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O Idoso e a atividade física: Fundamentos e pesquisa
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E-book298 páginas4 horas

O Idoso e a atividade física: Fundamentos e pesquisa

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Sobre este e-book

Livro que discute o significado da atividade física para o idoso, com base na abordagem fenomenológica. Na qualidade de método filosófico, a fenomenologia busca apreender como o sujeito vivencia a experiência cotidiana.
Silene Okuma acompanhou um grupo de idosos que frequentava um programa de atividade física, com a finalidade de compreender e registrar o significado de tal experiência para os próprios participantes. A pesquisa e as entrevistas confirmaram a importância da atividade para viver bem, além de tornar evidente uma transformação na dimensão existencial dos envolvidos.
Ao ler esse livro podemos perceber as mudanças essenciais que podem ocorrer no modo de ser dos idosos, alterando também suas relações com o outro e com o mundo. Abrem-se novas perspectivas que permitem um novo modo de estar-no-mundo e a ressignificação do que é ser velho, derrubando conceitos estereotipados sobre o tema. - Papirus Editora
IdiomaPortuguês
Data de lançamento19 de out. de 2016
ISBN9788544902189
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    O Idoso e a atividade física - Silene Sumire Okuma

    O IDOSO E A ATIVIDADE FÍSICA:

    FUNDAMENTOS E PESQUISA

    Silene Sumire Okuma

    >>

    COLEÇÃO VIVAIDADE

    Vivaidade é uma coleção que procura, em consonância com o momento, derrubar fronteiras. Neste caso, etárias.

    Cada vez mais, e de maneira mais espontânea, esse grupo social que ora chamamos velhos, ora da terceira idade, ora idosos, comparece a redefinir antigos dilemas sobre desenvolvimento, desempenho, conhecimento, atividade, aprendizagem, dentre outros relativos à idade madura.

    Foi assim, e por isso, que esta Editora consolidou este projeto: desejosa de contribuir para o debate e a aprendizagem sobre os temas e problemas pertinentes à maturidade em todos os seus aspectos e momentos da vida adulta.

    Anita Liberalesso Neri

    Coordenadora

    Dedico este livro:

    A meus alunos idosos, que me possibilitaram mergulhar em sua velhice, descobrindo-a como a fase das conquistas daquilo que sempre quisemos mas nunca pudemos. A Paulo Eduardo e Mariano, pelos prazeres que me proporcionam ao ser mãe, sobretudo por compreenderem e respeitarem meu esforço e minha dedicação na conquista do conhecimento. A meus pais, Haydée e Paulo, que me fizeram forte para sempre ir em busca dos meus caminhos. À minha irmã Marilu, que, com seu olhar para o que é mais simples e mais próximo de nós, soube manter acesa a minha chama para o sensível e para a emoção.

    Agradecimentos

    Maria Leila Palma Pellegrinelli, a amiga sempre disponível para as releituras dos originais.

    Anita Liberalesso Neri, pelo incentivo à publicação deste livro.

    SUMÁRIO

    PREFÁCIO

    CONSTRUÇÃO DA MINHA VISÃO ATUAL

    Olhando para o envelhecer

    Os horizontes da educação física

    O ponto de partida deste trabalho

    1. A FENOMENOLOGIA COMO CAMINHO PARA COMPREENDER O SER IDOSO

    A abertura para o mundo e a atribuição de significados

    Ser-no-mundo e o espaço da coexistência

    As relações com o outro: o ser-com

    O corpo para a fenomenologia

    O espacializar e o corpo

    O temporalizar

    2. O ENVELHECER E A ATIVIDADE FÍSICA

    Efeitos da atividade física sobre a capacidade funcional

    Efeitos da atividade física sobre a aptidão muscular

    Efeitos da atividade física sobre o sistema cardiovascular

    Efeitos da atividade física sobre a prevenção e o tratamento de doenças crônicas

    3. ENVELHECIMENTO, DIMENSÃO PSICOLÓGICA E ATIVIDADE FÍSICA

    Panorama geral sobre a psicologia da atividade física

    Estados psicológicos que acompanham o envelhecimento e suas implicações sobre a atividade física

