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Pedagogia das diferenças na sala de aula

Pedagogia das diferenças na sala de aula

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Pedagogia das diferenças na sala de aula

Duração:
173 páginas
3 horas
Lançados:
31 de jan. de 2017
ISBN:
9788544902349
Formato:
Livro

Descrição

Sem desconhecer as desigualdades, tampouco os mecanismos que podem reforçá-las, seja no âmbito social, seja na esfera educacional, este livro enfoca a pedagogia das diferenças nas séries iniciais do ensino fundamental.
O referencial teórico comum nesta coletânea é a pedagogia das diferenças de Phillipe Perrenoud. Além de apresentá-la em linhas gerais, as autoras discutem, entre outros temas, o uso do diário como instrumento de avaliação e de investigação didática, o trabalho com o erro e as atividades de reforço no ensino de matemática, a construção coletiva do projeto pedagógico de uma escola e os desafios enfrentados por uma professora iniciante para lidar com as diferenças dos alunos em sala de aula.
Esse, sem dúvida, é um livro que interessa a todos que, de uma forma ou de outra, estão envolvidos na luta contra o fracasso escolar e na construção de uma prática docente voltada para o sucesso da aprendizagem. - Papirus Editora
Lançados:
31 de jan. de 2017
ISBN:
9788544902349
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Sobre o autor


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Amostra do livro

Pedagogia das diferenças na sala de aula - Marli André

André

1

A PEDAGOGIA DAS DIFERENÇAS

Marli André[1]

O presente capítulo aborda as linhas gerais da pedagogia das diferenças, proposta por Philippe Perrenoud.

Sociólogo, doutor em sociologia e antropologia, Philippe Perrenoud é professor na Universidade de Genebra, na Suíça, atuando no campo do currículo, das práticas escolares e das instituições de formação.

Seus trabalhos sobre os mecanismos que levam a escola a transformar as desigualdades sociais e culturais em desigualdades escolares levaram-no a se interessar também por temas como o ofício de aluno, o trabalho pedagógico nas escolas, a formação do professor, as políticas de educação e de formação e, sobretudo, o cotidiano de professores e alunos.

O ponto de referência em seus textos é a realidade da escola suíça, mas suas análises não se circunscrevem ao âmbito local, abrangendo questões bastante amplas como o processo de fabricação da excelência e do fracasso escolar; a transformação que vem ocorrendo no trabalho docente, em diferentes contextos culturais; as mudanças no currículo e a organização do ensino em ciclos escolares. Suas propostas de uso da avaliação formativa, de construção de uma pedagogia diferenciada, de trabalhar em torno das competências oferecem valiosas pistas para quem deseja enfrentar o grande desafio de atenuar as desigualdades que estão presentes na escola, fazendo com que não apenas uma parcela, mas todos os alunos se apropriem do saber sistematizado.

Em seu livro intitulado Pedagogia diferenciada: Das intenções à ação, Perrenoud (1997) explica que as pedagogias diferenciadas não voltam as costas para o objetivo primordial da escola que é o de tentar garantir que todos os alunos tenham acesso a uma cultura de base comum. Ao contrário, diz ele, considerar as diferenças é encontrar situações de aprendizagem ótimas para cada aluno, buscando uma educação sob medida, como sonhava Claparède, no início do século XX. Se esse princípio fundamental se mantém até hoje, os meios de alcançá-lo é que vêm se renovando: procura-se substituir o ensino individualizado, em que cada aluno desenvolve isoladamente suas tarefas, por uma diferenciação no interior de situações didáticas abertas e variadas, confrontando cada aluno com aquilo que é obstáculo para ele na construção dos saberes. Trabalha-se com a transferência de competências, questionam-se a relação pedagógica, o funcionamento dos grupos, a distância cultural, o sentido dos saberes e do trabalho escolar. Paralelamente, tenta-se construir dispositivos para a individualização de percursos, organiza-se a progressão escolar por vários anos, criam-se ciclos de aprendizagem, inventa-se uma nova organização pedagógica. A grande questão da pedagogia diferenciada, diz Perrenoud, é esta: como levar em conta as diferenças sem deixar que cada um se feche na sua singularidade, no seu nível, na sua cultura de origem?

