morte e suas Representações
Ler a amostra

Relacionado a A Morte e suas Representações

Livros relacionados

Avaliações de A Morte e suas Representações

Nota: 5 de 5 estrelas
5/5

1 avaliação0 avaliação

O que você achou?

Toque para dar uma nota

    Pré-visualização do livro

    A Morte e suas Representações - Juarez Chagas

    2017

    Apresentação

    O entendimento do ser humano como indivíduo, pessoa e ser pensante no contexto da sociedade, o obrigou, ao longo do tempo e, dentro de seus limites, a pensar, criar, inventar e, sobretudo organizar seu mundo pessoal e coletivo no Planeta, para assim viver melhor. Entretanto, o homem é um ser limitado, apesar de ter evoluído e ter criado condições para isso, como as ciências e a tecnologia.

    Mas, qual a limitação do homem? Sua temporalidade, seria a resposta imediata e, portanto, sendo um ser finito não tem poder sobre as Leis da Natureza e nem sobre o Tempo. Por esta razão, teme sua finitude e evita discutir sobre a Morte e sua inevitabilidade.

    Por outro lado, em seu conjunto biopsicossocial, surge a necessidade de trazer à tona a discussão sobre o tabu que mais o apavora, no intuito de, a partir daí, buscar melhor entendimento para lidar com sua finitude e, tornar sua vida melhor e mais útil no contexto da sociedade, dentro do tempo que lhe é permitido.

    Ao longo do tempo, a Morte, no contexto da Filosofia, Religião e Ciências, tem sido discutida e estudada sob vários prismas e, exatamente por este motivo, diferentes visões, conceitos e suas representações podem diferir em um ou outro aspecto, muito embora permaneça seu conteúdo e essência no sentido geral. O objetivo do presente livro, resultado de uma acurada pesquisa e tese de doutoramento, é justamente abordar e discutir estes conceitos e representações do ponto de vista acadêmico e social para que assim, a importância de seu estudo possa abranger esferas além do conteúdo escolar, a nível regional, nacional e internacional, quando comparados seus resultados entre si.

    É importante obervar que, além dos resultados da pesquisa citada, o presente trabalho contribuiu também, sobremaneira, para que a Disciplina Fundamentos de Bioética e Tanatologia fosse, no ano de 2014, implantada no Departamento de Morfologia, do Centro de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde funciona academicamente desde então, recebendo alunos de diversos cursos desta Universidade e, consequentemente, fazer parte de um forum atual, dinâmico e semestralmente letivo, para se discutir academicamente sobre a finnitude humana e seus aspectos bioéticos, contribuindo assim, para uma melhor preparação, através de participações academicamente dinâmicas, tornando nosso alunado mais seguro e melhor preparado no desempenho de suas futuras profissões, inclusive no aspecto individual também.

    Tomando como base questões petinentes à toda humanidade, indagadas em todos os continentes e sociedades do globo terreste, no que diz respeito a um melhor entendimento sobre a terminalidade humana, este trabalho, tenta debater idagações como o conceito da morte, suas representações e sobretudo como esta é vista, encarada e enfrentada pela sociedade atual, da qual não tem como evitar.

    Agora, com a divulgação deste livro, esperamos, portanto que, com estas iniciativas, estejamos contribuindo para ampliar debates e discussões pertinentes sobre o maior tabu da humanidade, o qual precisa, cada vez mais, ser desvendado, debatido e aceito como um fenômeno que é parte indissociável do contexto biológico, psicológico e histórico do ser humano, como um todo. Somente observando e debatendo o lado adverso da vida, seremos capazes de entender, aceitar e buscar melhor qualidade de vida em todos os seus aspectos. Conscientes de que isso seja feito, estará cumprindo nosso objetivo individual e coletivo, no sentido de que nos debrucemos sobre esta iniciativa importante para o desenvolvimento humano.

    Introdução

    No seu Mundo (Planeta), durante a trajetória da humanidade, o homem criou sua sociedade plena de representações as quais teriam predominante influência em sua evolução como ser, indivíduo, pessoa e ser pensante.

