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Filosofia, Literatura e Linguística: Interfaces

Filosofia, Literatura e Linguística: Interfaces

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Filosofia, Literatura e Linguística: Interfaces

notas:
5/5 (1 nota)
Duração:
303 páginas
6 horas
Editora:
Lançados:
4 de jan. de 2019
ISBN:
9788554549091
Formato:
Livro

Descrição

O livro reúne resultados de pesquisas sobre a Filosofia da Linguagem, a Literatura e a Linguística, e está dividido em três partes, cada uma dedicada a um desses temas e suas interfaces. Na primeira parte, encontram-se contribuições a respeito de Filosofia e suas interfaces. Na segunda, as contribuições sobre Literatura e suas interfaces. Por fim, na terceira parte, as contribuições versam sobre a Linguística e suas interfaces.
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4 de jan. de 2019
ISBN:
9788554549091
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Filosofia, Literatura e Linguística - Antonio Henrique Coutelo de Moraes

www.eviseu.com

Apresentação

Reunimos, neste livro, resultados de pesquisas em torno de questões sobre a Filosofia da Linguagem, a Literatura e a Linguística. Para tal, dividimos em três partes, cada uma dedicada a uma das reflexões citadas. Procuramos visualizar as interfaces entre os temas e, portanto, a seleção dos artigos foi definida pelo estabelecimento de relações entre duas ou três das áreas desta coletânea. Na primeira parte, Filosofia e suas interfaces, os textos põem em diálogo a filosofia com a linguística, a linguagem e a literatura. Na segunda parte, Literatura e suas interfaces, os textos põem em diálogo a literatura com a linguística, a sociologia e a filosofia. Finalmente, na terceira parte, Linguística e suas interfaces, os textos põem em diálogo a linguística com a filosofia, a linguagem e a publicidade.

No primeiro capítulo, intitulado Fundamentos de linguística: a linguagem na história da filosofia grega a partir do Crátilo, a organizadora e autora Martha Solange Perrusi situa o contexto através de um breve passeio desde os pré-socráticos até Aristóteles, tendo o Crátilo como norte de sua discussão. Como deixa claro desde as primeiras linhas do trabalho, sua intenção é que outros pensadores contribuam para a discussão de premissas linguísticas em Platão.

No segundo capítulo, intitulado Logos e linguagem: caminhos em Martin Heidegger, Maria de Fátima B. Costa parte da constatação de que, desde as primeiras obras do filósofo, a preocupação com o problema da linguagem se constitui uma constante, uma vez que há, na obra do pensador, o entrelaçamento inevitável ser-homem-verdade-linguagem sob o crivo da questão da origem.

No terceiro capítulo, intitulado A disputa do logos entre filosofia e literatura: uma questão moral, José Tadeu Batista de Souza apresenta brevemente a questão do entrelaçamento entre a filosofia e a literatura, que se constituíram em âncoras de sustentação da expressividade do Logos no pensamento Ocidental, desde o seu alvorecer na Grécia antiga. Em seu texto, o autor busca explicitar os mecanismos inerentes à estrutura da novela, uma vez que esse gênero pode contribuir para uma reorientação na maneira de considerá-lo e na construção da cidadania.

No quarto capítulo, intitulado Argumentação e desenvolvimento moral, Ricardo Pinho Souto aborda o desenvolvimento moral em adolescentes submetidos a medida socioeducativa, relacionando processos de construção social de conhecimentos no terreno moral à argumentação desses sujeitos.

No quinto capítulo, intitulado Dom Segundo Sombra e O prédio, o tédio e o menino cego: a preceptoria e o seu efeito no desenvolvimento da formação dos personagens, Thiago da Câmara Figueredo traça o perfil dos aprendizes, dos preceptores, das situações de interação para, então, sintetizar os resultados de desenvolvimento e o peso que essas experiências desempenham na formação dos indivíduos/personagens das obras analisadas.

No sexto capítulo, intitulado As teorias do conto de Poe e Cortázar em A rose for Emily, Anissa Almeida Lima, Evelyne Batista Duarte e Larissa de Pinho Cavalcanti retomam as teorias do conto de Julio Cortázar e Edgar Allan Poe, e a análise que fazem das estruturas e recursos literários presentes nesse gênero para discutir a construção dos efeitos de sentido de sua leitura, analisando o conto A rose for Emily, de William Faulkner (1930). A partir das teorias do conto de um e outro autor, demonstram que a narrativa da obra propõe um jogo que envolve suspensão do conhecimento do leitor e o desenvolvimento de características locais, sociais e históricas que resultam em uma surpresa surreal e arrebatadora com as revelações acerca da protagonista como colocam as autoras.