    Efeitos da atividade física sobre os componentes positivos da saúde psicológica

    Efeitos da atividade física sobre os componentes negativos da saúde psicológica

    Atividade física e saúde psicológica em idosos

    4. INVESTIGANDO O SIGNIFICADO DA ATIVIDADE FÍSICA PARA O IDOSO

    O que foi prévio à pesquisa e o que se desenvolveu com ela

    Os sujeitos

    O Programa para a Autonomia da Atividade Física – Paaf

    O fenômeno situado como modalidade de pesquisa

    O levantamento dos dados

    Momentos de análise

    5. ATIVIDADE FÍSICA PARA UM ENVELHECER BEM-SUCEDIDO

    O valor da atividade física pela perspectiva do idoso

    Atividade física como recurso para lidar com eventos estressantes

    Atividade física como possibilidade de convivência com outros idosos

    Atividade física como meio de autovalorização

    As dimensões saúde e capacidade funcional na interação com o meio

    6. A AÇÃO PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO FÍSICA PARA IDOSOS

    Momentos de produção do conhecimento teórico

    O relacionamento do professor com os alunos

    7. UM NOVO SENTIDO DE SER IDOSO

    Transformações no modo-de-ser

    A incorporação da atividade física no cotidiano e o cuidado consigo

    8. AS REVELAÇÕES DO SER-IDOSO-NO-MUNDO

    O desvelar do ser-com-o-outro dos idosos

    Em busca dos próprios projetos

    Vivendo um novo sentido de espaço e de tempo

    Nova compreensão existencial

    9. SÍNTESE MOMENTÂNEA PARA NOVAS CONSTRUÇÕES

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    SOBRE A AUTORA

    REDES SOCIAIS

    CRÉDITOS

    PREFÁCIO

    Envelhecer bem e atividade física são conceitos fortemente associados. Pessoas que já passaram dos 40 anos são incentivadas por médicos, psicólogos, fisioterapeutas e professores de educação física à prática constante e moderada de exercícios físicos, quer em ambiente e modalidades especiais, quer aproveitando o fluxo das oportunidades da vida diária.

    Os parques são cada vez mais frequentados por pessoas maduras, em descontraídas roupas esportivas ou em chamativos paramentos de ginástica, algumas como que a passeio, outras em vigorosas caminhadas. Em academias de ginástica, clubes e piscinas, onde antes se viam apenas corpos jovens, magros e bem torneados, já é possível observar senhoras mais arredondadas e macias, em alegre convivência com mocinhas exibindo o corpo da moda. Nos horários vespertinos aparecem os homens maduros, com suas barrigas antes chamadas da prosperidade, mas que hoje denotam descuido com a estética e a saúde.

    Ocorrências desse tipo anunciam uma saudável mudança de hábitos e valores em relação à saúde, ao corpo e à convivência entre as gerações. Progressivamente deverão ocorrer mudanças também no que hoje se concebe como corpo bonito – o dos jovens –, e corpo feio – o dos mais velhos –, em favor de uma atitude mais tolerante dos jovens em relação aos velhos e destes em relação a si mesmos. Outra tendência de mudança ora em curso diz respeito a um mascaramento dos limites etários para algumas atividades, o que acarretará importantes alterações nas normas sociais relativas a comportamentos esperados para cada idade e no próprio funcionamento das instituições sociais.

    Por outro lado, a mídia continua explorando imagens tradicionais de velhice, por exemplo, quando focaliza e enaltece providências cirúrgicas, cosméticas e farmacológicas para o prolongamento ou a restauração da juventude. Ela age de modo análogo quando promove grande estardalhaço em torno de velhos bem-sucedidos que, por exemplo, aos 80 anos, continuam vigorosos, olhos brilhantes de interesse pela vida. Invariavelmente, associa-se tal disposição à atividade e, mais que isso, com disciplina que, entre nós, tem uma aura de virtude. Como não admirar velhos olímpicos? Como ignorar o que parece milagre? Essa é a mensagem.