    O crescente e renovado interesse pelo debate e discussão sobre o fenômeno da morte, está voltando ao seio das diversas sociedades e dos grupos sociais em todo o mundo como um interesse corajoso sobre o entendimento e maior aceitação sobre a finitude humana e sua inevitabilidade, uma vez que esse tema é um dos que mais têm preocupado a humanidade e um dos que mais ocupa o nosso imaginário e subjetividade individual e coletiva imprimindo diversos sentimentos em nosso ser, como por exemplo, o medo e o sentimento de perda, tanto individual, quanto coletivo.

    Apesar de inúmeras instituições e organizações nacionais e internacionais se envolverem e se preocuparem com a questão da morte, talvez como sendo o fenômeno que mais influencia o comportamento humano na trajetória da humanidade, pelo que tem vindo a ser demonstrado através da divulgação da Mídia, no que diz respeito aos aspectos e representações socioculturais, essas instituições e organizações não têm tratado desta importante questão do ponto de vista educacional, social e acadêmico, como realmente merece ser tratada.

    É evidente que temos presenciado uma crescente preocupação em relação à discussão do tema, embora de uma maneira ainda incipiente e longe de ser institucionalizada. Assim sendo, acreditamos ser esta uma das mais fortes e justificadas razões, pela qual a morte continua sendo esse sinistro fenômeno que apavora e perturba o ser humano, a ponto de influir na sua qualidade de vida e nas suas decisões, estigmatizando comportamentos diversos, os quais devem ser trabalhados de forma a atenuar essa angústia, ansiedade e medo, proporcionando um melhor entendimento acerca da finitude humana e, em consequência disto, dando mais respeito e mais valorização pela vida.

    Acreditamos, portanto, que a resposta a essa questão resida no âmbito da educação, por mais inusitado que nos possa parecer, pois a própria educação institucionalizada, exatamente pelas razões citadas, ainda não se debruçou, (como fez com outras questões de complexidade, como a educação sexual, por exemplo) sobre o mais angustiante e desafiador processo do desenvolvimento humano que é a inevitabilidade da finitude do ser humano.

    Nesse sentido, pretendemos aqui discutir a possibilidade de fazer do fórum escolar e acadêmico, o lugar por excelência para o estudo e discussão sobre o fenômeno da morte, uma vez que observamos a ausência quase total de um tratamento acadêmico e escolar dessa abordagem nas instituições escolares e universitárias, as quais são organizações norteadoras, por excelência, da formação educacional da nossa sociedade e, como tais, devem sempre buscar fundamentações e esclarecimentos educacionais, para que tenhamos uma sociedade melhor preparada a aceitar e a resolver os seus conflitos e questões da complexidade do mundo atual. Acreditamos que, uma vez discutindo e conhecendo melhor o fenômeno da morte como fazendo parte da trajetória humana, haverá certamente um olhar mais cuidadoso e amoroso para com a vida.

    Ao longo deste trabalho também será observado algumas pesquisas realizadas no âmbito escolar e acadêmico brasileiro, entre estudantes do ensino médio de diferentes escolas, estudantes e professores universitários de uma universidade federal, numa pequena cidade nordestina e capital de um dos 26 estados do Brasil, com o objetivo de identificar conceitos e representações sociais da morte, com vistas a uma melhor compreensão e aceitação do seu contexto na formação da pessoa, tendo este universo como objeto de estudo para posteriores considerações em estudos comparativos.

    Uma vez discutida a questão da finitude humana, abordando os seus vários aspectos, tais como, conceito de medo, representações e outras questões academicamente pertinentes, acreditamos que o aspecto bio-psico-socio-cultural da questão em evidência, possa ser atingido com mais propriedade, já que o ser humano não pode viver fora deste contexto e, por ser prova cabal, a questão do medo e subjetividade da morte torna-se, cada vez mais, um dos aspectos principais no contexto da humanidade. Por outro lado, enquanto o desconhecido predominar, a sociedade conviverá com tabus e ainda permanecerá ignorante e assustada.

    Vários estudiosos e pesquisadores sobre o conteúdo chamado medo atestam que muitos dos medos podem se transformar em fobias, ansiedade, delírios e pânico, os quais podem ser analisados como estágios crônicos do próprio medo, cujas consequências e repercussões são, normalmente, desastrosas e comprometedoras, por vezes, afetando o nosso comportamento e personalidade, perante o individual e coletivo, nos diversos contextos sociais.