No sétimo capítulo, intitulado Queer e Literatura: em torno de políticas desconformes, Ricardo Postal e Emerson Silvestre traçam um paralelo entre a política da literatura e a política queer com o intuito de entender como as duas instâncias são importantes na representação de identidades desconformes a partir de uma leitura crítica do romance Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron. Os autores se utilizam do escopo da teoria da ficção para ilustrar como atuam essas políticas e para aproximar os dois campos de estudo.

No oitavo capítulo, intitulado Close certo: a personagem transexual em Do fundo do poço se vê a lua, Antonio Peterson Nogueira do Vale e Rosanne Bezerra de Araújo analisam, a partir do premiado romance Do fundo do poço se vê a lua (2010), do autor cuiabano Joca Reiners Terron (1968-), como a literatura contemporânea tem abordado a temática da transexualidade no Brasil, comportamento bastante estudado na contemporaneidade. Os autores iniciam seu texto adentrando uma perspectiva histórico-literária de como a sexualidade tem sido abordada na literatura brasileira, partindo da premissa do comportamento homossexual para o transexual.

No nono capítulo, intitulado Reflexões a partir da concepção dialógica sobre a leitura em língua portuguesa escrita por surdos sinalizantes, Izabelly Correia dos Santos Brayner e Matheus Lucas de Almeida discutem como um surdo usuário da Libras compreende os diversos materiais dispostos na modalidade escrita da língua portuguesa no Brasil, destacando que a linguagem em uma perspectiva interacional verbal nos aponta que seu caráter dialógico permite a compreensão da leitura como um ato interativo.

No décimo capítulo, intitulado Concepção dialógica de linguagem e o ensino de língua estrangeira para surdos, o organizador e autor Antonio Henrique Coutelo de Moraes reflete sobre as contribuições da Teoria Dialógica da Linguagem para a compreensão do processo de aquisição do inglês por surdos, uma vez que a teoria, que tem o diálogo como um dos temas centrais, pode servir de norte para o ensino de LE com vistas a envolver o aluno nesse processo.

No décimo-primeiro capítulo, intitulado Uma análise bakhtiniana dos memes ‘pró – impeachment’ de Dilma Rousseff, Rebeca Lins Simões de Oliveira analisa textos multimodais que circularam no aplicativo WhatsApp referentes ao conceito de ‘Família’ que foram bastante evocados durante o evento da votação no Senado Federal brasileiro à luz da perspectiva Bakhtiniana, buscando refletir sobre conceitos como Enunciado, Enunciação, Ideologia e construção do Sujeito enunciativo.

Por fim, no décimo-segundo capítulo, intitulado O senso crítico em publicidade ambiental on-line, o organizador e autor Felipe Casado de Lucena discute o senso crítico em anúncios publicitários ambientais on-line, levando em consideração questões de fato e de valor. O texto em questão foca no gênero textual anúncio publicitário on-line cuja temática é a sustentabilidade.

É nosso desejo que este livro seja uma leitura prazerosa sem deixar de estimular a reflexão, a curiosidade e o debate acerca dos temas nele discutidos.

Os organizadores.

Filosofia e

suas interfaces

Fundamentos de linguística: a linguagem na história da filosofia grega a partir do Crátilo

Martha Solange Perrusi

Introdução

A história do pensamento ocidental é profundamente marcada pela criação da filosofia, com os gregos e podemos dizer o mesmo com relação à linguagem e ao pensamento sobre a linguagem, posto que o próprio nascimento da filosofia significou uma elaboração na linguagem grega.

Como se considera o grande marco no pensamento grego sobre a linguagem (e sobre as questões linguísticas) o diálogo platônico Crátilo, pretendemos, neste artigo, situar o contexto da época, dos pré-socráticos a Aristóteles, passando pelos sofistas, mas sempre considerando o diálogo Crátilo o norteador da discussão. Nossa intenção é que os demais pensadores sejam chamados a discutir as premissas linguísticas de Platão à medida em que se tornarem necessários.

1. A importância da linguagem no nascimento da filosofia

Um pensador contemporâneo afirma que as perguntas filosóficas existem desde sempre, mas as repostas filosóficas tiveram data marcada para serem colocadas, o que equivale a dizer que a humanidade sempre buscou respostas para as mais diversas interrogações, primeiramente as encontrando através do mito e da religião. A diferença pautada pelo povo grego foi a resposta filosófica, pois, até o século VI, a resposta tradicional era encontrada no mythos. Com Tales de Mileto, o primeiro filósofo, a forma de expressão começa, então, a se modificar e isso acontece por conta da explicação através do logos.