Perrenoud considera a pedagogia das diferenças uma das formas de luta contra o fracasso escolar. Em suas palavras, as pedagogias diferenciadas são, em geral, inspiradas numa revolta contra o fracasso escolar e as desigualdades (1997, p. 17). Mas ao mesmo tempo ele adverte: essa indignação leva muitas vezes ao estabelecimento de medidas e ações um tanto imediatistas que, carecendo de uma análise mais profunda sobre os fatores que produzem o fracasso escolar, acabam caindo, quase sempre, num ceticismo muito grande por não conseguir alcançar os resultados esperados no curto prazo. Com isso, reforça-se a ideia de que o fracasso é uma fatalidade e pouco se pode fazer para vencê-lo. A passagem precipitada das intenções para as ações não ganha tempo, diz ele. Se as pedagogias diferenciadas se propõem a lutar contra as desigualdades, amenizando-as ou neutralizando-as, é preciso que elas tenham por base uma análise profunda e aguçada dos mecanismos que geram essas desigualdades.

Explicações para as desigualdades de desempenho escolar

Durante muito tempo, tentou-se explicar o fracasso escolar como um problema do aluno ou da família. No primeiro caso, tanto o bom quanto o mau desempenho escolar estariam ligados ao patrimônio genético, às aptidões geneticamente adquiridas pelo indivíduo. Essa explicação, que se traduz na ideologia do dom, ainda está muito viva em nossos meios escolares e é evocada frequentemente para justificar avaliações e julgamentos, embora vários estudos tenham mostrado que o ambiente, o meio cultural, exerce um importante papel no desempenho do aluno. No segundo caso, tenta-se atribuir o insucesso escolar às condições socioeconômicas da família, ou seja, ao meio cultural. Vários estudos já demonstraram também nesse caso que, embora haja, de fato, relação entre o nível socioeconômico da família e o desempenho do aluno, cada família tem uma cultura particular (Montandon 1987), uma forma de se organizar e de funcionar que tem maior peso do que o nível social em si. Assim, o modo de vida de uma família, seus valores, suas crenças e opções – que se traduzem em determinadas formas de educação, de interpretação da realidade e das normas sociais –, seus meios de interagir, de se comportar e de usar a língua têm mais peso sobre o desempenho escolar do que simplesmente o seu nível socioeconômico.

Tanto a teoria do patrimônio genético quanto a do meio cultural poderiam ser analisadas em seus vários matizes, desmontando a relação mecânica que geralmente se faz entre cada um desses fatores e o fracasso escolar. Entretanto, parece-nos mais importante enfatizar o que as duas teorias têm em comum: ambas partem do pressuposto de que falta alguma coisa para que o aluno tenha sucesso na escola: QI baixo, meio cultural muito pobre, linguagem pobre, desenvolvimento lento, falta de ajuda da família, baixa motivação etc. Com base nesse pressuposto, nos anos 60-70 surgiram vários programas de educação compensatória que visavam suprir as carências culturais dos alunos.

Os estudos de sociologia da educação, no final dos anos 70, vieram trazer novas explicações para o insucesso escolar; eles afirmam que as desigualdades biológicas, psicológicas, socioeconômicas e culturais se transformam em desigualdades de aprendizagem e de desempenho pelo modo particular de funcionamento da instituição escolar ou pela sua maneira de lidar com as diferenças. Já em 1966, Pierre Bourdieu escrevia:

Para que sejam favorecidos os mais favorecidos e desfavorecidos os mais desfavorecidos, é necessário e suficiente que a escola ignore no conteúdo do ensino transmitido, nos métodos e técnicas de transmissão e nos critérios de julgamento, as desigualdades culturais entre as crianças de diferentes classes sociais; dito de outra forma, tratando todos os alunos, tão desiguais como são de fato, como iguais em direitos e em deveres, o sistema escolar é levado a dar de fato sua sanção às desigualdades iniciais diante da cultura. (Pp. 336-337)

Essa afirmação foi reforçada por muitos autores, em especial sociólogos da linha crítico-reprodutivista, que, na década de 1970, denunciavam a escola como reprodutora das desigualdades sociais, por colaborar, com outras instituições da sociedade, para a manutenção da ordem social vigente. O fracasso escolar estaria sendo gerado no interior da própria instituição, pelo seu modo de organizar o trabalho pedagógico e de estruturar as relações e práticas pedagógicas. Essas reflexões foram importantes porque deixaram evidente que, para analisar o processo de produção das desigualdades escolares, além das variações nos níveis de desenvolvimento e de capital cultural, devem ser seriamente considerados os aspectos ligados à organização e ao funcionamento das práticas escolares.

Perrenoud prefere responder à afirmação de Bourdieu com uma pergunta: pode-se falar realmente em indiferença às diferenças? E ele mesmo responde que não se pode falar em indiferença absoluta. Para discutir a questão, ele julga necessário definir o contexto de que se parte e explica que qualquer comparação só poderá ser feita se existir um contexto comum, como por exemplo um sistema educacional, nacional, estadual ou local em que todos os alunos sigam o mesmo currículo formal. Colocando-se, então, no interior do sistema de ensino, pode-se focalizar o tratamento dado às diferenças em pelo menos dois tipos de situação: uma que diz respeito a um grupo de alunos de um mesmo nível de ensino, distribuídos em diferentes escolas e salas de aula, e outra voltada para os alunos de um mesmo grupo-classe.