    O medo é um estado emocional de alerta frente ao perigo, à ameaça, à insegurança e às incertezas, existindo como um mecanismo psicológico de defesa. Vários têm sido os conceitos para o medo e, ainda assim, parece que cada um deles apenas nos mostra uma das suas facetas, permanecendo portanto, nas entrelinhas, muito mais do que realmente é e, adormecido ou sempre em estado de alerta, nos nossos sentimentos e na nossa consciência. Também já foi afirmado que o medo da morte é a base de todos os demais medos (Kastenbaum, 1967) e, portanto, merece estudos e discussões mais específicas, em razão de sua capacidade de mudanças comportamentais do ser humano, frente a esta questão.

    O medo também é uma das mais antigas emoções do ser humano que, embora não pareça, tem garantido a sua existência e sobrevivência através dos tempos, possuindo grande importância no psiquismo e personalidade humana, a ponto de exercer enorme influência e determinações no seu comportamento. É através do medo que o ser humano descobre o quanto é vulnerável nas suas fraquezas e incapacidades de enfrentar determinadas situações, transpor obstáculos e manter-se isento de perigos. O medo também é psicossomático e essa condição está intimamente relacionada com as diferentes reações desencadeadas como respostas a este fenômeno que, diga-se de passagem, são várias e normalmente diferentes, de pessoa para pessoa. Portanto, temos medo da dor porque ela faz doer o nosso físico e a sensação psíquica que temos é de sofrimento imediato.

    Também é notória a dificuldade que pessoas, grupos e mesmo sociedades diversas apresentam em conceituar a morte, assim como também indicar, falar ou descrever sobre a sua representação, demonstrando claramente não haver entendimento sobre essa questão que, na verdade, causa angústia mesmo que subjetiva, afetando o seu modo de vida.

    Por outro lado, o medo também invade as nossas mentes e habita o nosso sistema emocional, manifestando uma dor mais lenta, porém mais duradoura, arrefecendo o nosso corpo e desencadeando, inclusive patologias orgânicas e psicológicas.

    O medo da morte explica-se por si só, ou seja, pelo fator medo e não somente pelo fato da morte existir, mas pela constante e infindável ameaça, perigo e insegurança que a mesma provoca em nós. Em segundo lugar, vem o desconhecimento sobre a morte, responsável pelo constante temor do que ela representa e pelo seu eterno mistério desconhecido. Como se isso não bastasse, para a aflição dos humanos, o medo da morte é rotulado também como sendo a origem e a evolução de todos os demais medos. Isso explica porque temos medo da separação, da distância e da perda de tudo o que gostamos, necessitamos e apegamo-nos pois, ao perdemos algo, alguém ou qualquer coisa que represente essa necessidade ou afeição, esse algo que já é parte do nosso ser, é algo que morre em nós, porém não antes da angústia, do medo nos conduzir a esse fato.

    Na tentativa de tornar o tema uma questão educacional, não apenas como discussão curricular paralelo, como hoje é o gênero, trânsito, política, religião, sexo, cidadania e meio ambiente, bem como outros temas da complexidade, próprios do mundo moderno em que vivemos, o a importância deste trabalho é tentar avaliar os conceitos e as representações da Morte, assim como o medo e a subjetividade no âmbito acadêmico e escolar e posteriormente, tentar tornar esta discussão uma prática educacional de alcance social imprescindível, pois acreditamos ser uma grande contribuição para o desenvolvimento humano.

    Capítulo 1

    A Visão a respeito da Morte

    Quanto mais realização pessoal, menor será a angústia da morte.

    (Arthur Schopenhauer)

    A visão da morte pelo homem, através dos tempos, passa preliminarmente por questões filosóficas, religiosas e posteriormente científicas, até chegar ao entendimento pessoal e aos conflitos existenciais desencadeados pela acepção da inevitabilidade e finitude humanas e pelas suas consequências.