    No entanto, o que hoje ainda é apontado como exceção está se tornando um fato cada vez mais possível para um número crescente de pessoas em todo o mundo. As novas possibilidades do envelhecimento refletem avanços sociais que ecoam em novos costumes e estilos de vida.

    Em conjunto, essas influências deverão configurar novos cenários para a espécie humana. Ao longo dos últimos 30 anos, em que as alterações nas possibilidades de envelhecer bem passaram do prenúncio à realidade, foi produzido considerável conhecimento científico sobre a relação entre atividade física e envelhecimento saudável. Há dados suficientes para afirmar que há uma associação forte e positiva entre ambos, garantindo às pessoas que se mantêm ativas, por vários anos de sua vida adulta, a continuidade da funcionalidade física, e por um tempo mais longo do que para aquelas que se tornaram inativas depois de adultas ou que sempre foram sedentárias. Está evidente também a possibilidade de retardamento do declínio normal associado ao envelhecimento, de um agravamento mais lento das doenças associadas à idade, de evitação de certas doenças de início tardio e de relativa possibilidade de recuperação de certas disfuncionalidades, uma vez instaladas.

    Os benefícios da atividade física são evidentes igualmente para o domínio das capacidades cognitivas e psicossociais. Reconhece-se sua forte relação com bem-estar psicológico, comumente indicado por sentimentos de satisfação, felicidade e envolvimento. Sabe-se também que pessoas que estão seguras de que dispõem das competências necessárias para um adequado funcionamento intelectual, físico, afetivo e social, ou seja, que se sentem eficazes, são beneficiadas no que tange à autoestima e aos motivos de realização.

    Pessoas mais eficazes e satisfeitas tendem a buscar mais controle, mais satisfação e mais envolvimento, parecendo, assim, diferentes do estereótipo de velhice doentia, apagada e infeliz. A criação desse novo estímulo social exerce um efeito positivo sobre as pessoas que envelhecem, as quais passam a aspirar a um novo roteiro para suas vidas. Afeta as instituições sociais e seus produtos, entre eles a ciência, que passa a produzir mais conhecimento, que tende a gerar mais tecnologia favorável à promoção da qualidade de vida na velhice.

    A pesquisa de Silene Sumire Okuma, apresentada neste livro, reflete tais tendências da Ciência. Ao indagar a um grupo que frequentava o programa de atividades físicas para idosos (existente na Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo) sobre o significado da atividade física para eles, a autora obteve dados ilustrativos da argumentação precedente. Isso mostra que os leigos são capazes de reconhecer os efeitos da atividade física em suas vidas, e que estão se apropriando do conhecimento científico disponível.

    Semelhantes dados fornecem bases sólidas para o processo de pesquisa e de produção de tecnologia educacional para lidar com as suas necessidades. As respostas dos participantes revelaram múltiplos benefícios percebidos, nos domínios físico, afetivo, cognitivo e social, confirmando tendências da literatura internacional. Sem resvalar para os eufemismos e os preconceitos veiculados pela mídia e por uma parcela dos profissionais que lidam com a – assim chamada – Terceira Idade, no Brasil, os idosos pesquisados por Silene Sumire Okuma proporcionaram informações de grande interesse para psicólogos e educadores.

    Este livro contém textos de natureza conceitual que complementam os benefícios do capítulo em que a autora relata, com clareza e propriedade, seus objetivos e seus procedimentos de ensino. Essa descrição significa uma boa novidade no trato com a velhice, qual seja, uma postura que contempla as várias possibilidades da velhice e do envelhecimento. Tal posicionamento substitui o investimento no paradigma da degeneração que caracteriza a gerontologia tradicional. Não só isso, representa a negação do modelo de educação física adaptada que ainda persiste entre parte dos educadores brasileiros, quando se referem aos idosos, como se eles fossem portadores de algum tipo de deficiência.