A filosofia não inventa propriamente o logos (a palavra logos), mas se apropria do logos, já existente nas epopeias, dando-lhe um significado diferente. O mais interessante é que esse movimento inaugural vai ser uma das características mais próprias da filosofia: o processo de ressignificação através do conceito. A palavra grega logos, deixa de ter seu uso corriqueiro e cotidiano, para, com a filosofia, tornar-se um conceito.

Nos poemas homéricos, encontramos as três formas de referência ao dizer, através do mythos, do logos e do epos, sem muita distinção. Como nos diz Miguel Spinelli: "Em Homero, (na Íliada e na Odisseia), os termos logos, mythos e epos formavam um mesmo grupo e expressavam o mesmo conteúdo." (1998: 220) Em sentido amplo, as três palavras significam palavra humana, narração ou canto, ou mesmo meio de expressão.

Os termos, contudo, foram incorporando novos significados nos cerca de três séculos que distanciavam Homero de Heráclito, que foi o primeiro filósofo a assumir a palavra logos em seu pensamento. A linguagem pós-homérica reservou epos para a literatura épica, isto é, ao verso homérico, e mythos para as histórias de cunho fictício¹ narradas de modo poético. Logos, por sua vez, foi apropriada pelo novo saber, a filosofia.

Logos tem a sua raiz (leg-) fundada no verbo legô. Legô indicava, originalmente, a ação de recolher mediante escolha, organizando o que se escolheu, ordenadamente. O verbo legô expressava o conjunto dessa ação, e não propriamente o falar ou o dizer. Foi Homero quem redimensionou esse significado originário, enquanto que Heráclito, mais tarde, e numa perspectiva semelhante, deu ao termo um uso filosófico, enriquecendo de vários outros significados (SPINELLI, 1998, p. 220).

Os primeiros filósofos foram levados a trabalhar as palavras em um contexto mais teórico e, no dizer de Spinelli, eles acabaram por reinventar a própria língua grega. Esse processo de reinvenção sucedeu tanto por aproveitamento de palavras existentes e sua consequente modificação de significados – o que aconteceu com logos –, como pela invenção de novos termos. Para o autor, "a filosofia não poderia progredir sem uma revisão completa da língua, sem um exame aprofundado da Gramática e do valor instrumental das palavras" (SPINELLI, 1998, p. 221).

As palavras de uso corrente foram apropriadas pelos filósofos que as enriqueceram de significado, tornando-as conceitos. Como exemplo, podemos citar a compreensão de arché, princípio – se pensada de modo simples –, que em Tales significa aquilo de que todas as coisas são constituídas e do qual se nutrem e, em seguida é reformulada por Anaximandro como aquilo de onde a geração procede para as coisas que são (conf. SPINELLI, 1998, p. 80).

Heráclito se torna um pensador bastante importante nesse contexto, por conta do uso filosófico do termo logos. Além disso, ele será um interlocutor relevante no diálogo Crátilo, como veremos. O logos filosófico, trabalhado por Heráclito, acena para a questão da verdade em um sentido bem próprio dos primeiros filósofos, que são os chamados filósofos da natureza. Uma intimidade entre o logos e a physis que reaparecerá na disputa conceitual do Crátilo. Para Spinelli, o "logos de Heráclito é um logos filosófico, mas ele é também, em certo sentido, retórico, na medida em que faz da palavra um veículo de investigação ou um instrumento do discurso" (1998, p. 233). O logos retórico se preocupa com a persuasão, com a elegância e com o ouvinte; já para o logos filosófico de Heráclito, a verdade tem um compromisso com a experiência e as coisas. Por conseguinte, o logos heraclítico é, ao mesmo tempo compreensível e incompreensível, e se insere no lugar da verdade, porque a verdade, pela inteligência, se insere no dizer.

É possível identificar dois caminhos para o logos. O caminho essencialista, em que as coisas são o que são, ou existem independente de mudanças; e o caminho semântico, as coisas são aquilo que o pensamento e a palavra, no discurso, dizem que são. A trajetória de Heráclito é uma terceira via, a do devir, isto é, entre o ser e o dizer, há um terceiro elemento: a aparência, a ambiguidade: quando percebidas pelo sensível, as coisas são e não são enquanto advêm, posto que são submetidas ao fluxo, isto é, o que percebemos é fluir das coisas.