    Indubitavelmente, a morte constituiu-se, ao longo do tempo, no maior e mais ameaçador tabu da humanidade, tendo como principal motivo a percepção da capacidade destruidora do ser e de tudo o que lhe diz respeito, o despreparo e distanciamento de discussões sobre transitoriedade e terminalidade humanas. Portanto, os atributos da morte continuam a desafiar as mais diversas culturas, as quais buscam respostas na filosofia, na mitologia, nas religiões, na arte e nas ciências, no intuito de que o desconhecido seja melhor compreendido e o pavor e angústia gerados pelo mesmo sejam aplacados. Porém, contraditoriamente, o homem continua a ocultar, a ignorar e a encobrir essa questão como uma forma de se manter distante da mesma, como sendo uma proteção à sua integridade física e psicológica e como se ignorasse o próprio fim ou condição de morte.

    No meio familiar

    Nossa sociedade, apesar das diferentes culturas e suas representações sociais, não tem tradição sobre discussões, entendimento e preparo sobre a morte no seio da família, principalmente na sociedade ocidental. Ao contrário, a morte sempre foi tratada como algo a ser oculto, rejeitada, não discutida e, principalmente combatida pela ciência, o mais veementemente possível.

    Se considerarmos a primeira educação mais importante e decisiva do ser humano como sendo a educação familiar, devemos pois considerar que todo e qualquer princípio de informação e formação estão alicerçados na família. Entretanto, no que diz respeito à questão da morte, é fato comprovado e reconhecido mundialmente, que a família tradicionalmente oculta a questão da morte no seio familiar, ao longo do tempo. Às crianças, não lhes são dadas as condições, mesmo como membros da família e futura continuação da mesma, de participarem, assistirem e vivenciarem os rituais da morte, fazendo com que, se mantenha o tabu e o medo, sobretudo medo velado, sobre a finitude humana. Quem é que teve alguma orientação familiar sobre a morte? Talvez, não consigamos nos lembrar, exatamente porque não a tivemos. E se a tivemos, mesmo que tenha sido, deve ter sido pálida e restritamente, deve ter sido tão veladamente ou por possíveis analogias que as explicações se perderam no seu objetivo primordial.

    Citar trabalhos e pesquisas neste contexto é uma busca enriquecedora, em termos, tanto norteadores quanto comparativos, mas tem sido difícil encontrar referências nesse sentido, no que diz respeito à questão da morte, pois não é um assunto discutido no âmbito familiar. Já não se pode dizer o mesmo relativamente aos livros e trabalhos sobre a família e a sua evolução, como instituição criadora, e formadora de si própria, onde existem muitas pesquisas, e onde é omitida categórica e textualmente a questão da morte no seio da família.

    Relvas (2006), professora e psicóloga da Universidade de Coimbra, aborda o contexto familiar e as suas dificuldades dentro de sua própria perspectiva evolutiva, no entanto não parece existir uma reflexão ou qualquer consideração sobre a morte no seio da família, pois que o ciclo vital implica também a finitude humana, pois o indivíduo não é eterno e a morte faz parte do seu ciclo evolutivo, carecendo portanto, de discussão nesse sentido e contexto.

    Esta questão não configura um erro de análise do trabalho da autora, porém uma dificuldade encontrada sobre a questão da morte no seio familiar. Evidentemente, que a autora justifica a não abordagem sobre o tema da morte no seu estudo, porém, isso apenas fortalece a ideia da dificuldade que encontramos sobre a não discussão do tema onde lhe é pertinente sobre a qual justifica, como vemos em sua seguinte observação:

    Não é nosso objetivo descrever aqui os movimentos associados à morte e luto na família, contudo é importante salientar o valor particular que a morte destes elementos tem para a família.