    Acredito que esta obra tem grande interesse e atualidade para pesquisadores, professores e estudantes de graduação e pós-graduação. Sua inclusão na Coleção Vivaidade é sinal de nossa crença na relevância de sua divulgação, para o avanço da pesquisa e do ensino de atividades físicas para idosos.

    Prefaciá-lo é motivo de grande satisfação, pelo apreço que tenho pela autora como pesquisadora e professora, papéis em que desponta como líder em sua área. Penso que este livro servirá de inspiração para outros, dará frutos. Assim sendo, terá cumprido um de seus principais objetivos. É o que desejo.

    Anita Liberalesso Neri

    CONSTRUÇÃO DA MINHA VISÃO ATUAL

    Olhando para o envelhecer

    O envelhecimento é, sem dúvida, um processo biológico cujas alterações determinam mudanças estruturais no corpo e, em decorrência, modificam suas funções. Porém, se envelhecer é inerente a todo ser vivo, no caso do homem esse processo assume dimensões que ultrapassam o simples ciclo biológico, pois pode acarretar, também, consequências sociais e psicológicas.

    Portanto, falar sobre velhice é falar sobre algo complexo. Tal complexidade resulta da mútua dependência entre os aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais que interagem no ser humano. Na velhice, esses diferentes aspectos se impõem. Como há estreita interdependência entre todos eles, para entender a velhice é necessário apreendê-la na circularidade a que Beauvoir (1990) se refere. Em outras palavras, as mudanças biológicas têm implicações no meio ambiente, que vai absorvê-las de acordo com as normas, os valores e os critérios da sociedade e da cultura nas quais a velhice acontece. Essa absorção determina, por sua vez, o modo como o indivíduo lida ou lidará com o processo de envelhecimento, com a velhice e com o papel do velho nessa sociedade. O impacto da velhice sobre ele dependerá de seus recursos internos e das normas e relações sociais às quais está vinculado.

    Em nossa sociedade, ser velho e envelhecer são conotados negativamente, originando-se até mesmo um preconceito contra o segmento idoso da população, nomeado ageism – ou, em português, envelhecismo – embora, de acordo com Neri (1991), não se possa afirmar que tal preconceito seja universal. Para a autora, esse processo e essa fase são marcados por um estereótipo social negativo, que se baseia estritamente no declínio biológico, o que fundamenta uma ideia falsa de que o envelhecimento causa, obrigatoriamente, incompetência comportamental. Em consequência desse estereótipo, parte daqueles que chegam à velhice, sobretudo à aposentadoria, perde poderes político e econômico, perdendo também status, respeito e valor. Se, ao mesmo tempo, houver o acometimento de doenças e pobreza, a situação do velho se agrava, pois somam-se à falta de prestígio e de poder a dependência física, psicológica e financeira em relação à família e à sociedade. Esse conjunto de mudanças pode ter reflexos na identidade pessoal da pessoa idosa.

    A análise da velhice a partir de uma perspectiva pessoal mostra que, como toda situação humana, ela tem uma dimensão existencial, que modifica a relação do indivíduo consigo mesmo, com o outro, com o mundo e com o tempo. Para Beauvoir (1990), a vivência dessas relações acontece de forma diferenciada, de acordo com o maior ou menor grau de deterioração do corpo. Da mesma forma, Sonenreich et al. (1984) afirmam que a existência do idoso implica um mundo mais restrito, pois, à medida que seu corpo se desloca menos, tem seu espaço restringido. Nesse espaço estreitado, seu corpo aumenta de dimensão, tornando-se proporcionalmente maior. Para se comunicar com o outro, o idoso precisa de artifícios, como as próteses. Quando seus meios de comunicação falham, sente-se impotente para transmitir o que levou toda uma vida para aprender. A incapacidade é culturalmente aceita, quando não solicitada. Tal qual sua relação com o espaço, a relação que o idoso tem com o tempo também se modifica. A relação entre passado e presente é outra: o futuro torna-se curto. Talvez as perspectivas não estimulem expectativas. Assim, a relação consigo também se modifica, levando-o à aceitação ou à rejeição dessa existência, o que resultará na forma como ele lidará com a vida.