Essa pequena descrição procurou demonstrar a importância da linguagem para a filosofia nascente e como ela se torna parte da especulação própria da filosofia. É preciso, contudo, demarcar alguns limites. Esse processo de aprimoramento da língua para o pensar filosófico não é propriamente uma preocupação linguística explícita, até porque, embora nesses primórdios a tematização da linguagem seja sobretudo fragmentária e ocasional, ela é suficientemente relevante para o que veremos na discussão com o Crátilo.

2. Contexto e investigação sobre a linguagem

A questão da linguagem, como vimos, foi significante nos primórdios da filosofia, em seu nascimento, embora ela não fosse tematizada explicitamente. A reviravolta linguística do século XX nos mostrou que é impossível filosofar sobre algo sem filosofar sobre a linguagem (OLIVEIRA, 2006, p. 13), e, por isso, atestamos a importância do tema a ser discutido. Para tanto, julgamos necessário retomar aquele que, nas palavras de Manfredo Oliveira, seria o escrito mais tardio que a tradição nos legou em nossa cultura ocidental como reflexão sobre a linguagem, ou para usar uma expressão de hoje, como crítica da linguagem (2006, p. 17), o Crátilo, de Platão.

Não podemos nos distanciar do contexto da época de Platão, há, explicitamente, um diálogo entre Platão e os filósofos que o antecederam, em especial Heráclito e Parmênides, como também uma refutação aos argumentos dos sofistas, em particular, Protágoras, Górgias, Antístenes e Pródico.

Parmênides discordava do fluxo que Heráclito apontava como particularidade das coisas. Para ele, o mesmo era o pensar e o ser (não haveria identidade entre linguagem e ser, como parece indicar o pensamento de Heráclito) e o ser é eterno e imutável.

A preocupação mais candente da filosofia pré-socrática foi mesmo com a questão da natureza, da physis. Encontramos, entre esses pensadores, as mais variadas respostas, inclusive contraditórias, como as dos filósofos citados aqui, Heráclito e Parmênides. Alguns comentadores consideram que houve um esgotamento da temática da natureza² e, juntamente com o contexto da época, da guerra do Peloponeso, houve uma viragem humanística das especulações filosóficas.

E é nesse contexto que surgem os sofistas. O termo sofistas foi, aos poucos, ganhando um significado pejorativo e muito disso deve-se à postura de Platão para com eles. Pode-se dizer que a filosofia de Platão e a de Aristóteles procuraram responder às indagações dos sofistas, de tal modo que a areté sofística passou a ser a capacidade retórica de persuasão, enquanto a verdade, assim, teria ficado em segundo plano, pois, convencer era mais relevante. Se a filosofia nascente já demonstrava uma preocupação com a linguagem, com os sofistas essa preocupação se torna explícita.

O interesse dos sofistas pela linguagem foi a mais marcante das características dessa corrente de pensamento ocidental (SANTOS, 2002, p. 57). Eles, de um modo geral, se preocupavam tanto com o problema da correção das palavras e dos nomes, quanto com o discurso como um todo, isto é, desde a unidade mínima à retórica. Protágoras tinha o indivíduo em mente, de modo que era possível chegar a um relativismo da verdade porque as coisas são em relação ao indivíduo que fala. Sendo a verdade relativa, pode-se elogiar ou censurar o mesmo caso, a depender da percepção e de quem elabora o discurso.

Mais do que isso, os sofistas deslocaram o terreno da discussão filosófica para o discurso e conclamaram os adversários para o debate. É o que afirma Manfredo Oliveira, "a sofística constituía o maior perigo para o pensamento em virtude de sua indiferença em relação à verdade, e precisamente por essa razão eles concentraram seus esforços na eficácia do discurso" (2006, p. 26).

Platão e Aristóteles, então, precisaram entrar no terreno do discurso para rebater as proposições sofísticas. De modo geral, os sofistas manipulavam o discurso para defender causas consideradas perdidas a fim de mostrar o poder do discurso. Além disso, para eles, havia a ideia de que cada coisa tem vários lados e que poder-se-ia falar dos vários lados, ou seja, poder-se-ia, por exemplo, acusar ou defender uma mesma causa, como no exemplo de Protágoras. Por fim, consideravam a força persuasiva do discurso, como nos diz Górgias: não era apenas a armação lógica das ideias, mas também, e simultaneamente, o ritmo e a musicalidade, que determinavam a força persuasiva do discurso (apud SANTOS, 2002, p. 60).