    A geração intermédia deixa de o ser para se transformar na última geração viva. (Relvas, 2006, p. 227)

    Grollman (1990), no seu livro Talking About Death (Falando Sobre Morte) afirma que a questão não é se a criança deveria receber educação sobre a morte, mas se essa educação que ela recebe a ajuda em algo e se a torna confiante e segura, pois o entendimento sobre a morte é um processo para toda a vida, o qual vai da infância à velhice. Sobre isso, o autor enfatiza:

    Das várias maneiras de se lidar com a morte, a que mais está fadada ao fracasso, é tentar ignorá-la. Conte às suas crianças imediatamente sobre a morte na família. A demora faz com que todo pareça com que elas saberão através da pessoa errada e da forma errada. (Grollman, 1990, p. 1)

    No meio escolar

    Em virtude dos poucos estudos específicos sobre a questão da morte em contexto escolar e acadêmico e, consequentemente, de uma lacuna existente, ao longo do tempo nestas instituições de ensino, a ausência de estudos sobre o fenômeno da morte no âmbito educacional e, ainda a falta de discussões e debates sobre a morte, do ponto de vista biológico, psicológico e social no contexto atual, e mais precisamente, sobre as suas representações e o medo da morte e suas consequências, tanto no que diz respeito ao desenvolvimento quanto ao comportamento humano em si, e ainda como questão psico-social imprescindível, decidimos fortalecer a ideia da necessidade de um trabalho que pudesse evidenciar, através da pesquisa empírica, o que a comunidade escolar e universitária local pensa a respeito do assunto. Isto, para, a partir daí, podermos demonstrar então, a real necessidade da desmistificação da morte, pautada no tabu e no medo do desconhecido, principalmente no meio educacional.

    Hoje sabemos, apesar ainda da resistência e dificuldades inerentes ao tema, da iniciativa de alguns estudiosos sobre o assunto, inclusive no Brasil Kovacks (1992, na França, Hennezel (2002) e em Portugal, Mônica (2011)), segundo os quais este assunto tem sido amplamente discutido nos Estados Unidos e em outros países europeus.

    Apesar das dificuldades existentes sobre estes estudos específicos, do ponto de vista da aceitação deste assunto pela própria sociedade, é importante dizer que algumas tentativas de trazer estas discussões à tona, com uma maior consciência e postura educacional participativa, têm sido feitas por professores e pesquisadores, em algumas partes do mundo, especialmente na Europa. Entretanto, as dificuldades e resistências permanecem, apesar dos esforços de alguns estudiosos e pesquisadores.

    Alguns exemplos podem ser citados a título de ilustração e fundamentação apresentados por estudiosos que, sensíveis a essa necessidade da discussão sobre o desenvolvimento humano como um todo, merecem destaque, frente à problemática apresentada.

    Segundo Carvalho et al. (1989), num trabalho de contexto pedagógico didáctico, a ideia da morte perpassa por todo o ensino-aprendizagem da Disciplina de História no ensino Secundário. O trabalho sugere que a noção de finitude é condição sine qua non para o contexto e existência da própria historicidade, nesta região específica de Portugal, cujo exemplo é importante.

    Neste tipo de ensino, fica claro que em alguns conteúdos programáticos o tema é fortemente velado e, em outros não, possibilitando que o aluno seja confrontado com marcas de sua omnipresença, pois construções funerárias, rituais e formas de enterramento, assim como crises demográficas e suas consequências, são alguns dos exemplos desta realidade.

    É importante frisar, no entanto, que o jovem aluno, dificilmente toma consciência da complexidade subjacente à presença dos fatos ou problemas que são relacionados com a ideia da morte. Contraditoriamente, mesmo sem a abordagem institucional no ensino, o quotidiano do aluno é repleto de sinais associados à morte e ao morrer, pois os média, num contexto de comunicação sensacionalista, tratam a morte como espectáculo.

    A autora (Carvalho et al., 1989) divulga que, pela primeira vez, ao longo de todo o processo de ensino-aprendizagem da disciplina de História, o aluno é confrontado com a temática da morte, objetivada e não camuflada, isto porque no 12° ano de História, há uma unidade específica, intitulada O Homem perante a Morte, como fazendo parte do tema A Demografia do Antigo Regime e a Família. Um avanço fundamentalmente importante, como se pode constatar, para fundamentar estudos comparativos.

    Ainda em relação ao mesmo trabalho desta autora, porém num outro exemplo, desta feita na disciplina de Antropologia Cultural, a qual faz parte da unidade As Representações Colectivas – os Ritos e os Rituais, o aluno da área de estudos humanísticos que opta pela referida disciplina de formação vocacional, tem contato com esta temática ao estudar os diferentes ritos de passagem das sociedades diversas, fazendo com que a sua atenção, sob o aspecto antropológico e sobre a morte em si, se delineia de modo mais natural.