    Entretanto, é digno de destaque o fato de que tal quadro, extremamente complexo e dinâmico, é totalmente influenciado por fatores individuais, determinando com isso pouca margem para generalizações. Em sua experiência pessoal com idosos, Ramadan (1984) confirma que nem todos passam pelo mesmo processo. Para o autor, há pessoas claramente apegadas à vida, que são aquelas que atingem a senectude. Tais pessoas são regidas pelo princípio do prazer. Não empreendem passivamente a contagem regressiva para a morte mas, ao contrário, são extremamente apegadas aos menores e mais elementares prazeres da vida. São pessoas que permanecem nas condições que lhes convêm, exercendo poder, tendo atividades satisfatórias e contatos humanos intensos. Tais comportamentos evidenciam o fato de que, para a pessoa, o que importa é viver sua existência, independentemente de estar na velhice.

    Considerar enfaticamente os aspectos negativos, dando relevância somente às perdas, é olhar com parcialidade para o processo de envelhecimento. A corrente teórica conhecida como life-span ou curso de vida, uma das mais influentes na emergente área da psicologia do envelhecimento, estabeleceu um modelo sobre a velhice normal ou bem-sucedida, que olha para ela a partir de uma perspectiva de desenvolvimento, considerando as variáveis do contexto que podem influenciá-la (Neri 1995, p. 34). Segundo essa teoria, a velhice bem-sucedida é

    uma condição individual e grupal de bem-estar físico e social, referenciada aos ideais da sociedade e às condições e aos valores existentes no ambiente em que o indivíduo envelhece e às circunstâncias de sua história pessoal e de seu grupo etário... Uma velhice bem-sucedida preserva o potencial para o desenvolvimento, respeitando os limites da plasticidade de cada um.

    Dessa maneira, a velhice pode ser vista como uma fase com potencial para crescimento, à semelhança das demais fases do curso de vida, o que faz com que as fronteiras do envelhecimento sejam modificadas em relação à realidade atual. A visão sobre a velhice vem sendo lentamente mudada. Pode ser um tempo para novas liberdades, para explorações pessoais excitantes, para crescimento psíquico e prazer de viver.

    Os horizontes da educação física

    Do ponto de vista de Berger (1989), a qualidade de vida da população idosa está melhorando. Dentre a variedade de fatores envolvidos nessas mudanças, como os econômicos, os sociais e os psicológicos, o autor aponta a importância da atividade física na melhora das funções física, mental e psicológica do idoso. Dentre os diferentes programas que começam a ser oferecidos aos idosos visando ao aumento de sua qualidade de vida e ao crescimento de sua participação na sociedade, encontram-se os programas de atividades físicas. A percepção dessa expansão decorre do aumento do número de profissionais buscando orientação para elaborar e organizar tais programas, do aumento do número de palestras, debates e eventos científicos a respeito do tema, da ampliação de cursos de atualização e extensão universitária, além da criação de cursos de especialização em educação física para idosos. Acresça-se a ampla divulgação que os meios de comunicação de massa vêm dando à atividade física como uma das atividades importantes para manter a qualidade de vida na velhice.