Estamos diante de dois relativismos de ordem diversa: enquanto o primeiro, proposto por Heráclito, coloca a dificuldade do conhecer por conta do devir das coisas; o segundo, proposto pelos sofistas, considera que a persuasão pode convencer independente da verdade das coisas. É nesse bojo que Platão entra no campo aberto para a disputa, o Crátilo é sua especulação mais contundente.

3. O Crátilo e as questões da linguagem

Nosso propósito, enfim, chega a seu ápice, pretendemos discutir as investigações platônicas e cotejar com os autores com quem Platão dialoga. O Crátilo foi nosso diálogo de referência, pois no dizer de Gadamer, é o escrito básico do pensamento grego sobre a linguagem, que contém todo o universo dos problemas, de tal modo que a discussão grega posterior, que conhecemos apenas fragmentariamente, quase não acrescenta nada de essencial (2003, p. 525).

A primeira questão acerca da linguagem em Platão que se levanta é a respeito da sua escolha em escrever através de diálogos. Encontramos uma possível resposta a tal questão no Fedro, diálogo platônico que trata sobre a retórica. Para o pensador, enquanto a escrita petrifica a linguagem, a forma de diálogo daria um certo movimento à linguagem, por conta de sua proximidade com a oralidade.

A segunda questão que abordaremos é pensar o Crátilo no corpus platônico. Embora não seja consenso, há um acordo de que o Crátilo esteja entre as obras do segundo período de Platão. Na primeira fase, Sócrates assume um papel muito grande nas obras e na terceira, Sócrates quase não verbaliza e é onde se encontra a teoria das ideias mais tematizada. Na segunda fase, intermediária, Sócrates ainda tem um papel no diálogo e a teoria das ideias é esboçada. Seria, provavelmente, nesse período que situaríamos o Crátilo.

Segundo Diógenes Laertios, Platão teria sido discípulo de Crátilo – seguidor de Heráclito – e de Hermógenes – adepto da filosofia de Parmênides. Ao que nos parece, mais do que seguidor de Heráclito, Crátilo teria exagerado o heraclitismo, pois conta-se que Crátilo considerava que não se pode dizer nada sobre as coisas, porque tudo passa, e se contentava em mover o dedo³.

(Conf. PAVIANI, 1993, p. 15) Crátilo fala bem mais no diálogo homônimo do que a lenda que o envolve, embora, mesmo assim, mantenha-se econômico nas palavras.

Por conta da origem heraclítica, pode-se perceber, no personagem Crátilo, a identidade entre linguagem e ser. Em outras palavras o logos é physis, diz a natureza, é a natureza e, assim, temos a primeira tese a ser defendida no diálogo, o naturalismo da linguagem. Já Hermógenes, defendia que a linguagem não é o ser e, portanto, representa a segunda tese, o convencionalismo. E Platão vai conduzir a discussão de modo a poder assumir uma posição intermediária entre esses dois extremos, pouco a pouco, a uma tomada de posição em relação à essência da linguagem e de sua função no conhecimento humano. (OLIVEIRA, 2006, p. 14)

O fato é que Platão tem uma compreensão ontológica da linguagem, o que é indicado pelo esboço da teoria das ideias presente no Crátilo, ou seja, o filósofo Platão foi chamado ao campo de batalha intaurado pelos sofistas, o campo do discurso, mas não discutiu a linguagem tão somente pela via lógica ou retórica, mas buscou um fundamento último, por conseguinte, a compreendeu a linguagem sob um ponto de vista essencialista.

Uma das preocupações dos sofistas foi sobre a correção dos nomes⁴ e é precisamente essa questão que vai ser a motivadora do início do diálogo⁵. Gadamer nos chama a atenção para o fato de que "onoma" significa ao mesmo tempo, palavra, nome e nome próprio. Ou seja, se pensarmos o nome próprio, a referência é que o nome pertence ao portador, sendo assim, a correção do nome se confirma no fato de seu portador atender por ele, isto é, parece, portanto, pertencer ao próprio ser. (GADAMER, 2003, p. 524)

Já no mote do Crátilo, percebemos o diálogo de Platão com os sofistas, como Antístenes, que considerava que o fundamento da educação é o estudo dos nomes (GUTHRIE, 1995, p. 196) Para Antístenes, a única coisa que poderia ser dita sobre as coisas é seu nome, que ao ser instituído já

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