    Na verdade, este trabalho também chama a atenção para o fato da rejeição desta temática no ensino secundário por esta apresentar dificuldades específicas, por ser um tema árido por natureza, muito embora devesse inclui-se a sua abordagem como exemplo dum modelo de ensino, no qual a formação integral prepare o aluno para, no futuro, enfrentar a complexidade, o imprevisto e as necessárias mudanças, ao longo de sua existência.

    Ainda considerado o resultado final da pesquisa da autora percebe-se, poder haver uma surpresa, tanto para o aluno, quanto para o orientador do processo de ensino-aprendizagem, concomitantemente, pois o seu desenrolar promove o desenvolvimento de atitudes científicas e a aquisição de um dispositivo mental específico, cuja otimização é potencializada, neste contexto.

    No Brasil, em certas escolas do Rio de Janeiro, foi elaborado um estudo semelhante, porém com metodologia e objetivos diversificados, embora com o mesmo interesse em tornar o tema comum e necessário nas salas de aula. O trabalho, que merece ser conhecido, aborda uma pesquisa que foi realizada com estudantes do ensino médio de duas escolas diferentes. O seu objetivo era a identificação das representações sociais da morte, porém desta feita, especialmente expressas nas aulas da disciplina de Biologia. Como se sabe, a disciplina de Biologia aborda, de modo geral e com algumas especificidades, a vida da flora e fauna, a sua diversidade e as suas formas de interagir com o ambiente. No caso da fauna, especificamente no aspecto zoológico, discorre sobre todos os animais, inclusive o homem. Assim, Coelho (2006, p. 61-64) indaga por que então, se a morte faz parte do processo vital dos seres vivos e dos seres humanos em particular, a sua abordagem no espaço educacional é pouco desenvolvida?.

    Reconhecemos ser esta uma pergunta pertinente e oportuna, a qual demonstra que, na realidade, a questão da terminalidade dos seres e, especialmente, do ser humano não deve ser relegada, nem posta de lado do processo evolutivo da humanidade, como se ela não existisse ou não tivesse importância contextual e formativa.

    Partindo desta interrogação, no sentido de questionar especialmente a Biologia, sobre este tema, e tratando esta disciplina sobre o ciclo de vida dos seres vivos, porque não se utiliza o espaço das aulas para falar sobre a finitude da vida humana, que é parte fundamental do ciclo de vida dos seres humanos e que inclui a consciência? A questão é coerente, uma vez que a morte faz parte da vida, como intersecção ou como o seu lado oposto, que forma o todo.

    Carvalho (2004) reafirma, que a abordagem da morte do ponto de vista psicológico e sociológico, relacionada com o conhecimento científico específico da Biologia está praticamente ausente no espaço das aulas desta disciplina. No entender deste autor, a morte humana não é abordada com qualquer enfoque especial, ou diferenciado dos outros seres vivos (Carvalho, 2004, p. 2).

    Ainda sobre esta temática, existe, pelo menos um outro estudo no Brasil (na cidade de Natal), relacionado com a questão da aceitabilidade da morte no seio da Educação. Esse trabalho foi desenvolvido por Mello (2007, p. 8), do qual destacamos o seguinte texto:

    A relevância deste estudo concerne às nossas inquietações quanto à formação e o posicionamento de professores da Educação Infantil e das séries iniciais do Ensino Fundamental em torno da temática debatida, bem como às inquietações em torno do tratamento dado pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, documento que auxilia as práticas educacionais em nosso país. Para tanto, foram consultadas quatro professoras licenciadas em Pedagogia e que exercem suas funções, em uma escola pública da rede estadual de ensino do Rio Grande do Norte, situada na Zona Sul de Natal. Além disso, buscou-se analisar os Parâmetros Curriculares Nacionais referentes às séries de ensino já citadas, na tentativa de identificar trechos que poderiam contemplar o assunto e

    Está gostando da amostra?
    Página 1 de 1