Tratando-se, no primeiro caso, de um sistema de ensino, com um programa oficial a ser seguido por todas as escolas, teoricamente não deveria haver diferenças entre suas práticas; no entanto, sabe-se que há uma grande variação de um escola para outra, ou de uma classe para outra, seja em termos de currículo real, seja no envolvimento dos professores e técnicos, seja na qualidade do ensino. Em que medida essas variações estariam ligadas à produção das desigualdades? Na medida em que essas diferenças favoreçam os favorecidos, como por exemplo as escolas mais bem localizadas disporem de melhores equipamentos, melhor infraestrutura, professores mais estáveis e qualificados, corpo técnico habilitado, as quais muito provavelmente oferecerão melhor ensino para um população que geralmente já traz um capital cultural melhor.

Da mesma forma, pode haver diferenças de tratamento que favoreçam os desfavorecidos, como os programas e projetos que se destinam a ajudar os alunos com maiores dificuldades, ou que visam diminuir a evasão e a repetência escolar, como por exemplo os projetos de reforço, de recuperação nas férias, ou as classes de aceleração.

No segundo caso, focalizando o grupo de uma sala de aula, há também um tratamento das diferenças que pode favorecer os favorecidos ou desfavorecer os desfavorecidos. Às vezes espontaneamente, às vezes intuitivamente, nas interações com o grupo-classe, o professor se dirige mais frequentemente àqueles alunos que fazem perguntas, que são atentos, bem comportados, interessados, que aceitam facilmente as suas regras e, da mesma forma, rejeita aqueles que contestam, que resistem, que fazem bagunça. Nas relações mais individualizadas, também podem prevalecer certas preferências pelos alunos mais educados, limpos, bem-vestidos e certo esquecimento dos mais sujos, malvestidos, feios, desmotivados.

Mas há também, nas interações de sala de aula, possibilidade de tratamento diferenciado objetivando favorecer os desfavorecidos. Sabe-se que existem muitos professores que procuram diversificar as tarefas de sala de aula para atender a diferentes interesses e níveis de desenvolvimento dos alunos. Sabe-se, também, que muitos organizam projetos, atividades, tarefas especialmente destinadas àqueles alunos que têm dificuldades de acompanhar o ritmo geral da classe.

Argumentando que essas ações podem ser direcionadas para uma causa positiva, mas podem também reforçar as desigualdades, Perrenoud procura mostrar que, em vez de uma indiferença às diferenças, deve-se falar em diferenciação intencional e diferenciação involuntária. A primeira está geralmente voltada para beneficiar os alunos; são as discriminações positivas que procuram atenuar as desigualdades, criando alternativas para ajudar os alunos mais fracos, com dificuldades, com atraso escolar. A segunda configura-se como uma diferenciação selvagem porque se trata de um processo muito pouco consciente e pouco conhecido, com efeitos bastante negativos, já que reforça as desigualdades e a produção do fracasso escolar.

Às vezes movido pelas contingências da situação, pela urgência em resolver um problema ou mesmo por questões de insegurança ou de afirmação pessoal, o professor pode vir a tratar diferentemente seus alunos: dando mais ou menos atenção a alguns do que a outros, sendo mais paciente ou mais agressivo com alguns do que com outros, respondendo com maior interesse e dedicação às perguntas de alguns do que às de outros.

Serão essas diferenças de tratamento geradoras de desigualdade? Sim, na medida em que elas podem vir a favorecer os favorecidos ou desfavorecer os desfavorecidos. Tanto a psicanálise quanto a antropologia nos ensinam que a identificação é mais fácil e o contato mais estimulante quando a distância cultural é menor, e vice-versa. Desse modo, mesmo contra sua vontade e seus valores, nas suas relações cotidianas, o professor pode estar reforçando ou aumentando as desigualdades. Daí a necessidade de desenvolver pesquisas que possam ajudar a compreender melhor esses mecanismos de diferenciação selvagem para poder evitá-la, ou pelo menos reduzi-la.

É o que se pretende ao trazer para este livro resultados de pesquisa que ilustram os esforços de professores que, refletindo sobre suas ações e práticas cotidianas, procuram evitar a diferenciação selvagem e reforçar as discriminações positivas.

Pedagogia das diferenças na sala de aula

Não desconhecendo os mecanismos reforçadores das desigualdades socioculturais existentes no nível dos sistemas educacionais, os quais se traduzem

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