    Entretanto, embora haja um grande corpo de conhecimento evidenciando o papel da atividade física como um dos elementos decisivos para a aquisição e a manutenção da saúde, da aptidão física e do bem-estar físico – pré-requisitos fundamentais para a qualidade de vida –, isso não parece ser suficiente para mobilizar indivíduos sedentários a participar de programas dessa natureza. Nem, tampouco, para estimular e manter a adesão das pessoas que têm a atividade física como prescrição para tratamento de doenças importantes – como patologias cardíacas e respiratórias, hipertensão, hipercolesterolemia, obesidade, diabetes, osteoporose, entre outras, que são doenças resultantes, em grande parte, do sedentarismo.

    Há evidências convincentes indicando que o estilo de vida sedentário da população vem se tornando cada vez mais precoce e maior, tendo efeitos maléficos sobre a saúde em geral. A tendência para maior mecanização e automatismo é inevitável, mas pode ser combatida por um estilo de vida mais ativo. Por isso, nas décadas de 1960 e 1970, o mundo viu surgirem, como parte de políticas de saúde pública, campanhas governamentais incentivando a população a praticar a atividade física. Não obstante todos os esforços empreendidos desde então, e a numerosa quantidade de conhecimentos a respeito dos benefícios da atividade física, grande parte das pessoas continua sedentária, mesmo que isso cause danos sérios a sua qualidade de vida. Várias tentativas vêm sendo feitas para reverter esse quadro, porém o número de praticantes está ainda muito abaixo do desejado, levando-se em conta as políticas de saúde pública e o processo educacional desenvolvido pela educação física escolar. O que acontece? Serão as pessoas desinteressadas em se cuidar, ou estará a falha nos meios para levá-las a isso?

    Uma análise crítica dos modelos de atividade física propostos permite observar a utilização de estratégias de intervenção cujo estímulo é externo ao indivíduo, numa tentativa de levá-lo a alcançar aquilo que é considerado bom pela ciência e pelo meio e não, necessariamente, por ele. Em outras palavras, esses modelos estabelecem, a priori, metas a serem atingidas com base em padrões preestabelecidos: são comportamentos motores a serem seguidos, níveis mensuráveis de saúde, percentual de peso a ser perdido, eficiência de determinados órgãos e regiões do corpo, e assim por diante. Esses parâmetros são perseguidos como se constituíssem o indivíduo em sua totalidade, como se ele fosse apenas um coração doente, ou um organismo fisicamente inapto e inábil que deve ser melhorado, ou ainda um amontoado de músculos que deve ser moldado. Desse modo, os objetivos prioritários são os que buscam a melhoria da saúde, da aptidão física e o controle da obesidade, das características estéticas do corpo, dentre outros estabelecidos por alguém. Entretanto, aparentemente tais objetivos não têm sensibilizado suficientemente as pessoas para levá-las aos programas de atividades físicas e/ou mantê-las neles.

    Essa análise crítica aponta para o fato de que as necessidades reais e pessoais do indivíduo não vêm sendo suficientemente consideradas, o que me parece um ponto fundamental para o desenvolvimento de comportamentos e atitudes positivas em face da atividade física. Entendo que se deva compreender que, para cada indivíduo, há algo especial que pode estimulá-lo – ou não – a essa prática. Parece-me provável que esse algo se relacione com o contexto pessoal de vida, o que inclui desde suas vivências passadas, seu modo de viver e de ser atuais. Como toda experiência atual está associada às experiências de vida, penso que há necessidade de o programa adaptar-se à realidade pessoal do praticante e não à realidade de quem o institui.

    Desse ponto de vista, acredito que a experiência da atividade física tenha um significado positivo e, sobretudo, pessoal. Acredito que, a partir dessa compreensão, os profissionais possam vir a ter novos modos de atuação, que levem ao aumento do número de praticantes. Fórmulas únicas têm-se mostrado inadequadas para manter as pessoas em qualquer tipo de proposta. Acredito em modelos educacionais que vejam as pessoas como seres singulares, em modelos educacionais que sejam adaptados a suas realidades. Para tal, é preciso ver o indivíduo como um ser absolutamente singular. Vê-lo com singularidade significa tentar compreendê-lo com

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